Por vezes, só dá para comentar «Genial!»
domingo, 25 de maio de 2008
Citações de café (2)
«OBRIGADO»
O empregado pousou a cerveja na minha mesa.
Embrenhado na leitura de um artigo interessante, devo ter balbuciado um agradecimento meio automático.
Pelo canto do olho, reparei que continuava ali parado. E olhei.
- Sabia que lembrava do senhor. É o senhor que diz "obrigado"!
No ano anterior, tinha nascido a minha filha e eu não tinha vindo a Moçambique.
Há 2 anos que não entrava naquele restautante.
sábado, 24 de maio de 2008
"Risco" em debate
E-mail puxa e-mail e pensámos que seria interessante debater por aqui, abrindo a conversa a outros interessados e procurando capitalizar eventuais surpresas trazidas por outros participantes.
A caixa de comentários deste post é, por isso, um espaço de discussão acerca da incerteza, do "risco", da "sociedade do risco" e do mais que aparecer, com isso relacionado.
O pontapé de saída é dado pelos reparos que o João Areosa me fez. Espero outros da vossa parte, antes de entrar na discussão.
Discussão que irá estar aqui, na página inicial do blog, até já não haver ninguém interessado em participar.
Sejam bem-vindos. E não se acanhem.
Citações de café (1)
SOLIDÁRIO
O telemóvel tocou e o homem interrompeu o jantar.
- Sim, Sr. Langa. É para avisar que amanhã de manhã hão de passar no armazém, para levar aquelas nossas tendas grandes para Beluluane.* Aquilo dá para mais de 100 pessoas, não dá?
- (...)- Não, não é para facturar! É para emprestar.
* Centro de recepção para os refugiados da onda de violência xenófoba sul-africana.
O homem é português ("Claro!", dirão muitos moçambicanos conhecedores dos seus compatriotas com posses...) e não parece, do todo, um ricaço. Só alguém com um pequeno negócio.
Por vezes, fico orgulhoso do meu passaporte.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Internacionalizar a Amazónia?
Podia fazer apenas um link para o Macua, de onde copiei esta notícia, mas não resisti a reproduzi-la na íntegra.
Claro que a resposta do ministro brasileiro é sofística. Os males do mundo não justificam a nossa incompetência para resolver os nossos próprios problemas. Nem é legítimo fazer depender a sua resolução da súbita transformação do mundo num sítio cor-de-rosa de passarinhos esvoaçantes, paz, amor e justiça social.
Mas lá que a arrogância dos maiores poluidores e criadores de problemas globais e localizados no planeta, dos maiores nacionalizadores e privatizadores de bens de interesse universal um pouco por todo o mundo, merece que lhes lembrem certas verdades, lá isso merece.
Tal como o merecem os estudantes de pós-graduação das boas universidades estado-unidenses, quase sempre geniais e descobridores da pólvora comparados com quem os precedeu, até ao momento em que os resultados do seu trabalho são conhecidos e se revelarem medianos, quando não medíocres.
Então, aqui vai:
«Durante um debate numa universidade nos Estados Unidos, o Ministro da Educação brasileiro, Cristovam Buarque, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia. O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro. Esta foi a resposta:
- De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro...
O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar, com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro.
Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!»
28/5: O Zé Paulo, do Lanterna Acesa, esclareceu que este discurso é já de 2000. Tem também um post em que são referidos outros aspectos relevantes acerca do assunto. Sugiro que o visitem.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
A bola vista de Maputo
quarta-feira, 21 de maio de 2008
O mal e a caramunha
Mugabe diz que "O MDC, criado sob ordem da Grã-Bretanha, lidera uma cruzada do mal para dividir o nosso povo no plano político e continuar a orquestrar actos abomináveis de violência política visando cidadãos inocentes".
Ou seja, acusa a oposição, vencedora nas últimas eleições, de estar a matar, torturar e agredir os seus próprios dirigentes e votantes. Isto, quando é bem conhecida a realidade pela boca das próprias vítimas e se conhece não apenas a acção das milícias da ZANU, como os militares superiores que foram destacados para as comandarem em várias zonas.
Será para sustentar esta fábula (que me parece mais virada para para os dirigentes dos países limítrofes do que para dentro do próprio país) que a polícia zimbabuéana chegou ao extremo inconcebível de deter os embaixadores dos Estados Unidos, Grã-Bertanha, União Europeia, Holanda, Tanzania e Japão, quando se tentavam dirigir a uma das zonas de violência contra votantes da oposição?
Ao contrário de outros ditadores em queda livre, Mugabe já não manda sozinho no país, desde pouco depois das eleições. É apenas um dos pares, numa junta da oligarquia politico-militar.
O que se tem estado a passar não é. por isso, o resultado das "pancadas" de um homem demente. É a acção deliberada de uma elite rapace que vê o país como propriedade sua e não concebe a possibilidade de perder os seus privilégios.
Individual ou colectivo, o crepúsculo dos deuses é quase sempre ridículo.
Mas, tragicamente, é habitual que tentem levar consigo a "sua obra" - o seu país e o povo que neles acreditou.
Será que as lideranças dos outros países da África austral não aprenderam nada com a história e com esta crise, para que continuem na "diplomacia silenciosa"?
Sim. Alguns aprenderam.
