segunda-feira, 23 de junho de 2008

Citações de café (10)

MATEMÁTICA PARA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA


Na televisão, ao lado da mesa, passa hoje o telejornal da estatal TVM.

O pivõ: Na província de Gaza, foram este ano despedidos 10 funcionários públicos, na maioria dos casos por abandono do posto, mas também por mau atendimento ao público.

Uma responsável provincial: ... também foram despedidos este ano 10 funcionários, a maioria por abandono do posto. Há alguns casos, poucos de indisciplina. Alguns até com violência. Mas a maioria, podemos dizer que 95%, foi por abandono do posto.


(É verdade: há quanto tempo não visitam o "Que diz o pivõ?")

Razões de uma recusa

Como nem toda a gente percebe inglês e os programas de tradução automática são um pouco... bem... criativos, aqui ficam as razões invocadas por Morgan Tsvangirai para se recusar a participar na segunda volta das presidencias no Zimbabwe:

Violência patrocinada pelo Estado
Segundo o MDC, os grupos internacionais de direitos humanos e, progressivamente, os observadores eleitorais da região, esquadrões de rufias da Zanu-PF empreenderam uma campanha de intimidação e violência. Não usaram apenas apoiantes do partido, mas também instituições estatais de segurança como a polícia e o exército.

Impossibilidade de fazer campanha
Um diplomata ocidental descreveu Morgan Tsvangirai como um «prisioneiro de Harare». A cidade está rodeada de bloqueios de estrada oficiais e informais que impedem eficazmente o lider do MDC de contactar os seus apoiantes. A polícia deteve-o pelo menos 5 vezes, comícios do MDC foram proibidos e, num golpe final, membros armados da brigada juvenil da Zanu-PF ocuparam o estádio de Harare onde o MDC tinha preparado o seu maior comício.

Dizimação dos quadros do MDC
O partido afirma que mais de 80 dos seus membros foram assassinados nos meses recentes. Centenas deles foram obrigados a esconder-se, tornando impossível ao partido organizar-se.

Desconfiança na Comissão Eleitoral do Zimbabwe
Na sua declaração, o partido afirma-se chocado com o grau de partidarização da ZEC, e acusa a comissão de estar dominada por milicias da Zanu-PF.

Falta de acesso aos media
Os media independentes foram atacados os impedidos de fazer reportagens no Zimbabwe. Os media estatais ou ignoram o MDC, ou retratam os seus membros como violentos paus-mandados do ocidente. Recusam publicar anúncios de campanha do MDC.

Ameaças de Mugabe
Nos discursos recentes, o presidente Mugabe disse repetidamente que se recusa a desistir dos ganhos da guerra de libertação por causa de um 'x' num boletim de voto. Também disse que "só Deus me pode destituir".

Planeada adulteração de resultados eleitorais
O MDC listou aquilo que descreve como um plano elaborado e decisivo da Zanu-PF para adulterar os resultados eleitorais.

Tudo razões bem fortes e justificadas.
Mas continuam a colocar-se-me as dúvidas e perguntas que aqui expressei.
E vocês? O que pensam?

Adendas: entretanto, Tsvangirai está refugiado na embaixada da Holanda, após a polícia ter assaltado a sede do MDC esta manhã e prendido vários dirigentes.

Antes, o governo tinha pedido ao MDC que voltasse atrás na decisão de não participar na 2ª volta. Seria para os poderem prender e matar mais à vontade?

PS: reparei que tenho muitos posts sobre as eleições zimbabuéanas. Etiquetei-os aí ao lado, no "Armazém", para quem quiser acompanhar todo o conjunto e os links para fontes de informação.

domingo, 22 de junho de 2008

O campeonato dos chatos

Dividi-me, quanto à imagem, entre um piolho pubiano e este logotipo, cinzento como o Euro 2008 se tornou.

Só a Espanha, uma equipa banal, conseguiu evitar que apenas passassem às meias-finais as equipas mais desinteressantes e que, nos grupos de apuramento, se viram e desejaram para não serem eliminadas. Mas não conseguiu marcar um golo.

