segunda-feira, 31 de março de 2008
Disto não apanhei eu no Kruger Park!
Mas este video amador é a coisa mais extraordinária que vi, no meu longo namoro com imagens da natureza. Vale bem a pena esperar o tempo que leva a carregar.
E eu que só tive este elefante como frisson mais próximo do assento...
Parasitas caninos
Espremi hoje 3 feridas em patas da minha cadela, de onde saíram, quais Aliens, 3 vermes esbranquiçados de cerca de centímetro e meio, gorduchos mas estreitando numa das pontas. Tudo isso saído de buraquitos que, na véspera, me pareceram inflamações de mordidas de uma aranha, ou coisa que o valha.
Fiquei muito mais impressionado e enojado do que vocês ao lerem, a bichinha ficou agradecida, mas eu acabei preocupado. Onde raio apanhou uma coisa assim? Bastará desinfectar bem as feridas, depois de expulsar monstros destes? Que perigos poderá isto trazer para a minha criança?
Por isso, muito a sério, se alguém sabe alguma coisa de parasitas sub-cutâneos que correspondam à descrição, informe-me acerca procedimentos mais adequados.
Que, dos pesadelos com eles, desconfio que ninguém me safe.
Adenda a 2/4: segundo o veterinário, os tais parasitas eram, believe it or not, larvas de mosca "king size"! Parece que é comum e que o procedimento é aquele que tomei. Muito obrigado ao anónimo que me indicou o endereço de clínicas veterinárias.
quarta-feira, 26 de março de 2008
gli Portuguesi
Em Itália, chamam-se "portuguesi" aos borlistas, na sequência da embaixada enviada por D. Manuel I ao Papa. Os presentes oferecidos foram tão opulentos que este deu ordem para que os membros da embaixada não pagassem nada em lugar algum de Roma, sendo-lhe remetidas as contas respectivas. Criou-se, claro, uma legião de borlistas que se declaravam portugueses para comerem e beberem à conta do Papa.
Prólogo 2:
Não é que vocês tenham sentido a minha falta, mas estive uns dias fora em trabalho de campo, em sítios sem internet.
Voltei hoje à Nação (Maputo, para quem não saiba) e descobri-a transfigurada.
Bastou ir fazer um almoço tardio, num restaurante nem por isso fino, para me ver rodeado de personagens da comitiva presidencial, uns turisticando na boa (no que só revelam mimetismo e lealdade para com quem os trouxe), outros aproveitando a viagem de Estado para tratarem de negócios mais ou menos privados - "mais ou menos" porque, embora privados e situados em Moçambique, envolviam segundo a conversa lobbying junto de um governo, curiosamente o português e não o moçambicano.
Bem... também não era uma multidão, este último grupo. Apenas 3 personagens: uns muitíssimo conhecidos senhor e senhora da direita bem direita portuguesa, que partilham um duplo apelido sem que alguma vez me tenha interessado saber se são um casal, irmãos ou outra coisa, a par de um aparente amigo de juventude cascaína e potencial sócio.
É óbvio que, por essas latitudes ideológicas, o princípio é que cada um se desenrasca como pode e que a intervenção estatal é aquela coisa de que se diz sempre mal mas que serve de base para quase todos os negociozitos. A gente quase compreende e tolera. Mas confesso que o ostensivo "tu" e as ordens com a secura das que se dão aos cães que endereçavam aos empregados me foram deixando desconfortável.
Finalmente sairam. E, tão envolvidos estavam na discussão de assuntos de centenas de milhares de dólares, que se esqueceram de pagar a conta.
Epílogo:
Eu sei que escrevi, uns posts abaixo, que isso de nacionalismos e patriotismos não é o meu forte.
Mas... que raio! Tios e tias de Cascais em comitiva presidencial: comportem-se! Façam de conta que alguém vos ensinou boa educação!
É que vocês vão embora amanhã, mas eu fico aqui. E, aqui, tenho "português" escrito na testa, goste ou não goste.
