segunda-feira, 17 de maio de 2010
Sondagem ou etnografia?
Sexta-feira, esparramei-me chão fora numa concorrida rua lisboeta, quando a roda da minha bicicleta eléctrica deu em derrapar num carril molhado.
Para meu espanto, houve duas pessoas que acorreram de pontos diferentes da multidão que passava, esperava autocarros e, agora, mironava.
Um homem veio ajudar-me a levantar a viatura.
Uma mulher perguntava-me, ainda antes de eu lhe saber responder, se me tinha "maxucado".
Sim. Eram ambos brasileiros.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Um pequeno sismo
Comparado com o de 1969, parece que o sismo de ontem não foi nada.
Pela minha parte, não me posso pronunciar.
Há 40 anos atrás, estava a dormir e a dormir fiquei.
Mas parece que houve um desfile de vizinhos na rua, aos gritos de pijama ou camisa de dormir - que, segundo um colega da escola, deu para espreitar uns pedaços de mamocas oriundas de casas alheias, em saltitante liberdade.
Desta vez, curiosamente, parece que abanou bem as traseiras da minha casa mas, na sala da frente, só dei por ele quando o espanta-espíritos começou a tocar sozinho.
O que me lembro bem, de há 40 anos, é que apareceram logo uns originais a atribuirem a culpa da coisa às viagens do homem à lua.
Será que, agora, aparecem outros a dizer que a culpa é do casamento entre pessoas do mesmo sexo?
Talvez não, já que, parece, o direito a adopção vai ficar de fora - como se a homossexualidade fosse uma doença contagiosa...
É assim a modos que um sismo pequenino, em que se acaba com uma desigualdade e se explicita outra.
(a capa do Século Ilustrado foi "roubada" ao Manuel Duran Clemente)
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Muito Obrigado!
Com um agradecimento especial ao Jorge Vala, pela excelente apresentação, e à livraria Barata e ao Bruno Silva, pelo espaço, profissionalismo e óptimas condições.
E, já que é maré de agradecimentos, muito obrigado também a quem tornou este livro possível, ou o tornou melhor com a sua leitura crítica do manuscrito.
Álvaro Pereira, o seu protagonista, as Edições Cosmos e diversos colegas e amigos: Maria José Arthur, Cristiana Bastos, João Paulo Borges Coelho, Alexandre Mate, José Machado Pais, Marta Penilo, Joana Ribeiro, José Manuel Rolo, Omar Ribeiro Thomaz e, de novo, Jorge Vala.
A alegria deste lançamento foi, hoje, mitigada pela assustadora notícia de que Álvaro Pereira teve há pouco um problema grave de saúde.
Diz-me ele que o caso não deixou sequelas e que está em franca recuperação.
Que a alegria de ter o livro na mão possa apressar as suas melhoras!
Entretanto, o livro parece só estar ainda disponível na Barata e na Ler Devagar, esperando-se em breve a sua chegada à Bulhosa.
Se estão com curiosidade e pressa, já sabem onde procurá-lo.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Citações de café (21)
«É a crise! Já os professores universitários andam a apanhar merda de cão...»
Conclusões:
1 - Sou menos anónimo no meu bairro do que pensava.
2 - Também tenho vizinhos com sentido de humor.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Back from New Orleans
As notas de reportagem ficam, por isso, para amanhã ou depois.
Por agora, esta foto junto ao Mississipi e estas outras no Antropovistas.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
O Rosa e o Laranja
Nos tempos de Stendhal, jovens provincianos que fossem ambiciosos, chico-espertos e fura-vidas como o protagonista de O Vermelho e o Negro tinham dois caminhos para, espezinhando aqui, traindo ali e sacaneando acolá, tentarem chegar àquilo que considerassem "subir na vida": a carreira militar e a carreira eclesiástica.
Nestes sombrios tempos de classes em vez de ordens, em que a tropa voltou a ter lepra e até a Opus Dei se arma em selectiva, o caminho escolhido pelos modernos gémeos do Julien Sorel é só um, embora com duas vias paralelas (que não obstante, veja-se o nosso primeiro, se podem cruzar antes do infinito): o Rosa e o Laranja.
Se o aspirante a grande homem teve a ventura de nascer periférico, integra desde bem cedo uma juventude partidária governante (mudando se naquela não estiver a dar) e vai treinando as suas potencialidades espezinhadoras, traidoras e sacaneadoras até chegar, com reduzida concorrência, ao pináculo distrital da coisa.
