quarta-feira, 30 de abril de 2008
Malhar em ferro frio
O que não falta ao governo são, certamente, razões para ser censurado.
Se outras não houvesse, bastaria um primeiro-ministro que reage a essa notícia dizendo que se trata de uma "moção de censura contra o diálogo na concertação social"...
Mas, realmente, o novo Código de Trabalho (pois há alterações que transformam as coisas em algo qualitativamente diferente) merece toda a censura e toda a oposição - tal como o tinha merecido, em Janeiro, a ratificação do Tratado de Lisboa sem referendo, contra o próprio programa eleitoral do governo.
Assim como na altura dessa moção de censura do BE, parece que para o nosso primeiro a política (nas grandes questões nacionais, e não apenas para ganhar a concelhia do partido lá na santa terrinha) se resolve e reduz a umas cambalhotas hermenêuticas e a umas bojardas bombásticas em que nem sequer acreditam o próprio e os acessores que as escreveram.
Por parte dos censurantes, ainda percebo que uma questão de Estado como a ratificação do Tratado possa levar à apresentação de uma moção que se sabe, à partida, ir ser derrotada.
Não dou menos importância à precarização do emprego. Mas fazer, agora, uma moção de censura para «transportar o descontentamento, a angústia e o protesto» para o parlamento soa-me a leviandade.
Porque há muitas outras formas de fazer esse transporte.
Porque se banaliza a figura da moção de censura.
Porque um gesto simbólico votado à derrota vai ser apresentado como um grande combate político.
Porque vai ser olhado pelas pessoas, mais do que como uma luta do PCP com o PS, como um "não ficar atrás" do BE («e, vejam, não nessas mariquices das Europas, mas nos problemas concretos dos trabalhadores!»).
Porque o pessoal, ao fim e ao cabo, se está nas tintas para que o assunto seja abordado numa moção de censura para perder.
Porque se vai dar oportunidade ao nosso primeiro para dizer, enquanto nos lixa a vida, que a "democracia falou" e que a legitimidade das "alterações" saiu reforçada.
Claro que, se estivesse lá sentado, votaria a favor da moção de censura - ingloriamente, como os outros que o vão fazer.
Claro que gosto de cantar «Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais». Mas convém escolhê-las.
Claro que tenho plena consciência da importância política dos gestos simbólicos. Mas eles podem simbolizar impotência.
Ao fim e ao cabo, parecem-me demasiados "porques" para que alguém alce esta moção em bandeira. E fazê-lo levanta mais um:
Porque parece que não se sabe que raio mais fazer.
Vistas de longe, esta encenação e deixas (opositoras e primeirísticas) parecem um bocado ridículas e bastante confrangedoras.
Digam-me: vistas de Portugal perdem essas características?
Ou só quando são vistas de dentro dos aparelhos partidários?
terça-feira, 29 de abril de 2008
Não dá para acreditar! (2)
A propósito deste post e desta notícia, recebi de um leitor que se identifica como Miguel o seguinte comentário:
Decreto-Lei 62/2006:
Artigo 7º
3 - Os pequenos produtores dedicados devem comunicar à Direcção-Geral de Geologia e Energia (DGGE) e à Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo (DGAIEC), até ao final dos meses de Janeiro, Abril, Julho e Outubro, as quantidades de biocombustíveis e ou de outros combustíveis renováveis por si produzidas no trimestre anterior, bem como a identificação dos consumidores e das respectivas quantidades que lhes tenham sido entregues.
4 - O reconhecimento como pequeno produtor dedicado está sujeito a despacho conjunto do director-geral de Geologia e Energia e do director-geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo.
Artigo 14.º
1 - Constitui contra-ordenação punível com coima de (euro) 500 a (euro) 3740, no caso de pessoas singulares, e de (euro) 2500 a (euro) 44891, no caso de pessoas colectivas:
a) A violação das quotas mínimas previstas no n.º 2 do artigo 5.º;
b) A violação do disposto nos n.os 1, 3 e 4 do artigo 6.º;
c) A violação do disposto no n.º 4 do artigo 7.º e no artigo 11.º;
d) A violação do disposto no n.º 1 do artigo 9.º;
e) A violação do disposto no n.º 1 do artigo 10.º
2 - A negligência e a tentativa são puníveis.
Artigo 15.º
A instrução dos processos de contra-ordenação, instaurados no âmbito do presente decreto-lei, compete à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica e a aplicação das correspondentes coimas e sanções acessórias compete à Comissão de Aplicação de Coimas em Matéria Económica e Publicidade, sem prejuízo das competências próprias de outras entidades.»
