Mostrar mensagens com a etiqueta Croniquices. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Croniquices. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de março de 2008

Medo das justiças


Hoje, acordei ao som de gritos de «Pega ladrão!».
Estremunhado, arrastei-me até à varanda e, com esta onda de linchamentos que por aqui anda, dei comigo a torcer pelo ladrão. Escapou-se. Fiquei mais tranquilo.

Não sou o único a cruzar-me com estes sentimentos e reacções contraditórias.
Tempos atrás, roubaram o auto-rádio de um patrício meu, dentro dos muros da sua propriedade. Só podia ser um dos guardas e, após conciliábulo, dois deles acusaram um terceiro. O homem negava e o nosso heroi, muito portuguesmente, levou-o à esquadra para apurar o assunto.
Explicou o que se passara, deixando bem claro que poderia ter sido um dos outros guardas, mas o polícia só perguntou ao homem: «De onde é que tu és?» «De Inhambane», foi a resposta. Antes que o tuga percebesse o que se passava, já o acusado estava estatelado no chão, com o polícia a saltar-lhe a pés juntos em cima do peito, enquanto gritava, ao ritmo dos pulos: «Então... tu vens... da... minha terra... para... roubar... rádios em Maputo?»
O inicial lesado lá conseguiu fazer a cara mais severa que conseguiu e dizer: «Deixe estar, que eu trato do assunto à minha maneira. Vou tirar isso a limpo e trago-o cá mais tarde!» E, entre os olhares cúmplices das forças da ordem, lá enfiou o suposto ladrão no carro e, claro, foi deixá-lo no hospital.

Mas há histórias mais antigas.
Poucos anos após a independência, quando era ouro encontrá-las, tentaram roubar uma peça do carro a uma amiga moçambicana, em plena baixa de Maputo. Ela gritou, o homem foi dominado e rapidamente lhe ataram os braços com arames.
Em direcção à esquadra mais próxima, formou-se uma procissão que ia sempre engrossando com novos justiceiros, que pedagogicamente distribuiam uns sopapos ao homem. A certa altura, já era a lesada que apelava à calma, limitando os estragos como podia.
Na esquadra, após as esperas e recolhas de depoimentos, reparou que o incompetente ladrão estava com os braços inchadíssimos e as palmas das mãos roxas. Imaginando-o já gangrenado e amputado, por causa da merda de um bocado de metal que faz os carros funcionarem, a minha amiga lá conseguiu exigir que lhe tirassem os arames e, pateticamente, deu consigo a fazer-lhe massagens nos braços.
Ainda tentou retirar a queixa, mas havia já não sei quantas testemunhas dispostas a apresentá-la.

Tudo isto me lembra que, em Lisboa, tive que deixar de frequentar um restaurante de que muito gostava, para os lados do Limoeiro.
É que, depois de ouvir as conversas dos aspirantes a juízes, nas mesas ao lado, chegava a ter pesadelos em que ia parar ao tribunal, por uma razão qualquer, e eram eles quem me julgava.

Há dias em que o castigo me assusta mais do que o crime.

sábado, 15 de março de 2008

Racismos subliminares

Esta é para ver se o jpt me chama catanoso "semiólogo" fascista de extracção marxista (que querem vocês? às vezes, ao fim-de-semana, apetece-me um bocadinho de notoriedade, mesmo que emprestada):


Já repararam quando é a única vez em que, no Livro da Selva da Walt Disney, se ouve uma música em tom de jazz?
É quando o rei dos macacos canta que quer ser como os homens e viver em cidades.
E não é um jazz qualquer. É dixieland, com scat singing à mistura - os dois estereótipos cinematográficos, na altura, da música afro-americana.
No conjunto, uma imitação muito directa de Louis Armstrong.

Cá em casa, o DVD ainda não foi catanado, lá por causa disso. O que é que se há de fazer? Não faz parte do meu estilo e todos nós gostamos do filme.

Um abração, Flávio.

Aditamento antropo-histórico eventualmente irrelevante, no próprio 15/3: lembram-se de onde vem a palavra "catana"? É o nome japonês para a mais longa das duas espadas usadas pelos samurais.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Filosofia na lixeira?

Há dois sem-abrigo que conversam, algures entre as machambas e a lixeira que se instalaram nas traseiras da minha casa.
Não os vejo, apenas os consigo ouvir.
O changana modifica-se, quando se fala de assuntos realmente sérios. Muda o tom, a escolha das palavras, a entoação, e começa a soar singularmente parecido com o japonês das grandes tiradas retóricas dos filmes do Kurosawa - embora sem aquele arrastar enfático das vogais.
Aqui e ali, vou reconhecendo palavras solenes, de conceitos complexos que aprendi em trabalho de campo.
Será que tenho dois Sabastiões Albas às traseiras de casa?

quinta-feira, 13 de março de 2008

Ciências sociais ocupam páginas centrais do Expresso

É mentira.
Foi o Savana que, sob o título «Que podem as ciências sociais dar em prol da sociedade?», abriu esse espaço a dois cientistas sociais moçambicanos.
Um deles, de quem muito gosto pessoal e cientificamente; o outro, nem por isso. Mas esta gradação não é importante pois, como deixou por lá dito (com outras palavras) Rafael da Conceição, todos somos necessários, desde que questionemos, debatamos e não nos assumamos como estrelas que só têm para dar, aos colegas, lições.

É curioso. Tenho dificuldade em imaginar o Savana do meu país, que se chama Expresso, a suscitar a mesma questão.
E não me parece que a culpa seja só dos jornalistas.

domingo, 9 de março de 2008

A minha vizinha garça

O que é que faz uma garça-real, todos os dias, numa machamba plantada no meio de prédios, em plena cidade de Maputo?
Anda aos sapos, que a minha cadela gostaria de abocanhar durante o xi-xi da noite?
Acha piada a chatear as galinhas?
Gosta de debicar um vegetal de vez em quando?
Vem, apenas, porque aqui ninguém a ameaça?

Não sei. Mas é um prazer para os olhos e para a alma, em cada fim de tarde.

sábado, 8 de março de 2008

Os professores e a Professora

Estou banzado!

