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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Do despejo como discurso político


(técnicas de despejo, ou "como eu gosto de molhar a sopa" - foto JN)

Conforme será evidente para qualquer observador, o despejo da Es.Col.A da Fontinha pouco tem a ver com uma mera questão legal acerca de propriedade e uso de espaços públicos.

Mas se até poderá ser, conforme escreve o Nuno Ramos de Almeida, «uma acção para limpar e destruir um sítio que provava a imensa incompetência de um homem que age como um pequeno ditador» (o presidente da câmara, Rui Rio), tão pouco me parece ficar-se por aí.
E muito menos me parece que se fique por aí o grau de violência utilizado pelas forças policiais e a sua imediata combinação com o lançamento, janela fora, dos livros, equipamentos e mobiliário que os dinamizadores do projecto e os moradoers do bairro ali tinham juntado, para as actividades didácticas.


(imediata destruição de equipamentos e propriedade alheia)

Quando olhamos para esta actuação policial e municipal, para o actual aumento da frequência e violência de rusgas em bairros pobres, para os relatórios das direcções do SIS e da PSP que fazem doutrina e são cuidadosamente escoados para os jornais, para o uso extensivo de agentes infiltrados na manifestação do M15O na penúltima Greve Geral e a repressão do seu desfile na última, tudo indica que existe um padrão geral e que aquilo que está em causa é mais vasto.

Temo bem que, mais do que uma idiossicrática reacção autoritária de alguém que sentiu a sua autoridade desafiada, o que esteja em causa seja o tipo desse desafio - e que, mais do que as relações de poder a um nível local, o que esteja em causa seja a actual paranoia securitária do "inimigo interno", que parece ter-se consolidado numa fase de o tentar "fazer saltar".

Explico-me.
Incapazes de compreender que o potencial de violência, decorrente da actual e galopante precarização de vida, radica nos mais comuns dos cidadãos por ela violentados, as pessoas que realmente agarram as rédeas da segurança pública continuam a apostar na busca e controlo de "inimigos internos".
Não conseguindo colar esse selo aos sindicatos e partidos institucionalizados, procuram os tais inimigos públicos nos movimentos recentes, que encaram como "tipo anarquistas" e potencialmente proto-terroristas, mas que têm dificuldade em espiar e controlar pelas técnicas habituais, devido à sua fluidez e pouca estruturação.
Nada se passando de particularmente perigoso que possa legitimar uma escalada repressiva ou medidas de excepção que violem legalmente direitos fundamentais, tudo indica que procuraram criar essa situação de perigo. A 24 de Novembro, a coisa não resultou. Tão pouco resultou a 23 de Março, pela evidente e chocante desproporção entre a actuação policial e aquilo a que supostamente reagia.

Neste quadro, o aumento e musculação do controlo sobre aqueles que não têm direito a ter direitos (pela sua pobreza, tom de pele e por se conseguirem sempre caçar uns quantos "imigrantes ilegais", mesmo que cá tenham nascido) tanto pode ser um treino, como uma mentalização, como uma tentativa algo canhestra de "isolar problemas" - ou tudo isso em conjunto.

Mas o concomitante "despejo" da Es.Col.A da Fontinha, projecto "alternativo" e auto-gestionário de serviço público e comunitário, traz consigo toda a marca do "inimigo interno" que teima em fazer coisas e em protestar sem se tornar no terrível e violentíssimo actor dos «piores tumultos desde o PREC».
Um inimigo que, falhadas as tentativas anteriores, urge "fazer saltar", tumultuando à luz do dia em reação à violência que lhe é dirigida. E que, dada a tal natureza fluída e pouco estruturada, é mais fácil de espicaçar num espaço físico e delimitado de actividade - com a vantagem suplementar de, por auto-gestionária que seja, essa actividade ter necessariamente que ser estruturada.
O facto de a ocupação desse espaço abandonado pelos poderes públicos não corresponder aos cânones da legislação sobre a propriedade é uma boa desculpa.
O facto de a actividade lá desenvolvida ser muito valorizada pelos que ali ofereciam o seu tempo e esforço e pela população do bairro tem a vantagem (para essa securitária gente) de o aguilhão entrar mais fundo e fazer mais mossa.

