Não "fica na história" quem está obcecado com isso, mas quem age para a mudar - mesmo que isso signifique tentar impedir que ela mude.
Na história da ciência, contudo, o espaço destes últimos costumam ser as páginas de anedotário.
Blog de Paulo Granjo
Não "fica na história" quem está obcecado com isso, mas quem age para a mudar - mesmo que isso signifique tentar impedir que ela mude.
Na história da ciência, contudo, o espaço destes últimos costumam ser as páginas de anedotário.
O Dia da Europa foi hoje comemorado através da promulgação do Tratado de Lisboa por Cavaco Silva.
Ou seja, foi comemorado pelo que tem de pior, ratificado da pior maneira possível, com os eurocratas a falarem grosso que não colocam a hipótese de um Plano B, caso o referendo na Irlanda dê «Não».
Também me parece que o que faz realmente falta é um "Plano C"...
Fiquei a sentir-me vaga e abstractamente federalista quando Bush Jr foi reeleito com mais votos, apesar de os votantes norte-americanos já saberem, então, que as razões para a invasão do Iraque tinham sido um embuste e que a tortura de prisioneiros se tinha tornado trivial.
Ficou então claro que princípios civilizacionais e humanitários básicos, que dávamos por adquiridos, podiam ser facilmente descartados pela mais poderosa potência mundial, sob aplauso da maioria da sua população.
Face a essa barbarização assente nos terrores securitários, o único contrapeso civilizacional e político que consigo descortinar como plausível seria a Europa.
Uma Europa com muito maior unidade e relevância na cena internacional, por outros meios que não a política da canhoeira.
Uma Europa de princípios, de liberdade, de diversidade e de democracia - começando pela democratização das estruturas políticas a nível europeu, com poder efectivo dos eleitos e o progressivo esvaziamento dos burocratas e dos indirectos representantes nacionais.
Uma Europa que assumisse a justiça social e os direitos dos cidadãos como seus valores inalienáveis.
Uma Europa que, já agora, não fechasse as suas fronteiras como uma fortaleza cercada.
E que aproveitasse para lançar a construção de um sistema de segurança colectivo abrangendo todo o Mediterrâneo, tornando obsoletos os restos da lógica de blocos militares que continua a reger o mundo.
Coisa bem diferente daquilo a que assistimos, em muitos aspectos quase inversa.
Mas coisa necessária.
Vamos discutir o porquê e o como?
Pronto, menti no post anterior. Não resisti a esta:
Entusiasmados pelo voto de pesar do parlamento, agora há quem queira erguer uma estátua ao Cónego Melo .
Deixo aqui a minha proposta:
O post "Independência latifundiária", acerca do referendo separatista na região mais rica da Bolívia, foi por mim linkado no site do jornal Público.
No dia seguinte, suponho que a partir daí, foi transcrito por um site de imprensa internacional, de onde seguiu para outro e para um site político. Como acontece com todos, tinha também sido afixado no Ma-blog.
Em 3 dias, recebeu 117 visitas directas, oriundas de 15 países (ontem, eram 102, de 13 países). A maioria, parece-me, de pessoas que nem sequer falam português, mas procuraram mais informação.
O assunto abordado no post parece, assim, ser merecedor de algum interesse.
Não obstante, só 4 visitas vieram através do Público e poucas mais de Portugal.
Face a estes números, decidi ontem fazer uma experiência antropo-sociológica: linkei no Público o post "Pecados pesados", relativo a um atropelamento de peregrinos a caminho de Fátima, mas com um título que sugere umas graçolas irreverentes acerca do assunto.
1 dia depois, esse post recebeu (curiosamente) também 117 visitas directas. Delas, 114 vieram através do Público.
Deixo os comentários a vosso cargo. Eu, fico-me por aqui a ouvir que "Cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas".
O texto todo do senhor em questão, aqui.
Ao abrir o blog, reparei que um(a) parisiense tinha acedido directamente ao post anterior, vind@ de um endereço que parecia o Courrier International.