Ver na televisão mais de 85.000 professores (Fenprof e PSP de acordo), um pouco mais de metade dos professores portugueses, numa manifestação em Lisboa contra a política de ensino do governo e exigindo a demissão da respectiva ministra é um acontecimento que foge a todas as normas. É o equivalente sectorial a vermos 5 milhões de portugueses na rua, a protestarem contra o governo ou uma sua política geral.
Perante um terramoto destes, ver depois Augusto Santos Silva a perorar (certamente contrariado, pois ninguém lhe pode invejar a obrigação de fazer tal discurso) que a política do governo não é ditada por manifestações, mas pelo seu programa, é constrangedor. É patético. Tem-se pena do homem, mesmo tendo sido ele quem aceitou o cargo. Porque não é credível que possa existir um tal nível de autismo num governo e num homem inteligente como ele.

Um tamanho consenso contra uma política de um governo (sectorial mas numa área indiscutivelmente estratégica) e contra a pessoa que com particular empenho a planeia e executa é excepcional. Que esse consenso se expresse através de uma manifestação de rua tão esmagadora é mais excepcional ainda.

Porquê? A propósito de uma outra manifestação, chamei aqui a atenção para um facto que por vezes nos escapa: há quase duas décadas que, em Portugal, as pessoas consideram a representação sindical (mesmo quando não concordam com a actuação prática dos sindicatos) como um serviço público a que têm direito, sem que tal exija delas filiação e participação. Quando participam, isso é um acto muito mais significativo do que quando (até meados da década de 1980) participar era normal; quando o fazem massivamente, a excepcionalidade do acto demonstra como é excepcional e consensual o desacordo.

Mas isto levanta novas perguntas. Como é que alguém (individual ou colectivo) consegue criar um consenso destes contra si próprio? Há a política adoptada, claro. Há o autoritarismo na sua adopção, certamente. Mas é só isso?

O autoritarismo não é apenas um estilo. É uma concepção do poder e do seu exercício - e o poder não é apenas "político", no sentido mais comum da palavra; existe em qualquer relação entre pessoas. Também não é, pelo menos para os psicólogos, a mesma coisa que autocracia.
O autocrata impõe-se, vai à luta para esmagar mas equaciona a possibilidade de derrota e sabe ouvir, porque toma as opiniões adversas como informações essenciais para ajustes tácticos, mesmo que os seus objectivos estratégicos sejam execráveis. Quer dominar, mas está alerta porque encara esse domínio como o resultado de um jogo permanente.
O autoritário "pisa para baixo" e "amouxa para cima". Desvaloriza as opiniões adversas e as informações desagradáveis para o seu plano, porque parte do princípio de que estar numa posição dominante garante, à partida, a imposição e sucesso do seu domínio. São os burocratas do poder sobre os outros.

A Ministra da Educação demonstrou publicamente o seu carácter autoritário e o nosso primeiro mais ainda - juntando até, aos aspectos de poder, a fixação higienista e saudabilista que os psicólogos atribuem a esse modelo de personalidade.
Está estudado que os autoritários preferem rodear-se de autoritários, quer por apreciarem o estilo (que acaba por ser uma extensão do seu), quer por se sentirem mais seguros de que, assim, a sua posição e poder não serão questionados, pelo menos enquanto as posições hierárquicas estiverem claras. OK, mas... Porquê esta autoritária? E que consequências é que essa escolha tem?

Para alguém que leccionou Antropologia da Educação durante 7 anos, sou singularmente pouco interessado por questões relacionadas com o sistema de ensino.
Mas há uma coisa que repeti inúmeras vezes, nos mais variados sítios e contextos, embora fosse quase sempre entendida como uma gracinha pour épater les bourgeois: a importância real dos professores para a sociedade decresce à medida que aumenta o grau de ensino que leccionam.
A afirmação era vista como uma boutade num académico, porque separa o aprofundamento de saberes da importância social do trabalho lectivo (que normalmente são amalgamados) e porque é suposto termos, todos nós académicos, um enorme ego individual e colectivo.
Esta última imagem é basicamente verdadeira, sem que eu seja excepção. Mas a experiência de vida e a capacidade auto-reflexiva têm alguma importância, pelo que por vezes dá para compreender que a universidade é uma instituição singularmente hierarquizada, considerando os seus supostos objectivos, e que tende a ser encarada, por nós académicos "bem sucedidos", não como um cantinho relativamente pouco relevante do mundo, mas como a sociedade (com ou sem o prefixo "micro") relevante em que nós vivemos. É normal, então, que farrapinhos de poder quase ridículos numa perspectiva societal global sejam objecto de lutas fracticidas letais, como se aquelas cagadinhas de poder fossem O PODER, e como se o poder valesse isso.
Em suma, e apesar de algumas muito louváveis excepções (que têm tanto a ver com carácter individual como com a capacidade de fazer com que alguns valores resistam à erosão do meio circundante), somos um caldo de cultura adverso à produção de decisores políticos que encarem o poder segundo uma lógica diferente do mata-ou-morre - ou, num outro sub-produto mais raro, do "bananismo" indeciso.

Posto isto:
A partir de hoje, a Ministra da Educação está politicamente morta.
Não é uma declaração política; é a mera constatação de um facto.
Discordo de algumas opções tomadas pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (embora suspeite concordar com o diagnóstico que o terá levado a tomá-las), mas acho que dificilmente poderíamos encontrar uma melhor pessoa para esse cargo.
Em contrapartida, quanto ao Ministério da Educação, deixem os académicos a academicar. Vejam lá se agora arranjam um(a) ex ou actual professor(a) do ensino básico ou secundário, sem grandes sentimentos corporativos mas sensibilidade para os entender, que não saiba falar educacionês, não seja um(a) "rato(a) de aparelho" partidário e, de preferência, seja inteligente. De outra forma, estarão a pedi-las.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Um anito e uns trocos

Acabada a importação deste blog do endereço anterior (um grande obrigado, Marta!), reparei que o Antropocoiso começou há pouco mais de um ano. A efeméride foi na véspera de o povo "sair da garrafa", mas nego qualquer relação de causa/efeito, mesmo que espiritual.

Isto começou como uma forma de ter onde disponibilizar os meus artigos e, pontualmente, dizer umas coisas sobre assuntos (mal) esquecidos ou que me parecesse necessitarem de um outro ponto de vista, para juntar ao muito que acerca deles estivesse a ser dito.
Um ponto de vista não da Antropologia (assim, com letra maiúscula), mas de um cidadão que olha o mundo de forma um pouco diferente por a sua vida ser fazer antropologia e que (como os seus colegas) faz antropologia de forma um pouco diferente, pela sua particular experiência e história de vida.
Coisa modesta e quase confidencial, portanto.

