sexta-feira, 19 de outubro de 2007

É obra!



Na eleição para líder parlamentar, o homem conseguiu perder os votos de 30% dos deputados que ele próprio tinha feito eleger, quando era líder partidário.

Ele há vocações que não se podem perder!

É obra!

Representatividade e Participação


in Público de hoje

Escrevia-se aqui, já há alguns aninhos e a partir de uma extensa investigação, que os trabalhadores - estivessem mais críticos ou moderadamente satisfeitos em relação à forma como os sindicatos actuavam - cada vez menos se disponibilizavam a participar neles, embora os considerassem seus representantes e considerassem essa representação e defesa laboral um direito que lhes assistia, enquanto trabalhadores e cidadãos. Como um serviço público. Da mesma forma que se considera um direito ter escolas, hospitais, esgotos, policiamento e segurança social.

Com essa visão institucionalizadora por parte das pessoas, concluíamos, a própria noção clássica de representatividade sindical (com base na "contagem de espingardas" do número de sócios) era anacrónica, pela grande decalage entre quem aceita participar e o conjunto de todos aqueles que se consideram e exigem ser representados. Seria mais lógico pensar acerca da representatividade sindical de uma forma algo semelhante àquela que está subjacente às eleições primárias norte-americanas - não em função de uma filiação formal, mas em função do reconhecimento, por cada indivíduo, de uma representação preferencial.
Nada me indica que a situação se tenha alterado de forma significativa, nestes últimos anos.

Mas isto também quer dizer que, quando as pessoas participam e o fazem massivamente, essa participação é muito mais significativa (acerca da situação vivida e do seu descontentamento em relação a ela) do que nas alturas em que participar seja considerada uma coisa normal - como era, por exemplo, há uns 30 anos atrás. A excepcionalidade do acto demonstra a excepcionalidade do grau de descontentamento.

Poderá o nosso Primeiro querer ver em manifestações de descontentamento meras manipulações partidárias, e afirmá-lo publicamente de forma serôdia. Mas isso só o fragiliza e projecta uma imagem de odioso - não tanto junto dos manifestantes, mas sobretudo daqueles que não o foram.

Quartel-General em Abrantes



in Público de hoje

Resolvidos os pesos relativos dos governos, resolveu-se a governância a curto prazo da instituição.
Falta resolver a democratização a partir do voto directo e o que é e deve ser o projecto europeu.
Mas não faz mal. Os governos e os burocratas pensam por nós.

Será que me estou a tornar federalista?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Mestrados e Bolsas


Começa hoje o II Mestrado de Antropologia Social e Cultural, lá no ICS.

Junto com os restantes alunos, deveriam estar dois assistentes universitários, que tiveram as melhores médias de sempre na licenciatura de antropologia da Universidade Eduardo Mondlane.
Não estão, porque a bolsa paga pelo IPAD (cooperação portuguesa) não lhes foi atribuída, pois o Ministério moçambicano que gere e canalisa os pedidos alegou que tinha passado o prazo.

Acontece que a sua aceitação como mestrandos foi feita excepcionalmente cedo, para que não existissem problemas desse tipo, mas só poderiam cobrir o prazo de candidatura, em qualquer universidade normal, se se candidatassem já para o ano seguinte.
Acontece também que, em conversa com bolseiros estudando em Portugal, com bolsa do Estado português, pude concluir que conseguiram obtê-las tendo "cunhas" no Ministério moçambicano, ou torneando o sistema através de formas lícitas, mas que não citarei.

Compreendo que a cooperação entre Estados não deve marginalisar um desses Estados. Mas, assim, talvez seja o Estado português a ficar marginalizado do processo, a não ser como pagador.
Compreendo que, noutros tempos, o Estado moçambicano queria controlar os seus quadros e respectivo regresso, estando uma simples viagem de férias dependente de várias autorizações estatais. Mas os tempos são, a esse respeito, felizmente outros.
Compreendo que a actual tendência de "bypassar" os Estados, para canalizar as "ajudas" e projectos directamente para os supostos beneficiários, tem custos e efeitos preversos sobre a governância estatal.
Mas isto cheira suficientemente mal para exigir um reequacionar dos procedimentos.

Aditamento em início de 2008:

Fiquei a saber que os congéneres do IPAD de outros países são menos dados a esses complexos pós-coloniais. Por exemplo, a Cooperação Irlandesa limita-se a analisar o mérito da proposta e a despachar a atribuição (ou não), esperando até pelo documento de aceitação da Universidade respectiva. Ainda por cima, as bolsas são um pouco melhores.

