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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma boa notícia

Foram reatadas as negociações entre o governo boliviano e os líderes separatistas.

Talvez porque (apesar do empenho norte-americano na secessão, bem demonstado pela escolha do especialista Philip Goldberg para embaixador), a posição unida e inequívoca dos países da região, num tom mais preocupado com a firmeza do que com a retórica incendiada, tornou irrelevantes as performances histriónicas e contraproducentes de Hugo Chavez acerca do assunto e, com seriedade e credibilidade, apresentou um quadro que talvez nunca tenha sido visto nas Américas:

Os países "a sul do Rio Grande", independentemente das diferentes orientações políticas dos seus governos, não favorecem nem toleram golpadas separatistas e instigações de guerra civil contra governos democraticamente legítimos, por muito que isso agrade ao Grande Irmão do Norte e por muito que esse agrado seja evidente.

Entretanto, as razões de queixa que têm sido apontadas pelos líderes separatistas, e que aqui são repetidas, vêm dar razão ao que deixei dito no meu primeiro post acerca da Bolívia.
Já que, mesmo com a diminuição percentual da sua parte do imposto petrolífero, as províncias separatistas recebem 5 vezes mais dinheiro do que recebiam antes da nacionalização (de que discordaram), e já que não haverá diminuição do grau de autonomia provincial, então o problema são os outros dois aspectos da Constituição que está a ser preparada e que eles referem:

A limitação do tamanho das fazendas e os direitos outorgados à população indígena, maioritária mas tratada como infra-cidadã desde a independência do país.
Por outras palavras a diminuição dos latifúndios e o fim da supremacia "branca".

A metáfora da "Bolívia pós-Mandela", neste momento de negociações com um fundo racial tão claro, começa a fazer cada vez mais sentido para mim.

Mas não para toda a gente. Ainda esta semana li um respeitado colega lá do Instituto a enfiar a martelo e despropósito, na sua habitual crónica jornalística, uma frase sobre como Evo Morales trata como não-cidadãos quem discorda dele.
Neste quadro e nesta sucessão de acontecimentos, confesso a minha surpresa.
Mas é bem verdade aquela frase que os alunos se chateiam de me ouvir repetir nas aulas. Independentemente do brilhantismo que possa caracterizar a inteligência de cada um de nós, «só vemos o que estamos preparados para ver».

Acordo no Zimbabwe - II

Esta foi "roubada" ao Carlos Serra, que a "roubou" ao Savana, que a parece ter "roubado" a um jornal inglês.
Que importa? Como dizia um visitante lá do blog dele, é «Genial!»

O autor chama-se Dave Brown.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Golpe na Bolívia?

Apesar da declaração conjunta de apoio por parte de quase todos os países da América do Sul, Central e México, e apesar das declarações dialogantes do lider separatista (num artigo da BBC em que acaba por ficar claro que as questões são de racismo e justiça social, e não de dinheiros do petróleo e gás), fui alertado para que estaria a ocorrer um pronunciamento militar na Bolívia, enfrentado por manifestações populares.

Não encontro nada nos meios de comunicação on-line.

Enquanto aguardo por confirmação, desejo ardentemente que a informação que recebi esteja equivocada.

Uff! Afinal, não. A pessoa tinha visto esta notícia na televisão, sem ouvir bem, e confundiu-se. Lado bom da história: não sou a única pessoa a interessar-se por isto, em Portugal.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Bolivia chateia o Grande Irmão do Norte

Preocupei-me, aqui, com a possibilidade de balcanização da Bolívia, em resultado do independentismo latifundiário e racista das províncias mais ricas do país.

Preocupei-me mais ainda ao saber a história do embaixador Philip Goldberg, que agora foi declarado persona num grata pelo estado boliviano.

Pensei que dificilmente os problemas recrudesceriam depois do surpeendente referendo que punha em questão a continuidade nos cargos do presidente, do vice-presidente e dos governadores provinciais, do qual Evo Morales saiu com um apoio reforçado.

Afinal, vieram manifestações e ocupações dos edifícios públicos nas tais províncias e a secessão está mais do que nunca em cima da mesa.

Os Estados Unidos dizem que a Bolivia cometeu um erro grave ao expulsar o seu embaixador, acusado de activo apoio às tais manifestações.