Angola aprovou legislação autorizando, em toda a legalidade, o adiamento da divulgação de resultados eleitorais durante 15 dias. Para que eleições, neste século ou no próximo, é que não se sabe.
terça-feira, 20 de maio de 2008
É hoje! - antropologia industrial
Resumo da palestra:
“Multiculturalismo” é uma forma particular de entender a relação entre culturas diversas, que tende a ser substituída na antropologia pela noção de “transculturalidade”, mais dinâmica e interactiva. É nesta última perspectiva que se enquadram as “culturas de fronteira”, de que será debatido o caso da Mozal.
Nesta fábrica interpretada pela população como se de uma mina a céu aberto se tratasse, os operários regem o seu trabalho por estrita racionalidade tecnológica, mas os anteriores sistemas locais de domesticação do infortúnio, envolvendo espíritos e feitiçaria, são partilhados ou suscitam uma dúvida plausível à maioria deles. Estas racionalidades coexistem em paralelo, com âmbitos de aplicação separados: ou a normalidade do funcionamento tecnológico, ou a interpretação dos acidentes que a subvertem.
Por isso e por ambos os sistemas exigirem atitudes securitárias semelhantes, não são contraditórios nem põem em causa produtividade e segurança. Neste caso, cuja especificidade será discutida, não há razões para que a hegemonia da racionalidade tecnológica leve ao abandono das racionalidades “tradicionais”.
No entanto, há alguns particularismos locais que mantêm uma relação mais conflitual com a “cultura da empresa” a um nível abstracto e transnacional, designadamente as lógicas de poupança e as interpretações acerca da responsabilização das chefias em caso de erro.
Xenofobia mata em Joanesburgo
Na última semana, uma onda de violência xenófoba em Joanesburgo (contra zimbabuéanos, moçambicanos e malauianos acusados, paradoxalmente, de responsabilidade no aumento do crime e de "roubarem" os empregos) lançou o terror nos bairros mais pobres e provocou já 24 vítimas mortais.
Sendo grave e preocupante em qualquer lado, isto suscita sentimentos terríveis quando pensamos que se passa no país que sofreu décadas com o apartheid - estranhamente, declarado em nome do "Grande Arquitecto do Universo", facto pouco estudado mas que qualquer um pode confirmar ao visualizar o discurso, no Museu de Apartheid.
O comics Madam & Eve de hoje mete, como tantas vezes acontece, o dedo na ferida: como é fácil reproduzir, para os outros, aquilo que de pior vivemos e nos fez revoltar, mas se tornou uma referência, consciente ou não.
Um assunto a merecer estudo e reflexão. No fim de contas, não é apenas no Moçambique independente, no Israel que se sente acossado, ou nos bairros sul-africanos a caminho do desespero que encontramos este fenómeno.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Vocês são o máximo!
Nestes 2 meses, vocês foram 1.117 visitantes, vindos sobretudo de Portugal e de Moçambique, mas também de 45 outros países ou territórios autónomos (neste último caso, Macau e Hong Kong). Entretanto, o número de pessoal do Brasil tem vindo a subir rapidamente e já passaram dos 6%.
Entre vós, 744 são "clientes regulares" - quase 2/3 - que aqui vieram em média 6 vezes.
O que mais me faz sentir honrado com a vossa atenção, no entanto, é que 12,5% dos que aqui voltam (93 pessoas) fizeram downloads dos artigos que disponibilizei - contabilizando apenas os que estão no site que me fornece estatísticas.
Não sei como é que é a "freguesia" de outros blogs, mas parece-me que vocês são o máximo!
Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, só me custa perceber porque razão é tão raro deixarem comentários...
24/5: Bem-vindos, visitantes da Irlanda e Bulgária. 26/5: e das Filipinas. 28/5: Tudo bem, Malásia e Singapura? 30/5: Olá, Turquia. 4/6: É uma enorme alegria para mim, Cabo Verde. 7/6: Olá, Polónia. 23/7: um abraço, São Tomé e Príncipe, Nova Zelândia e Japão.
sábado, 17 de maio de 2008
Está tudo doido!
A ASAE anda a tratar as instituições de solidariedade social como se fossem restautantes (cujas novas legislações já são o absurdo que se sabe), obrigando a deitar fora comida que tivesse sido oferecida ou que tivesse sido congelada em arcas frigoríficas, em vez de uns tais de "túneis de congelação" ultra-rápida.
O Banco de Portugal promove por mérito um alto funcionário cujo mérito para a instituição, nos últimos 8 anos, é estar de licença sem vencimento.
Mugabe admite que o resultado das eleições presidenciais «foi desastroso» (que estranho!), diz que a culpa é do seu partido, que andou a descansar (veja-se aqui o descanso deles) e acusa a oposição de andar a aterrorizar as zonas rurais (olha lá aqui...), e a notícia sai assim, sem sequer um comentáriozito e com o título que destaquei como link.
Do mal o menos. Este louco desenhado pelo Picasso sempre consegue ser belo.
E esta noite vêm três bons amigos jantar cá a casa. Talvez me levantem o moral.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Tudo normal
No Zimbabwe, continuam e generalizam-se os assassinatos e agressões a votantes da oposição (ou deveríamos dizer "da maioria"?), agora comandados abertamente por altas patentes militares.
Thabo Mbeki, a quem o seu próprio partido cortou as vazas para se eternizar na presidência da África do Sul à custa de uma alteração da constituição, vai continuando a visitar Mugabe e a fazer de conta que é mediador de alguma coisa.
Em Moçambique, cujo estado mantém um silêncio cúmplice acerca da questão, o jornal Savana denuncia hoje tudo isto.
