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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A Inhaca continua linda

Só que:

- O lodge de palhotas onde a filhosca começou a existir foi deitado abaixo.

- O dono do meu restaurante favorito foi comido por um crocodilo que também achou boa ideia mergulharem juntos.

- O burro que metia medo a toda a gente mas decidiu ser meu amigo morreu envenenado.

- A maré e os ventos decidiram estar contra nós.

- Os curandeiros tinham mais que fazer do que me aturar.

Como dizem que dizia o outro, «É a vida...»

sábado, 2 de agosto de 2008

Estímulo ao SIDA


Regressado hoje a Maputo, fui surpreendido pela faixa propagandística que atravessava uma avenida e anunciava a Semana do Aleitamento Materno, sob o muito olímpico lema Aleitamento Materno, o Caminho para a Medalha de Ouro.
O Navegador Solitário levou-me, entretanto, a um artigo do Notícias, em que se afirma que «o Governo tem como uma das prioridades promover o aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses».

Confesso que não percebo muito bem o que é que há a promover, já que a quase totalidade da população pratica o aleitamento materno, quanto mais não seja por não ter acesso a outra alternativa, se a quisesse.
Será que a campanha se dirige às camadas abastadas? Mas por que a fazer, então, nos bairros populares?
Será que é uma daquelas coisas que se fazem porque há dinheiro disponível e sempre se pode dizer que se fez?

No entanto, o mais desagradável e preocupante com esta campanha não é a sua redundância, num país com tantas carências de saúde, mas algo que já aflorei por aqui:

É dito no artigo, pela voz de uma responsável governamental, que «o aleitamento materno protege as crianças de infecções como a diarreia e a pneumonia e acelera a recuperação após o parto». E é verdade.
É também dito que «o leite materno é o melhor alimento para os bebés, pois satisfaz as necessidades nutricionais completas quando dado exclusivamente até aos seis meses». E é verdade, também.

Mas outra verdade, relevante num país com uma elevada taxa de infecção por HIV, é que o aleitamento materno, por parte de mulheres seropositivas, é um dos principais factores de infecção dos filhos.
A placenta é um poderoso filtro contra o virus. Sabe-se há mais de 10 anos, por estudos realizados em diversos países, que apenas 12 a 14% dos filhos de mães seropositivas ficam infectados, caso nasçam por cesariana e não recebam aleitamento materno. Com parto natural e amamentação, estes números duplicam.

É, portanto, do mais elementar bom senso detectar tão precocemente quanto possível o HIV nas grávidas, proporcionar parto por cesariana às seropositivas sempre que tal seja possível, e fornecer-lhes condições para não amamentarem, pois a grande maioria delas não terá dinheiro para leite em pó ou conhecimentos acerca da necessidade e forma de esterilizar água e biberões.
Não, certamente, tecer loas universais ao aleitamento materno que, ainda por cima, quase toda a gente pratica.

É por isso que fiquei chocado ao ler em 1999, numa revista gratuita que por aí havia, chamada Que Passa?, um artigo daquilo que parecia ser um médico sueco, negando que o aleitamento materno aumentasse o perigo de transmissão de HIV e defendendo que o perigo estava, antes, em alternar peito e leite em pó...
Cientificamente, isso era já, na altura, uma conhecida mentira.
Eticamente, era um apelo ao infanticídio.

9 anos depois, é mais que tempo de mudar de rumo, de discurso e de práticas.
Porque, se uma Vice-ministra da Agricultura não tem obrigação de perceber destas coisas, um Ministério da Saúde tem.
Adenda - Numa calinada que demonstra que não lemos as palavras letra a letra, crismei como "Navegador Solitário" o blog do Agry White, que tem um título muito mais interessante e subtil: Navegador Solidário. As minhas sinceras desculpas ao autor.

Análise Social na TVM


Fiquei a saber que o artigo «Antes o 'diabo' conhecido do que um 'anjo' desconhecido»: as limitações do voto económico na reeleição do Partido Frelimo, que João Pereira publicou no número da Análise Social acerca de Moçambique, foi há uns dias objecto de debate televisivo.

Parece que se esqueceram foi de convidar o autor...
Assim à primeira vista, parece-me que não é apenas uma questão de boa educação.
Sei lá: às tantas, pode ser que o homem tivesse alguma coisa a acrescentar ou a esclarecer, acerca das hipóteses que avança, no trabalho que é seu. Podia ser, até, que os tele-espectadores tivessem alguma coisa a ganhar com isso.

