quarta-feira, 7 de maio de 2008

Bocas de Maio

"Sê jovem e cala-te!"

Estas foram roubadas do blog do Miguel Portas.
São "bocas" com 40 anos, pinchadas nas paredes de Paris, quando a imaginação queria chegar ao poder que "grand Charles" manteve, com o apoio das pessoas razoáveis e do exército que lá o tinha metido.
Eu tinha 4 anos. Será que o passado é mesmo outro país?

- É proibido proibir
- É doloroso aturar chefes. E mais imbecil é escolhê-los
- Todo o poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente
- Trabalhador, tens 25 anos, mas o teu sindicato é de outro século
- Professores, vocês são tão velhos quanto a vossa cultura
- A idade de ouro era a idade onde o ouro não reinava
- A obediência começa pela consciência. A consciência pela desobediência
- Agressor não é quem se revolta, mas quem reprime
- Não queremos um mundo onde a certeza de não se morrer de fome se troca pelo risco de morrer de aborrecimento
- O direito de viver não se mendiga, toma-se
- Trabalhadores de todos os países, divirtam-se!
- Não quero perder a minha vida a ganhá-la
- As reservas impostas ao prazer excitam o prazer de viver sem reservas
- A poesia está na rua
- Tomemos a revolução a sério, mas não nos levemos a sério
- Não se fica apaixonado por uma taxa de crescimento
- A imaginação ao poder
- Falta de imaginação é não saber que ela falta
- Desejar a realidade é bom; realizar desejos é melhor
- Sejamos realistas, exijamos o impossível
- Que se lixem as fronteiras
- O movimento popular não tem templo
- É preciso matar o polícia que existe dentro de cada um de nós
- Sou marxista, tendência Groucho
- Se as eleições pudessem mudar o que quer que fosse, há muito teriam sido proibidas

terça-feira, 6 de maio de 2008

Um velhote subversivo

Abdoulaye Wade, o octagenário presidente do Senegal, propôs ontem a extinção da FAO, a agência das Nações Unidas para a alimentação.

Os argumentos são fortes:
- gasta a maioria do dinheiro no seu próprio funcionamento e faz muito poucas operações eficazes no terreno;
- as suas actividades sobrepõem-se às de outras organizações, aparentemente mais eficazes;
- a política alimentar baseada no assistencialismo e caridade deve ser abandonada em favor de um política de apoio à auto-suficiência, através do investimento inovador na agricultura;
- a actual crise alimentar mundial prova o fracasso da FAO.

O último argumento levanta-me uma dúvida. Será que o atrevido cota não reparou que os governos não têm, desde há décadas, mão sobre as grandes empresas e especuladores? E que, se as Nações Unidas tivessem sequer essa veleidade, já teriam sido extintas?

Os restantes demonstram que estamos perante um perigoso subversivo.
O que é que se ia depois fazer aos excedentes alimentares subsidiados a preço de ouro nos EUA e na Europa?
E às "máquinas" de consumir recursos e desviar fundos, internacionais e locais?
E ao assistencialismo, essa actividade económica importante e em franco progresso?

É curioso que este discurso dissonante venha do país que era citado, nas décadas de 1970/80, como exemplo da monocultura de exportação que põe em causa a segurança alimentar das populações. E que seja expresso por um político idoso que pouco terá já a perder.
Parece que é preciso isso para se dizer o que é evidente.


Sobre o assitencialismo, volto a sugerir este livro.
Acerca dos cuidados a ter quando se embandeira em arco com a inovação agrícola com base em sementes milagrosas, este post.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Há sempre um imbecil desconhecido que espera por si

Já há muito sabia, pela minha experiência como estudante e como professor, que qualquer imbecil acaba por tirar uma licenciatura, desde que tenha a persistência suficiente. Tem depois direito ao título respectivo, podendo alegremente arrastar na lama o nome da profissão dos colegas.
Também há muito que existem colunistas imbecis. Pergunto-me até, por vezes, se serão resultado da boçalidade de quem os escolhe, ou de uma sua aspiração ao papel divino de equilibrar o Yan e Yin cósmicos, lá no jornal.

Mas vem-se notando uma outra tendência nos últimos tempos: a de procurar notoriedade através da graçola imbecil, maningue provocadora, mesmo que não corresponda ao que realmente se pensa e que não seja em nada necessária para o argumento (que muitas vezes não existe). Não sei até se pessoas de quem muito gosto não terão alguma responsabilidade neste moda.

