sábado, 14 de agosto de 2010
Gastronomia gourmet para o povo
Baleias que são primas das sereias e portanto, conta-se por lá, das mulheres-do-mar que os portugueses perseguem mergulhando, violam no fundo do mar e a quem cortam depois a cauda - que comem sob o nome de bacalhau.
E que, neste caso, têm a vantagem de se poderem comer sem essa ambígua sombra de canibalismo luso.
Conforme chama a atenção o Carlos Serra, a cena do esquartejamento do cetáceo lembra descrições antigas acerca daquilo que se segue à morte de um elefante.
É que os animais gigantes são dádivas de comida, em torno dos quais urge juntar toda a gente possível, mais banqueteando-se do que tirando a barriga de misérias, antes que se estraguem.
E com isso, claro, reforçam-se laços, solidariedades e mesmo hierarquias (quem come que partes e por que ordem).
Será esse, também e ainda, o efeito numa cidade - mesmo com parte da carne a acabar vendida nos mercados?
O lado gourmet da coisa, entretanto, ainda me lembrou uma história bem político-económica do meu Alentejo natal.
Por lá, naquelas alturas do ano em que os pobres nada mais tinham para comer, davam em procurar as sofisticadas trufas.
Comida de pobre, então, tanto mais que os ricos as desprezavam por serem coisas selvagens desenterradas e por (esperteza ou ironia?) lhes ser dado um nome bem próximo do de uma parte anatómica pouco nobre.
Comer, às vezes, tem muito que se lhe diga.
sábado, 7 de agosto de 2010
Cadáveres adiados - II
Não tenho nenhuma simpatia pelo corporativismo e quase impunidade dos magistrados (particularmente dos juízes), mas:
1. A separação de poderes é uma pedra basilar das democracias, tal como são entendidas nos países da matriz socio-cultural em que nos inserimos (vulgo “ocidentais”). Os casos em que esse princípio foi subvertido, mesmo que parcialmente, resultaram de (ou vieram a facilitar) subversões da democracia ou assumidas ditaduras. Mesmo nestas, a submissão do poder judicial ao poder executivo foram encaradas como inaceitáveis práticas de sonegação de justiça.
2. Nestes tais países, são raríssimos os casos onde juízes e/ou procuradores são eleitos – e, mesmo aí, só até determinados níveis. Independentemente dos méritos que possamos apontar, em abstracto, a essa solução, o resultado é, também e frequentemente, uma subordinação da sua actuação, prioridades e decisões aos calendários eleitorais. Para isso, desculpem-me, já basta a forma como a política é praticada pelos partidos “a sério”, como diz a Irene Pimentel, ou, se preferirem, por aqueles que têm fundadas expectativas de manter ou alcançar o poder governativo.
3. Os procuradores do caso Freeport, conforme é público e conhecido apesar da barragem de inverdades repetidas acerca do assunto (incluindo algumas declarações do PGR), pegaram no dossier em 2008, depois de ele ser deixado a cargo de um procurador de comarca, atafulhado de serviço e sem condições de investigação. Procurador que, no entanto, parece que foi procedendo às diligências possíveis.
4. O caso só passou para as instâncias que ele justificava quando a polícia inglesa suscitou suspeitas preocupantes, que foram tornadas públicas pelos “jornalistas sem princípios” britânicos, de que os seus colegas portugueses se fizeram eco. Caso contrário, é plausível supô-lo, lá ficaria no Montijo até apodrecer. Era o desejado por si?
5. Os procuradores foram, conforme confirmado no processo disciplinar que daí decorreu, pressionados por um colega hierarquicamente superior mas numa linha paralela à sua (e próximo do poder político), para arquivarem o processo e não multiplicarem diligências. Independentemente de quem tenha encomendado o sermão, é essa a sua visão de uma relação desejável e digna entre o poder executivo e judicial?
6. Enquanto estes procuradores procediam a averiguações, nas quais são teoricamente autónomos, o PGR e a Procuradora-Adjunta de quem eles dependiam afirmaram por várias vezes que um cidadão em concreto (José Sócrates de Sousa) não tinha culpas no assunto. Será este facto inusitado irrelevante para quem investiga?