Jovem com horizontes mais largos do que o enriquecimento de clocher, numa Câmara assim como assim já ocupada por algum tubarão de aquário mas com dentes afiados, não faz concorrência a essa fauna. Antes lhe demonstra a sua modéstia e utilidade, acabando por entrar para o parlamento, num dos últimos lugares elegíveis lá do sítio.
Nova liga, novo jogo.
E lá busca este Heroi do Nosso Tempo gémeos cúmplices, contra inevitáveis gémeos inimigos, e algum patrono por conta de quem vá mordendo umas canelas (ou, de preferência, barrigas-da-perna) e calcando alguns cadáveres.
Se o patrono é bem escolhido, há boas hipóteses de que a coisa esteja lançada. E nem foi preciso perder tempo e concentração com essas mariquices dos estudos - que, para os mais formalistas, poderão sempre vir mais tarde a ser feitos, por fax, que dá muito mais jeito.
Entrementes, o capital de influências vai-se alargando e, se não for trucidado antes disso pelos seus semelhantes, a alternância democrática lá lhe abrirá um lugarzinho no governo - e, com um bocado de sorte e dentadas certeiras, sem ter que ser assessor antes de secretário de estado, ou secretário de estado antes de ministro.
A chatice é que essa mesma alternância (ou alguma calinada mais escandalosa) de lá o tirarão e que, normalmente, as capacidades que lá o meteram não chegam para lá voltar.
É galo, mas é a vida.
Resta capitalizar todo esse percurso e conhecimentos (pessoais).
Para os mais megalómanos, à frente de empresas mirambolantes ou com o lucro assegurado por favorecimentos estatais.
Para os mais modestos ou queimados, uns discretos lugares de gestores públicos, assegurados por cavalheirescos adversários ou por solidários correlegionários - que, as mais das vezes, se tornaram difíceis de diferenciar.
Mas há sempre a possibilidade de ter mais olhos que barriga, ou de não ter perdido os hábitos mixurucas dos velhos tempos de ascensão e ribalta.
E lá acaba o pobre Sorel da Merdaleja, apesar de todas as tentativas de adversários-e-correlegionários para olharem noutra direcção, por deixar apodrecer em público a galhinha dos ovos de ouro, ou por ser gravado pela bófia a pedir subornos para mexer uns cordelinhos.
E será que não há por aí nenhum Stendhal disponível, para fazer deste O Rosa e o Laranja um grande romance para as gerações vindouras?
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
O poder dos desabafos
1 - A igreja católica sentiu a necessidade de lançar os seus melhores cérebros para expor nos jornais as suas mais elaboradas exegeses acerca de temas como (pasme-se) a relação do discurso religioso com a violência.
2 - Descobrimos que, de repente, toda a gente leu atentamente a Bíblia, com destaque para os comentadores ateus. E (nos últimos dias) que todos conheciam de gingeira o Cântico dos Cânticos - que parece ter vindo ocupar, assim, o espaço e importância erótica que o canto da Ilha dos Amores desempenhava para os adolescentes da geração dos nossos pais. Qualquer dia, pode ser que alguém até saiba a que personagens está ligada essa bela peça literária.
É um facto. Os desabafos de algumas (poucas) pessoas têm um poder extraordinário.
domingo, 25 de outubro de 2009
Quando piso em folhas secas...
De certa e perversa forma, não deixa de ser tranquilizante que questões como esta mereçam ser faladas.
sábado, 24 de outubro de 2009
Mass murder
Ou, como a certa altura gritou uma senhora perto de mim, «O som está uma merda!»
terça-feira, 20 de outubro de 2009
O que um homem não tem que fazer para ganhar a vidinha...
Bem menos sábio e experiente a lidar com evidências desagradáveis do que a velha igreja católica, o eurodeputado Mário David, eleito pelo PSD, pediu a José Saramago que se auto-excumungasse de membro da nação portuguesa, por ter «vergonha de o ter como compatriota».
Mas, depois de ler, sobreveio-me um ataque de caridade cristã.
O que um homem não tem que fazer para ganhar a vidinha!...
Assim, até perdi a vontade de pedir ao sr. eurodeputado que fizesse isso mesmo, pelas mesmíssimas razões.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Agora sim, acredito
Mas é também verdade que a minha maior desilusão literária do ano passado foi o muito badalado Prémio Leya 2008.