Não me façam passar vergonhas por vossa causa.
post scriptum: a série de posts acerca dos linchamentos recomeçam em breve.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Poder, morte e linchamentos - 1
Fui confrontado pela primeira vez com os linchamentos de putativos ladrões através da cobertura quase integral de um deles, em pleno telejornal de um dos canais moçambicanos.
A essa impressão chocante, seguiu-se a surpresa de verificar que a larga maioria das pessoas - de diferentes camadas sociais - com quem comentava o acontecimento o encaravam com neutralidade ou simpatia, fosse porque considerassem os linchamentos dissuasores da criminalidade («como da última vez que isso aconteceu», esclareciam), fosse porque, simplesmente, consideravam que a morte era a punição mais adequada para os ladrões e para a protecção da sociedade.
Talvez numa tentativa de auto-preservação emocional, acabei por encaixar o ancontecido na vaga categoria das tentativas de purificação e catarse social, suspeitando mesmo de uma ligação entre ele e uma onda de criminalidade aparentemente atípica (onde se incluia um estranho assalto à mansão do ex-Presidente da República), que se seguiu à exoneração de figuras de topo da polícia. Mas, se essa ligação alguma vez existiu, nunca poderá explicar as mais de duas dezenas de linchamentos peri-urbanos que se vêm sucedendo em 2008. É um fenómeno que, pela sua quantidade, ritmo e banalização, nos obriga a suspeitar tratar-se de algo qualitativamente diferente - mesmo se é semelhante, na forma, aos pontuais linchamentos passados.
É normal que, perante fenómenos chocantes, queiramos encontrar A razão que lhes subjaz. Sendo ela única, poderíamos com alguma facilidade modificá-la e superar o problema. Infelizmente, pela minha parte, a experiência leva-me a desconfiar que os factores explicativos são quase sempre vários e interagindo entre si.
Carlos Serra tem acompanhado atentamente esta situação e reflectido bastante acerca dos factores que a permitam compreender; eu sou, relativamente a essa reflexão, apenas um observador interessado. Porém, relendo há dias velhas notas de conversas com ex-soldados portugueses nas guerras de libertação travadas nas então colónias, pareceu-me encontrar alguma coisa de pertinente para a compreensão dos actuais linchamentos. Que me levou a outras.
Pergunto-me hoje se será irrelevante, para a compreensão do que se passa, que o acto de matar sob aplauso público (em vez de sob reprovação) seja frequentemente sentido como um exercício de poder, excepcional na sua força e ocasião, que produz prazer e, a posteriori, saudade. Se será irrelevante o conhecimento em Moçambique de uma estética da morte e do castigo físico públicos - desde tempos pré-coloniais, bem presente nestes e também presente, ou mesmo reforçada, nos tempos revolucionários e nos da guerra civil. Se será irrelevante que estes linchamentos também pudessem corresponder (embora nada indique que sejam assim verbalizados) à metáfora do «povo que sai da garrafa».
Mais do que hipóteses, serão intuições que, a terem validade empírica, poderão constituir mais uma vertente a ter em conta na compreensão da actual vaga de linchamentos. Mas falta ver se têm ou não essa validade. Apresento-os aqui, nos próximos 3 posts, por eventualmente poderem ser de alguma utilidade para quem esteja a estudar o fenómeno. Isto porque, infelizmente, não é possível a cada um de nós pesquisar aprofundadamente todos os temas que lhe interessam e que o merecem.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Plácidas Quartas
Que magia terão os animais?
A honra dos palhaços
terça-feira, 18 de março de 2008
Sarna para nos coçarmos
"E então?", perguntam vocês. O terrorismo não é uma coisa execrável? A sua apologia não é e não deve ser considerada em si mesma um crime, mesmo que potencial?
É, sim senhor! O "então" está na necessidade e pertinência.
A igreja católica, velha e experiente senhora dos nossos fazeres colectivos, sempre teve o bom senso de saber que só se proíbe aquilo que as pessoas fazem ou querem fazer.
(Aliás, por causa disso é que podemos ter hoje preciosas informações históricas acerca das práticas sociais e sexuais de há centenas de anos, com base nos manuais de confissão feitos para os padres.)