7. Não se sabe o que entretanto aconteceu em privado, no relacionamento destes procuradores com os seus superiores hierárquicos ou outras figuras do Estado. Mas o carácter também ele inusitado de, no acordão, escreverem que não puderam fazer determinadas perguntas ao Primeiro-Ministro por tal ser impossível dentro do prazo que lhes foi superiormente imposto para o encerramento do processo, juntando ainda por cima as perguntas que consideravam necessárias, parece deixar poucas dúvidas acerca do que querem dizer e não quiseram explicitamente escrever: Que consideram que, sem resposta a essas perguntas, o caso não fica esclarecido. Que consideram que a prazo imposto os impossibilitou de tentarem apurar a verdade, sendo uma interferência fulcral no seu trabalho e, potencialmente, nas suas conclusões. É bonito da sua parte? Talvez não. É legítimo, civilizado, corajoso e responsável? Certamente.
8. Em resultado disso, o PGR com mais poderes desde sempre vem queixar-se que não tem poder nenhum e que o sindicato do ministério público é um lobby de interesses particulares e políticos. Ele, declarou a sua morte anunciada no cargo. Você vai ainda mais longe. Diz que o sindicato (e não o Conselho Superior, ou o PGR e seus adjuntos, ou os procuradores distritais, ou os restantes) é que decide o que é que se investiga e como se investiga. De onde lhe vem esse poder maquiavélico? Montou uma estrutura hierárquica paralela? São os seus corpos gerentes que criam os processos desconfortáveis para o poder político? Chantageiam os colegas para fazerem o que eles querem?
9. Não deixa de ser curioso que, reclamando afinal o poder judicial para o poder político (aquele que é eleito - segundo parece, a única forma de legitimidade que reconhece dentro do aparelho de Estado, mas que suponho não quererá aplicar às direcções-gerais, acessorias e quejandos), demonize a única estrutura eleita no âmbito do Ministério Público, embora não lhe pertença (isto porque, como sabe, só uma minoria do respeitado Conselho Superior é eleita, e só uma ínfima parte pelos seus pares). Mas isso é apenas curioso; o que é preocupante é a sua visão monolítica e totalitária do Estado.
10. Não deixa também de ser curioso que, quando um juíz abusivo e incompetente (é essa a tradução para português corrente dos “erros grosseiros” que lhe foram apontados em tribunal superior) assassinou politicamente Paulo Pedroso e, através disso, encurralou Ferro Rodrigues que os seus camaradas se apressaram a também apunhalar e substituir, não vociferaram tão alto acerca de maningâncias sindicais ou corporativas. Será que você também deu a sua facadinha?
terça-feira, 20 de julho de 2010
Fim de festa e xenofobia

... e uns se vão adaptando como podem ao pós-World Cup ...

... outros fogem da África do Sul, ameaçados pelos vizinhos com a reedição dos ataques xenófobos de 2008 e do início deste ano.
Um assunto a discutir?
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Rai's parta o polvo!
Na minha simpatia pela Holanda, não liguei muito ao teutónico polvo adivinho.
Fiquei mais preocupado quando, de Amsterdão, um amigo me enviou um SMS que dizia "Nosotros comemos polvo", palavra que conhece dos menus de restaurantes portugueses.
Os mais versados na língua de nuestros hermanos saberão porquê; é que, com aquele nosotros que ele pretendia em português, polvo deixava de referir-se ao simpático octópode para querer dizer "pó".
Mau sinal...
Mas enfim... Acabado o jogo, sempre sobraram as celebrações em campo com a bandeira da Catalunha, em dia de manifestação em Barcelona contra uns cortes judiciais bem significativos no estatuto da região.
E sobrou o interesse e curiosidade, por toda a Europa, pelo tal de polvo adivinho.
Ora escrevia, há uns bons anos atrás, o meu colega e amigo Philip Peek (a quem também devo as fotos que se seguem) que a história e a antropologia não conhecem nenhuma cultura onde não exista alguma forma de adivinhação.
