quinta-feira, 15 de maio de 2008

Moçambique Actual - continuidades e mudanças

Já está a imprimir o número da Análise Social sob o tema «Moçambique actual - continuidades e mudanças», a que aludi aqui.

O texto de introdução ao volume encontra-se aqui.
O índice e resumos (português e inglês) estão disponíveis aqui.

Boa leitura, enquanto não sai o volume.

Isto está a ficar patético...



Se quer penitência, vá de joelhos a Fátima, ou pague a multa!

Não faça é de nós parvos!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Quando for grande, quero cagar na lei

A história conta-se depressa:
No seu voo fretado para Caracas, o nosso primeiro, o ministro Pinho e as hostes respectivas fumaram os cigarrinhos que lhes apeteceram, apesar da proibição de fumar no avião, que não é (hoje) uma picuinhice da TAP, mas uma Lei da República Portuguesa.
O mesmo parece acontecer nas deslocações oficiais do homem de Boliqueime e não imagino que o vôvô Soares e os seus "senadores da república" agissem de forma diferente.
Curiosamente, o Público precisou de entrevistar dois constitucionalistas para ter a certeza de que isso é ilegal, embora comum entre essa gente do poder.

Ponto prévio:
A proibição de fumar em aviões não é uma medida de saúde pública. É uma medida económica que põe em risco a saúde pública.
Com essa proibição, as transportadoras aéreas puderam deixar (e deixaram) de fazer renovação de ar na cabine, poupando milhões em combustível, mas obrigando os passageiros e trabalhadores a partilharem alegremente o mesmo ar saturado e os virus e bactérias de cada um, ao longo de toda a viagem.

Desconfio que os legisladores não serão mais estúpidos ou desinformados do que eu.
Mas, soubessem-no ou não e tivessem ou não pensado nas consequências das suas decisões, fizeram-no - e todos são obrigados a suportar as consequências daquilo que eles decidiram.
Menos, "claro", os próprios...

Haverá quem diga (já por outras palavras o li, a respeito deste assunto) que o mais grave é estar um primeiro-ministro a projectar a imagem de que as leis não são para respeitar, desde que se tenha o poder e estatuto para isso. De que se vai para a política porque «quando for grande, quero cagar na lei».
Não creio que o mais grave seja essa imagem. O mais grave é o facto de sermos governados por gente que pensa e age dessa forma. E acha isso normal.

E esse outro facto, de que outros governantes, noutros países, fazem bem pior e em relação a coisas bem mais graves, só serve de atenuante para mentalidades pequeninas como as que nos governam e as que, nas mesmas circunstâncias, gostariam de fazer o mesmo.
Com o mal dos outros podemos nós bem.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Está tudo explicado!

(Mail & Guardian, 9/5)

Fez-se finalmente luz sobre as razões para os atrasos na divulgação de resultados eleitorais no Zimbabwe, para os recontarem sem eles serem públicos e, sobretudo, para não se saber quando (e se) haverá a segunda volta das presidenciais.

Afinal, a culpa não é da política, é da economia.
Com a hiperinflação local, a Comissão de Eleições está sem cheta.

Como é que os pobres homens podiam fazer um trabalho em condições?

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Reflexões ociosas - 2

Não "fica na história" quem está obcecado com isso, mas quem age para a mudar - mesmo que isso signifique tentar impedir que ela mude.

Na história da ciência, contudo, o espaço destes últimos costumam ser as páginas de anedotário.

domingo, 11 de maio de 2008

Roubado ao João Feijó

- (jornalista) O que queria que acontecesse depois das eleições?
- (vendedor) Queria que houvesse paz, que não houvesse guerra. Que houvesse emprego. Que houvesse mudanças.
- (jornalista) Que mudanças queria que houvessem?
- (vendedor) Queria que as mudanças mudassem.


Delicioso na sua clareza, não é?
No "Vou pra casa mas não é pra já", que um comentário do João Feijó a este post me deu a conhecer.
Vão lá ver.

Algo de novo em Cuba

Quando a filha do chefe, que "não faz política" mas dirige calmamente uma instituição oficial de âmbito cívico, vem dizer a jornais estrangeiros que os cubanos devem poder sair livremente do país, isso não é a mera constatação de uma evidência, uma acaso, ou muito menos uma rebeldia da senhora.
É um anúncio oficioso, feito uns tempos antes da sua concretização.

