quinta-feira, 13 de março de 2008

Excertos de "Um Amor Colonial" (3)


«O que se passou é que eu me senti perseguido pela PIDE.
Eu sentava-me num café e via uma pessoa a olhar para mim. Eu saio do café, vou-me embora, sento-me noutro café, vejo o mesmo homem a olhar para mim! E é claro, eu começo a ficar um bocado «Que é isto?» Então, propositadamente, mudo para outro ponto da cidade completamente oposto e, passado um bocado de eu estar noutro sítio, vejo o mesmo indivíduo. Então, aí ganho medo!
Ganho medo, falo com um chefe meu, que era o Nascimento:
- É normal que isso aconteça porque... eu vou-te explicar: Todas as pessoas que a sua profissão é uma profissão que passa fronteiras, portanto tripulantes de navios, comboios, aviões e tal, normalmente são perseguidos pela PIDE. Porque eles podem pensar que são correios ou qualquer coisa. Então, perseguem! Isso não quer dizer que venham a fazer mal. É para ver a vida da pessoa. E, depois, largam.
Mas, é claro, depois de uma pessoa ser apanhada por eles, eu não sei o que é se passaria lá. Eu não tinha nada a ver com política, mas as pessoas sabiam o que é que eles faziam. E esse medo continuou dentro de mim. Então, eu faço um pedido ao Presidente do Conselho de Administração da TAP, para me transferir para Luanda ou para a Beira (…) como ele se recusa, eu apresento a minha demissão. E foi isto uma das coisas que deu uma volta na minha vida profissional. Porque eu fui obrigado a largar um dos melhores empregos que tive na minha vida por causa da... Não foi por causa da rapariga, mas as duas coisas juntas, foi por causa da PIDE! Senti-me perseguido, senão ainda hoje estaria lá, talvez...»

(capítulo 5)

Excertos de "Um Amor Colonial" (4)


«Entretanto, quase todos os meses, eu recebia uma encomenda e mandava encomendas através de um tripulante do Infante D. Henrique. E um belo dia a miúda escreve-me uma carta e diz: «Olha: Optei por ir para São Paulo. Vou para o Brasil e vou resolver as coisas com o meu tio, a ver se há possibilidade de tu ires para o Brasil, também. Tu vais-me mandar o currículo completo, que é para eu entregar ao meu tio, ele vai-te arranjar, com certeza, vida no Brasil e nós vamos fazer a nossa vida no Brasil.» Eu disse: «Está bem.» «Mas antes de eu ir embora vou-te mandar uma encomenda, pelo despenseiro do Príncipe Perfeito.» (Pois, era o Príncipe Perfeito, não era o Infante D. Henrique.) «Está bem», disse eu. Era habitual, isso.
Então, quando o navio chega a Luanda, eu fui buscar a encomenda. Pedi licença ao guarda-fiscal para ir lá acima buscar a encomenda, como habitualmente fazia. Quando eu estava a falar com o guarda-fiscal, olho lá para o cimo da escada e vejo que a encomenda era ela e a mãe! Eu nem perguntei nada ao guarda-fiscal. Subi pela escada acima e fui buscar a encomenda! Peguei na miúda, vim por ali a baixo e o guarda-fiscal:
- Olhe, faz favor...
- Não, não... Deixe-me cumprimentar.
Eu não liguei a nada porque, quer dizer, eu nem estava a acreditar naquilo! A mãe e a filha estavam em Luanda, quando ela me disse que ia para o Brasil.»

(capítulo 5)

Excertos de "Um Amor Colonial" (5)