Essa coisa de dar sentido ao aleatório e de tentar prever o imprevisível parece, então, ser uma necessidade humana universal. Mesmo quando, em vez de polvos, se usam as probabilidades estatísticas - muitas vezes com inferior sucesso, o que diz mais sobre as limitações das segundas do que sobre as virtualidades dos primeiros...
Mas aproveito esse interesse e curiosidade para partilhar, com quem ainda não tenha tido oportunidade de o saber, que essa coisa dos animais adivinhos está longe de se ficar pela estrela de oito pontas do momento. É, pelo contrário, bastante frequente e espalhada.
Por exemplo, no norte de África, do Magrebe aos inefáveis Dogon, as raposas dão um jeitão.
Desenha-se uma grelha no chão, deixam-se uns belos petiscos em determinados pontos e, no dia seguinte, vem-se ver pelas pegadas quais é que a raposa comeu, por que ordem e fazendo que percursos.
Depois, segundo um sistema de permutações que nada fica a dever ao respeitável I-Ching chinês, lá se fica a saber aquilo que se quer.
Mais abaixo, os Baule têm uns ratinhos que também fazem o serviço mas, tal como o polvo alemão, a resposta fica-se entre duas possibilidades.
Nos Camarões, o pessoal não se dá por satisfeito com isso. Os felpudos aranhões que, por lá, são profissionais da adivinhação têm muito por onde escolher, de entre placas divinatórias com diferentes significados.
Correndo o risco de virarem um petisco se se enganarem muito, também os caranguejos camaroneses têm uma tarefa complexa e muito por onde escolher...
Uma coisa curiosa é que esses animais adivinhos são, sistematicamente, mudos.
E quando o barulho que fazem é demasiado evidente para ser ignorado (como no caso das raposas), há um importante mito que conta como perderam elas a voz que, afinal, até têm.
Em Moçambique, por seu lado (e embora por lá a adivinhação animal seja extremamente rara), é ponto assente entre adivinhos e curandeiros que todos os seres vivos que falam podem ser enganados.
Por isso o ovo (que é vivo mas não fala) é um componente essencial das misturas de produtos destinadas à protecção das pessoas ou bens.
E por isso os conjuntos de adivinhação (através dos quais falam os espíritos) podem enganar-se.
Confesso que este tipo de continuidades me parecem bastante mais interessantes (e muitíssimo menos casuais) do que os gostos futebolísticos do nosso amigo polvo.
domingo, 13 de junho de 2010
Assim se vê a força da TV!
Numa mesa onde depenicam a sua sardinha um líder de grupo parlamentar e um deputado muito interventivo, quem vai passando chama é a atenção dos amigos para a presença de um dos comentadores dum canal televisivo por cabo.
sábado, 12 de junho de 2010
Receita popular para arranjar marido
Compre uma estatueta pequenina de Sto. António.
Sozinha em casa, apele para a ajuda do santinho (as palavras da reza não são muito importantes, pois o pobre homem já sabe o que o espera) e coloque a estatueta de cabeça para baixo, dentro de um copo escondido no seu armário.
Se ao fim de um mês não se verificarem mudanças significativas (ou seja, se o santo se está a armar em esquisito), ponha água no copo, de forma a que a cabeça dele fique debaixo de água.
Quando algum garboso representante do género masculino a pedir em casamento, retire a estatueta do copo, limpe-a cuidadosamente, ponha-a direita e agradeça.
A percentagem de sucesso desta receita é muito elevada.
Afinal, se uma mulher está suficientemente motivada e empenhada para fazer isto tudo, dificilmente deixará de conseguir os seus intentos.
domingo, 6 de junho de 2010
Citações de café (25)
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Inimputabilidade e barbárie
E mesmo que essa ou outra qualquer forma de xenofobia não fosse (como é) uma impossibilidade intelectual e emotiva para mim, seria à partida um contra-senso. Sendo português, terei com toda a probabilidade algum sangue judeu, a par de outro tanto árabe, que nem a mais avançada pesquisa de ADN poderia distinguir, já que são das populações geneticamente mais semelhantes que existem.
Tão pouco defendo o fim do estado de Israel.