Temo bem que a violência exercida sobre os activistas e a população da Fontinha (e sobre o seu esforço colectivo) não seja, então, apenas uma caturrice autoritária, ou sequer um exemplo para desencorajar ideias semelhantes.
Parece-me que, mais do que uma chocante reposição de uma ideia de legalidade e respeitinho, o seu intuito será sobretudo outro: suscitar violência por parte de quem se sente atingido ou solidário.

Mas isso quer também dizer que quem puxa os cordelinhos da 'segurança pública' (a alguns dos quais poderá até estar pendurado o Ministro da Administração Interna) são actualmente os principais agentes da insegurança pública.

domingo, 25 de março de 2012

Não, não é piada nem montagem

É mesmo um genuíno aborto intelectual e político, ontem afixado no Facebook pela organização juvenil que leva o nome de Social-Democrata.

O que me leva a convidar-vos a (re)lerem este post, acerca de "direitos adquiridos".

E me suscita uma consternação:
A julgar por um par de reuniões institucionais que então tive com ele, Pedro Passos Coelho era, quando presidente da JSD, um homem genuinamente democrata e preocupado com questões de direitos e justiça social.
Enquanto primeiro-ministro, deu no que se vê.
Se estes meninos e meninas já começam assim, em que é que irão dar?


post scriptum: passando da constatação da obscena bimbalhice neo-cavaquista (empreendedorizem BPNs piquenos, empreendedorizem BPNs...) a algo mais geral, aqui deixo uma frase oportuna que acabei de ler.

«Está na natureza de todas as estruturas de poder, armado ou não, apresentar as mudanças, por muito contraditórias ou cruéis que elas sejam, como um progresso necessário para atingir a luz.» (Christopher Hope, in A Montanha de Kruger)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Identidades, peles e crianças racialmente daltónicas

À conta da resposta a um comentário neste post, acabei por me estender mais do que esperava, mas de uma forma que poderá interessar a alguns de vós.
Aqui fica:

«As classificações (das pessoas e de tudo o que nos rodeia) constroem-se e transmitem-se enfatizando algumas características daquilo que se classifica e não dando atenção a outras. Sem isso não se poderia dizer "cão" ou "pessoa", pois são todos diferentes.
Quando a classificação faz parte da construção de identidades, individuais ou colectivas, esse processo de enfatização de umas características e de "irrelevantização" de outras segue dois vectores necessários para se poder traçar a fronteira entre "nós" e os "outros", que serve de base a uma identidade: é necessário postular (de forma que se torne minimamente consensual) um conjunto de características "comuns" que sejam "nossas", e um conjunto de características "diferentes" que sejam dos outros.

As características seleccionadas podem ser muito distintas, conforme a fronteira identitária que se pretende traçar; mas tem sempre que haver uma enfatização de umas e um fechar dos olhos a outras e alguma aceitação colectiva da sua relevância, para que a identidade resultante possa ser partilhada.

O tom de pele é uma caractérística entre muitas outras de qualquer ser humano, e como tal pode ser enfatizada, subestimada ou ignorada, tanto no processo de classificação como no de percepção (se é que os podemos distinguir para lá de um nível meramente abstracto). Só se torna mais relevante, em termos cognitivos e representacionais, do que o tamanho do dedo grande do pé a partir do momento em que se torne pertinente para estabelecer uma diferenciação, e que a pessoa se aperceba de que essa característica diferenciadora é pertinente para os outros.
Por outras palavras, a diferença de tom de pele, por muito que pareça "meter-se pelos olhos dentro", tem que ser aprendida para que se lhe dê atenção.

Devido a isso e à vivência na minha própria casa, não tenho dúvidas em sustentar que as crianças são racialmente "daltónicas" até que estímulos exteriores (que podem, é verdade, ser muito precoces) as ensinem a ver a cor da pele, quando a olham.