Cheira-me que, também na final, o campeão só será conhecido por penalties... E que não será a Rússia, já que é a equipa que melhor está a jogar, dentre as que sobram.

O crime compensa

Morgan Tsvangirai, líder do partido mais votado nas legislativas zimbabuéanas e candidato mais votado na primeira volta das eleições presidenciais, retirou-se da segunda volta, marcada para dia 27.
Diz que não pode pedir aos eleitores que arrisquem a sua vida ao votarem nele.

O risco tornou-se, de facto, bastante maior desde a primeira volta.
Mais de 60 dirigentes e activistas do MDC mortos por esquadrões da morte, milhares de pressupostos votantes agredidos e expulsos das suas zonas de residência, ajuda alimentar (tornada essencial à sobrevivência, num país que era "o celeiro da África austral", devido ao caos criado pelo regime na última década) só entregue a quem apresentar cartão da ZANU-FP de Mugabe, o secretário-geral do partido que venceu nas urnas acusado de alta traição (que dá pena de morte) por ter revelado os resultados eleitorais que o regime queria esconder... Um vasto rol de violência e ilegalidade, que podem ver aqui.

O risco de morte é terrivel e bem real, mas... não é um pouco tarde para pensar nisso?
Que vão dizer às famílias dos assassinados, aos torturados e agredidos, às violadas, aos expulsos que viram as suas casas arder, por terem tido a coragem de votar contra Mugabe?
Que afinal fica tudo como era dantes? Que tudo foi em vão?

Se o deixarem, Mugabe - automático vencedor, sem oponente - vai dissolver o parlamento eleito, onde ficou em minoria, e convocar novas eleições. Será que o MDC não vai participar, para não pedir às pessoas que corram risco de vida por votarem em si?

É certo que a primeira dama garantiu que, mesmo ganhando, Tsvangirai nunca iria ver o interior do palácio presidencial. É certo que Mugabe garantiu que «as balas são mais fortes que as canetas» (de votar) e que, caso perdesse nas urnas, as utilizaria.

Será que o MDC recebeu garantias? Como o governo de unidade nacional liderado pelos perdedores, proposto pelo velho Kaunda e, há poucos dias, pelo presidente da África do Sul que tantas responsabilidades tem no assunto?
Mas o que valem as garantias de dirigentes regionais que olharam para o lado e assobiaram enquanto Mugabe meteu o seu país e o seu povo a ferro e fogo, e que receberam Tsvangirai, já vencedor eleitoral, fazendo-o passar por um detector de metais?

Esperemos para ver. Pela minha parte, não tenho (neste assunto) muita fé nem nas lideranças regionais, nem na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas que dizem irá haver.

PS: e que se lixe a bola

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Você disse «eleições livres»?

Jacob Zuma, presidente do ANC (África do Sul) disse que não acredita que a segunda volta das eleições no Zimbabwe seja livre.

É um enorme contraste em relação à "diplomacia silenciosa" de Mbeki e vários líderes regionais, que tem deixado as mãos livres a Mugabe, mas começa a ser uma declaração tímida, face ao que se está a passar.
Quando foi anunciada a realização de uma segunda volta nas eleições presidenciais zimbabuéanas, este cartoon era, de facto, adequado:

Depois de todo o rol de sistemática violência, intimidações e assassinatos (cujo levantamento podem acompanhar aqui), este plágio está bem mais próximo da realidade:


quarta-feira, 18 de junho de 2008

55 anos para casarem

Soube pelo Arrastão que um dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo realizados 2ª feira na Califórnia, após o Supremo Tribunal ter declarado inconstitucional a lei estadual que os proibia, uniu estas duas senhoras, que vivem juntas há 55 anos.

Dá-me vontade de exclamar: «Que se lixe todo o mal que há a dizer acerca do casamento, enquanto instituição!»
Para que alguém possa optar por o recusar, é necessário que tenha o direito a tê-lo.