Formou-se à força de atentados terroristas e com base numa reivindicação historico-religiosa ilegítima, tem uma história contínua de agressão militarista e de total desrespeito pelos direitos humanos mais básicos daqueles a quem não seja reconhecida uma identidade etnico-religiosa judaica, mas existe e é incontornável. A questão, para mim, é a forma de existência, as concepções racistas e confessionais e os actos, não a própria existência.
Posto isto, Israel deu hoje mais um passo na total barbárie e total desrespeito pelo resto da humanidade, na prossecução daquilo que era, já, um processo de genocídio.
Porque cercar de muros e de um embargo naval uma população enfiada onde quase nada existe, para a submeter pela fome e falta de outros produtos básicos é, em si mesmo, um genocídio. Mais evidente ainda se se sabe (como se sabe, pela experiência de décadas) que essa população não se irá submeter. Mais violento ainda quando é acompanhado de regulares matanças selectivas, que não se perde uma oportunidade de transformar em indiscriminadas.
De forma inaceitável, à luz de qualquer sentido de decência, de humanidade e das leis internacionais, os países desenvolvidos dos quais Israel se apresenta como aliado têm sistematicamente tolerado todas as escaladas genocidas contra palestinianos. Mais que uma inimputabilidade, houve uma naturalização de todos os atentados aos princípios mais básicos do 'modelo civilizacional' em que o estado de Israel diz inserir-se, e que é o desses países.
Como saberão, uma coluna de navios mercantes, cheios de ajuda humanitária para a faixa de Gaza e transportando, entre muita outra gente, deputados europeu dirigia-se há dias para o seu destino.
Esta noite, em águas internacionais, a marinha israelita atacou um desses navios, matando 19 pessoas de nacionalidades diversas.
As pessoas que iam no navio eram, dizem numa primeira desculpa coxa, apoiantes do Hamas.
Portanto, para além de poder matar quem procure fazer chegar ajuda humanitária que atenue o genocídio que têm em curso (e de o poder fazer onde tal constitui, à luz da legislação internacional, um acto de pirataria e uma declaração de guerra), o estado de Israel reserva-se o direito de matar, em qualquer local, qualquer cidadão de qualquer país, desde que expresse o seu apoio, mesmo que humanitário, ao Hamas e à população palestiniana.
Enquanto cidadão português e da União Europeia, só vejo uma reacção possível e decente destas duas instãncias:
- Embargo comercial e financeiro ao estado de Israel, incluindo o congelamento de todas as contas bancárias de lá originárias e a suspensão de todos os acordos económicos existentes;
- Suspensão de todos os acordos de circulação de cidadãos israelitas, excepto em caso de asilo e refúgio;
- Embargo militar total ao estado de Israel;
- Proposta de suspensão de Israel da Organização das Nações Unidas.
Menos que isto, parece-me, não é nada. É reafirmar a inimputabilidade. Agora, não apenas a inaceitável inimputabilidade para com os palestinianos, mas também para com o resto da humanidade.
E se isso colocar numa posição desconfortável o prémio Nobel da Paz, ele que se desenrasque.
domingo, 30 de maio de 2010
Citações de café (24)
Da sociologia dos especialistas
«Bem, professor...», respondia um deles. «São dados públicos, se se procurar. Estão nos relatórios de contas dos sindicatos, na parte das quotas.»
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Palestra de Philip Peek
E o resumo reza assim:
«Previously in African Studies twins have been understood to be either a biological or a cultural problem. Multiple births were said to be too “animalistic” for human society or too difficult for the mother to care for. Other analyses stressed the social structural problem of two beings in one social position. While some African societies follow these dictates, a more complete survey reveals many societies which cherish twin births and even among those who are ambivalent about twins positive attitudes prevail. Indeed, among Africans in the Americas, the healing and helpful qualities of twins are their main features. A broader comparison of African and European attitudes towards twins reveals intriguing differences between these culture areas.»
Sondagem ou etnografia?
Sexta-feira, esparramei-me chão fora numa concorrida rua lisboeta, quando a roda da minha bicicleta eléctrica deu em derrapar num carril molhado.
