nota: Escusam de me convidar para avaliar de novo a (in)utilidade formativa dos estágios profissionais e sua (ausência de) contribuição para o emprego. Ainda era capaz de chegar à mesma conclusão de há anos atrás, e lá se me ia o alegre optimismo suscitado por esta profunda e fina análise do nosso primeiro...
quarta-feira, 25 de março de 2009
O país dos estagiários
nota: Escusam de me convidar para avaliar de novo a (in)utilidade formativa dos estágios profissionais e sua (ausência de) contribuição para o emprego. Ainda era capaz de chegar à mesma conclusão de há anos atrás, e lá se me ia o alegre optimismo suscitado por esta profunda e fina análise do nosso primeiro...
domingo, 22 de março de 2009
De como o silêncio diz muito - 2
A novela "Provedor de Justiça", que já trouxe à baila uns posts abaixo, começa a lembrar-me a história de solidariedade portuguesa com Timor.
sábado, 7 de março de 2009
Já não se pode mandar um político «p'ró caralho»...
Pudicamente, as legendas televisivas - que se tornaram necessárias por a gravação de som ser má - apenas diziam «Vai p'ró c.......», enquanto os jornais se referem a «um palavrão».
Mais pudicamente ainda, foram de pronto pedidas desculpas (embora não ao representante popular enviado para penianas paragens) e, facto que julgo ser único e de duvidosa legalidade, retirada a frase das actas da AR, onde fica registado tudo o que se diz no hemiciclo, por muito irrelevante ou bronco que seja.
Quem se dê ao trabalho de reler essas actas (como eu fiz em relação a um período relativamente curto da nossa história recente) divertir-se-á perdidamente, ao encontrar os insultos mais escabrosos e ao constatar o profundo conhecimento (e por vezes utilização criativa) que os representantes da nação demonstravam ter do vernáculo português.
É verdade que o uso parlamentar dos palavrões nunca chegou, pelo menos na época que li, ao humor refinado daquela troca de palavras entre a saudosa Natália Correia e um deputado que, na primeira discussão de uma lei de despenalização do aborto, defendeu que o sexo só se deve destinar à reprodução. Perguntou-lhe a poetisa: «Então, Vossa Excelência só uma vez fez truca-truca». «Não - respondeu o homem - Eu tenho dois filhos». «Então, Vossa Excelência fez truca-truca, truca-truca».
É verdade, também, que este homicídio sócio-intelectual teria muito menos piada se a senhora tivesse dito «foder», em vez de «truca-truca».
Mas até nas utilizações insultuosas de palavrões se descobre pontualmente, lá nas actas da AR, uma boa dose de humor. Tal como se descobre (os nomes ficam registados) que o vernáculo parlamentar é transclassista, transpartidário e abrange desde pessoas que pouco estudaram até professores catedráticos.
O que, convenhamos, não deixa de ter o seu interesse histórico para as gerações vindouras...
Tão pouco estão ausentes do hemiciclo piadas brejeiras quase infantis. Como quando o seu então presidente Mota Amaral, apesar da imagem puritana e quase ascética que projecta, não evitou acrescentar, ao colocar à discussão ou votação um qualquer artigo 69, «Sessenta e nove… curioso número».
Perante estes hábitos e antecedentes, o actual sarrabulho politico-mediático e esta auto-censura a posteriori justificam, portanto, que pensemos um pouco no assunto.
Esta boa gente da população parlamentar passou, de repente, a ser recrutada entre os linguisticamente mais contidos membros das várias classes e camadas sociais?
Passaram a ser-lhes exigidos – e aos jornalistas – elaborados cursos de boas maneiras para terem acesso às suas funções?
É por isso que um parlamentar «Vai p’ró caralho» se tornou genuinamente insuportável para os seus ouvidos e sentido de sociabilidade?
Ou será que, enquanto representantes da nação, passaram a temer que a nação não se sinta representada por quem profere tais impropérios?
Ou será, ainda e pelo contrário, que passaram a considerar que comportamentos como aquele que está a ser tão discutido são demasiado “populares” para representantes do povo - implicando essa ideia que deverão projectar, enquanto grupo e independentemente das suas filiações partidárias (pelo menos desde que “respeitáveis”), uma imagem de esclarecidas elites intelectuais e morais, segundo os critérios dominantes que imaginam ser os das elites sociais?
Não constando que a primeira hipótese seja verdadeira, passemos às restantes.
A segunda hipótese lógica (por muito louvável que fosse à luz dos princípios de uma democracia representativa) também não tem muito por onde se agarrar.
Se os palavrões e esta forma peculiar de reagir/argumentar contra aquilo que se considere ser um ataque pessoal podem ser popularmente considerados “de tasca”, não só há cada vez menos tascas e as que existem perdem cada vez mais a sua importância enquanto espaços significantes de sociabilidade e cultura, como esse rótulo tasqueiro não corresponde à realidade.
Gritada ou sussurrada entre dentes, trata-se de uma frase/reacção argumentativa em que 97,5% dos portugueses se reconhecem nos sítios mais diversos (desde o lar doce lar até ao emprego e ao chefe), apenas com o senão de 53,5% deles ficarem surpreendidos por não se seguir a isso uma cena de chapada ou, de preferência, um muito nacional «agarrem-me, se não eu vou-me a ele(a)».
Para mais, essa vasta maioria terá tendência a gozar com os restantes 2,5% que não conseguem recorrer ao vernáculo sequer quando martelam um dedo e que se arrepiam quando outros o fazem.
