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sábado, 17 de outubro de 2009

As extraordinárias eleições em Moçambique


Na véspera das eleições moçambicanas, este ano marcadas por muitas polémicas e um novo partido que ameaça quebrar a rotina da bipolaridade (sim... também nesse sentido) Frelimo/Renamo, vi finalmente hoje um artigo sobre o assunto num jornal português.

É claro que a minha atenção àquilo que se vai passando em Moçambique é uns milhões de vezes maior do que a daquele senhor mítico a que se chama "português médio".
Mas, mesmo assim, espanta-me este desinteresse mediático, tendo em conta o espaço dos PALOP nos nossos afectos e imaginário - ou, quanto mais não fosse, o facto de Portugal ser um dos países que, a partir dos impostos dos seus cidadãos, pagam quase 2/3 do Orçamento Geral do Estado moçambicano...

Dado este silêncio, talvez tenham interesse em saber que, daqui a uns 10 dias, vão haver eleições para o Presidente da República, para o Parlamento e para os novos orgãos de governação intermédia, as Assembleias Provinciais.

Para além dos inefáveis Frelimo, Renamo, Guebuza e Dlhakama, a grande novidade é a candidatura de Deviz Simango (cuja vitória no município da Beira, como independente, foi um autêntico terramoto político para o status quo - ver aqui e aqui) e do seu novo partido MDM que, com uma imagem de honestidade e um discurso completamente novos, suscitou uma onda de interesse e simpatia - sobretudo nas cidades, entre os jovens e nas zonas rurais do centro do país - provocando um enorme nervosismo nos dois partidos instalados. (aqui)

Simango foi objecto de um ataque a tiro por parte da Renamo (aqui) e de ataques a sedes (aqui) e cenas escabrosas organizadas pela Frelimo. (aqui)

Mas aquilo que parece ter sido mais escabroso foi a exclusão, pala CNE, das listas do MDM para 9 dos 13 círculos eleitorais, devido a supostamente não ter sido entregue alguma documentação relativa a vários candidatos e suplentes. (aqui e aqui)
Uma exclusão que foi objecto de uma reclamação ao Conselho Constitucional (aqui), que não lhe deu provimento porque, acusam os queixosos, decidiu com base em processos enviados pela CNE de que teria sido extraviada parte dos documentos entregues. Disso mesmo foi feita queixa-crime à Procuradoria-Geral da República... (aqui)

Já antes tinha levantado celeuma o facto de a actualização do recenseamento eleitoral ter sido feita com material informático adjudicado a uma empresa de transportes, que só disponibilizou técnicos para repararem as frequentes avarias quando estas se verificavam a sul do rio Save, na zona de maior implantação da Frelimo. (aqui)

Com isto tudo, a Frelimo parece ter afastado o espectro de perder a maioria absoluta (por crescimento do MDM à conta dos dois maiores partidos) e de ter que passar a, pela primeira vez na história, negociar e tomar em conta as posições e opiniões da oposição.
Há mesmo quem pense que, afinal, conseguiu criar as condições para ter 2/3 no Parlamento e poder mudar, sozinha, a Constituição.

Embora Moçambique seja a única coisa que o BM, o FMI e a indústria de cooperação podem apresentar como suposto bom exemplo (pelo que as consequências não devem vir a ser muitas), estas eleições estão já feridas de enormes dúvidas quanto à sua transparência e justeza.

Mas, mesmo assim, tudo isto tem um certo interesse noticioso, ou será que não?
Sugiro que acompanhem os desenvolvimentos através do blog de Carlos Serra.

Adenda: Com essa mesma origem, está disponível aqui um dossier das notícias eleitorais do jornal Savana. Muito interessante, mesmo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Para compreender Moçambique, com muito prazer

Eu bem sei que pareço um vendedor de enciclopédias, mas não resisto a armar-me em serviço público e divulgar sumariamente, a quem não conhece, a anterior obra literária do João Paulo Borges Coelho, meu escritor moçambicano favorito (desculpem lá, fãs do Mia Couto e da Paulina Chiziane...).