Tendo em conta que Philip Goldberg é considerado o grande especialista diplomático norte-americano em agudizar conflitos étnicos e raciais, que ganhou esses galões na Bósnia, no Kosovo e na ex-Jugoslávia em geral, mas que também calhou estar no Haiti durante o golpe que depôs o presidente Jean Aristide, para além de ter sido obreiro da militarização do Plano Colômbia, depreendo que o tal "erro grave" a que a administração Bush se refere não será a responsabilização de um pobre inocente.
Será o de terem a veleidade de não aceitar que ele continue a aplicar os seus talentos, conhecimentos e meios para os derrubarem.

O que me deixa uma nova preocupação: será que os Estados Unidos equacionam uma intervenção militar na Bolívia?

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Motins e linchamentos

Por razões de trabalho e docência, transcrevi para PDF os conjuntos de posts que aqui publiquei acerca do 5 de Fevereiro em Maputo e dos linchamentos em Moçambique.

Estão à vossa disposição, com os nomes "Crónicas dos Motins" e "Poder, Morte e Linchamentos". Sirvam-se.

E, já agora, critiquem e comentem.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Portugal moçambicaniza-se

Aumentam os assaltos às bombas de gasolina?
Que deve fazer um governo?
Reforçar os mecanismos de segurança pública, através da racionalização de esforços e/ou reforço de pessoal das forças policiais, melhorando en passant o uso das tecnologias de detecção?

Nada disso!
Deve estimular o recurso às empresas de segurança privada.

É claro que isso permite evitar chatices de planificação e organização e, mais importante, maiores despesas no orçamento do Estado.
(Pelo menos, até algum liberal-socialista se lembrar de alegar que, em espaço público, esse serviço é de interesse público, pelo que deve ser subsidiado...)
Mas até lá, tal como antes se disse para a saúde, quem quer segurança paga-a. Com a vantagem de se arranjarem mais uns empregos no sector privado e de se dinamizar a economia - que, como é bem sabido, é uma palavra que quer dizer "empresários".

Afinal, Moçambique mostra o caminho à Europa, com década e meia de avanço.
É claro que, pelas margens do Índico, a solução tem mais vantagens sociais - pelo menos, até os empregados dessas empresas olharem para a miséria que ganham e para a arma que têm na mão, pensando noutros usos mais lucrativos para ela.
Sempre deu para 'integrar' um bom número de desmobilizados da guerra civil, é um sinal de status e tranquiliza os cidadãos, que desconfiam mais da polícia que dos ladrões.

Aqui neste rosto ocidental da velha Europa, entretanto, até o CDS-PP (paladino da retórica securitária) deve ter ficado perplexo, ao ser ultrapassado resolutamente pela faixa da direita, com esta ideia de que nem eles tiveram coragem de se lembrar.
Afinal, é uma outra especialidade moçambicana pós-guerra civil: governar radicalmente à direita, com uma retórica de esquerda.
Por cá, o governo até que podia reforçar um bocado a parte da retórica. Sempre dava mais pitoresco à coisa.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Citações de café (13)

GEOGRAFIAS GRINGAS

(esta não foi num café, mas num chat do Yahoo)

- Vivo na Geórgia. Ouvi nas notícias que a Rússia invadiu, mas não os vejo em lado nenhum. O que é que se passa?

- Você mora no estado da Geórgia, USA. O país Geórgia é do outro lado do mundo.


(via Reflexões de um Cão com Pulgas)

sábado, 9 de agosto de 2008

Os meninos apedrejam os pássaros a brincar, mas os pássaros morrem a sério

Conforme seria de esperar, houve uma escalada na situação da Ossétia do Sul.
Há confrontação directa entre forças terrestres da Rússia e da Geórgia, que estão, na prática, em guerra. Fala-se de mais de 1.600 mortos, só em Tskhinvali e a coisa promete aumentar.

A desagregação de estados multinacionais, ou mesmo de carácter imperial, traz sempre a tendência para novas divisões e reorganizações, trazendo à superfície desejos, desagradados e identidades antes submergidas por esses estados.
À imagem do que dizia Max Gluckman relativamente aos costumes, é a altura em que identidades antigas são enfatizadas, perante a continuidade e reemergência de conflitos antes escondidos ou controlados pelas correlações de forças anteriores.
Deparamos, então, com separatismos de motivações bem menos económicas e políticas que a invenção do Panamá ou da região latifundiária da Bolívia, mas que jogam com os conflitos de interesses e brios dos grandes estados sobrantes que resultaram da desagregação anterior.