Isto, apesar do turbilhão classificatório e identitário em que as crianças pequenas vivem.
Porque quando chamam (ou para que chamem) a outra "gorda", "feia" ou "preta", essas classificações têm que ter sido aprendidas a montante e ser objecto de negociação social.
Ser "gordo" é uma qualificação quantitativa e ser "feio" é qualitativa. Mas em ambas foi necessário aprender a relevância (quanto mais não seja, enquanto insulto) e ambas necessitam de suscitar consenso exterior, pois a sansão, ao chamar-se "gordo" ou "feio" a quem os interlocutores achem "magro" ou "bonito" é o ridículo.»

terça-feira, 1 de março de 2011

E andam vocês preocupados com a qualidade das "licenciaturas de Bolonha"?

Vocês são é uns picuinhas!

Inspirem-se, antes, nesta ideia corajosa e inovadora!

sábado, 12 de junho de 2010

Amor filial, ou falta de oftalmologista?



- Ó pai: como é que se chama mesmo esse senhor na tua T-shirt?
- Corto Maltese.
- É muito parecido contigo. Só que tu és mais bonito.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Esta senhora não existe!

Isso de ser a vergonha das ciências sociais já foi chão que deu uvas...

Um ano depois de uma espectacular melhoria dos resultados de exames de matemática, com a adopção perguntas do tipo «será que 2 mais 2 são 4?», a ministra da educação vem explicar que a também espectacular quebra deste ano se deve à difusão, pela comunicação social, «da ideia de que os exames eram fáceis».

Dizem que há quem seja bipolar, mas não será o caso. Pois, a sê-lo, que é do outro polo?
Também dizem que há quem seja monomaníaco. Mas a senhora tem outras manias - como essa de que os profs são calões incompetentes que só podem ser domados a chicote.
Se calhar, deviam começar a dizer, simplesmente, que há quem não exista.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Saudável convívio familiar

Para ver antes ou depois de se ler isto, isto e isto.
(descoberto via Arrastão)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Portugal Moçambicaniza-se (IV a)

Nem de propósito:

Depois do 5 de Fevereiro, a Governadora da Província de Maputo fartou-se de falar de "manipulação dos jovens e estudantes" por parte de gente mal intencionada.
Isto até uma estudante lhe dizer frente às câmaras de TV que não precisa de ser manipulada para ver o que está mal.

Há momentos, a Directora Geral de Educação do Norte veio dizer que há manipulação dos alunos por elementos estranhos às escolas.
É realmente chato, poder-se despedir gente que afixa um cartoon acerca do nosso primeiro e não poder despedir os putos que protestam lá nas escolas deles.

Isto só dá tempo de afixar o post... Agora é o Secretário de Estado que vem falar de manipulações dos pobres, bem-intencionados (e, segundo parece, atrasados mentais) estudantezinhos.

Portugal Moçambicaniza-se (IV)

A 5 de Fevereiro de 2008, Maputo foi paralizado por motins populares que tiveram como motivação imediata um aumento dos transportes semi-colectivos decidido sem ter em conta as dificuldades de sobrevivência da população, e expressaram um descontentamente geral com as condições de vida e a irrelevância do povo para as opções do poder político.

O ministro respectivo desvalorizou a questão e, pouco depois, o Secretário da propaganda do partido governamental veio dizer que os motins tinham sido orquestrados por uma "Mão Invisível".

A 8 de Novembro de 2008, Lisboa foi sacudida pela segundo manifestação esmagadora de professores em poucos meses. 4 profs em cada 5 protestaram na rua contra a política do ministério da educação. A ministra desvalorizou. Dias depois, estudantes receberam a ministra com ovos em Fafe e, como seria de esperar, a coisa foi imitada em Lisboa, na primeira oportunidade.

O equivalente português do Sr. Macuácua, o porta-voz do PS Vitalino Canas, vem dizer que os protestos são "desacatos que nos parecem muito orquestrados, muito instrumentalizados, talvez por alguns radicais e alguns professores".