Entrementes, no endereço anterior, que fornecia estatísticas diárias, tive a surpresa de ver o número de visitantes estabilizar nos 150, mesmo quando estava semanas sem afixar um post. Sendo esse número, ainda, quase confidencial, sente-se mesmo assim uma responsabilidade de dar algo em troca dessa simpatia e persistência.
Isso é fácil quando estou fora de Portugal, em sítios bem mais mexidos do que o meu belo mas rotineiro jardim à beira mar plantado. Aí, com a modéstia e o olhar "fresco" de quem é de fora, há sempre coisas que me interessa comentar - e sempre é uma forma de manter contacto com a família e amigos.
O número de posts vai engordando sem esforço, o número de visitantes não sei, mas felizmente o Antropocoiso não é um desses fenómenos de merecida popularidade como o Abrupto, o Arrastão ou o Diário de Um Sociólogo. Aí, ver-me-ia "à rasca", pois nem esta é a minha vida nem tenho a titânica capacidade de trabalho do Carlos Serra.

Mesmo assim... este modesto cantinho vai sendo pontualmente referido e citado, tendo mesmo sido levado, pela mão e generosidade de um colega bloguístico e académico, para as páginas do jornal que todas as semanas leio, a propósito de um esclarecimento antropológico acerca de um acontecimento da actualidade.
Para além de um prazer e de uma ligação com os outros, atrevo-me por isso a pensar que o Antropocoiso tem alguma utilidade - para as pessoas e, talvez, para a divulgação das formas de pensar nas ciências sociais.

Entretanto, instalei há uns dias um "brinquedo" que podem ver aí ao lado - o Feedjit.
Uma consequência disso é que a minha filha, agora, me pede que abra o blog para ela ver se há bandeirinhas diferentes.
Outra é que, de repente, uma pessoa atribui locais a esses visitantes que antes eram apenas números, quando os havia. Não é o mapa-mundi que encontramos nos blogs mais concorridos mas é, mesmo assim, surpreendente: localidades portuguesas de que nunca ouvi falar, países inesperados, acesso por links que se julgariam improváveis, saídas para sites científicos que aqui linquei.

Se nos lembrarmos que um bom artigo, publicado numa revista científica de referência, costuma ser lido por umas dezenas de pessoas e que um livro científico premiado pode vender apenas umas centenas de exemplares, isto dá que pensar. E convence que valeu a pena.

A todos os visitantes, um grande obrigado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Não dá dinheiro; dá machimbombos!

chapa no 5 de Fevereiro (foto Savana)

Vinte dias depois, foram agora os "chapeiros" (diz-se que os «piratas» sem licença, mas não posso garantir) a fazer greve, por questões processuais ligadas ao acesso ao gasóleo subsidiado.

A coisa foi bem mais calma, pois bloquearam ou tentaram bloquear duas vias essenciais (entrada da Matola e Chiquelene) com as viaturas, mas a população ou veio a pé ou voltou para casa. Esta não é a sua greve.

De manhã, mal se soube da coisa, as lojas fecharam em zonas centrais da cidade, mas o ambiente voltou mais ou menos ao normal - apenas com menos chapas em circulação, indecisos se iriam ou não aderir.

A caminho da padaria, fui inopinadamente nomeado representante da "comunidade internacional" (ou dos "doadores", como aqui se diz), por uma vendedora de mangas sentada no passeio:

- Não dá dinheiro ao governo. Dá machimbombos.*

Parece que os comentadores encartados e o povão estão de acordo acerca do que faz falta para resolver este imbróglio dos transportes.

* autocarros, em português de Portugal

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Semânticas invisíveis

Adam Smith

O porta-voz do partido no poder em Moçambique considerou as manifestações de 5 de Fevereiro, em Maputo, «atípicas e com origem numa mão invisível, que fracassou nos seus intentos de desestabilizar o País».

O meu interesse pela frase não se deve muito à imagem de um povo ordeiro e pacífico (os moçambicanos, que estiveram 30 anos em guerra, primeiro anti-colonialista e depois fraticida, com Campos de Reeducação, execuções públicas e Operações Produção pelo meio), ingenuamente manipulado por tenebrosas, subversivas e desconhecidas forças externas.
Afinal, essa imagem é uma interpretação que até já está bastante vista, desde que Salazar a aplicou às Lutas de Libertação Nacional nas então colónias portuguesas e à resistência anti-fascista na então "metrópole".

Parece-me bem mais curiosa a metáfora da "mão invisível", para designar as tais forças externas, sobretudo num partido reconvertido ao capitalismo liberal.
Seria de esperar que quem a usa num assunto tão sensível se lembrasse de onde tinha ouvido a frase. Foi, claro, em Adam Smith, quando ele teoriza a regulação automática dos preços por parte do mercado concorrencial (com base na oferta e na procura) e, em resultado desta, a selecção entre empresas bem sucedidas e falidas.
Imaginem as interpretações e parangonas de jornais que, com base nisto, se poderiam fazer acerca da origem dos motins na "mão invisível" da economia de mercado, ou em mecanismos automáticos de regulação entre oferta e procura política!...
Talvez, nesse caso, quem falou de "mão invisível" não andasse mais longe da verdade do que Adam Smith, mas tenho algumas dúvidas de que fosse isso que queriam dizer.

Tudo isto me lembra aquela piada russa do puto que, regressando de uma celebração oficial onde ouvira que «caminhamos em direcção ao horizonte radioso do comunismo», foi ao dicionário e ficou a saber que o horizonte é «uma linha imaginária que parece afastar-se à medida que nos aproximamos dela».

A semântica, às vezes, prega partidas ao discurso metafórico dos políticos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Pesadelo (Sur)real

Suponho que a razão será uma notícia que li ontem:
Dois Rotweiller de um alto magistrado mataram o guarda da mansão e começaram a comê-lo, até seram abatidos pela polícia. Os populares que se juntaram tornaram-se ameaçadores, porque o dono dos animais demonstrava muito mais preocupação com a morte deles do que com a morte do homem.

Foi então isto que me deu para sonhar:

Para simplificar e porque quase todas as viaturas abrangidas seriam utilizadas em actividades económicas, o Governo decidiu baixar o preço de todo o gasóleo, em vez de o subsidiar aos chapas.

Sentindo-se lesadas no seu direito a subsídios e benesses, as classes médias e altas, possuidoras quase sempre de viaturas a gasolina de grande cilindrada, ocuparam as ruas em manifestação automóvel, brandindo jerrycans e lançando, em andamento, certeiras pedradas aos peões que nem dinheiro têm para uma bicicleta.

Pedestre que sou, fui atingido por uma senhora bem nutrida, que conduzia um Mercedes em contra-mão.