«Um belo dia de Reis, eu estou no meu serviço e, como habitualmente, ia lá a casa dela. Eu lembro-me que não havia lá nada assim de especial e resolvi ir a uma pastelaria comprar um bolo-rei e uma garrafa de vinho do Porto. A miúda sai do serviço e pensa: «Ele logo vai lá a casa e não temos lá nada. Deixa-me lá ir comprar um bolo-rei, porque é dia de Reis.» Então, foi a uma pastelaria (talvez a mesma, já não me lembra), compra um bolo-rei e, penso que sim, também levou a garrafa de vinho de Porto para acompanhar aquilo.
E quando chego lá a casa:
- Olha: não havia cá nada, comprei isto.
- Tem piada que eu lembrei-me da mesma coisa e também comprei isto. Está ali em cima da mesa.
Já lá estava. Eu olho para aquilo, fez-me um bocado de confusão na cabeça, não é? Era uma grande coincidência, termos os dois pensado a mesma coisa. Mas pronto… A única coisa que eu fiz foi:
- Vamos cortar os dois bolos. Já que se compraram os dois bolos vamos cortar os dois bolos.
- Mas somos poucas pessoas. Somos cinco pessoas.
- Eh pá: diz aí ao senhor Zé – que era o dono da casa – para chamar os vizinhos aqui do lado, porque vêm ajudar a comer o bolo.
Juntaram-se ali mais três pessoas, que era um casal e um filhito que vieram para ali, e fizemos ali a nossa festa de Reis.
Então, quando cortámos os bolos, acontece isto: no bolo que eu comprei, o brinde que lá estava dentro era uma aliança pequenina que entrava no dedo da miúda; e no bolo que ela comprou o brinde era uma aliança maior, que entrava no meu dedo!
A mãe, quando vê as alianças em cima da mesa, começa a chorar, as lágrimas a correr pela cara abaixo. Mas não era de tristeza. Ela disse mesmo:
- Nada vos pode separar, porque o destino vos está a unir.
E depois eu, quando estou a brincar com as alianças, nervoso, a pegar naquilo e também a pensar que o destino estava metido ali, eu quando estou a brincar com as alianças, vejo que uma aliança cai em cima da outra e entra dentro da aliança justinha. Não tinha folga nenhuma! Mais um sinal que, realmente... Eh pá! Eu quando... quando a gente vê aquilo tudo, pronto, a festa mudou. Porque, realmente, depois só se falava à roda disso, em termos de futuro e «vocês têm que resolver a situação». E foi realmente a conversa, até dos vizinhos do lado. «Mas porque é que vocês não resolvem a vida? Os sinais estão aqui evidentes», não sei quê. Mas, quer dizer, continuámos a tentar resolver a situação oficialmente, legalmente.
Até que um dia, quando vimos que a coisa estava um bocado complicada, o divórcio nunca mais surgia, chegámos a um acordo. Dissemos: «Vamos ter a certeza se conseguimos viver um sem o outro. Então vamo-nos separar!» Foi de comum acordo. «Eu fico em Luanda e vocês vão para a outra costa» – nós considerávamos a “outra costa” Moçambique.»
(capítulo 5)

Excertos de "Um Amor Colonial" (6)


«A correspondência mantinha-se. Eu chegava a escrever três cartas por dia, sabendo que às vezes a terceira chegava primeiro que a primeira. Mas eu... eu só estava bem era a escrever! E ela também.
Mas começo a verificar que de Lourenço Marques para Luanda, as cartas começam a reduzir. Começa-me a preocupar. Começa a vir uma carta por semana, outras vezes já vinha por quinze dias, depois um mês e depois acabou! Escrevi, escrevi, escrevi e não obtive resposta.
Eu não fiquei nada satisfeito com isto. Alguma coisa se passou de muito grave. Ou o pai a descobriu, ou… Porque vinha-me sempre à ideia o pai.
Resolvi largar tudo e ir para Moçambique à procura dela.»
(capítulo 7)

Excertos de "Um Amor Colonial" (7)


