sexta-feira, 30 de maio de 2008

Futebol acima da lei



Lá que os donos do futebol estão, em muitos países, acima da lei, já cá se sabia.

Mas que a FIFA tenha decidido voltar a impor um número limite de jogadores estrangeiros em cada equipe já leva a coisa para outro patamar.

A FIFA sabe, e foi-lhe lembrado, que uma restrição como essas é ilegal na Europa (o continente onde a regra seria pertinente), dado violar as normas e direitos comunitários de livre circulação de trabalhadores.
Porque o faz?
Por arrogância? Para ganhar poder negocial noutras questões? Para permitir umas negociatas até o Tribunal Europeu julgar casos que tornem ilegal essa regra?

Uma coisa parece certa: parece quererem mostrar que estão acima das leis, pelo menos até os obrigarem ao contrário.

Espíritos maus e xenofobia


Hoje não há "Citações de Café".

São substituídas por esta notável carta de leitor ao jornal Notícias, que esclarece todo o imbróglio da violência xenófoba na África do Sul:
Os africanos são por essência bons e religiosos, particularmente os Zulus, mas estes sofreram tanto às mãos dos forasteiros e foram tão humilhados por não terem podido reconstruir o seu anterior império, que lhes «sobem os nervos» e dão em agredir até à morte os pobres mais pobres que eles.
Tudo culpa de um espírito maléfico que os assombra.

Vale a pena ler.
Foi uma descoberta do Carlos Serra, claro.

Ecologia e caviar

Fiquei hoje a saber que o Secretário-Geral da ONU decidiu deixar de servir caviar nos jantares que oferece, por os esturjões se terem tornado espécies ameaçadas.

Chega atrasado. Eu, sempre segui fielmente esse princípio ecológico. Nunca servi caviar às visitas.
Ou julgavam que era só por eu ser um pelintra, seus más-línguas?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Que horror!

Procura de diálogo à esquerda junta socialista Manuel Alegre e Bloco de Esquerda.
Para dialogar, para reflectir, para discutir caminhos, esclareça-se.

Por este andar, qualquer dia o PCP tem uma travadinha, mete na cabeça que o principal inimigo político não é o resto da esquerda e junta-se à dança!
Já imaginaram? Que horror!
Ainda era capaz de se criar uma alternativa ao centrão "bute-lá-gerir-a-crise"...
Abrenúncio!

Citações de café (6)

SEGURANÇA PRIVADA

- Roubaram-me o farol do carro à porta de casa e o sacana do guarda diz que estava a mijar! Teve foi medo deles e fugiu...

-Quanto é que lhe pagas?

- Pago bem, pago um milhão.*

- E, por esse dinheiro, estás à espera que o homem leve porrada a proteger um carro que não é dele?


* 1.000 meticais, cerca de 27 euros - por mês.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Homens na Garrafa e Mulheres Poderosas

Terei o prazer de apresentar, amanhã à tarde, uma comunicação ao Grupo de Discussão Sobre Violência, com o título "Homens na Garrafa e Mulheres Poderosas: limites à masculinidade e feminilidade".
Suponho que a entrada é por convite, mas quem estiver mesmo interessad@ pode contactar o WLSA-Moçambique. Já agora, dêem uma volta pelo site. Vale muito a pena.

Resumo da comunicação:

Na região de Maputo, quase toda a gente conhece e sabe usar o “discurso politicamente correcto” da igualdade de género.
A distância entre aquilo que se diz e aquilo que se pensa e faz torna-se, no entanto, visível a partir de duas situações que indicam os limites impostos pela comunidade ao comportamento masculino e feminino:

1) as acusações de que homens foram “metidos na garrafa”;
2) as dificuldades e negociações a que são submetidas mulheres com algum tipo de poder – político, económico, espiritual ou social.

A Lei da Família, o discurso sobre género e a circulação de informação tiveram um impacto importante, mas o espaço para a negociação dos comportamentos de género continua a ser marcado pelas relações de poder anteriores.

Citações de café (5)

PÓS-APARTHEID


Num subúrbio balnear de Durban, África do Sul, em 2008.

- Já reparaste que estamos aqui há dois dias e os únicos "negros" que vimos são os empregados?

terça-feira, 27 de maio de 2008

Citações de café (4)

A AMA

Na mesa ao lado, estava um casal com dois filhos pequenos, a cargo de uma jovem ama.