Pode ser, então, que a coisa tenha a ver com a terceira hipótese. Relembrando, com a tentativa de um grupo heterogéneo, com acesso a instâncias de decisão e poder mas que só em raros casos é formado pelos elementos mais brilhantes, “bem instalados” ou “bem formados” da sociedade, de legitimar a sua posição de proximidade ao poder apresentando-se como uma elite “bem formada” segundo os critérios dos “bem instalados” – o que, entre as camadas sociais intermédias (no vulgo pseudo-científico, “pequena-burguesia”) faz desconfiar também de que serão brilhantes.
Ou, numa linguagem menos precisa mas mais estimulante, um saco de diferentes gatos que se “armam aos cágados” a partir daquilo que imaginam que os cágados serão, para se justificarem, enquanto grupo, como os melhores (porque mais cagadais) representantes dos outros gatos.
A hipótese parece-me tão evidente que tenho até dificuldade em argumentá-la. Talvez isso possa ficar para a caixa de comentários.
No entanto, o assunto arrasta outras dúvidas e questões.
Será que estou a ser mauzinho e que a frase «vai p’ró caralho» é pior que tantas outras já utilizadas naquele local, por isso tendo suscitado, afinal, estas reacções?
Bem… eu li-a por várias vezes em comentários parlamentares do passado recente. Pode até dizer-se que é a mais tradicional e menos criativa das frases utilizadas em situações semelhantes – ou, até, quando os deputados sentem que foram insultadas as posições do seu partido, e não eles próprios.
E temos que concordar que, assim como assim (e embora a frase tenha algum travo homofóbico quando dita a homens, e marialva quando lançada a mulheres), sempre é menos desagradável do que atribuir profissões pouco respeitáveis às mães dos oponentes, ou mandá-los «para o raio que os parta» - o que, não contendo embora palavrões, é afinal o rogar de uma praga e um desejo de morte.
Claro que quem manda alguém «para o raio que o parta» raramente está a desejar a morte, ou à espera de que a sua praga se concretize. Está mais a, para além de desabafar um antagonismo e desagrado, mandar o outro desaparecer, dar uma volta, sumir-se. Tal como, afinal, quando o manda «p’ró caralho».
Vista a coisa por este prisma, trata-se de facto de sentimentos (e sua expressão) pouco consentâneos com a cultura democrática que deveriam perfilhar os representantes eleitos para uma instituição que se legitima, precisamente, pela democracia e consequente coexistência de diferenças.
Mas duvido muito que tenha sido este tipo de leitura semiológica da coisa que, emergindo subitamente, tenha levado a tanto burburinho.
Tanto mais que, em termos mais gerais e para mal dos pecados de deputados e governantes, a possibilidade de irem «para o raio que os parta» (ou, se preferirem, «p’ró caralho») é um aspecto fundamental da legitimidade dos cargos que ocupam. Embora, claro, sendo mandados para esses sítios (ou para a reforma, dourada ou não), pelos fantasmagóricos eleitores, e não directamente pelos seus opositores directos.
Ou seja, podemos jocosamente dizer que qualquer tentativa de impedir que se mande um deputado ou governante «p’ró caralho» é intrinsecamente antidemocrática – mesmo que seja outro deputado a fazê-lo, já que também ele é eleitor.
Mais a sério, podemos achar ridículo que novas preocupações de imaginada respeitabilidade façam de uma barrasquice parlamentar um assunto de primeira página e de diplomacia inter-partidária.
Mas não podemos aceitar que, para dar vazão a essas preocupações e às motivações que lhes estejam por detrás, se censurem as barrasquices das actas parlamentares.
Se acham a questão assim tão importante, mudem-se a vós próprios. Não tentem fazer desaparecer a história no próprio dia em que ocorre.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Eu só estou bem...
Porque embora o que os outros vêem, no meu trabalho, seja o resultado do espremer da esponja, o que me dá nele maior prazer é a fase em que a esponja absorve.
Manias...
Mas, talvez, uma boa desculpa para revisitar o Estou Além, do António Variações.
Mais um antropoblog
É prioritariamente dirigido aos meus alunos do ICS e da FCSH, enquanto espaço de informação, encontro, debate e esclarecimento que sirva de apoio às cadeiras.
Mas está aberto a toda a gente que se interesse pelos olhares antropológicos acerca do político.
Se for esse o vosso caso, vão passando por lá de vez em quando.
Eu, pelo menos, tenho aprendido muito e questionado muita coisa, nos contactos com os meus alunos.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Só um arrufo entre amigos...
O porta-voz do exército sugeriu que o ataque a Nino Vieira foi feito por militares próximos de Na Waie, o assassinado da véspera, como retaliação. O que pode ou não ser verdade, mas que o Público já toma por dado adquirido nesta notícia, talvez julgando que isso dos exércitos são, em todo o mundo, estruturas hierarquizadas numa única linha - e nunca um entrecruzar de grupos de interesses que só têm de comum com militares o facto de terem fardas e armas, podendo por isso dedicar-se a toda uma série de actividades mais lucrativas.
O realmente curioso nessa tal notícia é, contudo, o facto de as «chefias militares» (quais?) terem distribuído um comunicado a dizer que não havia nenhum golpe de estado.
Está certo que mataram o Presidente da República. Mas «irão respeitar os poderes constituídos e dialogar com o Governo» - ou seja, o Governo vai ter que negociar com eles para continuar a existir e se encontrar uma solução.