Na imprensa portuguesa, só vou encontrando isto e isto.
Já que vocês têm acesso à internet, não esqueçam de todo a coisa, vão-se mantendo informados. Sei lá, por exemplo aqui.
Ou, se não querem, deixem-se estar. «Afinal,» pensarão alguns de vocês, «são apenas pretos.»
Moçambique Actual - continuidades e mudanças
O texto de introdução ao volume encontra-se aqui.
O índice e resumos (português e inglês) estão disponíveis aqui.
Boa leitura, enquanto não sai o volume.
Isto está a ficar patético...
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Quando for grande, quero cagar na lei
No seu voo fretado para Caracas, o nosso primeiro, o ministro Pinho e as hostes respectivas fumaram os cigarrinhos que lhes apeteceram, apesar da proibição de fumar no avião, que não é (hoje) uma picuinhice da TAP, mas uma Lei da República Portuguesa.
O mesmo parece acontecer nas deslocações oficiais do homem de Boliqueime e não imagino que o vôvô Soares e os seus "senadores da república" agissem de forma diferente.
Curiosamente, o Público precisou de entrevistar dois constitucionalistas para ter a certeza de que isso é ilegal, embora comum entre essa gente do poder.
Ponto prévio:
A proibição de fumar em aviões não é uma medida de saúde pública. É uma medida económica que põe em risco a saúde pública.
Com essa proibição, as transportadoras aéreas puderam deixar (e deixaram) de fazer renovação de ar na cabine, poupando milhões em combustível, mas obrigando os passageiros e trabalhadores a partilharem alegremente o mesmo ar saturado e os virus e bactérias de cada um, ao longo de toda a viagem.
Desconfio que os legisladores não serão mais estúpidos ou desinformados do que eu.
Mas, soubessem-no ou não e tivessem ou não pensado nas consequências das suas decisões, fizeram-no - e todos são obrigados a suportar as consequências daquilo que eles decidiram.
Menos, "claro", os próprios...
Haverá quem diga (já por outras palavras o li, a respeito deste assunto) que o mais grave é estar um primeiro-ministro a projectar a imagem de que as leis não são para respeitar, desde que se tenha o poder e estatuto para isso. De que se vai para a política porque «quando for grande, quero cagar na lei».
Não creio que o mais grave seja essa imagem. O mais grave é o facto de sermos governados por gente que pensa e age dessa forma. E acha isso normal.
E esse outro facto, de que outros governantes, noutros países, fazem bem pior e em relação a coisas bem mais graves, só serve de atenuante para mentalidades pequeninas como as que nos governam e as que, nas mesmas circunstâncias, gostariam de fazer o mesmo.
Com o mal dos outros podemos nós bem.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Está tudo explicado!
Fez-se finalmente luz sobre as razões para os atrasos na divulgação de resultados eleitorais no Zimbabwe, para os recontarem sem eles serem públicos e, sobretudo, para não se saber quando (e se) haverá a segunda volta das presidenciais.
Afinal, a culpa não é da política, é da economia.
Com a hiperinflação local, a Comissão de Eleições está sem cheta.
Como é que os pobres homens podiam fazer um trabalho em condições?
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Reflexões ociosas - 2
Não "fica na história" quem está obcecado com isso, mas quem age para a mudar - mesmo que isso signifique tentar impedir que ela mude.
Na história da ciência, contudo, o espaço destes últimos costumam ser as páginas de anedotário.
domingo, 11 de maio de 2008
Roubado ao João Feijó
- (vendedor) Queria que houvesse paz, que não houvesse guerra. Que houvesse emprego. Que houvesse mudanças.
- (jornalista) Que mudanças queria que houvessem?
- (vendedor) Queria que as mudanças mudassem.
Delicioso na sua clareza, não é?
No "Vou pra casa mas não é pra já", que um comentário do João Feijó a este post me deu a conhecer.
Vão lá ver.
Algo de novo em Cuba
É um anúncio oficioso, feito uns tempos antes da sua concretização.
Com demasiada frequência, a caturrice e a crença de que ser libertador legitima tudo, e para sempre, leva a coisas muito difíceis de compreender (e mais ainda de aceitar) pelo comum dos mortais.
Veja-se a atitude das lideranças da África austral para com Mugabe.
Veja-se a recusa da Frente Sandinista em realizar as eleições que o seu programa previa e que teria ganho "na boa", nos idos de 1980.
São coisas com custos muito altos. Mais ainda do que para "a causa", para as pessoas cuja libertação (e, logo, liberdade) justificaram e justificam essa causa.
Mas são coisas que dão sempre para justificar, com base numa qualquer retórica muito convincente. Como, em última instância, se pode fazer com tudo.
E a justificação retórica do injustificável cria um círculo vicioso, onde mandam a necessidade de coerência com o que foi dito e a reacção, quantas vezes repressiva e imitadora de outros tempos, ao desencanto desses ingratos que libertámos e que acham que isso de controlo e restrições de todo o tipo não são bem uma libertação.
Por vezes, o círculo vicioso pode e tem que ser quebrado.
Parece-me bem que este é um sinal disso.
sábado, 10 de maio de 2008
Alguém quer olhar para os zimbabuéanos?
Entretanto, há por vezes pessoas que nos poupam trabalho, ao escreverem aquilo que queríamos dizer. Obrigado, Machado da Graça.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Plano C - uma Europa a sério
O Dia da Europa foi hoje comemorado através da promulgação do Tratado de Lisboa por Cavaco Silva.