Face a isto, há sempre quem diga que o território em litígio pertence historicamente a um determinado estado (o que é a mera constatação factual duma relação de poder ultrapassada), que os grupos em confronto sempre se deram bem e até casaram reis entre si (como se todos os outros países não o tivessem feito), ou procure legitimar uns pelo mal dos outros («se a Tchetchénia é russa, a Ossétia do Sul é da Geórgia»).

Tendo na memória os massacres na Jugoslávia ou entre "etnias" inventadas pelos Belgas no Ruanda, as "boas vizinhanças históricas" deixam-me sempre uma pulga atrás da orelha.
Mas, sobretudo, preocupações de futuro.

Talvez nem todos consigam reagir como a Boémia às reivindicações separatistas da Eslováquia: «Ah sim? OK. Chauzinho e amigos como dantes. Como é que vai ser a vossa bandeira? bonita?»
Mas, quando se "comparam pilinhas" entre estados vizinhos e partes deles, normalmente para consumo interno, acaba sempre por acontecer como no velho adágio:

«As crianças atiram pedras aos pássaros na brincadeira. Mas os pássaros morrem a sério.»

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A guerra que se segue

18 anos depois da declaração separatista, a Geórgia atacou a capital da Ossétia do Sul, declarando que a maior parte do território está sob seu controle e que continuará as operações até alcançar uma «paz durável».
Vai daí, a Rússia - que sempre se demonstrou intransigente no seu apoio à independência desse território de maioria populacional russa, que estimulou e protegeu - bombardeou uma cidade georgiana. E vai declarando que «a Rússia não hesitará para avançar com medidas a grande escala para proteger os nossos compatriotas na região e para assegurar a segurança das fronteiras da Rússia a Sul».

O que levou a este ataque, este tempo todo depois e sabendo-se que a Rússia nunca ficaria de braços cruzados?
O mesmo que fez a junta militar argentina invadir as Malvinas?
A velha ideia, tantas vezes desmentida, de que uma guerra maningue nacionalista reforça o moral e o apoio a governos fragilizados?

Agora, pouco importa.
Tal como pouco importa que a "independência" da Ossétia do Sul tivesse sido uma obra russa.
O que importa é que iremos certamente ter uma nova modalidade olímpica: wargames com mortos a sério.

Adenda: conforme Miguel Madeira chama a atenção na caixa de comentários, a população da Ossétia do Sul não é maioritariamente russa, mas pró-russa (o que pode ter a ver com conflitos históricos e/ou com a protecção do "irmão grande" a expectativas independentistas), tendo uma língua própria que nem sequer é eslava.

Citações de café (12)

OLÍMPICAS ALTURAS

- Mas repare que os produtos chineses são uma mudança muito importantes para nós, africanos. Mesmo com má qualidade, dão às populações acesso a produtos a um preço que podem pagar.

(um curto silêncio antes da resposta)

- Mas não é irónico que os possam pagar porque eles são produzidos por pessoas que trabalham em condições que os africanos não aceitariam, e muito bem?


PS: passando a outros direitos humanos e particularmente à pena de morte, considero as polémicas olímpicas mais que justificadas. Aguardo a sua extensão, depois, aos Estados Unidos e ao Irão - os outros campeões mundiais dessa punição desumana.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O regresso dos Pretorianos

O primeiro presidente democraticamente eleito da Mauritânia foi hoje vítima de um golpe de estado, dirigido pelo general que comandava a guarda presidencial.

Rezam as crónicas que este já tinha, há poucos dias, traído o presidente, orquestrando a demissão conjunta de 48 deputados eleitos nas suas listas.
O chefe não gostou e demitiu-o.
Ele não gostou e "demitiu" o chefe...

Depois de os pretorianos tomarem conta do Zimbabwe, a moda (re)pegou do outro lado do continente.
Mas com uma tomada de posição muito mais rápida e decente por parte da União Africana: a imediata condenação.

Entretanto, os portugueses que por lá estejam são aconselhados a dirigir-se à Embaixada de França.
A julgar pela minha experiência recente, é melhor é.
Essa, ao menos, deve estar aberta.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Parabéns a nós (atrasados)

Acordei dia 2 sem internet e só há pouco voltou.
Vai por isso dois dias atrasado o "parabéns a nós" para o Daniel, o Flávio e o César.