Ele há com cada pesadelo...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Crónicas dos Motins - 7

QUERIDO ANÓNIMO:

Um simpático Anónimo deixou escrita, nos comentários a "Crónicas dos Motins - 4", a pergunta

«Querias os comandos a defenderem-te?»

Parece-me que a pergunta e a resposta merecem ser afixadas em post:

«Não, até porque não precisava e porque o Regimento de Comandos já não existe desde que o Fernando Nogueira foi ministro da defesa.
Queria que os serviços diplomáticos do meu país não achassem normal que, por ser feriado em Portugal, não tivessem trabalho a fazer durante uma revolta que, na altura, estava em crescendo e era imprevisível nos seus possíveis desenvolvimentos.
Queria que cumprissem a sua missão ou que, pelo menos, fingissem importar-se com os cidadãos do seu país, para além desse outro fingimento de o MNE dizer que estamos todos bem sem o saberem, sem o terem procurado saber ou nos terem deixado informá-los da nossa situação. Tal como, na mesma altura, disse que não havia portugueses no Chade quando estavam lá 5.

Iam na mesma carrinha que nós 4 portugueses de idade respeitável que, mal tinham pisado Moçambique, foram logo levados para o Kruger Park. Seguia-se a Inhaca e ninguém lhes tinha sequer dito se ainda passariam no Hotel Rovuma ou iriam directos para o aeroporto. Quase não falavam inglês, sendo conduzidos por um sul-africano que não falava português e que, compreensivelmente, queria despachar o assunto e ir para casa. O Hotel pelo menos atendeu o telefone depois de uma hora de tentativas, mas nem lhes chegaram a telefonar de volta.
Como é que essas pessoas se teriam sentido, e o que é que lhes poderia ter acontecido, se não calhasse partilharmos o mesmo transporte?»

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Crónicas dos Motins - 6

QUERIDO M.N.E.

Escrevo este post com as reservas devidas a não ter visto a intervenção televisiva que vou comentar. Escrevo-o, mesmo assim, por me ter sido relatada por uma pessoa de toda a confiança e grande exactidão. Se incorrer nalguma imprecisão, desde já peço desculpas e que me corrijam.

Diz-me esse amigo que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da nossa República declarou na televisão que acompanhou de perto os acontecimentos da passada 3ª feira, em Maputo, e que todos os cidadãos portugueses estão bem.

Chamando a vossa atenção para o post «Crónicas dos Motins - 4», mais em baixo, gostaria de colocar duas perguntas ao nosso querido M.N.E. :

1 - Qual a forma que escolheu para acompanhar de perto os acontecimentos, se aparentemente não estava ninguém no Consulado e, da Embaixada, o aparente porteiro dizia que não estava lá mais ninguém?

2 - Como é que sabe que todos os cidadãos portugueses estão bem, se eles não tinham, 3ª feira, ninguém a quem declarar a sua presença em Maputo e a sua situação? Confia o M.N.E. na velha máxima de que as más notícias se sabem depressa?

post scriptum: pode ser (e desejo) que todos os cidadãos portugueses cá no burgo estejam hoje bem. Terça-feira, ajudei a tratar um compatriota que, a meio metro de mim, foi apedrejado nas costas e ficou com cortes de vidro no rosto e pescoço. Não é, felizmente, caso de morte, mas merece um pouco menos de ligeireza por parte das nossas autoridades.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Crónicas dos Motins - 5

ALGUNS FACTOS

foto Savana, 8/2/2008

Terça-feira, ouvi todo o tipo de disparos na estrada da portagem: lançadores de gás lacrimogéneo, caçadeiras de grande calibre, pistolas, kalashnikovs tiro a tiro e em rajada. Um casal inglês que foi apedrejado e se refugiou no mesmo condomínio vinha chocado por ver a polícia disparar balas reais «randomly» (aleatoriamente, indiscriminadamente) sobre as sebes que bordejam a estrada, atrás das quais se acoitavam ao molho homens, mulheres e crianças que eles nem sequer conseguiam ver. Um amigo meu entrou em Maputo numa coluna rodeada por viaturas da polícia que disparavam as suas armas (bem reais) para as bermas da estrada.

Uma bala de borracha não se parece em nada com uma bala real, tal como não se parecm as armas que as disparam. Uma bala de borracha é muitíssimo maior, em diâmetro e em comprimento, e não pode ser disparada por uma espingarda, pistola-metralhadora ou fuzil de assalto.

As fotos dos jornais, quase todas tiradas por detrás da polícia pois fotógrafo também tem medo, mostram as forças policiais, fardadas ou à paisana (sem margem para dúvidas, pois nesse caso estão a prender pessoas), armadas de kalashnikovs, pistolas e, pontualmente, um ou outro deles com uma arma capaz de disparar granadas de gás lacrimogémeo e/ou balas de borracha.

Quarta-feira, um dos canais de televisão mostrou uma intervenção de viaturas da polícia no Machaquene, disparando para as bermas e baleando uma pessoa junto dos repórteres.

Quinta-feira, imediatamente depois de o canal estatal de televisão apresentar uma peça em que o Hospital Central de Maputo declarou ter tratado 78 pessoas feridas por balas reais, e em que um par delas foram entrevistadas, o comandante nacional da polícia reafirmou em estúdio que as forças sob o seu comando só dispararam gás lacrimogéneo e balas de borracha.

Crónicas dos Motins - 1

UMA PEQUENA AVENTURA

2008 02 05.JPG

Antes de mais, descansem que estamos bem!

Aproveitámos este fim-de-semana alargado (não pelo Carnaval, mas pelo Dia do Herói Moçambicano) para dar um salto à África do Sul, em cumprimento das exigências do peculiar Visto que nos obriga a sair do país de tanto em tanto tempo.

Terça-feira, lá regressou a minha família num transfer do Kruger Park, junto com o respectivo condutor e 4 simpáticos turistas portugueses. Atravessámos a fronteira pelas 10h30m, mas nenhuma autoridade nos avisou de qualquer acontecimento anormal - como, por exemplo, os tumultos que desde as 7 da manhã estavam a virar Maputo do avesso.

E a verdade é que chegámos à portagem da Matola sem nada vermos de estranho senão uns polícias que, para os lados da Casa Branca, pareciam estar a chatear algum vendedor de pneus que não pagara "refresco".

Mas a portagem estava fechada. Sobre a cidade, viam-se várias colunas de fumo. Pensámos primeiro num incêndio, embora fosse estranho que estivesse a ocorrer ao mesmo tempo em zonas tão afastadas. Ficámos a saber o que se passava quando telefonei para a senhora que nos ficara com a cadela, a avisar que a iríamos buscar mais tarde do que o previsto.