Intrigado, cliquei e fui dar com a tradução francesa do post, acompanhada pela inglesa e a alemã.
Vivemos, de facto, em tempos capazes de nos espantarem.
Um quase sigiloso bloguista português escreve, em Moçambique, um comentário irónico e preocupado à situação na Bolívia e, no dia seguinte, está traduzido para 3 línguas, por uma instituição mediática sediada em Paris!
Tratando-se, por outro lado, da mais respeitada revista da imprensa europeia, este caso inusitado vem demonstrar que a opinião já não tem que estar impressa para ser citável (e multiplicada na sua exposição pública), mesmo em apanhados de imprensa.
Talvez daqui a uns anos os blogs já não sejam nada. Hoje, parecem ter alcançado direito de cidade.
É muita chato ser um latifundiário das melhores famílias e, só porque os nossos antepassados massacraram menos indígenas do que nos países à volta, acordar um dia com um Presidente da República ameríndio.
Mais chato ainda se o gajo e o partido dele ganham eleições por maiorias absolutas, contra os hábitos civilizados e o poder do dinheiro.
Pior, se o gajo tem a mania da redistribuição mais justa da riqueza nacional.
Bute aí, então, exigir autonomias, quiçá independências. Com as costas quentes de países tutelares, necessariamente.
Quando, anos atrás, a Alemanha espicaçou a Eslovénia para a independência, deitou fogo aos balcãs e deu o pontapé de saída para a mais bárbara guerra civil ocorrida na Europa durante o último século.
Como irá ser agora, na Bolívia?
Ou será que, tal como antes no Ruanda e hoje em Darfur, a côr torna a questão menos importante?
Alguns dados, muito poucos, para compreender a situação - aqui.
Referi aqui, há tempos, a morte do Cónego Melo, líder terrorista português da década de 1970, que açulou e organizou incêndios a sedes de partidos de esquerda e atentados bombistas, também assumidamente responsável pela morte de um outro sacerdote ("vermelho") e da pessoa que o acompanhava no carro.
Nunca foi condenado por nenhum tribunal (como refere o CDS-PP), mas porque nunca foi levado a nenhum, visto esse tipo de actos violentos e terroristas ter sido amnistiado no final dos tempos revolucionários.
Esse escarro de gente, que décadas depois continuava a vangloriar-se das "suas opções" na televisão, foi homenageado pelo Parlamento do meu país, através da aprovação de um voto de pesar pela sua morte.
Que o CDS-PP o tivesse proposto e votado, no dia seguinte ao 1º de Maio e uma semana depois do 25 de Abril, só demonstra a concepção que a sua actual liderança tem da democracia - bem mais próxima da do seu antigo líder Adriano Moreira, ex-ministro do fascismo, do que do seu fundador Freitas do Amaral.
Que o PPD/PSD o tivesse votado, mostrará falta de espinha vertebral de alguns e, em geral, que a duplicidade de critérios (conforme o criminoso está mais próximo ou mais longe) leva, por ali, à duplicidade de valores e princípios.
Mas a coisa foi aprovada devido à abstenção do PS, porque «nunca votaria contra o pesar pela morte de alguém». Ainda bem, então, que ninguém se lembrou de propor votos de pesar pela morte do Pinochet ou do Hitler (ou, se preferirem, do Béria ou do Stalin) e esperemos que ninguém o venha a fazer se o Bin Laden for morto.
Desculpem, mas fico-me por aqui.
Sinto-me demasiado enojado (e não, obviamente, no sentido de "enlutado").
