quarta-feira, 5 de março de 2008

É Pr'ámanhã!



Philip Peek, Chair of Anthropology da Drew University (E.U.A.), apresenta amanhã, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM, a palestra "Reflexões Acerca do Estudo Académico da Adivinhação Africana".
É às 9h. 30m., na sala 206 (o auditório da antiga UFICS).

Como diz o resumo, «Esta comunicação apresentará algumas reflexões acerca do desenvolvimento do estudo académico da adivinhação africana - mas não tentará recapitular a sua história completa. O estudo dos sistemas africanos de adivinhação cresceu rapidamente nos anos recentes e produziu valiosas abordagens inovadoras, mas vários problemas continuam por resolver. Basicamente, quanto melhor compreendermos a adivinhação, melhor nos compreenderemos a nós próprios.»

Estrangeiros à porta de casa

Afinal, ontem não resisti e, na habitual visita ao blog de Carlos Serra, deixei um comentário antropocoisico no post que ele fez acerca desta notícia.

Isto porque, como diz um outro comentador, é uma «bela peça de jornalismo, para quem “curte” antropologia».
Lembrou-me um artigo do Mia Couto, anos atrás, em que ele referia o desconforto e ar de peixes fora de água dos seus alunos, quando tinham que se sentar no quintal de alguém, fora da capital.
Também há uns anitos, tive que teorizar um pouco acerca da prática de "antropologia à porta de casa" (dowload de excerto aqui, livro aqui). Por vezes, duvido da utilidade que essas reflexões possam ter em Moçambique pois, para muitas pessoas nadas e criadas em Maputo, o seu próprio país parece ser tão estrangeiro e exótico como para alguém que acabou de desembarcar da Suécia. Outras vezes, penso que não é assim tão inútil, pois essas mesmas pessoas (quando são, por mero exemplo, jornalistas) não dão grande importância a essa 'estrangeireza' e olham os seus concidadãos como se os conhecessem "de gingeira" e estivessem no Alto Maé.

Daí a pergunta: Que tal uns cursozinhos de verão em Antropologia, para jornalistas e políticos?
E não julguem que estou a falar apenas de Moçambique.

Aditamento a 6/3: a zanga de um comentador mais mal-disposto acabou por abrir a porta à descoberta de um fascinante aspecto linguístico. Veja aqui.

terça-feira, 4 de março de 2008

O Mundo Perfeito

Depois de responder a um interessante comentário a este post, vou meter hoje uma folga bloguística.

Se vinham à procura de novidades, vão antes dar um passeio neste blog, que a minha senhora me aconselhou e de que fiquei fã.

Divirtam-se!

segunda-feira, 3 de março de 2008

descoberta a Mão Invisível

Dou a mão à palmatória!

Afinal, não apenas existe a tal "mão invisível" por detrás dos recentes motins/revoltas/tumultos, como foi documentado, pelo suplemento humorístico do Savana, um rebanho inteiro delas a conspirar para criar novos problemas.

Como sempre, clique na imagem para a aumentar.

sábado, 1 de março de 2008

Tecnologia Industrial e Curandeiros: partilhando pseudo-determinismos

Proponho neste artigo, a publicar no livro colectivo Portugal Contemporâneo. Olhares Sobre a Sociedade Portuguesa (Lisboa, ICS, 2008) que «independentemente das representações públicas acerca dessas actividades e da natureza que os seus praticantes lhes pretendam atribuir, tanto a gestão probabilística de riscos quanto a adivinhação “mágica” se regem por uma lógica de caos determinístico. Dessa lógica comum, associada à complexidade dinâmica das realidades sobre as quais as suas análises incidem, resulta uma também comum incapacidade de controlar a incerteza de forma prospectiva, transformando a prevenção de acontecimentos indesejáveis (seja ela técnica, comportamental ou ritual) num paliativo parcial – útil, mas insuficiente para os evitar.
Dessa forma, mesmo quando sejam exactas nos diagnósticos e cenários que produzam, as conclusões de um adivinho ou de um analista de risco deverão ser encaradas, por quem as considere fidedignas, como apenas parte das dinâmicas futuras possíveis e não como um controlo seguro da incerteza; optar e agir apenas de acordo com os seus ditames, esperando com isso assegurar o resultado desejado, é em última instância irracional.»


