segunda-feira, 21 de abril de 2008

O trauma dos 40

Festa de 40º aniversário no Xipamanine. Na foto, a secção masculina, como dantes se dizia nas escolas primárias.
De todos nós, o aniversariante parecia ser a pessoa menos feliz com a efeméride.
Senti-me solidário. A minha própria festa dos 40 não foi assim há tanto tempo. Ainda me lembro de quanto esse número me impressionou, como se tivesse deixado parte de mim para trás, perdida por aí.
Qual "ternura dos 40"?!
É mas é o trauma dos 40!

domingo, 20 de abril de 2008

Cónego Melo kaput


Morreu, com 80 anos, o tristemente célebre Cónego Melo, da contra-revolução musculada e bombista bracarense dos tempos do PREC.

Soube aqui, e faço meu o comentário que por lá está.

Gémeos, albinos e desaparecidos - um apelo

Antes de afixar o último post da série Poder, Morte e Linchamentos (que ainda precisa de umas "limadelas"), deixem-me fazer um apelo aos leitores e bloguistas:

Estou a escrever um artigo para um livro colectivo, acerca da relação simbólica que existe em Moçambique entre os gémeos, os albinos e os presos políticos desaparecidos - no período colonial, ou depois disso.
Disponho de materiais para analisar, de terreno ou bibliográficos, que parecem ser mais do que suficientes. Mas diz-me a minha experiência que, nestas coisas, quanto mais melhor; um pequeno pormenor, numa história aparentemente inócua ou redundante, pode sempre abrir mais uma porta para interpretar de forma mais completa um determinado tema.
É por isso que apelo a que, manejando nós esta tecnologia dos blogs e internet, experimentemos uma nova forma de trabalho antropológico:

Peço a quem conheça histórias envolvendo gémeos, albinos, ou pessoas desaparecidas que foram presas pela PIDE, mandadas para o Niassa ou raptadas durante a guerra (e, sobretudo, sobre o que aconteceu aos seus corpos, sobre como eram tratadas as suas mães e sobre trovoadas que tenham acontecido), que as conte.

Não têm que ser histórias provadamente verdadeiras. Podem ser "diz-que-disse" ou "as pessoas acreditam que" pois, para o estudo de representações sociais, o seu valor é igual ao de verdades documentadas.
Seria bom que, ao fazê-lo, dessem o vosso contacto, para podermos esclarecer depois pormenores que sejam necessários. Mas peço que, se não o quiserem fornecer, indiquem pelo menos o vosso nome, mesmo que seja um pseudónimo - para poder agradecer-vos no artigo.

Afinal, as ciências sociais são sempre um produto colectivo.
Mesmo aqueles autores que se acham tão geniais que pensam nada deverem aos que os antecederam têm que reconhecer uma coisa: aquilo que sabem e as análises que fazem, por extraordinárias que sejam, têm como base o conhecimento, as interpretações e a inteligência de muitas outras pessoas - mesmo que se tenha a arrogância de chamar a essas pessoas "objectos de estudo".
Por isso me atrevo a fazer-vos este pedido.

Peço também aos bloguistas de/sobre Moçambique que divulguem este apelo, para que ele possa chegar a mais pessoas.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Poder, Morte e Linchamentos - intermezzo 3/4

No seminário que hoje ocorreu na UEM, o meu querido colega Alexandre Mate colocou aquela que será, parece-me, a pergunta fulcral quando olhamos para o actual surto de linchamentos peri-urbanos em Moçambique, que já vai em 28 casos consumados em 2008:

Nos anos posteriores à independência, quando um ladrão era detectado num bairro peri-urbano de Maputo, era perseguido, detido e espancado colectivamente. Isto era feito com intuitos claramente punitivos, mas sem qualquer intenção de matar; depois disso, a pessoa era entregue à polícia, sendo esta atitude considerada "tradicional".
Porquê e como é que se passou deste modelo de comportamento punitivo para o linchamento?

Na linha de raciocínio da minha comunicação no seminário (que aqui tenho vindo a afixar e cujo último post divulgarei em breve), sugiro duas pistas, talvez complementares, para procurarmos a resposta a esta pergunta essencial:

1. A dominação colonial, embora utilizasse extensivamente a punição corporal como pena contra actos considerados inaceitáveis e a aliasse à prisão, baniu as execuções capitais - excepto, claro, sob a forma de secreto homicídio de resistentes nacionalistas. Era esse o quadro de referências punitivas após a independência.
Os referentes militaristas (também eles ligados à história e luta do movimento de libertação nacional chegado ao poder) re-introduziram então a pena capital, incluindo sob a forma de fuzilamentos públicos - e a posterior guerra civil veio ainda reforçar isso, conforme indico no post anterior. As referências punitivas alteraram-se.