Ou seja, foi comemorado pelo que tem de pior, ratificado da pior maneira possível, com os eurocratas a falarem grosso que não colocam a hipótese de um Plano B, caso o referendo na Irlanda dê «Não».
Também me parece que o que faz realmente falta é um "Plano C"...
Fiquei a sentir-me vaga e abstractamente federalista quando Bush Jr foi reeleito com mais votos, apesar de os votantes norte-americanos já saberem, então, que as razões para a invasão do Iraque tinham sido um embuste e que a tortura de prisioneiros se tinha tornado trivial.
Ficou então claro que princípios civilizacionais e humanitários básicos, que dávamos por adquiridos, podiam ser facilmente descartados pela mais poderosa potência mundial, sob aplauso da maioria da sua população.
Face a essa barbarização assente nos terrores securitários, o único contrapeso civilizacional e político que consigo descortinar como plausível seria a Europa.
Uma Europa com muito maior unidade e relevância na cena internacional, por outros meios que não a política da canhoeira.
Uma Europa de princípios, de liberdade, de diversidade e de democracia - começando pela democratização das estruturas políticas a nível europeu, com poder efectivo dos eleitos e o progressivo esvaziamento dos burocratas e dos indirectos representantes nacionais.
Uma Europa que assumisse a justiça social e os direitos dos cidadãos como seus valores inalienáveis.
Uma Europa que, já agora, não fechasse as suas fronteiras como uma fortaleza cercada.
E que aproveitasse para lançar a construção de um sistema de segurança colectivo abrangendo todo o Mediterrâneo, tornando obsoletos os restos da lógica de blocos militares que continua a reger o mundo.
Coisa bem diferente daquilo a que assistimos, em muitos aspectos quase inversa.
Mas coisa necessária.
Vamos discutir o porquê e o como?
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Ainda a Bolívia
Fiquei muito preocupado com este outro texto acerca da situação na Bolívia. Não porque tome por valor facial a interpretação que faz ou o discurso panfletário que o acompanha, mas porque o primeiro terço das minhas preocupações - o dos dados objectivos - sai dele reforçado.
Dêem uma vista de olhos. Preocupem-se, se acharem que vale a pena. Pensem em qualquer coisa que valha a pena fazer, se acharem que vale. Eu acho.
Globalização e sardinhas assadas
Por que raio é que as sardinhas congeladas que asso em Maputo, pescadas por barcos portugueses algures no Atlântico norte, são melhores do que as sardinhas frescas que compro em Lisboa?
Agora é uma estátua
Pronto, menti no post anterior. Não resisti a esta:
Entusiasmados pelo voto de pesar do parlamento, agora há quem queira erguer uma estátua ao Cónego Melo .
Deixo aqui a minha proposta:
Vão chatear o Toix!
Aproveitem para ir visitar o Toix, no Lusofolia.
Pings, links, Portugal e o mundo
O post "Independência latifundiária", acerca do referendo separatista na região mais rica da Bolívia, foi por mim linkado no site do jornal Público.
No dia seguinte, suponho que a partir daí, foi transcrito por um site de imprensa internacional, de onde seguiu para outro e para um site político. Como acontece com todos, tinha também sido afixado no Ma-blog.
Em 3 dias, recebeu 117 visitas directas, oriundas de 15 países (ontem, eram 102, de 13 países). A maioria, parece-me, de pessoas que nem sequer falam português, mas procuraram mais informação.
O assunto abordado no post parece, assim, ser merecedor de algum interesse.
Não obstante, só 4 visitas vieram através do Público e poucas mais de Portugal.
Face a estes números, decidi ontem fazer uma experiência antropo-sociológica: linkei no Público o post "Pecados pesados", relativo a um atropelamento de peregrinos a caminho de Fátima, mas com um título que sugere umas graçolas irreverentes acerca do assunto.
1 dia depois, esse post recebeu (curiosamente) também 117 visitas directas. Delas, 114 vieram através do Público.
Deixo os comentários a vosso cargo. Eu, fico-me por aqui a ouvir que "Cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas".
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Pecados pesados
Suponho que este senhor irá comentar, na sua próxima crónica, que os pecados deles eram demasiado pesados.
Bocas de Maio
Estas foram roubadas do blog do Miguel Portas.
São "bocas" com 40 anos, pinchadas nas paredes de Paris, quando a imaginação queria chegar ao poder que "grand Charles" manteve, com o apoio das pessoas razoáveis e do exército que lá o tinha metido.
Eu tinha 4 anos. Será que o passado é mesmo outro país?
- É proibido proibir
- É doloroso aturar chefes. E mais imbecil é escolhê-los
- Todo o poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente
- Trabalhador, tens 25 anos, mas o teu sindicato é de outro século
- Professores, vocês são tão velhos quanto a vossa cultura
- A idade de ouro era a idade onde o ouro não reinava
- A obediência começa pela consciência. A consciência pela desobediência
- Agressor não é quem se revolta, mas quem reprime
- Não queremos um mundo onde a certeza de não se morrer de fome se troca pelo risco de morrer de aborrecimento
- O direito de viver não se mendiga, toma-se
- Trabalhadores de todos os países, divirtam-se!