Mas este parágrafo, na imagem aqui em baixo, está ao nível mental do Taxi Driver que leva a apaixonada ao cinema pornográfico para a encantar.
Com a diferença de que, aqui, não são suecos e suecas a refolegar, mas a bárbara repressão de um povo e a tortura e assassinato de um gigante, comparado com este anão. O que torna a coisa realmente obscena.
Com a diferença de que o Taxi Driver fica perplexo, enquanto este sociólogo deverá estar todo contente por ter "abanado as consciências", "feito sangue". Sangue que já correu em profusão e consciências que já foram abanadas por aquilo com que goza.

Desde que a ouvi, a frase «Não concordo com o que dizes mas lutarei para que o possas dizer» calou-me muito fundo.
Mas convém que haja algo para dizer.
Isto, é apenas um escarro. Mal escarrado, ainda por cima.

O texto todo do senhor em questão, aqui.

Blogs, opinião citável

Ao abrir o blog, reparei que um(a) parisiense tinha acedido directamente ao post anterior, vind@ de um endereço que parecia o Courrier International.
Intrigado, cliquei e fui dar com a tradução francesa do post, acompanhada pela inglesa e a alemã.

Vivemos, de facto, em tempos capazes de nos espantarem.
Um quase sigiloso bloguista português escreve, em Moçambique, um comentário irónico e preocupado à situação na Bolívia e, no dia seguinte, está traduzido para 3 línguas, por uma instituição mediática sediada em Paris!

Tratando-se, por outro lado, da mais respeitada revista da imprensa europeia, este caso inusitado vem demonstrar que a opinião já não tem que estar impressa para ser citável (e multiplicada na sua exposição pública), mesmo em apanhados de imprensa.
Talvez daqui a uns anos os blogs já não sejam nada. Hoje, parecem ter alcançado direito de cidade.

domingo, 4 de maio de 2008

Independência latifundiária

É muita chato ser um latifundiário das melhores famílias e, só porque os nossos antepassados massacraram menos indígenas do que nos países à volta, acordar um dia com um Presidente da República ameríndio.
Mais chato ainda se o gajo e o partido dele ganham eleições por maiorias absolutas, contra os hábitos civilizados e o poder do dinheiro.
Pior, se o gajo tem a mania da redistribuição mais justa da riqueza nacional.

Bute aí, então, exigir autonomias, quiçá independências. Com as costas quentes de países tutelares, necessariamente.

Quando, anos atrás, a Alemanha espicaçou a Eslovénia para a independência, deitou fogo aos balcãs e deu o pontapé de saída para a mais bárbara guerra civil ocorrida na Europa durante o último século.
Como irá ser agora, na Bolívia?

Ou será que, tal como antes no Ruanda e hoje em Darfur, a côr torna a questão menos importante?

Alguns dados, muito poucos, para compreender a situação - aqui.

sábado, 3 de maio de 2008

Parlamento português homenageia terrorista

Referi aqui, há tempos, a morte do Cónego Melo, líder terrorista português da década de 1970, que açulou e organizou incêndios a sedes de partidos de esquerda e atentados bombistas, também assumidamente responsável pela morte de um outro sacerdote ("vermelho") e da pessoa que o acompanhava no carro.
Nunca foi condenado por nenhum tribunal (como refere o CDS-PP), mas porque nunca foi levado a nenhum, visto esse tipo de actos violentos e terroristas ter sido amnistiado no final dos tempos revolucionários.

Esse escarro de gente, que décadas depois continuava a vangloriar-se das "suas opções" na televisão, foi homenageado pelo Parlamento do meu país, através da aprovação de um voto de pesar pela sua morte.

Que o CDS-PP o tivesse proposto e votado, no dia seguinte ao 1º de Maio e uma semana depois do 25 de Abril, só demonstra a concepção que a sua actual liderança tem da democracia - bem mais próxima da do seu antigo líder Adriano Moreira, ex-ministro do fascismo, do que do seu fundador Freitas do Amaral.

Que o PPD/PSD o tivesse votado, mostrará falta de espinha vertebral de alguns e, em geral, que a duplicidade de critérios (conforme o criminoso está mais próximo ou mais longe) leva, por ali, à duplicidade de valores e princípios.

