domingo, 30 de setembro de 2007

Camarão à Antropólogo, aka Camarão à Pai

A antropologia tem, por vezes, resultados inesperados. Este é gastronómico.

Quando estudava a refinaria de Sines, convivia bastante com um operador de consola que fazia gala em falar comigo de tudo menos do seu trabalho. O Canotilho é uma pessoa muito assertiva e, durante um jantar em sua casa, soltou no seu estilo lapidar: «Isso de camarão cozido é só do pequeno. Camarão grande é para fritar em cerveja!»
A coisa ficou-me a marinar no bestunto e, na ausência de mais explicações, acabou por resultar na primeira receita que inventei, na tentativa de desvendar esse mistério do "fritar em cerveja".

A coisa faz-se assim:

Descasca-se um meio quilo de camarão de bom tamanho, deixando agarradas a cabeça e a ponta da cauda e dando um corte fundo ao longo das "costas" dos bichos.
Num wok ou numa frigideira alta, põe-se uma talhada de margarina a derreter (suficiente para fritar os animaizinhos, mas não para os afogar), com sal, meia cabeça de alhos cortados às tiras e duas malaguetas, daquelas pequeninas e mal-dispostas.
Quando essa mistura já frita em lume forte, metem-se lá os camarões e viram-se quando necessário, para levarem uma fritura ligeira mas geral, a toda a volta.
É nessa altura que se espreme limão (um pequeno, ou metado de um grande) e se dão umas borrifadelas de molho de soja.
Após umas rápidas voltas que vão homogeneizando o molho, deita-se cerveja (de preferência Super Bock ou, em Moçambique, Manica) até os camarões ficarem submersos. Mexe-se de novo e deixa-se tapado, agora num lume brando mas suficiente para manter fervura.
Quando o cheiro muda e se torna irresistível, ao mesmo tempo que o molho engrossa sem deixar de ser líquido, a coisa está pronta.
Sirva-se com arroz branco ou "à guloso", apenas acompanhado de pão para ensopar o molho.

Este prato, chamado "Camarão à Antropólogo" (era originalmente "à Antropólogo Industrial", mas os convivas achavam que isso dava uma imagem poluída ao assunto), foi crismado "Camarão à Pai" quando não se usam as malaguetas.

Fado do Esgraçadinho, versão Canis Lupus

Joguei rugbi, na minha tenra adolescência.
Primeiro, num aproximativo clube de liceu onde os jogadores-treinadores mais velhos não se deram ao trabalho de verificar o meu ano de nascimento, pelo que tive a sorte de jogar a 3/4 ponta na equipe do escalão seguinte, em vez de andar a martirizar putos com a minha idade mas metade do tamanho.
Depois, num clube à séria, onde treinava a médio de abertura mas quase nunca jogava, por haver um outro que era bem melhor do que eu para o lugar.

Suponho que a simpatia inicial pelo jogo se ficou muito a dever às regulares transmissões televisivas do então Torneio das Cinco Nações, em que um avanço da linha de 3/4 do País de Gales enchia bem mais o olho do que 2 horas de saltos de ski, que os jogos de hóquei em que não se via a bola, ou mesmo que as anuais transmissões da final da Taça de Portugal e do G.P. do Mónaco.
Essa simpatia desenvolveu-se muito, depois, com a sua prática. Talvez pelos ventos revolucionários da altura, tinha deixado de ser uma modalidade de "betos" sobrealimentados, como dizem que de novo é. Dava gozo jogar e tinha aspectos de fair-play quase aristocrático, como o túnel que os vencidos faziam para aplaudir os vencedores (depois retribuído por estes), ou o facto de nunca ter sido aleijado deliberadamente por um adversário - ao contrário da contínua carga de pancada com que fui brindado no meu único jogo oficial de andebol.

Em suma, é um desporto que gosto muito de ver e que gostaria ainda de praticar, se existisse a um nível de solteirosXcasados e eu não me tornasse um segundo Mr. Magoo logo que tiro os óculos.
Por essa simpatia, mais me pareceu desprezível o faduncho armado em torno da participação - tirando esse aspecto, digna e louvável - dos tais de "Lobos" no mundial de rugbi.
«Para mim foi como se fossem campeões» por perderem por poucos com a Roménia? «Foram verdadeiros heróis» por marcarem um ensaio à Nova Zelândia? Haja paciência e decoro!
Uma equipe amadora comportou-se decentemente num desporto que, como quase todos, é profissional. Num desporto em que há selecções cujos jogadores nem sequer jogam em clubes, mas apenas nelas. Óptimo. E então? Embarca por isso um país na retórica dos "pobrezinhos mas honrados", das "vitórias morais", dos "Davides contra Golias", quando são 15 para cada lado e as condições ou se criam ou não podem ser criadas, mas só servem de atenuante e eterna justificação para quem se habitua à mediocridade?