Este caso é, de facto, enternecedor.
Mas não me enterneceria menos se fossem dois senhores de farta bigodaça, duas jovens com piercings da cabeça aos pés, ou um casal heterosexual que tentassem impedir de casar.
Porque aquilo que me enternece mais, de facto, é o acesso de qualquer pessoa aos direitos que são supostamente de todos.

Excelência premiada

O Clube dos Jornalistas atribuiu a Joaquim Furtado o Grande Prémio Gazeta 2007, pela sua série documental A Guerra, cujos primeiros 9 episódios foram exibidos o ano passado na RTP.

Só conheci Joaquim Furtado fugazmente, num debate que promoveu acerca da morte de Comandos na recruta. Mas sempre acompanhei com muita atenção tudo o que foi fazendo, com aquela seriedade e qualidade acima do habitual.

Agora, depois de um ascenso institucional e de uma aparente estadia "na prateleira", brindou-nos com esta extraordinária série!
Ao longo dos 9 episódios, sei que há quem não tenha gostado disto ou daquilo.
Considero isso normal e desejável pois, precisamente, ela não pode agradar a todos.

Porque não é a versão oficial de ninguém, mas um completo repositório dos olhares de pessoas das diversas partes envolvidas que, para além de nos proporcionar essa diversidade, nos permite compreender pontos de vista, sentimentos e leituras da história que não estamos habituados a equacionar. E perceber como elas interagiram.
Tudo isto acompanhado por uma contextualização que se faz discreta e pelo desfazer de algumas mitologias que se vieram arrastando, em Portugal e nos países que com essas guerras alcançaram a independência. Não é, Cabo Delgado?

Discordem e objectem, se tal for a vossa opinião.
Para mim, raramente este prémio foi ou voltará a ser tão merecido.

Diz o Ti Mário

Nunca pensei que me apetecesse citar aqui Mário Soares, mas a reforma dos políticos tem, por vezes, destas coisas:

«A crise global não é só energética e alimentar (...). É também política, financeira, económica, social e ambiental. Uma crise de civilização, estrutural, que teve o seu epicentro na América de Bush (...) e que começa a repercutir-se na Europa e nomeadamente na nossa vizinha Espanha. Vai chegar cá. Ninguém tenha ilusões.»

Saiu ontem no Diário de Notícias. Alguém quer comentar?

terça-feira, 17 de junho de 2008

Citações de café (9)

ESCOLA

A citação de hoje é visual.

É uma pintura mural no Clube dos Professores («com pizaria»), em Maputo, realizada por um senhor de apelido Mabote que me dizem ter sido, na altura, desenhador textil na Coelima que deus tenha.

Embora esteja datada de 2002, esse é apenas o ano em que foi refeita, a par de uma re-pintura do estabelecimento.
Já a conheci em 1999, mas tinha na altura ligeiras diferenças.
Uma das personagens que estão de costas tinha apenas duas pernas, em vez de três. E, sobretudo, havia uma vela a alumiar o livro do professor.

Não estou certo de qual era a simbologia que o autor queria transmitir - mas, a julgar pelo resto, talvez o efeito desejado fosse essa dúbia possibilidade de a vela poder representar quer o conhecimento rompendo as trevas, quer a falta de iluminação eléctrica.
Suponho que uma tal duplicidade já seria, em 2002, de um miserabilismo inaceitável numa cidade em que não possuir um 4X4 de luxo é um sinal de incapacidade para aproveitar as oportunidades que por aí correm.

Mas olhemos para aquilo que hoje podemos ver.

Reparem como só uma personagem (e aparentemente "bem casada") está atenta ao que o professor diz.
Os outros estão a "apanhar uma seca", a falar de outra coisa, a pensar na vida ou em quando poderão sair dali, a controlar o que fazem os restantes ou, sobretudo, a tentar namorar.
Num dos casos, a mulher está agradada e nos outros não. Porque, nesta parede, são sempre homens quem tenta namorar - mesmo aqueles que surgem, lá ao fundo, disfarçados de inócuas cabeças "à Malangatana" e que são bem mais do que um mero plágio estilístico.
O professor, entretanto, discorre a sua sabedoria sem olhar para ninguém, mas para um distante ponto (no espaço, no tempo e no imaginário?), para onde mais ninguém olha.