Mas a coisa foi aprovada devido à abstenção do PS, porque «nunca votaria contra o pesar pela morte de alguém». Ainda bem, então, que ninguém se lembrou de propor votos de pesar pela morte do Pinochet ou do Hitler (ou, se preferirem, do Béria ou do Stalin) e esperemos que ninguém o venha a fazer se o Bin Laden for morto.

Desculpem, mas fico-me por aqui.
Sinto-me demasiado enojado (e não, obviamente, no sentido de "enlutado").

Umas horas mais tarde:

Arcebispíada

Pregais o Cristo de Braga, Fazeis a guerra na rua. Sempre virados prò céu, Sempre virados prà Virgem. A Santa Cruzada manda Matar o chibo vermelho. Contra a foice e o martelo, Contra a alfabetização. Curai de ganhar agora Os vossos novos clientes: Além do pide e do bufo, Amigos do usurário, Além do latifundiário, Amigo do Capelão. "Abre Nuncio Vade Retro! Querem vender a nação!" "A medicina é ateia, Não cuida da salvação." Que o diga o facultativo, Que o diga o cirurgião, Que o digam as criancinhas, "Rezas sim, parteiras não." Se o Pinochet concordasse, Já em Fátima haveria Mais de trinta mil vermelhos A arder de noite e de dia. Caridade, a quanto obrigas Só trinta mil voluntários! "Cristo reina, Cristo vinga", Nos vossos santos ovários. E também nos lampadários. E também nos trintanários. "Abre Nuncio, Vade Retro! Querem vender a nação!" Ó Carnaval da capela! Ó liturgia do altar! Já lá vem Camilo Torres, Com o seu fusil a sangrar. Igreja dos privilégios, Mataste o Cristo a galope. Também Franco, o assassino, Mandou benzer o garrote.

Zeca Afonso, Enquanto Há Força

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Liberdade de imprensa

Estamos num tempo que gosta de rankings. Até para os massacres americanos e aparentemente tresloucados.
Como em relação a muitas outras coisas, penso que valem o que valem (foleiro lugar-comum, mas foi o que saiu). Dependem dos critérios utilizados e da informação que existe acerca deles; por vezes, até, dependem da forma como se credibiliza ou não esta ou aquela fonte de informação.

Independentemente disso, fiquei muito satisfeito ao ler que o meu país ficou, pelo segundo ano consecutivo, em 10º lugar mundial no ranking de liberdade de imprensa dos Repórteres sem Fronteiras.
Independentemente, também, de todas as considerações que se irão seguir, é motivo de orgulho que os jornalistas não sejam objecto de censura prévia estatal nem sejam mortos, agredidos, fisicamente intimidados ou perseguidos nos tribunais por dá cá aquela palha - a não ser que, por exemplo, chamem "palhaço" a quem lhes chama "filhos da puta" e "bastardos", mas tem imunidade parlamentar.

É claro que até eu próprio, irrelevante criatura, vivi dois casos em que uma das mais importantes empresas nacionais usou o seu estatuto de grande anunciante para pressionar (através de telefonema aos directores) jornalistas que tinham publicado dados e declarações minhas. Num dos casos, o jornalista tinha de facto metido uma argolada técnica, que foi usada como desculpa; no outro nem isso.
Mas situações destas, dirão muitos, não são atentados à liberdade de imprensa, mas o saudável funcionamento dos mecanismos de mercado.

No entanto, a liberdade de imprensa não é a liberdade dos jornalistas - nem nunca o terá sido, e merece discussão se o deverá ser.
Cada orgão de imprensa é um micro-cosmos de relações de poder, que não depende apenas de pressões externas. E é também uma empresa - que, muitas vezes, não importa sequer que não dê lucro financeiro, pois dá outros lucros. E esses são os que mais importa defender, na perspectiva de quem investe e manda.

Ouvimos, então, o presidente do Sindicato dos Jornalistas lembrar que “a precaridade é um elemento de censura económica e condiciona a liberdade e independência do jornalista”.
Ou uma vogal da Entidade Reguladora da Comunicação Social dizer que “as dinâmicas de funcionamento dentro de cada redacção são, por vezes, mais pesadas do que os velhos constrangimentos sentidos até meados do século XX” e que a (auto?)regulação dos jornalistas "é o primeiro patamar da defesa da liberdade de imprensa”.

