Ele há vocações que não se podem perder!
É obra!
Blog de Paulo Granjo
Começa hoje o II Mestrado de Antropologia Social e Cultural, lá no ICS.
Junto com os restantes alunos, deveriam estar dois assistentes universitários, que tiveram as melhores médias de sempre na licenciatura de antropologia da Universidade Eduardo Mondlane.
Não estão, porque a bolsa paga pelo IPAD (cooperação portuguesa) não lhes foi atribuída, pois o Ministério moçambicano que gere e canalisa os pedidos alegou que tinha passado o prazo.
Acontece que a sua aceitação como mestrandos foi feita excepcionalmente cedo, para que não existissem problemas desse tipo, mas só poderiam cobrir o prazo de candidatura, em qualquer universidade normal, se se candidatassem já para o ano seguinte.
Acontece também que, em conversa com bolseiros estudando em Portugal, com bolsa do Estado português, pude concluir que conseguiram obtê-las tendo "cunhas" no Ministério moçambicano, ou torneando o sistema através de formas lícitas, mas que não citarei.
Compreendo que a cooperação entre Estados não deve marginalisar um desses Estados. Mas, assim, talvez seja o Estado português a ficar marginalizado do processo, a não ser como pagador.
Compreendo que, noutros tempos, o Estado moçambicano queria controlar os seus quadros e respectivo regresso, estando uma simples viagem de férias dependente de várias autorizações estatais. Mas os tempos são, a esse respeito, felizmente outros.
Compreendo que a actual tendência de "bypassar" os Estados, para canalizar as "ajudas" e projectos directamente para os supostos beneficiários, tem custos e efeitos preversos sobre a governância estatal.
Mas isto cheira suficientemente mal para exigir um reequacionar dos procedimentos.
Aditamento em início de 2008:
Fiquei a saber que os congéneres do IPAD de outros países são menos dados a esses complexos pós-coloniais. Por exemplo, a Cooperação Irlandesa limita-se a analisar o mérito da proposta e a despachar a atribuição (ou não), esperando até pelo documento de aceitação da Universidade respectiva. Ainda por cima, as bolsas são um pouco melhores.
Jovens académicos moçambicanos: sigam por essa via. Talvez o IPAD se convença que alguma coisa está errada, quando ninguém lhe pedir bolsas.
Mais uma história antropogastronómica, desta vez a pedido:
(Entre parentesis, também para essas coisas é que serve a caixa de comentários. Escusam de comentar, debater ou fazer pedidos por telefone, e-mail ou cara a cara; ao menos, aqui a coisa é partilhada com os outros.)
Em Moçambique, a manga está muito longe de ser um produto de luxo. Quase todas as espécies, que são muitas, amadurecem ao mesmo tempo, há muito por onde escolher e o problema dos felizes proprietários de mangueiras (que, para além de darem mangas, são árvores com uma sombra agradabilíssima) é, muitas vezes, dar-lhes vazão antes que apodreçam.
Foi numa altura dessas que, juntando a fartura à sua natural simpatia, o meu querido amigo Rafael da Conceição chegou a um almoço no Mercado do Peixe com o carro carregado de sacos de mangas para os colegas.
No dia seguinte, passando um olhar lanzeirento de fim-de-semana pela cozinha, só vi as mercearias do costume, uma galinha halal made in Brasil e uma pilha de mangas cheirosas, para onde olhava com ar guloso o cágado Futzo (passe a redundância, para quem saiba changana).
Da generosidade do Rafael e da minha preguiça em ir às compras nasceu, então, este prato - que toda a gente acha muito africano, mas que só o é de nascimento e nada tem a ver com as tradições gastronómicas locais.
Corta-se uma galinha ou frango em 8 pedaços, retitando a pele e as pontas das asas.
Dá-se uns golpes em cada peça de carne, para absorver mais profundamente o molho, salga-se e junta-se meia cabeça de alho picada e duas mangas desfeitas - de preferência, das chamadas mangas douradas, pelo sabor e menos fios.
Mistura-se tudo, cobre-se com cerveja (ver sugestões de marcas em "Camarão à Antropólogo") e deixa-se umas horas em seu descanso.