- Ai, doutor! Nem pense em vir! Estão a fazer greve por causa do aumento dos "chapas" e não deixam os carros passar, na cidade toda. Aqui, já queimaram carros e no Alto Maé um rapaz levou um tiro e não se sabe se vai conseguir viver.

Com o "garrafão" da portagem cada vez mais cheio, lá convencemos o condutor a recuar para a estação de serviço mais próxima. Volta para trás, regressa para a frente, e a zona continuava a parecer calma. Também o posto de gasolina parecia calmo, pelo menos até os 3 seguranças privados que lá estavam evacuarem precipitadamente o dinheiro da caixa...

Por sugestão da Marta, tinha entretanto tentado telefonar, sem sucesso, para uns amigos que moram ali perto, num condomínio mais ou menos seguro. Quando finalmente consegui resposta e declaração de boas vindas, o pessoal concordou em procurar lá abrigo.

Foi uma decisão acertada. Uma hora depois, essa mesma estação de serviço teve que ser ocupada pela tropa. E um amigo que preferiu ir em frente, através daquilo que na altura era uma estrada coalhada de carros imobilizados, chegou a casa com dois pneus rebentados à pedrada(!), embora tivesse passado as barricadas numa coluna rodeada de carros da polícia que disparavam gás lacrimogéneo, espingardas e kalashs indiscriminadamente para as bermas.

Nós regressámos, afinal, por onde já tinhamos passado duas vezes na última meia-hora, sem nada ver de ameaçador. Desta vez, um grupo de mulheres começou a gesticular na outra faixa e, antes de percebermos se aquilo era amigável, gozão ou hostil, vimos um pneu a arder no meio da nossa faixa e entrou-nos um pedregulho por um vidro dentro.

- Deitem-se! Ninguém está ferido?

(Ou, na primeira frase solta pela Marta, «Everybody lie down!»)

Sim, um dos portugueses estava ferido, mas não era grave. As pedras continuavam a cair mas, felizmente, apenas acertavam na chapa e o condutor manteve a velocidade e o controlo do carro, ao contornar os pneus em chamas.

Chegados ao cruzamento, lá conseguimos dar as voltas necessárias para chegar ao portão certo e convencer o segurança a deixar-nos entrar.

Já dentro, ficámos um bocado aparvalhados - eu, um pouco menos, pois tinha andado entretanto a servir de scout pedestre, por o primeiro portão do condomínio estar fechado. Cada um viu se estava mesmo bem, a minha filha chorou por fim um pouco, surpreendentemente pouco, e não estávamos à espera de mais do que a relativa segurança daqueles muros.

Era não contar com a hospitalidade e solidariedade da esposa do meu amigo (que por acaso tinha voado em trabalho nesse dia), que a todos abriu as portas de casa e todos tomou à sua guarda.

Pouco depois, acompanhando as notícias que davam conta da dimensão dos tumultos e ouvindo a confusão ali mesmo ao lado, já torneávamos eventuais preocupações com a precaridade da nossa segurança comentando (aqueles que os conheciam), os ruídos que nos chegavam.

- Olha: agora já não é gás lacrimogéneo e caçadeiras. São tiros de pistola.

- Ah! Agora são rajadas de kalashnikov!

Antes do jantar, já a nossa anfitriã (apoiada pela Marta, que durante umas horas falava inglês com os moçambicanos e português com os sul-africanos) tinha conseguido o impossível: camas para aquela gente toda, na sua casa e em mais duas. O que tinha começado como uma experiência assustadora e bem perigosa começou a parecer-se (apesar do perigo iminente que continuava a existir) com um contratempo relativamente pouco desconfortável.

Pela hora de jantar, os restantes telejornais trataram extensivamente o que se estava a passar. A estatal TVM gastou uns 90% do tempo a falar das ultrapassadas cheias do Zambeze.

A meio da noite, soubémos que as novas tarifas de transporte tinham sido suspensas.

Quarta-feira, com os tumultos também suspensos, voltámos a casa, fazendo slalong entre os restos de pneus, blocos de cimento arrancados sabe-se lá de onde e bocados de árvores que continuavam no meio das ruas. Em frente ao mercado de Malanga, as vendedoras varriam a estrada, para recriar um ar de normalidade que atraísse clientes.

Olhando para as pessoas nesse dia, nada parecia ter acontecido - a não ser por não se verem chapas em circulação e por, aqui e ali, alguns homens meio esfarrapados terem uma expressão de dignidade pouco habitual, os comerciantes paquistaneses tratarem de forma menos brusca os seus empregados e os condutores cumprirem as regras de trânsito.

Maputo era uma cidade bem mais simpática, nesse dia, do que costuma ser.

Crónicas dos motins - 2

ESTAVA ESCRITO

chapas0001.JPG

in Savana, 1/2/2008

Não seria preciso ser profeta ou adivinho para dizer aquilo que ficou escrito, 5 dias antes dos acontecimentos, no penúltimo parágrafo do Editorial do jornal Savana.

A única surpresa possível será que os tumultos fossem tão virulentos e generalizados e que, numa população que já aguentou tanta coisa e continua a aguentar tanta mais, rebentassem logo no dia de entrada em vigor das novas tarifas dos "chapas".

Que é isso de "chapas" (oficialmente, "transportes semi-colectivos")? São velhas carrinhas de 9 lugares (ver foto no próximo post), recondicionadas para amontoarem 19 pessoas sentadas, para além daquelas que tenham suficiente pressa para seguir meias de pé, meias dobradas, com o rabo virado para a cara de outros passageiros ou saindo alegremente pela janela.

Porque é que as pessoas os usam? Porque a companhia pública de transportes tem 40 machimbombos (autocarros) a cair de podres para toda a cidade de Maputo, que ultrapassa largamente o milhão de habitantes.

Um percurso de chapa custa, na cidade, 5 ou 7,5 Meticais (cerca de 15 ou 22 cêntimos de Euro), conforme a distância. Para complicar a questão, algumas pessoas têm que usar dois percursos de chapa para o seu destino e, desde há uns tempos, os "chapeiros" descobriram um novo truque: fazem apenas parte do seu percurso e os passageiros são obrigados a transbordos e a pagar em cada um dos chapas.