2. Os anos posteriores à independência foram marcados, sobretudo em meio urbano e peri-urbano, por um nível excepcional (e frequentemente abusivo e quase totalitário) de controle social, exercido a partir de consignas estatais/partidárias mas executado por estruturas políticas comunitárias. A isso aliava-se a sensação popular de que, concordasse-se ou não com cada uma das decisões do poder instituído, este se preocupava com a população e a ouvia.
Se é que os linchamentos correspondem, conforme sugiro, a uma afirmação e reivindicação de poder sobre a protecção e o futuro da comunidade, uma tal afirmação e reivindicação é socialmente pertinente no momento presente, mas não na altura.

Neste quadro, é claro que se pode sempre repetir que o linchamento, particularmente com pneu a arder, foi importado do Soweto, na África do Sul. Isso será factualmente correcto. Mas darmo-nos por satisfeitos com essa alegação é esquecer que só se importam (e, sobretudo, se espalham) as inovações culturais que façam sentido, face às condições sociais existentes. É necessário procurar para além das explicações que nada explicam.

Adenda a 21/4: com o linchamento de duas mulheres (caso muito raro, fora das zonas rurais) o número de linchamentos consumados este ano subiu para 30.

Adenda a 22/4: a contabilidade macabra aumentou hoje para 31.

Adenda a 29/4: 32...

Poder, Morte e Linchamentos - 3

Um linchamento não se reduz ao acto colectivo de matar, ou sequer ao aparente consenso (entre os que matam e/ou assistem) acerca da justeza e necessidade dessa morte.
Ele implica tipologias de procedimentos que, podendo variar bastante no espaço e em pouco tempo, têm algo em comum: são reconhecíveis pelos presentes (a partir de referências culturais que dominem) como indicadoras de que se está a linchar e não apenas a matar, e de que o acto que se está a executar é excepcional e não rotineiro.
Por outras palavras, o linchamento é um acto ritualizado, em que, como em qualquer ritual, a forma da acção (e do discurso) afirma e reitera o sentido daquilo que está a ser feito. Como em qualquer ritual, também, é expresso o carácter excepcional daquilo que está a acontecer e a suspensão da vida normal que aquele acto representa. Como em qualquer ritual, por fim, o linchamento é também uma performance, que permite transmitir esses sentidos e não apenas provocar a morte.

Assim sendo, penso que não será certamente irrelevante para este fenómeno o facto de existir, em Moçambique, uma familiaridade histórica com os castigos corporais (e a morte) públicos, ou mesmo, por estranho que isto soe, uma reafirmada estética performativa desses castigos e mortes.

Há muitas referências que nos permitem fazer recuar essa familiaridade e imaginário a tempos anteriores à ocupação colonial efectiva do território.
Basta pensarmos nas formas de execução pública dos invasores vaNguni de origem Zulu, no séc. XIX, que aliás levantam um perturbante paralelo com um acontecimento recente, que mereceria um estudo aprofundado: uma mulher linchada durante o recente motim de Chimoio, acusada de dar guarida aos criminosos e de ser feiticeira, foi empalada pela vagina, tal como nessas antigas execuções por adultério. Tratar-se-á de uma mera reapropriação de uma forma ultrajante de morrer, de que alguém tinha um vago conhecimento, ou será que diz algo mais acerca das razões por que essa mulher foi morta e do seu papel na comunidade, quando viva?

Também em tempos coloniais o castigo corporal, embora não a execução pública, era uma punição normal, decretada por autoridades administrativas ou mesmo por patrões.
Estão bem presentes no imaginário popular tanto as palmadoadas com a “menina-de-cinco-olhos” (com a dupla humilhação de este ser também um castigo escolar e que, portanto, infantilizava os adultos que lhe era submetidos), como o chicoteamento com chamboco – em ambos os casos predominantemente públicos, para que fossem não apenas punições, mas também formas de intimidação.

Na fase revolucionário pós-independência, a estética da morte e do castigo corporal públicos parece ter-se tornado ainda mais espectacular e ritualizada. São inúmeras as referências ao chambocamento público nos Campos de Reeducação (foto acima) ou até por parte de Grupos Dinamizadores, tendo mesmo sido integrados na legislação penal em 1983. Também se realizaram fuzilamentos públicos, com o grau de encenação e de compulsão para se assistir que estão habitualmente associados a essa prática.

Por fim, a guerra civil ficou marcada por relatos quer de fuzilamentos públicos sumários e selectivos – de autoridades administrativas, professores, enfermeiros – durante raides a zonas adversas, quer de crianças e jovens forçados a matar familiares ou vizinhos, quando não a comer pedaços deles, com o intuito de evitar que, uma vez levados pelos guerrilheiros, tivessem para onde desertar.

