sexta-feira, 25 de abril de 2008
Aquele dia em Abril
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Amigos, venham sempre mais
Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei d’aquém e além-mar
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar
A gente ajuda, havemos de ser mais eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar
Bem me diziam, bem me avisavam como era a lei
Na minha terra, quem trepa no coqueiro é o rei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar
Amigos de Moçambique
Diga amigo Miguel como está você?
Em todo o Xipamanine já ninguém o vê
Vou dar-lhe a minha viola
Para tocar outra vez
O seu valor um dia você mostrou
Todo o mainato o ouvia e até dançou
Miguel só você sabia
Tocar como já tocou
Vinha maningue gente para aprender
Moda lá da sua terra bonita a valer
O Jaime e o Etekinse
Amigos não volt'haver
Quando a noite se ouvia Miguel tocar
Também havia a marimba para acompanhar
A noite na Ponta Geia
Amigos hei-de recordar
O barco foi andando e a Nanga vi
Foi a saudade aumentando longe daí
A gente na minha terra
Não canta assim como eu ouvi
Eunucos e Mortes
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais
Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos haréns os principais
E quando os pais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais
Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dono a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais
Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam de saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais
A morte saiu à rua num dia assim
Cozinhados zimbabweanos
No Zimbabwe, torna-se cada vez mais provável que a regional "solidariedade entre libertadores" (que avilta esse merecido epíteto e esquece os libertadores que se distanciam ou opõem a esse cozinhado, de que Zuma e a COSATU são apenas os mais evidentes) permita e estimule uma "saída airosa" para Mugabe: A partilha de poder com os vencedores e a transformação de vencido em vencedor, para que possa depois sair pelo seu próprio pé, vencido ou não pela idade, o caruncho e a morte.
É esquecer que o poder no Zimbabwe não é apenas Mugabe, mas uma oligarquia politico-militar, mas adiante.
Nessa visão implícita de que poder obtido é poder vitalício (independentemente daquilo que queiram os "libertados"), o cozinhado passará quase certamente por uma segunda volta das presidenciais, depois das necessárias recontagens à porta fechada. Um segunda volta que se deverá parecer bastante com este cartoon, retirado daqui.
Não sei se é por ser 24 de Abril, mas estas visões do poder e da política soam-me a dejà vu.Substitua-se "libertadores" por "salvadores da pátria", ou juntem-se as duas, como nesta outra imagem e... Lembram-se?
28/4: Quatro dias depois, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
O mundo ouve-nos
O meu espanto pelos sítios onde chega um blog modesto como este, e pela importância que instrumentos como ele acabam por ter na divulgação de análises antropológicas e da forma de pensar das ciências sociais, foi ficando dito aqui e aqui.
Desta vez, deixo apenas um sentido obrigado aos leitores na África do Sul, Alemanha, Brasil, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos da América, França, Ghana, Grã-Bretanha, Holanda, Itália, Luxemburgo, Macau, Moçambique, Namíbia, Noruega, Portugal, Quénia, República Checa, Tailândia e Tanzânia.
27/4: um Olá! também para a Austrália.
28/4: e para a Finlândia, a Bélgica, a Espanha e Angola. Já agora: a bandeira oficial ainda é esta, ou já é a do sol? E quem vem identificado como "União Europeia"? Liga lá da Comissão?
5/5: Um abraço, também, para a Suécia, Grécia, Eslováquia, Áustria, Haiti, Venezuela e Suiça. Mais outro pra a Martinica e o Yemen (6/5). Bem-vindos, Chile e Argentina (8/5). E o Perú, Israel, Índia e Roménia (13/5). Olá, Uruguai (14/5). Bem-vindos, México, Eslovénia, Brunei, Irão e Hong Kong (18/5).
Poder, Morte e Linchamentos - 4 e final
Seria de facto estranha a sua utilização popular, pois um linchamento – por muito que possa parecer um motivo de orgulho a quem o executa – tem uma carga negativa que desaconselha que dele se vanglorie para o exterior. Não obstante, sugiro, uma utilização dessa metáfora seria pertinente.