Mas isso sou eu a falar. Eu, que não sou nem moçambicano nem programador de televisão.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

HIV cada vez mais doença crónica

Já há mais de 10 anos que ouço médicos especialistas dessa matéria a defenderem que a infecção com HIV, causadora do SIDA (AIDS, no Brasil), deve ser considerada uma doença crónica em termos legais e terapêuticos, e não uma doença aguda, fulminante e terminal.
Essa posição tinha a ver com a capacidade de controlo da infecção ao longo do tempo e com o aumento da esperança de vida dos doentes decorrentes da terapêutica tríplice, que veio substituir a mera administração de AZT.

Sabe-se agora que a esperança de vida dos doentes aumentou muito desde então (mais 13 anos do que em 1996/1999).
Essa melhoria parece ter a ver com desenvolvimentos nos medicamentos e na sua forma de administração.
Há 10 anos, era impressionante ver criancinhas seropositivas a "treinarem" a ingestão de comprimidos (inertes) cada vez maiores, até conseguirem engolir coisas com o enorme tamanho dos comprimidos "a sério" - que, por vezes, chegavam a ter que tomar 20 vezes por dia. Agora, dizem, tudo se reduz a um comprimido diário e o desconforto causado pela medicação diminuiu muito. O que diminui também muito a quantidade de doentes que desistem do tratamento.

Infelizmente, estas boas notícias só valem para os países onde a disponibilidade do tratamento é generalizada e custeada pelo Estado, ou para quem tenha o (muito) dinheiro para o pagar do seu bolso.
O que recoloca a questão de decisões como a do Brasil, quanto ao pagamento de patentes no caso de doenças como esta.

Não podemos, entretanto, esquecer que muito mais poderia ser feito e não é, por incúria e/ou alegando "particularismos culturais" que nem sequer se conhecem.

Por exemplo, sabe-se também há mais de 10 anos que a percentagem de transmissão do HIV das grávidas para o bébés desce drásticamente quando se faz o parto por cesariana e quando a criança não é amamentada com leite da mãe.
É verdade que em países como Moçambique a disponibilidade de obstectras é limitada, em número e no território. Mas, por causa disso, não vale a pena adoptar esse cuidado com o parto, nos locais onde eles existem?
É verdade que leite em pó custa dinheiro. Mas é mais caro do que os anti-retrovirais, e do que o custo social e humano de ter quase o dobro de crianças seropositivas?

Mas também com os países mais pobres poderiam os ricos aprender.

Se a chamada batata africana é a base das terapêuticas "tradicionais" na África austral e efectivamente melhora a qualidade de vida e a longevidade dos seropositivos, e se foi já testado que ela não tem efeito anti-retroviral mas é um potente tónico do sistema imunitário, porque não juntá-la numa terapêutica "quádriplice"?
Haveria certamente vantagens para os doentes, por esse mundo fora. E, dos lados de cá, isso seria uma óptima legitimação moral para opções "à brasileira".


Adenda: Já agora, quem tiver interesse na questão do uso inconsistente do preservativo, suas razões e contradição com o discurso epidemiológico, dê uma vista de olhos neste artigo do Emídio Gune, publicado no último número da Análise Social, dedicado a Moçambique.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Curandeiros(as) teenagers

E por falar em teenagers:

Há mais de um ano que conheço o Pedro Cossa (na foto), mas sempre pensei que fosse mocinho aí para a minha idade.
Afinal, fiquei ontem a saber que é 8 anos mais novo e que teve a doença do chamamento aos 14 anos. Aos 17, tinha acabado o curso e era já curandeiro.

Acontece. Mas surpreendeu-me mais saber que, quando ele chegou ao quintal da sua mestra para começar a aprender, havia uma miúda de 10 anos a exercer já a profissão.
E mais ainda que, hoje em dia, se tornou bastante frequente encontrar crianças de 10, 12 ou 14 anos a acabarem o curso.

Para quem não saiba, essa profissão é suposto implicar uma possessão por espíritos a que se torne inadiável dar resposta e, por outro lado, só cerca de 1/5 dos assuntos que os curandeiros urbanos atendem têm a ver com questões de saúde. O resto são problemas familiares ou sociais - que não se coadunam muito com veredictos de crianças, quanto à sua resolução.

Nem o Pedro nem eu encontramos razões plausíveis para esta infantilização da entrada na profissão de curandeiro(a). Alguém tem uma dica pertinente?

Citações de café (11)

FILANTROPIA Séc. XXI

Na mesa ao lado, discutiam-se hoje pormenores de um qualquer projecto de desenvolvimento.