As Duas Sombras do Rio (2003)
O meu preferido, ainda.
A guerra civil contada no Zambeze, junto à fronteira do país e por sobre a água que separa as terras do "povo da cobra" e do "povo do leão".
Quando para se ser historiador se tem que fazer trabalho de antropólogo, e se sabe contar e escrever muitíssimo bem, o resultado é este.

As visitas do Dr. Valdez (2004)
A reconfiguração pós-independência da vida e da memória, vista do crepúsculo de duas irmãs, amenizado pelas visitas que faz a uma delas, já senil, o falecido Dr. Valdez, protagonizado pelo jovem criado que cresceu na casa.
Recebeu o Prémio Craveirinha.

Índicos Indícios (2005)
Dois volumes de contos (Setentrião e Meridião) que acompanham a costa moçambicana de norte a sul. Para lá do interesse de cada conto e das personagens por vezes fascinantes e nunca maniqueístas, juntos mostram a rica diversidade do país.
Mais uma bela obra de histório-antropo-escritor.

Crónica da Rua 513.2 (2006)
Outro dos meus mais favoritos, apesar de haver quem ache lá a mais a presença de fantasmas e espíritos não metafóricos. A debandada portuguesa, a fase de transição e o imediato pós-independência, no espaço sempre público de uma rua apontada à baía de Maputo e de onde as famílias de pescadores a as peles mais escuras tinham estado excluídas.

Campo de Trânsito (2007)
Um livro corajoso mas que se obrigou a ser, por vezes, alegórico, acerca de um trauma colectivo que apenas os posteriores horrores da guerra civil permitiram secundarizar: os campos de reeducação.
É o único dos seus livros em que alguns diálogos apresentam uma característica muito comum na literatura africana em língua portuguesa: inverossimilhança. Mas neste caso, não por falta de perícia do autor, mas como instrumento da aura alegórica pretendida.

Hinyambaan (2008)
Um irónico relato da viagem de férias de uma família sul-africana, em demanda de Inhambane através do sul de Moçambique actual, com peripécias hilariantes, piscares de olhos ao quotidiano do país e visitas inesperadas.
É o mais leve dos seus livros (até pelo tema) e não sei se terá a mesma piada para quem não conheça Moçambique e os sul-africanos boeres, quando dão por si fora de água. Eu diverti-me imenso.

Esperemos, agora, pelo "Olho de Herzog"...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Agora sim, acredito

É verdade que sou um mero leitor.
Mas é também verdade que a minha maior desilusão literária do ano passado foi o muito badalado Prémio Leya 2008.

Até o abrir, confesso, o lugar era ocupado pela odisseia do elefante do Saramago - que, bem escrita como sempre, não deixou de me lembrar uma versão aumentada e menos conseguida das poucas e belíssimas páginas em que nos contara a viagem daquela monstruosa pedra até Mafra. É chato, quando nos habituámos a esperar bem mais que isso.

Mas, com o pobre do jaguar, tive um encontro bem mais complicado.

Da minha experiência de leitor que, teimoso, insistiu em ir até ao fim e que, optimista, teve até à última página a esperança de vir a ser recompensado por esse esforço, retirei que aquele livro podia bem ter sido dois, sendo que um deles (o da velhice do narrador e das saudades da sua amada esposa) teria ficado melhor servido na gaveta do autor.

O livro que sobraria continuava a não me agradar por aí além.
A isso talvez tenha ajudado uma página temporã com uma digestão apressada de Levy-Bruhl, que o romancista parece não ter reparado estar em contradição com as outras seiscentas e tal.
Ou a permanente presença do bom selvagem, subliminar mesmo quando o texto pretende dizer o contrário.
Ou o mais fulcral dos mitos milenaristas da América do Sul ter sido trabalhado de uma forma tão limitada.
Ou constatar que tantas páginas não tinham levadoa lado nenhum.
Ou, pelo caminho, me ter cruzado com tantos episódios histórica e factualmente fascinantes e, de cada vez, ter parado a imaginar o que um bom escritor teria conseguido fazer com cada um deles.
Enfim... Já viram que foi traumático e perdi todo o interesse e consideração pelo tal de Prémio Leya.