«Isto foi quase num fim-de-semana. Vem o domingo e uma pessoa não tinha nada que fazer. Aqui em Lourenço Marques, eu não conhecia ninguém. Ponho-me à janela muito cedo, a fumar um cigarro, ainda em roupas interiores e tal, e qual é o meu espanto quando vejo, defronte desse quarto, sair a mãe dela do prédio em frente. E eu disse: «Mas como é que o destino me está a colocar outra vez?...» Porque eu não sabia o paradeiro delas, não sabia! A única coisa que eu sabia era o nome da Pensão Tropical. Elas depois mudaram e a correspondência vinha para a Caixa Postal. E eu olho para ali e vejo a mãe sair do prédio!
Eu vou tentar vestir-me à pressa para ir atrás da mãe mas, quando eu chego à rua, já ela tinha ido à sua vida. Fartei-me de olhar para o prédio mas, àquela hora, ela de certeza morava ali. Porque se fosse a outra hora do dia, ela podia ter ido visitar alguém. Mas era muito cedo. Àquela hora, ela morava ali de certeza.
Então, resolvi fazer umas esperas, até que consigo apanhar a mãe.
- Bem, Dona Rosa, como está? Passou bem? Tal, tal...? A sua filha?
- Ah! A minha filha, e tal... Isso é uma história muito looonga...
- Ah é? Quer dizer, acha que é mais longa que a minha, é?
Eu perguntei-lhe assim, mas:
- Não! Isso aconteceu aí umas coisas...
- Mas o que é que foi? Aconteceu-lhe alguma coisa de mal?
- Não, ela conheceu aí um moço, começou depois a namorá-lo e ele propõe-lhe casamento. E ela casou-se.
- Ela chega aqui, conhece um moço assim sem mais nem menos e casa logo?
- Bem... ele é meu sobrinho, sabe?
Eu disse:
- Seu sobrinho aqui? Mas vocês tinham família em Lourenço Marques?
- Não! Ele veio cá cumprir o serviço militar e resolveu ficar cá.
- Então mas eu gostava de a ver. Pronto, ela seguiu a vida dela, pronto, ok, mas eu gostava de a ver.
- Mas agora é um bocado difícil, porque ela foi viver com o marido lá para cima para o norte, ela está lá para Vila Cabral.
E lá me dá um ponto, realmente, dos mais distantes que há em Moçambique, em relação ao ponto em que a gente se encontrava!»

(capítulo 8)

Excertos de "Um Amor Colonial" (8)


«Então, quando chegámos a um cruzamento em que teríamos que desviar para Nampula, para depois seguir para o norte, eu quando vou a chegar vejo a frota de camiões toda parada na estrada. Os oito carros ali parados. Eu paro também. O que é que se passa? Então verificámos: o primeiro carro partiu o veio de transmissão, que é uma peça muito difícil de reparar. Dali não se podia prosseguir a viagem sem se resolver aquele problema.
Então eu fui a um estabelecimento comercial que havia ali naquele cruzamento e perguntei qual era a cidade mais próxima. Cidade mesmo, não era vileca, porque para resolver um problema daqueles tinha que ser uma cidade. Então disseram-me que era Quelimane, que ficava a cerca de 40 ou 50 km daquela zona. Desmontámos a peça que estava partida, pegámos num camião e lá fomos nós para essa tal cidade de Quelimane, à procura de uma oficina grande.
Chegámos lá, localizámos uma oficina, mas não havia hipótese de resolver o problema. Teríamos que mandar vir uma peça nova de Lourenço Marques. Então, teríamos de arranjar maneira de ficar ali uns dias, à espera que a peça viesse de avião para se montar e prosseguir a viagem. De modo que arranjámos quartos para os motoristas, essa história toda. Então, no domingo (estas peripécias, normalmente, aconteciam ao domingo), no domingo eu entro num café que há em Quelimane, que é o Pólo Norte, estou a tomar o meu pequeno-almoço e encontro um amigo meu que tinha estado em Luanda e conhecia até o nosso namoro de lá. Nós estamos sentados, eu de frente para porta e ele de costas para a porta, ele pergunta-me:
- Então a Rosa Maria, pá?
E eu disse:
- Olha: se tu soubesses porque é que eu estou aqui, pá! Eu estou aqui, houve uma avaria num carro fui obrigado a vir para aqui, mas estou de passagem. Estou precisamente a caminho do norte, porque eu tenho que encontrar a Rosa Maria.
E quando eu digo «eu tenho que encontrar a Rosa Maria», ela entra pela porta do café!»

(capítulo 8)

Excertos de "Um Amor Colonial" (9)


«Agora, não sei. Partiu para Portugal, não sei o que é feito dela. Nunca mais tive notícia nenhuma dela, nestes trinta anos. A mãe também foi, pronto, e eu nunca mais tive notícia. Mas gostava. Ainda pus alguns anúncios num jornal, parece que era um semanário. «Alguém conhece a Rosa Maria de Oliveira César Paulo?» Nunca ninguém me respondeu. Pronto, se calhar ela até leu mas disse: «Não... é melhor não escrever.»
E olha... cá estou eu, mas com esperança de ainda a encontrar! Não é cá para maluquices. Estamos velhos para isso, eu tenho a minha vida, ela tem a dela. Mas gostava de a encontrar. Só.
Eh pá! Acredito que esta do destino… Eu penso muito nisso, e penso que talvez não tenha feito um grande esforço, durante estes 15 anos últimos, para a encontrar porque sinto uma pontinha de esperança cá dentro que o destino, um dia, vai pô-la à minha frente. Nem que seja na véspera de eu morrer! Porque passaram-se tantas peripécias, tantas coincidências que... é o destino.»(capítulo 9)