Isto porque, bem ou mal e independentemente do nosso julgamento moral e sentimentos acerca do assunto, os linchamentos são encarados como uma tomada nas próprias mãos do poder de controlo sobre a vida e a comunidade e, simultaneamente, como uma afirmação desse poder – perante as figuras que se considera ameaçarem-no, perante a comunidade e perante as autoridades externas a ela.
Neste caso, o poder que foi ilicitamente alienado, numa situação que cria uma submissão indevida e amorfa (colocando a comunidade «na garrafa»), é a capacidade de controlo sobre a tranquilidade, a ameaça, a incerteza, o futuro. Essa ausência de controlo – a ameaça e a incerteza, afinal – é projectada sobre a figura do criminoso, real ou suposto; é ele o ‘feiticeiro’ que, na ausência de ‘contra-feiticeiros’ reconhecidos como eficazes (policiais ou judiciais), “obriga” o grupo a assumir o ‘contra-feitiço’ que quebra a sua submissão.
Independentemente da metáfora da garrafa, o linchamento é assim, na sua vertente de performance de poder, uma afirmação, para o grupo e para o exterior, de que se tem esse poder que se considera não ter. É, ao mesmo tempo, uma tentativa de reivindicar e de assumir esse poder que, mais do que sobre os indivíduos socialmente ameaçadores e disruptores, se quer exercerr sobre o futuro colectivo.
A serem correctas estas pistas de leitura, o 5 de Fevereiro e os linchamentos são fenómenos isomorfos. Justifica-se então colocar, pelo menos como hipótese, que estejam relacionados entre si, ou sejam mesmo duas expressões de um mesmo desconforto social.
Encarando os linchamentos na sua vertente de discurso, afirmação e performance de poder, o que está em causa não é apenas (e talvez nem sobretudo) a pobreza, a criminalidade e uma imagem de inoperância policial e judicial.
Todos estes aspectos são importantes, tal como é fulcral a sensação de abandono social, ou a percepção de crescentes assimetrias socio-económicas e de indiferença, por parte dos que possuem e do poder político, para com a situação da esmagadora maioria de desfavorecidos.
Mas, seguindo as pistas complementares de leitura que sugiro, os linchamentos são também (por muito que tal nos custe enquanto observadores de um fenómeno chocante) uma assunção do domínio sobre as próprias vidas, uma reclamação da cidadania e do poder de decisão – ou, no mínimo, de ser tido em conta.
terça-feira, 22 de abril de 2008
Lobisomem da semana
Esta semana, aqui, a fascinante história peri-urbana do cão assassino que afinal não era cão mas uma feiticeira, como na telenovela brasileira, e afinal era cão e não era assassino, mas mesmo assim morreu assassinado.
Interessados?
segunda-feira, 21 de abril de 2008
O trauma dos 40
De todos nós, o aniversariante parecia ser a pessoa menos feliz com a efeméride.
Senti-me solidário. A minha própria festa dos 40 não foi assim há tanto tempo. Ainda me lembro de quanto esse número me impressionou, como se tivesse deixado parte de mim para trás, perdida por aí.
Qual "ternura dos 40"?!
É mas é o trauma dos 40!
domingo, 20 de abril de 2008
Cónego Melo kaput
Gémeos, albinos e desaparecidos - um apelo
Estou a escrever um artigo para um livro colectivo, acerca da relação simbólica que existe em Moçambique entre os gémeos, os albinos e os presos políticos desaparecidos - no período colonial, ou depois disso.
Disponho de materiais para analisar, de terreno ou bibliográficos, que parecem ser mais do que suficientes. Mas diz-me a minha experiência que, nestas coisas, quanto mais melhor; um pequeno pormenor, numa história aparentemente inócua ou redundante, pode sempre abrir mais uma porta para interpretar de forma mais completa um determinado tema.