Há um bocado, no entanto, li numa minúscula notícia, a um canto do Público on-line, que o premiado deste ano é o João Paulo Borges Coelho.

Gosto muitíssimo dele, quer como historiador, quer como pessoa, quer como escritor.
E gostei de todos os seus livros - embora, claro, não de todos por igual.

O meu favorito (desculpa lá, João Paulo) é o primeiro, "As Duas Sombras do Rio".
Aquele de cujo estilo gostei menos, pelo excesso de alegoria num tema tão forte, foi o "Campo de Trânsito". Mas sei, também, até que ponto escrever acerca daquela realidade recente, por muito ar de fábula com que se o faça, é um acto de coragem. E sei que, mesmo sendo o meu menos favorito, é um muito bom livro.

Ou seja: ou o João Paulo desaprendeu repentinamente de escrever e isso agradou ao júri, ou este premiado "O Olho de Hertzog" é mais um daqueles livros pelos quais se justifica esperar com impaciência.

O que me permite voltar a acreditar no Prémio Leya e, suponho, comprar o premiado do ano que vem.
Porque, quanto ao deste ano, não precisaria de prémio nenhum para correr a comprá-lo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O "Companhia de Moçambique" está vivo!

Ontem, fui dar uma voltinha ao "Companhia de Moçambique" para, como de vez em quando faço, clicar aleatoriamente num qualquer ponto do seu arquivo e me maravilhar com as fotos e postais antigos, a maioria das vezes acompanhados de dados historicos e documentos.

Sempre pensei que esse blog constituía, para o seu autor, um trabalho terminado, já que não havia um post novo desde 2005.
E parece que era esse o caso. Mas deixou de ser.
Sem prometer «muito movimento e produção», lá nos brindou com muito e interessante material sobre os navios das "linhas de África". E a coisa irá continuar.

Quem o conhece, fique a saber que o "Companhia de Moçambique" está vivo!
Quem não conhece, aproveite para conhecer.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Bipartidarismo à força

Por Moçambique, sabe-se agora que as razões alegadas pela Comissão Nacional de Eleições para excluir listas eleitorais do novo partido MDM também se verificam em listas da Frelimo e da Renamo, que foram dadas como válidas.

Mas, como mesmo em bipartidarismos forçados há uns mais iguais que os outros, a CNE só entregou ainda à Frelimo o subsídio de campanha que já todos os concorrentes deviam ter recebido... (vejam aqui)

Entrementes, um candidato a deputado por Tete declarou num comício que a exclusão de outros partidos se deveu a eles não reunirem condições para concorrer, pois «nós não vamos meter ladrões para dirigirem o país, mesmo que os doadores exijam que isso aconteça».

Trata-se de um ex-Ministro da Segurança que, há uns 15 dias, tinha dito ao jornal Savana que as pessoas fuziladas nos seus tempos de glória "estavam a pedir para morrer" e que os Campos de Reeducação não tiveram nada de especial, pois "também existem nos Estados Unidos".

Levanta-se assim uma curiosidade: será que o digno candidato irá manter, nos próximos tempos, a actual retórica à Robert Mugabe, ou será que irá alegar que também os Estados Unidos são bipartidários e ninguém os chateia por causa disso?

domingo, 13 de setembro de 2009

FRENAMO molha a sopa

Começada oficialmente a campanha eleitoral em Moçambique, a Frelimo passou da ameaça à violência sobre o MDM, na sua "reserva de caça" de Gaza.

Os ocupantes de 2 automóveis, em cuja liderança foram reconhecidos o filho e o genro do Presidente do Conselho Municipal lá do sítio, destruíram a sede do MDM no Chókwè, ferindo 3 dos seus activistas.

Jornalistas de O País estiveram no local e confirmaram os acontecimentos, mas a estatal Rádio Moçambique diz que se trata de "um boato".

Isto começa bem!...
E o Zimbabwe ali tão perto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Humor "Sacana"

Relativamente ao tema final do post anterior, o "Sacana" (suplemento humorístico do jornal Savana) produziu esta interessante proposta, que visualizei através do Carlos Serra.