*****

Entretanto, fiquei a saber pelo Notícias de ontem que os habitantes do bairro Luís Cabral, aqui por Maputo, me deram uma prenda de anos.
Um ladrão que já estava amarrado e com um pneu à volta do pescoço acabou por ser entregue à polícia, porque nenhuma das pessoas que o prenderam teve coragem para, pessoalmente, lhe deitar fogo. Entretanto, um grupo de idosos conseguiu apelar à calma.
Obrigado a todos.

domingo, 29 de junho de 2008

O "árbitro" arma Mugabe

Segundo o Mail & Guardian apurou, o governo e empresas de armamento sul-africanas têm vindo nos últimos anos a proceder à venda (ou doação) ao regime de Mugabe de armas, de munições e de material que permitiu a recuperação de helicópteros e aviões militares que estavam inoperacionais.

Todas essas vendas e doações tiveram que ser aprovadas pelo NCACC (Comité Nacional de Controle de Armas Convencionais), presidido pelo ministro que substitui Mbeki nas missões de intermediação sobre o Zimbabwe a que ele não pode ir. No entanto, não aparecem nos relatórios desse organismo estatal, mas apenas nos registos oficiais de transacções comerciais, no meio de quaisquer outros produtos.

Durante o recente episódio do navio chinês carregado de armas para o regime de Mugabe (que um tribunal proibiu de descarregar em solo sul-africano, contra a opinião de Mbeki e do governo), uma das empresas mais activas nessas vendas tinha sido contratada para transportar a carga letal para Harare.

O presidente da África do Sul, Mbeki, é desde 2001 o intermediário da SADC para o Zimbabwe, por já vir dessa altura a escalada de eleições manipuladas e de violência estatal sobre a população.
É o "árbitro" entre Mugabe e a oposição.

Segundo a legislação internacional, Estados que dão assistência militar a outros que usam material estatal contra parte da sua própria sociedade são culpados de cumplicidade.

O ridículo não mata. Infelizmente.

Ufano, Mugabe anuncia uma vitória esmagadora, contra ninguém. «Ganhámos todas as 26 circunscrições de Harare, onde só tínhamos ganho uma na primeira volta!»

Prepara-se para tomar posse já amanhã. É fácil e rápido contar votos, quando não há uma oposição para ficar à nossa frente.

Mesmo os habitualmente dóceis obervadores internacionais das organizações africanas declararam que as eleições não foram «nem livres, nem justas» e pedem a sua repetição.

Mas o ridículo não mata. Infelizmente.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Democracia manu militari

É hoje. Pois...
Crónicas da vergonha, por aqui.

A esta hora, a coisa já acabou. Houve votação forçada e "de cabresto", e até apelos de Tsvangirai aos eleitores para que "se forem obrigados a votar Mugabe, façam-no", a fim de evitar agressões ou pior.

Quase ninguém reconhece esta fantochada. A União Europeia pronunciou-se nesse sentido, o malfadado G8 também, a ONU fê-lo a priori e até o presidente da União Africana disse estar “convencido” de que a organização conseguirá encontrar uma “solução credível” (logo, esta não é), pedindo tempo para as negociações.

Aguardo com curiosidade, para ver se os países da SADC o farão também, ou se há algum disposto a fazer de fantoche, no sangrento teatrinho do tio Bob.

terça-feira, 24 de junho de 2008

E agora, SADC? Vão mexer-se?


O Conselho de Segurança da ONU condenou por unanimidade a campanha de violência e de intimidação contra a oposição no Zimbabwe, considerando que as violências e restrições “tornaram impossível a realização de eleições livres e igualitárias no dia 27 de Junho".
Entretanto, o Secretário-geral da ONU apelou ao adiamento da segunda volta das presidenciais, para futura realização sob condições justas.

Perante uma resolução que recolheu uma unanimidade raramente alcançada antes nesse organismo internacional, Mugabe sugere que se trata de uma campanha de Londres e Washington para o invadirem... E afirma que se recusa a adiar as eleições, agora que conseguiu o que queria.