Com demasiada frequência, a caturrice e a crença de que ser libertador legitima tudo, e para sempre, leva a coisas muito difíceis de compreender (e mais ainda de aceitar) pelo comum dos mortais.
Veja-se a atitude das lideranças da África austral para com Mugabe.
Veja-se a recusa da Frente Sandinista em realizar as eleições que o seu programa previa e que teria ganho "na boa", nos idos de 1980.

São coisas com custos muito altos. Mais ainda do que para "a causa", para as pessoas cuja libertação (e, logo, liberdade) justificaram e justificam essa causa.
Mas são coisas que dão sempre para justificar, com base numa qualquer retórica muito convincente. Como, em última instância, se pode fazer com tudo.
E a justificação retórica do injustificável cria um círculo vicioso, onde mandam a necessidade de coerência com o que foi dito e a reacção, quantas vezes repressiva e imitadora de outros tempos, ao desencanto desses ingratos que libertámos e que acham que isso de controlo e restrições de todo o tipo não são bem uma libertação.

Por vezes, o círculo vicioso pode e tem que ser quebrado.
Parece-me bem que este é um sinal disso.

sábado, 10 de maio de 2008

Alguém quer olhar para os zimbabuéanos?

Soube, como muitas vezes acontece, pelo Carlos Serra: o gesso para tratar fracturas esgotou-se nos hospitais e clínicas de Harare.

Entretanto, há por vezes pessoas que nos poupam trabalho, ao escreverem aquilo que queríamos dizer. Obrigado, Machado da Graça.

(clique para aumentar)

Vem aí a segunda volta

Com uma vénia ao Zapiro e ao Savana (que o pirateou primeiro, embora continue com uma qualidade de impressão bastante errática).

Sobre o Zimbabwe, vejam aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e onde mais descobrirem.

Como é costume, clique para aumentar.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Plano C - uma Europa a sério

O Dia da Europa foi hoje comemorado através da promulgação do Tratado de Lisboa por Cavaco Silva.
Ou seja, foi comemorado pelo que tem de pior, ratificado da pior maneira possível, com os eurocratas a falarem grosso que não colocam a hipótese de um Plano B, caso o referendo na Irlanda dê «Não».

Também me parece que o que faz realmente falta é um "Plano C"...

Fiquei a sentir-me vaga e abstractamente federalista quando Bush Jr foi reeleito com mais votos, apesar de os votantes norte-americanos já saberem, então, que as razões para a invasão do Iraque tinham sido um embuste e que a tortura de prisioneiros se tinha tornado trivial.
Ficou então claro que princípios civilizacionais e humanitários básicos, que dávamos por adquiridos, podiam ser facilmente descartados pela mais poderosa potência mundial, sob aplauso da maioria da sua população.

Face a essa barbarização assente nos terrores securitários, o único contrapeso civilizacional e político que consigo descortinar como plausível seria a Europa.

Uma Europa com muito maior unidade e relevância na cena internacional, por outros meios que não a política da canhoeira.
Uma Europa de princípios, de liberdade, de diversidade e de democracia - começando pela democratização das estruturas políticas a nível europeu, com poder efectivo dos eleitos e o progressivo esvaziamento dos burocratas e dos indirectos representantes nacionais.
Uma Europa que assumisse a justiça social e os direitos dos cidadãos como seus valores inalienáveis.
Uma Europa que, já agora, não fechasse as suas fronteiras como uma fortaleza cercada.
E que aproveitasse para lançar a construção de um sistema de segurança colectivo abrangendo todo o Mediterrâneo, tornando obsoletos os restos da lógica de blocos militares que continua a reger o mundo.

Coisa bem diferente daquilo a que assistimos, em muitos aspectos quase inversa.
Mas coisa necessária.

Vamos discutir o porquê e o como?

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Ainda a Bolívia

coisas que se escrevem 1/3 com base em dados objectivos, 1/3 com base em conhecimento da situação regional - que permite dar sentido a esses dados - e 1/3 com base naquilo a que podemos chamar feeling, por ser resultado dos dois anteriores mas não o conseguirmos racionalizar, tal como acontece com os saberes do corpo.

Fiquei muito preocupado com este outro texto acerca da situação na Bolívia. Não porque tome por valor facial a interpretação que faz ou o discurso panfletário que o acompanha, mas porque o primeiro terço das minhas preocupações - o dos dados objectivos - sai dele reforçado.