Note-se, no entanto, que a expressão "FRENAMO" devia pagar direitos de autor.
Já aparece no rap que Azagaia compôs para a candidatura de Daviz Simango ao município da Beira (vejam o videoclip aqui).

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O papão da novidade

Há um espectro que assola Moçambique.
O espectro de Daviz Simango e do seu novo partido MDM.

A uma só voz, tanto os ricos que governam o país e se tornaram ricos por o governarem ("com todo o direito", já que trouxeram a independência, conforme disse o "general do primeiro tiro"), quanto a oposição do costume (que não encontra espaço à direita dos governantes e cada vez mais recorda passados sanguinolentos que toda a gente quer mandar bem para trás das costas), se arrepiam, insultam, agridem e aldrabam.

Depois do choque de ver um "puto" da minha provecta idade ganhar o segundo maior Município do país como independente (aqui e aqui), após ser corrido pelo seu partido por demasiada honestidade e competência, continuou o abalo do status quo e da tranquilizadora ideia de que o eleitorado tem donos e estes têm bastiões intocáveis.

Até pode ser (e muito provavelmente será) que a transposição do fenómeno da Beira para o país se dê a uma escala muito mais modesta.
Mas, quando se está em posições instaladas que se imaginam para 1.000 anos, ver Daviz Simango entrar como em casa de família no centro rural do país e, ao mesmo tempo, suscitar o entusiasmo dos jovens urbanos (sejam eles altamente qualificados ou andem eles a desenrascar a vida no "caniço" maputense), a coisa assusta.
Mais ainda, quando até os velhos que continuarão a votar nos partidos em que sempre votaram demonstram ter por ele uma evidente simpatia.

Então, já não dá para imaginar que se é confrontado com um qualquer epifenómeno paradoxal.
Claramente, a imagem do homem e aquilo que o homem diz correspondem a uma necessidade que o "povão" e as "classes médias emergentes" sentem e querem ouvir.

E que coisa é essa?
Pelo que ouvi e li em Moçambique, a "receita" é simples - e, na aparência, nada ideológica.

Trata-se de exigir e prometer honestidade, competência, uma atitude serena e pacificadora que contrasta com o belicismo verbal dos partidos instalados, a par de algo que está entranhado nas visões mais tradicionalmente africanas de poder, economia e família: que todos (e não apenas muito poucos) beneficiem do desenvolvimento e do caudal financeiro que, todos os anos, desagua no país.

(Na Europa, falar-se-ia talvez de "justiça social".
No norte de Moçambique, exigir-se-ia que quem manda não coma sozinho.
No centro, que não se seja tratado como cão, a quem dão ossos dizendo que não gosta de carne.
No sul, que o pai não abandone os filhos.)


E trata-se também, claro e de forma imprescindível, de possuir a credibilidade, enquanto pessoa e enquanto político, para poder dizer essas coisas.

Mas, posta a esperança a rodar, mais os sustos se assustaram, em ambos os lados do establishment:

A Renamo disparou sobre ele em Nacala e vai-lhe agredindo activistas aqui e ali.

A Frelimo rodeou a sua comitiva, no Xai-Xai, com dois camiões cheios de bandeiras e de militantes a cantarem insultos e a ameaçarem a população para não se aproximar.

Os organismos estatais que gerem as eleições já haviam alcançado o prodígio de actualizar os cadernos eleitorais com material informático (fornecido por uma qualificada empresa de transportes pertencente a uma família ligada ao poder) que sistematicamente se avariava no centro do país e para cuja reparação só estavam disponíveis técnicos até ao Save.

Agora decidiram, inusitadamente tarde e sem explicações ou esclarecimentos, excluir as listas de candidatos do MDM em 9 dos 13 círculos eleitorais.
Curiosamente, as supostas falhas viriam da força política que, na apresentação de assinaturas para formalização das candidaturas a Presidente da República, entregou o menor número de processos considerados irregulares.