Haverá algum líder da SADC que ainda considere aceitável o comportamento do regime zimbabuéano? Ou mesmo tolerável?
Consideram que, depois disto e de tudo o que se passou antes, podem continuar a olhar para o lado, a assobiar para o ar e a tentar educadamente convencer a junta militar mugabiana a aceitar um regime de transição em que os perdedores presidam aos vencedores, sem os matarem?

É que nem isso (que já seria uma preversão) essa gente esteve disposta a aceitar e, desde o início da campanha para a 1ª volta, têm vindo cada dia a falar mais grosso e a bater mais forte.
Por causa da "diplomacia silenciosa", da compreensão e tolerância dos velhos camaradas, das "costas quentes" asseguradas ao regime assassino de um país falido pelo poder.

Líderes da SADC: ESTÁ NA HORA DE MOSTRAREM QUE BASTA!

Adenda: Os governantes assobiam, mas as pessoas estão fartas. A central sindical sul-africana, COSATU, apelou aos trabalhadores de todo o mundo para ajudarem a isolar Mugabe e o seu governo, considerando que ele e a Zanu «declararam guerra» contra o povo zimbabuéano.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Razões de uma recusa

Como nem toda a gente percebe inglês e os programas de tradução automática são um pouco... bem... criativos, aqui ficam as razões invocadas por Morgan Tsvangirai para se recusar a participar na segunda volta das presidencias no Zimbabwe:

Violência patrocinada pelo Estado
Segundo o MDC, os grupos internacionais de direitos humanos e, progressivamente, os observadores eleitorais da região, esquadrões de rufias da Zanu-PF empreenderam uma campanha de intimidação e violência. Não usaram apenas apoiantes do partido, mas também instituições estatais de segurança como a polícia e o exército.

Impossibilidade de fazer campanha
Um diplomata ocidental descreveu Morgan Tsvangirai como um «prisioneiro de Harare». A cidade está rodeada de bloqueios de estrada oficiais e informais que impedem eficazmente o lider do MDC de contactar os seus apoiantes. A polícia deteve-o pelo menos 5 vezes, comícios do MDC foram proibidos e, num golpe final, membros armados da brigada juvenil da Zanu-PF ocuparam o estádio de Harare onde o MDC tinha preparado o seu maior comício.

Dizimação dos quadros do MDC
O partido afirma que mais de 80 dos seus membros foram assassinados nos meses recentes. Centenas deles foram obrigados a esconder-se, tornando impossível ao partido organizar-se.

Desconfiança na Comissão Eleitoral do Zimbabwe
Na sua declaração, o partido afirma-se chocado com o grau de partidarização da ZEC, e acusa a comissão de estar dominada por milicias da Zanu-PF.

Falta de acesso aos media
Os media independentes foram atacados os impedidos de fazer reportagens no Zimbabwe. Os media estatais ou ignoram o MDC, ou retratam os seus membros como violentos paus-mandados do ocidente. Recusam publicar anúncios de campanha do MDC.

Ameaças de Mugabe
Nos discursos recentes, o presidente Mugabe disse repetidamente que se recusa a desistir dos ganhos da guerra de libertação por causa de um 'x' num boletim de voto. Também disse que "só Deus me pode destituir".

Planeada adulteração de resultados eleitorais
O MDC listou aquilo que descreve como um plano elaborado e decisivo da Zanu-PF para adulterar os resultados eleitorais.

Tudo razões bem fortes e justificadas.
Mas continuam a colocar-se-me as dúvidas e perguntas que aqui expressei.
E vocês? O que pensam?

Adendas: entretanto, Tsvangirai está refugiado na embaixada da Holanda, após a polícia ter assaltado a sede do MDC esta manhã e prendido vários dirigentes.

Antes, o governo tinha pedido ao MDC que voltasse atrás na decisão de não participar na 2ª volta. Seria para os poderem prender e matar mais à vontade?

PS: reparei que tenho muitos posts sobre as eleições zimbabuéanas. Etiquetei-os aí ao lado, no "Armazém", para quem quiser acompanhar todo o conjunto e os links para fontes de informação.

domingo, 22 de junho de 2008

O crime compensa

Morgan Tsvangirai, líder do partido mais votado nas legislativas zimbabuéanas e candidato mais votado na primeira volta das eleições presidenciais, retirou-se da segunda volta, marcada para dia 27.
Diz que não pode pedir aos eleitores que arrisquem a sua vida ao votarem nele.