Podemos contudo dizer que alguém com a sorte de usar apenas um chapa para o trabalho ou a escola gastará 210 ou 315 Meticais (6 ou 9 Euros). Não parece muito, mas o salário mínimo são 1.400 Meticais (40 Euros), há muito boa gente que só ganha 1.000 ou 800, e um saco de arroz custa mais de 500 Meticais.Os aumentos decididos pelo governo (lógicos, numa perspectiva economicista, dado o aumento dos combustíveis) são de 50% para os percursos mais curtos e de 33,3% para os mais longos.

Should I say more?

Talvez "I should", mas seria muito longo. Porque, temo bem, o problema não são apenas os chapas, mas uma vida que se torna cada vez mais insustentável, uma ausência de alternativas futuras e um sentimento de que, por parte de quem manda e de quem possui (alguma coisa, ou escandalosamente muito), apenas se é objecto de desprezo e de indiferença pela situação em que se vive.


chapas0003.JPG

Noticias, 2/2/2008

Quanto às causas da fúria popular, não será, talvez, preciso cavar muito fundo.

É o custo de vida que sobe, os salários que não aumentam ou descem, a necessidade de mobilizar a criatividade de toda a família - trabalhando os que conseguem, biscatando outros, vendendo qualquer coisa uns terceiros, numa cidade em que meio mundo anda a vender coisas ao outro meio, em porções cada vez menores - para chegar a um mínimo de subsistência que qualquer aumento como este põe em causa.

É o obsceno grau de diferença no acesso à riqueza e a sua ostentação.

É - pondo por outras palavras aquelas que o editorialista deixou escritas - o sentimento de um Estado padrasto que abandonou os seus filhos ao desenrasca perante as leis de um mercado que não existe, numa economia que tão pouco existe fora do "informal", do comércio e dos bons (ou óptimos) empregos a que não têm acesso, e em que os decisores políticos são os maiores patrões e fortunas, tendo aí chegado por já serem políticos quando decidiram privatizações e o dinheiro começou a chover do exterior.

Isto explica tudo? Uma grande parte.

Isto justifica o que aconteceu? Em grande parte.

chapas0002.JPG

Savana, 1/2/2008

Que fique claro: não gosto mesmo nada de levar pedradas e não sei que reacções teria, caso a minha filha tivesse sido ferida com gravidade.

É também evidente que, para parar o trânsito na cidade, os manifestantes poderiam fazer barricadas intransponíveis, em vez de alguns pneus a arder, por onde os carros podiam tentar fugir e ser atacados. O seu objectivo (parar a cidade) não tornava necessário o ataque às viaturas e aos seus ocupantes.

Aqui, há uma outra vertente, nada simpática ou aceitável, mas compreensível: a raiva e vingança para com quem tem muito mais, parece achar natural tê-lo e os outros não, e não põe a hipótese de o perder.

Mas o tumulto que parasse a cidade, esse, temo bem que fosse, infelizmente, a única forma de as suas queixas serem seriamente ouvidas.

Alguém me disse em Moçambique, no ano passado: «Com isto da democracia, podemos dizer o que queremos. Mas ninguém liga ao que dizemos.»

É uma frase que poderíamos bem ouvir em Portugal e que, em parte, se pode aplicar à maioria dos países onde há, pelo menos, um mínimo de liberdade de expressão. Mas há por cá algumas particularidades que tornam a situação diferente em natureza/qualidade e não apenas em grau/quantidade.

Não me saem da cabeça, acerca disso, 3 artigos de um número da Análise Social acerca de Moçambique, que tenho vindo a editar e sairá em meados do ano.

Num deles, João Pereira mostra como as vitórias eleitorais do partido que está no poder desde a independência nada têm a ver com um bom desempenho económico da governação (que só o presidente do Banco Mundial parece ver, conforme reafirmou na véspera dos tumultos) mas, fundamentalmente, com a incerteza e medo daquilo que poderia ser a acção governativa da única força política que - infelizmente, digo eu - poderia constituir uma alternativa: a mesma Renamo que foi o brutal inimigo do governo durante a guerra civil.

Ou seja, governa-se pressupondo que, faça-se o que se faça, o medo e a memória dos eleitores tradicionais garantirão que o poder seja mantido.

Noutro artigo, Jason Sumich cita uma sua amiga, filha das actuais elites politico-economico-sociais, num discurso que parece saído da boca de um(a) qualquer herdeiro(a) de grandes colonos de outros tempos: «Há aqui uma grande diferença que não creio que compreendas. Passas o teu tempo com pessoas como nós, que somos educados e ocidentalizados. Aqueles de entre nós que são privilegiados têm gostos e desejos que são muito diferentes dos restantes. É realmente uma questão de interesses. A maioria das pessoas neste país são camponeses, têm uma machamba e ficam satisfeitos com isso. Não precisam realmente de educação ou de mais e, de facto, não o querem. Muitas pessoas deste país não estão interessadas. Querem que as deixem em paz para cultivarem as suas machambas. Somos nós, os privilegiados, que queremos e precisamos das outras coisas.»

Ou seja, as grandes elites económicas e políticas, que em geral são uma mesma e única coisa, parecem achar que os "pretos atrasados" não querem nem precisam de grande coisa, apenas que os deixem fazer a sua vidinha como puderem - e que, portanto, nada lhes é em última instância devido.

No terceiro artigo que não me sai da cabeça, Harry West mostra como, numa zona do país mítica para a Frelimo e para a luta de Libertação Nacional, o facto de os dirigentes políticos não se limitarem a «comer mais» (direito que lhes é popularmente reconhecido), mas «comerem sozinhos» à custa da fome de todos os outros, é traduzido em acusações de feitiçaria maléfica e canibal - ao contrário da feitiçaria em benefício e protecção de todos, que é sua obrigação e legitimaria a sua posição de poder.

Em suma, as pessoas têm boas razões para pensar, com base na sua experiência empírica, que o "pai" não protege os "filhos" nem sente responsabilidades relativamente a eles, e que meras queixas e lamúrias não seriam mais ouvidas do que todas as anteriores.

As pessoas fartam-se.

E, quando outros meios lhes são negados para, dizendo o que querem, ser ouvido o que dizem, só lhes restam estas tristes soluções - por muito que tal nos possa doer no espírito, no corpo ou na propriedade.

Crónicas dos Motins - 3

MULHERES "DE ARMAS"

um "chapa", pomo da discórdia (foto Savana)

Vi-me ontem no meio de mulheres "de armas":

Antes de mais (com um enorme obrigado) a nossa amiga, que nos acolheu a nós e a mais 4 turistas e 1 condutor que não conhecia de lado nenhum, procurando e arranjando, com uma espantosa eficácia e sempre discreta, alojamento para essa pequena multidão (entretanto acrescida do pai de outro amigo seu), na sua casa e nas casas limítrofes.