Então, não será bem um golpe de estado; será assim mais a modos que um assassinato dialogante do chefe de estado. Ou, talvez, uma forma de comunicação um pouco mais assertiva...
Uma das coisas mais peculiares neste caso é que, num certo sentido, isso até pode ser verdade.
Pode ser que tudo tenha simplesmente a ver com o controle do tráfego de droga e do acesso aos restantes recursos, e que os cargos ocupados pelos defuntos sejam secundários em relação ao que de facto esteja em jogo.
Outra das coisas mais peculiares é que isto é também expressão de uma ideologia que talvez não seja tão nova assim, mas se está a tornar mais evidente em vários países africanos, à medida que o tempo passa e que vão emergindo alternativas políticas aos antigos movimentos de libertação: o suposto direito dos libertadores a, por o terem sido, para sempre mandarem no país respectivo e se apropriarem dos seus recursos.
Só isto explica a recente moda dos "governos de unidade nacional", por si presididos, quando os "libertadores" perdem eleições, ou a extraordinária complacência regional para com tudo o que sucedeu no Zimbabwe.
Mas num país como a Guiné-Bissau, onde acabou por haver uma ruptura entre o movimento de libertação e as forças armadas que se continuam a representar como libertadoras, e em que mesmo estas se fragmentaram em rivalidades entre grupos de interesses muito pouco militares, as lutas de legitimidade podem, de facto, acabar por se assemelhar bastante ao mero banditismo.
Ou, se quiserem, a um mero arrufo entre amigos.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Cerejeiras cardinalícias em flor
No caso dos primeiros "Pês", a ligação deriva de uma obsessão pelo sexo, herdada das pancadas do santo meu homónimo e reforçada por uma historicamente tardia imposição de celibato - que, dizem as más línguas, terá aumentado o recurso às segundas e aos terceiros "Pês", para além da sedução/violação de criancinhas.
Isto a par, claro, de uma bem mais saudável produção de "afilhados", ou de humanas erupções como aquelas que deram origem a dois livros razoavelmente eróticos e com a palavra "crime" no título - como se as paixões, sublimadas ou carnais, fossem criminosas.
As segundas "Pês", está claro, estão ligadas à sexualidade por capitalizarem profissionalmente essa obsessão, seja por parte dos primeiros "Pês", seja dos desgraçados a quem as sexualizadas prédicas deles infernizaram a vida.
Já os terceiros "Pês" não podem deixar de carregar consigo a ligação à sexualidade, visto que foram sendo empurrados, ao longo dos tempos, para uma definição de si próprios que os reduz ao particularismo de se sentirem atraídos por pessoas com genitais semelhantes aos seus, por muito que cada um dos assim catalogados seja bruto ou simpático, genial ou boçal, egoísta ou generoso.
Mas, uns dias depois da patética censura a um desfile carnavalesco em Torres Vedras, Braga ganhou um quarto "Pê" ligado à sexualidade: os polícias.
Então não é que, numa feira do livro, houve umas alminhas fardadas que decidiram apreender os exemplares de um book, por ter na capa uma pintura "pornográfica", acima reproduzida?
Vieram depois a alegar os seus chefes que a apreensão, que continuavam a achar uma coisa normal, se devia ao «perigo de alteração da ordem pública». Ou seja, houve umas outras alminhas (com dimensão intelectual e emocional semelhante à das retratadas em seguida, por Sokal, nos Premières Enquêtes do Inspecteur Canardo), a ameaçarem que faziam e aconteciam, pelo que os bons dos polícias acharam que, em vez de lhes mandarem ter juízo e, se necessário, impedirem os desacatos que ameaçavam, deviam aceder às ameaças de violência.
Mais tarde ainda, os livros foram devolvidos. Não porque a PSP reconhecesse que os seus agentes de defesa da lei tivessem cometido uma ilegalidade cretina e um gravíssimo abuso. Não! Foi porque a reprodução, afinal, era de «uma obra de arte», o que fazia com que deixasse de ser pornográfica...
Não vou aqui discorrer sobre legalidade, censura, abuso de autoridade, ou sequer sanidade intelectual.
Só comento:
A "ordem pública" posta em causa, em 2009, pela pintura de uma vagina?
Querem ver que o tal de "poder feminino" é, afinal, tão enorme e tenebroso como o pintam os machos com psicose da castração?
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Brinquedos, guerra e dinheiro
Fazendo um esforcinho para voltar ao ritmo, aqui vai:
Uma guerra fora de casa é sempre um óptimo negócio para muitos.
Mas, se ganhar dinheiro com os canhões e com a manteiga continua a ser um incontornável clássico, e se a reconstrução "humanitária" e o petróleo estão mesmo a dar (fazendo os diamantes parecerem trocos), o pessoal do Pentágono decidiu meter a mão na massa e dar sumiço a 125.000 milhões de dólares (dos States, não do Zimbabwe) destinados à reconstrução do que tinham destruído.
Azar! Deu-se pela falta deles.
Os militares parece não terem percebido que, por muito que se tenham transformado em managers, só com o know-how civil das boas famílias e melhores relações (e, de preferência, com umas geracções de experiência) é que se consegue roubar à séria e sem ser apanhado.
Entretanto, soube-se agora que, por alturas do meu post anterior (há uma eternidade, portanto), colidiram dois submarinos nucleares, um francês e outro britânico. A razão do choque estará, provavelmente, nas tecnologias de anti-detecção que utilizam e no segredo de estado acerca das suas rotas. Ao que parece, só dão uns pelos outros utilizando a conhecida técnica de estacionar o automóvel "de ouvido".