As limitações à liberdade de imprensa não se esgotam nos constrangimentos externos sobre os jornalistas, ou sequer na muito em voga (e necessária) discussão sobre as dinâmicas das agendas noticiosas.
Os jornalistas são, também, assalariados (muitas vezes quase semi-proletarizados), num quadro de relações de poder laboral que se liga a relações de poder globais, numa situação de progressiva concentração empresarial.

Como passam a vida a dizer os sindicalistas sul-africanos, justifica-se perguntar "uét abát de uékass?" (ortografia oficial: what about the workers)

Vamos discutir?

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Foi há 14 anos

Há 14 anos atrás, vinha eu do 1º de Maio com o meu amigo Miguel Cartaxo, na sua carrinha meia podre, quando ligámos o rádio, ao chegar à rotunda de Algés.
Ouvimos o impossível: a inconcebível notícia da morte de Ayrton Senna.
Olhámos um para o outro, incrédulos. Ele encostou a carrinha e ficámos para ali a ouvir o resto do noticiário, à espera de qualquer coisa que confirmasse a notícia, ou nos dissesse que tínhamos ouvido mal.
Desde essa altura, o 1º de Maio deixou de ser, para mim, apenas o Dia do Trabalhador, de celebração, desfile, reclamação e encontro de amigos.
É sempre, também, o dia em que o Ayrton morreu.

Recordem, aqui, a mais bela volta na história da Fórmula 1.
Donington, 1993, by Ayrton Senna.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Malhar em ferro frio

O PCP anunciou que vai apresentar uma moção de censura ao Governo.

O que não falta ao governo são, certamente, razões para ser censurado.
Se outras não houvesse, bastaria um primeiro-ministro que reage a essa notícia dizendo que se trata de uma "moção de censura contra o diálogo na concertação social"...

Mas, realmente, o novo Código de Trabalho (pois há alterações que transformam as coisas em algo qualitativamente diferente) merece toda a censura e toda a oposição - tal como o tinha merecido, em Janeiro, a ratificação do Tratado de Lisboa sem referendo, contra o próprio programa eleitoral do governo.
Assim como na altura dessa moção de censura do BE, parece que para o nosso primeiro a política (nas grandes questões nacionais, e não apenas para ganhar a concelhia do partido lá na santa terrinha) se resolve e reduz a umas cambalhotas hermenêuticas e a umas bojardas bombásticas em que nem sequer acreditam o próprio e os acessores que as escreveram.

Por parte dos censurantes, ainda percebo que uma questão de Estado como a ratificação do Tratado possa levar à apresentação de uma moção que se sabe, à partida, ir ser derrotada.
Não dou menos importância à precarização do emprego. Mas fazer, agora, uma moção de censura para «transportar o descontentamento, a angústia e o protesto» para o parlamento soa-me a leviandade.

Porque há muitas outras formas de fazer esse transporte.
Porque se banaliza a figura da moção de censura.
Porque um gesto simbólico votado à derrota vai ser apresentado como um grande combate político.
Porque vai ser olhado pelas pessoas, mais do que como uma luta do PCP com o PS, como um "não ficar atrás" do BE («e, vejam, não nessas mariquices das Europas, mas nos problemas concretos dos trabalhadores!»).
Porque o pessoal, ao fim e ao cabo, se está nas tintas para que o assunto seja abordado numa moção de censura para perder.
Porque se vai dar oportunidade ao nosso primeiro para dizer, enquanto nos lixa a vida, que a "democracia falou" e que a legitimidade das "alterações" saiu reforçada.

Claro que, se estivesse lá sentado, votaria a favor da moção de censura - ingloriamente, como os outros que o vão fazer.
Claro que gosto de cantar «Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais». Mas convém escolhê-las.
Claro que tenho plena consciência da importância política dos gestos simbólicos. Mas eles podem simbolizar impotência.
Ao fim e ao cabo, parecem-me demasiados "porques" para que alguém alce esta moção em bandeira. E fazê-lo levanta mais um:
Porque parece que não se sabe que raio mais fazer.