A resposta, conforme seria de esperar, não foi um esbracejar ameaçador.
Daviz Simango e o MDM interposeram recurso ao Concelho Constitucional (que, assim como assim, é formado por juízes) e farão a campanha eleitoral como planeado, enquanto aguardam por uma decisão favorável.

Mas, pela rua e pelos media, a indignação alastra.

Que vai sair daqui?
Não faço ideia.

Há quem diga que, após o peculiar recenseamento e com acções intimidatórias de ambos os lados ao MDM, talvez a Frelimo chegue aos 2/3 necessários para alterar a Constituição e eternizar o actual presidente no poder, através do desaparecimento do limite de mandatos.

Nos "caniços" de Maputo, muita gente prevê, projectando para as urnas as mudanças que observa no seu bairro, que Guebuza será facilmente reconduzido, mas a Frelimo perderá a maioria absoluta devido à votação do MDM, acabando o total "posso, quero e mando".

A uma cada vez mais vociferante e inconsequente Renamo, ninguém augura outra coisa senão uma forte quebra eleitoral.

Esperemos para ver.
E, esperemos, que sem mais violência e com tão poucas golpadas quanto possível.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

De volta ao tal de jardim à beira mar

... embora ainda em pleno processo de esquizofrenia cultural.

Espero afixar ainda hoje uma foto alusiva a esse confuso estado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Parabéns,Danúbio e Joana

21/23 de Agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Debatendo em Maputo

Num teclado sem assentos, venho por este meio convidar-vos a participarem no seminario "Gemeos, Albinos e Prisioneiros Desaparecidos: 'contrato social' e violencia politica", que apresentarei quarta-feira 26/8, pelas 10 horas, no anfiteatro 1502 da FLCS-UEM.

Muita coisa a debater, visto que passa por 'crencas tradicionais', prisioneiros politicos antes e depois da independencia, desaparecidos da Operacao Producao, pelo que se diz dos corpos de todas essas pessoas e pelo 5 de Fevereiro de 2008...

Tirando esse ultimo aspecto, a base da comunicacao e' este texto aqui.

Vai ser no ambito do Ciclo de Seminarios Interdisciplinares em Ciencias Sociais e Humanas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Há dias assim



De manhã, soube que a tese de um orientando vai de vento em popa e que um óptimo ex-aluno recebeu autorização do seu departamento para ir fazer o mestrado ao ICS.

À saída do campus, dei de caras com um aluno da Nova que me fez uma grande festa, pois está por cá numas férias ÓeNeGéticas e a adorar isto tudo.


À tarde, cheguei por mero acaso (coisa que em Moçambique não existe) ao quintal de uma curandeira amiga durante um batuque, destinado a “fazer sair” os espíritos de uma aprendiza – ou, em linguagem antropológica estereotipada, a induzir-lhe um estado de transe.

Quando dei por mim, tinham-me posto um tambor ao colo e estava a desenrascar-me o melhor que podia. (Segundo as críticas, benzinho mas a precisar de mais treino…)

A coisa estava difícil. Mesmo com uma segunda dose de espuma de nulu, ia demorando.

Por fim, a tia-avó da senhora (de quem herdou os espíritos e a futura profissão) lá saiu e falou connosco.

Curiosamente, fiquei umas 3 horas sem vontade de fumar.


Surpreendido com tanta fartura, passou-me cepticamente pela cabeça, a caminho de casa: «Ou me aconteceu alguma, ou está para acontecer…»

Poeticos horrores

Na ressaca (babalaze) de um dia de trabalho muito bem sucedido, ganhei ontem, finalmente, coragem para percorrer Babalaze das Hienas, de Jose' Craverinha.

Um conjunto de poemas a ler, necessariamente, nem que seja uma vez na vida.
Com um conselho, vindo de saber vivido: evitem essa leitura logo a seguir ao jantar.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um Amor Colonial

Depois de estar agendado e vir a ser desagendado por duas editoras (foram as sucessivas crises...), e depois de uns atrasos de produção, está finalmente a imprimir Um Amor Colonial.

É a história de vida de um homem criado em Angola e do amor que perseguiu (e perdeu) por Lisboa, Luanda e Moçambique - onde ainda vive e pretende morrer.
E a capa ficou bonita, 'penso eu de que'...

