quinta-feira, 31 de julho de 2008

Será uma geminação com Bazaruto?

Tenho estado fora e vou estar mais uns dias.
Entretanto, numa voltinha rápida pela net, fiquei a saber que o presidente do Dia da Raça vai interromper as suas férias para dirigir ao país, pela televisão, uma comunicação da mais alta importância nacional.
Sobre o quê? Não diz.

Suspense, suspense!
Não estivesse eu a uns bons milhares de quilómetros de distância e fora de casa à hora da falação, ser-me-ia impossível aguentar o correr deste dia de incerteza acerca do tabuzinho.

Os jornais especulam.
Irá comentar o veto do Tribunal Constitucional ao estatuto dos Açores?
Quererá o homem vetar, em nome dos honorários dos advogados e dos saudáveis valores das famílias onde ninguém se atura uns aos outros, a nova legislação que facilita os procedimentos de divórcio por comum acordo?

Cá para mim, trata-se de algo muito mais substancial.
Acho que ele vai é anunciar uma geminação entre a Vivenda Mariani e a ilha do Bazaruto.

sábado, 26 de julho de 2008

Combate à insegurança ou à imigração?

Em Portugal, a Autoridade para as Condições de Trabalho divulgou, orgulhosa, que suspendeu 1.027 obras de construção civil no primeiro semestre deste ano, tendo detectado situações irregulares de segurança laboral, pagamentos à Segurança Social e imigrantes ilegais não declarados.

Há muitas e boas razões para se estar atento às condições de trabalho na construção civil.
Esse sector é, todos os anos, o recordista nacional de acidentes mortais e de dias de baixa resultantes de acidentes, mesmo sem contar com tudo o que não é contabilizado devido a situações irregulares. E a sangria continua calmamente, de ano para ano.
Toda a inspecção e pressão para que isto se altere é, por isso, benvinda.

O que estranho é que o combate ao perigo laboral só esteja a ser feito aí.
Um levantamento nacional de higiene e segurança no trabalho, de que fui relator há já 15 anos, dava conta de um panorama assustador nas empresas com actividades consideradas mais perigosas (há alguns dados aqui, na nota 2 da página 19).
O estudo é do conhecimento da União Europeia (que o pagou) e das autoridades portuguesas, mas pouco foi feito desde então, até ao nível do mero cumprimento das regras impostas pela legislação, em muitos casos insuficiente. Até a empresa mais respeitadora dessas regras legais que conheço, a Petrogal, deixa algumas por cumprir.

Por isso, a estranheza e a pergunta:
Sabendo-se que a construção civil é, a par da hotelaria, um dos principais sectores de entrada de imigrantes no mercado de trabalho, o que é que se pretende combater através deste centramento de meios e de esforços, em detrimento de outras actividades tão ou mais perigosas? A insegurança laboral, ou a imigração?

Surf & Turf (tornedó) à alentejano em África

Moçambique tem o melhor camarão que conheço e chega-lhe, da "terra dos cunhados", óptima carne bovina. Duas boas razões para este prato, numa ocasião mais especial e em que a carteira não esteja de dieta.

Cozinhem-se 2 camarões king por pessoa, seguindo a receita do camarão à pai (camarão à antropólogo sem piri-piri).
Prepare-se, apenas em água e sal, um pouco de bucatini ou de perciateli (aqueles esparguetes grossos que têm um furo no interior).
Corte-se, transversalmente à peça de carne, um medalhão generoso de fillet mignon por pessoa e frite-se em margarina, com sal e muitos dentes de alho, cortados longitudinalmente a meio. A carne nunca deverá ficar bem passada, mas tão pouco em sangue.

Sirva-se individualmente em pratos grandes.
No centro, o fillet, rodeado por alguns alhos e por um pouco de massa, disposta circularmente. Sobre esta, deite-se um fio do molho dos camarões - que deverão ser colocados um sobre a carne e outro sobre a massa.
Na borda do prato, coloque-se um bom pedaço de folha de alface e, sobre ela, folhas de rucola, agrião e coentros, encimadas por 3 tomates daqueles redondos e pequeninos. Tempere-se com sal, limão e azeite.
No lado oposto do prato, deite-se uma gota generosa de molho de ostra.