Mas, se a possível infracção só existe de facto na nossa cabeça de reguladores, pensava ela, não vamos dar ideias à maltosa.
Estes proibicionistas caloiros, sem a experiência e sabedoria da velha senhora, são de outra cêpa.
A coisa vai ser criminalizada na Europa onde isso é um problema? Também queremos! Também queremos!
Não interessa se o terrorismo não é problema em Portugal desde as FP25 - que, segundo me lembro, nem faziam apologia; achavam que toda a gente ia gostar tanto que os havia de seguir em gloriosas hordas até à vitória final...
Não interessa se não há um "problema religioso" em Portugal, se os muçulmanos (os novos eternos suspeitos de terrorismo) vivem, por lá, a religião "na sua" - tal como os católicos locais, embora estes metendo-se um pouco mais na vida dos outros.
Não interessa se a principal comunidade islâmica no país tem, internacionalmente, como princípio de conduta religiosa respeitar as leis e princípios dos países onde se radica.
Não interessa se os líderes maometanos locais têm uma evidente conduta de pedagogia da tolerância e coexistência religiosa, dentro do quadro de um estado de direito.
Nada disso interessa, porque "a gente também quer".
Esta iniciativa legislativa é desnecessária e absurda.
É, no quadro actual, insultuosa para os muçulmanos portugueses e vivendo em Portugal.
E, como diria a velha e experiente igreja católica, é perigosa.
Mas que esperar de um Ministro da Administração Interna que foi chefe da "secreta" e (a julgar pela foto) de um velho Ministro das Colónias fascista que, embora cultivando uma imagem de moderado entre os "ultras", escrevia, em tempos de plena retórica da "Nação Multirracial", que o estatuto de assimilado não se herdava, que os africanos filhos de cidadãos nasciam indígenas (Administração da Justiça a Indígenas, p. 28)?
Ficam bem na fotografia.
segunda-feira, 17 de março de 2008
Elis
Conforme me lembraram aqui, a "Pimentinha" faria hoje anos.
Quantos, não interessa. Não consigo imaginá-la senão como era na minha tenra juventude, mais do que bem viva.
Mulher furacão, de partir a loiça toda e de cantar o reconhecimento dos seus erros (lembram-se da história d' «O Bêbado e a Equilibrista»?), era para nós, pobres mortais que nunca a pudemos encontrar, sobretudo aquela voz e aquele feeling imensos.
Para mim, creio que foi mais. Não foi certamente por acaso que quase todas as mulheres com quem vivi têm "pelo na venta", são incrivelmente ternas, casmurras e generosas, e "não levam desaforo para casa". É assim que eu gosto. Culpa tua, Elis.
No "Vai um videozinho?", esta é a semana da Elis Regina, que continuará até ver.
Na engenhoca que tenho, não dá para escolher os vídeos uma a um. Faço figas para que me calhem, no embrulho, o «Como os nossos pais» e o «Mestre-sala dos mares»...
Se eles não estiverem aí ao lado, façam pesquisa, que raio! Vale mais a pena do que 90% das que já fizeram.
Adenda: não me calhou o video do "Mestre-sala dos mares", mas está aqui. Entretanto, aqui a lista disponível é imensa.
Serra: tenho um post para afixar, com uns alinhavos de ideias que podem (ou não) ser úteis para quem anda a estudar os linchamentos. Vai desculpar-me, mas fica para amanhã. Hoje, é dia de santa-diaba Elis.
domingo, 16 de março de 2008
Propriedades
Está a fazer cuidadosa pontaria à cabeça desta perigosa meliante, que atentou contra a sacro-santa propriedade da terra - que, por lados onde a propriedade é maior que muitos países não insulares, é ainda mais sagrada e santificada.
Acessoriamente, a marginal instrumentalizou menores para manifestações (o que é altamente suspeito em Moçambique) e andou a tatuar a cara, sem que seja clara a sua própria maioridade (o que está a caminho de ser ilícito em Portugal, e com muita razão). Maioridade essa que, note-se, é já de si discutível pelo facto de ser indígena ou arraçada.