Excertos de "Um Amor Colonial" (10)

«Portanto, está a ver: o país não está como as pessoas gostariam, o tempo passa e cada vez há menos desculpa para o que está mal, mas a verdade é que passei cá as alturas mais difíceis, não era agora que me ia embora. Quando me convidam para ir para Portugal, eu digo: «Eu hei-de morrer aqui.»
Há um termo que eu apliquei, quando era muito novo e não sabia onde é que ia parar com a minha vida. Dizia isto a muita gente: «Deus deu-me um bocadinho para eu nascer e deu-me o mundo inteiro para eu morrer.» Disse isto durante muitos anos a muita gente, porque andei realmente perdido.
Hoje, sei que hei-de morrer aqui.»
(capítulo 10)

Este livro, a história de vida de um habitante de Maputo (com este amor pelo meio e contada nas suas próprias palavras), está há 2 anos para ser publicado.
Uma editora já avançou e recuou. Outras consideram que, comercialmente, é uma «edição de risco» - e devem ter razão, porque eles é que são os profissionais.
Confesso que não percebo o mercado livreiro.

Leia o Posfácio analítico de "Um Amor Colonial - Álvaro e Rosita, Lisboa/Angola/Moçambique"

terça-feira, 11 de março de 2008

O Social em Análise - a investigação no ICS hoje



O livro que há uns tempos apresentei como o provável grande acontecimento editorial das ciências sociais portuguesas, neste ano e seguintes, ainda procura afinal seu título definitivo.
Eu votei naquele que dá nome a este post.
Também a lista de autores engordou, entre o projecto e a paginação. Cá fica a actualização:

Introdução: Manuel Villaverde Cabral

"A construção do Portugal moderno": artigos de Conceição Andrade Martins, Fátima Patriarca, José Manuel Sobral, Luis Salgado de Matos, Mª Filomena Mónica, Mª Isabel Soares, Mª José Marinho, Pedro Lains e Rui Ramos.

"Cidadania e instituições democráticas": artigos de Alexandra Brito, Alice Ramos, Andrés Mallamud, Cícero Pereira, Filipe Carreira da Silva, Jorge Vala, José Manuel Rolo, Marco Lisi, Mónica Vieira e Pedro Magalhães.

"Ambiente, risco e espaços": artigos de Aida Valadas Lima, João Pato, Luísa Schmidt, Paulo Granjo, Renato do Carmo e Tiago Saraiva.

"Ciência e investigação": artigos de Ana Delicado, Cristiana Bastos, Hermínio Martins, João Pina Cabral, José Luís Gracia e Tiago Saraiva.

"Escola, juventude e trabalho": artigos de Ana Guerreiro, Ana Nunes de Almeida, David Cairns, José Machado Pais, José Oliveira Costa, Mª Manuel Vieira, Marina Koralova, Marínus Pires de Lima, Marta Lino e Vera Borges.

"Género, família e estilos de vida": artigos de Ana Raquel Matias, Anne Cova, Cátia Nunes, Karin Wall, Pedro Moura Ferreira, Sanda Samitca, Sofia Aboim, Susana Viegas, Vanda Aparecida, e Vitor Ferreira.

"Império, diásporas e migrações": artigos de Ângela Xavier, Cícero Pereira, Daniel Melo, Jorge Vala, Marzia Grassi, Patrícia Aguiar, Rui Lopes e Valentim Alexandre.

"Comunidades e práticas religiosas": artigos de João Vasconcelos, José Barreto, Nina Tiesler, Ramon Sarró, Ruy Blanes e Steffen Dix.

Que trupe, heim?

segunda-feira, 10 de março de 2008

Coisas que todo o antropólogo deve saber



O João Vasconcelos, que já mencionei aqui a propósito do seu rito de passagem, tem estado a juntar no seu blog uma colecção de apontamentos deliciosos, sob este título.
Fica aqui a transcrição, como convite a que o visitem.

«Não é preciso invocar Lévi-Strauss cada vez que se escreve bricolage. A maioria das vezes é mesmo melhor não o fazer.»