Dêem uma vista de olhos. Preocupem-se, se acharem que vale a pena. Pensem em qualquer coisa que valha a pena fazer, se acharem que vale. Eu acho.

Globalização e sardinhas assadas

Sei a razão técnica, mas continuo a espantar-me com o facto:

Por que raio é que as sardinhas congeladas que asso em Maputo, pescadas por barcos portugueses algures no Atlântico norte, são melhores do que as sardinhas frescas que compro em Lisboa?

Agora é uma estátua

Pronto, menti no post anterior. Não resisti a esta:

Entusiasmados pelo voto de pesar do parlamento, agora há quem queira erguer uma estátua ao Cónego Melo .

Deixo aqui a minha proposta:

Vão chatear o Toix!


Deprimido com os resultados, algo esperados mas esmagadores, da experiência antropo-bloguística que fiz ontem e de que vos dou conta no post anterior, hoje meto folga da blogosfera.

Aproveitem para ir visitar o Toix, no Lusofolia.

Pings, links, Portugal e o mundo

O post "Independência latifundiária", acerca do referendo separatista na região mais rica da Bolívia, foi por mim linkado no site do jornal Público.
No dia seguinte, suponho que a partir daí, foi transcrito por um site de imprensa internacional, de onde seguiu para outro e para um site político. Como acontece com todos, tinha também sido afixado no Ma-blog.

Em 3 dias, recebeu 117 visitas directas, oriundas de 15 países (ontem, eram 102, de 13 países). A maioria, parece-me, de pessoas que nem sequer falam português, mas procuraram mais informação.

O assunto abordado no post parece, assim, ser merecedor de algum interesse.
Não obstante, só 4 visitas vieram através do Público e poucas mais de Portugal.

Face a estes números, decidi ontem fazer uma experiência antropo-sociológica: linkei no Público o post "Pecados pesados", relativo a um atropelamento de peregrinos a caminho de Fátima, mas com um título que sugere umas graçolas irreverentes acerca do assunto.

1 dia depois, esse post recebeu (curiosamente) também 117 visitas directas. Delas, 114 vieram através do Público.

Deixo os comentários a vosso cargo. Eu, fico-me por aqui a ouvir que "Cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas".

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pecados pesados

Nove peregrinos de um grupo de Cabeceira de Basto foram hoje atropelados na EN1, em Vergada, freguesia de Santa Maria da Feira, a caminho de Fátima.

Suponho que este senhor irá comentar, na sua próxima crónica, que os pecados deles eram demasiado pesados.

Bocas de Maio

"Sê jovem e cala-te!"

Estas foram roubadas do blog do Miguel Portas.
São "bocas" com 40 anos, pinchadas nas paredes de Paris, quando a imaginação queria chegar ao poder que "grand Charles" manteve, com o apoio das pessoas razoáveis e do exército que lá o tinha metido.
Eu tinha 4 anos. Será que o passado é mesmo outro país?

- É proibido proibir
- É doloroso aturar chefes. E mais imbecil é escolhê-los
- Todo o poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente
- Trabalhador, tens 25 anos, mas o teu sindicato é de outro século
- Professores, vocês são tão velhos quanto a vossa cultura
- A idade de ouro era a idade onde o ouro não reinava
- A obediência começa pela consciência. A consciência pela desobediência
- Agressor não é quem se revolta, mas quem reprime
- Não queremos um mundo onde a certeza de não se morrer de fome se troca pelo risco de morrer de aborrecimento
- O direito de viver não se mendiga, toma-se
- Trabalhadores de todos os países, divirtam-se!
- Não quero perder a minha vida a ganhá-la
- As reservas impostas ao prazer excitam o prazer de viver sem reservas
- A poesia está na rua
- Tomemos a revolução a sério, mas não nos levemos a sério
- Não se fica apaixonado por uma taxa de crescimento
- A imaginação ao poder
- Falta de imaginação é não saber que ela falta
- Desejar a realidade é bom; realizar desejos é melhor
- Sejamos realistas, exijamos o impossível
- Que se lixem as fronteiras
- O movimento popular não tem templo
- É preciso matar o polícia que existe dentro de cada um de nós
- Sou marxista, tendência Groucho
- Se as eleições pudessem mudar o que quer que fosse, há muito teriam sido proibidas

terça-feira, 6 de maio de 2008

Um velhote subversivo

Abdoulaye Wade, o octagenário presidente do Senegal, propôs ontem a extinção da FAO, a agência das Nações Unidas para a alimentação.