É por isso que apelo a que, manejando nós esta tecnologia dos blogs e internet, experimentemos uma nova forma de trabalho antropológico:
Peço a quem conheça histórias envolvendo gémeos, albinos, ou pessoas desaparecidas que foram presas pela PIDE, mandadas para o Niassa ou raptadas durante a guerra (e, sobretudo, sobre o que aconteceu aos seus corpos, sobre como eram tratadas as suas mães e sobre trovoadas que tenham acontecido), que as conte.
Não têm que ser histórias provadamente verdadeiras. Podem ser "diz-que-disse" ou "as pessoas acreditam que" pois, para o estudo de representações sociais, o seu valor é igual ao de verdades documentadas.
Seria bom que, ao fazê-lo, dessem o vosso contacto, para podermos esclarecer depois pormenores que sejam necessários. Mas peço que, se não o quiserem fornecer, indiquem pelo menos o vosso nome, mesmo que seja um pseudónimo - para poder agradecer-vos no artigo.
Afinal, as ciências sociais são sempre um produto colectivo.
Mesmo aqueles autores que se acham tão geniais que pensam nada deverem aos que os antecederam têm que reconhecer uma coisa: aquilo que sabem e as análises que fazem, por extraordinárias que sejam, têm como base o conhecimento, as interpretações e a inteligência de muitas outras pessoas - mesmo que se tenha a arrogância de chamar a essas pessoas "objectos de estudo".
Por isso me atrevo a fazer-vos este pedido.
Peço também aos bloguistas de/sobre Moçambique que divulguem este apelo, para que ele possa chegar a mais pessoas.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Poder, Morte e Linchamentos - intermezzo 3/4
No seminário que hoje ocorreu na UEM, o meu querido colega Alexandre Mate colocou aquela que será, parece-me, a pergunta fulcral quando olhamos para o actual surto de linchamentos peri-urbanos em Moçambique, que já vai em 28 casos consumados em 2008:
Nos anos posteriores à independência, quando um ladrão era detectado num bairro peri-urbano de Maputo, era perseguido, detido e espancado colectivamente. Isto era feito com intuitos claramente punitivos, mas sem qualquer intenção de matar; depois disso, a pessoa era entregue à polícia, sendo esta atitude considerada "tradicional".
Porquê e como é que se passou deste modelo de comportamento punitivo para o linchamento?
Na linha de raciocínio da minha comunicação no seminário (que aqui tenho vindo a afixar e cujo último post divulgarei em breve), sugiro duas pistas, talvez complementares, para procurarmos a resposta a esta pergunta essencial:
1. A dominação colonial, embora utilizasse extensivamente a punição corporal como pena contra actos considerados inaceitáveis e a aliasse à prisão, baniu as execuções capitais - excepto, claro, sob a forma de secreto homicídio de resistentes nacionalistas. Era esse o quadro de referências punitivas após a independência.
Os referentes militaristas (também eles ligados à história e luta do movimento de libertação nacional chegado ao poder) re-introduziram então a pena capital, incluindo sob a forma de fuzilamentos públicos - e a posterior guerra civil veio ainda reforçar isso, conforme indico no post anterior. As referências punitivas alteraram-se.
2. Os anos posteriores à independência foram marcados, sobretudo em meio urbano e peri-urbano, por um nível excepcional (e frequentemente abusivo e quase totalitário) de controle social, exercido a partir de consignas estatais/partidárias mas executado por estruturas políticas comunitárias. A isso aliava-se a sensação popular de que, concordasse-se ou não com cada uma das decisões do poder instituído, este se preocupava com a população e a ouvia.
Se é que os linchamentos correspondem, conforme sugiro, a uma afirmação e reivindicação de poder sobre a protecção e o futuro da comunidade, uma tal afirmação e reivindicação é socialmente pertinente no momento presente, mas não na altura.
Neste quadro, é claro que se pode sempre repetir que o linchamento, particularmente com pneu a arder, foi importado do Soweto, na África do Sul. Isso será factualmente correcto. Mas darmo-nos por satisfeitos com essa alegação é esquecer que só se importam (e, sobretudo, se espalham) as inovações culturais que façam sentido, face às condições sociais existentes. É necessário procurar para além das explicações que nada explicam.