Depois, a minha mulher, normalmente nervosa e preocupada em relação a possíveis perigos mas que, face ao perigo bem real, muito contribuiu para a calma dos outros e, depois disso, foi o também discreto e eficaz lugar-tenente da nossa anfitriã.

Por fim (e suscitando ainda mais a minha admiração), a minha filha. Sob as pedradas, disse-me muito baixinho «Pai, tenho medo», mas continuou a seguir atentamente as minhas instruções. Chegados a relativa segurança, um pequeno chorinho de descompressão - espantosamente curto, para uma criança tão nova. Depois disso, um integrar descomplexado e verbalisado do que acontecera e uma naturalidade que, também ela, muito contribuiu para a calma e boa disposição de todos.

Tenho, de facto, sorte com as mulheres que me rodeiam!

Crónicas dos Motins - 4

UM LUSO FACTO

Aos cidadãos portugueses que ontem , no meio dos motins, quisessem reportar às autoridades diplomáticas a sua presença em Maputo, o seu paradeiro e situação, ou mesmo pedir ajuda, ninguém respondia no telefone do Consulado.

No telefone da Embaixada, respondia um senhor dizendo que «é feriado na Embaixada» e, para além disso «há problemas na rua»; «telefone amanhã» porque «hoje não está ninguém».

Tentei que tomasse nota dos nomes e paradeiro dos 7 cidadãos portugueses que faziam parte do meu grupo, esclarecendo que tinhamos sido atacados e havia um ferido ligeiro. Recusou, mandou-me de novo telefonar no dia seguinte e, quando tentei insistir para que apenas assentasse esses dados num papel, desligou-me o telefone na cara.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Farsas e tragédias

in Domingo

Numa altura em que o norte de Moçambique é desflorestado em grande velocidade por explorações madeireiras rapaces e descontroladas, as actuais retóricas acerca de uma tal de “Revolução Verde” (que não é a da Líbia) traz-me sempre à memória uma velha anedota e uma ainda mais velha citação.A coisa acaba sempre, assim, por cair um bocado no jocoso.

Esse tom passa bastante pelo post que se segue e, para vos convencer a lê-lo, começo pela anedota:

O patrão de uma lojeca de esquina repreendeu o empregado por ter dito a um cliente que não tinha o produto que ele pedira.

- A gente nunca diz que não tem! Não temos isso, mas temos sempre outra coisa que serve muito bem para o que o cliente quer. É preciso é convencê-lo.

Pouco depois, dizia o empregado a uma cliente:

- Pois… papel higiénico de momento não temos. Mas, para o que a senhora deseja, temos aqui uma lixa nº3 que é um mimo!

O que possa ser a tal de “Revolução Verde” (para além do que em seguida explicarei), ninguém sabe porque ninguém diz.

O que se sabe, porque é a única coisa que entusiasticamente se fala e diz planear, é que ela é, nem mais nem menos, a produção extensiva de bio-combustíveis para um mercado internacional que se espera em crescimento exponencial – sendo de pressupor que isso só possa a ser feito tanto pelos camponeses, em detrimento da produção alimentar, como em grandes farms, estas provavelmente instaladas em terrenos de onde os camponeses sejam corridos, em troca de locais a que nos EUA se chamariam “reservas”.

Não interessa se o representante local da FAO disse, com pezinhos de lã (pois, por aqui, só falam com botas cardadas o Banco Mundial e o FMI), que isso agravaria os problemas de fome e segurança alimentar. Não interessa se os velhos teóricos periféricos do subdesenvolvimento, embora não tenham criado receitas eficazes para resolver o problema, apontaram bastante bem as suas causas e mecanismos de reprodução – incluindo, em lugar de destaque, estes grandes projectos/desígnios de monoculturas para exportação sem valor alimentar local.

É, pelo menos na retórica, um imperativo de Estado – apadrinhado, claro está, pelos ditos BM e FMI – e isso basta.

Convém notar que a agricultura é, em Moçambique, uma coisa um bocado chata para as estatísticas.

Embora produtos agrícolas de primeira necessidade sejam, no essencial, a única coisa que o país produz para além de electricidade (Cahora Bassa), alumínio (Mozal), consultorias para as ONGs e, agora, madeiras nobres (enquanto as houver), e embora uma parte não negligenciável dessa produção acabe por ser comercializada, é-o nessa cena antiquada que passa ao lado de lojas registadas, impostos e controle estatal. Sobretudo, ao pessoal (seja produtor ou comprador) dá-lhe para comer esses bens económicos, que por isso não podem ser exportados.

Mas há sempre, como saída, a grande lição do patrão da lojeca, tão bem aprendida pelo seu empregado:

- Não temos petróleo (até ver), mas vamos cobrir o país de futuros bio-combustíveis!

- Não temos a colonial produção compulsiva de algodão (de que tão justamente se disse todo o mal que havia a dizer), mas teremos a “globalizada” Revolução Verde!

( Como antes se poderia ter dito:

- Não temos a Lei do Passe do apartheid, mas temos a Operação Produção! )

Entretanto, novas nostalgias e substituições se perfilam, num outro registo, como prefigura o artigo que ilustra esta diatribe (clique nele para aumentar):

- Já não temos Campos de Reeducação, Aldeias Comunais e deportações para o Niassa, mas temos uma nova Revolução (Verde) para organizar o desorganizado povo!

- Não mandamos em nós, mas mandamos nos camponeses!

Chega agora a citação:

O velho Marx tinha dito, no “18 de Brumário de Louis Bonaparte” se a memória não me atraiçoa, que a história se repete, uma vez como tragédia e a segunda como farsa.

Creio que o meu amado barbudo se enganou:

As réplicas farsolas podem ser muito mais do que uma. Podem até tornar-se um hábito.

E essas farsas podem facilmente transformar-se em tragédias.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Terra à vista

foto Notícias


Com a diminuição das descargas de Cahora Bassa, a água vai baixando no Zambeze e a crise parece estar passada.

Volto a louvar o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, pela abordagem prospectiva e atempada da situação.
Comentava hoje um colega, de forma algo blasé, que são previsíveis as zonas que irão alagar. Sê-lo-ão, certamente; mas para transformar essa previsibilidade em resposta eficaz é necessária planificação, organização e competência.
No dia em que (dream on...) essas características passem a estar presentes, ao nível exigível, nas instituições públicas - aqui ou noutros países, incluindo as estruturas de protecção civil - deixarei de me sentir na obrigação de as louvar.