Até o abrir, confesso, o lugar era ocupado pela odisseia do elefante do Saramago - que, bem escrita como sempre, não deixou de me lembrar uma versão aumentada e menos conseguida das poucas e belíssimas páginas em que nos contara a viagem daquela monstruosa pedra até Mafra. É chato, quando nos habituámos a esperar bem mais que isso.
Mas, com o pobre do jaguar, tive um encontro bem mais complicado.
Da minha experiência de leitor que, teimoso, insistiu em ir até ao fim e que, optimista, teve até à última página a esperança de vir a ser recompensado por esse esforço, retirei que aquele livro podia bem ter sido dois, sendo que um deles (o da velhice do narrador e das saudades da sua amada esposa) teria ficado melhor servido na gaveta do autor.
O livro que sobraria continuava a não me agradar por aí além.
A isso talvez tenha ajudado uma página temporã com uma digestão apressada de Levy-Bruhl, que o romancista parece não ter reparado estar em contradição com as outras seiscentas e tal.
Ou a permanente presença do bom selvagem, subliminar mesmo quando o texto pretende dizer o contrário.
Ou o mais fulcral dos mitos milenaristas da América do Sul ter sido trabalhado de uma forma tão limitada.
Ou constatar que tantas páginas não tinham levadoa lado nenhum.
Ou, pelo caminho, me ter cruzado com tantos episódios histórica e factualmente fascinantes e, de cada vez, ter parado a imaginar o que um bom escritor teria conseguido fazer com cada um deles.
Enfim... Já viram que foi traumático e perdi todo o interesse e consideração pelo tal de Prémio Leya.
Há um bocado, no entanto, li numa minúscula notícia, a um canto do Público on-line, que o premiado deste ano é o João Paulo Borges Coelho.
Gosto muitíssimo dele, quer como historiador, quer como pessoa, quer como escritor.
E gostei de todos os seus livros - embora, claro, não de todos por igual.
O meu favorito (desculpa lá, João Paulo) é o primeiro, "As Duas Sombras do Rio".
Aquele de cujo estilo gostei menos, pelo excesso de alegoria num tema tão forte, foi o "Campo de Trânsito". Mas sei, também, até que ponto escrever acerca daquela realidade recente, por muito ar de fábula com que se o faça, é um acto de coragem. E sei que, mesmo sendo o meu menos favorito, é um muito bom livro.
Ou seja: ou o João Paulo desaprendeu repentinamente de escrever e isso agradou ao júri, ou este premiado "O Olho de Hertzog" é mais um daqueles livros pelos quais se justifica esperar com impaciência.
O que me permite voltar a acreditar no Prémio Leya e, suponho, comprar o premiado do ano que vem.
Porque, quanto ao deste ano, não precisaria de prémio nenhum para correr a comprá-lo.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
One Man Show
Não o fez para aproveitar a ocasião para uma qualquer mensagem geral e nacional - o que, já de si, teria pouco sentido. Falou de Lisboa.
E, olhando as imagens colhidas durante a iniciativa, parece que toda a gente que lá estava achou isso perfeitamente natural. Talvez por isso se ter vindo a tornar um hábito, desde logo a seguir às eleições europeias.
Impressiona-me, de facto, que um partido nascido e criado com uma direcção colegial tenha, tão rapidamente, passado da liderança pessoal que a substituiu para uma imagem de One Man Show.
Mesmo que isso possa eventualmente resultar de alguma avaliação do diferente impacto mediático (em abstracto) das suas figuras mais conhecidas.
Será que não há espaço para que durem, em Portugal, formas de funcionamento partidário inovadoras?
Ou será que os políticos veteranos só as sabem e querem adoptar quando as correlações de forças a isso obrigam?
sábado, 26 de setembro de 2009
Votemos. Pois...
Com eles agora "degredados", confesso que o entusiasmo com que irei votar no domingo é bastante menor - mesmo se estas eleições são, em princípio, bastante mais importantes que as anteriores.
Será que, com a idade ou qualquer outro fenómeno de estragação, me deu para personalizar a política?
Pensando bem, acho que não é isso.
É claro que preferiria contar, para defenderem aquilo que acho necessário, com as pessoas com quem mais me identifico.
Mas não apenas (nem, talvez, sobretudo) por simpatia, amizade ou abstracta confiança.
Creio que esta súbita necessidade passa, antes, pela consciência de que estaremos, a partir de 2ª feira, perante um quadro bastante volátil de relações de forças e de táticas negociais.