Depois do apoio a empresas privadas para garantirem o policiamento público, do epíteto de "negativismo, maledicência e bota-abaixo" a todos os que não viam o futuro tão risonho como o nosso primeiro, e depois de plagiarem o slogan de Armando Guebuza e da Frelimo, já não me restam dúvidas:

O nosso primeiro e o seu partido estão tão incrivelmente preocupados com o meu bem-estar pessoal que decidiram fazer tudo para que eu não sinta choques e dificuldades de adaptação, ao transitar entre Portugal e Moçambique! É a única explicação possível.

Sendo assim e já agora, nosso primeiro, torne a semelhança ainda maior: com a maior rapidez, demita a ministra e aproveite para mandar também borda fora alguns dos seus colegas mais inconvenientes.

Sei lá... Olhe: por exemplo aquele ex-chefe da secreta que não consegue dirigir forças policiais às claras, ou aquele outro que aprendeu com ele e acha normal autorizar devassas ilegais de correspondência electrónica, ou o ex-banqueiro que fez procurador pessoal um alto quadro do BP que devia fiscalizar o seu banco e, já ministro, o nomeou para a Autoridade da Concorrência.
Oh, homem... você é que sabe. Tem muito por onde escolher.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O cadáver adiado


Ouvi há bocado no telejornal, com estes dois que a terra há de comer.

- Muitas escolas suspenderam a avaliação? Quantas? Pode informar a Senhora Ministra da Educação? (perguntava a própria S.M.E. aos jornalistas) Nenhuma escola suspendeu a avaliação de professores!

Segundos depois, informava um sindicalista que em Coimbra são 7, no Porto não me lembro quantas, em Lisboa a maioria...

Parece então que, no meu anterior post acerca da Senhora Ministra da Educação, caí no pecado do corporativismo.
Ela não anda apenas a envergonhar as ciências sociais. Anda a envergonhar a raça humana.
Não anda apenas a ridicularizar o Estado (que, aliás, muitas vezes bem o merece). Anda a ridicularizar-se a si própria.

Politicamente, a ministra da educação é um cadáver adiado desde Março. Libertando já os sinais sensitivos de ter deixado de estar adiado, o que só parece escapar ao olfacto do primeiro-ministro.

Pessoalmente, a cidadã e professora Maria de Lurdes Rodrigues está a perder toda a credibilidade que tão arduamente deve ter conquistado.
E isso, não desejo a ninguém, mesmo quando a culpa é da própria pessoa.

sábado, 8 de novembro de 2008

A vergonha das ciências sociais

Um comentário a este post obriga-me a explicitar algumas coisas.

Como em qualquer actividade, há cientistas sociais geniais, bons, medíocres e maus.

Mas uma coisa se espera de qualquer pessoa que tenha feito licenciatura, mestrado, doutoramento e uma carreira académica respeitável, mesmo que sem produções científicas particularmente salientes, numa disciplina como a sociologia:
Espera-se que integre em si o ethos e instrumentos de análise da actividade profissional e intelectual que é a sua, e que isso faça parte da forma como olha a realidade e reage a ela.

Ao confrontar-me com um acontecimento, sou incapaz de despir, do meu olhar e interpretações daquilo que vejo, o facto de ser um antropólogo - não só de formação como de prática, que veio reforçar e aprofundar essa formação. (Da mesma forma que, ao fazer antropologia, sou incapaz de despir a minha experiência de vida e aquilo que ela implica em termos de valores, emoções e perspectivas.)
Posso olhar para os acontecimentos de forma mais criativa ou "quadrada", mais aprofundada ou ligeira, mais inteligente ou limitada, mas nunca como se nunca tivesse ouvido o BêÁBá da minha profissão.

Por isso, quando uma ministra que fez carreira como socióloga decide afirmar, em resposta a uma manifestação de 120.000 professores (80% de todos os professores e educadores de infância do país!) que eles não querem é ser avaliados, não está apenas a revelar má-fé, leviandade e desrespeito pelos actores da área social que lhe cabe gerir.
Com essa análise e afirmação, está também a cuspir na sua disciplina científica e a envergonhar as ciências sociais.