Se os prazos correrem desta vez bem, tentarei oferecer-me o seu lançamento como prenda de anos, nos primeiros dias de Julho.
Até lá, podem ler uns excertos aqui.

Digam de vossa justiça.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Doi muito, Vôvô

Faleceu Ricardo Rangel.

Não sei, vôvô.
Não são só as fotos do meu amado Xipamanine, noutros tempos.
Não são só as fotos da colonial Rua Araújo, tão parecida com a de hoje em dia.
Não são só todas as outras fotos, desde a independência.
Não é só o partilhado amor pelo jazz e, nele, aquela sala de espera por comboios que não chegarão, ouvindo gente boa, má ou assim-assim, mas sempre urgente - porque o urgente é tocar.

É... Não sei!

Bayete, Vôvô!
Bayete...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Atentado a Deviz Simango


Preparava-me eu para escrever um descansado comentário às eleições para o Parlamento Europeu, quando me cruzei com uma notícia dando conta de um atentado, hoje, contra Deviz Simango - eleito o ano passado presidente do Conselho Municipal da Beira como independente (veja-se aqui e aqui), e depois fundador e líder do Movimento Democrático de Moçambique.

Numa notícia que confunde Deviz Simango com o presidente do Conselho Municipal de Maputo (eleito pela Frelimo) e que chama ao porta-voz da polícia "Coça" (em vez de Cossa), não sei muito bem em que é que posso confiar...
Mas a "Rádio Maputo" (carinhosa alcunha do blog de Carlos Serra, por estar sempre "em cima da jogada") tem vindo a actualizar as informações acerca do assunto, neste post.

Assim, a caravana do MDM foi atacada em Nacala por dois carros cheios de activistas da Renamo, enquanto assistia a um acontecimento cultural, antes de realizar um comício.
Os indivíduos, apontados como ex-guerrilheiros da Renamo, arrancaram a pistola a um polícia e dispararam sobre a viatura de Simango, sem o atingir.
Depois, espalharam o caos, disparando para o ar com as pistolas que eles próprios traziam.

Estranho: porquê usar a pistola do polícia, se tinham as suas próprias armas?
Para que estas não pudessem ser referenciadas em estudos balísticos?
Para que - em caso de sucesso e contando com o seu ascendente local para não serem denunciados ou, pelo menos, para tornarem o caso suspeito - o atentado pudesse ser assacado à polícia e, consequentemente, à Frelimo?

São as únicas explicações que me surgem, e fazem pensar num acto deliberado e planeado, não numa qualquer altercação de cabeças quentes.

Entretanto, o porta-voz da Renamo negou ter conhecimento directo do incidente, mas aproveitou para "acusar" o MDM de «tentar fazer com que partidários da Renamo se juntassem à nova formação».
Ou seja, ao falar de uma possível tentativa de assassinato político, "vem-lhe à conversa" a justificação de que a vítima (presidente de outro partido) tenta atrair para as hostes dele pessoas que são militantes ou votantes da Renamo. Ou seja, ainda, isso justificaria ou desculparia que o matassem.

Se a vitória de Deviz Simango na Beira demonstrou que, afinal, os votantes não são propriedade de ninguém, essa lição parece custar a ser aprendida, nos estados-maiores partidários que sempre se conceberam como únicos - ou isolados, ou os únicos um face ao outro.

Vários amigos e conhecidos, das mais diversas sensibilidades políticas moçambicanas, me têm feito chegar a ideia de que o MDM está a fazer muito medo aos dois grandes partidos instalados.
É muito compreensível.

Sobretudo em meios urbanos, há muita gente que não vota por não gostar da governação de uns e desconfiar ainda mais dos outros.
Ao mesmo tempo, há quem vote Frelimo não tendo mais nada senão críticas a apontar-lhe, mas que o faz com medo do caos, boçalidade e mãos sangrentas que atribui ao seu opositor. Vota e vota Frelimo, não gostando, para que a Renamo não ganhe.
Tal como há quem vote Renamo, discordando da forma como é dirigida e deconfiando que ela viesse a tornar-se tão corrupta e autoritária como consideram que a Frelimo é, por verem na Frelimo o mesmo diabo que outros vêem na Renamo.