- And it will not be a problem, the extra car and the extra fuel, if we do it that way?

- No. This project will make huge profit. It will be our major source of income, this year and the next.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Molhas no Índico

Tenho realmente imenso para escrever por aqui.
Para além de outros temas, a actualização dos comentários no «Risco» em Debate e o post-forum sobre Lobolo que há muito prometi à Samya...
Infelizmente, o tempo parece estar a encolher, enquanto engorda o meu cansaço ao fim do dia.

No entanto, passei pelo Digital no Índico e fiquei com a vontade de partilhar convosco estas duas fotos, da maior molha que me lembro de ter apanhado em trabalho de campo.
Foi numa travessia de barco entre Maxixe e Inhambane, há uns tempos atrás. Uma imensidão de tempo a apanhar com chuva, sem haver como fugir, até já não interessar que ela caísse, pois já nada mais havia para encharcar.

Salvaram-se as imagens.
Espero que gostem. Os textos voltam logo que possa.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Parabéns a nós (atrasados)

Acordei dia 2 sem internet e só há pouco voltou.
Vai por isso dois dias atrasado o "parabéns a nós" para o Daniel, o Flávio e o César.

*****

Entretanto, fiquei a saber pelo Notícias de ontem que os habitantes do bairro Luís Cabral, aqui por Maputo, me deram uma prenda de anos.
Um ladrão que já estava amarrado e com um pneu à volta do pescoço acabou por ser entregue à polícia, porque nenhuma das pessoas que o prenderam teve coragem para, pessoalmente, lhe deitar fogo. Entretanto, um grupo de idosos conseguiu apelar à calma.
Obrigado a todos.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Parabéns a você!

Moçambique celebra hoje o 33º aniversário da sua independência.

33 anos de uma história movimentada, com sonhos, desilusões e abusos, com uma guerra difícil e uma paz surpreendentemente fácil, com desigualdades crescentes mas um povão com uma extraordinária capacidade de dar a volta ao infortúnio.
Mas uma história que é a sua, porque é seu o país, conquistado a um regime iníquo.

Parabéns a você, Moçambique!
Um grande abraço, moçambicanos!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Citações de café (10)

MATEMÁTICA PARA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA


Na televisão, ao lado da mesa, passa hoje o telejornal da estatal TVM.

O pivõ: Na província de Gaza, foram este ano despedidos 10 funcionários públicos, na maioria dos casos por abandono do posto, mas também por mau atendimento ao público.

Uma responsável provincial: ... também foram despedidos este ano 10 funcionários, a maioria por abandono do posto. Há alguns casos, poucos de indisciplina. Alguns até com violência. Mas a maioria, podemos dizer que 95%, foi por abandono do posto.


(É verdade: há quanto tempo não visitam o "Que diz o pivõ?")

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Excelência premiada

O Clube dos Jornalistas atribuiu a Joaquim Furtado o Grande Prémio Gazeta 2007, pela sua série documental A Guerra, cujos primeiros 9 episódios foram exibidos o ano passado na RTP.

Só conheci Joaquim Furtado fugazmente, num debate que promoveu acerca da morte de Comandos na recruta. Mas sempre acompanhei com muita atenção tudo o que foi fazendo, com aquela seriedade e qualidade acima do habitual.

Agora, depois de um ascenso institucional e de uma aparente estadia "na prateleira", brindou-nos com esta extraordinária série!
Ao longo dos 9 episódios, sei que há quem não tenha gostado disto ou daquilo.
Considero isso normal e desejável pois, precisamente, ela não pode agradar a todos.

Porque não é a versão oficial de ninguém, mas um completo repositório dos olhares de pessoas das diversas partes envolvidas que, para além de nos proporcionar essa diversidade, nos permite compreender pontos de vista, sentimentos e leituras da história que não estamos habituados a equacionar. E perceber como elas interagiram.
Tudo isto acompanhado por uma contextualização que se faz discreta e pelo desfazer de algumas mitologias que se vieram arrastando, em Portugal e nos países que com essas guerras alcançaram a independência. Não é, Cabo Delgado?

Discordem e objectem, se tal for a vossa opinião.
Para mim, raramente este prémio foi ou voltará a ser tão merecido.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Citações de café (9)

ESCOLA

A citação de hoje é visual.

É uma pintura mural no Clube dos Professores («com pizaria»), em Maputo, realizada por um senhor de apelido Mabote que me dizem ter sido, na altura, desenhador textil na Coelima que deus tenha.