Jovens académicos moçambicanos: sigam por essa via. Talvez o IPAD se convença que alguma coisa está errada, quando ninguém lhe pedir bolsas.

domingo, 14 de outubro de 2007

Antropologia Militar, ou Militarização da Antropologia?



João Pina Cabral, uma referência para mim e muitos outros antropólogos, chamou a atenção de vários colegas para este artigo, acerca da utilização de equipas de antropologia por parte das tropas Norte-Americanas no Afeganistão.

É óbvio que os tempos mudaram desde a II Guerra Mundial, quando houve antropólogos com lata para explicar o “comportamento sádico” dos soldados japoneses com base no seu precoce treino de bacio, ou o “carácter maníaco-depressivo” dos soviéticos (e mesmo as purgas estalinistas) com base no hábito rural de enfaixar os bebés.
No entanto, olhando para algumas tarefas desempenhadas pelos antropólogos mencionados no artigo, já não estou tão certo de que os tempos tenham mudado assim tanto desde os estudos de Jorge Dias acerca dos Maconde, naquele mesmo planalto de Mueda onde a guerra de libertação moçambicana iria dentro em pouco começar. A monografia resultante desses estudos é bastante interessante, mas confesso que aguardo com mais curiosidade o dia em que se tornem públicos os seus concomitantes relatórios para a PIDE – segundo parece, mais substanciais em tamanho e conteúdo.

Devo dizer que, em abstracto, nada tenho contra a prática de antropologia aplicada – tendo essa posição pouco a ver com o facto de ela já ter sido o meu ganha-pão durante alguns anos.
Afinal, a produção de conhecimento nunca é inócua, a menos que ele seja socialmente irrelevante. A partir do momento em que o conhecimento é divulgado, está disponível para manipulação por parte de quaisquer entidades nele interessadas, tendo tal acontecido de forma sistemática e para efeitos tão diferentes como acções emancipadoras, dominações coloniais ou mesmo genocídios.
Sendo assim, porquê deixar a pessoas ou grupos com interesses parciais (e que normalmente apercebem de forma também ela parcial e simplificada as análises e dados antropológicos) o monopólio da aplicação prática desses conhecimentos? Não estarão as pessoas que os produziram em melhores condições epistemológicas e éticas para condicionar esse uso?

Também nada tenho, em abstracto, contra a profissionalização da antropologia.
Confesso mesmo que, por muito que os respeite, tenho uma enorme dificuldade em compreender os argumentos que se opõem à antropologia como profissão, quando os olho de uma perspectiva que extravase o microcosmos académico.
É claro que é socialmente importante, por si só, a existência de uma disciplina científica que equacione a humanidade e os fenómenos sociais na sua diversidade, unidade e nuances, nas suas continuidades e rupturas. É claro que, sobretudo na actualidade, seria óptimo que todas as crianças pudessem, na escola, ter contacto com essa tecnologia de pensamento e essa forma de questionar o mundo.
Mas quem cursa uma licenciatura de antropologia estuda-a para vir a fazer antropologia, não para se formar a si próprio como cidadão mais consciente, ou para exercer de forma mais completa outras profissões, que também elas requerem formação especializada.
Para além disso, pude verificar por experiência própria (e não apenas por wishful thinking), tanto na prática de antropologia “pura” como de “aplicada”, que a sua utilidade social é bem real, que existe espaço para antropólogos fora da academia e que ele deve ser colmatado.

Colmatado da forma que esse artigo nos dá a conhecer?
Isso já é outra conversa.

Mesmo na ocupação do Afeganistão, o envolvimento da antropologia não é novo. Por exemplo, há já um bom par de anos que os meus amigos Alex (antropólogo) e Gielt (cientista político) ensinam, a soldados holandeses a caminho de lá, coisas tão básicas como que um afegão que não nos olha na cara não está necessariamente a esconder alguma coisa mas a ser bem-educado (e que deveremos fazer o mesmo ao falar com ele), que ao perguntar-lhe por talibãs ele identificará todas as pessoas que sabem ler e escrever, ou que normalmente nos fornecerá, como número de habitantes de uma aldeia, um valor redondo que corresponda à sua noção de “poucos” ou de “muitos” e que, se não o fizer, contabilizará apenas os chefes de família. Isto, claro, a par de outros particularismos culturais, cujo conhecimento poderá evitar bastantes asneiras.