Adenda no próprio dia: é estranho. Embora não tenha ponta de nacionalismo e muito poucos resquícios de patriotismo, sempre preferi a versão portuguesa da Internacional a qualquer outra. Se calhar, é por a letra ter sido escrita por anarquistas. E é assim que me sinto, ao ver coisas destas.
Medo das justiças
Hoje, acordei ao som de gritos de «Pega ladrão!».
Estremunhado, arrastei-me até à varanda e, com esta onda de linchamentos que por aqui anda, dei comigo a torcer pelo ladrão. Escapou-se. Fiquei mais tranquilo.
Não sou o único a cruzar-me com estes sentimentos e reacções contraditórias.
Tempos atrás, roubaram o auto-rádio de um patrício meu, dentro dos muros da sua propriedade. Só podia ser um dos guardas e, após conciliábulo, dois deles acusaram um terceiro. O homem negava e o nosso heroi, muito portuguesmente, levou-o à esquadra para apurar o assunto.
Explicou o que se passara, deixando bem claro que poderia ter sido um dos outros guardas, mas o polícia só perguntou ao homem: «De onde é que tu és?» «De Inhambane», foi a resposta. Antes que o tuga percebesse o que se passava, já o acusado estava estatelado no chão, com o polícia a saltar-lhe a pés juntos em cima do peito, enquanto gritava, ao ritmo dos pulos: «Então... tu vens... da... minha terra... para... roubar... rádios em Maputo?»
O inicial lesado lá conseguiu fazer a cara mais severa que conseguiu e dizer: «Deixe estar, que eu trato do assunto à minha maneira. Vou tirar isso a limpo e trago-o cá mais tarde!» E, entre os olhares cúmplices das forças da ordem, lá enfiou o suposto ladrão no carro e, claro, foi deixá-lo no hospital.
Mas há histórias mais antigas.
Poucos anos após a independência, quando era ouro encontrá-las, tentaram roubar uma peça do carro a uma amiga moçambicana, em plena baixa de Maputo. Ela gritou, o homem foi dominado e rapidamente lhe ataram os braços com arames.
Em direcção à esquadra mais próxima, formou-se uma procissão que ia sempre engrossando com novos justiceiros, que pedagogicamente distribuiam uns sopapos ao homem. A certa altura, já era a lesada que apelava à calma, limitando os estragos como podia.
Na esquadra, após as esperas e recolhas de depoimentos, reparou que o incompetente ladrão estava com os braços inchadíssimos e as palmas das mãos roxas. Imaginando-o já gangrenado e amputado, por causa da merda de um bocado de metal que faz os carros funcionarem, a minha amiga lá conseguiu exigir que lhe tirassem os arames e, pateticamente, deu consigo a fazer-lhe massagens nos braços.
Ainda tentou retirar a queixa, mas havia já não sei quantas testemunhas dispostas a apresentá-la.
Tudo isto me lembra que, em Lisboa, tive que deixar de frequentar um restaurante de que muito gostava, para os lados do Limoeiro.
É que, depois de ouvir as conversas dos aspirantes a juízes, nas mesas ao lado, chegava a ter pesadelos em que ia parar ao tribunal, por uma razão qualquer, e eram eles quem me julgava.
Há dias em que o castigo me assusta mais do que o crime.
sábado, 15 de março de 2008
Racismos subliminares
Esta é para ver se o jpt me chama catanoso "semiólogo" fascista de extracção marxista (que querem vocês? às vezes, ao fim-de-semana, apetece-me um bocadinho de notoriedade, mesmo que emprestada):
Já repararam quando é a única vez em que, no Livro da Selva da Walt Disney, se ouve uma música em tom de jazz?
É quando o rei dos macacos canta que quer ser como os homens e viver em cidades.
E não é um jazz qualquer. É dixieland, com scat singing à mistura - os dois estereótipos cinematográficos, na altura, da música afro-americana.
No conjunto, uma imitação muito directa de Louis Armstrong.