Para meu espanto, houve duas pessoas que acorreram de pontos diferentes da multidão que passava, esperava autocarros e, agora, mironava.
Um homem veio ajudar-me a levantar a viatura.
Uma mulher perguntava-me, ainda antes de eu lhe saber responder, se me tinha "maxucado".
Sim. Eram ambos brasileiros.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Pecados e Crimes
Enquanto (segundo me vieram jocosamente informar) o Papa se dirige, por entre um arraial de segurança, para o Terreiro do Paço, parei o trabalho que estava a fazer, ao lembrar-me de uma leitura na revista Pública deste domingo.
Nela, eram apresentadas pitorescas informações acerca das alegres debochices de diversos Papas, desde o século X ao dealbar do século XVI.
Para além de ir sendo implícita e explicitamente explorado o contraste entre tamanha rebaldaria e a situação actual, o autor da recolha - um «historiador dos Papas e dos cristãos» de aspecto very british mas que se chama Laboa Gallego - acaba por avançar com um conjunto de frases que permitem perceber porque é que este artigo foi publicado nesta data:
«Antigamente, as pessoas aceitavam que a Igreja fosse, ao mesmo tempo, santa e pecadora. (...) Nós, pelo contrário, adoptámos uma postura boa na teoria, mas impraticável: víamos os sacerdotes todos como santos. (...) Mas isso não é verdade. Somos todos pecadores! (...) Depois do que passámos, vamos passar a ser muito mais humildes. (...) Temos que aceitar, não digo com tranquilidade, mas sim com humildade, as debilidades dos cristãos, dos clérigos e da Igreja.»
É, de facto, neste plano que o Vaticano e várias hierarquias da Igreja católica têm tentado colocar a questão, tanto da pedofilia quanto do seu longo e sistemático encobrimento.
E, curiosamente, parece que tem resultado - pelo menos entre os media e os opinadores de serviço nacionais.
Se não quanto aos próprios actos de pedofilia, pelo menos quanto ao seu encobrimento - reduzido a uma questão moral e de inversão de prioridades de valores, entre o sofrimento e reparação das vítimas e a proteção da imagem da instituição.
A pedofilia e o seu encobrimento não deixam de ser, certamente, questões morais, de valores e até (para quem partilhe essa noção religiosa) de pecado.
Mas, entretanto, a pedofilia e a violação de menores são também, nos países onde ocorreram no seio de instituições católicas, crimes.
E, na ordem jurídica desses mesmos países e de quase todos os restantes, encobrir um crime e conspirar para encobrir um crime são, também eles, crimes.
A Igreja Católica e os seus chefes têm toda a legitimidade para discutir moralidade e pecado, relativamente aos actos criminosos dos seus sacerdotes e ao seu encobrimento desses crimes.
Mas não têm, nem eles nem os poderes públicos seculares, legitimidade para assobiar para o lado e pretender esquecer que é de crimes que se trata.
Ninguém no seu perfeito juízo acredita, hoje, que toda a longa série de encobrimentos de crimes sexuais cometidos por sacerdotes sobre crianças à sua guarda - encobrimentos que chegaram, como não podia deixar de ser, à Congregação Para a Doutrina da Fé e aí foram incentivados - tivesse passado ao lado do conhecimento e concordância do poderoso senhor que então comandava essa Congregação e que agora desfila num carro branco e blindado, Avenida abaixo.
Ninguém no seu perfeito juízo acredita, repito, que aquele então Cardeal não fosse, afinal, o mesmo homem que sistematicamente usou com mão de ferro as suas prerrogativas de comandante da mais poderosa e central instituição ideológica da sua Igreja, mas um pobre banana a quem estas coisas passavam ao lado e a quem o seu próprio braço direito (de então e de agora) escondia instruções criminosas, dadas em nome da instituição que dirigia.
O cargo de líder de uma religião com implantação quase universal merece, necessariamente, todo o respeito institucional que essa posição implica.
Mas seria bom (não! imprescindível.) que, para lá da questão das promiscuidades entre Igreja e Estado a que temos assistido e assistiremos nos próximos dias, as autoridades portuguesas tivessem em mente um dado que não podem ignorar:
Com toda a probabilidade, o senhor que desce a Avenida de papamóvel é, para além de um Chefe de Estado e de um líder religioso, um criminoso.