Leia «Tecnologia Industrial e Curandeiros: partilhando pseudo-determinismos»

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Um anito e uns trocos

Acabada a importação deste blog do endereço anterior (um grande obrigado, Marta!), reparei que o Antropocoiso começou há pouco mais de um ano. A efeméride foi na véspera de o povo "sair da garrafa", mas nego qualquer relação de causa/efeito, mesmo que espiritual.

Isto começou como uma forma de ter onde disponibilizar os meus artigos e, pontualmente, dizer umas coisas sobre assuntos (mal) esquecidos ou que me parecesse necessitarem de um outro ponto de vista, para juntar ao muito que acerca deles estivesse a ser dito.
Um ponto de vista não da Antropologia (assim, com letra maiúscula), mas de um cidadão que olha o mundo de forma um pouco diferente por a sua vida ser fazer antropologia e que (como os seus colegas) faz antropologia de forma um pouco diferente, pela sua particular experiência e história de vida.
Coisa modesta e quase confidencial, portanto.

Entrementes, no endereço anterior, que fornecia estatísticas diárias, tive a surpresa de ver o número de visitantes estabilizar nos 150, mesmo quando estava semanas sem afixar um post. Sendo esse número, ainda, quase confidencial, sente-se mesmo assim uma responsabilidade de dar algo em troca dessa simpatia e persistência.
Isso é fácil quando estou fora de Portugal, em sítios bem mais mexidos do que o meu belo mas rotineiro jardim à beira mar plantado. Aí, com a modéstia e o olhar "fresco" de quem é de fora, há sempre coisas que me interessa comentar - e sempre é uma forma de manter contacto com a família e amigos.
O número de posts vai engordando sem esforço, o número de visitantes não sei, mas felizmente o Antropocoiso não é um desses fenómenos de merecida popularidade como o Abrupto, o Arrastão ou o Diário de Um Sociólogo. Aí, ver-me-ia "à rasca", pois nem esta é a minha vida nem tenho a titânica capacidade de trabalho do Carlos Serra.

Mesmo assim... este modesto cantinho vai sendo pontualmente referido e citado, tendo mesmo sido levado, pela mão e generosidade de um colega bloguístico e académico, para as páginas do jornal que todas as semanas leio, a propósito de um esclarecimento antropológico acerca de um acontecimento da actualidade.
Para além de um prazer e de uma ligação com os outros, atrevo-me por isso a pensar que o Antropocoiso tem alguma utilidade - para as pessoas e, talvez, para a divulgação das formas de pensar nas ciências sociais.

Entretanto, instalei há uns dias um "brinquedo" que podem ver aí ao lado - o Feedjit.
Uma consequência disso é que a minha filha, agora, me pede que abra o blog para ela ver se há bandeirinhas diferentes.
Outra é que, de repente, uma pessoa atribui locais a esses visitantes que antes eram apenas números, quando os havia. Não é o mapa-mundi que encontramos nos blogs mais concorridos mas é, mesmo assim, surpreendente: localidades portuguesas de que nunca ouvi falar, países inesperados, acesso por links que se julgariam improváveis, saídas para sites científicos que aqui linquei.

Se nos lembrarmos que um bom artigo, publicado numa revista científica de referência, costuma ser lido por umas dezenas de pessoas e que um livro científico premiado pode vender apenas umas centenas de exemplares, isto dá que pensar. E convence que valeu a pena.

A todos os visitantes, um grande obrigado.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Fernando e os Mambos



Uma referência hoje feita, na catedral bloguística moçambicana, à actual pesquisa do meu querido colega Fernando Florêncio lembrou-me que o seu excelente livro Ao Encontro dos Mambos - Autoridades tradicionais vaNdau e Estado em Moçambique não está à venda em Maputo.