E aí (suponho que é humano, se é que tal coisa existe), sentir-me-ia mais à vontade sabendo que as decisões acerca de o quê e do como fazer seriam tomadas por pessoas cujo carácter conheço e cujas formas de pensar e decidir se aproximem das minhas.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Lapso freudiano, depois de Dupond & Dupont
Com diferenças de ênfase, imagem, retórica e pormenor, lá estavam um frente ao outro, tentando afirmar aqui e ali, quanto ao essencial, «eu diria mesmo mais».
A tal ponto que a cara séria que cada um fazia ao ouvir o outro surgia forçada e se parecia descortinar por detrás dela o pensamento «Este sacana já disse isto... O que é que eu vou dizer a seguir.»
Acabei por mudar de canal.
Não porque me impressionasse, em si mesma, esta performance Dupond & Dupont.
Antes por saber que, sendo evidente que uma alternativa de esquerda só pode ser pensada e feita a partir do debate, diálogo e eventual convergência entre as força que eles representam (na sua diversidade de perspectivas, potencial e experiência), a maior preocupação na sua relação mútua é contabilizar as pequenas ou grandes vantagens que cada um alcança, neste ou naquele campo social ou eleitoral, sobre o outro.
Afinal, um sprint de pequeninos, que inviabiliza objectivos bem mais ambiciosos numa estafeta de grandes. E, sobretudo, alternativas societais.
Ontem, mudei ainda mais rápido de canal, no debate entre Sócrates e Louçã.
Talvez tenha perdido, com isso, coisas que valessem a pena.
Mas uma das primeiras coisas que ouvi foi o nosso primeiro a dizer que se candidatava «a governar com os pés bem assentes no palco. Perdão... no chão.»
É demais, para quem acaba de chegar de Moçambique e, a certa altura, não percebe bem se realmente mudou de país.
domingo, 17 de maio de 2009
Santinhos, espíritos e diversão
No Terreiro do Paço, muitos milhares de pessoas deram largas à sua legítima mas teologicamente discutível idolatria, acompanhando devotamente uma estátua.
Foi trazida de Fátima, para comemorar os 50 anos de uma outra estátua, em Almada, mandada erguer pelo episcopado português da altura, em evidente declaração de apoio divino a um dos maiores temas propagandísticos do salazarismo: a não participação portuguesa na II Guerra Mundial, atribuída à clarividência e "ratice" de S. Exª o Presidente do Conselho.
Uma estátua que, curiosamente, foi erguida 14 anos depois do fim da tal guerra, numa altura em que a capacidade do salazarismo se auto-propagandear andava pelas ruas da amargura e o país estava cada vez mais óbvia e orgulhosamente só, devido à sua política colonial - que iria levá-lo, 2 anos depois, não a uma mas a 3 guerras, que se arrastariam por 13 anos, em vez de 6.
Uns pormenores que talvez não sejam completamente irrelevantes, mas que não vi serem referidos em nenhum jornal ou televisão.
É normal, suponho. Afinal, somos um país de brandos costumes para com os poderosos, sejam eles indivíduos ou instituições.
Entretanto, 100 metros ao lado, desfilavam as muy pagãs Máscaras Ibéricas, entre a Praça do Município e o Rossio.
Ele eram caretos, chocalheiros, marafonas, gaiteiros, minotauros, ursos e seres de musgo... até mascarados espanhois com evidente inspiração azteca.
Tudo isso dançando, pulando, metendo-se com as pessoas, bebendo os seus canecos no final.
Enfim: o ciclo das festas do solstício de inverno em todo o seu explendor, mesmo que um bom bocado folclorizado.
Confesso que tinha curiosidade de ver as duas iniciativas.
Mas ainda bem que escolhi a do Rossio. Foi, de certeza, mais divertida - e de uma humanidade mais viva.
Mesmo se, por lá, recebi uma má notícia.
O homem mais gentil, simpático e calmo da aldeia de Varge, meu solícito companheiro nas duas vezes que vivi com os caretos a sua Festa dos Rapazes, está preso.
Dizem-me que, perante a estupefação de todos os que o conhecem, deu duas facadas em alguém que (suponho) lhe terá feito alguma coisa que ultrapassava os limites da sua enorme tolerância.
Daqui vai um abraço com muita amizade, Vitorino.
sábado, 2 de maio de 2009
Vital Moreira foi em demanda da sua Marinha Grande...