Pontos de vista - 2


Diz uma socióloga que virou ministra, ao confrontar-se com uma manifestação de 120.000 professores contra a sua política educativa:

- Isto é porque os professores não querem ser avaliados.

domingo, 26 de outubro de 2008

Coprofilia

Li a coisa há um par de dias num daqueles jornais gratuitos mas, como não a encontrei online em lado nenhum, pensei que vocês não iam acreditar se eu me limitasse a contar.
O Arrastão forneceu agora um link para uma notícia do DN, pelo que já não passo por mentiroso. É assim:

O presidente da associação de estudantes da Universidade de Évora (a bela terra onde nasci, helàs) ficou muito agastado por, no seguimento de queixas de alunos, o reitor ter proibido umas praxes na escola de regentes agrícolas que deus tenha, cujo ponto alto era fazer os caloiros rastejarem na bosta dos animais, pontualmente apimentada pela de algum praxista que estivesse mais aflito.

Diz o chavalo que a malta gosta tanto da coisa que até há gente do 2º ano que pede pelas alminhas que os deixem também chafurdar no esterco.
Para além do mais, acrescenta, «é uma manifestação cultural que deve ser respeitada».

Eu até sei que aquela antiga escola, agora pólo da Universidade, tinha a tradição de acolher como alunos os filhos mais ineptos dos latifundiários do tempo da outra senhora - o que arrastava consigo um ethos, uma elevação intelectual e um refinamento de gostos como aqueles que costumamos encontrar, nos filmes, entre os membros mais volumosos das equipas universitárias de football americano.

Supunha que a origem social e o nível mental dos alunos se tinham alterado com o tempo, mas não imaginava que tanto tinha sido preservado do ethos original. Tirando as ovelhas negras que se queixaram à reitoria, parece que ainda hoje, ali, a malta gosta é de merda.
Apesar disso - acreditem num antropólogo, mesmo sem que ele cite uma lista infindável de exemplos escabrosos em defesa da sua afirmação - o facto de uma coisa ser uma «manifestação cultural» não quer dizer que deva «ser respeitada».

E, se esta descoberta for muito chocante, eh pá... Encham a banheira de bosta e vão curtir e relaxar um bocado.

sábado, 11 de outubro de 2008

Já não se pode ser prof


Na ida ao blog do Carlos Serra, dei com este bela imagem, que dedico aos professores do meu país, lixados por uma senhora que dizem que era minha colega, antes de virar ministra.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Curandeiros(as) teenagers

E por falar em teenagers:

Há mais de um ano que conheço o Pedro Cossa (na foto), mas sempre pensei que fosse mocinho aí para a minha idade.
Afinal, fiquei ontem a saber que é 8 anos mais novo e que teve a doença do chamamento aos 14 anos. Aos 17, tinha acabado o curso e era já curandeiro.

Acontece. Mas surpreendeu-me mais saber que, quando ele chegou ao quintal da sua mestra para começar a aprender, havia uma miúda de 10 anos a exercer já a profissão.
E mais ainda que, hoje em dia, se tornou bastante frequente encontrar crianças de 10, 12 ou 14 anos a acabarem o curso.

Para quem não saiba, essa profissão é suposto implicar uma possessão por espíritos a que se torne inadiável dar resposta e, por outro lado, só cerca de 1/5 dos assuntos que os curandeiros urbanos atendem têm a ver com questões de saúde. O resto são problemas familiares ou sociais - que não se coadunam muito com veredictos de crianças, quanto à sua resolução.

Nem o Pedro nem eu encontramos razões plausíveis para esta infantilização da entrada na profissão de curandeiro(a). Alguém tem uma dica pertinente?

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O ministro, as praxes e os cretinos

Mariano Gago, prometeu denunciar ao Ministério Público todos os responsáveis de universidades e institutos politécnicos que pactuem com praxes violentas, mesmo que por omissão.

Só posso gritar: «Força!»