Para quando, senhores das livrarias? Vale a pena e prestariam um bom serviço aos leitores moçambicanos.

Enquanto isso não acontece, os interessados podem folhear o livro aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Assistencialismo e desenvolvimento

Tenho vindo a notar que continuam a aparecer regularmente posts, em blogs diversos, acerca da entrevista do economista queniano James Shikwati à Der Spiegel, em 2005, onde ele atacava o assistencialismo a África como um instrumento de reprodução da miséria e do subdesenvolvimento.

O assunto é polémico, há muitos interesses (e também boas intenções) em jogo, e por isso me parece que se torna ocioso discuti-lo com base em opiniões e abstrações gerais.
É por essa razão que sempre me lembro, ao ver essas referências à entrevista, de um livro do João Milando (investigador angolano que esclarece sempre, ao encontrar moçambicanos, que o seu apelido não tem nada a ver, em Angola, com o seu sentido por cá), que aborda esses mesmos temas a partir de dados empíricos: Cooperação sem Desenvolvimento.

É a sua também polémica tese de doutoramento (que, segundo me disseram, muito agastou alguns membros do júri), centrada na «relação entre o funcionamento das instituições de cooperação para o desenvolvimento e o surgimento de dinâmicas sociais adversas ao próprio desenvolvimento social e económico». Uma forma de dizer que o livro gira em torno dos temas mais "quentes".

Não há livros imprescindíveis mas, mesmo quando o leitor discorde pontual ou globalmente das posições do João, este é muito útil para pensar e discutir o assunto para lá das generalidades e do «eu cá acho que...». Se o tema vos interessa, aconselho vivamente.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Não dá dinheiro; dá machimbombos!

chapa no 5 de Fevereiro (foto Savana)

Vinte dias depois, foram agora os "chapeiros" (diz-se que os «piratas» sem licença, mas não posso garantir) a fazer greve, por questões processuais ligadas ao acesso ao gasóleo subsidiado.

A coisa foi bem mais calma, pois bloquearam ou tentaram bloquear duas vias essenciais (entrada da Matola e Chiquelene) com as viaturas, mas a população ou veio a pé ou voltou para casa. Esta não é a sua greve.

De manhã, mal se soube da coisa, as lojas fecharam em zonas centrais da cidade, mas o ambiente voltou mais ou menos ao normal - apenas com menos chapas em circulação, indecisos se iriam ou não aderir.

A caminho da padaria, fui inopinadamente nomeado representante da "comunidade internacional" (ou dos "doadores", como aqui se diz), por uma vendedora de mangas sentada no passeio:

- Não dá dinheiro ao governo. Dá machimbombos.*

Parece que os comentadores encartados e o povão estão de acordo acerca do que faz falta para resolver este imbróglio dos transportes.

* autocarros, em português de Portugal

Apoiado, Senhor Presidente!

Savana, 22/2/2008

Numa pequena notícia de canto de jornal, encontrei uma boa razão para, na sequência das preocupações que aqui expressei, gritar agora «Apoiado, Senhor Presidente!»

Faço votos que os planos dos empresários nacionais e estrangeiros interessados neste negócio não venham a ser mais fortes do que estas correctas e necessárias orientações presidenciais.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Semânticas invisíveis

Adam Smith

O porta-voz do partido no poder em Moçambique considerou as manifestações de 5 de Fevereiro, em Maputo, «atípicas e com origem numa mão invisível, que fracassou nos seus intentos de desestabilizar o País».

O meu interesse pela frase não se deve muito à imagem de um povo ordeiro e pacífico (os moçambicanos, que estiveram 30 anos em guerra, primeiro anti-colonialista e depois fraticida, com Campos de Reeducação, execuções públicas e Operações Produção pelo meio), ingenuamente manipulado por tenebrosas, subversivas e desconhecidas forças externas.
Afinal, essa imagem é uma interpretação que até já está bastante vista, desde que Salazar a aplicou às Lutas de Libertação Nacional nas então colónias portuguesas e à resistência anti-fascista na então "metrópole".