Cumpre-me comentar o seguinte:
Eh, homem! Isso é que é militância profissional!
Diria que o senhor ainda chega a chefe da tasca, se não corresse o risco de o ter a inspeccionar-me a salubridade da cozinha lá de casa, quando voltar a Portugal.
Confesso que prefiro o novo estilo "Incorruptíveis contra a Droga" do que o mais batido "Ó Abreu dá cá o meu e fica tudo na mesma".
Mas confesso também que deve ser necessária uma personalidade e uma visão do mundo que escapam àquilo que conheço, compreendo e considero saudável, para alguém se devotar à protecção e fiscalização de regulamentações e leis absurdas (a não ser que sejam feitas para proteger os interesses de grandes empresas), só porque existem.
Desculpar-me-á, mas só consigo compreender isso à luz de mentalidades de há mais de 34 anos e 4 dias, ou à luz da consciência de quem é que se está a defender - e, neste último caso, deveriam ser pagos pelas tais empresas e não pelos meus impostos.
Quanto ao sumo da sua objecção, não me irei obviamente dar ao trabalho de pesquisar os outros artigos todos para ver a que é que se referem aqueles que envia.
Em termos legais, a primeira estranheza que se me levanta é como é que uma Junta de Freguesia pode ser considerada um "produtor dedicado" de produtos materiais.
Não sou jurista, mas sei qual é o significado jurídico dessa expressão - e, neste caso, a sua aplicação a uma instituição como essa é uma contradição de termos e um abuso grosseiro.
Acresce que o Presidente da Junta diz no artigo (e ninguém nega) que pediu várias vezes as autorizações, que certamente terão tempo limite para despacho, e estas não tiveram seguimento.
Onde foi recolhida a informação que levou à coima? Nos serviços dos Directores-Gerais que não cumpriram a sua obrigação?
Mas, desculpar-me-á, o cerne da coisa não está para mim em definições de figuras jurídicas e duplicidades de critérios, mas nas próprias regulamentações que vão sendo importadas em catadupas, aparentemente tão irrelevantes que ninguém se dá ao trabalho de as estudar, e no empenho de mostrar serviço inspeccionando o seu cumprimento à letra (ou, neste caso, contra a letra), por absurdo, impossível ou socialmente indesejável que seja.
Mantenho, por isso, as interrogações do post que comentou:
O bom senso meteu férias?
A inteligência ausentou-se para parte incerta?
E, por favor, não me diga que quem tem que inspeccionar o cumprimento legal não tem que reflectir sobre o contexto concreto que inspecciona, tem apenas que aplicar o que está escrito.
Porque isso não é uma atitude de objectividade e independência. É uma tomada de posição e uma ideologia.
Brown mushrooms
Há um petisco que nenhum apreciador de comida saborosa deverá perder na África austral.
Não sei o nome da espécie, só que são vendidos nos supermercados de Maputo, vindos da África do Sul, como "Brown Mushrooms".
Já tentei muitas formas de os cozinhar, nenhuma delas merecedora de desprezo, mas acabei por me fixar nesta:
Tiram-se os pés aos cogumelos e cortam-se aos pedaços (às metades, se foram dos mais pequenos, às fatias se foram grandes).
Metem-se numa panela com um pouco de manteiga derretida, só o suficiente para fazer uma camada no fundo, e deixam-se em lume brando, cerificando que não se pegam ao fundo no início da operação.
Quando já largaram os sucos e fervem num molho quase preto, deita-se um pouco de limão e de molho de soja. Tudo só um bocadinho, coisa ligeira, apenas para lhes realçar o sabor.
E continuam em lume brando até estarem totalmente cozinhados.
Podem ser servidos como entrada, ou junto com o prato.
Nesse caso, aconselho uma carne que se saiba tornar discreta e arroz branco ou, melhor ainda, uma maçaroca de milho cozida. Um branquinho seco e fresco cairá a matar.
PS: deu-me para este post agora porque fiz isto ao almoço e a minha senhora me lançou um olhar daqueles que juram amar-nos para sempre. Será que as mulheres se prendem pelo estômago?
Como prever tempestades africanas
1 - Consultar o termómetro e o higrómetro (que sobem) e o barómetro (que desce).
2 - Perguntar a este vosso criado se ficou subitamente com dor de cabeça e uma graaaanda preguiça.
Como saber se a tempestade é forte? Também dois métodos:
1 - Pesquisar na internet (a informação chega com atraso, mas dá).