Não quero, ao enunciar estes sucessivos horrores, sugerir de forma alguma que a familiaridade com a morte e a punição corporal que deles resulta tenha banalizado o acto de matar e/ou torturar publicamente, ou tenha tornado irrelevante a vida humana.
Pelo contrário, proponho, é exactamente o valor atribuído à vida humana e o carácter excepcional da morte pública (e provocada pelo colectivo ou supostamente em seu nome) que permite e justifica o linchamento.
O que essa familiaridade histórica fornece é o conhecimento corrente de uma estrutura performativa de castigo e de afirmação do poder, que assim se encontra disponível para ser utilizada. Não é o matar pública e colectivamente que se banaliza, mas o conhecimento de que essa é uma forma reconhecível e culturalmente pertinente de punir, e de expressar ao mesmo tempo o carácter extraordinário e os sentidos associados a essa punição.

Que sentidos serão esses?
É adequado encarar os antecedentes históricos que referi à luz da proposta de Michel Foucault, que encara as execuções na Europa medieval como rituais públicos de dominação pelo terror, em que o objecto da pena é o corpo do condenado, mas o seu objectivo é fazer o povo testemunhar a vitória do poder instituído sobre o criminoso que o desafiou.
Mas, encarando os linchamentos como uma questão de poder, parece-me evidente que, no caso deste fenómeno, a leitura pertinente não é essa – quanto mais não seja, porque os actores são outros, com posições diferentes nas estruturas de relações de poder e os sentidos expressos pelo acto terão que o ser também.

Constituindo uma suspensão da normalidade em que as regras sociais correntes são consciente e colectivamente subvertidas, o linchamento é uma situação de liminaridade.
Ou seja, seguindo a sugestão de Victor Turner, o linchamento peri-urbano é uma subversão da ordem corrente que apresenta as condições privilegiadas para produzir nova ordem, com base na construção de novos consensos sociais.

A “nova ordem” procurada (sugiro-o e irei argumentá-lo no próximo post) é um “sair da garrafa”; é o assumir de um poder que se considera alienado e que, mais do que sobre os elementos socialmente disruptores, se pretende exercer sobre o próprio futuro colectivo.
O linchamento é, também, uma afirmação desse poder.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Edward Lorenz - 1917/2008

Faleceu o "pai" da teoria do caos.

Edward Lorenz, matemático e meteorologista, era bem menos conhecido do que a sua popular imagem acerca dos efeitos devastadores que o bater de asas de uma borboleta na China poderia ter sobre o lado oposto do globo.
É uma imagem que, tal como a expressão «cortina de ferro» inventada por Churchill, captou o imaginário de muitos milhões de indivíduos e alterou a sua visão do mundo.

Mas, a partir do seu trabalho Deterministic Nonperiodic Flow e da sua noção de caos determinístico (que tão útil pode também ser para analisar alguns fenómenos sociais), mudou a concepção que a ciência tinha da natureza, de uma forma talvez tão radical como Newton e Einstein haviam feito. Foi toda a noção de determinação (já anterior ao positivismo) que teve de ser repensada e, com ela, a forma como é encarada a causalidade material.
Uma lição que, conforme pude verificar em diversas ocasiões, ainda está por aprender em muitas comunidades científicas e disciplinares.

Poder, Morte e Linchamentos - 2


O que aqui fica escrito deverá chocar a maioria dos leitores, pois habituámo-nos a pensar o acto de matar em situação de guerra segundo a lógica de vitimação do agressor que, afinal, serve de base à noção de stress pós-traumático de guerra (SPTG).

As conversas que fui mantendo com ex-soldados portugueses das «guerras coloniais» pintam, no entanto, um quadro bem diferente. Eles referem dificuldades de adaptação à “vida normal” e dominam a retórica de vitimação do SPTG mas, depois de algumas cervejas, não é dos pesadelos, do medo de morrer ou da repugnância moral de matar que falam quando mencionam o choque do regresso (embora tenham sentido tudo isso, pelo menos nalgum momento), mas do violento contraste entre a liberdade e poder sentidos na guerra e a subalternidade e insignificância sentidas na paz.
É uma história recorrente o jovem que sai de um lugar repressor e reprimido, dá consigo num sítio onde experimenta coisas novas e tem poder de vida e morte sobre outros seres humanos, regressando a um sítio onde tudo parece igual e é esperado que se submeta a qualquer patrãozito, polícia ou notável local. Figuras de autoridade que considera insignificantes, pois não experienciaram a sua abertura de horizontes nem o seu poder de infringir as mais graves interdições sociais, sendo louvado por isso e podendo decidir quando o fazer. Relações de submissão que, pelo esvaziamento da sua anterior legitimidade e pelo seu contraste com o poder antes sentido, são agressoras e suscitam reacções agressivas, «anti-sociais».
Esta sensação agressiva de se passar, abruptamente, de um ser poderoso e determinante para outro socialmente subalterno e irrelevante radica, afinal, num dado que tendemos a procurar esquecer: que matar sob aplauso público, por muito emocionalmente violento que possa ser para o indivíduo que o faz (antes, durante e/ou depois do acto), é uma situação de poder praticamente sem paralelo na vida de quase todos os indivíduos. E que, para muitos (atrever-me-ia a dizer que para quase todos), a percepção desse poder suscita prazer, mesmo que o próprio acto de matar o não faça.