Uma oposição sem sangue nas mãos e uma imagem de competência, honestidade, modernidade e espírito democrático é, de facto, assustadora para quem, de um lado e do outro, geriu a luta política segundo essas regras estáveis de ausência de alternativas, ao longo dos últimos 15 anos.

Mas não sei se será este medo, ou se será a tal visão dos votantes, regiões e pessoas como propriedade partidária (ou se será, ainda, a ideia que ambas as forças partilham de que a liderança na guerra, seja a de libertação ou a civil, legitima por si só o poder), que levarão não só a actos como este atentado, como à ideia de que ele é desculpável ou, quiçá, legítimo.

Suspeito que serão as três coisas, em conjunto.

Mas, se as forças políticas instaladas não conseguirem ver que nenhuma dessas três coisas é simpática aos moçambicanos e ao mundo, que pelo menos uma coisa consigam ver:
Que o homicídio político, por muito normal que tenha sido no passado, é tão execrável como sempre foi - e é, hoje já e para toda a gente fora dos círculos do poder, totalmente inaceitável.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Acompanhando a saga dos curandeiros do orgone

Pois é. Tenho andado desaparecido.
Em parte por muito trabalho, em parte porque, quando tenho tempo de me aproximar da net, procuro toda a informação possível acerca de um caso bem peculiar que está em curso em Moçambique:

Recentemente, 4 pessoas de pele clara e nacionalidades diversas foram detidas em Cahora Bassa, a atirarem uns produtos esquisitos e desconhecidos para a água.
Temeu-se primeiro uma sabotagem («Cahora Bassa é nossa!», pelo que certamente os estrangeiros estão invejosos), depois uma tentativa de envenenamento da água.

Mas os homens assumiram-se como "Guerreiros do Orgone", que estariam a mandar à água "orgonite", a fim de contrabalançar as energias negativas vindas da globalização, de produtos da modernidade como os campos electro-magnéticos e outras coisas que tais.
Assim a modos que uns curandeiros new age a efectuarem um ritual de limpeza do país, a fim de assegurarem paz, prosperidade harmoniosa com o universo e etc.

Se vocês se lembram dos neo-freudianismos do Wilhelm Reich e das suas alegadas descobertas, o orgone seria uma "Energia Cósmica Primordial", omnipresente no universo e a que se deveriam, por exemplo, a côr do céu, o insucesso da maioria das revoluções e o orgasmo.

Se esta expedição tendo em vista o resgate da felicidade dos moçambicanos através da purificação do Zambeze já é, por si própria, um bom motivo de curiosidade, estou interessadíssimo na reacção das autoridades, dos meios de comunicação social (sempre gozões para com as crenças e práticas locais que não compreendem) e da população a estes curandeiros 'brancos' cheios de tecnologias modernas e argumentações que procuram usar uma linguagem científica.

Cheira-me que isto ainda vai dar um belo artigo. Para além, claro, de umas belas confusões, antes disso.
Entretanto, se também vos interessar, vão acompanhando as informações que, sempre em cima da hora, o Carlos Serra vai disponibilizando.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Nova do Azagaia

Entretanto, saiu outro clip do polémico rapper moçambicano Azagaia.
Doi bastante.
Mas já ouvi isto muitas vezes, por outras palavras, no caniço de Maputo.



terça-feira, 10 de março de 2009

Migração, Saúde e Diversidade Cultural


Chegou-me há poucos dias às mãos o livro Migração, Saúde e Diversidade Cultural, organizado por Elsa Lechner e de que podem ver as primeiras páginas aqui.

Embora tivesse assistido a várias das comunicações que lhe servem de base, tem sido um prazer ir saltando de capítulo em capítulo, à medida da minha disponibilidade e interesses.
Não é por lá ter um artigo (disponível aqui) mas, meus caros, está-me a parecer um livro essencial para quem se interesse por estas temáticas.

Avisarei, quando souber a data e local do seu lançamento.