2 - Contar o número de cabeças no meu quarto. Se são duas, é fraca. Se são quatro (incluindo uma de cão), é forte.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
O vencedor fica com tudo?
E o vencedor poderá sê-lo por eleições, por herança (colonial, libertadora ou genealógica) ou pela força.
Não é uma visão "tradicional". Há sistematicamente, na história da África sub-sahariana, mecanismos de controlo colectivo do poder, seja ele uma pequena chefatura ou um enorme Estado, aparentemente autocrático.
Essa quase inovação também não é uma fatalidade. Basta ver o funcionamento da democracia interna do ANC (África do Sul), muito mais profunda e substancial do que na maioria dos partidos "ocidentais".
Não obstante, ouvi essa ideia ser várias vezes repetida por vozes populares em Moçambique, até em relação às eleições autárquicas. «Como é que pode o filho mandar no pai?», perguntava-me por exemplo um senhor, perante a perspectiva de passar a haver municípios geridos por opositores do Presidente da República, fosse ele quem fosse.
A adesão popular a esta visão poderá ter a ver com os regimes "musculados", com a retórica da legitimidade libertadora anti-colonial e com o facto, também ele histórico, de os tais mecanismos de controlo do poder se fazerem sob uma aparência e ritualização de submissão ao chefe.
Tudo isto será muito interessante para aprofundarmos o assunto, mas confesso que me chocaram as afirmações de Morgan Tsvangirai em conferência de imprensa, suponho que hoje: «Mugabe deve compreender que não pode ser Presidente sem controlar o Parlamento.»
É verdade que a situação é difícil e os abusos, ameaças e atropelos mais que muitos. Muito mais, talvez, do que possamos imaginar.
Mas esta tentativa de convencer Mugabe (ou os concidadãos?) usando a mais mugabiana das lógicas é preocupante. Declara, afinal, a impossibilidade de coexistências e de partilhas de poderes, mesmo que todos eles legitimados pelo voto.
Está muito claro, hoje em dia, quem foram ou roubados e violentados - não só nas eleições, mas nos últimos anos.
Mas será que, chegados ao poder que legitimamente já lhes pertence, os novos vencedores vão olhar para o seu exercício desta forma?
Será que só podem conceber que o vencedor fique com tudo?
Coisas de que não me importo
O Zé Paulo, que não tenho ainda o prazer de conhecer excepto pelas visitas ao seu blog, “mimou-me” ao incluir-me na corrente do «Não me importo…»
Cá vão, então, 6 das coisas de que não me importo, junto com uma foto que me importa muito:
- Não me importo de sofrer as consequências de dizer o que penso, desde que elas recaiam apenas sobre mim.
- Não me importo que a minha filha desafie a minha suposta autoridade paternal, de preferência com um bom argumento.
- Não me importo de cantar «Solo Le Pido a Dios», mesmo sendo ateu, agnóstico ou coisa que o valha.
- Não me importo de suportar o SPM da minha senhora, pois mesmo nessa altura é com ela que eu quero viver.
- Não me importo de ir aturando umas sacanices académicas, pelo privilégio de trabalhar naquilo que mais gosto.
- Não me importo que me elogiem, desde que sejam também capazes de me criticar.
De acordo com as regras abaixo indicadas, venham mais 6 (em vez de 5): a Marta, o Miguel Portas, o Carlos Serra, a Isabela, o Segundo Remador e o Pedro Penilo.
Regras:
- Dizer 6 coisas que não se importe de fazer ou de ter.
- Colocar o link da pessoa que o "mimou".
- Colocar as regras no blog.
- Desafiar 6 pessoas, deixando um comentário nos seus blogs.
Gosto do homem, o que é que se há de fazer?
domingo, 27 de abril de 2008
Não dá para acreditar!
É verdade que este título daria para comentar algumas 27 notícias cada dia.
É verdade que sou totalmente crítico da transformação de países de terceiro-mundo (que existem, mesmo se o segundo já não) em plantadores de matéria-prima dos bio-diesels que cantam, à custa de segurança alimentar da população.
Mas se uma Junta de Freguesia monta uma estrutura de recolha e reciclagem de óleos alimentares,
alimenta com isso os carros do lixo,
e depois é multada pelo "Estado" (a que pertence) por o lesar nos impostos, devido a não comprar gasóleo, só dá para perguntar:
O bom senso meteu férias?
A inteligência ausentou-se para parte incerta?
Sinto vontade de inverter a frase final de um outro post:
Ou o mundo está a ficar parvo, ou eu estou a ficar mais novo.