Vistas de longe, esta encenação e deixas (opositoras e primeirísticas) parecem um bocado ridículas e bastante confrangedoras.
Digam-me: vistas de Portugal perdem essas características?
Ou só quando são vistas de dentro dos aparelhos partidários?

terça-feira, 29 de abril de 2008

Não dá para acreditar! (2)


A propósito deste post e desta notícia, recebi de um leitor que se identifica como Miguel o seguinte comentário:


«Quem diz que a multa é pelo facto da junta não comprar gasóleo é o jornalista. A lei diz algo um pouco diferente:
Decreto-Lei 62/2006:
Artigo 7º
3 - Os pequenos produtores dedicados devem comunicar à Direcção-Geral de Geologia e Energia (DGGE) e à Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo (DGAIEC), até ao final dos meses de Janeiro, Abril, Julho e Outubro, as quantidades de biocombustíveis e ou de outros combustíveis renováveis por si produzidas no trimestre anterior, bem como a identificação dos consumidores e das respectivas quantidades que lhes tenham sido entregues.
4 - O reconhecimento como pequeno produtor dedicado está sujeito a despacho conjunto do director-geral de Geologia e Energia e do director-geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo.
Artigo 14.º
1 - Constitui contra-ordenação punível com coima de (euro) 500 a (euro) 3740, no caso de pessoas singulares, e de (euro) 2500 a (euro) 44891, no caso de pessoas colectivas:
a) A violação das quotas mínimas previstas no n.º 2 do artigo 5.º;
b) A violação do disposto nos n.os 1, 3 e 4 do artigo 6.º;
c) A violação do disposto no n.º 4 do artigo 7.º e no artigo 11.º;
d) A violação do disposto no n.º 1 do artigo 9.º;
e) A violação do disposto no n.º 1 do artigo 10.º
2 - A negligência e a tentativa são puníveis.
Artigo 15.º
A instrução dos processos de contra-ordenação, instaurados no âmbito do presente decreto-lei, compete à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica e a aplicação das correspondentes coimas e sanções acessórias compete à Comissão de Aplicação de Coimas em Matéria Económica e Publicidade, sem prejuízo das competências próprias de outras entidades.»

Cumpre-me comentar o seguinte:

Eh, homem! Isso é que é militância profissional!
Diria que o senhor ainda chega a chefe da tasca, se não corresse o risco de o ter a inspeccionar-me a salubridade da cozinha lá de casa, quando voltar a Portugal.

Confesso que prefiro o novo estilo "Incorruptíveis contra a Droga" do que o mais batido "Ó Abreu dá cá o meu e fica tudo na mesma".
Mas confesso também que deve ser necessária uma personalidade e uma visão do mundo que escapam àquilo que conheço, compreendo e considero saudável, para alguém se devotar à protecção e fiscalização de regulamentações e leis absurdas (a não ser que sejam feitas para proteger os interesses de grandes empresas), só porque existem.
Desculpar-me-á, mas só consigo compreender isso à luz de mentalidades de há mais de 34 anos e 4 dias, ou à luz da consciência de quem é que se está a defender - e, neste último caso, deveriam ser pagos pelas tais empresas e não pelos meus impostos.

Quanto ao sumo da sua objecção, não me irei obviamente dar ao trabalho de pesquisar os outros artigos todos para ver a que é que se referem aqueles que envia.

Em termos legais, a primeira estranheza que se me levanta é como é que uma Junta de Freguesia pode ser considerada um "produtor dedicado" de produtos materiais.
Não sou jurista, mas sei qual é o significado jurídico dessa expressão - e, neste caso, a sua aplicação a uma instituição como essa é uma contradição de termos e um abuso grosseiro.

Acresce que o Presidente da Junta diz no artigo (e ninguém nega) que pediu várias vezes as autorizações, que certamente terão tempo limite para despacho, e estas não tiveram seguimento.
Onde foi recolhida a informação que levou à coima? Nos serviços dos Directores-Gerais que não cumpriram a sua obrigação?

Mas, desculpar-me-á, o cerne da coisa não está para mim em definições de figuras jurídicas e duplicidades de critérios, mas nas próprias regulamentações que vão sendo importadas em catadupas, aparentemente tão irrelevantes que ninguém se dá ao trabalho de as estudar, e no empenho de mostrar serviço inspeccionando o seu cumprimento à letra (ou, neste caso, contra a letra), por absurdo, impossível ou socialmente indesejável que seja.