Acontece que, para além do perigo representado pelos seus mísseis (também eles nucleares), uma fuga nos reactores destes brinquedos seria um pesadelo incomensurável para o mar e a humanidade.
Eu bem sei que, para além de um importante produto económico, estas vagamente fálicas maquinetas de destruir o mundo substituiram, já há décadas, os mega-porta-aviões nos concursos de medir pilinhas que vão sendo realizados entre os países poderosos ou que querem acreditar que o são.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Guantanamera
É complexo, é. E parece que a principal complexidade é ser impossível ter os homens presos em território dos EUA, por a sua detenção contrariar a lei do país.
Do que se sabe, contraria também a lei de quase todos os países europeus, incluindo de Portugal.
Portanto, esta oferta de ajuda é como quem dissesse: podem fechar a prisão, que está a dar um granel enorme e, como não podem pregar com eles no vosso país, usem o nosso; a gente faz as ilegalidades por vocês e em vosso nome.
Confesso que é das coisas mais indignas que já ouvi um governante do meu país dizer.
(Para além de irresponsável, ao transformar-nos em alvo prioritário. Mas essa opção política ainda é discutível; o que o delfim de Jaime Gama disse, não é.)
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Vá a Veneza, enquanto existe
Por enquanto, é uma coisa passageira e devida à direcção dos ventos e às fortes chuvas sentidas no norte de Itália.
Nalgumas décadas, esta cidade lindíssima irá desaparecer (ou ficar rodeada de diques e muralhas, tornando-a um fóssil daquilo que hoje é), devido às subidas do nível do mar, à erosão costeira e às mudança dos regimes das chuvas que, sem alardes mas depressa, irão resultar das alterações climáticas decorrentes do efeito de estufa.
Suponho que os leitores não deixarão, por causa disso, de levar o carro para todo o lado e de consumir quantidades astronómicas de energia obtida à custa da emissão de carbono.
Mas, sendo assim, já agora vão a Veneza. Enquanto existe.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
O desengarrafamento da Beira
Mesmo partindo do princípio de que todos os que votaram num candidato partidário votaram nesse mesmo partido para a Assembleia Municipal, todos os partidos e grupos que apresentaram candidatos à presidência do Município (o PIMO não o fez) foram engrossar os votantes de Deviz Simango de forma muito significativa.
Nalguns casos, as "perdas" de votos para o re-eleito presidente ultrapassaram os 90% (Renamo e GDB). Mas mesmo a arqui-inimiga Frelimo viu 17% dos seus votantes preferirem Simango ao candidato partidário.
Simango foi, assim, eleito maioritariamente por votantes da Renamo e capitalizou o importante eleitorado do local GDB. Mas, para além disso e da contribuição dos pequenos partidos, quase 1 em cada 8 dos seus eleitores foram votantes da Frelimo.
Convenha-se que, num país em que os eleitores tendem a ser encarados, quando vistos a partir "de cima", como propriedade dos partidos em quem habitualmente votam, é um autêntico terramoto nos conceitos e na realidade.
Ou, como talvez prefiram dizer os votantes de Simango, um desengarrafamento.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Um novo país?
Trata-se da reeleição do agora independente Deviz Simango como Presidente do Conselho Municipal (= Presidente da Câmara) da cidade da Beira.
Explico um pouco, para quem não acompanhou este processo:
Há 4 anos atrás, foram eleitos para as duas principais cidades do país dois homens que são normalmente apontados como os melhores Presidentes que elas alguma vez tiveram. Em Maputo, pela Frelimo, Eneas Comiche; na Beira, pela Renamo, Deviz Simango.
O seu trabalho de intervenção urbana tornou-se muito visível e contrastante com a pasmaceira habitual, de forma ainda mais impressionante na Beira, cidade que estava a apodrecer e autodestruir-se e que passou neste tempo, segundo o testemunho de amigos de todos os quadrantes políticos, de uma das cidades mais sujas de África à mais limpa de moçambique.
Não escapou também ao escrutínio público que, em ambos os casos, os novos presidentes recusaram benesses pedidas por importantes figuras dos partidos respectivos (facto impensável!), por esses pedidos não terem base legal que os pudesse enquadrar.
Ambos os Presidentes foram afastados da reeleição pela direcção dos partidos respectivos.
Comiche, dirigente histórico e membro da Comissão Política da Frelimo (embora não pertencente à ala do actual Presidente da República), acatou a decisão e foi dedicar-se às suas empresas.
Simango decidiu recandidatar-se como independente, enfrentando tanto a Frelimo como a Renamo.
Os dados existentes indicam que Deviz Simango venceu com mais de 60%.
Em Maputo, bastião da Frelimo, o candidato da Renamo obteve 25%, o que é muito superior à implantação do seu partido na capital. Também a lista independente "Juntos Pela Cidade" terá reforçado significativamente a sua votação.
Dessa forma, na Beira a população mobilizou-se em apoio do Presidente do Conselho Municipal que respeita e a quem reconhece competência, empenho e honestidade, ficando a sua votação quase 10 pontos percentuais acima daquela que tinha obtido há 4 anos.
Talvez também em resultado do feio processo de afastamento de Deviz Simango por parte do presidente da Renamo (que levou os "jovens turcos" renamistas a demitirem-se dos seus cargos partidários), este partido parece ter perdido todos os municípios que detinha.
Em Maputo, também expoliada do Presidente que respeitava e sem que este tenha avançado contra os partidos, tudo indica que uma significativa percentagem da população optou por um voto de protesto contra o afastamento de Comiche.