Cá em casa, o DVD ainda não foi catanado, lá por causa disso. O que é que se há de fazer? Não faz parte do meu estilo e todos nós gostamos do filme.
Um abração, Flávio.
Aditamento antropo-histórico eventualmente irrelevante, no próprio 15/3: lembram-se de onde vem a palavra "catana"? É o nome japonês para a mais longa das duas espadas usadas pelos samurais.
sexta-feira, 14 de março de 2008
Filosofia na lixeira?
Não os vejo, apenas os consigo ouvir.
O changana modifica-se, quando se fala de assuntos realmente sérios. Muda o tom, a escolha das palavras, a entoação, e começa a soar singularmente parecido com o japonês das grandes tiradas retóricas dos filmes do Kurosawa - embora sem aquele arrastar enfático das vogais.
Aqui e ali, vou reconhecendo palavras solenes, de conceitos complexos que aprendi em trabalho de campo.
Será que tenho dois Sabastiões Albas às traseiras de casa?
Cahora Bassa e as cheias
É tempo de reconstrução e (esperemos, a bem das populações ribeirinhas) de reflexão.
O engenheiro José Lopes, de quem já transcrevi aqui um artigo, coloca no Xitizap uma pergunta essencial: «Quando em duas estações de chuva seguidas (2007/08) duas tragédias hídricas muito similares ocorrem no Vale do Zambeze, haverá ou não conclusões a tirar quanto à imediata reformulação da gestão hidrológica da Hidroeléctrica de Cahora Bassa?»
Conforme tive oportunidade de comentar por aqui, a resposta parece evidente, mas os interesses em jogo (sobretudo sob pressão do reembolso da dívida contraída para pagar a reversão da HCB) não justificam grandes optimismos de que ela seja sequer equacionada.
Num quase desabafo, lamento que esta questão não tenha tido suficiente visibilidade pública quando o estado português ainda era o sócio maioritário. Nessa altura, até a retórica da "insensibilidade de Portugal" para com o sofrimento das populações poderia ter sido mobilizada - e com uma certa razão, pois se "Portugal" nem sequer sabe do assunto, seria justo apontar essa insensibilidade à administração da empresa. Talvez até, nessa altura, o estado moçambicano pudesse ficar desse lado da barricada.
Agora, temo bem que uma questão e reivindicação como esta venham a suscitar, dos poderes oficiais, as correntes retóricas do anti-patriotismo, do interesse nacional e das mãos invisíveis.
Mas quem sabe? Por vezes, os períodos eleitorais fazem milagres bem desejáveis.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Ciências sociais ocupam páginas centrais do Expresso
É mentira.
Foi o Savana que, sob o título «Que podem as ciências sociais dar em prol da sociedade?», abriu esse espaço a dois cientistas sociais moçambicanos.
Um deles, de quem muito gosto pessoal e cientificamente; o outro, nem por isso. Mas esta gradação não é importante pois, como deixou por lá dito (com outras palavras) Rafael da Conceição, todos somos necessários, desde que questionemos, debatamos e não nos assumamos como estrelas que só têm para dar, aos colegas, lições.
É curioso. Tenho dificuldade em imaginar o Savana do meu país, que se chama Expresso, a suscitar a mesma questão.
E não me parece que a culpa seja só dos jornalistas.
Excertos de "Um Amor Colonial" (1)
Persigo a miúda, a miúda apanha um eléctrico, eu entro no mesmo eléctrico e a miúda cumprimenta o cobrador. Dá-lhe um beijo, um beijo de familiar. Mas é claro, eu não conhecia o sujeito de lado nenhum. Mais tarde, venho a saber que era o pai dela, o cobrador do eléctrico! Entretanto a miúda vai até o Terreiro do Paço e desce. Eu desço também.