Mantenho, por isso, as interrogações do post que comentou:
O bom senso meteu férias?
A inteligência ausentou-se para parte incerta?

E, por favor, não me diga que quem tem que inspeccionar o cumprimento legal não tem que reflectir sobre o contexto concreto que inspecciona, tem apenas que aplicar o que está escrito.
Porque isso não é uma atitude de objectividade e independência. É uma tomada de posição e uma ideologia.

Brown mushrooms

Há um petisco que nenhum apreciador de comida saborosa deverá perder na África austral.
Não sei o nome da espécie, só que são vendidos nos supermercados de Maputo, vindos da África do Sul, como "Brown Mushrooms".
Já tentei muitas formas de os cozinhar, nenhuma delas merecedora de desprezo, mas acabei por me fixar nesta:

Tiram-se os pés aos cogumelos e cortam-se aos pedaços (às metades, se foram dos mais pequenos, às fatias se foram grandes).
Metem-se numa panela com um pouco de manteiga derretida, só o suficiente para fazer uma camada no fundo, e deixam-se em lume brando, cerificando que não se pegam ao fundo no início da operação.
Quando já largaram os sucos e fervem num molho quase preto, deita-se um pouco de limão e de molho de soja. Tudo só um bocadinho, coisa ligeira, apenas para lhes realçar o sabor.
E continuam em lume brando até estarem totalmente cozinhados.

Podem ser servidos como entrada, ou junto com o prato.
Nesse caso, aconselho uma carne que se saiba tornar discreta e arroz branco ou, melhor ainda, uma maçaroca de milho cozida. Um branquinho seco e fresco cairá a matar.

PS: deu-me para este post agora porque fiz isto ao almoço e a minha senhora me lançou um olhar daqueles que juram amar-nos para sempre. Será que as mulheres se prendem pelo estômago?

Como prever tempestades africanas

Como prever uma tempestade africana iminente? Dois métodos infalíveis:

1 - Consultar o termómetro e o higrómetro (que sobem) e o barómetro (que desce).
2 - Perguntar a este vosso criado se ficou subitamente com dor de cabeça e uma graaaanda preguiça.

Como saber se a tempestade é forte? Também dois métodos:

1 - Pesquisar na internet (a informação chega com atraso, mas dá).
2 - Contar o número de cabeças no meu quarto. Se são duas, é fraca. Se são quatro (incluindo uma de cão), é forte.

(foto roubada aqui)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O vencedor fica com tudo?

Há quem defenda que os imbróglios na aplicação em África de modelos universalizantes de democracia não têm sobretudo a ver com tribalismos, com hábitos históricos de submissão ou com particularismos culturais, mas com uma visão predominandte do que é o poder: o vencedor fica com tudo.
E o vencedor poderá sê-lo por eleições, por herança (colonial, libertadora ou genealógica) ou pela força.

Não é uma visão "tradicional". Há sistematicamente, na história da África sub-sahariana, mecanismos de controlo colectivo do poder, seja ele uma pequena chefatura ou um enorme Estado, aparentemente autocrático.
Essa quase inovação também não é uma fatalidade. Basta ver o funcionamento da democracia interna do ANC (África do Sul), muito mais profunda e substancial do que na maioria dos partidos "ocidentais".

Não obstante, ouvi essa ideia ser várias vezes repetida por vozes populares em Moçambique, até em relação às eleições autárquicas. «Como é que pode o filho mandar no pai?», perguntava-me por exemplo um senhor, perante a perspectiva de passar a haver municípios geridos por opositores do Presidente da República, fosse ele quem fosse.
A adesão popular a esta visão poderá ter a ver com os regimes "musculados", com a retórica da legitimidade libertadora anti-colonial e com o facto, também ele histórico, de os tais mecanismos de controlo do poder se fazerem sob uma aparência e ritualização de submissão ao chefe.

Tudo isto será muito interessante para aprofundarmos o assunto, mas confesso que me chocaram as afirmações de Morgan Tsvangirai em conferência de imprensa, suponho que hoje: «Mugabe deve compreender que não pode ser Presidente sem controlar o Parlamento.»
É verdade que a situação é difícil e os abusos, ameaças e atropelos mais que muitos. Muito mais, talvez, do que possamos imaginar.
Mas esta tentativa de convencer Mugabe (ou os concidadãos?) usando a mais mugabiana das lógicas é preocupante. Declara, afinal, a impossibilidade de coexistências e de partilhas de poderes, mesmo que todos eles legitimados pelo voto.