Disse-se que esta campanha mundialista foi uma enorme acção de divulgação do rugbi.
Foi, sobretudo, um hino à auto-complacência e uma reedição do Fado do Esgraçadinho. A mensagem passada aos potenciais novos praticantes da modalidade foi: «Venham ser uns perdedores esforçados, com um g'anda par de tomates, uma g'anda desculpa para as derrotas e um país a apaparicar-vos».
Pode ser que aqueles rapazinhos musculados e os jornalistas entusiasmados (mesmo que não saibam escrever "talonador" ou em que é que isso consiste) se revejam neste filme, tão conhecido de outras eras. Mas quero crer que a chavalada não. Felizmente.

Se a ideia é prestar um serviço à divulgação do rugbi, mais valeria televisionarem em canal aberto os jogos finais do campeonato.Afinal, o que leva putos para o basquetebol é a beleza dos jogos da NBA. Não é a selecção nacional (profissional, elàs) a, muito esforçadamente, quase ganhar jogos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Birmânia

Não é inesperado e duvido mesmo que alguém acreditasse que não iriam haver cargas, mortos e feridos.
Tão pouco que não fosse presa muita gente para "interrogatório" sob tortura, ainda por cima por mera punição e nem sequer para obter qualquer informação relevante.
A barbárie em estado puro, enfim, de quem sente direito a poder absoluto e o direito de matar e punir com sofrimento quem o questione.

É inaceitável e chocante o que aconteceu, mas mais inaceitável ainda é a prática e a visão de poder que lhe subjaz.
Tendo na memória histórica poucas e curtas ditaduras militares, a par desse particularismo (embora não de todo exclusivo) de termos vivido um golpe militar com objectivos democráticos, temos tendência a vê-las como uma coisa meio folclórica, ou típica de países "ingovernáveis", como se tal coisa existisse. Só acordamos com sangue em directo, como se fosse tolerável o poder de senhores da guerra, obtido e mantido pela posse das armas, nas tintas para qualquer vontade ou consenso de quem não as tem.

Em abstracto, nada disto se torna mais grave pela presença mobilizadora de religiosos. São tão pouco inatacáveis, detentores da verdade ou "reservas morais da nação" como os militares com apetites de poder. Podem até encabeçar chamadas à violência generalizada, em defesa de hegemonias próprias, como as recentes freirinhas timorenses. Na Birmânia, contudo, tiveram o eloquente papel de usar o seu estatuto para demonstrar e expressar o consenso da sociedade - o que é muito e vale muito.

É esse consenso que está a ser reprimido. De uma forma tão mais merecedora da nossa admiração e da nossa solidariedade quanto, como comecei por dizer, as cargas, os mortos e os feridos eram previsíveis - e muito mais para quem desfilou do que para nós.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Militares e direitos

- P'rá choça! O seguinte!! (in Eccomics, Éditions Syllepse, 1991)

Decorreu até há pouco uma vigília de militares, junto de S. Bento.
Ao longo da semana, os Estados-Maiores dos vários ramos foram proibindo a participação aos militares no activo, com o argumento do carácter sindical da coisa - argumento tão anacrónico como a lei de excepção que, passados 32 anos sobre o 25 de Novembro e 33 sobre o 25 de Abril, lhe continua a servir de base, apesar das suas evidentes inconstitucionalidades.
Tão esticada foi, desta vez, a interpretação da lei (e, em rigor, ilegal naquilo que era proibido) que o Tribunal Administrativo de Lisboa veio, hoje, dar razão aos que convocaram o protesto.

Infelizmente, temo que isso não impeça as altas hierarquias militares de decretarem mais umas tantas detenções (numa outra particularidade do direito militar, a possibilidade de punir com privações de liberdade sem julgamento), mesmo que correndo o risco de, depois, serem desautorizadas pelos tribunais.
Temo também que não impeça Miguel Sousa Tavares de voltar a dizer na televisão, com a jactância dos ignorantes, que isso de reivindicações de militares são coisas terceiro-mundistas.