Devem tê-la mandado fazer qualquer coisa, pois ia em direcção aos empregados.

- Ó estúpida! - gritou o homem.

Instantaneamente, a rapariga virou-se. Já dá pelo nome.

«Xenophobia hurts like apartheid»

Mas, felizmente para a África austral, "Madiba" não é a única reserva moral.
Há os muitos milhares que se manifestam contra a violência xenófoba e a apatia do governo de Thabo Mbeki.
Há o ANC, que os convocou - e há, sobretudo, a sua diversidade e profunda democracia interna.
Pelo menos, quero ter a esperança que assim seja.


PS: não encontrei essa manifestação "irrelevante" na imprensa portuguesa on-line...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

E o puto ganhou!



Para quem gosta de automobilismo, é um prazer vê-lo conduzir naquelas ruas estreitas, como já tinha sido no ano passado. Sendo bem diferentes, lembra-me em qualquer coisa o Ayrton Senna.

argumentei por aqui, há meses atrás, por que razões acho que ele não tem nada de piloto-proveta.

E, antes que alguém venha aqui atribuir esta minha simpatia à sua cor de pele (da mesma forma como muito se vociferou contra quem supostamente "torce" por Obama devido à sua), deixem-me escrever um conselho: vejam-no primeiro e falem depois.

Citações de café (3)

NO PAÍS DA FLEXIBILIDADE MORAL



Na mesa ao lado, frente a uma colecção de garrafas vazias, dois docentes peroravam acerca do futuro do país - e do seu futuro nele.
Depois de recitarem o credo na altura em moda («Não há desenvolvimento sem a criação de uma burguesia nacional»), começaram a comentar um colega que tinha iniciado um negócio de fornecimento de serviços especializados.

- Ele pode ser muito bom técnico, mas não vai ter sucesso como empresário. Falta-lhe flexibilidade moral.

Já com a minha pizza de take-away na mão, dei comigo a cantarolar, rua fora, a música do Sítio do Picapau Amarelo.
Com outra letra: «No país da flexi-bi-li-daaaade mora-aaaal».

domingo, 25 de maio de 2008

+ xenofobia, + Zimbabwe


Por vezes, só dá para comentar «Genial!»

(clique para aumentar)

Citações de café (2)

«OBRIGADO»

O empregado pousou a cerveja na minha mesa.
Embrenhado na leitura de um artigo interessante, devo ter balbuciado um agradecimento meio automático.

Pelo canto do olho, reparei que continuava ali parado. E olhei.

- Sabia que lembrava do senhor. É o senhor que diz "obrigado"!

No ano anterior, tinha nascido a minha filha e eu não tinha vindo a Moçambique.
Há 2 anos que não entrava naquele restautante.

sábado, 24 de maio de 2008

"Risco" em debate

João Areosa deu-me o prazer e a honra de me contactar para debater e criticar alguns aspectos dos trabalhos que disponibilizei nos "Artigos XXL".
E-mail puxa e-mail e pensámos que seria interessante debater por aqui, abrindo a conversa a outros interessados e procurando capitalizar eventuais surpresas trazidas por outros participantes.

A caixa de comentários deste post é, por isso, um espaço de discussão acerca da incerteza, do "risco", da "sociedade do risco" e do mais que aparecer, com isso relacionado.
O pontapé de saída é dado pelos reparos que o João Areosa me fez. Espero outros da vossa parte, antes de entrar na discussão.
Discussão que irá estar aqui, na página inicial do blog, até já não haver ninguém interessado em participar.

Sejam bem-vindos. E não se acanhem.

Citações de café (1)

SOLIDÁRIO

O telemóvel tocou e o homem interrompeu o jantar.

- Sim, Sr. Langa. É para avisar que amanhã de manhã hão de passar no armazém, para levar aquelas nossas tendas grandes para Beluluane.* Aquilo dá para mais de 100 pessoas, não dá?

- (...)

- Não, não é para facturar! É para emprestar.

* Centro de recepção para os refugiados da onda de violência xenófoba sul-africana.


O homem é português ("Claro!", dirão muitos moçambicanos conhecedores dos seus compatriotas com posses...) e não parece, do todo, um ricaço. Só alguém com um pequeno negócio.
Por vezes, fico orgulhoso do meu passaporte.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Internacionalizar a Amazónia?