Sugiro que sirvam antes um consommé de agrião.

Adivinhem quem serão os primeiros convidados a comer isto lá em casa, quando voltar a Lisboa.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

HIV cada vez mais doença crónica

Já há mais de 10 anos que ouço médicos especialistas dessa matéria a defenderem que a infecção com HIV, causadora do SIDA (AIDS, no Brasil), deve ser considerada uma doença crónica em termos legais e terapêuticos, e não uma doença aguda, fulminante e terminal.
Essa posição tinha a ver com a capacidade de controlo da infecção ao longo do tempo e com o aumento da esperança de vida dos doentes decorrentes da terapêutica tríplice, que veio substituir a mera administração de AZT.

Sabe-se agora que a esperança de vida dos doentes aumentou muito desde então (mais 13 anos do que em 1996/1999).
Essa melhoria parece ter a ver com desenvolvimentos nos medicamentos e na sua forma de administração.
Há 10 anos, era impressionante ver criancinhas seropositivas a "treinarem" a ingestão de comprimidos (inertes) cada vez maiores, até conseguirem engolir coisas com o enorme tamanho dos comprimidos "a sério" - que, por vezes, chegavam a ter que tomar 20 vezes por dia. Agora, dizem, tudo se reduz a um comprimido diário e o desconforto causado pela medicação diminuiu muito. O que diminui também muito a quantidade de doentes que desistem do tratamento.

Infelizmente, estas boas notícias só valem para os países onde a disponibilidade do tratamento é generalizada e custeada pelo Estado, ou para quem tenha o (muito) dinheiro para o pagar do seu bolso.
O que recoloca a questão de decisões como a do Brasil, quanto ao pagamento de patentes no caso de doenças como esta.

Não podemos, entretanto, esquecer que muito mais poderia ser feito e não é, por incúria e/ou alegando "particularismos culturais" que nem sequer se conhecem.

Por exemplo, sabe-se também há mais de 10 anos que a percentagem de transmissão do HIV das grávidas para o bébés desce drásticamente quando se faz o parto por cesariana e quando a criança não é amamentada com leite da mãe.
É verdade que em países como Moçambique a disponibilidade de obstectras é limitada, em número e no território. Mas, por causa disso, não vale a pena adoptar esse cuidado com o parto, nos locais onde eles existem?
É verdade que leite em pó custa dinheiro. Mas é mais caro do que os anti-retrovirais, e do que o custo social e humano de ter quase o dobro de crianças seropositivas?

Mas também com os países mais pobres poderiam os ricos aprender.

Se a chamada batata africana é a base das terapêuticas "tradicionais" na África austral e efectivamente melhora a qualidade de vida e a longevidade dos seropositivos, e se foi já testado que ela não tem efeito anti-retroviral mas é um potente tónico do sistema imunitário, porque não juntá-la numa terapêutica "quádriplice"?
Haveria certamente vantagens para os doentes, por esse mundo fora. E, dos lados de cá, isso seria uma óptima legitimação moral para opções "à brasileira".


Adenda: Já agora, quem tiver interesse na questão do uso inconsistente do preservativo, suas razões e contradição com o discurso epidemiológico, dê uma vista de olhos neste artigo do Emídio Gune, publicado no último número da Análise Social, dedicado a Moçambique.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Médicos suficientes são de mais...

Finalmente, vai entrar em funcionamento, no meu cantinho à beira mar plantado, um curso de medicina destinado a pessoas já licenciadas noutras áreas de saúde - permitindo um currículo mais curto e uma formação mais rápida, devido aos conhecimentos que já possuem.

É justo, trivial e necessário.
Como tantos outros países, Portugal tem um deficit crónico de pessoal de saúde, "justificativo" (ou possibilitador) de serviços públicos frequentemente medíocres e do pulular de medicina privada a preços proibitivos, quantas vezes com os mesmos médicos que chegam tarde e cumprem a correr os seus deveres nos hospitais.