Não deixando isto de ser uma manipulação do conhecimento antropológico por parte de forças de ocupação, é, no entanto, essencialmente diferente do empenhamento de antropólogos nessa mistura de engenharia social com “acção psicossocial” (que tão bem conhecemos das “nossas” guerras coloniais) retratada pelo artigo norte-americano.
Não estamos, nesse caso, perante uma Antropologia Militar (que estuda instituições e conflitos armados), mas perante uma militarização da antropologia, tal como foi acontecendo com a física, com a química, com a biologia, com a engenharia, com a economia, com a sociologia, com a psicologia e com as respectivas aplicações tecnológicas.
Mas a diferença é que, ao contrário de todas essas ciências e apesar de algumas escorregadelas que deu no passado, a antropologia partilha hoje um lastro de conceitos, princípios e valores que são contrários à sua aplicação bélica. Mesmo depois de ultrapassados os tiques de preservacionismo cultural, o seu ethos tem a ver com a compreensão, diálogo e respeito (não acrítico) entre grupos que se concebem como diferentes, não com a manipulação do “outro”, sob ameaça armada, para melhor o dominar. Até o envolvimento da antropologia com o colonialismo, feito apesar de tudo sob condições bem diferentes em grau e em qualidade, é objecto de uma generalizada e assumida crítica ética.

A ética, contudo, nunca é abstracta, absoluta e intemporal, por muito que filósofos a busquem como tal, há séculos. É, à imagem de tantas outras coisas, também o resultado de relações de poder e da negociação entre as interpretações valorativas e políticas de agentes sociais que estão situados em posições diferentes nessas relações de poder.

Que esse empenhamento de antropólogos "embedded" no exército dos Estados Unidos possa salvar vidas e facilitar o trabalho de ocupação, não tenho dúvidas.
Que, num tempo e num país que chamou “Patriot Act” a um conjunto de leis de excepção que limita fortemente os direitos de cidadania, essa actividade seja considerada de interesse nacional e um dever patriótico pelas instituições e indivíduos nela envolvidos, tão pouco será de espantar.
Que isso é uma violação da antropologia tal como a vivemos e concebemos, é também certamente verdade.

Está para a antropologia da mesma forma que a produção da bomba atómica está para a física, com a agravante de que esta última não partilha o ethos humanista que nos atribuímos.

El mondo loco



No início da actual guerra do Iraque, corria pela net uma piada mostrando que o mundo estava louco:

- O melhor cantor de rap era "branco"
- O melhor golfista era "negro"
- A Suiça tinha ganho as regatas da America Cup
- Os franceses acusavam os norte-americanos de arrogância
- A Alemanha não queria entrar numa guerra.

Portugal vai contribuindo para que não passe essa onda:

- Há pouco tempo, Santana Lopes deu uma lição de bom-senso!
- Agora, há quem o queira (no seu próprio partido, não no PS) para líder do grupo parlamentar do PSD...

domingo, 7 de outubro de 2007

Ainda não foi desta

Mal acordei, corri para a internet, em busca da notícia que hoje queria receber da China: a vitória de Lewis Hamilton no Campeonato Mundial de Condutores, vulgo fórmula 1.
Não foi desta. Desistiu e fica a decisão adiada para um emocionante G. P. do Brasil.

O meu fascínio por automobilismo (e mais ainda, sabe quem me conhece bem, pelas 24 Horas de Le Mans) precisaria de um longo texto para ser explicado, se é que eu o conseguiria explicar.
A minha preferência por Hamilton - que, tenho reparado, partilho com muitos brasileiros em busca de um sucessor de Ayrton Senna nos seus afectos - é mais simples.

Teve uma carreira automobilística dirigida a dedo, mas todas elas o são, hoje em dia.
No caso dele, isso não o transformou num puto mimado, estupidamente inacessível e só abrindo a boca para dizer mal dos outros ou se queixar de desvantagens, para ficar ainda em maior vantagem.
Caloiro, sobrepõe-se em luta directa ao bi-campeão mundial que, digno sucessor de Schumacker ou Prost, só pensa em assegurar contractualmente todas as vantagens dentro da equipe e em ter colegas inócuos.
É, ainda, um rapazinho atrevido que, quando necessário, mostra que ultrapassar "no pulso" não é tão impossível como dizem.
Sobretudo, vi-o conduzir no G.P. de Mónaco (pela TV, claro, que o dinheiro não dá para mais) e há qualquer coisa especial na maneira como o faz. Sendo ela muito diferente, fez-me sentir um nível de emoções estéticas que me lembraram muito a visão de Senna.