«Não é preciso falar de Marc Augé cada vez que se pára numa área de serviço. É melhor aproveitar para fazer um pouco de ginástica.»

«Às vezes um charuto é apenas um charuto. Quem o disse, atente-se bem, foi Sigmund Freud, porventura o interpretativista mais compulsivo e genial de todos os tempos. Disse-o a propósito do seu próprio charuto, é certo. Mas vale para todos.»

«Um vegan é um perspectivista destravado.»

«O futuro será sempre o melhor ponto de vista sobre o presente. Cautela, portanto.»

«As palavras com o prefixo pós- têm um prazo de validade mais curto que as palavras com o sufixo -ismo.»

domingo, 9 de março de 2008

A minha vizinha garça

O que é que faz uma garça-real, todos os dias, numa machamba plantada no meio de prédios, em plena cidade de Maputo?
Anda aos sapos, que a minha cadela gostaria de abocanhar durante o xi-xi da noite?
Acha piada a chatear as galinhas?
Gosta de debicar um vegetal de vez em quando?
Vem, apenas, porque aqui ninguém a ameaça?

Não sei. Mas é um prazer para os olhos e para a alma, em cada fim de tarde.

Bute aí curtir tradição!

Com a divulgação deste acepipe antropológico e o convite a que o comentasse, o Carlos Serra encomendou lenha para eu me queimar.

Deixei o meu comentário aqui, que é também o melhor sítio para deixarem o vosso.

A gente vê-se na Matola

Nos dias 4 e 5 de Abril, festa do jazz na Matola!
Dois palcos, um para jovens moçambicanos e outro para cats que vêm do Festival da Cidade do Cabo: The Manhattans, Judith Sephuma, Pieces of a Dream, Freshyground, Moreira Project, Jimmy Dludlu, Irinah, Salimo Mohamed, Otis e Stewart Sukum.

Luís P, amigão: é desta que me fazes uma visita?

Filipe R: é desta que vens dar um abraço aos muitos amigos que deixaste nesta terra, quando por cá passaste?

Família: e vocês? Ficam-se?

sábado, 8 de março de 2008

Os professores e a Professora

Estou banzado!

Ver na televisão mais de 85.000 professores (Fenprof e PSP de acordo), um pouco mais de metade dos professores portugueses, numa manifestação em Lisboa contra a política de ensino do governo e exigindo a demissão da respectiva ministra é um acontecimento que foge a todas as normas. É o equivalente sectorial a vermos 5 milhões de portugueses na rua, a protestarem contra o governo ou uma sua política geral.
Perante um terramoto destes, ver depois Augusto Santos Silva a perorar (certamente contrariado, pois ninguém lhe pode invejar a obrigação de fazer tal discurso) que a política do governo não é ditada por manifestações, mas pelo seu programa, é constrangedor. É patético. Tem-se pena do homem, mesmo tendo sido ele quem aceitou o cargo. Porque não é credível que possa existir um tal nível de autismo num governo e num homem inteligente como ele.

Um tamanho consenso contra uma política de um governo (sectorial mas numa área indiscutivelmente estratégica) e contra a pessoa que com particular empenho a planeia e executa é excepcional. Que esse consenso se expresse através de uma manifestação de rua tão esmagadora é mais excepcional ainda.

Porquê? A propósito de uma outra manifestação, chamei aqui a atenção para um facto que por vezes nos escapa: há quase duas décadas que, em Portugal, as pessoas consideram a representação sindical (mesmo quando não concordam com a actuação prática dos sindicatos) como um serviço público a que têm direito, sem que tal exija delas filiação e participação. Quando participam, isso é um acto muito mais significativo do que quando (até meados da década de 1980) participar era normal; quando o fazem massivamente, a excepcionalidade do acto demonstra como é excepcional e consensual o desacordo.

Mas isto levanta novas perguntas. Como é que alguém (individual ou colectivo) consegue criar um consenso destes contra si próprio? Há a política adoptada, claro. Há o autoritarismo na sua adopção, certamente. Mas é só isso?