Embora esteja datada de 2002, esse é apenas o ano em que foi refeita, a par de uma re-pintura do estabelecimento.
Já a conheci em 1999, mas tinha na altura ligeiras diferenças.
Uma das personagens que estão de costas tinha apenas duas pernas, em vez de três. E, sobretudo, havia uma vela a alumiar o livro do professor.

Não estou certo de qual era a simbologia que o autor queria transmitir - mas, a julgar pelo resto, talvez o efeito desejado fosse essa dúbia possibilidade de a vela poder representar quer o conhecimento rompendo as trevas, quer a falta de iluminação eléctrica.
Suponho que uma tal duplicidade já seria, em 2002, de um miserabilismo inaceitável numa cidade em que não possuir um 4X4 de luxo é um sinal de incapacidade para aproveitar as oportunidades que por aí correm.

Mas olhemos para aquilo que hoje podemos ver.

Reparem como só uma personagem (e aparentemente "bem casada") está atenta ao que o professor diz.
Os outros estão a "apanhar uma seca", a falar de outra coisa, a pensar na vida ou em quando poderão sair dali, a controlar o que fazem os restantes ou, sobretudo, a tentar namorar.
Num dos casos, a mulher está agradada e nos outros não. Porque, nesta parede, são sempre homens quem tenta namorar - mesmo aqueles que surgem, lá ao fundo, disfarçados de inócuas cabeças "à Malangatana" e que são bem mais do que um mero plágio estilístico.
O professor, entretanto, discorre a sua sabedoria sem olhar para ninguém, mas para um distante ponto (no espaço, no tempo e no imaginário?), para onde mais ninguém olha.

Tal como esta foto do Naita Ussene é um tratado sobre a educação sexual anti-HIV, esta pintura mural é uma aula de antropologia da educação e sobre as visões populares que a escola suscita.
Tentei, de facto, leccionar essa aula in loco, há uns anos atrás.
Os alunos devem ter achado que uma aula num restaurante ao ar livre punha em causa a sua dignidade académica.
Não sabem o que perderam.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Citações de café (8)

SEGURANÇA INFANTIL

Os adultos discutiam as vantagens e perigos de instalar cercas eléctricas.

- Eu, se fosse uma pessoa crescida, punha era muitos pães no muro, com manteiga, queijo e chocolate, e quando um ladrão viesse já tinha coisas para comer e não roubava a casa.

sábado, 14 de junho de 2008

Assassinatos de albinos na Tanzânia

Umbhalane pediu-me para comentar e enquadrar uma notícia recente que dá conta do clima de medo entre os albinos de Dar Es Salaam, devido a assassinatos de que têm vindo a ser alvo, para que partes dos seus corpos sejam utilizadas em feitiços de enriquecimento. Uma notícia divulgada pelo Carlos Serra.

Sinto-me sempre um bocado desconfortável quando tento explicar, em poucas palavras, as razões culturais de fenómenos chocantes como este, porque pode ficar a impressão de que, por essas razões existirem, estamos a desculpar aquilo que acontece.
Esclarecendo que não é disso que se trata, vou então tentar corresponder ao pedido.
Aviso os leitores, no entanto, que a própria explicação é chocante.

A inclusão de partes de cadáveres humanos nos mais poderosos tratamentos e amuletos destinados a obter e manter riqueza ou poder é uma prática existente em toda a África austral, relacionada, por exemplo, com as mortes e roubos de orgão não transplantáveis de que temos notícia de vez em quando.

A razão para essa prática é dupla:
Em primeiro lugar, é suposto que esse tipo de tratamento se "paga em sangue" (com mortes) ao longo do tempo, sendo a morte da pessoa cujo corpo é utilizado o primeiro pagamento ao espírito que vai trabalhar para garantir riqueza e/ou poder a quem o encomendou.
Em segundo lugar, a integração de partes do corpo do defunto responsabiliza-o com o trabalho desse espírito.

Em Moçambique, que eu saiba, não existe uma predileção pelo uso de albinos nestes tratamentos e amuletos, mas é de esperar que isso possa vir a acontecer a curto prazo.
Isto porque, por um lado, a circulação transfronteiriça de novas técnicas mágicas costuma ser muito rápida e porque, por outro lado, as crenças que servem de base a essa predileção pelos corpos de albinos também existem aqui.

Há um respeitado colega que atribui a crença de que os albinos não morrem, mas apenas desaparecem, à recusa social da sua posição liminar de não serem "negros" nem "brancos". Esse aspecto é pertinente hoje em dia, mas a crença tem raizes mais antigas e razões mais complexas.