Suponho que tudo isto é estranho e estúpido, para quem não partilhe a minha atracção por este peculiar desporto, tanto de máquinas quanto de pessoas. Mas é verdadeiro e genuíno.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Galinha com um Grão na Manga

Mais uma história antropogastronómica, desta vez a pedido:
(Entre parentesis, também para essas coisas é que serve a caixa de comentários. Escusam de comentar, debater ou fazer pedidos por telefone, e-mail ou cara a cara; ao menos, aqui a coisa é partilhada com os outros.)

Em Moçambique, a manga está muito longe de ser um produto de luxo. Quase todas as espécies, que são muitas, amadurecem ao mesmo tempo, há muito por onde escolher e o problema dos felizes proprietários de mangueiras (que, para além de darem mangas, são árvores com uma sombra agradabilíssima) é, muitas vezes, dar-lhes vazão antes que apodreçam.
Foi numa altura dessas que, juntando a fartura à sua natural simpatia, o meu querido amigo Rafael da Conceição chegou a um almoço no Mercado do Peixe com o carro carregado de sacos de mangas para os colegas.
No dia seguinte, passando um olhar lanzeirento de fim-de-semana pela cozinha, só vi as mercearias do costume, uma galinha halal made in Brasil e uma pilha de mangas cheirosas, para onde olhava com ar guloso o cágado Futzo (passe a redundância, para quem saiba changana).
Da generosidade do Rafael e da minha preguiça em ir às compras nasceu, então, este prato - que toda a gente acha muito africano, mas que só o é de nascimento e nada tem a ver com as tradições gastronómicas locais.

Corta-se uma galinha ou frango em 8 pedaços, retitando a pele e as pontas das asas.
Dá-se uns golpes em cada peça de carne, para absorver mais profundamente o molho, salga-se e junta-se meia cabeça de alho picada e duas mangas desfeitas - de preferência, das chamadas mangas douradas, pelo sabor e menos fios.
Mistura-se tudo, cobre-se com cerveja (ver sugestões de marcas em "Camarão à Antropólogo") e deixa-se umas horas em seu descanso.
Trata-se, então, de derreter margarina numa panela de bom tamanho, de forma a que fique uma camada generosa a cobrir-lhe o fundo. Aí, deitam-se os pedaços de galinha, escorridos mas ainda cobertos com o molho em que estagiaram.
Vai-se pseudo-fritando (pois esses restos de molho vão-se misturando à margarina) em lume forte, virando os pedaços de carne até nenhum deles ter zonas cruas à superfície.
Nessa altura, deita-se na panela o molho onde a galinha/frango estagiou, junta-se mais cerveja até a carne estar coberta e mexe-se um pouco, para homogeneizar.
Ficam as coisas assim, num lume brando apenas suficiente para manter fervura, continuando-se pontualmente a mexer, até o molho se tornar acastanhado e o cheiro mudar, lembrando o de fruta cozida.

Está então pronto para servir. O melhor acompanhamento é arroz basmati, cozido com um caldo de galinha.
Mas, para fazer juz ao nome do prato (em que o "Grão na Manga" é, claro, um trocadilho com o "grão na asa" de toda aquela cerveja), pode juntar-se também uma malga de grão com um cheirinho de coentros, que para mais até sabe bem.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Mais Livros

Reclamaram co-autores, com vagas ou explícitas acusações de narcisismo da minha parte, que "desprezei" aqui no Antropocoiso os livros colectivos.
Mas, de facto, não os tinha divulgado por outras razões:


Este, só já deve estar disponível nalgum canto de armazéns da Cosmos ou da CGTP-IN... Pode aceder-se às conclusões aqui.


Este, realmente, foi falha de que me penitencio. Mas, tirando nalgumas livrarias universitárias, quem o quiser comprar terá que contactar a Cooperativa Cultural Popular Barreirense, por exemplo clicando aqui.


Este é outra conversa.
É estupidamente caro e os próprios autores tiveram que comprar o seu exemplar, se o quiseram ter! Estranhos negócios são aceites pelos editores de obras colectivas...
É um livro francamente interessante mas, em situações como esta, não serei certamente eu a reprovar a pirataria por parte dos leitores.

domingo, 30 de setembro de 2007

Camarão à Antropólogo, aka Camarão à Pai

A antropologia tem, por vezes, resultados inesperados. Este é gastronómico.