Não vi a coisa.
Estava bem mais acima, descendo a avenida com a família, ao encontro do desfile. Só por um amigo, dirigente da CGTP, vim a saber na Alameda o que se passara.
Foi, claro está, feio e democraticamente inaceitável.
Mais ainda, contraproducente.
Mas foi, também, um preocupante sintoma da presente situação social e da angústia e desespero que ela suscita em quem mais a sofre.
Porque, parece-me, Vital Moreira e Vitalino Canas não têm razão naquilo a que atribuem o que aconteceu.
Para além de as organizações não serem donas dos actos de umas dezenas de pessoas que reajam de forma mais agressiva a presenças que lhes desagradem, não me parece, de todo, que Vital Moreira tenha sido insultado devido à sua longínqua condição de ex-comunista.
Parece-me que o cidadão Vital Moreira é, neste caso, irrelevante.
Parece-me até que, em geral e enquanto indivíduo, é irrelevante para a maioria das pessoas.
Poderá ter sido um brilhante obreiro da nossa Constituição de 1976 e ser, hoje, um aspirante a Vasco Graça Moura do socratismo, mas nada que suscite ódios pessoais, mesmo ao mais sectário dos velhos comunistas da Cintura Industrial que deus tenha.
Também não me parece que se tratasse de um ataque ao PS, enquanto tal.
Que se tratasse de um ataque ao governo, que é do PS, que por sua vez tem em Vital Moreira a sua cara em campanha eleitoral, já fará mais sentido.
Mas ao governo, não simplesmente por o ser, mas por gerir nacionalmente um emaranhado de crises (uma de origem internacional, outras nacionais), de uma forma que multiplica em grande velocidade os dramas pessoais e situações sociais desesperadas, e de uma forma que é vista popularmente como distribuidora de benesses aos responsáveis pela situação.
Só quem limite o seu sentido da realidade actual àquilo que chega aos ecrãs dos telejornais será incapaz de compreender o que representa, para cada uma das suas vítimas, o despedimento colectivo (envolvendo muitas vezes toda a família), salários em atraso ou o encerramento 'profilático' de empresas - sejam elas de sectores económicos 'arcaicos' ou 'de ponta'.
E que essas situações se multiplicam a um ritmo assustador, abrangendo dezenas de milhares de pessoas e localidades inteiras, ameaçando todos os que têm emprego.
Isto, a par da aparente recompensa aos bancos - e não só aos geridos de forma incompetente e criminosa, mas também àqueles que muito competentemente vão sugando, a cada um de nós, todo o dinheiro que conseguem.
Multiplicam-se as situações insustentáveis e, com elas, os sentimentos explosivos de revolta indiscriminada, que em nada precisam de estímulos politico-partidários para se expressarem.
É verdade que, após 35 anos em liberdade, é esperada numa manifestação de 1º de Maio urbanidade e tolerância na expressão desses sentimentos individuais de revolta.
Mesmo se, ainda não há tanto tempo assim, o Porto assistiu à morte de manifestantes por parte da Polícia, a mando do governo da altura.
Mas, sendo a situação presente aquela que é, das duas uma:
Ou Vital Moreira e a direcção do PS estão de tal forma alienados das terríveis condições enfrentadas por esse país fora que, candidamente, não foram capazes de antecipar a possibilidade de reacções individuais agressivas a uma sua presença, também eleitoral, numa manifestação onde é inevitável a cristalização do descontentamento e revolta com a situação actual;
Ou, então, Vital Moreira e a direcção do PS apercebem-se bem dessa evidência, e a deslocação ao Martim Moniz dos seus candidatos ao Parlamento Europeu jogou com essa possibilidade, que se veio a concretizar.
Não fazendo eu a Vital Moreira e à direcção do PS a injustiça de os considerar estúpidos, irresponsáveis ou alienados, acredito que se tratará da segunda hipótese.
E o tratamento que têm dado ao assunto reforça esta convicção.
Vital Moreira foi em demanda da sua chapada da Marinha Grande - como aquela que, há muitos anos, catapultou Mário Soares dos últimos lugares nas sondagens para o palácio de Belém.
E houve quem lhe fizesse a vontade.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Filhos de quatro patas
Hoje, no passeio da manhã, a coisa lá voltou ao normal e, de regresso a casa, fui ufano contar a novidade à minha senhora.
Sendo eu pai, já tinha visto entrar, para os motivos de conversa conjugal, os cocós de bebé e de criança pequena.