- Não quero perder a minha vida a ganhá-la
- As reservas impostas ao prazer excitam o prazer de viver sem reservas
- A poesia está na rua
- Tomemos a revolução a sério, mas não nos levemos a sério
- Não se fica apaixonado por uma taxa de crescimento
- A imaginação ao poder
- Falta de imaginação é não saber que ela falta
- Desejar a realidade é bom; realizar desejos é melhor
- Sejamos realistas, exijamos o impossível
- Que se lixem as fronteiras
- O movimento popular não tem templo
- É preciso matar o polícia que existe dentro de cada um de nós
- Sou marxista, tendência Groucho
- Se as eleições pudessem mudar o que quer que fosse, há muito teriam sido proibidas
terça-feira, 6 de maio de 2008
Um velhote subversivo
Os argumentos são fortes:
- gasta a maioria do dinheiro no seu próprio funcionamento e faz muito poucas operações eficazes no terreno;
- as suas actividades sobrepõem-se às de outras organizações, aparentemente mais eficazes;
- a política alimentar baseada no assistencialismo e caridade deve ser abandonada em favor de um política de apoio à auto-suficiência, através do investimento inovador na agricultura;
- a actual crise alimentar mundial prova o fracasso da FAO.
O último argumento levanta-me uma dúvida. Será que o atrevido cota não reparou que os governos não têm, desde há décadas, mão sobre as grandes empresas e especuladores? E que, se as Nações Unidas tivessem sequer essa veleidade, já teriam sido extintas?
Os restantes demonstram que estamos perante um perigoso subversivo.
O que é que se ia depois fazer aos excedentes alimentares subsidiados a preço de ouro nos EUA e na Europa?
E às "máquinas" de consumir recursos e desviar fundos, internacionais e locais?
E ao assistencialismo, essa actividade económica importante e em franco progresso?
É curioso que este discurso dissonante venha do país que era citado, nas décadas de 1970/80, como exemplo da monocultura de exportação que põe em causa a segurança alimentar das populações. E que seja expresso por um político idoso que pouco terá já a perder.
Parece que é preciso isso para se dizer o que é evidente.
Sobre o assitencialismo, volto a sugerir este livro.
Acerca dos cuidados a ter quando se embandeira em arco com a inovação agrícola com base em sementes milagrosas, este post.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Há sempre um imbecil desconhecido que espera por si
Também há muito que existem colunistas imbecis. Pergunto-me até, por vezes, se serão resultado da boçalidade de quem os escolhe, ou de uma sua aspiração ao papel divino de equilibrar o Yan e Yin cósmicos, lá no jornal.
Mas vem-se notando uma outra tendência nos últimos tempos: a de procurar notoriedade através da graçola imbecil, maningue provocadora, mesmo que não corresponda ao que realmente se pensa e que não seja em nada necessária para o argumento (que muitas vezes não existe). Não sei até se pessoas de quem muito gosto não terão alguma responsabilidade neste moda.
Mas este parágrafo, na imagem aqui em baixo, está ao nível mental do Taxi Driver que leva a apaixonada ao cinema pornográfico para a encantar.
Com a diferença de que, aqui, não são suecos e suecas a refolegar, mas a bárbara repressão de um povo e a tortura e assassinato de um gigante, comparado com este anão. O que torna a coisa realmente obscena.
Com a diferença de que o Taxi Driver fica perplexo, enquanto este sociólogo deverá estar todo contente por ter "abanado as consciências", "feito sangue". Sangue que já correu em profusão e consciências que já foram abanadas por aquilo com que goza.
Desde que a ouvi, a frase «Não concordo com o que dizes mas lutarei para que o possas dizer» calou-me muito fundo.
Mas convém que haja algo para dizer.
Isto, é apenas um escarro. Mal escarrado, ainda por cima.
O texto todo do senhor em questão, aqui.
Blogs, opinião citável
Ao abrir o blog, reparei que um(a) parisiense tinha acedido directamente ao post anterior, vind@ de um endereço que parecia o Courrier International.
Intrigado, cliquei e fui dar com a tradução francesa do post, acompanhada pela inglesa e a alemã.
Vivemos, de facto, em tempos capazes de nos espantarem.
Um quase sigiloso bloguista português escreve, em Moçambique, um comentário irónico e preocupado à situação na Bolívia e, no dia seguinte, está traduzido para 3 línguas, por uma instituição mediática sediada em Paris!
Tratando-se, por outro lado, da mais respeitada revista da imprensa europeia, este caso inusitado vem demonstrar que a opinião já não tem que estar impressa para ser citável (e multiplicada na sua exposição pública), mesmo em apanhados de imprensa.
Talvez daqui a uns anos os blogs já não sejam nada. Hoje, parecem ter alcançado direito de cidade.
domingo, 4 de maio de 2008
Independência latifundiária
É muita chato ser um latifundiário das melhores famílias e, só porque os nossos antepassados massacraram menos indígenas do que nos países à volta, acordar um dia com um Presidente da República ameríndio.
Mais chato ainda se o gajo e o partido dele ganham eleições por maiorias absolutas, contra os hábitos civilizados e o poder do dinheiro.
Pior, se o gajo tem a mania da redistribuição mais justa da riqueza nacional.
Bute aí, então, exigir autonomias, quiçá independências. Com as costas quentes de países tutelares, necessariamente.
Quando, anos atrás, a Alemanha espicaçou a Eslovénia para a independência, deitou fogo aos balcãs e deu o pontapé de saída para a mais bárbara guerra civil ocorrida na Europa durante o último século.
Como irá ser agora, na Bolívia?