Ou seja, parece que:
1 - a lógica de "posso, quero e mando" das cúpulas partidárias, aliada à naturalização do uso dos cargos públicos para benesses aos próprios e aos seus correlegionários, deixou de ser popularmente suportável, pelo menos quando priva a população de administradores a quem ela reconhece uma rara competência e eficiência.
2 - apesar da inexistência de alternativas credíveis aos dois grandes partidos, estes não são donos do voto popular, mesmo nas suas zonas de maior influência; pelo menos a nível local, podem ser derrotados pela emergência de alternativas mobilizadoras, em termos de eficiência, honestidade e respeito pelo eleitorado.
3 - também em Moçambique, os erros pagam-se, pelo menos se a população reconhecer como disponível uma forma de os fazer pagar.
São aspectos que merecem ser cruzados com um recente artigo de João Pereira, disponível aqui.
Fica-me a pergunta: será que o povo saiu mesmo da garrafa?
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Anacronismos militares
Quando estava na tropa (e Loureiro dos Santos também), os generais fizeram correr o boato de que não iriam receber o salário no mês seguinte.
Grande comoção nos gabinetes e corredores ministeriais e, da noite para o dia, o sistema remuneratório foi alterado, com aumentos cuja percentagem crescia brutalmente à medida que subia o posto a que se aplicavam.
Poucos anos depois, começou a falar-se abertamente do direito de organização sindical para os militares - a tal questão que Miguel Sousa Tavares, com a sua sapiência generalista acerca dos lugares-comuns de mesa de café, veio a considerar "coisa terceiro-mundista" na televisão.
As escandalizadas reacções contra a possibilidade de sindicatos para militares basearam-se em dois aspectos:
Por um lado, num artigo inconstitucional da legislação, elaborado para fazer os militares "regressarem aos quarteis", passado o PREC.
Por outro, de forma ideologicamente mais elaborada, apontavam-se especificidades éticas de uma instituição baseada numa cadeia de comando, em que era responsabilidade dos superiores hierárquicos compreenderem, canalizarem e defenderem os interesses dos subordinados.
(Comparado com essas linhas de discurso, o estafado argumento de que a representação sindical poria em causa a disciplina e a eficácia na execução das ordens já fazia figura de parente pobre, pela sua evidente falácia face à realidade observável nos sítios onde essa representação existia.)
É claro que essa ideia dos generais como melhores defensores dos seus homens (extensiva aos oficiais e aos sargentos, relativamente a quem esteja "abaixo" de cada um deles), só parece evidente quando olhada a partir de cima.
As preocupações e interesses socio-profissionais de um general não são os de um major, os de um oficial não são os de um sargento, e os de nenhuma dessa gente são os de uma praça - pelo contrário, são com muita frequência contraditórios ou mesmo opostos. Por muita retórica exótica que se mobilize, nenhum empregado considerará que o gestor da empresa é a melhor pessoa para representar os seus interesses perante o dono. E, sempre que se fala em nome de alguém, para "lhe dar voz", está a retirar-se a esse alguém a própria voz, o espaço para falar em nome próprio.
Mas essa visão paternalista da instituição militar e da cadeia de comando juntou-se à experiência de eficácia da ameaça velada, quando proferida por pessoas com estrelas nos ombros.
O general na reserva Loureiro dos Santos, provavelmente a mais respeitada figura pensante das forças armadas, veio "avisar" que, perante a degradação das condições socio-profissionais dos militares, a "rapaziada mais nova", com mais sangue na guelra e menos experiência, era bem capaz de se meter em aventuras armadas - embora esclareça que «Penso que está fora de questão qualquer coisa organizada, mas [podem surgir] actos um pouco irreflectidos que normalmente as pessoas mais novas são levadas a praticar».
Isto, num quadro em que os actuais Chefes de Estado-Maior se remetem ao silêncio e em que dois ex-Chefes de Estado-Maior (do Exército e da Armada) «partilharam as preocupações manifestadas (...) sobre sinais de descontentamento preocupantes dentro das Forças Armadas».
Portanto, a coisa está má, os paizinhos na reserva assumem o seu ideológico papel de defensores dos seus rebentos (embora Loureiro dos Santos, modestamente, tenha a extraordinária ideia de apontar o Governo como «representante sindical da instituição militar» - assim como o Belmiro de Azevedo é delegado sindical dos trabalhadores do Continente), e fazem-no através dos meios a que se habituaram: as manifestações de desagrado através de ameaças evidentes mas não assumidas de forma explícita.
De caminho, procura legitimar-se a anacrónica "representação por parte dos superiores" e acha-se normal que se negue aos militares o direito de consulta e negociação sobre questões socio-profissionais, mas não a possibilidade de agitarem espantalhos de pronunciamentos armados.
Lições preliminares desta história:
- Não bastam a inteligência, o prestígio e o conhecimento de causa para se evitar ficar enredado em atitudes e raciocínios anacrónicos e socialmente inaceitáveis.
- A recusa de possibilitar aos militares mecanismos adequados de representação socio-profissional tem graves efeitos preversos, mesmo se a ameaça velada de Loureiro dos Santos corresponde mais a uma performance simbólica do que a um perigo real.