Adenda a 21/4: com o linchamento de duas mulheres (caso muito raro, fora das zonas rurais) o número de linchamentos consumados este ano subiu para 30.
Adenda a 22/4: a contabilidade macabra aumentou hoje para 31.
Adenda a 29/4: 32...
Poder, Morte e Linchamentos - 3
Um linchamento não se reduz ao acto colectivo de matar, ou sequer ao aparente consenso (entre os que matam e/ou assistem) acerca da justeza e necessidade dessa morte.
Ele implica tipologias de procedimentos que, podendo variar bastante no espaço e em pouco tempo, têm algo em comum: são reconhecíveis pelos presentes (a partir de referências culturais que dominem) como indicadoras de que se está a linchar e não apenas a matar, e de que o acto que se está a executar é excepcional e não rotineiro.
Por outras palavras, o linchamento é um acto ritualizado, em que, como em qualquer ritual, a forma da acção (e do discurso) afirma e reitera o sentido daquilo que está a ser feito. Como em qualquer ritual, também, é expresso o carácter excepcional daquilo que está a acontecer e a suspensão da vida normal que aquele acto representa. Como em qualquer ritual, por fim, o linchamento é também uma performance, que permite transmitir esses sentidos e não apenas provocar a morte.
Assim sendo, penso que não será certamente irrelevante para este fenómeno o facto de existir, em Moçambique, uma familiaridade histórica com os castigos corporais (e a morte) públicos, ou mesmo, por estranho que isto soe, uma reafirmada estética performativa desses castigos e mortes.
Há muitas referências que nos permitem fazer recuar essa familiaridade e imaginário a tempos anteriores à ocupação colonial efectiva do território.
Basta pensarmos nas formas de execução pública dos invasores vaNguni de origem Zulu, no séc. XIX, que aliás levantam um perturbante paralelo com um acontecimento recente, que mereceria um estudo aprofundado: uma mulher linchada durante o recente motim de Chimoio, acusada de dar guarida aos criminosos e de ser feiticeira, foi empalada pela vagina, tal como nessas antigas execuções por adultério. Tratar-se-á de uma mera reapropriação de uma forma ultrajante de morrer, de que alguém tinha um vago conhecimento, ou será que diz algo mais acerca das razões por que essa mulher foi morta e do seu papel na comunidade, quando viva?
Também em tempos coloniais o castigo corporal, embora não a execução pública, era uma punição normal, decretada por autoridades administrativas ou mesmo por patrões.
Estão bem presentes no imaginário popular tanto as palmadoadas com a “menina-de-cinco-olhos” (com a dupla humilhação de este ser também um castigo escolar e que, portanto, infantilizava os adultos que lhe era submetidos), como o chicoteamento com chamboco – em ambos os casos predominantemente públicos, para que fossem não apenas punições, mas também formas de intimidação.
Na fase revolucionário pós-independência, a estética da morte e do castigo corporal públicos parece ter-se tornado ainda mais espectacular e ritualizada. São inúmeras as referências ao chambocamento público nos Campos de Reeducação (foto acima) ou até por parte de Grupos Dinamizadores, tendo mesmo sido integrados na legislação penal em 1983. Também se realizaram fuzilamentos públicos, com o grau de encenação e de compulsão para se assistir que estão habitualmente associados a essa prática.
Por fim, a guerra civil ficou marcada por relatos quer de fuzilamentos públicos sumários e selectivos – de autoridades administrativas, professores, enfermeiros – durante raides a zonas adversas, quer de crianças e jovens forçados a matar familiares ou vizinhos, quando não a comer pedaços deles, com o intuito de evitar que, uma vez levados pelos guerrilheiros, tivessem para onde desertar.
Não quero, ao enunciar estes sucessivos horrores, sugerir de forma alguma que a familiaridade com a morte e a punição corporal que deles resulta tenha banalizado o acto de matar e/ou torturar publicamente, ou tenha tornado irrelevante a vida humana.
Pelo contrário, proponho, é exactamente o valor atribuído à vida humana e o carácter excepcional da morte pública (e provocada pelo colectivo ou supostamente em seu nome) que permite e justifica o linchamento.