A guerra é uma situação liminar e de excepção, mas também o linchamento o é.
E também no linchamento é assumido (particularmente pelos indivíduos que nele assumem papeis mais activos, mas em última instância por todos) o poder extremo de decidir da vida ou da morte e de executar essa decisão, sendo esse acto socialmente proibido, agora, caucionado de forma aparentemente unânime pela comunidade que, no momento, parece ser a única que importa: a que é abrangida pelo acontecimento.
Por seu lado, o orgulho no acto realizado, evidente nas descrições de pessoas que até podem apressadamente alegar que não participaram nele de forma directa, justifica que (pelo menos como hipótese) se conclua o círculo de similitudes: mais do que como um «mal necessário», o linchamento parece ser vivido como uma afirmação pela positiva, como um assumir de poder – não tanto sobre a vida do suposto criminoso, mas sobretudo sobre a vida de quem o mata e da comunidade que considera sua.
Assim, ao prazer do poder em abstracto junta-se (tal como na “adivinhação”, na “previsão” e na acção “mágica” ou “técnica” sobre o futuro e a incerteza) o prazer de superar a humilhação de se ser um joguete do acaso e de forças que nos transcendem.
Em certa medida, então, podemos dizer que o linchamento constitui uma extensão das vertentes agradáveis da experiência traumática de guerra. Mas com a agravante de a consciência daquilo que está em causa nesta situação de excepção em tempo de paz ser bem mais imediata para os que nela participam do que costuma ser para os membros de uma força beligerante.

Os paralelos entre os dois fenómenos e a recente experiência de guerra em Moçambique poderiam levar-nos a perguntar: será que nas áreas onde os linchamentos ocorrem existe uma elevada concentração de veteranos de guerra?
Essa eventual correlação poderia ser estudada, confirmada ou infirmada. Mas, para complicar as coisas, nem a sua provável existência chegaria para confirmar o argumento, nem a sua inexistência o infirmaria.
De facto, se tanto a guerra como o linchamento criam o excepcional poder de matar sob aprovação social, não temos que pressupor que a experiência de guerra predisponha ao linchamento ou lhe seja necessária – a dinâmica deste último é suficiente para criar efeitos semelhantes aos da morte guerreira.
Por outro lado, matar em situação de guerra não é o único referente para a sensação de poder transmitida pela morte sob aplauso público. Existe também em Moçambique uma reafirmada estética da morte e do castigo físico públicos, que será o objecto do próximo post.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

6a feira há antropologia

Na próxima 6º feira, haverá mais um Seminário de Antropologia na UEM, onde apresentarei a comunicação «Poder, Prazer e Garrafas - pistas para a leitura do 5 de Fevereiro e dos linchamentos», dando-me o sociólogo Carlos Serra a honra e o prazer de ser o comentador.
Será das 9 às 11 horas, na sala 206 do edifício da Faculdade de Letras e Ciências Sociais, no campus universitário.

Deixo-vos em baixo o resumo. Poderão encontrar neste blog alguns textos mais desenvolvidos acerca do "povo na garrafa" e do "5 de Fevereiro". Quanto aos linchamentos, o essencial da minha proposta complementar de leitura do fenómeno irá sendo afixado hoje e amanhã, na série de posts que aqui se iniciou.

Poder, Prazer e Garrafas
pistas para a leitura do 5 de Fevereiro e dos linchamentos

A frase «o povo saiu da garrafa», depressa adoptada para designar os acontecimentos de 5 de Fevereiro de 2008 em Maputo, constitui (sob uma linguagem que manipula metaforicamente a feitiçaria) uma interpretação popular quer acerca do significado desse dia como ponto de viragem nas relações de poder, quer acerca daquilo que essas relações de poder eram e do que a população deseja que passem a ser.

Também seria pertinente ler a sucessão de linchamentos ocorridos em 2008 à luz dessa frase e metáfora, embora ela não tenha sido utilizada neste caso. Às várias pistas de leitura apontadas para a compreensão deste segundo fenómeno, sugiro que se acrescente uma outra, baseada na afirmação e performance do poder por parte da população. Parto, para tal, do poder assumido no acto de matar sob aplauso público (como em guerra), e da estética da morte e castigo físico público que encontramos em Moçambique desde tempos pré-coloniais, reemergindo no colonialismo, na revolução e na guerra civil.

terça-feira, 15 de abril de 2008

já não se fazem Finanças como antigamente!