Ela atravessa a Praça do Comércio e vai apanhar o carro eléctrico que vai para o Dafundo e a Cruz Quebrada, que partia do Terreiro do Paço. Ora, quando o eléctrico parte para uma viagem, vai vazio. Então, ela senta-se num banco, os outros bancos estavam todos vazios e eu fui-me sentar ao lado dela! A miúda ficou muito atrapalhada. Passado um bocadinho, assim que o eléctrico arranca, levanta-se e muda de lugar. E pronto, eu fiquei no mesmo sítio, mas sempre numa de perseguir. A coisa continuou, eu sempre a ver onde é que ela ficava, e quando ela chega ao Dafundo, desce. Ela desce, eu desço também.
Aí, a miúda começa-me a desviar a atenção. Mete para uma casa comercial, sai, vai para outra, e eu sempre a persegui-la sem perceber o que é que se passava. De um momento para outro, não sei como é que aquilo acontece, eu vou ver numa casa comercial onde é que está a miúda e a miúda não estava lá! E eu disse para mim: «Não! A miúda deve estar escondida, ou qualquer coisa». Bom... isto fez com que eu andasse um dia inteiro atrás dela e perdi-a de vista.»
(capítulo 4)
Excertos de "Um Amor Colonial" (2)
Resolvi ficar cá em baixo à espera. E então, quando passados aí dez minutos da miúda entrar vem uma senhora à janela olhar para vários sítios, eu pensei: «É ali que ela mora, porque é a mãe que veio ver quem é o tipo que vem atrás da miúda». Pronto, tomei nota daquilo e fui-me embora.
Entretanto, eu queria comunicar com ela, mas não sabia como. Então, comecei-lhe a escrever cartas, mas sem nome, porque eu desconhecia o nome dela. Eh pá, cartas simples, não é? A dizer que gostaria de falar com ela e tal... Mas, quando eu endereçava a carta era sempre «Menina...?» e mandava para a morada que eu conhecia. É claro, a família teve conhecimento porque a carta ia através dos correios.
(…)
Na última carta que eu lhe escrevi (porque estava cansado já da situação, isto já ia lá a caminho dos dois meses e eu sempre a persegui-la), na última carta eu disse-lhe mesmo: «Olhe, esta é a última carta que eu lhe vou escrever. Se não me der uma chance de um pequeno diálogo, pelo menos para me conhecer, ou para me mandar para qualquer lado assim menos agradável», disse-lhe eu, «é a última vez que eu venho ao Dafundo». E então eu disse-lhe que no dia tantos, às tantas horas, eu estaria no Café Lobito.»
(capítulo 4)
Excertos de "Um Amor Colonial" (3)
Eu sentava-me num café e via uma pessoa a olhar para mim. Eu saio do café, vou-me embora, sento-me noutro café, vejo o mesmo homem a olhar para mim! E é claro, eu começo a ficar um bocado «Que é isto?» Então, propositadamente, mudo para outro ponto da cidade completamente oposto e, passado um bocado de eu estar noutro sítio, vejo o mesmo indivíduo. Então, aí ganho medo!
Ganho medo, falo com um chefe meu, que era o Nascimento:
- É normal que isso aconteça porque... eu vou-te explicar: Todas as pessoas que a sua profissão é uma profissão que passa fronteiras, portanto tripulantes de navios, comboios, aviões e tal, normalmente são perseguidos pela PIDE. Porque eles podem pensar que são correios ou qualquer coisa. Então, perseguem! Isso não quer dizer que venham a fazer mal. É para ver a vida da pessoa. E, depois, largam.
Mas, é claro, depois de uma pessoa ser apanhada por eles, eu não sei o que é se passaria lá. Eu não tinha nada a ver com política, mas as pessoas sabiam o que é que eles faziam. E esse medo continuou dentro de mim. Então, eu faço um pedido ao Presidente do Conselho de Administração da TAP, para me transferir para Luanda ou para a Beira (…) como ele se recusa, eu apresento a minha demissão. E foi isto uma das coisas que deu uma volta na minha vida profissional. Porque eu fui obrigado a largar um dos melhores empregos que tive na minha vida por causa da... Não foi por causa da rapariga, mas as duas coisas juntas, foi por causa da PIDE! Senti-me perseguido, senão ainda hoje estaria lá, talvez...»