O que essa familiaridade histórica fornece é o conhecimento corrente de uma estrutura performativa de castigo e de afirmação do poder, que assim se encontra disponível para ser utilizada. Não é o matar pública e colectivamente que se banaliza, mas o conhecimento de que essa é uma forma reconhecível e culturalmente pertinente de punir, e de expressar ao mesmo tempo o carácter extraordinário e os sentidos associados a essa punição.
Que sentidos serão esses?
É adequado encarar os antecedentes históricos que referi à luz da proposta de Michel Foucault, que encara as execuções na Europa medieval como rituais públicos de dominação pelo terror, em que o objecto da pena é o corpo do condenado, mas o seu objectivo é fazer o povo testemunhar a vitória do poder instituído sobre o criminoso que o desafiou.
Mas, encarando os linchamentos como uma questão de poder, parece-me evidente que, no caso deste fenómeno, a leitura pertinente não é essa – quanto mais não seja, porque os actores são outros, com posições diferentes nas estruturas de relações de poder e os sentidos expressos pelo acto terão que o ser também.
Constituindo uma suspensão da normalidade em que as regras sociais correntes são consciente e colectivamente subvertidas, o linchamento é uma situação de liminaridade.
Ou seja, seguindo a sugestão de Victor Turner, o linchamento peri-urbano é uma subversão da ordem corrente que apresenta as condições privilegiadas para produzir nova ordem, com base na construção de novos consensos sociais.
A “nova ordem” procurada (sugiro-o e irei argumentá-lo no próximo post) é um “sair da garrafa”; é o assumir de um poder que se considera alienado e que, mais do que sobre os elementos socialmente disruptores, se pretende exercer sobre o próprio futuro colectivo.
O linchamento é, também, uma afirmação desse poder.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Edward Lorenz - 1917/2008
Edward Lorenz, matemático e meteorologista, era bem menos conhecido do que a sua popular imagem acerca dos efeitos devastadores que o bater de asas de uma borboleta na China poderia ter sobre o lado oposto do globo.
É uma imagem que, tal como a expressão «cortina de ferro» inventada por Churchill, captou o imaginário de muitos milhões de indivíduos e alterou a sua visão do mundo.
Mas, a partir do seu trabalho Deterministic Nonperiodic Flow e da sua noção de caos determinístico (que tão útil pode também ser para analisar alguns fenómenos sociais), mudou a concepção que a ciência tinha da natureza, de uma forma talvez tão radical como Newton e Einstein haviam feito. Foi toda a noção de determinação (já anterior ao positivismo) que teve de ser repensada e, com ela, a forma como é encarada a causalidade material.
Uma lição que, conforme pude verificar em diversas ocasiões, ainda está por aprender em muitas comunidades científicas e disciplinares.
Poder, Morte e Linchamentos - 2
As conversas que fui mantendo com ex-soldados portugueses das «guerras coloniais» pintam, no entanto, um quadro bem diferente. Eles referem dificuldades de adaptação à “vida normal” e dominam a retórica de vitimação do SPTG mas, depois de algumas cervejas, não é dos pesadelos, do medo de morrer ou da repugnância moral de matar que falam quando mencionam o choque do regresso (embora tenham sentido tudo isso, pelo menos nalgum momento), mas do violento contraste entre a liberdade e poder sentidos na guerra e a subalternidade e insignificância sentidas na paz.
É uma história recorrente o jovem que sai de um lugar repressor e reprimido, dá consigo num sítio onde experimenta coisas novas e tem poder de vida e morte sobre outros seres humanos, regressando a um sítio onde tudo parece igual e é esperado que se submeta a qualquer patrãozito, polícia ou notável local. Figuras de autoridade que considera insignificantes, pois não experienciaram a sua abertura de horizontes nem o seu poder de infringir as mais graves interdições sociais, sendo louvado por isso e podendo decidir quando o fazer. Relações de submissão que, pelo esvaziamento da sua anterior legitimidade e pelo seu contraste com o poder antes sentido, são agressoras e suscitam reacções agressivas, «anti-sociais».