O autoritarismo não é apenas um estilo. É uma concepção do poder e do seu exercício - e o poder não é apenas "político", no sentido mais comum da palavra; existe em qualquer relação entre pessoas. Também não é, pelo menos para os psicólogos, a mesma coisa que autocracia.
O autocrata impõe-se, vai à luta para esmagar mas equaciona a possibilidade de derrota e sabe ouvir, porque toma as opiniões adversas como informações essenciais para ajustes tácticos, mesmo que os seus objectivos estratégicos sejam execráveis. Quer dominar, mas está alerta porque encara esse domínio como o resultado de um jogo permanente.
O autoritário "pisa para baixo" e "amouxa para cima". Desvaloriza as opiniões adversas e as informações desagradáveis para o seu plano, porque parte do princípio de que estar numa posição dominante garante, à partida, a imposição e sucesso do seu domínio. São os burocratas do poder sobre os outros.

A Ministra da Educação demonstrou publicamente o seu carácter autoritário e o nosso primeiro mais ainda - juntando até, aos aspectos de poder, a fixação higienista e saudabilista que os psicólogos atribuem a esse modelo de personalidade.
Está estudado que os autoritários preferem rodear-se de autoritários, quer por apreciarem o estilo (que acaba por ser uma extensão do seu), quer por se sentirem mais seguros de que, assim, a sua posição e poder não serão questionados, pelo menos enquanto as posições hierárquicas estiverem claras. OK, mas... Porquê esta autoritária? E que consequências é que essa escolha tem?

Para alguém que leccionou Antropologia da Educação durante 7 anos, sou singularmente pouco interessado por questões relacionadas com o sistema de ensino.
Mas há uma coisa que repeti inúmeras vezes, nos mais variados sítios e contextos, embora fosse quase sempre entendida como uma gracinha pour épater les bourgeois: a importância real dos professores para a sociedade decresce à medida que aumenta o grau de ensino que leccionam.
A afirmação era vista como uma boutade num académico, porque separa o aprofundamento de saberes da importância social do trabalho lectivo (que normalmente são amalgamados) e porque é suposto termos, todos nós académicos, um enorme ego individual e colectivo.
Esta última imagem é basicamente verdadeira, sem que eu seja excepção. Mas a experiência de vida e a capacidade auto-reflexiva têm alguma importância, pelo que por vezes dá para compreender que a universidade é uma instituição singularmente hierarquizada, considerando os seus supostos objectivos, e que tende a ser encarada, por nós académicos "bem sucedidos", não como um cantinho relativamente pouco relevante do mundo, mas como a sociedade (com ou sem o prefixo "micro") relevante em que nós vivemos. É normal, então, que farrapinhos de poder quase ridículos numa perspectiva societal global sejam objecto de lutas fracticidas letais, como se aquelas cagadinhas de poder fossem O PODER, e como se o poder valesse isso.
Em suma, e apesar de algumas muito louváveis excepções (que têm tanto a ver com carácter individual como com a capacidade de fazer com que alguns valores resistam à erosão do meio circundante), somos um caldo de cultura adverso à produção de decisores políticos que encarem o poder segundo uma lógica diferente do mata-ou-morre - ou, num outro sub-produto mais raro, do "bananismo" indeciso.

Posto isto:
A partir de hoje, a Ministra da Educação está politicamente morta.
Não é uma declaração política; é a mera constatação de um facto.
Discordo de algumas opções tomadas pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (embora suspeite concordar com o diagnóstico que o terá levado a tomá-las), mas acho que dificilmente poderíamos encontrar uma melhor pessoa para esse cargo.
Em contrapartida, quanto ao Ministério da Educação, deixem os académicos a academicar. Vejam lá se agora arranjam um(a) ex ou actual professor(a) do ensino básico ou secundário, sem grandes sentimentos corporativos mas sensibilidade para os entender, que não saiba falar educacionês, não seja um(a) "rato(a) de aparelho" partidário e, de preferência, seja inteligente. De outra forma, estarão a pedi-las.

... E o James Joyce, então, é uma seca

Savana, 7/3/2008

Trago-vos uma interessante peça de crítica literária, baseada em peculiares critérios de análise de qualidade (clique para aumentar).

Já agora:
Por curiosidade moçambicanista e literária, tenho tentado comprar nas livrarias as obras publicados pelo seu autor, o novíssimo secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, Jorge de Oliveira. Não tenho tido sorte; lá, não me sabem dizer quais são. Por isso apelo aos leitores: alguém me pode indicar os títulos dos livros, para eu os encomendar?

quarta-feira, 5 de março de 2008

É Pr'ámanhã!