Está muito claro, hoje em dia, quem foram ou roubados e violentados - não só nas eleições, mas nos últimos anos.
Mas será que, chegados ao poder que legitimamente já lhes pertence, os novos vencedores vão olhar para o seu exercício desta forma?
Será que só podem conceber que o vencedor fique com tudo?

Diplomacia silenciosa - the output

(clique para aumentar)

Coisas de que não me importo

O Zé Paulo, que não tenho ainda o prazer de conhecer excepto pelas visitas ao seu blog, “mimou-me” ao incluir-me na corrente do «Não me importo…»

Cá vão, então, 6 das coisas de que não me importo, junto com uma foto que me importa muito:

- Não me importo de sofrer as consequências de dizer o que penso, desde que elas recaiam apenas sobre mim.
- Não me importo que a minha filha desafie a minha suposta autoridade paternal, de preferência com um bom argumento.
- Não me importo de cantar «Solo Le Pido a Dios», mesmo sendo ateu, agnóstico ou coisa que o valha.
- Não me importo de suportar o SPM da minha senhora, pois mesmo nessa altura é com ela que eu quero viver.
- Não me importo de ir aturando umas sacanices académicas, pelo privilégio de trabalhar naquilo que mais gosto.
- Não me importo que me elogiem, desde que sejam também capazes de me criticar.

De acordo com as regras abaixo indicadas, venham mais 6 (em vez de 5): a Marta, o Miguel Portas, o Carlos Serra, a Isabela, o Segundo Remador e o Pedro Penilo.


Regras:
- Dizer 6 coisas que não se importe de fazer ou de ter.
- Colocar o link da pessoa que o "mimou".
- Colocar as regras no blog.
- Desafiar 6 pessoas, deixando um comentário nos seus blogs.

Gosto do homem, o que é que se há de fazer?


Temo que alguns visitantes regulares se zanguem comigo, mas é verdade: gosto do Pedro Passos Coelho e fico satisfeito por ele estar a recolher apoios.
A coisa começou na minha juventude serôdia, quando presidia a um proto-sindicato de soldados de que quase ninguém se deve lembrar - a CASMO.
À conta disso, ia contactando com os líderes das juventudes partidárias (também eles rapazes para a minha idade) que, à excepção do da JCP, se tornaram conhecidos. Eram, na altura, o Tózé Seguro, o Monteiro e o Pedro Passos Coelho.

Acerca dos dois primeiros, permitam-me que guarde para mim próprio a minha opinião e impressões.
Mas o Pedro Passos Coelho destacava-se claramente do lote, pela inteligência, a lucidez, um intrínseco espírito democrático e respeito pela cidadania, e por subordinar as partidarices aos princípios, tanto quanto podia.

Só o voltei a ver, via TV, num daqueles congressos do PSD que antecederam, como espectáculo, as transmissões de wrestling. Peguntavam-lhe acerca da hipótese de o Pedro Santana Lopes virar presidente lá do clube deles e a sua resposta ficou-me no ouvido: «Isso seria a catástrofe completa!»
Também o vi a cantar ópera, mas enfim, nem todos podem gostar de Jazz...

Um velho amigo meu dizia, do alto dos seus cabelos brancos, que a idade acanalha os homens. Talvez. E não posso saber se o Pedro Passos Coelho de hoje é aquele que conheci.
Mas lá que me sentiria mais seguro, enquanto cidadão que mais tarde ou mais cedo lhes sofrerá a acção, se os líderes dos partidos da "alternância" tivessem as características que conheci a este homem, lá isso é verdade.

Pela minha parte, nunca irei votar no PSD, com Pedro Passos Coelho ou sem ele. Para isso, tenho gente politicamente mais próxima de mim, mesmo que não me despertem a simpatia que sinto por ele.
Mas o nosso primeiro que se cuide. Centro-esquerda por centro-esquerda, o pessoal do "centrão" acabará por preferir the real thing.

domingo, 27 de abril de 2008

Não dá para acreditar!