Os argumentos são fortes:
- gasta a maioria do dinheiro no seu próprio funcionamento e faz muito poucas operações eficazes no terreno;
- as suas actividades sobrepõem-se às de outras organizações, aparentemente mais eficazes;
- a política alimentar baseada no assistencialismo e caridade deve ser abandonada em favor de um política de apoio à auto-suficiência, através do investimento inovador na agricultura;
- a actual crise alimentar mundial prova o fracasso da FAO.

O último argumento levanta-me uma dúvida. Será que o atrevido cota não reparou que os governos não têm, desde há décadas, mão sobre as grandes empresas e especuladores? E que, se as Nações Unidas tivessem sequer essa veleidade, já teriam sido extintas?

Os restantes demonstram que estamos perante um perigoso subversivo.
O que é que se ia depois fazer aos excedentes alimentares subsidiados a preço de ouro nos EUA e na Europa?
E às "máquinas" de consumir recursos e desviar fundos, internacionais e locais?
E ao assistencialismo, essa actividade económica importante e em franco progresso?

É curioso que este discurso dissonante venha do país que era citado, nas décadas de 1970/80, como exemplo da monocultura de exportação que põe em causa a segurança alimentar das populações. E que seja expresso por um político idoso que pouco terá já a perder.
Parece que é preciso isso para se dizer o que é evidente.


Sobre o assitencialismo, volto a sugerir este livro.
Acerca dos cuidados a ter quando se embandeira em arco com a inovação agrícola com base em sementes milagrosas, este post.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Há sempre um imbecil desconhecido que espera por si

Já há muito sabia, pela minha experiência como estudante e como professor, que qualquer imbecil acaba por tirar uma licenciatura, desde que tenha a persistência suficiente. Tem depois direito ao título respectivo, podendo alegremente arrastar na lama o nome da profissão dos colegas.
Também há muito que existem colunistas imbecis. Pergunto-me até, por vezes, se serão resultado da boçalidade de quem os escolhe, ou de uma sua aspiração ao papel divino de equilibrar o Yan e Yin cósmicos, lá no jornal.

Mas vem-se notando uma outra tendência nos últimos tempos: a de procurar notoriedade através da graçola imbecil, maningue provocadora, mesmo que não corresponda ao que realmente se pensa e que não seja em nada necessária para o argumento (que muitas vezes não existe). Não sei até se pessoas de quem muito gosto não terão alguma responsabilidade neste moda.

Mas este parágrafo, na imagem aqui em baixo, está ao nível mental do Taxi Driver que leva a apaixonada ao cinema pornográfico para a encantar.
Com a diferença de que, aqui, não são suecos e suecas a refolegar, mas a bárbara repressão de um povo e a tortura e assassinato de um gigante, comparado com este anão. O que torna a coisa realmente obscena.
Com a diferença de que o Taxi Driver fica perplexo, enquanto este sociólogo deverá estar todo contente por ter "abanado as consciências", "feito sangue". Sangue que já correu em profusão e consciências que já foram abanadas por aquilo com que goza.

Desde que a ouvi, a frase «Não concordo com o que dizes mas lutarei para que o possas dizer» calou-me muito fundo.
Mas convém que haja algo para dizer.
Isto, é apenas um escarro. Mal escarrado, ainda por cima.

O texto todo do senhor em questão, aqui.

Blogs, opinião citável

Ao abrir o blog, reparei que um(a) parisiense tinha acedido directamente ao post anterior, vind@ de um endereço que parecia o Courrier International.
Intrigado, cliquei e fui dar com a tradução francesa do post, acompanhada pela inglesa e a alemã.

Vivemos, de facto, em tempos capazes de nos espantarem.
Um quase sigiloso bloguista português escreve, em Moçambique, um comentário irónico e preocupado à situação na Bolívia e, no dia seguinte, está traduzido para 3 línguas, por uma instituição mediática sediada em Paris!

Tratando-se, por outro lado, da mais respeitada revista da imprensa europeia, este caso inusitado vem demonstrar que a opinião já não tem que estar impressa para ser citável (e multiplicada na sua exposição pública), mesmo em apanhados de imprensa.
Talvez daqui a uns anos os blogs já não sejam nada. Hoje, parecem ter alcançado direito de cidade.