Parece-me bem mais curiosa a metáfora da "mão invisível", para designar as tais forças externas, sobretudo num partido reconvertido ao capitalismo liberal.
Seria de esperar que quem a usa num assunto tão sensível se lembrasse de onde tinha ouvido a frase. Foi, claro, em Adam Smith, quando ele teoriza a regulação automática dos preços por parte do mercado concorrencial (com base na oferta e na procura) e, em resultado desta, a selecção entre empresas bem sucedidas e falidas.
Imaginem as interpretações e parangonas de jornais que, com base nisto, se poderiam fazer acerca da origem dos motins na "mão invisível" da economia de mercado, ou em mecanismos automáticos de regulação entre oferta e procura política!...
Talvez, nesse caso, quem falou de "mão invisível" não andasse mais longe da verdade do que Adam Smith, mas tenho algumas dúvidas de que fosse isso que queriam dizer.

Tudo isto me lembra aquela piada russa do puto que, regressando de uma celebração oficial onde ouvira que «caminhamos em direcção ao horizonte radioso do comunismo», foi ao dicionário e ficou a saber que o horizonte é «uma linha imaginária que parece afastar-se à medida que nos aproximamos dela».

A semântica, às vezes, prega partidas ao discurso metafórico dos políticos.

Ensino preservatício

Esta é a Imagem da Semana, na última página do Savana.

Vejam o megafone, ao lado do falo de borracha. Vejam a variedade de expressões faciais. Vejam a velhinha a espreitar, lá ao fundo. Vejam...

Grande foto, Naita Ussene!

(re)Parabéns, INGC

Estou a ficar fã!

Já aqui louvei a
eficiência e o rigor do Instituto Nacional de Gestão das Calamidades, nas cheias do Zambeze.

Agora, o INGC vem chamar a atenção para desvios na distribuição dos donativos às vítimas das cheias, a jusante da sua acção - juntando às suas outras características públicas a seriedade e mostrando que, para um organismo estatal como este, tais falcatruas, roubos e revendas não são normais nem aceitáveis.

Parece que alguém andou a ler a história do menino e do lobo, levando a sério que, para o auxílio vir depressa quando é de facto necessário, não se pode andar sempre a gritar «Lobo!» sem que ele lá esteja. Parece que também se andou a ouvir a velha frase de que "à mulher de César não basta ser séria, tem também que parecê-lo" - e, com isso, ganhar credibilidade e não apenas pena.

Quem olha e vê, deixa de acreditar nessas balelas de que incompetência, corrupção e desleixo são "culturais" e "moçambicanos" (tal como, há umas décadas atrás, se dizia que desorganização e calãzisse eram "culturais" e "portuguesas"). São apenas incompetência, corrupção e desleixo - e, venham de moçambicanos ou de quem quer que seja, não há supostas "culturas" que os justifiquem; há apenas a complacência para com eles.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

... E memórias que nos lembram ser mau habituarmo-nos

«Quando um homem dorme na sarjeta, o que faz falta?»

Memória...



«On n'oublie rien de rien,
on n'oublie rien du tout.
On n'oublie rien de rien,
on s'habitue, c'est tout.

Et tout cela et rien au monde
ne sait pas nous faire oublier,
ne peut pas nous faire oublier,
de ce fait que la Terre est ronde.»

(Vai de memória, mas deve ser isto.)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Sim, Nós Lata


A minha mulher acaba de se escaqueirar a rir, de tal maneira que me fez vir a correr, preocupado que lhe estivesse a dar uma coisinha ruim.

Passou por um programa de tradução a letra do hino de campanha de Obama, "Yes, we can".

A primeira frase que lhe apareceu em português foi "Sim, nós lata".