Ou será que, tal como antes no Ruanda e hoje em Darfur, a côr torna a questão menos importante?
Alguns dados, muito poucos, para compreender a situação - aqui.
sábado, 3 de maio de 2008
Parlamento português homenageia terrorista
Referi aqui, há tempos, a morte do Cónego Melo, líder terrorista português da década de 1970, que açulou e organizou incêndios a sedes de partidos de esquerda e atentados bombistas, também assumidamente responsável pela morte de um outro sacerdote ("vermelho") e da pessoa que o acompanhava no carro.
Nunca foi condenado por nenhum tribunal (como refere o CDS-PP), mas porque nunca foi levado a nenhum, visto esse tipo de actos violentos e terroristas ter sido amnistiado no final dos tempos revolucionários.
Esse escarro de gente, que décadas depois continuava a vangloriar-se das "suas opções" na televisão, foi homenageado pelo Parlamento do meu país, através da aprovação de um voto de pesar pela sua morte.
Que o CDS-PP o tivesse proposto e votado, no dia seguinte ao 1º de Maio e uma semana depois do 25 de Abril, só demonstra a concepção que a sua actual liderança tem da democracia - bem mais próxima da do seu antigo líder Adriano Moreira, ex-ministro do fascismo, do que do seu fundador Freitas do Amaral.
Que o PPD/PSD o tivesse votado, mostrará falta de espinha vertebral de alguns e, em geral, que a duplicidade de critérios (conforme o criminoso está mais próximo ou mais longe) leva, por ali, à duplicidade de valores e princípios.
Mas a coisa foi aprovada devido à abstenção do PS, porque «nunca votaria contra o pesar pela morte de alguém». Ainda bem, então, que ninguém se lembrou de propor votos de pesar pela morte do Pinochet ou do Hitler (ou, se preferirem, do Béria ou do Stalin) e esperemos que ninguém o venha a fazer se o Bin Laden for morto.
Desculpem, mas fico-me por aqui.
Sinto-me demasiado enojado (e não, obviamente, no sentido de "enlutado").
Umas horas mais tarde:
Pregais o Cristo de Braga, Fazeis a guerra na rua. Sempre virados prò céu, Sempre virados prà Virgem. A Santa Cruzada manda Matar o chibo vermelho. Contra a foice e o martelo, Contra a alfabetização. Curai de ganhar agora Os vossos novos clientes: Além do pide e do bufo, Amigos do usurário, Além do latifundiário, Amigo do Capelão. "Abre Nuncio Vade Retro! Querem vender a nação!" "A medicina é ateia, Não cuida da salvação." Que o diga o facultativo, Que o diga o cirurgião, Que o digam as criancinhas, "Rezas sim, parteiras não." Se o Pinochet concordasse, Já em Fátima haveria Mais de trinta mil vermelhos A arder de noite e de dia. Caridade, a quanto obrigas Só trinta mil voluntários! "Cristo reina, Cristo vinga", Nos vossos santos ovários. E também nos lampadários. E também nos trintanários. "Abre Nuncio, Vade Retro! Querem vender a nação!" Ó Carnaval da capela! Ó liturgia do altar! Já lá vem Camilo Torres, Com o seu fusil a sangrar. Igreja dos privilégios, Mataste o Cristo a galope. Também Franco, o assassino, Mandou benzer o garrote.
Zeca Afonso, Enquanto Há Força
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Liberdade de imprensa
Estamos num tempo que gosta de rankings. Até para os massacres americanos e aparentemente tresloucados.
Como em relação a muitas outras coisas, penso que valem o que valem (foleiro lugar-comum, mas foi o que saiu). Dependem dos critérios utilizados e da informação que existe acerca deles; por vezes, até, dependem da forma como se credibiliza ou não esta ou aquela fonte de informação.
Independentemente disso, fiquei muito satisfeito ao ler que o meu país ficou, pelo segundo ano consecutivo, em 10º lugar mundial no ranking de liberdade de imprensa dos Repórteres sem Fronteiras.
Independentemente, também, de todas as considerações que se irão seguir, é motivo de orgulho que os jornalistas não sejam objecto de censura prévia estatal nem sejam mortos, agredidos, fisicamente intimidados ou perseguidos nos tribunais por dá cá aquela palha - a não ser que, por exemplo, chamem "palhaço" a quem lhes chama "filhos da puta" e "bastardos", mas tem imunidade parlamentar.
É claro que até eu próprio, irrelevante criatura, vivi dois casos em que uma das mais importantes empresas nacionais usou o seu estatuto de grande anunciante para pressionar (através de telefonema aos directores) jornalistas que tinham publicado dados e declarações minhas. Num dos casos, o jornalista tinha de facto metido uma argolada técnica, que foi usada como desculpa; no outro nem isso.
Mas situações destas, dirão muitos, não são atentados à liberdade de imprensa, mas o saudável funcionamento dos mecanismos de mercado.
No entanto, a liberdade de imprensa não é a liberdade dos jornalistas - nem nunca o terá sido, e merece discussão se o deverá ser.
Cada orgão de imprensa é um micro-cosmos de relações de poder, que não depende apenas de pressões externas. E é também uma empresa - que, muitas vezes, não importa sequer que não dê lucro financeiro, pois dá outros lucros. E esses são os que mais importa defender, na perspectiva de quem investe e manda.