Excertos de "Um Amor Colonial" (4)
Então, quando o navio chega a Luanda, eu fui buscar a encomenda. Pedi licença ao guarda-fiscal para ir lá acima buscar a encomenda, como habitualmente fazia. Quando eu estava a falar com o guarda-fiscal, olho lá para o cimo da escada e vejo que a encomenda era ela e a mãe! Eu nem perguntei nada ao guarda-fiscal. Subi pela escada acima e fui buscar a encomenda! Peguei na miúda, vim por ali a baixo e o guarda-fiscal:
- Olhe, faz favor...
- Não, não... Deixe-me cumprimentar.
Eu não liguei a nada porque, quer dizer, eu nem estava a acreditar naquilo! A mãe e a filha estavam em Luanda, quando ela me disse que ia para o Brasil.»
Excertos de "Um Amor Colonial" (5)
E quando chego lá a casa:
- Olha: não havia cá nada, comprei isto.
- Tem piada que eu lembrei-me da mesma coisa e também comprei isto. Está ali em cima da mesa.
Já lá estava. Eu olho para aquilo, fez-me um bocado de confusão na cabeça, não é? Era uma grande coincidência, termos os dois pensado a mesma coisa. Mas pronto… A única coisa que eu fiz foi:
- Vamos cortar os dois bolos. Já que se compraram os dois bolos vamos cortar os dois bolos.
- Mas somos poucas pessoas. Somos cinco pessoas.
- Eh pá: diz aí ao senhor Zé – que era o dono da casa – para chamar os vizinhos aqui do lado, porque vêm ajudar a comer o bolo.
Juntaram-se ali mais três pessoas, que era um casal e um filhito que vieram para ali, e fizemos ali a nossa festa de Reis.
Então, quando cortámos os bolos, acontece isto: no bolo que eu comprei, o brinde que lá estava dentro era uma aliança pequenina que entrava no dedo da miúda; e no bolo que ela comprou o brinde era uma aliança maior, que entrava no meu dedo!
A mãe, quando vê as alianças em cima da mesa, começa a chorar, as lágrimas a correr pela cara abaixo. Mas não era de tristeza. Ela disse mesmo:
- Nada vos pode separar, porque o destino vos está a unir.
E depois eu, quando estou a brincar com as alianças, nervoso, a pegar naquilo e também a pensar que o destino estava metido ali, eu quando estou a brincar com as alianças, vejo que uma aliança cai em cima da outra e entra dentro da aliança justinha. Não tinha folga nenhuma! Mais um sinal que, realmente... Eh pá! Eu quando... quando a gente vê aquilo tudo, pronto, a festa mudou. Porque, realmente, depois só se falava à roda disso, em termos de futuro e «vocês têm que resolver a situação». E foi realmente a conversa, até dos vizinhos do lado. «Mas porque é que vocês não resolvem a vida? Os sinais estão aqui evidentes», não sei quê. Mas, quer dizer, continuámos a tentar resolver a situação oficialmente, legalmente.
Até que um dia, quando vimos que a coisa estava um bocado complicada, o divórcio nunca mais surgia, chegámos a um acordo. Dissemos: «Vamos ter a certeza se conseguimos viver um sem o outro. Então vamo-nos separar!» Foi de comum acordo. «Eu fico em Luanda e vocês vão para a outra costa» – nós considerávamos a “outra costa” Moçambique.»
(capítulo 5)
Excertos de "Um Amor Colonial" (6)
Mas começo a verificar que de Lourenço Marques para Luanda, as cartas começam a reduzir. Começa-me a preocupar. Começa a vir uma carta por semana, outras vezes já vinha por quinze dias, depois um mês e depois acabou! Escrevi, escrevi, escrevi e não obtive resposta.
Eu não fiquei nada satisfeito com isto. Alguma coisa se passou de muito grave. Ou o pai a descobriu, ou… Porque vinha-me sempre à ideia o pai.
Resolvi largar tudo e ir para Moçambique à procura dela.»
(capítulo 7)