Quando estudava a refinaria de Sines, convivia bastante com um operador de consola que fazia gala em falar comigo de tudo menos do seu trabalho. O Canotilho é uma pessoa muito assertiva e, durante um jantar em sua casa, soltou no seu estilo lapidar: «Isso de camarão cozido é só do pequeno. Camarão grande é para fritar em cerveja!»
A coisa ficou-me a marinar no bestunto e, na ausência de mais explicações, acabou por resultar na primeira receita que inventei, na tentativa de desvendar esse mistério do "fritar em cerveja".

A coisa faz-se assim:

Descasca-se um meio quilo de camarão de bom tamanho, deixando agarradas a cabeça e a ponta da cauda e dando um corte fundo ao longo das "costas" dos bichos.
Num wok ou numa frigideira alta, põe-se uma talhada de margarina a derreter (suficiente para fritar os animaizinhos, mas não para os afogar), com sal, meia cabeça de alhos cortados às tiras e duas malaguetas, daquelas pequeninas e mal-dispostas.
Quando essa mistura já frita em lume forte, metem-se lá os camarões e viram-se quando necessário, para levarem uma fritura ligeira mas geral, a toda a volta.
É nessa altura que se espreme limão (um pequeno, ou metado de um grande) e se dão umas borrifadelas de molho de soja.
Após umas rápidas voltas que vão homogeneizando o molho, deita-se cerveja (de preferência Super Bock ou, em Moçambique, Manica) até os camarões ficarem submersos. Mexe-se de novo e deixa-se tapado, agora num lume brando mas suficiente para manter fervura.
Quando o cheiro muda e se torna irresistível, ao mesmo tempo que o molho engrossa sem deixar de ser líquido, a coisa está pronta.
Sirva-se com arroz branco ou "à guloso", apenas acompanhado de pão para ensopar o molho.

Este prato, chamado "Camarão à Antropólogo" (era originalmente "à Antropólogo Industrial", mas os convivas achavam que isso dava uma imagem poluída ao assunto), foi crismado "Camarão à Pai" quando não se usam as malaguetas.

Fado do Esgraçadinho, versão Canis Lupus

Joguei rugbi, na minha tenra adolescência.
Primeiro, num aproximativo clube de liceu onde os jogadores-treinadores mais velhos não se deram ao trabalho de verificar o meu ano de nascimento, pelo que tive a sorte de jogar a 3/4 ponta na equipe do escalão seguinte, em vez de andar a martirizar putos com a minha idade mas metade do tamanho.
Depois, num clube à séria, onde treinava a médio de abertura mas quase nunca jogava, por haver um outro que era bem melhor do que eu para o lugar.

Suponho que a simpatia inicial pelo jogo se ficou muito a dever às regulares transmissões televisivas do então Torneio das Cinco Nações, em que um avanço da linha de 3/4 do País de Gales enchia bem mais o olho do que 2 horas de saltos de ski, que os jogos de hóquei em que não se via a bola, ou mesmo que as anuais transmissões da final da Taça de Portugal e do G.P. do Mónaco.
Essa simpatia desenvolveu-se muito, depois, com a sua prática. Talvez pelos ventos revolucionários da altura, tinha deixado de ser uma modalidade de "betos" sobrealimentados, como dizem que de novo é. Dava gozo jogar e tinha aspectos de fair-play quase aristocrático, como o túnel que os vencidos faziam para aplaudir os vencedores (depois retribuído por estes), ou o facto de nunca ter sido aleijado deliberadamente por um adversário - ao contrário da contínua carga de pancada com que fui brindado no meu único jogo oficial de andebol.

Em suma, é um desporto que gosto muito de ver e que gostaria ainda de praticar, se existisse a um nível de solteirosXcasados e eu não me tornasse um segundo Mr. Magoo logo que tiro os óculos.
Por essa simpatia, mais me pareceu desprezível o faduncho armado em torno da participação - tirando esse aspecto, digna e louvável - dos tais de "Lobos" no mundial de rugbi.
«Para mim foi como se fossem campeões» por perderem por poucos com a Roménia? «Foram verdadeiros heróis» por marcarem um ensaio à Nova Zelândia? Haja paciência e decoro!
Uma equipe amadora comportou-se decentemente num desporto que, como quase todos, é profissional. Num desporto em que há selecções cujos jogadores nem sequer jogam em clubes, mas apenas nelas. Óptimo. E então? Embarca por isso um país na retórica dos "pobrezinhos mas honrados", das "vitórias morais", dos "Davides contra Golias", quando são 15 para cada lado e as condições ou se criam ou não podem ser criadas, mas só servem de atenuante e eterna justificação para quem se habitua à mediocridade?