- Urge colocar na ordem do dia o direito dos militares a representação sindical, sem dramas ou histerias, como aliás devia há muito ter sido feito.
adenda a 31/10: O CEMGFA pronunciou-se acerca dos problemas existentes, desdramatizando. Não fez qualquer reparo ao tom das intervenções de LS.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Ainda os albinos
Parte da rica informação que a jornalista Margarida Mota me transmitiu por telefone não coube nos limites de caracteres de que os jornais sempre sofrem, mas surge um dado que para mim é totalmente novo:
A ocorrência, na África do Sul e Zimbabwe, de violações de albinos por parte de seropositivos, que esperam com isso ficar livres do SIDA - tal como vem acontecendo há anos relativamente a raparigas virgens.
Interpretar porque é que alguém se foi lembrar de mais esse horror é relativamente simples. Terá quase certamente a ver com o poder, atribuído aos albinos, de secarem as coisas à sua volta - neste caso, secar a doença, ou o virus seu causador.
Mas, antes que a coisa alastre pela região, convém compreender um pouco melhor o que é que se passa.
Alguém tem informações acerca deste novo fenómeno?
Pela minha parte, vou alertar os meus "colegas" da AMETRAMO, para estarem atentos e poderem combater esta crença, mal ela se revele em Moçambique.
Porque, ao contrário dos estereotipos habituais, os curandeiros estão muito longe de ser uns tradicionalistas acríticos imersos em superstições.
E, em assuntos como este, a palavra deles vale muito mais, junto da população, do que a de qualquer médico.
sábado, 11 de outubro de 2008
Linchamentos recrudescem em Moçambique
Com uma sequência impressionante nos primeiros meses do ano, estes linchamentos (embora não os rurais, que parecem ter dinâmicas e sentidos diferentes) tinham-se tornado relativamente raros desde o momento em que os emigrantes moçambicanos se tornaram vítimas de violência e linchamentos xenófobos na vizinha África do Sul, em Maio deste ano.
Que esse efeito traumático tivesse estancado os linchamentos domésticos era, aliás, coerente com a minha sugestão de que eles constituiam, também e entre outras coisas, formas ritualizadas de reivindicação e afirmação de poder sobre a vida da comunidade, num quadro de incerteza e de sensação de abandono por parte do estado.
Se essa minha sugestão de leitura do fenómeno tem algum mérito, justifica-se perguntar que razões puseram fim à acalmia dos últimos meses.
Será que a mera passagem do tempo neutralizou o efeito traumático dos acontecimentos de Joanesburgo, permitindo de novo pôr em prática formas extremas de punição pública e de expressão política?
Será que alguma coisa fez agravar o sentimento popular de abandono e de que são irrelevantes para os mais poderosos e ricos?
E, a ser assim, será plausível que a catadupa de casos de corrupção e desvio de fundos (onde se destaca o de um ex-Ministro do Interior e vários generais durante o exercício do cargo) possa ter sido uma nova gota de água, num país onde é popularmente aceite que os dirigentes "comam mais", mas não que "comam sozinhos" e à custa da fome de quem administram?
Pedem-se e aceitam-se hipóteses e opiniões!
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Curiosidades da imigração em Portugal (2)
Não que sejam ricaços a emigrar.
Simplesmente, como os apartamentos estão bem situados, têm áreas grandes e muitas divisões, poucas famílias as podem comprar ou alugar.
Os proprietários ou inquilinos acabam por alugar os quartos um a um, por preços bons mas comportáveis, ficando com a casa cheia e fazendo um dinheirão com o conjunto das rendas.
Há mesmo quem se tenha especializado nesta prática de subaluguer, gerindo vários apartamentos.
São coisas do tal de mercado.
E, também, o surgimento de sociabilidades novas, que acabam por se espraiar para os quintais das traseiras, ao fim-de-semana.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Curiosidades da imigração em Portugal (1)
Isto, porque sabe que eles costumam fumar haxixe, mas só muito raramente são consumidores de heroína (ao contrário dos filhos de portugueses que também tenham mau aspecto).
Como os consumidores de heroína é que, nesses bairros, assaltam qualquer pessoa, para roubar qualquer valor, é dos "brancos" que as velhinhas têm medo.
domingo, 21 de setembro de 2008
Portugal moçambicaniza-se (III)
A FORÇA DA MUDANÇA
Perguntava-me um leitor anónimo, certamente moçambicano, se era verdade que o actual slogan do PS, em Portugal, era mesmo "A Força da Mudança".
É verdade e (tinha eu escrito na caixa de comentários, até ver que a coisa estava a ficar demasiado comprida) isso tem uma história. Uma história nem sempre clara quando é olhada a partir de África e que talvez mereça ser relembrada aqui.
Nos países da Europa onde a social-democracia tem uma acção muito antiga (o que não é o caso de Portugal, onde tão pouco acontece aquilo que direi a seguir), ela era marcada até há uns tempos por uma tradição de regulação estatal da economia, tendo em vista alguma equidade social, a par de uma posição de liberalidade societal em termos da mudança dos costumes.
Quase caricaturando, era como que o seu código genético e identitário, por contraposição a um outro grande partido normalmente existente nesses países, que era por sua vez defensor de um maior conservadorismo social e dos costumes e de uma economia liberal.
Há muito que a questão tinha deixado de ser, para a social-democracia europeia, a via de superação do capitalismo (reforma ou revolução), que tinha levado à cisão entre a 2ª e a 3ª Internacionais.
A questão, desde pouco depois disso, passou a ser a gestão mais justa e equitativa do capitalismo. Se quisermos, e passe a metáfora, um "capitalismo de rosto humano".
Era essa a sua tentativa de prática, o seu legado e a sua imagem.