É suposto que os gémeos e os albinos resultem de um mesmo fenómeno: foram atingidos por um raio dentro do ventre materno; os gémeos partiram-se em dois e os albinos resistiram, mas ficaram queimados, perdendo a cor.

Em resultado disso, ambos se tornam "demasiado quentes" e "trovoadas sem chuva", sendo um perigo para a harmonia social, para a saúde pública (são kuhisa) e para a fertilidade da terra. Por isso (tal como os abortos, os nados-mortos e as respectivas mães) não podem ser enterrados em terreno normal, pois "secam a terra".
Os gémeos devem ser enterrados em terreno húmido e (para sua segurança) o gémeo sobrevivente deve tratar o falecido como se ele tivesse desaparecido. Não pode ir ao funeral, não pode chorar por ele e, se alguém lhe perguntar pelo irmão, deve dizer que se ausentou para longe.
Concentrando em si (ainda mais do que os gémeos, pois resistiu ao raio) o poder celeste, a ligação ao céu e a ameaça de seca de uma forma suprelativa, o albino é suposto nem sequer poder ser enterrado, mas desaparecer. Os seus familiares mais próximos devem enterrá-lo em segredo, também em terreno húmido, e agir como faz o gémeo sobrevivente, negando a sua morte.

O albino é, de acordo com estas crenças e práticas, a pessoa com mais poderes disruptores e a maior ameaça de "secar o chão", secar a fertilidade e a sobrevivência colectiva.

Ora o enriquecimento individual é visto, tradicionalmente (aliás, à imagem do poder que não redistribui o bem-estar), como um abuso que requer feitiçaria e que é feito à custa da comunidade. Quem enriquece para si próprio "seca" a riqueza à sua volta.
De acordo com esta lógica, então, o uso de partes de corpos de albinos nos tratamentos e amuletos de enriquecimento e/ou poder é uma mais-valia para a sua eficácia.

Por tudo isto, repito, temo que as más notícias que nos chegam da Tanzânia nos poderão começar, em breve, a chegar de dentro de Moçambique.
Convém que os albinos, os restantes cidadãos e os poderes públicos se preparem.

sábado, 7 de junho de 2008

A ouvir golos em Maputo

Acabei de ouvir os 2 golos do Portugal X Turquia.

Ouvir, porque me convenci, lá por alturas do intervalo, que nem a televisão estatal moçambicana (detentora dos direitos cá no burgo) nem a RTP África ou Internacional iriam transmitir o jogo.
A primeira, deve ter achado mais importante o Suiça X República Checa, talvez pela importância da Missão Presbeteriana na história da Frelimo e da libertação nacional.
As outras, devem ter achado que não se justificava pagar à TVI para assegurar a transmissão internacional (não haverá nenhuma cláusula de interesse público nestes casos, tão perto do 10 de Junho de tanta coisa?), mantendo a habitual programação "para-emigrante-que-é-imbecil-e-quer-é-fado-e-vira" e/ou "para-preto-que-come-o-que-a-gente-lhe-der-e-que-se-lixe".

A piada é que não tenho rádio. Ouvi os golos em rádio on-line no computador - um canhão para matar moscas.
Apesar de tudo, um pouco menos ridículo do que ficar sentado frente à televisão sem imagem, a ouvir a RDP através da TV Cabo...

O drama é que não sei se os golos foram bons ou não. Só que o senhor que gritava golo berrava muito tempo, ficava a meio com uma voz aflautada e, no fim, rouca. Suponho que faz parte, quer tenha sido uma jogada histórica ou um frango num atraso para o guarda-redes.
Também não sei se o jogo foi bom ou não. Só sei que a voz dos senhores galopava, fosse o que fosse que comentassem, que se contradiziam e que não faço ideia se posso confiar naquilo que eles acham, estando eles com aquele speed todo.

Suponho que são limitações de já se ter visto, na televisão lá de casa, o homem descer na lua em 1969...

Já agora, peço a quem viu que me diga como foi.
Eu fiquei sem imagem. Como este post.

Para outra gente na minha situação, aqui estão os golos, cortesia do Ridwan. Obrigado.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Citações de café (7)

- Não se preocupa que as tradições estejam a mudar?! Então o trabalho dos antropólogos não é preservar as tradições?