Cruzei-me com praxes na tropa, denunciei o seu carácter nefasto, degradante, perigoso e gratuíto (e vários casos concretos) no Jornal da CASMO que deus tenha e no livro Casualties in Peacetime – a study on violence and intimidation in the armed forces in Europe, em que colaborei.

Como trabalhador-estudante universitário, lá tive que pregar um par de sopapos num cretino que, depois de obrigar uma colega lavada em lágrimas mimar uma cena de sexo oral com um vibrador, a tentava forçar a masturbar-se publicamente, em cima de uma mesa no hall de entrada do Instituto.

Como professor, o único código estético que exijo nas aulas é que, para assistirem, os alunos vão lavar as palavras "puta", "paneleiro", "burro(a)", "merda de cão" ou outras que lhes tenham pintado na cara.
E, a seguir, o tema da aula torna-se os ritos de passagem, a dignidade humana, o autoritarismo, a submissão, a ausência de valores integradores positivos nas praxes académicas e a sua história - desde o código de auto-policiamento exigido aos estudantes quando, há séculos, a Universidade tinha direito privado, até um sistema de reprodução da submissão, autoritarismo e humilhação, que os próprios "veteranos" de Coimbra aboliram no seu tempo.

Não é muito, mas é o que me foi até hoje necessário.
No entanto, a própria lei me exige que, como qualquer outro cidadão, intervenha caso presencie agressões ou casos graves de coerção. Se não o fizer, não sou apenas moralmente conivente; sou criminalmente responsável por omissão de auxílio.
Para com pobres coitados que aceitem ser humilhados por cretinos naquilo que consideram uma brincadeira pesadota (e para com os próprios cretinos que foram antes pobres coitados), poderemos ficar pelo debate pedagógico ou mesmo um pontual insulto.
Mas perante acções violentas e/ou atentatórias da dignidade que caem sob alçada criminal, quem sabe, nada faz e teria poder para fazer é, também, um criminoso.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Autismo em Portugal


Passado mais de um mês sobre este arrasador acontecimento, parece que, para esta senhora, nada de relevante se passou então.

Levanta-se-me a dúvida: será que ela é uma irmã desconhecida ou esquecida do senhor do post anterior?

sábado, 8 de março de 2008

Os professores e a Professora

Estou banzado!

Ver na televisão mais de 85.000 professores (Fenprof e PSP de acordo), um pouco mais de metade dos professores portugueses, numa manifestação em Lisboa contra a política de ensino do governo e exigindo a demissão da respectiva ministra é um acontecimento que foge a todas as normas. É o equivalente sectorial a vermos 5 milhões de portugueses na rua, a protestarem contra o governo ou uma sua política geral.
Perante um terramoto destes, ver depois Augusto Santos Silva a perorar (certamente contrariado, pois ninguém lhe pode invejar a obrigação de fazer tal discurso) que a política do governo não é ditada por manifestações, mas pelo seu programa, é constrangedor. É patético. Tem-se pena do homem, mesmo tendo sido ele quem aceitou o cargo. Porque não é credível que possa existir um tal nível de autismo num governo e num homem inteligente como ele.

Um tamanho consenso contra uma política de um governo (sectorial mas numa área indiscutivelmente estratégica) e contra a pessoa que com particular empenho a planeia e executa é excepcional. Que esse consenso se expresse através de uma manifestação de rua tão esmagadora é mais excepcional ainda.

Porquê? A propósito de uma outra manifestação, chamei aqui a atenção para um facto que por vezes nos escapa: há quase duas décadas que, em Portugal, as pessoas consideram a representação sindical (mesmo quando não concordam com a actuação prática dos sindicatos) como um serviço público a que têm direito, sem que tal exija delas filiação e participação. Quando participam, isso é um acto muito mais significativo do que quando (até meados da década de 1980) participar era normal; quando o fazem massivamente, a excepcionalidade do acto demonstra como é excepcional e consensual o desacordo.

Mas isto levanta novas perguntas. Como é que alguém (individual ou colectivo) consegue criar um consenso destes contra si próprio? Há a política adoptada, claro. Há o autoritarismo na sua adopção, certamente. Mas é só isso?