No entanto, com a teorização da chamada "Terceira Via" (de que o inglês Tony Blair se tornou o governante mais evidente), os partidos social-democratas sofreram uma "mutação genética" que os ajudou a aproximarem-se do poder em tempos de maré conservadora e, por sua vez, deixou os conservadores com um problema de falta de espaço político para resolverem, e deixou os países respectivos sem grandes partidos de esquerda.
Basicamente, os "novos" partidos social-democratas mantiveram posições progressistas na área dos costumes e relações societais, mas adoptaram uma política económica que, em vários aspectos, é mais liberal do que os conservadores se atreveram a fazer e exigir, pondo inclusivamente em causa instituições e pressupostos que se tinham tornado marcas civilizacionais da Europa Ocidental - devido, entre outros, á luta e acção das gerações anteriores de sociais-democratas.
É claro que, quando as mudanças políticas são tão fortes e nessa direcção, não adianta escamoteá-las. Mesmo se não fossem (que eram) argumentos eleitorais para cativar essa figura fantasmagórica do "eleitorado de centro", seria sempre necessário enfatizá-las e transmiti-las como uma corajosa mudança da sociedade, para que ela não entre em colapso.
Afinal, onde existiu ou existe, o "estado social" começou a ser morto por conservadores, mas são "terceira-viistas" com label social-democrata que avançam com o seu enterro.
Portugal nunca foi governado segundo uma política social-democrata "à europeia", nem alguma vez teve um estado social.
E a própria retórica e prática terceira-viista chegou à governação quando não era eleitoralmente necessária para que o PS a ocupasse. Foi mais uma questão de ser a esquerda da moda, "maningue moderna", por parte de um dirigente sem cultura de esquerda (social-democrata ou outra), chegado ao leme de um partido que estava desesperado por voltar ao poder. Foi a aplicação de uma receita que tinha resultado eleitoralmente noutros lados, não fosse dar-se o caso de Santana Lopes conseguir ressuscitar durante a campanha eleitoral.
Mas, quando depois as coisas não correm por aí além, mais necessário se torna apresentar a mudança de orientação política (em vários aspectos, Cavaco Silva governou, no seu tempo, "à esquerda" do actual governo) como uma necessidade e desígnio nacional, que corajosamente é prosseguida, se necessário contra tudo e contra todos, por quem "tem tomates" para isso.
Daí, agora, "A Força da Mudança".
O anónimo moçambicano que suscitou este post ter-se-à apercebido de alguns paralelos engraçados com o seu país.
Mas a situação parece-me muito diferente.
Quando a Frelimo aplicou o slogan d'A Força da Mudança, em 2005, a sua passagem de partido marxista-leninista para executor de políticas ultra-liberais já tinha sido paulatinamente feita desde o fim da guerra civil, 13 anos antes, pelo anterior Presidente da República.
Não era essa curva a 180º que se tornava necessário justificar, mas as mais-valias que iriam advir da substituição do presidente por uma figura à partida difícil de "vender": um político cuja imagem popular estava centrada no seu cargo de Ministro do Interior durante uma das épocas mais repressivas da história pós-independência.
Não será por acaso que (numa altura em que a Renamo não parecia ter ainda entrado num processo de suicídio colectivo ordenado pelo chefe), a Mudança anunciada era muito mais pôr "ordem na tasca", através do «combate ao espírito do deixa-andar», do que a visão do partido como motor de uma "revolução permanente", ligada ao «combate à pobreza absoluta».
Não só a «força da mudança» vinha de um "homem de combate", como vinha de um "homem de tomates" que iria pôr na ordem os interesses instalados, no seu próprio partido, que mantinham o país na desgraça.
Ou seja, aquilo que podia fazer os eleitores terem medo de Guebuza, e por isso afastarem-se dele, foi muito habilmente transformado na prova de que ele era o homem providencial, para aquilo que o país necessitava naquele momento.
É claro que estas coisas não resultam sempre, nem para sempre.
Duvido que o slogan agora adoptado por Sócrates não seja visto como ridículo, e já há largos tempos não se fala em Moçambique do «combate ao espírito do deixa-andar».
Mas talvez nem seja necessário.
Afinal, tudo indica que quer o PS quer a Frelimo vão voltar a ganhar, basicamente, por "falta de comparência" credível dos adversários directos.
(Ao fim e ao cabo, mais um paralelo, para além do discurso subliminar acerca de "tomates".)
Mas lá que é plágio, é.
Às tantas, ainda os publicitários que "venderam" à Frelimo o slogan de 2005 vão acabar por apresentar uma facturinha ao nosso primeiro.
sábado, 20 de setembro de 2008
Ontem já era tarde
Acontece que Zuma era oponente de Mbeki no último congresso do ANC, de que saiu vitorioso apesar do relançamento deste processo e de um anterior julgamento por violação. Nesse outro, foi inocentado de forma mais polémica e com a parte gaga de o ministro com a tutela da luta contra o SIDA (ele) ter declarado que, como a senhora em causa era seropositiva, tinha tomado depois um duche quente para se proteger do contágio.
Jacob Zuma é uma figura muito pouco simpática, em termos abstractos e absolutos.
Se a situação que levou ao caso de violação pode ter sido orquestrada, ele caiu nela. E, já que caiu por achar que ter uma correlegionária no quarto de hotel vestida só com uma capulana quer dizer que "ela está mesmo a pedí-las", isto diz-nos muito sobre a misogenia da personagem.
Ao mesmo tempo, se tem do seu lado as forças mais significativas e sérias do ANC, também apelou aos sentimentos mais violentos e tem como tropa de choque uma Youth League que parece por vezes liderada por hooligans.