Tudo indica, enfim, que o desenrolar dos acontecimentos me obrigue a voltar a este tema, de forma mais aprofundada que este desabafo.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

3 (ou 4) pombos na varanda

Detesto pombos.
Bem sei que alguns tipos (ou todos) têm um GPS particular que é uma maravilha da evolução, que ficam muito jeitosos a voar às dezenas ou centenas à volta das malfadadas velhinhas que os alimentam nos jardins, que os machos fazem um belo efeito lúbrico ao arrastarem as penas do traseiro pelo chão, quando tentam convencer as fêmeas mais renitentes.
Mas a sua imagem de marca, para mim, são as inúmeras doenças que transportam e os ácidos cócós que inevitavelmente soltam sobre a roupa estendida e sobre a janela do meu escritório, fosse qual fosse a casa lisboeta em que tenha vivido.
Confesso-me entusiástico apoiante do controle de natalidade desses ratos voadores e, mesmo, que me cheguei a informar acerca do tal de trigo roxo - que talvez nunca tenha usado por medo de suscitar algum pânico relacionado com a gripe das aves.
Eu, que adoro animais e até mantenho uma relação afectiva duradoura com um cágado que dá pelo nome, tenho de facto um problema com esses bichos.

Eis senão quando me surge um e depois dois ovos plantados na varanda, dentro de um vaso que a minha senhora tinha ali deixado, para abrigar sementes bravias que andassem pelo ar.
Em vez de plantas sem-abrigo, tenho agora ovos de rato voador e duas pombas (ou um casal, mas duvido) que se revezam a chocar os ditos cujos.
Rapidamente nos habituámos a fechar a portada respectiva para não espantar os bichos e, quais padrinhos, vamos cuidadosamente espreitando, de vez em quando, para ver se tudo está bem. Ontem, até houve quem ficasse de atalaia, porque uma gaivota nos rondava a varanda!
Entretanto, as pombas já nos olham com a desfaçatez da foto em baixo, continuando nas suas sete quintas, sempre que damos uma espreitadinha.

Cada vez mais me convenço. A reprodução é um golpe baixo da natureza.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Paulo Langa – 1976/2007

Paulo Langa parecia ainda mais novo do que era. Talvez ajudasse a essa impressão a sua permanente curiosidade que, por exemplo, o fazia meter conversa acerca de assuntos de antropologia e epistemologia, com um ar de juvenil urgência, sempre que me encontrava. E, durante a minha última estada em Moçambique, isso acabou por acontecer muitas vezes.
Bastante alto e magro, fui-me habituando tanto a essas suas características que tiveram que ser os colegas mais novos, do Departamento de Antropologia da UEM, a alertar-me para a sua crescente magreza. As suas chamadas de atenção para que ele procurasse apoio médico parecem, no entanto, ter chegado tarde de mais.
Nunca foi meu assistente – coisa que, aliás, me pediu que acontecesse na minha próxima ida a Maputo - mas, apesar disso, tivemos um longo caminho comum.
Como todos os antropólogos formados na UEM, foi meu aluno e, numa das cadeiras em que isso aconteceu, apresentou um trabalho de elevada qualidade, citado no artigo que aqui afixei em 18 de Fevereiro– um artigo que, de forma perturbante, dediquei a um irmão que tinha acabado de falecer.
Mais tarde, fui orientador da sua tese de licenciatura, acerca de um caso muito interessante de efeitos perversos de um projecto de ONG internacional. Também esse seu trabalho, para além do prazer que nos deu a discutir durante a sua feitura, veio a ser premiado com uma nota elevada.
Procurarei sintetizá-lo em artigo, para que seja tornado público, como merece.

Lido mal com a morte.
Sobretudo com a morte de um homem de 31 anos que, há poucas semanas, se entusiasmava com a perspectiva de, avançando para mestrado, poder fazer pesquisa fora da lógica das consultorias. E que se preparava para o fazer.
Um ex-aluno não é, obviamente, como um filho. Mas, tal como a raposa da nossa infância tardia, é difícil não nos sentirmos responsáveis por aqueles que cativámos.

sábado, 30 de junho de 2007

Bom para Lisboa - 1

(imagem do Expresso)


O Expresso dizia hoje, com chamada à primeira página, que "Santana tinha razão: túnel do Marquês é bom para Lisboa".

Não me impressiona particularmente a ideia de que o menino pudesse vir a ter razão nalguma coisa, algum dia.