Ouvimos, então, o presidente do Sindicato dos Jornalistas lembrar que “a precaridade é um elemento de censura económica e condiciona a liberdade e independência do jornalista”.
Ou uma vogal da Entidade Reguladora da Comunicação Social dizer que “as dinâmicas de funcionamento dentro de cada redacção são, por vezes, mais pesadas do que os velhos constrangimentos sentidos até meados do século XX” e que a (auto?)regulação dos jornalistas "é o primeiro patamar da defesa da liberdade de imprensa”.
As limitações à liberdade de imprensa não se esgotam nos constrangimentos externos sobre os jornalistas, ou sequer na muito em voga (e necessária) discussão sobre as dinâmicas das agendas noticiosas.
Os jornalistas são, também, assalariados (muitas vezes quase semi-proletarizados), num quadro de relações de poder laboral que se liga a relações de poder globais, numa situação de progressiva concentração empresarial.
Como passam a vida a dizer os sindicalistas sul-africanos, justifica-se perguntar "uét abát de uékass?" (ortografia oficial: what about the workers)
Vamos discutir?
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Foi há 14 anos
Ouvimos o impossível: a inconcebível notícia da morte de Ayrton Senna.
Olhámos um para o outro, incrédulos. Ele encostou a carrinha e ficámos para ali a ouvir o resto do noticiário, à espera de qualquer coisa que confirmasse a notícia, ou nos dissesse que tínhamos ouvido mal.
Desde essa altura, o 1º de Maio deixou de ser, para mim, apenas o Dia do Trabalhador, de celebração, desfile, reclamação e encontro de amigos.
É sempre, também, o dia em que o Ayrton morreu.
Recordem, aqui, a mais bela volta na história da Fórmula 1.
Donington, 1993, by Ayrton Senna.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Malhar em ferro frio
O que não falta ao governo são, certamente, razões para ser censurado.
Se outras não houvesse, bastaria um primeiro-ministro que reage a essa notícia dizendo que se trata de uma "moção de censura contra o diálogo na concertação social"...
Mas, realmente, o novo Código de Trabalho (pois há alterações que transformam as coisas em algo qualitativamente diferente) merece toda a censura e toda a oposição - tal como o tinha merecido, em Janeiro, a ratificação do Tratado de Lisboa sem referendo, contra o próprio programa eleitoral do governo.
Assim como na altura dessa moção de censura do BE, parece que para o nosso primeiro a política (nas grandes questões nacionais, e não apenas para ganhar a concelhia do partido lá na santa terrinha) se resolve e reduz a umas cambalhotas hermenêuticas e a umas bojardas bombásticas em que nem sequer acreditam o próprio e os acessores que as escreveram.
Por parte dos censurantes, ainda percebo que uma questão de Estado como a ratificação do Tratado possa levar à apresentação de uma moção que se sabe, à partida, ir ser derrotada.
Não dou menos importância à precarização do emprego. Mas fazer, agora, uma moção de censura para «transportar o descontentamento, a angústia e o protesto» para o parlamento soa-me a leviandade.
Porque há muitas outras formas de fazer esse transporte.
Porque se banaliza a figura da moção de censura.
Porque um gesto simbólico votado à derrota vai ser apresentado como um grande combate político.
Porque vai ser olhado pelas pessoas, mais do que como uma luta do PCP com o PS, como um "não ficar atrás" do BE («e, vejam, não nessas mariquices das Europas, mas nos problemas concretos dos trabalhadores!»).
Porque o pessoal, ao fim e ao cabo, se está nas tintas para que o assunto seja abordado numa moção de censura para perder.
Porque se vai dar oportunidade ao nosso primeiro para dizer, enquanto nos lixa a vida, que a "democracia falou" e que a legitimidade das "alterações" saiu reforçada.
Claro que, se estivesse lá sentado, votaria a favor da moção de censura - ingloriamente, como os outros que o vão fazer.
Claro que gosto de cantar «Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais». Mas convém escolhê-las.
Claro que tenho plena consciência da importância política dos gestos simbólicos. Mas eles podem simbolizar impotência.
Ao fim e ao cabo, parecem-me demasiados "porques" para que alguém alce esta moção em bandeira. E fazê-lo levanta mais um:
Porque parece que não se sabe que raio mais fazer.
Vistas de longe, esta encenação e deixas (opositoras e primeirísticas) parecem um bocado ridículas e bastante confrangedoras.
Digam-me: vistas de Portugal perdem essas características?
Ou só quando são vistas de dentro dos aparelhos partidários?
terça-feira, 29 de abril de 2008
Não dá para acreditar! (2)
A propósito deste post e desta notícia, recebi de um leitor que se identifica como Miguel o seguinte comentário:
Decreto-Lei 62/2006:
Artigo 7º
3 - Os pequenos produtores dedicados devem comunicar à Direcção-Geral de Geologia e Energia (DGGE) e à Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo (DGAIEC), até ao final dos meses de Janeiro, Abril, Julho e Outubro, as quantidades de biocombustíveis e ou de outros combustíveis renováveis por si produzidas no trimestre anterior, bem como a identificação dos consumidores e das respectivas quantidades que lhes tenham sido entregues.
4 - O reconhecimento como pequeno produtor dedicado está sujeito a despacho conjunto do director-geral de Geologia e Energia e do director-geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo.