Disse-se que esta campanha mundialista foi uma enorme acção de divulgação do rugbi.
Foi, sobretudo, um hino à auto-complacência e uma reedição do Fado do Esgraçadinho. A mensagem passada aos potenciais novos praticantes da modalidade foi: «Venham ser uns perdedores esforçados, com um g'anda par de tomates, uma g'anda desculpa para as derrotas e um país a apaparicar-vos».
Pode ser que aqueles rapazinhos musculados e os jornalistas entusiasmados (mesmo que não saibam escrever "talonador" ou em que é que isso consiste) se revejam neste filme, tão conhecido de outras eras. Mas quero crer que a chavalada não. Felizmente.

Se a ideia é prestar um serviço à divulgação do rugbi, mais valeria televisionarem em canal aberto os jogos finais do campeonato.Afinal, o que leva putos para o basquetebol é a beleza dos jogos da NBA. Não é a selecção nacional (profissional, elàs) a, muito esforçadamente, quase ganhar jogos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Birmânia

Não é inesperado e duvido mesmo que alguém acreditasse que não iriam haver cargas, mortos e feridos.
Tão pouco que não fosse presa muita gente para "interrogatório" sob tortura, ainda por cima por mera punição e nem sequer para obter qualquer informação relevante.
A barbárie em estado puro, enfim, de quem sente direito a poder absoluto e o direito de matar e punir com sofrimento quem o questione.

É inaceitável e chocante o que aconteceu, mas mais inaceitável ainda é a prática e a visão de poder que lhe subjaz.
Tendo na memória histórica poucas e curtas ditaduras militares, a par desse particularismo (embora não de todo exclusivo) de termos vivido um golpe militar com objectivos democráticos, temos tendência a vê-las como uma coisa meio folclórica, ou típica de países "ingovernáveis", como se tal coisa existisse. Só acordamos com sangue em directo, como se fosse tolerável o poder de senhores da guerra, obtido e mantido pela posse das armas, nas tintas para qualquer vontade ou consenso de quem não as tem.

Em abstracto, nada disto se torna mais grave pela presença mobilizadora de religiosos. São tão pouco inatacáveis, detentores da verdade ou "reservas morais da nação" como os militares com apetites de poder. Podem até encabeçar chamadas à violência generalizada, em defesa de hegemonias próprias, como as recentes freirinhas timorenses. Na Birmânia, contudo, tiveram o eloquente papel de usar o seu estatuto para demonstrar e expressar o consenso da sociedade - o que é muito e vale muito.

É esse consenso que está a ser reprimido. De uma forma tão mais merecedora da nossa admiração e da nossa solidariedade quanto, como comecei por dizer, as cargas, os mortos e os feridos eram previsíveis - e muito mais para quem desfilou do que para nós.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Militares e direitos

- P'rá choça! O seguinte!! (in Eccomics, Éditions Syllepse, 1991)

Decorreu até há pouco uma vigília de militares, junto de S. Bento.
Ao longo da semana, os Estados-Maiores dos vários ramos foram proibindo a participação aos militares no activo, com o argumento do carácter sindical da coisa - argumento tão anacrónico como a lei de excepção que, passados 32 anos sobre o 25 de Novembro e 33 sobre o 25 de Abril, lhe continua a servir de base, apesar das suas evidentes inconstitucionalidades.
Tão esticada foi, desta vez, a interpretação da lei (e, em rigor, ilegal naquilo que era proibido) que o Tribunal Administrativo de Lisboa veio, hoje, dar razão aos que convocaram o protesto.

Infelizmente, temo que isso não impeça as altas hierarquias militares de decretarem mais umas tantas detenções (numa outra particularidade do direito militar, a possibilidade de punir com privações de liberdade sem julgamento), mesmo que correndo o risco de, depois, serem desautorizadas pelos tribunais.
Temo também que não impeça Miguel Sousa Tavares de voltar a dizer na televisão, com a jactância dos ignorantes, que isso de reivindicações de militares são coisas terceiro-mundistas.