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O valor da democracia

Nas eleições que o PCI quase ganhou, uma colega minha, jovem na altura, não pretendia votar.
O seu pai chamou-a solenemente à sala de visitas da casa, que só se abria nas grandes ocasiões e disse-lhe:
- Parece que a senhora não vai votar. Porquê?
Ouvidas as cépticas razões da minha colega, respondeu.
- Como sabes, o teu tio, meu irmão, foi partizano e morreu para que pudéssemos votar. Numas eleições tão importantes, tu não vais votar?

Lembrei-me desta história, ao ver este video.

É de um apoiante do candidato presidencial norte-americano Obama, que calhara ser entrevistado na rua por um repórter televisivo que, esperando encontrar um vazio abanador de bandeirinhas, "levou um baile" (aqui).
Com o impacto que a entrevista teve, o homem gravou este novo vídeo, agora em casa, para explicar mais algumas coisas acerca do seu apoio ao candidato e da importância que atribui à participação política.

É um imigrante liberiano entretanto naturalizado norte-americano, que eloquentemente explica porque é que, para alguém que antes não teve essa oportunidade, é tão importante essa coisa de votar em eleições livres, debater livremente e ser interventivo. Essa mesma coisa que é tão facilmente desprezada por quem está habituado a tê-la de mão beijada.

Aprendi há vários anos, em Moçambique, como a paz pode ser valiosa para as pessoas, mesmo quando a vida corre mal e as perspectivas de melhoria não parecem ser muitas.

Gostei de ser, agora, lembrado do enorme valor da liberdade e da democracia, que já me habituei a ter como certas.

Mais olhares sobre os motins


Ainda às voltas com os toques finais do tal artigo, fiz uma paradinha e aproveitei para partilhar convosco uma canção acerca do 5 de Fevereiro, do polémico rapper Azagaia.



Composta em cima dos acontecimentos, fez-me pensar no título de um livro da Teresa Fradique, que também vale bem a pena ler: Fixar o Movimento.

Aditamento a 20/2: Polémico, mesmo. Segundo parece, a música foi proibida na rádio.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Concurso "Capitalismo Moçambicano"

Passei pelo Macua e dei com esta pérola, aparentemente de origem brasileira:

CAPITALISMO IDEAL:Você tem duas vacas. Vende uma e compra um touro. Eles se multiplicam, e a economia cresce. Você vende o rebanho e se aposenta, rico!
CAPITALISMO AMERICANO:Você tem duas vacas. Vende uma e força a outra a produzir o leite de quatro vacas. Fica surpreso quando ela morre.
CAPITALISMO FRANCÊS:Você tem duas vacas. Entra em greve porque quer três.
CAPITALISMO JAPONÊS:Você tem duas vacas. Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite. Depois cria desenhinhos de vacas chamado Vaquimon e os vende para o mundo inteiro.
CAPITALISMO ITALIANO:Você tem duas vacas. Uma delas é sua mãe, a outra é sua sogra, maledetto!!!
CAPITALISMO ENRON:Você tem duas vacas. Vende três para a sua companhia de capital aberto usando garantias de crédito emitidas por seu cunhado. Depois faz uma troca de dívidas por ações por meio de uma oferta geral associada, de forma que você consegue todas as quatro vacas de volta, com isenção fiscal para cinco vacas. Os direitos do leite das seis vacas são transferidos para uma companhia das Ilhas Cayman, da qual o sócio majoritário é secretamente o dono. Ele vende os direitos das sete vacas novamente para a sua companhia. O relatório anual diz que a companhia possui oito vacas, com uma opção para mais uma. Você vende uma vaca para comprar um novo presidente dos Estados Unidos e fica com nove vacas. Ninguém fornece balanço das operações e público compra seu esterco.
CAPITALISMO BRITÂNICO:Você tem duas vacas. As duas são loucas.
CAPITALISMO HOLANDÊS:Você tem duas vacas. Elas vivem juntas, não gostam de touros e tudo bem.
CAPITALISMO ALEMÃO:Você tem duas vacas. Elas produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horário previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa. Mas o que você queria mesmo era criar porcos.
CAPITALISMO RUSSO:Você tem duas vacas. Conta-as e vê que tem cinco. Conta de novo e vê que tem 42. Conta de novo e vê que tem 12 vacas. Você para de contar e abre outra garrafa de vodca.
CAPITALISMO SUIÇO:Você tem 500 vacas. Mas nenhuma é sua. Você cobra para guardar a vaca dos outros.
CAPITALISMO ESPANHOL:Você tem muito orgulho de ter duas vacas.
CAPITALISMO PORTUGUÊS:Você tem duas vacas. E reclama porque seu rebanho nao cresce...
CAPITALISMO CHINÊS:Você tem duas vacas e 300 pessoas tirando leite delas. Você se gaba de ter pleno emprego e alta produtividade. E prende o ativista que divulgou os números.
CAPITALISMO HINDU:Você tem duas vacas. Ai de quem tocar nelas.
CAPITALISMO ARGENTINO:Você tem duas vacas. Você se esforça para ensinar as vacas mugirem em inglês. As vacas morrem. Você entrega a carne delas para o churrasco de fim de ano do FMI.
CAPITALISMO BRASILEIRO:Você tem duas vacas. Uma delas é roubada. O governo cria a CCPV - Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e te autua, porque embora você tenha recolhido a CCPV corretamente, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo número de vacas reais. A Receita Federal, por meio de dados também presumidos do seu consumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presumia que você tivesse 200 vacas e para se livrar da encrenca, você dá a vaca restante para o fiscal deixar ficar assim.

Lanço aqui, apenas para moçambicanos (cada um deve ter direito ao seu próprio gozo), o CONCURSO "CAPITALISMO MOÇAMBICANO", para premiar a melhor definição/exemplo para juntar às dos outros países.
O prémio e o juri hão de se arranjar.
Venham as vossas contribuições.
Não vale começar por "Você tem dois patos..."; já está muito visto e o respeitinho é uma coisa muito bonita.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

«O povo saiu da garrafa»

imagem "roubada" do blog de Carlos Serra

Fechado em casa a tentar acabar um artigo que já devia ter entregue, só pelo blog de Carlos Serra fiquei a saber de uma nova frase que corre em Maputo, acerca do motim/revolta/tumulto (conforme a perspectiva) de 5 de Fevereiro: «O povo saiu da garrafa!»

Numa pesquisa acerca da Lei da Família, tive oportunidade de estudar um pouco como «meter um homem na garrafa», a origem desta nova expressão. A razão para o fazer era que, assim, podia contornar o discurso politicamente correcto acerca do "género" (que toda a gente conhece por aqui) e chegar àquilo que as pessoas consideravam inaceitável no comportamento masculino.

Isto porque, quando um marido tem um comportamento considerado pouco próprio de um homem (entregar o salário todo em casa, não se meter em borgas ou com outras mulheres, deixar a mulher tomar as decisões, ajudar em casa, etc.), a sua família e vizinhos começam a especular que ele foi «metido na garrafa». Quer dizer, ele foi vítima de um feitiço para o submeter amorfamente à esposa, que foi misturado na comida ou enterrado na latrina dentro de uma garrafa - daí vindo o nome popular do feitiço e da suposta situação do homem.

In short, quem «está na garrafa» é considerado "pouco homem" e amorfamente submisso a quem não deveria ser, em resultado de uma acção ilícita de quem o domina.

Só ao «sair da garrafa», por decisão sua e através de um contra-feitiço, voltará a poder ser um homem digno e completo.

Parece-me que a metáfora expressa nesta nova frase que por aí corre é suficientemente clara e eloquente.

Dispensa mais comentários acerca da forma como a população interpretou e valorizou o 5 de Fevereiro, o seu antes e o seu depois.