Tal como esta foto do Naita Ussene é um tratado sobre a educação sexual anti-HIV, esta pintura mural é uma aula de antropologia da educação e sobre as visões populares que a escola suscita.
Tentei, de facto, leccionar essa aula in loco, há uns anos atrás.
Os alunos devem ter achado que uma aula num restaurante ao ar livre punha em causa a sua dignidade académica.
Não sabem o que perderam.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Victor Jara em tribunal

Devido à apresentação de novas provas acerca dos seus autores materiais, vai ser reaberto o inquérito judicial à morte de Victor Jara, a quem os militares de Pinochet queimaram e partiram as mãos à coronhada, mandando-o «cantar agora». Foi fuzilado à queima-roupa quando, de facto, se dirigiu aos restantes presos e começou a cantar o hino da Unidad Popular.
Foi no Estádio Nacional de Santiago do Chile, poucos dias depois do golpe de estado que depôs Salvador Allende, fará em Setembro 35 anos.

Este senhor deve achar que é uma perda de tempo.
Os tiranos em desaceleração, por esse mundo fora, devem achar que garantir a impunidade é uma coisa cada vez mais difícil.

Citações de café (8)

SEGURANÇA INFANTIL

Os adultos discutiam as vantagens e perigos de instalar cercas eléctricas.

- Eu, se fosse uma pessoa crescida, punha era muitos pães no muro, com manteiga, queijo e chocolate, e quando um ladrão viesse já tinha coisas para comer e não roubava a casa.

sábado, 14 de junho de 2008

Assassinatos de albinos na Tanzânia

Umbhalane pediu-me para comentar e enquadrar uma notícia recente que dá conta do clima de medo entre os albinos de Dar Es Salaam, devido a assassinatos de que têm vindo a ser alvo, para que partes dos seus corpos sejam utilizadas em feitiços de enriquecimento. Uma notícia divulgada pelo Carlos Serra.

Sinto-me sempre um bocado desconfortável quando tento explicar, em poucas palavras, as razões culturais de fenómenos chocantes como este, porque pode ficar a impressão de que, por essas razões existirem, estamos a desculpar aquilo que acontece.
Esclarecendo que não é disso que se trata, vou então tentar corresponder ao pedido.
Aviso os leitores, no entanto, que a própria explicação é chocante.

A inclusão de partes de cadáveres humanos nos mais poderosos tratamentos e amuletos destinados a obter e manter riqueza ou poder é uma prática existente em toda a África austral, relacionada, por exemplo, com as mortes e roubos de orgão não transplantáveis de que temos notícia de vez em quando.

A razão para essa prática é dupla:
Em primeiro lugar, é suposto que esse tipo de tratamento se "paga em sangue" (com mortes) ao longo do tempo, sendo a morte da pessoa cujo corpo é utilizado o primeiro pagamento ao espírito que vai trabalhar para garantir riqueza e/ou poder a quem o encomendou.
Em segundo lugar, a integração de partes do corpo do defunto responsabiliza-o com o trabalho desse espírito.

Em Moçambique, que eu saiba, não existe uma predileção pelo uso de albinos nestes tratamentos e amuletos, mas é de esperar que isso possa vir a acontecer a curto prazo.
Isto porque, por um lado, a circulação transfronteiriça de novas técnicas mágicas costuma ser muito rápida e porque, por outro lado, as crenças que servem de base a essa predileção pelos corpos de albinos também existem aqui.

Há um respeitado colega que atribui a crença de que os albinos não morrem, mas apenas desaparecem, à recusa social da sua posição liminar de não serem "negros" nem "brancos". Esse aspecto é pertinente hoje em dia, mas a crença tem raizes mais antigas e razões mais complexas.

É suposto que os gémeos e os albinos resultem de um mesmo fenómeno: foram atingidos por um raio dentro do ventre materno; os gémeos partiram-se em dois e os albinos resistiram, mas ficaram queimados, perdendo a cor.