Moçambique na «Análise Social»
Após a Apresentação do volume pela pena do seu editor (este vosso criado), poderão descobrir os seguintes artigos:
Paulo Granjo: Dragões, Régulos e Fábricas - espíritos e racionalidade tecnológica na indústria moçambicana
Brigitte Bagnol: Lobolo e espíritos no sul de Moçambique
Sofia Aboim: Masculinidades na Encruzilhada - hegemonia, dominação e hibridismo em Maputo
Emídio Gune: Momentos Liminares - dinâmica e significados no uso do preservativo
Jason Sumich: Construir uma Nação - ideologias de modernidade da elite moçambicana
Fernando Florêncio: Autoridades tradicionais vaNdau de Moçambique - o regresso do indirect rule ou uma espécie de neo-indirect rule?
Harry West: «Governem-se a Vocês Próprios!» - democracia e carnificina no norte de Moçambique
Albert Farré: Vínculos de Sangue e Estruturas de Papel - ritos e território na história de Quême, Inhambane
João Pereira: «Antes o “diabo” conhecido do que um “anjo” deconhecido» - as limitações do voto económico na reeleição do Partido FRELIMO
Disponibilizarei em breve os resumos dos artigos, para vos aguçar o apetite.
sábado, 26 de abril de 2008
Liberdade, coisa natural
Não me desagrada, porque isso quer dizer que, para eles, a liberdade é uma coisa natural, um dado adquirido que sempre conheceram e que, por isso, nem sequer justifica celebração.
É claro que não é assim, que a liberdade só é “natural” nas abstracções de alguma filosofia política e que nunca é um dado adquirido.
É claro que a liberdade que conhecem é resultado de milénios de lutas, expressão de um equilíbrio mutável de poderes e um bem permanentemente ameaçado.
Mas estará menos apetrechado para defender a sua liberdade (e para se aperceber quando ela é posta em causa) quem a sinta como natural?
Duvido muito. Não se aperceberão de como é fácil perdê-la; mas, mais do que quem se habituou a conhecer a sua ausência, encararão essa perda como inaceitável.
A aparente indiferença dessas pessoas mais novas é, afinal, a maior das comemorações, o mais forte hino à liberdade – e, saibam-no elas ou não, àqueles que contribuíram para que ela se tornasse normal.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Sonhos e ressacas
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta
Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta
Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta
Aquele dia em Abril
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Amigos, venham sempre mais
Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei d’aquém e além-mar
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar
A gente ajuda, havemos de ser mais eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar
Bem me diziam, bem me avisavam como era a lei
Na minha terra, quem trepa no coqueiro é o rei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar
Amigos de Moçambique
Diga amigo Miguel como está você?
Em todo o Xipamanine já ninguém o vê
Vou dar-lhe a minha viola
Para tocar outra vez
O seu valor um dia você mostrou
Todo o mainato o ouvia e até dançou
Miguel só você sabia
Tocar como já tocou
Vinha maningue gente para aprender
Moda lá da sua terra bonita a valer
O Jaime e o Etekinse
Amigos não volt'haver
Quando a noite se ouvia Miguel tocar
Também havia a marimba para acompanhar
A noite na Ponta Geia
Amigos hei-de recordar
O barco foi andando e a Nanga vi
Foi a saudade aumentando longe daí
A gente na minha terra
Não canta assim como eu ouvi
Eunucos e Mortes
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais
Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos haréns os principais
E quando os pais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais
Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dono a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais
Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam de saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais
A morte saiu à rua num dia assim
Cozinhados zimbabweanos
No Zimbabwe, torna-se cada vez mais provável que a regional "solidariedade entre libertadores" (que avilta esse merecido epíteto e esquece os libertadores que se distanciam ou opõem a esse cozinhado, de que Zuma e a COSATU são apenas os mais evidentes) permita e estimule uma "saída airosa" para Mugabe: A partilha de poder com os vencedores e a transformação de vencido em vencedor, para que possa depois sair pelo seu próprio pé, vencido ou não pela idade, o caruncho e a morte.
É esquecer que o poder no Zimbabwe não é apenas Mugabe, mas uma oligarquia politico-militar, mas adiante.
Nessa visão implícita de que poder obtido é poder vitalício (independentemente daquilo que queiram os "libertados"), o cozinhado passará quase certamente por uma segunda volta das presidenciais, depois das necessárias recontagens à porta fechada. Um segunda volta que se deverá parecer bastante com este cartoon, retirado daqui.