E que o respeito pelas crenças religiosas, próprias ou alheias, não nos faça tentar ocultar esse facto, de nós próprios e dos nossos concidadãos.
Até por respeito por essas crenças.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Tardou uns dias, mas chegou
Com uma catástrofe de tão grande dimensão no Haiti (país ligado ao estereotipo do vodu, por sua vez ligado ao estereotipo de culto demoníaco), mais tarde ou mais cedo tinha que aparecer um qualquer tele-evangelista estado-unidense a atribuir a tragédia a um castigo divino.
Foi o que fez Pat Robertson, com a criatividade suplementar de culpar todo um país e as suas «sucessivas maldições» por um «pacto com o diabo», feito pelos escravos durante a sua revolta vitoriosa contra os franceses.
Parece que o homem tentou depois emendar a mão, mas as declarações iniciais (e a fraseologia utilizada) não deixam margem para dúvidas.
A maldade quase demoníaca (de tão desumana) presente em tais declarações não me parece resultar de mera estupidez.
Decorre de uma visão do mundo partilhada pela igreja católica há poucos séculos atrás, e que ainda por aí anda entre muito bom padre.
Decorre, afinal, de uma contradição essencial em todos os movimentos que se reclamaram do cristianismo: do facto de as mensagens de Cristo (contraditórias elas próprias, é verdade) serem bem pouco compatíveis com a terrível divindade do Antigo Testamento.
E com o facto de os sucessos evangelizadores massivos (sejam eles mediáticos ou não) estarem ligados, não a deturpações, mas a interpretações legítimas daquilo que de pior nos ficou daqueles escritos mais antigos.
Parece que é mais fácil mobilizar seguidores para uma divindade interveniente, punidora e milagreira e para a responsabilização do diabo pelas nossas maldades e incapacidades, do que para a auto-responsabilização e a bondade.
Torna-se depois fácil ver, na assustadora senhora cuja foto abre este post, uma adoradora do diabo, portadora do pecado original dos seus revoltosos antepassados.
Sobretudo, se a tirarmos do enquadramento e do contexto - em que ela se torna uma assustada pessoa semi-soterrada em escombros e rodeada de cadáveres, talvez de familiares.
Livre-nos Deus, se existir, dos bem intencionados apóstolos da justiça divina!
sábado, 28 de novembro de 2009
Quando um homem dorme na valeta...
Hoje foi, simultaneamente, o Dia Sem Compras e o início da habitual campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, para recolha de produtos nos supermercados.
Mais de que uma coincidência, acaba por ser uma desconfortável metáfora de um modelo de sociedade que faz ombrear a fome com o estímulo ao consumo excessivo e desnecessário, ainda encarando isso com naturalidade.
E quando escrevo «excessivo e desnecessário», não penso apenas nos sempre discutíveis e mutáveis critérios éticos (que nem por o serem se tornam menos importantes), mas também no mais elementar bom-senso acerca da sua sustentabilidade energética, hídrica, sanitária e ecológica.
Cruzaram-se hoje nos títulos dos jornais - tal como todos os dias se cruzam à nossa volta, de forma subreptícia e inquestionada - a maior capacidade de produção e consumo (incluindo de muito lixo) da história humana, a aparência da promessa de riquezas sem limite, e a naturalidade e rapidez com que se condenam à exclusão e fome massas de serem humanos, no próprio centro dessa abastança.
Sem sequer precisarmos de olhar para o lado para não vermos. Porque essas pessoas (que facilmente poderíamos e poderemos ser nós próprios) se nos tornam invisíveis.
No percurso dos seres humanos pela terra, houve e há comunidades inteiras a morrerem de fome devido a catástrofes naturais e/ou asneiras humanas.
Houve e há desigualdades capazes de lançar na morte partes de sociedades, em alturas de particular escassez.
Mas até os senhores de escravos os alimentavam de acordo com o humanamente necessário, desde que houvesse comida.