Em resultado disso, ambos se tornam "demasiado quentes" e "trovoadas sem chuva", sendo um perigo para a harmonia social, para a saúde pública (são kuhisa) e para a fertilidade da terra. Por isso (tal como os abortos, os nados-mortos e as respectivas mães) não podem ser enterrados em terreno normal, pois "secam a terra".
Os gémeos devem ser enterrados em terreno húmido e (para sua segurança) o gémeo sobrevivente deve tratar o falecido como se ele tivesse desaparecido. Não pode ir ao funeral, não pode chorar por ele e, se alguém lhe perguntar pelo irmão, deve dizer que se ausentou para longe.
Concentrando em si (ainda mais do que os gémeos, pois resistiu ao raio) o poder celeste, a ligação ao céu e a ameaça de seca de uma forma suprelativa, o albino é suposto nem sequer poder ser enterrado, mas desaparecer. Os seus familiares mais próximos devem enterrá-lo em segredo, também em terreno húmido, e agir como faz o gémeo sobrevivente, negando a sua morte.

O albino é, de acordo com estas crenças e práticas, a pessoa com mais poderes disruptores e a maior ameaça de "secar o chão", secar a fertilidade e a sobrevivência colectiva.

Ora o enriquecimento individual é visto, tradicionalmente (aliás, à imagem do poder que não redistribui o bem-estar), como um abuso que requer feitiçaria e que é feito à custa da comunidade. Quem enriquece para si próprio "seca" a riqueza à sua volta.
De acordo com esta lógica, então, o uso de partes de corpos de albinos nos tratamentos e amuletos de enriquecimento e/ou poder é uma mais-valia para a sua eficácia.

Por tudo isto, repito, temo que as más notícias que nos chegam da Tanzânia nos poderão começar, em breve, a chegar de dentro de Moçambique.
Convém que os albinos, os restantes cidadãos e os poderes públicos se preparem.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

«Isto não é porreiro, pá!»

Os cidadãos irlandeses, os únicos chamados a referendar o Tratado de Lisboa, disseram-lhe Não.
Ao contrário das primeiras notícias, mais de 53% dos eleitores foram às urnas, pelo que não existe qualquer argumento para que o referendo não seja vinculativo.

O nosso primeiro diz-se profundamento desapontado; por outras palavras, «isto não é porreiro, pá». Entretanto, o Ti Barroso, os eurocratas e aqueles poderosos em geral que acham que os povos nada têm a ver com estes assuntos insistem que os processos de ratificação continuem. Fala-se até de prosseguir a reforma a 26, deixando a Irlanda numa situação liminar que a obrigue a aceitar o facto consumado.

É a noção de democracia desta gente (haver um mandato com base eleitoral que lhes permita, depois de uma série de selecções indirectas, fazer o que quiserem) que, como tinha dito aqui, mais me desagrada em tudo isto.

Por um lado, no processo de aprovação. Mas, parafraseando a opinião do Ti Coelho acerca dos independentes, os povos são muito imprevisíveis. E, dizem que parafraseando o Brejnev, as eleições também. Mais vale evitar que eles votem no que é importante, pois podemos perder.

Por outro lado, e mais importante, porque este Tratado - sendo uma alteração essencial, numa ocasião única para repensar e aprofundar a integração europeia - apenas se preocupa em resolver as limitações à tomada de decisões envolvendo os "representantes" governamentais dos diferentes Estados. Mantendo as decisões restringidas a eles.
E confesso que me estou nas tintas para as dificuldades que os senhores primeiros-ministros possam enfrentar na tomada de decisões a 27, implicando unanimidade numas e maioria qualificada noutras. Sendo esse o problema, continuem a arranjar consensos, em vez de passarem a impor os interesses dos mais fortes e influentes.