Podia fazer apenas um link para o Macua, de onde copiei esta notícia, mas não resisti a reproduzi-la na íntegra.

Claro que a resposta do ministro brasileiro é sofística. Os males do mundo não justificam a nossa incompetência para resolver os nossos próprios problemas. Nem é legítimo fazer depender a sua resolução da súbita transformação do mundo num sítio cor-de-rosa de passarinhos esvoaçantes, paz, amor e justiça social.

Mas lá que a arrogância dos maiores poluidores e criadores de problemas globais e localizados no planeta, dos maiores nacionalizadores e privatizadores de bens de interesse universal um pouco por todo o mundo, merece que lhes lembrem certas verdades, lá isso merece.

Tal como o merecem os estudantes de pós-graduação das boas universidades estado-unidenses, quase sempre geniais e descobridores da pólvora comparados com quem os precedeu, até ao momento em que os resultados do seu trabalho são conhecidos e se revelarem medianos, quando não medíocres.

Então, aqui vai:

«Durante um debate numa universidade nos Estados Unidos, o Ministro da Educação brasileiro, Cristovam Buarque, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia. O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro. Esta foi a resposta:

- De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro...
O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar, com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro.
Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!»

28/5: O Zé Paulo, do Lanterna Acesa, esclareceu que este discurso é já de 2000. Tem também um post em que são referidos outros aspectos relevantes acerca do assunto. Sugiro que o visitem.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A bola vista de Maputo


Acabada a final da Liga dos Campeões europeus, com a vitória do Manchester United, começaram a soar nos prédios à volta, aqui em Maputo, cornetas e buzinas.
Adeptos do Manchester por terem alguma coisa a ver com a cidade, só conheço o meu amigo Alexandre. De onde vem este entusiasmo, então?

A principal ligação que hoje existe entre Moçambique e Portugal (desculpem-me os cooperantes, óénegistas, saudosistas, divulgadores culturais e empresários) é o futebol.
À segunda-feira, em todo o lado se discutem os jogos da Liga portuguesa, incluindo entre professores universitários.
O facto de não ter sido transmitida a final da Taça de Portugal foi visto como uma enorme falha de serviço público, por parte da RTP África e dos canais locais.
Toda a gente é do Sporting, do Benfica ou do Porto, tirando alguns exóticos cujo coração bate por outras lusas cores. Por vezes, há relação entre isso e ser dos ex-Sporting e Benfica de Lourenço Marques, mesmo se os equipamentos pós-independência procuraram cortar os cordões umbilicais (o Maxaquene tem todas as cores dos principais clubes portugueses menos o verde, o Desportivo virou alvi-negro, embora subliminarmente com o desenho da bandeira de Lisboa), outras vezes não. Numa curiosa transposição geográfica, a maioria dos adeptos moçambicanos do Porto nasceram no norte do país.

Mas... o Manchester e o Chelsea?
O pessoal gosta muito, por aqui, do Eto (Barcelona) e do Drogba (Chelsea), o que leva a simpatias pelos seus clubes.
Mas, neste caso, o assunto era outro - ou, creio, outros dois.

Tirando alguns indefectíveis, havia muito moçambicano que não queria ver o Chelsea ganhar sem o Mourinho.
Eram mais ainda aqueles que não queriam ver o Cristiano Ronaldo perder.

Eu, que sou mais da linha Figo (embora me maravilhe com a genica e habilidade do puto), fico um pouco surpreendido com a rapidez e profundidade com que o Cristiano Ronaldo ocupou os corações moçambicanos.
Pensando bem, no entanto, a sua forma de jogar criativa e vistosa tem muito com que os moçambicanos se gostem de identificar.

É a parte imaginada de Portugal de que gostam, numa relação sempre dúbia e ambígua.
Lamento escrevê-lo, mas esse puto mal educado e genial com a bola é, hoje em dia, o principal embaixador de Portugal por estes lados.
Mesmo quando falha.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O mal e a caramunha

É incrível, mas está a acontecer.

Mugabe diz que "O MDC, criado sob ordem da Grã-Bretanha, lidera uma cruzada do mal para dividir o nosso povo no plano político e continuar a orquestrar actos abomináveis de violência política visando cidadãos inocentes".
Ou seja, acusa a oposição, vencedora nas últimas eleições, de estar a matar, torturar e agredir os seus próprios dirigentes e votantes. Isto, quando é bem conhecida a realidade pela boca das próprias vítimas e se conhece não apenas a acção das milícias da ZANU, como os militares superiores que foram destacados para as comandarem em várias zonas.

