
... e houve quem lhe fizesse a vontadeNão vi
a coisa.
Estava bem mais acima, descendo a avenida com a família, ao encontro do desfile. Só por um amigo, dirigente da CGTP, vim a saber na Alameda o que se passara.
Foi, claro está, feio e democraticamente inaceitável.
Mais ainda, contraproducente.
Mas foi, também, um preocupante sintoma da presente situação social e da angústia e desespero que ela suscita em quem mais a sofre.
Porque, parece-me,
Vital Moreira e
Vitalino Canas não têm razão naquilo a que atribuem o que aconteceu.
Para além de as organizações não serem donas dos actos de umas dezenas de pessoas que reajam de forma mais agressiva a presenças que lhes desagradem, não me parece, de todo, que
Vital Moreira tenha sido insultado devido à sua longínqua condição de ex-comunista.
Parece-me que o cidadão
Vital Moreira é, neste caso, irrelevante.
Parece-me até que, em geral e enquanto indivíduo, é irrelevante para a maioria das pessoas.
Poderá ter sido um brilhante obreiro da nossa Constituição de 1976 e ser, hoje, um aspirante a
Vasco Graça Moura do
socratismo, mas nada que suscite ódios pessoais, mesmo ao mais sectário dos velhos comunistas da Cintura Industrial que deus tenha.
Também não me parece que se tratasse de um ataque ao
PS, enquanto tal.
Que se tratasse de um ataque ao
governo, que é do
PS, que por sua vez tem em
Vital Moreira a sua cara em campanha eleitoral, já fará mais sentido.
Mas ao
governo, não simplesmente por o ser, mas por gerir nacionalmente um emaranhado de crises (uma de origem internacional, outras nacionais), de uma forma que multiplica em grande velocidade os dramas pessoais e situações sociais desesperadas, e de uma forma que é vista popularmente como distribuidora de benesses aos responsáveis pela situação.
Só quem limite o seu sentido da realidade actual àquilo que chega aos ecrãs dos telejornais será incapaz de compreender o que representa, para cada uma das suas vítimas, o despedimento colectivo (envolvendo muitas vezes toda a família), salários em atraso ou o encerramento 'profilático' de empresas - sejam elas de sectores económicos 'arcaicos' ou 'de ponta'.
E que essas situações se multiplicam a um ritmo assustador, abrangendo dezenas de milhares de pessoas e localidades inteiras, ameaçando todos os que têm emprego.
Isto, a par da aparente recompensa aos bancos - e não só aos geridos de forma incompetente e criminosa, mas também àqueles que muito competentemente vão sugando, a cada um de nós, todo o dinheiro que conseguem.
Multiplicam-se as situações insustentáveis e, com elas, os sentimentos explosivos de revolta indiscriminada, que em nada precisam de estímulos politico-partidários para se expressarem.
É verdade que, após 35 anos em liberdade, é esperada numa manifestação de 1º de Maio urbanidade e tolerância na expressão desses sentimentos individuais de revolta.
Mesmo se, ainda não há tanto tempo assim, o Porto assistiu à morte de manifestantes por parte da Polícia, a mando do governo da altura.
Mas, sendo a situação presente aquela que é, das duas uma:
Ou
Vital Moreira e a direcção do
PS estão de tal forma alienados das terríveis condições enfrentadas por esse país fora que, candidamente, não foram capazes de antecipar a possibilidade de reacções individuais agressivas a uma sua presença, também eleitoral, numa manifestação onde é inevitável a cristalização do descontentamento e revolta com a situação actual;
Ou, então,
Vital Moreira e a direcção do
PS apercebem-se bem dessa evidência, e a deslocação ao Martim Moniz dos seus candidatos ao
Parlamento Europeu jogou com essa possibilidade, que se veio a concretizar.
Não fazendo eu a
Vital Moreira e à direcção do
PS a injustiça de os considerar estúpidos, irresponsáveis ou alienados, acredito que se tratará da segunda hipótese.
E o tratamento que têm dado ao assunto reforça esta convicção.
Vital Moreira foi em demanda da sua chapada da Marinha Grande - como aquela que, há muitos anos, catapultou Mário Soares dos últimos lugares nas sondagens para o palácio de Belém.E houve quem lhe fizesse a vontade.