O que está por resolver, e terá que ser resolvido numa efectiva reforma da União Europeia, é a sua democratização - que inevitavelmente passará pelo reforço muito significativo do poder do Parlamento Europeu, mesmo que com um Senado "à norte-americana" para equilibrar as questões nacionais.
Que a uma democracia indirecta, estamos nós habituados. Uma indirecta de indirecta de indirecta, só mesmo os governos e eurocratas podem levar a sério.


Entretanto, enquanto escrevia este post tive a satisfação de poder mandar um grande abraço a amigos holandeses, pela vitória futebolística de há pouco.

É que tenho uma simpatia muito especial por essa terra abaixo do nível do mar. Não só é um óptimo sítio para viver, como os seus habitantes têm uma característica que os diferencia muito dos portugueses e moçambicanos, e com a qual aprendi muito:
Enquanto nós, sob o peso histórico do hábito do fascismo (ou, por aqui, do colonialismo e do autoritarismo pós-independência) temos como primeira reacção encolher-nos perante a "autoridade", eles têm como primeira reacção reclamar de abusos sobre os seus direitos de cidadãos.
Suponho, por isso, que mesmo os mais conservadores concordariam com o que aqui deixei escrito, se conseguissem ler português.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Actualidade "engorda" blogs

Com um empurrão dos empresários hooligans, da selecção portuguesa e dos anacronismos do presidente, a comunidade dos que por aqui passam ultrapassou ontem as 2.000 almas.

2.057 para ser exacto, dos quais 1.401 vão voltando.

As questões de actualidade têm, de facto, "engordado" as audiências. Só ontem, passaram por aqui mais de 270 pessoas.

Mas este blog não é, nem pretende ser, um sucedâneo dos jornais.
É um espaço onde as notícias do momento também têm lugar, comentadas pelo olhar, não da antropologia, mas de um antropólogo particular e intransmissível.
A par de muitos outros temas, estruturantes ou relativamente marginais, e até, pasme-se, de antropologia (aquela coisa que, para além de dizerem que é ciência, tem sempre umas curiosidades giras de ler, por falar de sítios e gentes que não conhecemos, ou que julgávamos conhecer).

Por isso, convido os que por aqui passem pontualmente, vindos de um qualquer link noticioso, a dar uma voltinha - ou uma "oftálmica", como dizia o meu colega Chico Oneto nos seus tempos de estudante.
Pode ser que alguma coisa vos interesse.
E pode ser que tenham coisas a dizer acerca de algum dos assuntos que por aqui estão, enriquecendo-nos a todos com o vosso comentário.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Ó p'ra mim a gritar «Portugal!»

3 a 1 bem merecidos.

Entretanto, o homem atropelado ontem não era, afinal, um camionista, mas o proprietário de uma empresa de camionagem.

Isso nada retira ao pesar pela sua morte, ou ao seu absurdo. Mas, pelo menos, morreu pelos seus interesses e não pelos do patrão.
Aqui me corrijo, pelo erro induzido por aquele jornal de referência para quem é tudo a mesma coisa.

O governo, entretanto, continuou negociações e chegou a acordo com uma associação patronal abandonada (tacticamente?) pelos seus sócios.
Só os sindicatos que põem em manifestações de rua mais de metade dos trabalhadores do seu sector são, ao que parece, socialmente irrelevantes.

Hoje não há bloqueios de estradas

(clique para aumentar)

Notícias relacionadas: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Bola aqui, aqui e aqui. Bibó!

terça-feira, 10 de junho de 2008

A concorrência mata

De repente, sinto-me mais seguro em Moçambique, mesmo com o barril de pólvora do Zimbabwe ao lado e a xenofobia sul-africana em baixo.

A uns milhares de quilómetros de distância, saber que há bloqueios de estradas em que um homem é atropelado mortalmente por se tentar agarrar a um camião em andamento (certamente para lhe perguntar, como diz o líder da barragem, «se desejava aderir à paralização», e não para lhe mandar uma mocada na cabeça, ou coisa que o valha), numa acção de protesto de empresas de camionagem que também usam os empregados como carne para canhão, suscita-me analogias que me recuso a escrever aqui.