Há poucas décadas atrás, quando alguém se sentia mal atendido num banco, perguntava se afinal estava nas Finanças.
Falar das Finanças era falar de pesadelo. De grandes esperas, gente tratando rudemente os utentes, com mais vontade de complicar do que de esclarecer e ajudar.

Hoje, estava a tentar preencher a minha declaração electrónica de IRS e vi que o meu password não entrava. Pânico! Que fazer, a partir de Maputo?
O número de telefone de apoio que eu tinha, lá de Portugal, estava desactualizado. Procurei e liguei para o serviço que, pelo nome, parecia ter mais a ver com o assunto. Atendeu uma senhora que disse que aquele problema não se tratava ali, mas ia ligar para o número correcto. Esclareceu que ia fazer uma transferência para um telefone externo, pelo que a chamada podia cair - e deu-me o número para onde iria transferir a chamada, just in case.
Olhava eu de boca aberta para a minha senhora, espantado com tanta solicitude e profissionalismo, quando me atenderam do tal número e me canalisaram de imediato para a pessoa indicada.
Pedindo desculpa por não ter acesso à password para a poder verificar, essa senhora deu-me todas as informações de que dispunha, que me permitiram detectar onde estava o problema. Mais do que isso, fê-lo primeiro comigo e depois com a minha santa sogra, pois o dinheiro do meu telefone em roaming foi-se a meio da chamada e teve que ser ela a completar a recolha de informações.
Lá pude fazer a minha declaração de IRS e não pensar mais no assunto até para o ano.

Eu já andava a desconfiar.
Também na Repartição de Finanças lá da minha zona tenho sempre sido bem atendido e nunca de lá saí com um problema por resolver, ou sem que me dissessem exactamente o que fazer para o resolver.
Já não se fazem Finanças como antigamente!

domingo, 13 de abril de 2008

Junta militar no Zimbabwe?

Diz o jornal The Zimbabwean desta semana que, desde o dia 30, o poder é ocupado no país de forma colegial, por Mugabe e pelo Estado-Maior das forças armadas e de segurança - o Joint Operations Command.
Essas altas patentes militares (apontadas como riquíssimas, corruptas e desesperadas por garantirem a continuidade do seu estatuto de excepção) teriam assumido parte dos poderes presidenciais, com base na constituição mas sem a necessária declaração de estado de emergência. O politburo da ZANU-PF teria entretanto, na sua reunião da semana passada, aceite essa situação.
Ainda de acordo com o jornal, seriam esses generais quem colocou sob apertada vigilância os membros séniores da comissão eleitoral (escolhida pela ZANU-PF) e pressionou os tribunais para não aceitarem tomar posição acerca da rápida divulgação dos resultados das eleições presidenciais.

À luz desta informação, compreendem-se melhor algumas coisas que não fariam muito sentido apenas com base na caturrice geriátrica de um tirano ex-libertador. Inclusive, a sua ausência da reunião de emergência da União Africana para tratar da situação no Zimbabwe.
Mas, confesso, não a vi em mais lado nenhum. Por isso, se alguém tem informações que confirmem ou infirmem esta, não se acanhem. A caixa de comentários está aí para isso.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Autismo em Portugal


Passado mais de um mês sobre este arrasador acontecimento, parece que, para esta senhora, nada de relevante se passou então.

Levanta-se-me a dúvida: será que ela é uma irmã desconhecida ou esquecida do senhor do post anterior?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Mugabe, o perigoso autista do Zimbabwe

SURVIVOR ZIMBABWE - brevemente na e-tv


- A tribo tomou a sua decisão! A pessoa que abandonará a ilha é... Robert Mugabe!
- Quem, eu?!
- Lamento Bob, mas a tribo falou. Foste votado para sair.
- Não fui, não.
-Lamento muito, Bob. Mas todos queremos que deixes esta ilha.
- Não querem, não.
- Bob... vê por ti próprio! Olha para os resultados da votação! Passaste à história!!
- Não passei, não.
- Estás fora, Bob! É praticamente unânime!!
- Não é, não.
-Rai's partam, Bob!! Tens que encarar a realidade!!
- Não tenho,não.

(clique na imagem para aumentar)

Mendicidade empresarial

Foi-me dada a conhecer, aqui, esta pérola do empreendorismo e espírito empresarial de que alguns portugueses são capazes, com crises ou sem elas.
Como vêem, há sempre um nicho de mercado a explorar, de forma menos amadorística do que estender a mão - que, com "plano de formação adequado", "evolução na carreira", salário-base e comissões, isto é outra loiça.