Esta sensação agressiva de se passar, abruptamente, de um ser poderoso e determinante para outro socialmente subalterno e irrelevante radica, afinal, num dado que tendemos a procurar esquecer: que matar sob aplauso público, por muito emocionalmente violento que possa ser para o indivíduo que o faz (antes, durante e/ou depois do acto), é uma situação de poder praticamente sem paralelo na vida de quase todos os indivíduos. E que, para muitos (atrever-me-ia a dizer que para quase todos), a percepção desse poder suscita prazer, mesmo que o próprio acto de matar o não faça.
A guerra é uma situação liminar e de excepção, mas também o linchamento o é.
E também no linchamento é assumido (particularmente pelos indivíduos que nele assumem papeis mais activos, mas em última instância por todos) o poder extremo de decidir da vida ou da morte e de executar essa decisão, sendo esse acto socialmente proibido, agora, caucionado de forma aparentemente unânime pela comunidade que, no momento, parece ser a única que importa: a que é abrangida pelo acontecimento.
Por seu lado, o orgulho no acto realizado, evidente nas descrições de pessoas que até podem apressadamente alegar que não participaram nele de forma directa, justifica que (pelo menos como hipótese) se conclua o círculo de similitudes: mais do que como um «mal necessário», o linchamento parece ser vivido como uma afirmação pela positiva, como um assumir de poder – não tanto sobre a vida do suposto criminoso, mas sobretudo sobre a vida de quem o mata e da comunidade que considera sua.
Assim, ao prazer do poder em abstracto junta-se (tal como na “adivinhação”, na “previsão” e na acção “mágica” ou “técnica” sobre o futuro e a incerteza) o prazer de superar a humilhação de se ser um joguete do acaso e de forças que nos transcendem.
Em certa medida, então, podemos dizer que o linchamento constitui uma extensão das vertentes agradáveis da experiência traumática de guerra. Mas com a agravante de a consciência daquilo que está em causa nesta situação de excepção em tempo de paz ser bem mais imediata para os que nela participam do que costuma ser para os membros de uma força beligerante.
Os paralelos entre os dois fenómenos e a recente experiência de guerra em Moçambique poderiam levar-nos a perguntar: será que nas áreas onde os linchamentos ocorrem existe uma elevada concentração de veteranos de guerra?
Essa eventual correlação poderia ser estudada, confirmada ou infirmada. Mas, para complicar as coisas, nem a sua provável existência chegaria para confirmar o argumento, nem a sua inexistência o infirmaria.
De facto, se tanto a guerra como o linchamento criam o excepcional poder de matar sob aprovação social, não temos que pressupor que a experiência de guerra predisponha ao linchamento ou lhe seja necessária – a dinâmica deste último é suficiente para criar efeitos semelhantes aos da morte guerreira.
Por outro lado, matar em situação de guerra não é o único referente para a sensação de poder transmitida pela morte sob aplauso público. Existe também em Moçambique uma reafirmada estética da morte e do castigo físico públicos, que será o objecto do próximo post.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
6a feira há antropologia
Será das 9 às 11 horas, na sala 206 do edifício da Faculdade de Letras e Ciências Sociais, no campus universitário.
Deixo-vos em baixo o resumo. Poderão encontrar neste blog alguns textos mais desenvolvidos acerca do "povo na garrafa" e do "5 de Fevereiro". Quanto aos linchamentos, o essencial da minha proposta complementar de leitura do fenómeno irá sendo afixado hoje e amanhã, na série de posts que aqui se iniciou.
A frase «o povo saiu da garrafa», depressa adoptada para designar os acontecimentos de 5 de Fevereiro de 2008 em Maputo, constitui (sob uma linguagem que manipula metaforicamente a feitiçaria) uma interpretação popular quer acerca do significado desse dia como ponto de viragem nas relações de poder, quer acerca daquilo que essas relações de poder eram e do que a população deseja que passem a ser.