Não sei se é por ser 24 de Abril, mas estas visões do poder e da política soam-me a dejà vu.Substitua-se "libertadores" por "salvadores da pátria", ou juntem-se as duas, como nesta outra imagem e... Lembram-se?
28/4: Quatro dias depois, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
O mundo ouve-nos
O meu espanto pelos sítios onde chega um blog modesto como este, e pela importância que instrumentos como ele acabam por ter na divulgação de análises antropológicas e da forma de pensar das ciências sociais, foi ficando dito aqui e aqui.
Desta vez, deixo apenas um sentido obrigado aos leitores na África do Sul, Alemanha, Brasil, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos da América, França, Ghana, Grã-Bretanha, Holanda, Itália, Luxemburgo, Macau, Moçambique, Namíbia, Noruega, Portugal, Quénia, República Checa, Tailândia e Tanzânia.
27/4: um Olá! também para a Austrália.
28/4: e para a Finlândia, a Bélgica, a Espanha e Angola. Já agora: a bandeira oficial ainda é esta, ou já é a do sol? E quem vem identificado como "União Europeia"? Liga lá da Comissão?
5/5: Um abraço, também, para a Suécia, Grécia, Eslováquia, Áustria, Haiti, Venezuela e Suiça. Mais outro pra a Martinica e o Yemen (6/5). Bem-vindos, Chile e Argentina (8/5). E o Perú, Israel, Índia e Roménia (13/5). Olá, Uruguai (14/5). Bem-vindos, México, Eslovénia, Brunei, Irão e Hong Kong (18/5).
Poder, Morte e Linchamentos - 4 e final
Seria de facto estranha a sua utilização popular, pois um linchamento – por muito que possa parecer um motivo de orgulho a quem o executa – tem uma carga negativa que desaconselha que dele se vanglorie para o exterior. Não obstante, sugiro, uma utilização dessa metáfora seria pertinente.
Isto porque, bem ou mal e independentemente do nosso julgamento moral e sentimentos acerca do assunto, os linchamentos são encarados como uma tomada nas próprias mãos do poder de controlo sobre a vida e a comunidade e, simultaneamente, como uma afirmação desse poder – perante as figuras que se considera ameaçarem-no, perante a comunidade e perante as autoridades externas a ela.
Neste caso, o poder que foi ilicitamente alienado, numa situação que cria uma submissão indevida e amorfa (colocando a comunidade «na garrafa»), é a capacidade de controlo sobre a tranquilidade, a ameaça, a incerteza, o futuro. Essa ausência de controlo – a ameaça e a incerteza, afinal – é projectada sobre a figura do criminoso, real ou suposto; é ele o ‘feiticeiro’ que, na ausência de ‘contra-feiticeiros’ reconhecidos como eficazes (policiais ou judiciais), “obriga” o grupo a assumir o ‘contra-feitiço’ que quebra a sua submissão.
Independentemente da metáfora da garrafa, o linchamento é assim, na sua vertente de performance de poder, uma afirmação, para o grupo e para o exterior, de que se tem esse poder que se considera não ter. É, ao mesmo tempo, uma tentativa de reivindicar e de assumir esse poder que, mais do que sobre os indivíduos socialmente ameaçadores e disruptores, se quer exercerr sobre o futuro colectivo.
A serem correctas estas pistas de leitura, o 5 de Fevereiro e os linchamentos são fenómenos isomorfos. Justifica-se então colocar, pelo menos como hipótese, que estejam relacionados entre si, ou sejam mesmo duas expressões de um mesmo desconforto social.
Encarando os linchamentos na sua vertente de discurso, afirmação e performance de poder, o que está em causa não é apenas (e talvez nem sobretudo) a pobreza, a criminalidade e uma imagem de inoperância policial e judicial.
Todos estes aspectos são importantes, tal como é fulcral a sensação de abandono social, ou a percepção de crescentes assimetrias socio-económicas e de indiferença, por parte dos que possuem e do poder político, para com a situação da esmagadora maioria de desfavorecidos.
Mas, seguindo as pistas complementares de leitura que sugiro, os linchamentos são também (por muito que tal nos custe enquanto observadores de um fenómeno chocante) uma assunção do domínio sobre as próprias vidas, uma reclamação da cidadania e do poder de decisão – ou, no mínimo, de ser tido em conta.
terça-feira, 22 de abril de 2008
Lobisomem da semana
Esta semana, aqui, a fascinante história peri-urbana do cão assassino que afinal não era cão mas uma feiticeira, como na telenovela brasileira, e afinal era cão e não era assassino, mas mesmo assim morreu assassinado.
Interessados?

