A partir de agora, lá voltará o pessoal a casa - nuns 20.000 casos, segundo as estimativas iniciais, a reconstruir.
Voltarão também as polémicas citadinas acerca da suposta "burrice" e "casmurrice" das populações zambezianas.
Depois de cada cheia nesta zona, as instituições estatais costumam dar apoio em cimento, chapas de zinco e comida, a quem construa casas em alvenaria nas zonas altas. As pessoas têm, pelo seu lado, que fazer os tijolos e construir, o que não é complicado face às tipologias de habitação e aos saberes existentes.
Acontece que grande parte das pessoas costumam receber os materiais e ir construir em zonas alagáveis, apesar das acções de sensibilização.
Para alguma gente discutindo o assunto na poltrona da sua sala, afinal, «eles (e/ou os respectivos régulos) estão mesmo a pedi-las».

É esquecer, para além das razões simbólicas e micro-políticas, uma coisa simples: Sobretudo para populações ribeirinhas, porque é que se havia de partir os rins a cultivar terras secas e pouco férteis, quando estão ali disponíveis terrenos de aluvião, já bem conhecidos?
Depois, já mostrava Adolfo Yañez -Casal, no seu livro Antropologia e Desenvolvimento: as aldeias comunais de Moçambique, quando uma pessoa se desloca a pé para fazer trabalhos agrícolas, a distância é uma variável essencial da racionalidade económica. A partir de certa altura, o tempo gasto na ida e vinda à machamba torna-se contraproducente. Ou seja, cultivar à beira rio implica não morar a grande distância da margem.

Com tanto dinheiro correndo para tantos estudos (quer os das sucessivas "modas" academico-oénegéticas, sempre repetitivos entre si, quer os mais absurdos que imaginar se possa), talvez fosse esse o estudo que realmente valesse a pena: como resolver este problema, a contento da segurança e das necessidades das populações?
Talvez se viesse a ver que alguns saberes antigos, como a dupla residência sazonal, mereceriam ser recuperados. Ou talvez se descobrisse, entre as pessoas, o germe de novas soluções.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Tragédia das calamidades

foto Savana

Fui hoje almoçar a uma conhecida esplanada de Maputo, que parece concebida para fazer com que os sul-africanos de origem europeia se sintam em casa.
Excepcionalmente, para um domingo de verão, não havia muitos representantes dessa digna e autoproclamada tribo africana. Em compensação, na mesa ao lado terminavam a sua refeição 3 italianos e 2 franceses.
Chegada a (sua ) hora do whisky e da cigarrilha, começaram a discutir com alguma gulodice, primeiro nas suas línguas respectivas e depois em inglês, all together, a quantidade de fundos que as suas conhecidas e respeitadas ONGs iriam conseguir angariar, «para depois das águas baixarem».
Que fique claro: aqueles homens não estavam a discutir (ao contrário do que noutras vezes ouvi abertamente a outra nacionalidade, acerca de outros assuntos) quanto dinheiro iriam conseguir meter no próprio bolso. Quanto a isso, suponho, bastar-lhes-ão os salários hiper-inflaccionados e o nível de vida que nunca poderiam ter nos seus países respectivos. A questão era dinheiro para projectos dirigidos pelas suas organizações.
A certa altura, um mais novato ou ingénuo disse algo que todos estavam carecas de saber e de ter em conta: «Depende muito da forma como o problema for apresentado nos media europeus».

No sentido original da palavra (grego e dramatúrgico), há uma tragédia com as calamidades, talvez também em muitos outros sítios, mas certamente aqui. A sua origem está no facto de, tirando as vítimas directas, quase toda agente beneficiar com elas.
O governo ganha mais fundos internacionais e mais tolerância para com o incumprimento de compromissos ou metas assumidas (tem apenas que gerir com cuidado a intervenção de ONGs e organizações internacionais, ou depois é difícil livrar-se da sua presença no terreno).
A todos os níveis da administração, há quem ganhe com a abundância de meios financeiros e materiais ali à mão de semear, em alturas de confusão que justificam todas as discrepâncias entre o recebido e o utilizado no terreno.
Nos bairros populares, ainda hoje famílias pobres mas com alguma capacidade de pequeno investimento vivem da revenda à peça de "fardos das calamidades" oferecidos em solidariedade para as vítimas das cheias de 2000 e seguintes, mais tarde vendidos em leilões oficiais ou por quem então os desviou.
Os seus ainda mais pobres clientes têm com isso acesso a peças básicas de vestuário a preços comportáveis.
As ONGs reforçam os seus meios, conseguem sustentar e justificar as suas pesadas e caríssimas estruturas (caras não apenas com estrangeiros; para que não roube, paga-se a um contabilista local um salário líquido de 3.000 dólares, num país em que o salário mínimo é de uns 65), podem apresentar relatórios quantitativamente impressionantes e capazes de escamotear a ausência de resultados ou efeitos preversos por que, na maioria dos casos, se costuma pautar a sua acção corrente - e, afinal, legitimar a sua existência e custos.

Mas, para isso, uma boa calamidade é, como desnecessariamente salientava o novato da mesa ao lado, uma calamidade grande e descontrolada.

Pergunto-me se será por isso, ou por mera avidez mediática pelo sangue, que as primeiras reportagens internacionais foram factualmente erradas e, aparentemente, tão exageradas.
Pergunto-me se será por isso, ou por previdência em relação ao possível evoluir da situação, que, com uma previsão inicial (e aparentemente pessimista) de 90.000 vítimas, chegou ao porto da Beira comida para 250.000 pessoas.
Pergunto-me se será por isso que os números de evacuados flutuam tanto e que, somando os números de todos os campos de reassentamento mencionados nos media, se fica tão longe dos 63.000 oficiais.
Pergunto-me se será por isso (e pelo parágrafo anterior) que se fazem grandes parangonas com a suposta instigação dos régulos (assim, no generalizado) ao abandono dos campos de reassentamento e regresso a zonas alagadas, quando é apenas mencionado um caso, numericamente irrelevante.

Neste quadro, também, espanta-me que um vice-director do INGC responda aos media que os meios disponíveis ainda são suficientes, quando o seu governo acabara de conseguir, de estados estrangeiros, que o orçamento de combate a estas cheias venha a subir de 3,2 para 32 milhões de dólares.
Honestidade? Ingenuidade política da parte de alguém que raciocine essencialmente como técnico?