E não conheço antecedentes históricos, fora do quadro do capitalismo, para a paulatina fome de parte da comunidade, em tempos de abastança.
Nem antecedentes, com crises ou sem elas, para tanta abastança.
Tenho para mim que impedir a fome, havendo comida, é uma responsabilidade do Estado. Mas não o faz. E a fome existe.
Tenho também para mim que, no quadro societal em que vivemos, a caridade cara-a-cara é degradante para quem a dá e para quem a recebe. Mas é de solidariedade e de decência humana que se trata. E a fome existe.
Um mundo diferente só pode ser possível. Mas temos muito que andar e que fazer. E a fome existe. Hoje.
A meia dúzia de coisas e de euros que nos permitem encher o saco que entregamos ao Banco Alimentar não mudam o mundo. Não mudam sequer a vida de quem tem fome. Mas permitem a alguns comer.
Penso que vale a pena.
Desde que não nos sintamos, com isso, aliviados.
Desde que isso também contribua um pouco para que essas pessoas deixem de ser invisíveis aos nossos olhos. Não como situações, mas como pessoas.
E, já agora, desde que isso nos lembre de quando era inaceitável e insultuoso, para cada um(a) de nós, que um outro ser humano dormisse na valeta.
Pois a naturalização da valeta, da caixa de cartão, da fome, não é apenas uma mutilação de quem somos.
É, também, uma condição para que tudo assim continue.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Estou a ficar velho
E isto, em dois sentidos.
No mais habitualmente usado de final do PREC e num outro: o do rápido emprateleiramento dos que tinham saído à rua em 25 de Abril do ano anterior ou tinham preparado a coisa, fossem agora vencedores ou vencidos.
Dos 3 mais mediáticos vencedores, garbosos militares da foto, aquele que comandou o 25 de Novembro (e já tinha sido figura central na preparação do 25 de Abril) levou um chuto logo que possível.
O seu lugar-tenente operacional (que se tinha mantido cuidadosamente à parte do Movimento dos Capitães) virou Presidente da República.
O operacional que deu mais nas vistas (contrastando com o 25 de Abril, em que tinha assumido responsabilidades mas arranjou uma série de desculpas para não sair do quartel) tornou-se o único militar português a virar general depois de reformado.
Como me dizia, há anos atrás, um saliente e também ele mediático vencido de Novembro, «Não é o 25 de Novembro que eles não nos perdoam. O que eles não nos perdoam é termos feito o 25 de Abril.»
É assim até hoje.
E isso, enquanto cidadão português, é que não posso aceitar.
É algo de profundamente obsceno. Quer se celebre ou se chore o que aconteceu há 34 anos.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Tintada eleitoral
O método de chapelada eleitoral observado por jornalistas televisivos na cidade da Beira teve, segundo se tem constatado na revisão de votos lançados como nulos pelas respectivas mesas, uma abrangência regional e um peso quantitativo bastante maiores do que se supunha.
A título de exemplo, só na cidade de Maputo, Deviz Simango terá visto 6.000 votos fraudulentamente anulados através do esquema da dedada de tinta colocada por membros da mesa durante a contagem dos votos.
Afonso Dhlakama ia, ontem com 22.000 votos "dedados" e a Renamo com 23.000, dos quais 17.000 só na província de Manica - o que, a brincar a brincar, lhes estava a dar menos 1 deputado, em benefício da Frelimo.
De onde se conclui:
1 - Não vale a pena estar a fazer já uma análise precisa e fina dos resultados eleitorais. É mais económico esperar pelo fim das surpresas - de que, para já, resultou a alteração dos deputados eleitos por dois partidos.
2 - Mesmo não tendo dependido disso a vitória folgadíssima da Frelimo e de Armando Guebuza, torna-se evidente a existência de uma acção partidária concertada, a nível nacional, de acções de fraude eleitoral.
3 - Juntando à "dedação" (em zonas menos favoráveis) as mesas eleitorais com quase ou mesmo com mais (!) de 100% de votantes (em Gaza e Tete), e juntando-lhes ainda as polémicas actualização do recenseamento e exclusão de listas do MDM, o quadro é muito preocupante. Sobretudo depois do Zimbabwe e das reacções que esse processo mereceu, entre outros, em Moçambique.