Julgam os moçambicanos que os negócios de futuro são "moer milho com as nádegas" e "escrever cartas com o nariz" (foto roubada aqui)? Desenganem-se! Com um sentido do negócio como o do primeiro exemplo é que os países vão para a frente!
Ou será que alguns já sabem?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Fernando Ganhão - 1937/2008


Foi hoje a sepultar Fernando Ganhão.

Participante na luta de libertação nacional moçambicana e seu representante no exterior durante alguns períodos, foi o primeiro reitor da Universidade Eduardo Mondlane (cuja criação liderou, com base nos poucos recursos humanos que sobraram da anterior Universidade de Lourenço Marques) e era actualmente reitor da Universidade Técnica de Moçambique.
Homem de muitos instrumentos, foi também, para além de durante vários anos parlamentar e membro do Comité Central da Frelimo, fundador e presidente do Comité Olímpico Moçambicano.

Pessoa frontal, de princípios e de convicções, defensor da autonomia universitária e do espírito crítico, isso reservou-lhe por vezes dissabores.
Mas conta a "pequena história" que os conseguiu evitar a vários outros, nos tempos em que o então Ministro da Segurança se lembrou de rescindir os contratos de professores universitários para, no mesmo dia, os mandar para os Campos de Reeducação, por serem agora desempregados e, portanto, «improdutivos».
Num dos casos, o reitor não chegou a tempo; em alguns outros, poupou à Universidade anos de cárcere e talvez a vida de docentes seus.

Para muitos (em que se inclui o taxista que me levou às cerimónias fúnebres, que leu da sua pena a primeira História de Moçambique após a independência), o seu lugar seria na Cripta dos Heróis, e não no cemitério de Languene.
É uma questão que me ultrapassa. Mas uma coisa sei:

A comunidade académica ficou mais pobre.
E Moçambique também.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Ciências sociais e downloads

Fiquei hoje a saber que uma 50ª pessoa se deu ao trabalho de fazer download de textos aqui linkados nos "Artigos XXL", que disponibilizei no 4shared há cerca de 1 mês atrás (sobre os que estão arquivados noutros sítios, como o ICS ou a Scielo, não sei).
Desses 10 artigos de que tenho números, os mais populares foram o «Tecnologia Industrial e Curandeiros: partilhando pseudo-determinismos» e o «Antropologia à porta de casa», com 12 downloads, logo seguidos do «Determinismo e Caos, segundo a adivinhação Moçambicana». Até o Posfácio analítico do futuro livro «Um Amor Colonial» encontrou 2 interessados, apesar do seu nome intimidante. Algumas pessoas levaram para o computador vários artigos.

Não sei onde essas pessoas vivem, o que fazem ou se leram os textos que descarregaram. Se forem como eu, que estou longe de ser um leitor compulsivo, lerão uns 9 em cada 10 downloads que fazem.
Por isso, mesmo se estes números estão bem distantes dos Paulos Coelhos desta vida, creio que valeram bem o esforço de meter lá os artigos.

Porque não escrevemos para ser publicados, mas para ser lidos.
E porque desconfio que a grande maioria destas pessoas nunca iria, de outra forma, ler o que tanto trabalho me deu a investigar e a escrever - quanto mais não seja, porque talvez nunca viessem a saber da sua existência.
Uma óptima razão para lhes dizer Obrigado pelo seu interesse, e para desejar que também tenham achado que valeu a pena.

Actualização a 22/4: o número de "downloadistas" aproxima-se dos 75 e as suas prioridades alteraram-se um pouco. Agora, é «Determinismo e Caos» que suscita mais interesse, seguido da «Antropologia à Porta de Casa» e da «Tecnologia Industrial e Curandeiros» (links acima). Também a «Saúde, Doença e Cura em Moçambique» se está a chegar ao pelotão da frente. Pela minha parte, confesso que gosto de acompanhar o que se está a passar.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Vitamina A e cheias maiores para o ano

É verdade que estamos é todos em pulgas para saber o que se vai passar no Zimbabwe.
Mas o telejornal de ontem (STV, em Moçambique) deixou-me tão abananado que só agora o consigo comentar.

Primeiro, ficaram os tele-espectadores a saber de uma campanha de vacinas (sic) de Vitamina A, numa zona onde as doenças derivadas da sua falta são mais frequentes que no resto do país.
Na minha infância, eram as infectas colheradas de óleo de fígado de bacalhau.
Nesta nova opção técnica, injectam-se as crianças, o que sempre lhes dá para umas semanas (ou, se a dose for demasiada, para doenças hepáticas durante o resto da vida), em vez da trabalheira de explicar ao pessoal que partes dos bichos e que plantas, mesmo bravias e endémicas, estão cheias da tal de vitamina. Ou de tentar criar condições para que as pessoas se possam dar ao "luxo" de aceder a uma alimentação que não engane apenas a fome, quando tal é possível.
Mas, realmente, uma campanha de "vacinação" com vitaminas sempre enche mais o olho.