Impressiona-me aquilo que, para o Expresso, é "bom para Lisboa": que tivessem passado a entrar na cidade mais 14.000 automóveis por dia, com mais alguma fluidez de tráfego.
Ou seja, bom para Lisboa são mais uns milhares de viaturas vindas de fora da cidade (presume-se que conduzidas por pessoas que antes recorriam aos transportes públicos em cuja qualidade não se investe), deitando para o ar mais umas toneladas de dióxido de carbono e restantes mimos poluentes, entre os quais se incluem os aditivos que permitem à gasolina sem chumbo ter o nível de octanas suficiente para não explodir nos motores quando lhe apetece. Bom para Lisboa é o pandemónio de mais 14.000 carripanas à procura de estacionamento e a dificultar o tráfego após a entrada na cidade.

Bom para Lisboa (e para o país) seria, talvez, que nos jornais de referência se pensasse um pouco antes de escrever, mesmo que acerca de estudos de fluxos de tráfego todos bonitos.

E, já agora: quem foi a brilhante equipa técnica que fez este estudo de impacto de uma obra nova, tendo como termo de comparação fluxos de tráfego de há 7 anos e meio?

Bom para Lisboa - 2

Mas, infelizmente, o que de mais grave está em causa não são fluxos de trânsito, lugares de estacionamento e mais uns quilos de dióxido de carbono (e etc.) no ar.
Parecemos esquecer que grande parte da baixa está assente sobre água, que em cada um dos vales que separam as célebres 7 colinas correm ribeiras hoje subterrâneas, e que a água encontra sempre forma de passar. Se lhe tapam o caminho (por exemplo, com um enorme túnel de betão), irá corroer à volta o que antes era terreno firme, sem que se possa prever com certeza onde, quando e com que consequências para o que está edificado em cima.
Para mais, duvido que alguém saiba, hoje, qual o percurso preciso dessas ribeiras.

Alexandre Quintanilha tornou-se o divulgador em Portugal de uma curiosa teoria acerca dos riscos tecnológicos: a natureza é robusta. Quer isto dizer, basicamente, que aguenta com as asneiras tecnológicas e tecno-científicas que formos fazendo, pelo menos até que os autores das asneiras (ou outros seus colegas) descubram uma solução ou um paliativo para o mal que foi feito.

Parece que a mesma profissão de fé guiou, e continua a guiar, estes esburacanços em Lisboa. Com as diferenças de que nem sequer previsões sérias de impacto são feitas, e de que essa fé na natureza e na capacidade dos técnicos está, neste caso, mal colocada.
A natureza poderá ser robusta, acabando mais tarde ou mais cedo por levar à frente terra, rochas e mesmo túneis; mas o que cá está em cima, a tal cidade em que vivemos, só tem a robustez que a natureza em que assenta lhe deixe ter. E pode ruir.

Mas parece, também, que nada disso importa, desde que mais 14.000 carros possam entrar por dia - ou qualquer outra coisa "boa para Lisboa".


E, depois, há sempre a possibilidade de uma nova fé, num futuro com oníricas Lisboas venezianas, como as imaginadas por António Gonçalves e Nuno Silva, nas aventuras de Filipe Seems.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Dragões, Régulos e Fábricas

Figura 1 - Ruínas do Hotel Quatro Estações


Este é o tal artigo do dragão agora homeless, de que divulguei o extracto inicial uns posts mais abaixo.

Sairá num número temático sobre “Moçambique actual, continuidades e mudanças” da Análise Social, a publicar no segundo trimestre de 2008 e editado por este vosso criado.
Na altura deverá ter alterações, quer pelas sugestões que chegarão de colegas a quem pedi uma leitura crítica, quer pelas exigências de peers reviewing a que também os editores se submetem (somos uma revista séria, que raio!).

Aceitam-se também críticas de bloguistas, aí na caixa de comentários. Já agora, identifiquem-se, para eu poder agradecer na versão final do artigo.

Leia "Dragões, Régulos e Fábricas"

Saúde, doença e cura em Moçambique

Farmácia popular, bairro da Machava, perto de Maputo


É um artigo que repega algumas coisas de outros, em posts mais antigos.
Essas partes serão repetitivas, para quem já conhece. Não obstante, a perspectiva a partir da qual a questão é tratada é diferente, havendo bastantes dados inéditos e reflexões novas.
Sairá no livro Migração, Saúde e Diversidade Cultural, que foi organizado pela Elsa Lechner. Para ela, um abraço.