O autoritarismo não é apenas um estilo. É uma concepção do poder e do seu exercício - e o poder não é apenas "político", no sentido mais comum da palavra; existe em qualquer relação entre pessoas. Também não é, pelo menos para os psicólogos, a mesma coisa que autocracia.
O autocrata impõe-se, vai à luta para esmagar mas equaciona a possibilidade de derrota e sabe ouvir, porque toma as opiniões adversas como informações essenciais para ajustes tácticos, mesmo que os seus objectivos estratégicos sejam execráveis. Quer dominar, mas está alerta porque encara esse domínio como o resultado de um jogo permanente.
O autoritário "pisa para baixo" e "amouxa para cima". Desvaloriza as opiniões adversas e as informações desagradáveis para o seu plano, porque parte do princípio de que estar numa posição dominante garante, à partida, a imposição e sucesso do seu domínio. São os burocratas do poder sobre os outros.

A Ministra da Educação demonstrou publicamente o seu carácter autoritário e o nosso primeiro mais ainda - juntando até, aos aspectos de poder, a fixação higienista e saudabilista que os psicólogos atribuem a esse modelo de personalidade.
Está estudado que os autoritários preferem rodear-se de autoritários, quer por apreciarem o estilo (que acaba por ser uma extensão do seu), quer por se sentirem mais seguros de que, assim, a sua posição e poder não serão questionados, pelo menos enquanto as posições hierárquicas estiverem claras. OK, mas... Porquê esta autoritária? E que consequências é que essa escolha tem?

Para alguém que leccionou Antropologia da Educação durante 7 anos, sou singularmente pouco interessado por questões relacionadas com o sistema de ensino.
Mas há uma coisa que repeti inúmeras vezes, nos mais variados sítios e contextos, embora fosse quase sempre entendida como uma gracinha pour épater les bourgeois: a importância real dos professores para a sociedade decresce à medida que aumenta o grau de ensino que leccionam.
A afirmação era vista como uma boutade num académico, porque separa o aprofundamento de saberes da importância social do trabalho lectivo (que normalmente são amalgamados) e porque é suposto termos, todos nós académicos, um enorme ego individual e colectivo.
Esta última imagem é basicamente verdadeira, sem que eu seja excepção. Mas a experiência de vida e a capacidade auto-reflexiva têm alguma importância, pelo que por vezes dá para compreender que a universidade é uma instituição singularmente hierarquizada, considerando os seus supostos objectivos, e que tende a ser encarada, por nós académicos "bem sucedidos", não como um cantinho relativamente pouco relevante do mundo, mas como a sociedade (com ou sem o prefixo "micro") relevante em que nós vivemos. É normal, então, que farrapinhos de poder quase ridículos numa perspectiva societal global sejam objecto de lutas fracticidas letais, como se aquelas cagadinhas de poder fossem O PODER, e como se o poder valesse isso.
Em suma, e apesar de algumas muito louváveis excepções (que têm tanto a ver com carácter individual como com a capacidade de fazer com que alguns valores resistam à erosão do meio circundante), somos um caldo de cultura adverso à produção de decisores políticos que encarem o poder segundo uma lógica diferente do mata-ou-morre - ou, num outro sub-produto mais raro, do "bananismo" indeciso.

Posto isto:
A partir de hoje, a Ministra da Educação está politicamente morta.
Não é uma declaração política; é a mera constatação de um facto.
Discordo de algumas opções tomadas pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (embora suspeite concordar com o diagnóstico que o terá levado a tomá-las), mas acho que dificilmente poderíamos encontrar uma melhor pessoa para esse cargo.
Em contrapartida, quanto ao Ministério da Educação, deixem os académicos a academicar. Vejam lá se agora arranjam um(a) ex ou actual professor(a) do ensino básico ou secundário, sem grandes sentimentos corporativos mas sensibilidade para os entender, que não saiba falar educacionês, não seja um(a) "rato(a) de aparelho" partidário e, de preferência, seja inteligente. De outra forma, estarão a pedi-las.