Depois, veio o ministro que ainda não foi remodelado anunciar um aumento de 1/3 no fornecimento de energia de Cahora Bassa à Electricidade de Moçambique.
É bom, não é? E, conforme o patriótico governante anunciou, somente possível porque agora não é preciso andar a arrastar negociações com ex-potências coloniais, é só decidir.
É também um motivo de esperança para quem nunca teve luz eléctrica e um encorajador sinal de desenvolvimento do país - mesmo se a Mozal, sozinha, consome o dobro da electricidade que o resto do país, embora a re-importe da África do Sul.
A minha dúvida é só uma: estando a actual produção de Cahora Bassa contratualmente vendida, nas próximas décadas, à Àfrica do Sul (sobretudo), ao Zimbabwe, à EDM e ao Malawi, como é que se vai fazer? "Fechar a torneira" ao Zimbabwe (que agora até voltou a pagar) ou aumentar a produção?
Cheira-me que a via seguida será a segunda. Até por causa desta outra notícia, de maior fornecimento à África do Sul, que implica aumentos de produção ainda mais acentuados.

A ser assim, tendo em conta isto e isto, posso desde já anunciar aos eventuais interessados que as cheias do Zambeze serão, no ano que vem, muito piores do que as deste ano e as do anterior.
Vão já preparando os dólares, os helicópteros, as máquinas fotográficas e os caixões.

Aditamento, pouco depois: só agora reparei na data. Não, estas não são notícias de 1º da Abril. São reais e passaram ontem, 31 de Março, na televisão.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Disto não apanhei eu no Kruger Park!

Está bem. Apanhei o 5 de Fevereiro no regresso de lá, o que sempre é uma experiência histórica e fica bastante melhor no currículo do que ver leões, búfalos e crocodilos à bulha - mesmo que por fome ou por solidariedade.
Mas este video amador é a coisa mais extraordinária que vi, no meu longo namoro com imagens da natureza. Vale bem a pena esperar o tempo que leva a carregar.
E eu que só tive este elefante como frisson mais próximo do assento...

Parasitas caninos

Esta não tem nada de metáfora.

Espremi hoje 3 feridas em patas da minha cadela, de onde saíram, quais Aliens, 3 vermes esbranquiçados de cerca de centímetro e meio, gorduchos mas estreitando numa das pontas. Tudo isso saído de buraquitos que, na véspera, me pareceram inflamações de mordidas de uma aranha, ou coisa que o valha.
Fiquei muito mais impressionado e enojado do que vocês ao lerem, a bichinha ficou agradecida, mas eu acabei preocupado. Onde raio apanhou uma coisa assim? Bastará desinfectar bem as feridas, depois de expulsar monstros destes? Que perigos poderá isto trazer para a minha criança?

Por isso, muito a sério, se alguém sabe alguma coisa de parasitas sub-cutâneos que correspondam à descrição, informe-me acerca procedimentos mais adequados.
Que, dos pesadelos com eles, desconfio que ninguém me safe.


Adenda a 2/4: segundo o veterinário, os tais parasitas eram, believe it or not, larvas de mosca "king size"! Parece que é comum e que o procedimento é aquele que tomei. Muito obrigado ao anónimo que me indicou o endereço de clínicas veterinárias.

quarta-feira, 26 de março de 2008

gli Portuguesi

Prólogo 1:
Em Itália, chamam-se "portuguesi" aos borlistas, na sequência da embaixada enviada por D. Manuel I ao Papa. Os presentes oferecidos foram tão opulentos que este deu ordem para que os membros da embaixada não pagassem nada em lugar algum de Roma, sendo-lhe remetidas as contas respectivas. Criou-se, claro, uma legião de borlistas que se declaravam portugueses para comerem e beberem à conta do Papa.

Prólogo 2:
Não é que vocês tenham sentido a minha falta, mas estive uns dias fora em trabalho de campo, em sítios sem internet.
Voltei hoje à Nação (Maputo, para quem não saiba) e descobri-a transfigurada.