Trata-se, então, de derreter margarina numa panela de bom tamanho, de forma a que fique uma camada generosa a cobrir-lhe o fundo. Aí, deitam-se os pedaços de galinha, escorridos mas ainda cobertos com o molho em que estagiaram.
Vai-se pseudo-fritando (pois esses restos de molho vão-se misturando à margarina) em lume forte, virando os pedaços de carne até nenhum deles ter zonas cruas à superfície.
Nessa altura, deita-se na panela o molho onde a galinha/frango estagiou, junta-se mais cerveja até a carne estar coberta e mexe-se um pouco, para homogeneizar.
Ficam as coisas assim, num lume brando apenas suficiente para manter fervura, continuando-se pontualmente a mexer, até o molho se tornar acastanhado e o cheiro mudar, lembrando o de fruta cozida.
Está então pronto para servir. O melhor acompanhamento é arroz basmati, cozido com um caldo de galinha.
Mas, para fazer juz ao nome do prato (em que o "Grão na Manga" é, claro, um trocadilho com o "grão na asa" de toda aquela cerveja), pode juntar-se também uma malga de grão com um cheirinho de coentros, que para mais até sabe bem.
Reclamaram co-autores, com vagas ou explícitas acusações de narcisismo da minha parte, que "desprezei" aqui no Antropocoiso os livros colectivos.
Mas, de facto, não os tinha divulgado por outras razões:
A antropologia tem, por vezes, resultados inesperados. Este é gastronómico.
Quando estudava a refinaria de Sines, convivia bastante com um operador de consola que fazia gala em falar comigo de tudo menos do seu trabalho. O Canotilho é uma pessoa muito assertiva e, durante um jantar em sua casa, soltou no seu estilo lapidar: «Isso de camarão cozido é só do pequeno. Camarão grande é para fritar em cerveja!»
A coisa ficou-me a marinar no bestunto e, na ausência de mais explicações, acabou por resultar na primeira receita que inventei, na tentativa de desvendar esse mistério do "fritar em cerveja".
A coisa faz-se assim:
Descasca-se um meio quilo de camarão de bom tamanho, deixando agarradas a cabeça e a ponta da cauda e dando um corte fundo ao longo das "costas" dos bichos.
Num wok ou numa frigideira alta, põe-se uma talhada de margarina a derreter (suficiente para fritar os animaizinhos, mas não para os afogar), com sal, meia cabeça de alhos cortados às tiras e duas malaguetas, daquelas pequeninas e mal-dispostas.
Quando essa mistura já frita em lume forte, metem-se lá os camarões e viram-se quando necessário, para levarem uma fritura ligeira mas geral, a toda a volta.
É nessa altura que se espreme limão (um pequeno, ou metado de um grande) e se dão umas borrifadelas de molho de soja.
Após umas rápidas voltas que vão homogeneizando o molho, deita-se cerveja (de preferência Super Bock ou, em Moçambique, Manica) até os camarões ficarem submersos. Mexe-se de novo e deixa-se tapado, agora num lume brando mas suficiente para manter fervura.
Quando o cheiro muda e se torna irresistível, ao mesmo tempo que o molho engrossa sem deixar de ser líquido, a coisa está pronta.
Sirva-se com arroz branco ou "à guloso", apenas acompanhado de pão para ensopar o molho.
Este prato, chamado "Camarão à Antropólogo" (era originalmente "à Antropólogo Industrial", mas os convivas achavam que isso dava uma imagem poluída ao assunto), foi crismado "Camarão à Pai" quando não se usam as malaguetas.
- P'rá choça! O seguinte!! (in Eccomics, Éditions Syllepse, 1991)
Decorreu até há pouco uma vigília de militares, junto de S. Bento.
Ao longo da semana, os Estados-Maiores dos vários ramos foram proibindo a participação aos militares no activo, com o argumento do carácter sindical da coisa - argumento tão anacrónico como a lei de excepção que, passados 32 anos sobre o 25 de Novembro e 33 sobre o 25 de Abril, lhe continua a servir de base, apesar das suas evidentes inconstitucionalidades.
Tão esticada foi, desta vez, a interpretação da lei (e, em rigor, ilegal naquilo que era proibido) que o Tribunal Administrativo de Lisboa veio, hoje, dar razão aos que convocaram o protesto.