Umas horas mais tarde:
Pregais o Cristo de Braga, Fazeis a guerra na rua. Sempre virados prò céu, Sempre virados prà Virgem. A Santa Cruzada manda Matar o chibo vermelho. Contra a foice e o martelo, Contra a alfabetização. Curai de ganhar agora Os vossos novos clientes: Além do pide e do bufo, Amigos do usurário, Além do latifundiário, Amigo do Capelão. "Abre Nuncio Vade Retro! Querem vender a nação!" "A medicina é ateia, Não cuida da salvação." Que o diga o facultativo, Que o diga o cirurgião, Que o digam as criancinhas, "Rezas sim, parteiras não." Se o Pinochet concordasse, Já em Fátima haveria Mais de trinta mil vermelhos A arder de noite e de dia. Caridade, a quanto obrigas Só trinta mil voluntários! "Cristo reina, Cristo vinga", Nos vossos santos ovários. E também nos lampadários. E também nos trintanários. "Abre Nuncio, Vade Retro! Querem vender a nação!" Ó Carnaval da capela! Ó liturgia do altar! Já lá vem Camilo Torres, Com o seu fusil a sangrar. Igreja dos privilégios, Mataste o Cristo a galope. Também Franco, o assassino, Mandou benzer o garrote.
Zeca Afonso, Enquanto Há Força
Estamos num tempo que gosta de rankings. Até para os massacres americanos e aparentemente tresloucados.
Como em relação a muitas outras coisas, penso que valem o que valem (foleiro lugar-comum, mas foi o que saiu). Dependem dos critérios utilizados e da informação que existe acerca deles; por vezes, até, dependem da forma como se credibiliza ou não esta ou aquela fonte de informação.
Independentemente disso, fiquei muito satisfeito ao ler que o meu país ficou, pelo segundo ano consecutivo, em 10º lugar mundial no ranking de liberdade de imprensa dos Repórteres sem Fronteiras.
Independentemente, também, de todas as considerações que se irão seguir, é motivo de orgulho que os jornalistas não sejam objecto de censura prévia estatal nem sejam mortos, agredidos, fisicamente intimidados ou perseguidos nos tribunais por dá cá aquela palha - a não ser que, por exemplo, chamem "palhaço" a quem lhes chama "filhos da puta" e "bastardos", mas tem imunidade parlamentar.
É claro que até eu próprio, irrelevante criatura, vivi dois casos em que uma das mais importantes empresas nacionais usou o seu estatuto de grande anunciante para pressionar (através de telefonema aos directores) jornalistas que tinham publicado dados e declarações minhas. Num dos casos, o jornalista tinha de facto metido uma argolada técnica, que foi usada como desculpa; no outro nem isso.
Mas situações destas, dirão muitos, não são atentados à liberdade de imprensa, mas o saudável funcionamento dos mecanismos de mercado.
No entanto, a liberdade de imprensa não é a liberdade dos jornalistas - nem nunca o terá sido, e merece discussão se o deverá ser.
Cada orgão de imprensa é um micro-cosmos de relações de poder, que não depende apenas de pressões externas. E é também uma empresa - que, muitas vezes, não importa sequer que não dê lucro financeiro, pois dá outros lucros. E esses são os que mais importa defender, na perspectiva de quem investe e manda.
Ouvimos, então, o presidente do Sindicato dos Jornalistas lembrar que “a precaridade é um elemento de censura económica e condiciona a liberdade e independência do jornalista”.
Ou uma vogal da Entidade Reguladora da Comunicação Social dizer que “as dinâmicas de funcionamento dentro de cada redacção são, por vezes, mais pesadas do que os velhos constrangimentos sentidos até meados do século XX” e que a (auto?)regulação dos jornalistas "é o primeiro patamar da defesa da liberdade de imprensa”.
As limitações à liberdade de imprensa não se esgotam nos constrangimentos externos sobre os jornalistas, ou sequer na muito em voga (e necessária) discussão sobre as dinâmicas das agendas noticiosas.
Os jornalistas são, também, assalariados (muitas vezes quase semi-proletarizados), num quadro de relações de poder laboral que se liga a relações de poder globais, numa situação de progressiva concentração empresarial.
Como passam a vida a dizer os sindicalistas sul-africanos, justifica-se perguntar "uét abát de uékass?" (ortografia oficial: what about the workers)
Vamos discutir?