Bastou ir fazer um almoço tardio, num restaurante nem por isso fino, para me ver rodeado de personagens da comitiva presidencial, uns turisticando na boa (no que só revelam mimetismo e lealdade para com quem os trouxe), outros aproveitando a viagem de Estado para tratarem de negócios mais ou menos privados - "mais ou menos" porque, embora privados e situados em Moçambique, envolviam segundo a conversa lobbying junto de um governo, curiosamente o português e não o moçambicano.
Bem... também não era uma multidão, este último grupo. Apenas 3 personagens: uns muitíssimo conhecidos senhor e senhora da direita bem direita portuguesa, que partilham um duplo apelido sem que alguma vez me tenha interessado saber se são um casal, irmãos ou outra coisa, a par de um aparente amigo de juventude cascaína e potencial sócio.
É óbvio que, por essas latitudes ideológicas, o princípio é que cada um se desenrasca como pode e que a intervenção estatal é aquela coisa de que se diz sempre mal mas que serve de base para quase todos os negociozitos. A gente quase compreende e tolera. Mas confesso que o ostensivo "tu" e as ordens com a secura das que se dão aos cães que endereçavam aos empregados me foram deixando desconfortável.
Finalmente sairam. E, tão envolvidos estavam na discussão de assuntos de centenas de milhares de dólares, que se esqueceram de pagar a conta.

Epílogo:
Eu sei que escrevi, uns posts abaixo, que isso de nacionalismos e patriotismos não é o meu forte.
Mas... que raio! Tios e tias de Cascais em comitiva presidencial: comportem-se! Façam de conta que alguém vos ensinou boa educação!
É que vocês vão embora amanhã, mas eu fico aqui. E, aqui, tenho "português" escrito na testa, goste ou não goste.
Não me façam passar vergonhas por vossa causa.

post scriptum: a série de posts acerca dos linchamentos recomeçam em breve.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Poder, morte e linchamentos - 1

Fui confrontado pela primeira vez com os linchamentos de putativos ladrões através da cobertura quase integral de um deles, em pleno telejornal de um dos canais moçambicanos.

A essa impressão chocante, seguiu-se a surpresa de verificar que a larga maioria das pessoas - de diferentes camadas sociais - com quem comentava o acontecimento o encaravam com neutralidade ou simpatia, fosse porque considerassem os linchamentos dissuasores da criminalidade («como da última vez que isso aconteceu», esclareciam), fosse porque, simplesmente, consideravam que a morte era a punição mais adequada para os ladrões e para a protecção da sociedade.

Talvez numa tentativa de auto-preservação emocional, acabei por encaixar o ancontecido na vaga categoria das tentativas de purificação e catarse social, suspeitando mesmo de uma ligação entre ele e uma onda de criminalidade aparentemente atípica (onde se incluia um estranho assalto à mansão do ex-Presidente da República), que se seguiu à exoneração de figuras de topo da polícia. Mas, se essa ligação alguma vez existiu, nunca poderá explicar as mais de duas dezenas de linchamentos peri-urbanos que se vêm sucedendo em 2008. É um fenómeno que, pela sua quantidade, ritmo e banalização, nos obriga a suspeitar tratar-se de algo qualitativamente diferente - mesmo se é semelhante, na forma, aos pontuais linchamentos passados.

É normal que, perante fenómenos chocantes, queiramos encontrar A razão que lhes subjaz. Sendo ela única, poderíamos com alguma facilidade modificá-la e superar o problema. Infelizmente, pela minha parte, a experiência leva-me a desconfiar que os factores explicativos são quase sempre vários e interagindo entre si.

Carlos Serra tem acompanhado atentamente esta situação e reflectido bastante acerca dos factores que a permitam compreender; eu sou, relativamente a essa reflexão, apenas um observador interessado. Porém, relendo há dias velhas notas de conversas com ex-soldados portugueses nas guerras de libertação travadas nas então colónias, pareceu-me encontrar alguma coisa de pertinente para a compreensão dos actuais linchamentos. Que me levou a outras.

Pergunto-me hoje se será irrelevante, para a compreensão do que se passa, que o acto de matar sob aplauso público (em vez de sob reprovação) seja frequentemente sentido como um exercício de poder, excepcional na sua força e ocasião, que produz prazer e, a posteriori, saudade. Se será irrelevante o conhecimento em Moçambique de uma estética da morte e do castigo físico públicos - desde tempos pré-coloniais, bem presente nestes e também presente, ou mesmo reforçada, nos tempos revolucionários e nos da guerra civil. Se será irrelevante que estes linchamentos também pudessem corresponder (embora nada indique que sejam assim verbalizados) à metáfora do «povo que sai da garrafa».

Mais do que hipóteses, serão intuições que, a terem validade empírica, poderão constituir mais uma vertente a ter em conta na compreensão da actual vaga de linchamentos. Mas falta ver se têm ou não essa validade. Apresento-os aqui, nos próximos 3 posts, por eventualmente poderem ser de alguma utilidade para quem esteja a estudar o fenómeno. Isto porque, infelizmente, não é possível a cada um de nós pesquisar aprofundadamente todos os temas que lhe interessam e que o merecem.