Ok.
É verdade que este título daria para comentar algumas 27 notícias cada dia.
É verdade que sou totalmente crítico da transformação de países de terceiro-mundo (que existem, mesmo se o segundo já não) em plantadores de matéria-prima dos bio-diesels que cantam, à custa de segurança alimentar da população.

Mas se uma Junta de Freguesia monta uma estrutura de recolha e reciclagem de óleos alimentares,
alimenta com isso os carros do lixo,
e depois é multada pelo "Estado" (a que pertence) por o lesar nos impostos, devido a não comprar gasóleo, só dá para perguntar:

O bom senso meteu férias?
A inteligência ausentou-se para parte incerta?

Sinto vontade de inverter a frase final de um outro post:
Ou o mundo está a ficar parvo, ou eu estou a ficar mais novo.

Moçambique na «Análise Social»

O próximo número da Análise Social, a mais antiga revista portuguesa de ciências sociais, será um temático dedicado a Moçambique Actual - Continuidades e Mudanças.
Após a Apresentação do volume pela pena do seu editor (este vosso criado), poderão descobrir os seguintes artigos:

Paulo Granjo: Dragões, Régulos e Fábricas - espíritos e racionalidade tecnológica na indústria moçambicana
Brigitte Bagnol: Lobolo e espíritos no sul de Moçambique
Sofia Aboim: Masculinidades na Encruzilhada - hegemonia, dominação e hibridismo em Maputo
Emídio Gune: Momentos Liminares - dinâmica e significados no uso do preservativo
Jason Sumich: Construir uma Nação - ideologias de modernidade da elite moçambicana
Fernando Florêncio: Autoridades tradicionais vaNdau de Moçambique - o regresso do indirect rule ou uma espécie de neo-indirect rule?
Harry West: «Governem-se a Vocês Próprios!» - democracia e carnificina no norte de Moçambique
Albert Farré: Vínculos de Sangue e Estruturas de Papel - ritos e território na história de Quême, Inhambane
João Pereira: «Antes o “diabo” conhecido do que um “anjo” deconhecido» - as limitações do voto económico na reeleição do Partido FRELIMO

Disponibilizarei em breve os resumos dos artigos, para vos aguçar o apetite.

sábado, 26 de abril de 2008

Liberdade, coisa natural

Ao contrário da maioria dos democratas da minha geração, não me desagrada que o pessoal 20 ou 30 anos mais novo se esteja nas tintas para as comemorações do 25 de Abril.
Não me desagrada, porque isso quer dizer que, para eles, a liberdade é uma coisa natural, um dado adquirido que sempre conheceram e que, por isso, nem sequer justifica celebração.

É claro que não é assim, que a liberdade só é “natural” nas abstracções de alguma filosofia política e que nunca é um dado adquirido.
É claro que a liberdade que conhecem é resultado de milénios de lutas, expressão de um equilíbrio mutável de poderes e um bem permanentemente ameaçado.

Mas estará menos apetrechado para defender a sua liberdade (e para se aperceber quando ela é posta em causa) quem a sinta como natural?
Duvido muito. Não se aperceberão de como é fácil perdê-la; mas, mais do que quem se habituou a conhecer a sua ausência, encararão essa perda como inaceitável.

A aparente indiferença dessas pessoas mais novas é, afinal, a maior das comemorações, o mais forte hino à liberdade – e, saibam-no elas ou não, àqueles que contribuíram para que ela se tornasse normal.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sonhos e ressacas


Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta




Tinha uma sala mal iluminada
Perguntavas pelo amigo e estava a monte
A fuga era a última cartada
A pide estava ali mesmo defronte

Às vezes uma dúvida rondava
Valia ou não a pena o que fazias?
Se alguém caía um outro alevantava
O tronco que tombava e renascias

A velha história ainda mal começa
Agora está voltando ao que era dantes
Mas se há um camarada à tua espera
Não faltes ao encontro sê constante

Há sempre quem se prante à tua mesa
Armado em conselheiro ou penitente
A luta agora está de novo acesa
E o caminho é só um é sempre em frente

Perdeste a treino falta-te a paciência
Ouviste antes do tempo mil fanfarras
Já os soldados fazem continência
Ao som do choradinho e das guitarras

A velha história ainda mal começa
Agora esta voltando ao que era dantes
Mas se há um camarada à tua espera
Não faltes ao encontro sê constante