Infelizmente, temo que isso não impeça as altas hierarquias militares de decretarem mais umas tantas detenções (numa outra particularidade do direito militar, a possibilidade de punir com privações de liberdade sem julgamento), mesmo que correndo o risco de, depois, serem desautorizadas pelos tribunais.
Temo também que não impeça Miguel Sousa Tavares de voltar a dizer na televisão, com a jactância dos ignorantes, que isso de reivindicações de militares são coisas terceiro-mundistas.
Tudo indica, enfim, que o desenrolar dos acontecimentos me obrigue a voltar a este tema, de forma mais aprofundada que este desabafo.
Paulo Langa parecia ainda mais novo do que era. Talvez ajudasse a essa impressão a sua permanente curiosidade que, por exemplo, o fazia meter conversa acerca de assuntos de antropologia e epistemologia, com um ar de juvenil urgência, sempre que me encontrava. E, durante a minha última estada em Moçambique, isso acabou por acontecer muitas vezes.
Bastante alto e magro, fui-me habituando tanto a essas suas características que tiveram que ser os colegas mais novos, do Departamento de Antropologia da UEM, a alertar-me para a sua crescente magreza. As suas chamadas de atenção para que ele procurasse apoio médico parecem, no entanto, ter chegado tarde de mais.
Nunca foi meu assistente – coisa que, aliás, me pediu que acontecesse na minha próxima ida a Maputo - mas, apesar disso, tivemos um longo caminho comum.
Como todos os antropólogos formados na UEM, foi meu aluno e, numa das cadeiras em que isso aconteceu, apresentou um trabalho de elevada qualidade, citado no artigo que aqui afixei em 18 de Fevereiro– um artigo que, de forma perturbante, dediquei a um irmão que tinha acabado de falecer.
Mais tarde, fui orientador da sua tese de licenciatura, acerca de um caso muito interessante de efeitos perversos de um projecto de ONG internacional. Também esse seu trabalho, para além do prazer que nos deu a discutir durante a sua feitura, veio a ser premiado com uma nota elevada.
Procurarei sintetizá-lo em artigo, para que seja tornado público, como merece.
Lido mal com a morte.
Sobretudo com a morte de um homem de 31 anos que, há poucas semanas, se entusiasmava com a perspectiva de, avançando para mestrado, poder fazer pesquisa fora da lógica das consultorias. E que se preparava para o fazer.
Um ex-aluno não é, obviamente, como um filho. Mas, tal como a raposa da nossa infância tardia, é difícil não nos sentirmos responsáveis por aqueles que cativámos.
Mas, infelizmente, o que de mais grave está em causa não são fluxos de trânsito, lugares de estacionamento e mais uns quilos de dióxido de carbono (e etc.) no ar.
Parecemos esquecer que grande parte da baixa está assente sobre água, que em cada um dos vales que separam as célebres 7 colinas correm ribeiras hoje subterrâneas, e que a água encontra sempre forma de passar. Se lhe tapam o caminho (por exemplo, com um enorme túnel de betão), irá corroer à volta o que antes era terreno firme, sem que se possa prever com certeza onde, quando e com que consequências para o que está edificado em cima.
Para mais, duvido que alguém saiba, hoje, qual o percurso preciso dessas ribeiras.
Alexandre Quintanilha tornou-se o divulgador em Portugal de uma curiosa teoria acerca dos riscos tecnológicos: a natureza é robusta. Quer isto dizer, basicamente, que aguenta com as asneiras tecnológicas e tecno-científicas que formos fazendo, pelo menos até que os autores das asneiras (ou outros seus colegas) descubram uma solução ou um paliativo para o mal que foi feito.
Parece que a mesma profissão de fé guiou, e continua a guiar, estes esburacanços em Lisboa. Com as diferenças de que nem sequer previsões sérias de impacto são feitas, e de que essa fé na natureza e na capacidade dos técnicos está, neste caso, mal colocada.
A natureza poderá ser robusta, acabando mais tarde ou mais cedo por levar à frente terra, rochas e mesmo túneis; mas o que cá está em cima, a tal cidade em que vivemos, só tem a robustez que a natureza em que assenta lhe deixe ter. E pode ruir.
Mas parece, também, que nada disso importa, desde que mais 14.000 carros possam entrar por dia - ou qualquer outra coisa "boa para Lisboa".