Será para sustentar esta fábula (que me parece mais virada para para os dirigentes dos países limítrofes do que para dentro do próprio país) que a polícia zimbabuéana chegou ao extremo inconcebível de deter os embaixadores dos Estados Unidos, Grã-Bertanha, União Europeia, Holanda, Tanzania e Japão, quando se tentavam dirigir a uma das zonas de violência contra votantes da oposição?

Ao contrário de outros ditadores em queda livre, Mugabe já não manda sozinho no país, desde pouco depois das eleições. É apenas um dos pares, numa junta da oligarquia politico-militar.
O que se tem estado a passar não é. por isso, o resultado das "pancadas" de um homem demente. É a acção deliberada de uma elite rapace que vê o país como propriedade sua e não concebe a possibilidade de perder os seus privilégios.

Individual ou colectivo, o crepúsculo dos deuses é quase sempre ridículo.
Mas, tragicamente, é habitual que tentem levar consigo a "sua obra" - o seu país e o povo que neles acreditou.

Será que as lideranças dos outros países da África austral não aprenderam nada com a história e com esta crise, para que continuem na "diplomacia silenciosa"?
Sim. Alguns aprenderam.
Angola aprovou legislação autorizando, em toda a legalidade, o adiamento da divulgação de resultados eleitorais durante 15 dias. Para que eleições, neste século ou no próximo, é que não se sabe.

terça-feira, 20 de maio de 2008

É hoje! - antropologia industrial

Apresentarei hoje no Instituto Camões (edifício da Embaixada portuguesa em Maputo) a palestra "Mozal: o nascimento de uma cultura de fronteira". Será às 18 horas e estão todos convidados.

Resumo da palestra:

“Multiculturalismo” é uma forma particular de entender a relação entre culturas diversas, que tende a ser substituída na antropologia pela noção de “transculturalidade”, mais dinâmica e interactiva. É nesta última perspectiva que se enquadram as “culturas de fronteira”, de que será debatido o caso da Mozal.

Nesta fábrica interpretada pela população como se de uma mina a céu aberto se tratasse, os operários regem o seu trabalho por estrita racionalidade tecnológica, mas os anteriores sistemas locais de domesticação do infortúnio, envolvendo espíritos e feitiçaria, são partilhados ou suscitam uma dúvida plausível à maioria deles. Estas racionalidades coexistem em paralelo, com âmbitos de aplicação separados: ou a normalidade do funcionamento tecnológico, ou a interpretação dos acidentes que a subvertem.

Por isso e por ambos os sistemas exigirem atitudes securitárias semelhantes, não são contraditórios nem põem em causa produtividade e segurança. Neste caso, cuja especificidade será discutida, não há razões para que a hegemonia da racionalidade tecnológica leve ao abandono das racionalidades “tradicionais”.

No entanto, há alguns particularismos locais que mantêm uma relação mais conflitual com a “cultura da empresa” a um nível abstracto e transnacional, designadamente as lógicas de poupança e as interpretações acerca da responsabilização das chefias em caso de erro.

Xenofobia mata em Joanesburgo

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Na última semana, uma onda de violência xenófoba em Joanesburgo (contra zimbabuéanos, moçambicanos e malauianos acusados, paradoxalmente, de responsabilidade no aumento do crime e de "roubarem" os empregos) lançou o terror nos bairros mais pobres e provocou já 24 vítimas mortais.

Sendo grave e preocupante em qualquer lado, isto suscita sentimentos terríveis quando pensamos que se passa no país que sofreu décadas com o apartheid - estranhamente, declarado em nome do "Grande Arquitecto do Universo", facto pouco estudado mas que qualquer um pode confirmar ao visualizar o discurso, no Museu de Apartheid.

O comics Madam & Eve de hoje mete, como tantas vezes acontece, o dedo na ferida: como é fácil reproduzir, para os outros, aquilo que de pior vivemos e nos fez revoltar, mas se tornou uma referência, consciente ou não.
Um assunto a merecer estudo e reflexão. No fim de contas, não é apenas no Moçambique independente, no Israel que se sente acossado, ou nos bairros sul-africanos a caminho do desespero que encontramos este fenómeno.