Tudo indica, enfim, que o desenrolar dos acontecimentos me obrigue a voltar a este tema, de forma mais aprofundada que este desabafo.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

3 (ou 4) pombos na varanda

Detesto pombos.
Bem sei que alguns tipos (ou todos) têm um GPS particular que é uma maravilha da evolução, que ficam muito jeitosos a voar às dezenas ou centenas à volta das malfadadas velhinhas que os alimentam nos jardins, que os machos fazem um belo efeito lúbrico ao arrastarem as penas do traseiro pelo chão, quando tentam convencer as fêmeas mais renitentes.
Mas a sua imagem de marca, para mim, são as inúmeras doenças que transportam e os ácidos cócós que inevitavelmente soltam sobre a roupa estendida e sobre a janela do meu escritório, fosse qual fosse a casa lisboeta em que tenha vivido.
Confesso-me entusiástico apoiante do controle de natalidade desses ratos voadores e, mesmo, que me cheguei a informar acerca do tal de trigo roxo - que talvez nunca tenha usado por medo de suscitar algum pânico relacionado com a gripe das aves.
Eu, que adoro animais e até mantenho uma relação afectiva duradoura com um cágado que dá pelo nome, tenho de facto um problema com esses bichos.

Eis senão quando me surge um e depois dois ovos plantados na varanda, dentro de um vaso que a minha senhora tinha ali deixado, para abrigar sementes bravias que andassem pelo ar.
Em vez de plantas sem-abrigo, tenho agora ovos de rato voador e duas pombas (ou um casal, mas duvido) que se revezam a chocar os ditos cujos.
Rapidamente nos habituámos a fechar a portada respectiva para não espantar os bichos e, quais padrinhos, vamos cuidadosamente espreitando, de vez em quando, para ver se tudo está bem. Ontem, até houve quem ficasse de atalaia, porque uma gaivota nos rondava a varanda!
Entretanto, as pombas já nos olham com a desfaçatez da foto em baixo, continuando nas suas sete quintas, sempre que damos uma espreitadinha.

Cada vez mais me convenço. A reprodução é um golpe baixo da natureza.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Paulo Langa – 1976/2007

Paulo Langa parecia ainda mais novo do que era. Talvez ajudasse a essa impressão a sua permanente curiosidade que, por exemplo, o fazia meter conversa acerca de assuntos de antropologia e epistemologia, com um ar de juvenil urgência, sempre que me encontrava. E, durante a minha última estada em Moçambique, isso acabou por acontecer muitas vezes.
Bastante alto e magro, fui-me habituando tanto a essas suas características que tiveram que ser os colegas mais novos, do Departamento de Antropologia da UEM, a alertar-me para a sua crescente magreza. As suas chamadas de atenção para que ele procurasse apoio médico parecem, no entanto, ter chegado tarde de mais.
Nunca foi meu assistente – coisa que, aliás, me pediu que acontecesse na minha próxima ida a Maputo - mas, apesar disso, tivemos um longo caminho comum.
Como todos os antropólogos formados na UEM, foi meu aluno e, numa das cadeiras em que isso aconteceu, apresentou um trabalho de elevada qualidade, citado no artigo que aqui afixei em 18 de Fevereiro– um artigo que, de forma perturbante, dediquei a um irmão que tinha acabado de falecer.
Mais tarde, fui orientador da sua tese de licenciatura, acerca de um caso muito interessante de efeitos perversos de um projecto de ONG internacional. Também esse seu trabalho, para além do prazer que nos deu a discutir durante a sua feitura, veio a ser premiado com uma nota elevada.
Procurarei sintetizá-lo em artigo, para que seja tornado público, como merece.

Lido mal com a morte.
Sobretudo com a morte de um homem de 31 anos que, há poucas semanas, se entusiasmava com a perspectiva de, avançando para mestrado, poder fazer pesquisa fora da lógica das consultorias. E que se preparava para o fazer.
Um ex-aluno não é, obviamente, como um filho. Mas, tal como a raposa da nossa infância tardia, é difícil não nos sentirmos responsáveis por aqueles que cativámos.

sábado, 30 de junho de 2007

Bom para Lisboa - 1

(imagem do Expresso)


O Expresso dizia hoje, com chamada à primeira página, que "Santana tinha razão: túnel do Marquês é bom para Lisboa".

Não me impressiona particularmente a ideia de que o menino pudesse vir a ter razão nalguma coisa, algum dia.

Impressiona-me aquilo que, para o Expresso, é "bom para Lisboa": que tivessem passado a entrar na cidade mais 14.000 automóveis por dia, com mais alguma fluidez de tráfego.
Ou seja, bom para Lisboa são mais uns milhares de viaturas vindas de fora da cidade (presume-se que conduzidas por pessoas que antes recorriam aos transportes públicos em cuja qualidade não se investe), deitando para o ar mais umas toneladas de dióxido de carbono e restantes mimos poluentes, entre os quais se incluem os aditivos que permitem à gasolina sem chumbo ter o nível de octanas suficiente para não explodir nos motores quando lhe apetece. Bom para Lisboa é o pandemónio de mais 14.000 carripanas à procura de estacionamento e a dificultar o tráfego após a entrada na cidade.