Leia "Saúde, doença e cura em Moçambique"

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Mais bombinhas



Há dois dias atrás, iniciou-se a explosão controlada de material obsoleto do paiol de Maputo.
Foi na Moamba, a dois passos da cidade e das zonas mais atingidas pelas explosões de há tempos atrás.
Ninguém avisou ninguém e, claro, instalou-se o terror entre a populacão.
Dizem os militares que, como todos podiam ver o grande movimento de camiões do exército, acharam que não era preciso, que toda a gente tinha percebido o que se estava a passar.

Sensíveis, estes rapazes...

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Dragão homeless

Não. Não é uma piada qualquer ao FêCêPê.
A visão da baía de Maputo foi marcada, nos últimos 32 anos, pelas ruínas inacabadas de um alto edifício cuja construção foi interrompida na altura da independência. Estava, então, para ser o Hotel Quatro Estações.
Um marco tão forte e insólito, assim cravado na paisagem, suscitou muitas histórias. Uma delas – que é, afinal, também todas as outras – dizia que era ali a casa de um dragão, que soprava o vento quando se virava para terra e fazia as trovoadas no mar, quando se zangava.
Deixo-vos no “Leia” esses relatos, tirados de um artigo que só será publicado em 2008.
Isto porque, todos estes anos depois, o Quatro Estações foi implodido.
Pobre dragão. Virou um sem-abrigo.

Leia "Dragão homeless"

terça-feira, 24 de abril de 2007

Mais um do joão Paulo

Campo de Trânsito.
Ainda não li mas, mesmo antes de ver as cartas, aposto todas as fichas em como é bom.
Afinal, todos os anteriores são.

domingo, 22 de abril de 2007

«Reduzir à sua real expressão»

As minhas leituras dominicais no WC reservam-me, por vezes, surpresas.
Esta manhã, foi a coluna de João Pereira Coutinho no Expresso de ontem (p.45).

No essencial, queixa-se o senhor em questão que «as cabeças pensantes que se exibem por aí» se apressaram a discutir razões sociais para o massacre de Virginia Tech, com isso desresponsabilizando o psicopata que o cometeu. Que tais acontecimentos tenham algo a ver com as particulares características do capitalismo e sociedade dos EUA, ou com a sua política acerca de armas, será uma falácia mal intencionada.
A questão para ele é cristalina: «reduzir esta chacina à sua real expressão seria atribuir a culpa ao criminoso e não procurar razões quando elas não existem.»
Não há, então, nada de complicado a pensar. Acontecimentos destes são culpa de "maus" ou de "malucos", e aí se esgotam os seus antecedentes, condições e consequências sociais, reduzindo a coisa «à sua real expressão»: a de actos individuais tresloucados, por muito que se possam repetir.
Ou seja, após cento e tal anos de sociologia e demais ciências sociais (com raízes que recuam mais uns cento e tal), ainda se pode escrever sem corar que os comportamentos desviantes são exclusivamente individuais, ou quanto muito decorrentes da psicologia individual - e, provavelmente, que não são desviantes em relação a normas sociais mas a normas absolutas, talvez "naturais" ou "divinas".

Eu, que ainda há dias ouvi um taxista rosnar, ao passar por uma parede onde algum puto tinha escrito uma declaração à namorada, «Eu sei como é que resolvia isto, se mandasse! À primeira, cortava-lhes as mãos; à segunda, a cabeça.», sei bem que raciocínios como o do sr. colunista existem.
Encontrar um tal nível de indigência mental e de arrogante ignorância em alguém que é pago por um dos mais respeitados jornais portugueses para comentar assuntos sociais é que continua a ser capaz de me surpreender.
Ajuda-me, até, a compreender a ênfase que os sociólogos põem na sua "ruptura com o senso comum", que sempre me soa arrogante.
E dá-me vontade de citar ao colunista Coutinho uma frase de uma personagem de Clint Eastwood da qual será certamente um grande fã. Dizia Dirty Harry, acerca destas opiniões do tipo "eu cá acho que": «Opinions are like ass-holes. Everybody has its own.»

Pela minha parte, não sou nem pretendo vir a ser um especialista na(s) sociedade(s) estado-unidense(s). Mas podemos sempre aprender - e reflectir - com quem sabe.
Para quem o quiser fazer, sugiro modestamente, acerca deste assunto, o livro The Werewolf Complex - America's fascination with violence, de Denis Duclos, disponível aqui.