Artigo 14.º
1 - Constitui contra-ordenação punível com coima de (euro) 500 a (euro) 3740, no caso de pessoas singulares, e de (euro) 2500 a (euro) 44891, no caso de pessoas colectivas:
a) A violação das quotas mínimas previstas no n.º 2 do artigo 5.º;
b) A violação do disposto nos n.os 1, 3 e 4 do artigo 6.º;
c) A violação do disposto no n.º 4 do artigo 7.º e no artigo 11.º;
d) A violação do disposto no n.º 1 do artigo 9.º;
e) A violação do disposto no n.º 1 do artigo 10.º
2 - A negligência e a tentativa são puníveis.
Artigo 15.º
A instrução dos processos de contra-ordenação, instaurados no âmbito do presente decreto-lei, compete à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica e a aplicação das correspondentes coimas e sanções acessórias compete à Comissão de Aplicação de Coimas em Matéria Económica e Publicidade, sem prejuízo das competências próprias de outras entidades.»
Cumpre-me comentar o seguinte:
Eh, homem! Isso é que é militância profissional!
Diria que o senhor ainda chega a chefe da tasca, se não corresse o risco de o ter a inspeccionar-me a salubridade da cozinha lá de casa, quando voltar a Portugal.
Confesso que prefiro o novo estilo "Incorruptíveis contra a Droga" do que o mais batido "Ó Abreu dá cá o meu e fica tudo na mesma".
Mas confesso também que deve ser necessária uma personalidade e uma visão do mundo que escapam àquilo que conheço, compreendo e considero saudável, para alguém se devotar à protecção e fiscalização de regulamentações e leis absurdas (a não ser que sejam feitas para proteger os interesses de grandes empresas), só porque existem.
Desculpar-me-á, mas só consigo compreender isso à luz de mentalidades de há mais de 34 anos e 4 dias, ou à luz da consciência de quem é que se está a defender - e, neste último caso, deveriam ser pagos pelas tais empresas e não pelos meus impostos.
Quanto ao sumo da sua objecção, não me irei obviamente dar ao trabalho de pesquisar os outros artigos todos para ver a que é que se referem aqueles que envia.
Em termos legais, a primeira estranheza que se me levanta é como é que uma Junta de Freguesia pode ser considerada um "produtor dedicado" de produtos materiais.
Não sou jurista, mas sei qual é o significado jurídico dessa expressão - e, neste caso, a sua aplicação a uma instituição como essa é uma contradição de termos e um abuso grosseiro.
Acresce que o Presidente da Junta diz no artigo (e ninguém nega) que pediu várias vezes as autorizações, que certamente terão tempo limite para despacho, e estas não tiveram seguimento.
Onde foi recolhida a informação que levou à coima? Nos serviços dos Directores-Gerais que não cumpriram a sua obrigação?
Mas, desculpar-me-á, o cerne da coisa não está para mim em definições de figuras jurídicas e duplicidades de critérios, mas nas próprias regulamentações que vão sendo importadas em catadupas, aparentemente tão irrelevantes que ninguém se dá ao trabalho de as estudar, e no empenho de mostrar serviço inspeccionando o seu cumprimento à letra (ou, neste caso, contra a letra), por absurdo, impossível ou socialmente indesejável que seja.
Mantenho, por isso, as interrogações do post que comentou:
O bom senso meteu férias?
A inteligência ausentou-se para parte incerta?
E, por favor, não me diga que quem tem que inspeccionar o cumprimento legal não tem que reflectir sobre o contexto concreto que inspecciona, tem apenas que aplicar o que está escrito.
Porque isso não é uma atitude de objectividade e independência. É uma tomada de posição e uma ideologia.
Brown mushrooms
Há um petisco que nenhum apreciador de comida saborosa deverá perder na África austral.
Não sei o nome da espécie, só que são vendidos nos supermercados de Maputo, vindos da África do Sul, como "Brown Mushrooms".
Já tentei muitas formas de os cozinhar, nenhuma delas merecedora de desprezo, mas acabei por me fixar nesta:
Tiram-se os pés aos cogumelos e cortam-se aos pedaços (às metades, se foram dos mais pequenos, às fatias se foram grandes).
Metem-se numa panela com um pouco de manteiga derretida, só o suficiente para fazer uma camada no fundo, e deixam-se em lume brando, cerificando que não se pegam ao fundo no início da operação.
Quando já largaram os sucos e fervem num molho quase preto, deita-se um pouco de limão e de molho de soja. Tudo só um bocadinho, coisa ligeira, apenas para lhes realçar o sabor.
E continuam em lume brando até estarem totalmente cozinhados.
Podem ser servidos como entrada, ou junto com o prato.
Nesse caso, aconselho uma carne que se saiba tornar discreta e arroz branco ou, melhor ainda, uma maçaroca de milho cozida. Um branquinho seco e fresco cairá a matar.
PS: deu-me para este post agora porque fiz isto ao almoço e a minha senhora me lançou um olhar daqueles que juram amar-nos para sempre. Será que as mulheres se prendem pelo estômago?
Como prever tempestades africanas
1 - Consultar o termómetro e o higrómetro (que sobem) e o barómetro (que desce).
2 - Perguntar a este vosso criado se ficou subitamente com dor de cabeça e uma graaaanda preguiça.
Como saber se a tempestade é forte? Também dois métodos:
1 - Pesquisar na internet (a informação chega com atraso, mas dá).
2 - Contar o número de cabeças no meu quarto. Se são duas, é fraca. Se são quatro (incluindo uma de cão), é forte.


