Entre essas forças significativas e sérias, contudo, está a influente central sindical COSATU, que joga nele como alternativa de esquerda à política desnecessariamente neo-liberal (muito mais, nalguns aspectos, que no tempo do apartheid e sem que a potência económica do país a justifique devido a pressões externas) e não redestribuidora da riqueza nacional. Se Zuma, de facto, quererá e poderá sê-lo, isso já é outra questão.
Curioso é que, se quase todos os sul-africanos com antepassados europeus o detestam, a maioria deles ficou satisfeita que ele tivesse cortado o passo a Mbeki, que se preparava para eternizar-se no poder, mudando as restrições constitucionais ao número de mandatos do Presidente da República.
Thabo Mbeki, com o seu cachimbo e fixação no golfe, é assim a modos que um rapazinho mais ao gosto de uma certa Europa e América.
Muito mais ao gosto, no entanto, é a política neo-liberal deste ex-jovem-marxista-puro-e-duro e, sobretudo, essa coisa simpática (para quem tem os cifrões) de black empowerment significar, para ele, o acesso de uns milhares de pessoas com pele mais escura aos postos de chefia e às classes altas e médias-altas, ficando dezenas de milhões de desgraçados na mesma ou pior do que estavam.
O que tem, claro, que ser contrabalançado por uma imagem de africanista-puro-e-duro que, a par das solidariedades "de libertadores" e de histórias desconhecidas ou mal contadas, faz com que desde o início do primeiro mandato traga Mugabe e os seus militares rapaces ao colo, independentemente dos crimes que cometam contra os opositores e contra o seu povo em geral.
Uma posição que (talvez por menor necessidade de se afirmarem africanos, e/ou por maior apego aos funcionamentos democráticos e à perspectiva de mudanças sociais justas) não foi a da COSATU, de Zuma, da esquerda do ANC ou da maioria de população sul-africana.
O saldo foi e continua a ser terrível para os vizinhos zimbabuéanos, mas também em casa, para lá dessa coisa de os "negros" pobres continuarem tão ou mais pobres, há umas coisitas um bocado desagradáveis.
Num país onde infectados continuam a fazer sexo com virgens para se livrarem do SIDA, Mbeki não apresentou o duche quente como substituto do preservativo; expressou publicamente as suas dúvidas de que o SIDA fosse, de facto, provovado pelo vírus HIV.
E, com o país cheio de 3 milhões de refugiados zimbabuéanos (em grande medida, por causa da sua política internacional) e perante as terríveis hordas de linchamentos xenófobos em movimento este ano, praticamente esperou pelo refluxo da onda para tomar medidas de restauração da segurança pública.
Pois é... Um cantava «tragam-me a minha metralhadora» e o outro olhava para o lado, para que os amigos do outro lado da fronteira a usassem contra as suas próprias populações.
O homem vai ser corrido?
Para o Zimbabwé, ontem já era tarde.
Para os zimbabuéanos, moçambicanos e outros estrangeiros "negros" chacinados há meses atrás na África do Sul, há muito tempo que já era tarde.
Para os sul-africanos, se calhar, também.
21/9: Está oficializada a demissão.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Uma boa notícia
Talvez porque (apesar do empenho norte-americano na secessão, bem demonstado pela escolha do especialista Philip Goldberg para embaixador), a posição unida e inequívoca dos países da região, num tom mais preocupado com a firmeza do que com a retórica incendiada, tornou irrelevantes as performances histriónicas e contraproducentes de Hugo Chavez acerca do assunto e, com seriedade e credibilidade, apresentou um quadro que talvez nunca tenha sido visto nas Américas:
Os países "a sul do Rio Grande", independentemente das diferentes orientações políticas dos seus governos, não favorecem nem toleram golpadas separatistas e instigações de guerra civil contra governos democraticamente legítimos, por muito que isso agrade ao Grande Irmão do Norte e por muito que esse agrado seja evidente.
Entretanto, as razões de queixa que têm sido apontadas pelos líderes separatistas, e que aqui são repetidas, vêm dar razão ao que deixei dito no meu primeiro post acerca da Bolívia.
Já que, mesmo com a diminuição percentual da sua parte do imposto petrolífero, as províncias separatistas recebem 5 vezes mais dinheiro do que recebiam antes da nacionalização (de que discordaram), e já que não haverá diminuição do grau de autonomia provincial, então o problema são os outros dois aspectos da Constituição que está a ser preparada e que eles referem:
A limitação do tamanho das fazendas e os direitos outorgados à população indígena, maioritária mas tratada como infra-cidadã desde a independência do país.
Por outras palavras a diminuição dos latifúndios e o fim da supremacia "branca".
A metáfora da "Bolívia pós-Mandela", neste momento de negociações com um fundo racial tão claro, começa a fazer cada vez mais sentido para mim.
Mas não para toda a gente. Ainda esta semana li um respeitado colega lá do Instituto a enfiar a martelo e despropósito, na sua habitual crónica jornalística, uma frase sobre como Evo Morales trata como não-cidadãos quem discorda dele.
Neste quadro e nesta sucessão de acontecimentos, confesso a minha surpresa.
Mas é bem verdade aquela frase que os alunos se chateiam de me ouvir repetir nas aulas. Independentemente do brilhantismo que possa caracterizar a inteligência de cada um de nós, «só vemos o que estamos preparados para ver».



