«Reduzir à sua real expressão» - 2

E já agora, para confundir um pouco a simplicidade do mundo do Sr. Pereira Coutinho e para estimular (muito) mentes que sejam menos simples, publicito este outro livro de Denis Duclos.
Pode encontrar-se aqui e, dando uma vista de olhos no índice e primeiras páginas disponíveis aqui, dá para ver que a malandra da «cabeça pensante» do autor até já estudou, na parte 2, opiniões semelhantes à do Sr. Coutinho como se elas não fossem (sacrilégio!) iluminações individuais, mas um fenómeno social.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Un peut de tendresse

Decorreu ontem um jantar comemorativo de 70º aniversário de Maria Eduarda Cruzeiro, há muitos anos presidente do conselho directivo do Instituto de Ciências Sociais.
Devido à obrigação legal de os académicos (ao contrário dos papas e outras lideranças oligárquicas) se jubilarem aos 70 anos, era também uma festa de despedida.
Teve os costumeiros toques institucionais; mas o que depressa ressaltou foi a genuína afeição e ternura dos presentes para com a homenageada.

Há muitíssima gente capaz de liderar.
São bastante menos as pessoas capazes de gerir um "porta-aviões" como o actual ICS com eficiência, firmeza e sem que o imenso trabalho de gestão se faça notar.
Contudo, muitíssimo poucos são capazes de, fazendo-o, suscitarem tais sentimentos generalizados.
Também por isso, a minha singela homenagem.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Columbine X quase 3

As respostas não estão todas, obviamente, em Bowling for Columbine. Ignorar o as pistas que levanta é, no entanto, criminoso - sobretudo nesses Estados Unidos em que estes tiroteios escolares se passam.

Outra coisa que deveria merecer reflexão é que, após Virginia Tech, a fasquia fica muito alta para o futuro remake que, mais anos menos anos, inevitavelmente se seguirá, caso nada de profundo se faça.
Isto porque este caso foi tratado com laivos de competição para o Guiness Book, com sistemática apresentação do Hall of Fame de melhores resultados anteriores: 32 mortos agora, 12 em Columbine 1999 e por aí fora, por vezes deixando de parte (pelas suas implicações políticas?) o brilhante resultado de 13 mortos, obtido em 1966 por um Marine, na Universidade do Texas.
É inócua, esta actual fixação dos media e do público em números e em rankings?
Duvido. Suponho que, se se decide desatar a disparar indicriminadamente, ao menos que se "fique na história" e sem ser numa posição mixuruca. Uns tiritos, tornam-se cada vez mais ridículos; agora, exigem-se morticínios cada vez maiores a quem entre por esses caminhos.
A tal fixação nos números e rankings, se é hoje instigada pelos media, não foi suscitada por eles - nem, hoje, a apetência quantitativa dos consumidores noticiosos passaria sem isso. Não são eles "os maus"; limitam-se a reproduzir, na tragédia, a lógica de uma sociedade que quer quantificar e hierarquizar tudo.

E nós?

Einstein: volta! Estás perdoado.

A campanha até tem impacto e humor.
A primeira vez que a vi, até dei comigo a sorrir. Só 10 segundos depois vieram os "ses".
Se ela não tivesse como pressuposto que só o conhecimento escolar é válido...
Se não esquecesse que um canudo é, muitas vezes, um caminho para o desemprego...
Se não tratasse uma série de profissões como coisas indignas...
Se não tratasse quem as faz como falhados...
Se não fosse o rosto de uma política estatal...
Se...

Se quem a escolheu tivesse pensado mais de 10 segundos... talvez escolhesse uma campanha que não fosse achincalhante para o seu público alvo.
Mas, para perceber porquê, talvez precisasse de 10 anos, ou de uma vida diferente.

Se não tivesse caído em cima da bronca do nosso primeiro... talvez não merecesse clones como este.
Salva-se o humor.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Ainda o paiol de Malhazine

Mostra-se no óptimo Ma-schamba (já nos idos de 29 de Março) que ainda há muita coisa velha por explodir, armazenada ao deus-dará, no paiol de Malhazine.

Por favor, que não se espere pela próxima.

domingo, 15 de abril de 2007

Dilemas holandeses

Também pela Holanda as leis anti-tabagistas importadas de Bruxelas vão atacando.
Na terra dos coffee shops, inventados para separar o comércio e consumo da canabis do das outras drogas e para o pessoal mandar as suas fumaças ali, em vez de na rua, preparava-se a proibição total de consumo de tabaco em estabelecimentos de restauração.
A coisa ia de vento em poupa, de forma até um bocado acrítica para os hábitos locais de cidadania, até alguém se lembrar de fazer uma pergunta que deixou embaraçados os legisladores mais apressados:

«E nos coffee shops como é que é? Só é legal fumar um charro se não se lhe misturar tabaco?»