E choca-me que, no meio deste impune lock-out, em que empresários apedrejam, intimidam, desviam e agridem (directamente ou através dos seus assalariados, que agora até morrem) os empregados da concorrência que não adere à sua paralização, o primeiro-ministro que conhecemos fale de «direito de manifestação», mas sem «danificar propriedade alheia» e promete «a ajuda que puder».

Uma analogia, no entanto, não posso calar. A Primeira Guerra Mundial (ou, se preferirem outra mais próxima, as Guerras Coloniais/De Libertação).

Porque, sobretudo, há que dizer:
Coitado do homem que morreu a defender os interesses do patrão!
Coitado do homem que o matou, a defender, mais do que o coiro, o camião e a entrega do patrão!

Nova Constituição?

Está a levantar justificada celeuma o lapso freudiano de Cavaco Silva, ao chamar «Dia da Raça» ao 10 de Junho, como nos tempos da outra senhora.

Bem... Não se abespinhem tanto.
Quando se elege para Presidente da República um político que justificou o facto de nunca ter levantado um dedo ou uma palavra contra o fascismo por «ter que trabalhar» ("a minha política é o trabalho"), coisas destas podem acontecer.

Mas vi aqui uma coisa que poderia ser a solução para este tipo de problemas.
Em 1926, um historiador brasileiro propôs uma Constituição com um artigo único:

«Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara.»

Bastaria substituir "brasileiro" por "português".
E daí, talvez não. Parece que este pessoal do poder não é muito de cumprir leis.

35 anos de atraso

Para matar as saudades do presidente do meu país, que ainda julga que hoje é o "Dia da Raça", aqui deixo a Valsinha das Medalhas, de Carlos Tê e Rui Veloso.

Já chegou o 10 de Junho
O dia da minha raça

Tocam cornetas na rua
Brilham medalhas na praça

Rolam já as merendas
Na toalha da parada
Para depois das comendas
E ordens de torre-e-espada

Na tribuna do galarim
Entre veludo e cetim
Toca a banda da marinha
E o povo canta a valsinha

Encosta o teu peito ao meu
Sente a comoção e chora
Ergue um olhar para o céu
Que a gente não se vai embora

Quem és tu donde vens
Conta-nos lá os teus feitos
Que eu nunca vi pátria assim
Pequena e com tantos peitos

Já chegou o 10 de Junho
Há cerimónia na praça
Há colchas nos varandins
É a guarda que passa

Desfilam entre grinaldas
Velhos heróis de alfinete
Trazem debaixo das fraldas
Mais índias de gabinete

Na tribuna do galarim
Entre veludo e cetim
Toca a banda da marinha
E o povo canta a valsinha

Encosta o teu peito ao meu
Sente a comoção e chora
Ergue um olhar para o céu
Que a gente não se vai embora

Quem és tu donde vens
Conta-nos lá os teus feitos
Que eu nunca vi pátria assim
Pequena e com tantos peitos

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Patrões são outra loiça

Vai caricato o lock-out de parte dos patrões da camionagem.

Piquetes de "greve", com ameaças de apedrejamento, violência física e danos nas viaturas de quem não quer paralizar.
Com a falta de «apoio generalizado da classe», ameaças de que irão «entupir completamente Lisboa e Porto» e declarações de que não vão «incendiar camiões e pontes como os espanhois mas temos que vencer esta luta» - que são, elas próprias, ameaças de que o poderão fazer. Mesmo que talvez mais do estilo "agarrem-me se não vou-me a eles!".

Que faz o nosso primeiro, tão cioso de ordem pública e tão lesto a ordenar cargas policiais sobre, por exemplo, reais piquetes de greve frente aos aterros sanitários? Apela ao diálogo com a associação empresarial do sector, ao arrepio de todo o seu hábito e estilo, relativamente a reivindicações de trabalhadores.

Entretanto, no Público, os patrões de camionagem passaram já oficiosamente a "camionistas". Portanto, os banqueiros deverão passar, em breve, a ser chamados "bancários" no jornal.

Estou a repetir-me, mas isto é obsceno.