Bom para Lisboa (e para o país) seria, talvez, que nos jornais de referência se pensasse um pouco antes de escrever, mesmo que acerca de estudos de fluxos de tráfego todos bonitos.

E, já agora: quem foi a brilhante equipa técnica que fez este estudo de impacto de uma obra nova, tendo como termo de comparação fluxos de tráfego de há 7 anos e meio?

Bom para Lisboa - 2

Mas, infelizmente, o que de mais grave está em causa não são fluxos de trânsito, lugares de estacionamento e mais uns quilos de dióxido de carbono (e etc.) no ar.
Parecemos esquecer que grande parte da baixa está assente sobre água, que em cada um dos vales que separam as célebres 7 colinas correm ribeiras hoje subterrâneas, e que a água encontra sempre forma de passar. Se lhe tapam o caminho (por exemplo, com um enorme túnel de betão), irá corroer à volta o que antes era terreno firme, sem que se possa prever com certeza onde, quando e com que consequências para o que está edificado em cima.
Para mais, duvido que alguém saiba, hoje, qual o percurso preciso dessas ribeiras.

Alexandre Quintanilha tornou-se o divulgador em Portugal de uma curiosa teoria acerca dos riscos tecnológicos: a natureza é robusta. Quer isto dizer, basicamente, que aguenta com as asneiras tecnológicas e tecno-científicas que formos fazendo, pelo menos até que os autores das asneiras (ou outros seus colegas) descubram uma solução ou um paliativo para o mal que foi feito.

Parece que a mesma profissão de fé guiou, e continua a guiar, estes esburacanços em Lisboa. Com as diferenças de que nem sequer previsões sérias de impacto são feitas, e de que essa fé na natureza e na capacidade dos técnicos está, neste caso, mal colocada.
A natureza poderá ser robusta, acabando mais tarde ou mais cedo por levar à frente terra, rochas e mesmo túneis; mas o que cá está em cima, a tal cidade em que vivemos, só tem a robustez que a natureza em que assenta lhe deixe ter. E pode ruir.

Mas parece, também, que nada disso importa, desde que mais 14.000 carros possam entrar por dia - ou qualquer outra coisa "boa para Lisboa".


E, depois, há sempre a possibilidade de uma nova fé, num futuro com oníricas Lisboas venezianas, como as imaginadas por António Gonçalves e Nuno Silva, nas aventuras de Filipe Seems.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Dragões, Régulos e Fábricas

Figura 1 - Ruínas do Hotel Quatro Estações


Este é o tal artigo do dragão agora homeless, de que divulguei o extracto inicial uns posts mais abaixo.

Sairá num número temático sobre “Moçambique actual, continuidades e mudanças” da Análise Social, a publicar no segundo trimestre de 2008 e editado por este vosso criado.
Na altura deverá ter alterações, quer pelas sugestões que chegarão de colegas a quem pedi uma leitura crítica, quer pelas exigências de peers reviewing a que também os editores se submetem (somos uma revista séria, que raio!).

Aceitam-se também críticas de bloguistas, aí na caixa de comentários. Já agora, identifiquem-se, para eu poder agradecer na versão final do artigo.

Leia "Dragões, Régulos e Fábricas"

Saúde, doença e cura em Moçambique

Farmácia popular, bairro da Machava, perto de Maputo


É um artigo que repega algumas coisas de outros, em posts mais antigos.
Essas partes serão repetitivas, para quem já conhece. Não obstante, a perspectiva a partir da qual a questão é tratada é diferente, havendo bastantes dados inéditos e reflexões novas.
Sairá no livro Migração, Saúde e Diversidade Cultural, que foi organizado pela Elsa Lechner. Para ela, um abraço.

Leia "Saúde, doença e cura em Moçambique"

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Mais bombinhas



Há dois dias atrás, iniciou-se a explosão controlada de material obsoleto do paiol de Maputo.
Foi na Moamba, a dois passos da cidade e das zonas mais atingidas pelas explosões de há tempos atrás.
Ninguém avisou ninguém e, claro, instalou-se o terror entre a populacão.
Dizem os militares que, como todos podiam ver o grande movimento de camiões do exército, acharam que não era preciso, que toda a gente tinha percebido o que se estava a passar.

Sensíveis, estes rapazes...