Também seria pertinente ler a sucessão de linchamentos ocorridos em 2008 à luz dessa frase e metáfora, embora ela não tenha sido utilizada neste caso. Às várias pistas de leitura apontadas para a compreensão deste segundo fenómeno, sugiro que se acrescente uma outra, baseada na afirmação e performance do poder por parte da população. Parto, para tal, do poder assumido no acto de matar sob aplauso público (como em guerra), e da estética da morte e castigo físico público que encontramos em Moçambique desde tempos pré-coloniais, reemergindo no colonialismo, na revolução e na guerra civil.
terça-feira, 15 de abril de 2008
já não se fazem Finanças como antigamente!
Falar das Finanças era falar de pesadelo. De grandes esperas, gente tratando rudemente os utentes, com mais vontade de complicar do que de esclarecer e ajudar.
Hoje, estava a tentar preencher a minha declaração electrónica de IRS e vi que o meu password não entrava. Pânico! Que fazer, a partir de Maputo?
O número de telefone de apoio que eu tinha, lá de Portugal, estava desactualizado. Procurei e liguei para o serviço que, pelo nome, parecia ter mais a ver com o assunto. Atendeu uma senhora que disse que aquele problema não se tratava ali, mas ia ligar para o número correcto. Esclareceu que ia fazer uma transferência para um telefone externo, pelo que a chamada podia cair - e deu-me o número para onde iria transferir a chamada, just in case.
Olhava eu de boca aberta para a minha senhora, espantado com tanta solicitude e profissionalismo, quando me atenderam do tal número e me canalisaram de imediato para a pessoa indicada.
Pedindo desculpa por não ter acesso à password para a poder verificar, essa senhora deu-me todas as informações de que dispunha, que me permitiram detectar onde estava o problema. Mais do que isso, fê-lo primeiro comigo e depois com a minha santa sogra, pois o dinheiro do meu telefone em roaming foi-se a meio da chamada e teve que ser ela a completar a recolha de informações.
Lá pude fazer a minha declaração de IRS e não pensar mais no assunto até para o ano.
Eu já andava a desconfiar.
Também na Repartição de Finanças lá da minha zona tenho sempre sido bem atendido e nunca de lá saí com um problema por resolver, ou sem que me dissessem exactamente o que fazer para o resolver.
Já não se fazem Finanças como antigamente!
domingo, 13 de abril de 2008
Junta militar no Zimbabwe?
Essas altas patentes militares (apontadas como riquíssimas, corruptas e desesperadas por garantirem a continuidade do seu estatuto de excepção) teriam assumido parte dos poderes presidenciais, com base na constituição mas sem a necessária declaração de estado de emergência. O politburo da ZANU-PF teria entretanto, na sua reunião da semana passada, aceite essa situação.
Ainda de acordo com o jornal, seriam esses generais quem colocou sob apertada vigilância os membros séniores da comissão eleitoral (escolhida pela ZANU-PF) e pressionou os tribunais para não aceitarem tomar posição acerca da rápida divulgação dos resultados das eleições presidenciais.
À luz desta informação, compreendem-se melhor algumas coisas que não fariam muito sentido apenas com base na caturrice geriátrica de um tirano ex-libertador. Inclusive, a sua ausência da reunião de emergência da União Africana para tratar da situação no Zimbabwe.
Mas, confesso, não a vi em mais lado nenhum. Por isso, se alguém tem informações que confirmem ou infirmem esta, não se acanhem. A caixa de comentários está aí para isso.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Autismo em Portugal
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Mugabe, o perigoso autista do Zimbabwe
- A tribo tomou a sua decisão! A pessoa que abandonará a ilha é... Robert Mugabe!
- Quem, eu?!
- Lamento Bob, mas a tribo falou. Foste votado para sair.
- Não fui, não.
-Lamento muito, Bob. Mas todos queremos que deixes esta ilha.
- Não querem, não.
- Bob... vê por ti próprio! Olha para os resultados da votação! Passaste à história!!
- Não passei, não.
- Estás fora, Bob! É praticamente unânime!!
- Não é, não.
-Rai's partam, Bob!! Tens que encarar a realidade!!
- Não tenho,não.
(clique na imagem para aumentar)
