Desta vez não. Mas... e se/quando a Frelimo enfrentar, no futuro, um risco real de perder o poder? Como será?
4 - Pelo menos com jornalistas e delegados dos partidos à sua volta, assistindo ao processo, a CNE pode ser um efectivo instrumento de controlo da legalidade democrática e de correcção das chapeladas mais evidentes.
5 - Depois do verbo "rombar", Moçambique parece estar a caminho de encontrar a sua própria palavra, pera substituir essa portuguezisse da chapelada eleitorar.
A dúvida será entre "tintada" e "dedada".
Adenda: segundo informação do Carlos Serra que, infelizmente, tive oportunidade de confirmar, a notícia para onde remete o segundo link deste post foi removida ao início da noite do site do jornal "País".
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Coisas simples que contam muito
«Mesmo que as coisas não melhorem como as pessoas gostavam, está-se em paz e consegue-se ir vivendo, e isso é valorizado.»
Não é, de facto, o tipo de questão que um jornal costume destacar, de entre as muitas outras sobre tácticas partidárias e estatais, mensagem política, usos de meios, and so on.
Mas depois percebi - ou, pelo menos, julgo ter percebido.
Aquela frase foi escolhida exactamente por sair fora do trivial analítico em que quase sempre se esgotam as declarações feitas nestas circunstâncias.
Foi escolhida por chamar a atenção para um factor que julgo ser fulcral, mas que não é equacionado, por não fazer parte do "manual do comentador".
Por ser algo a que, independentemente da sua importância bem real, só daria atenção um antropólogo praticante que se tivesse vindo a aperceber dessa relevância ao longo da sua convivência corrente com as pessoas.
E muito agradeço ao João Manuel Rocha (o jornalista em causa), por me ter feito lembrar essa coisa simples e essencial acerca da minha profissão.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
"Estado" escreve-se com "F". "Rádio" também
É pena não se conseguirem copiar as imagens, para vos poder mostrar.
Assim, têm que clicar para o site da Rádio Moçambique.
É, já agora, o único meio de comunicação que chega realmente à generalidade da população e é estatal - sendo, portanto, paga pelos poucos contribuintes moçambicanos e pelos dos países que financiam o Orçamento de Estado local.
Lá chegados, verão, no canto superior esquerdo logo abaixo do cabeçalho, uma sucessão de 5 bonitas fotos.
Como descrevê-las?
Não é fácil, mas tentemos.
A primeira é uma visão de conjunto de garbosos jovens com um ar simpático e determinado, empunhando cartazes de um dos partidos concorrentes às eleições parlamentares e provinciais. É, suponho que por acaso, a Frelimo.
A segunda é um ajuntamento de gente alegre, vitoriando um senhor sorridente que entre eles avança, um par de passos à frente da esposa, como deve ser. Também suponho que por acaso, esse senhor é um concorrente às eleições presidenciais, para além de Presidente da República e da Frelimo. Para quem não conheça, chama-se Armando Guebuza.
A terceira foto é um muito belo friso de mulheres sentadas num plano elevado, todas elas com vestes muçulmanas de um lindo tom de azul. Talvez por distração de quem assim quiz mostrar a diversidade do país, o tal plano elevado está debruado com duas filas de cartazes alternados, dizendo uns deles "Vota Frelimo" e os outros "Vota Armando Emílio Guebuza".
Segue-se a já clássica foto de mulheres Macua com o seu branco produto de beleza facial, belas e sorridentes como sempre. Por um qualquer acidente, apresentam os lenços de cabeça adornados com grandes autocolantes da Frelimo.
Por fim, a sempre necessária foto de uma bela e rechunchuda bébé. Infelizmente, não se lhe vê parte da cara, que calhou estar tapada por um panamá com um enorme autocolante. Não é que isso interesse, mas diz "A Frelimo é que fez, a Frelimo é que faz".
É belo e instrutivo.
Lembra-nos que "Estado" se escreve com "F".
E que "Rádio" também.

