Mas, desta vez, não consegui deixar de pensar:
«Que raio!... Então não é que estou a discutir caca de cão com a mulher com quem casei?»
sábado, 29 de novembro de 2008
Rapidinhas do dia (2)
Oliveira e Costa, cuja lista de falcatruas continua a engrossar e a envolver outras figuras do cavaquismo, está detido naquilo a que os próprios polícias chamam "prisão VIP".
Junto a minha pergunta à do Samuel: quanto é que é preciso roubar para se ter direito a tratamento VIP?
Entretanto, parece (Sol) que o Estado quer anular a separação de pessoas e bens em que o pobre homem passou para nome da esposa os seus bens valiosos, logo que se pisgou da direcção do BPN.
Separação fraudulenta para subtrair essas propriedades ao âmbito da justiça? Não! Então não se vê que o homem é tão sério?
Parece também (idem, suplemento económico) que a Caixa vai extinguir a marca BPN, de cujas dívidas é agora dona.
Raios! Logo agora, que eu queria abrir conta com um logotipo tão badalado!
Mudando de assunto, iniciou-se em Lisboa o 18º congresso do PCP. Nas teses para aprovação destaca-se, para além da auto-congratulação, a conclusão de que o Sistema Socialista Mundial desabou devido à traição dos dirigentes.
É o que se pode chamar uma análise de fino recorte marxista...
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Rapidinhas do dia (1)
Ouvi numa rádio: A Carris vai perfumar os seus novos autocarros (machimbombos, ónibus) com cheiro a Lisboa.
O porta-voz da empresa esclarece que isso quer dizer manjerico, cravo, baunilha e jacarandá.
Fiquei mais descansado. Numa primeira reacção temi que fossem pôr os autocarros a cheirar a sardinha assada e fumo de automóvel.
Na capa do 24 Horas, a irmã de Oliveira e Costa diz que há mais gente envolvida nas ilegalidades do BPN e que o irmão só assinava os cheques.
Nada como a família para nos enterrar ainda mais...
Enquanto Dias Loureiro garante a Cavaco que não cometeu ilegalidades, o Correio da Manhã revela que, afinal, ele esteve ligado ao BPN até 2007.
Deverá declarar a seguir: "Coitadinho do crocodilo!..."
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Portugal Moçambicaniza-se (IV)
O ministro respectivo desvalorizou a questão e, pouco depois, o Secretário da propaganda do partido governamental veio dizer que os motins tinham sido orquestrados por uma "Mão Invisível".
A 8 de Novembro de 2008, Lisboa foi sacudida pela segundo manifestação esmagadora de professores em poucos meses. 4 profs em cada 5 protestaram na rua contra a política do ministério da educação. A ministra desvalorizou. Dias depois, estudantes receberam a ministra com ovos em Fafe e, como seria de esperar, a coisa foi imitada em Lisboa, na primeira oportunidade.
O equivalente português do Sr. Macuácua, o porta-voz do PS Vitalino Canas, vem dizer que os protestos são "desacatos que nos parecem muito orquestrados, muito instrumentalizados, talvez por alguns radicais e alguns professores".
Depois do apoio a empresas privadas para garantirem o policiamento público, do epíteto de "negativismo, maledicência e bota-abaixo" a todos os que não viam o futuro tão risonho como o nosso primeiro, e depois de plagiarem o slogan de Armando Guebuza e da Frelimo, já não me restam dúvidas:
O nosso primeiro e o seu partido estão tão incrivelmente preocupados com o meu bem-estar pessoal que decidiram fazer tudo para que eu não sinta choques e dificuldades de adaptação, ao transitar entre Portugal e Moçambique! É a única explicação possível.
Sendo assim e já agora, nosso primeiro, torne a semelhança ainda maior: com a maior rapidez, demita a ministra e aproveite para mandar também borda fora alguns dos seus colegas mais inconvenientes.
Sei lá... Olhe: por exemplo aquele ex-chefe da secreta que não consegue dirigir forças policiais às claras, ou aquele outro que aprendeu com ele e acha normal autorizar devassas ilegais de correspondência electrónica, ou o ex-banqueiro que fez procurador pessoal um alto quadro do BP que devia fiscalizar o seu banco e, já ministro, o nomeou para a Autoridade da Concorrência.
Oh, homem... você é que sabe. Tem muito por onde escolher.