- Não. Os antropólogos não são geleiras de culturas.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Linchamentos e aprendizes de feiticeiro

Carlos Serra tem vindo a divulgar as respostas de crianças de escolas primárias às perguntas (feitas numa pesquisa que coordena) sobre: (1) o que se deve fazer a um ladrão?; (2) o que se deve fazer a um feiticeiro?
A resposta que aqui reproduzo é uma das mais soft, pois aos ladrões "só" se devem cortar os dedos, e não matá-los.

Não consigo deixar de pensar numa pesquisa anterior muito "badalada", que incluía intervenção social - o mega-projecto sobre Justiça em Moçambique, tribunais "formais" e comunitários, direito local e pluralidade jurídica, coordenado há alguns anos por Boaventura Sousa Santos.

No seminário em que foram apresentados os seus resultados, alguém insistiu para que um participante no projecto dissesse também algumas palavras. A contra-gosto, o colega lá teve que reconhecer que todo o processo lhe tinha deixado mais dúvidas no fim do que no início, onde tudo parecia bonito.
E contava. No terreno, veio ter com ele um régulo, dizendo que tinham um problema criminal e perguntando como devia tratar do assunto.
- De acordo com as vossas regras e costumes. É esse o nosso objectivo.
- Está bem. Então, queimamos a feiticeira.

Assisti, um par de anos depois, ao julgamento em tribunal comunitário de um caso de violência doméstica.
Como, farta de ser agredida ao longo de anos, a mulher tinha feito da última vez o acto inconcebível de se virar ao marido, passou, em poucos minutos, de queixosa a suspeita de feitiçaria.
Reunido um tribunal especializado acerca deste novo assunto, foi também rapidamente declarada culpada, com base em meios de prova de que me recuso a falar aqui.

Há duas perguntas que não me saem da cabeça:

Qual será a contribuição (e quota-parte de responsabilidade) do projecto de Boaventura para a quase unanimidade de respostas linchatórias que a equipa de Carlos Serra está agora a receber das crianças?

Em que medida é que projectos interventivos bem intencionados, que se julgam emancipatórios e respeitadores da diferença de abstractos povos "puros", de "bons selvagens", não funcionam como aprendizes de feiticeiro com consequências potencialmente terríveis?

Nas páginas finais deste artigo, tinha feito algumas reflexões, no abstracto, acerca deste tipo de questões.
Mas o concreto doi mais. E mata.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Combate à pobreza

Tractor arrasando machambas plantadas nos terrenos de uma entidade pública, sem aviso prévio a quem as plantou e cuidou, para que pudessem colher o que fosse possível.

Uma das cultivadoras, ao chegar na madrugada seguinte.

domingo, 1 de junho de 2008

Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos



Está finalmente em fase de "acabamentos" o artigo «Twins, albinos and vanishing prisoners - a Mozambican theory of political power».

Tentarei disponibilizar logo que possível uma tradução em português.
Entretanto, aqui fica o resumo, esperando pela vossa crítica e sugestões:

Tal como era já mencionado em referências etnográficas há muito conhecidas, os gémeos e albinos são vistos, no sul de Moçambique, como o resultado e causa de calamidades cósmicas.
Eles foram atingidos por raios no útero das suas mães e secarão a terra, a menos que sejam sepultados em terreno húmido, ou simplesmente "desapareçam".
As condições especiais que são impostas às suas vidas e mortes foram extrapoladas, em décadas recentes, para conceber uma categoria inesperada de pessoas: os prisioneiros políticos desaparecidos quer das cadeias coloniais, quer enviados pelo Estado para "Campos de Reeducação" na pós-independência. Contudo, essa imagem não foi aplicada aos chamados "improdutivos" que desapareceram exilados no Niassa, durante a "Operação Produção".
As crenças acerca de gémeos e albinos foram utilizadas para expressar uma avaliação moral acerca do poder político: é socialmente ameaçador pôr em causa o poder estabelecido; mas é ilícito, para um poder legítimo, tomar decisões injustas acerca do povo que está sob sua responsabilidade.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Espíritos maus e xenofobia


Hoje não há "Citações de Café".

São substituídas por esta notável carta de leitor ao jornal Notícias, que esclarece todo o imbróglio da violência xenófoba na África do Sul:
Os africanos são por essência bons e religiosos, particularmente os Zulus, mas estes sofreram tanto às mãos dos forasteiros e foram tão humilhados por não terem podido reconstruir o seu anterior império, que lhes «sobem os nervos» e dão em agredir até à morte os pobres mais pobres que eles.
Tudo culpa de um espírito maléfico que os assombra.

Vale a pena ler.
Foi uma descoberta do Carlos Serra, claro.