Philip Peek, Chair of Anthropology da Drew University (E.U.A.), apresenta amanhã, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM, a palestra "Reflexões Acerca do Estudo Académico da Adivinhação Africana".
É às 9h. 30m., na sala 206 (o auditório da antiga UFICS).

Como diz o resumo, «Esta comunicação apresentará algumas reflexões acerca do desenvolvimento do estudo académico da adivinhação africana - mas não tentará recapitular a sua história completa. O estudo dos sistemas africanos de adivinhação cresceu rapidamente nos anos recentes e produziu valiosas abordagens inovadoras, mas vários problemas continuam por resolver. Basicamente, quanto melhor compreendermos a adivinhação, melhor nos compreenderemos a nós próprios.»

Estrangeiros à porta de casa

Afinal, ontem não resisti e, na habitual visita ao blog de Carlos Serra, deixei um comentário antropocoisico no post que ele fez acerca desta notícia.

Isto porque, como diz um outro comentador, é uma «bela peça de jornalismo, para quem “curte” antropologia».
Lembrou-me um artigo do Mia Couto, anos atrás, em que ele referia o desconforto e ar de peixes fora de água dos seus alunos, quando tinham que se sentar no quintal de alguém, fora da capital.
Também há uns anitos, tive que teorizar um pouco acerca da prática de "antropologia à porta de casa" (dowload de excerto aqui, livro aqui). Por vezes, duvido da utilidade que essas reflexões possam ter em Moçambique pois, para muitas pessoas nadas e criadas em Maputo, o seu próprio país parece ser tão estrangeiro e exótico como para alguém que acabou de desembarcar da Suécia. Outras vezes, penso que não é assim tão inútil, pois essas mesmas pessoas (quando são, por mero exemplo, jornalistas) não dão grande importância a essa 'estrangeireza' e olham os seus concidadãos como se os conhecessem "de gingeira" e estivessem no Alto Maé.

Daí a pergunta: Que tal uns cursozinhos de verão em Antropologia, para jornalistas e políticos?
E não julguem que estou a falar apenas de Moçambique.

Aditamento a 6/3: a zanga de um comentador mais mal-disposto acabou por abrir a porta à descoberta de um fascinante aspecto linguístico. Veja aqui.

terça-feira, 4 de março de 2008

O Mundo Perfeito

Depois de responder a um interessante comentário a este post, vou meter hoje uma folga bloguística.

Se vinham à procura de novidades, vão antes dar um passeio neste blog, que a minha senhora me aconselhou e de que fiquei fã.

Divirtam-se!

segunda-feira, 3 de março de 2008

descoberta a Mão Invisível

Dou a mão à palmatória!

Afinal, não apenas existe a tal "mão invisível" por detrás dos recentes motins/revoltas/tumultos, como foi documentado, pelo suplemento humorístico do Savana, um rebanho inteiro delas a conspirar para criar novos problemas.

Como sempre, clique na imagem para a aumentar.

sábado, 1 de março de 2008

Tecnologia Industrial e Curandeiros: partilhando pseudo-determinismos

Proponho neste artigo, a publicar no livro colectivo Portugal Contemporâneo. Olhares Sobre a Sociedade Portuguesa (Lisboa, ICS, 2008) que «independentemente das representações públicas acerca dessas actividades e da natureza que os seus praticantes lhes pretendam atribuir, tanto a gestão probabilística de riscos quanto a adivinhação “mágica” se regem por uma lógica de caos determinístico. Dessa lógica comum, associada à complexidade dinâmica das realidades sobre as quais as suas análises incidem, resulta uma também comum incapacidade de controlar a incerteza de forma prospectiva, transformando a prevenção de acontecimentos indesejáveis (seja ela técnica, comportamental ou ritual) num paliativo parcial – útil, mas insuficiente para os evitar.
Dessa forma, mesmo quando sejam exactas nos diagnósticos e cenários que produzam, as conclusões de um adivinho ou de um analista de risco deverão ser encaradas, por quem as considere fidedignas, como apenas parte das dinâmicas futuras possíveis e não como um controlo seguro da incerteza; optar e agir apenas de acordo com os seus ditames, esperando com isso assegurar o resultado desejado, é em última instância irracional.»


Leia «Tecnologia Industrial e Curandeiros: partilhando pseudo-determinismos»