O risco tornou-se, de facto, bastante maior desde a primeira volta.
Mais de 60 dirigentes e activistas do MDC mortos por esquadrões da morte, milhares de pressupostos votantes agredidos e expulsos das suas zonas de residência, ajuda alimentar (tornada essencial à sobrevivência, num país que era "o celeiro da África austral", devido ao caos criado pelo regime na última década) só entregue a quem apresentar cartão da ZANU-FP de Mugabe, o secretário-geral do partido que venceu nas urnas acusado de alta traição (que dá pena de morte) por ter revelado os resultados eleitorais que o regime queria esconder... Um vasto rol de violência e ilegalidade, que podem ver aqui.

O risco de morte é terrivel e bem real, mas... não é um pouco tarde para pensar nisso?
Que vão dizer às famílias dos assassinados, aos torturados e agredidos, às violadas, aos expulsos que viram as suas casas arder, por terem tido a coragem de votar contra Mugabe?
Que afinal fica tudo como era dantes? Que tudo foi em vão?

Se o deixarem, Mugabe - automático vencedor, sem oponente - vai dissolver o parlamento eleito, onde ficou em minoria, e convocar novas eleições. Será que o MDC não vai participar, para não pedir às pessoas que corram risco de vida por votarem em si?

É certo que a primeira dama garantiu que, mesmo ganhando, Tsvangirai nunca iria ver o interior do palácio presidencial. É certo que Mugabe garantiu que «as balas são mais fortes que as canetas» (de votar) e que, caso perdesse nas urnas, as utilizaria.

Será que o MDC recebeu garantias? Como o governo de unidade nacional liderado pelos perdedores, proposto pelo velho Kaunda e, há poucos dias, pelo presidente da África do Sul que tantas responsabilidades tem no assunto?
Mas o que valem as garantias de dirigentes regionais que olharam para o lado e assobiaram enquanto Mugabe meteu o seu país e o seu povo a ferro e fogo, e que receberam Tsvangirai, já vencedor eleitoral, fazendo-o passar por um detector de metais?

Esperemos para ver. Pela minha parte, não tenho (neste assunto) muita fé nem nas lideranças regionais, nem na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas que dizem irá haver.

PS: e que se lixe a bola

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Você disse «eleições livres»?

Jacob Zuma, presidente do ANC (África do Sul) disse que não acredita que a segunda volta das eleições no Zimbabwe seja livre.

É um enorme contraste em relação à "diplomacia silenciosa" de Mbeki e vários líderes regionais, que tem deixado as mãos livres a Mugabe, mas começa a ser uma declaração tímida, face ao que se está a passar.
Quando foi anunciada a realização de uma segunda volta nas eleições presidenciais zimbabuéanas, este cartoon era, de facto, adequado:

Depois de todo o rol de sistemática violência, intimidações e assassinatos (cujo levantamento podem acompanhar aqui), este plágio está bem mais próximo da realidade:


quarta-feira, 18 de junho de 2008

Excelência premiada

O Clube dos Jornalistas atribuiu a Joaquim Furtado o Grande Prémio Gazeta 2007, pela sua série documental A Guerra, cujos primeiros 9 episódios foram exibidos o ano passado na RTP.

Só conheci Joaquim Furtado fugazmente, num debate que promoveu acerca da morte de Comandos na recruta. Mas sempre acompanhei com muita atenção tudo o que foi fazendo, com aquela seriedade e qualidade acima do habitual.

Agora, depois de um ascenso institucional e de uma aparente estadia "na prateleira", brindou-nos com esta extraordinária série!
Ao longo dos 9 episódios, sei que há quem não tenha gostado disto ou daquilo.
Considero isso normal e desejável pois, precisamente, ela não pode agradar a todos.

Porque não é a versão oficial de ninguém, mas um completo repositório dos olhares de pessoas das diversas partes envolvidas que, para além de nos proporcionar essa diversidade, nos permite compreender pontos de vista, sentimentos e leituras da história que não estamos habituados a equacionar. E perceber como elas interagiram.
Tudo isto acompanhado por uma contextualização que se faz discreta e pelo desfazer de algumas mitologias que se vieram arrastando, em Portugal e nos países que com essas guerras alcançaram a independência. Não é, Cabo Delgado?

Discordem e objectem, se tal for a vossa opinião.
Para mim, raramente este prémio foi ou voltará a ser tão merecido.