Claro que há muitíssimos médicos extremamente conscienciosos no serviço público, capazes de milagres de eficiência no seu trabalho e no das suas equipas.
Mas o ethos profissional de impunidade, sobranceria, relaxe e mercenarização deve muito ao tal deficit crónico, mantido artificialmente pelas estruturas corporativas e pelas corporativas decisões das faculdades, na restrição do número de vagas.
Afinal, os médicos perceberam essa história da oferta e da procura e há décadas que a gerem com mestria.

Não é, por isso, muito surpreendente que o principal comentário do bastonário da Ordem dos Médicos seja de preocupação com o aumento do número de vagas.
Por essas razões económicas e de poder, ter médicos que cheguem é, para esta gente, excessivo.

E eu diria que isto é socialmente obsceno.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Curandeiros(as) teenagers

E por falar em teenagers:

Há mais de um ano que conheço o Pedro Cossa (na foto), mas sempre pensei que fosse mocinho aí para a minha idade.
Afinal, fiquei ontem a saber que é 8 anos mais novo e que teve a doença do chamamento aos 14 anos. Aos 17, tinha acabado o curso e era já curandeiro.

Acontece. Mas surpreendeu-me mais saber que, quando ele chegou ao quintal da sua mestra para começar a aprender, havia uma miúda de 10 anos a exercer já a profissão.
E mais ainda que, hoje em dia, se tornou bastante frequente encontrar crianças de 10, 12 ou 14 anos a acabarem o curso.

Para quem não saiba, essa profissão é suposto implicar uma possessão por espíritos a que se torne inadiável dar resposta e, por outro lado, só cerca de 1/5 dos assuntos que os curandeiros urbanos atendem têm a ver com questões de saúde. O resto são problemas familiares ou sociais - que não se coadunam muito com veredictos de crianças, quanto à sua resolução.

Nem o Pedro nem eu encontramos razões plausíveis para esta infantilização da entrada na profissão de curandeiro(a). Alguém tem uma dica pertinente?

A música não é lá dessas coisas, mas dá para curtir

Sem acesso ao Blogger, fui dar uma voltinha e descobri este videoclip, no estaminé do Miguel Portas.

De seu nome Gorby save hot girls from Stalin zombies, é de partir o coco, mesmo para quem não tenha visto, com 18 anitos, jovens dirigentes do Komsomol Leninista, para aí com a minha actual idade, a "darem em cima" de miúdas de 16, que ficavam cheias de frissom com a situação.
(Afinal, nada que eu não tenha visto aqui, entre homens mais velhos que isso e míudas ainda mais novas. Mas, em Maputo, a "cultura" tem as costas mais largas...)

Para além disso, dá para descobrir insuspeitadas semelhanças entre o Gorbachov e o Schwarzenegger (é assim que se escreve?).
Vão ver. Vale a pena.

Citações de café (11)

FILANTROPIA Séc. XXI

Na mesa ao lado, discutiam-se hoje pormenores de um qualquer projecto de desenvolvimento.

- And it will not be a problem, the extra car and the extra fuel, if we do it that way?

- No. This project will make huge profit. It will be our major source of income, this year and the next.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Muitos mais, Madiba

Sabia que o 90º aniversário de Nelson Mandela estava aí a rebentar, mas afinal é hoje.

Igual a si próprio, aproveitou a ocasião para chamar a atenção para a pobreza e a desigualdade social que marcam a África do Sul, a grande potência económica deste continente.

Quando, para as elites políticas, é motivo suficiente de satisfação que uns milhares de "negros" tenham ascendido a lugares de destaque e comando (esquecendo, ao olhar de cima, os muitíssimos milhões para quem a miséria não mudou), é importante que as vozes mais respeitadas lembrem que isso não basta.

A de "Madiba" é a mais respeitada (e a mais amada), por muitas e boas razões.
É, a menos que me apontem mais alguém, a única figura política consensual e mundialmente respeitada - pelo que fez como resistente, como governante e ao sair do poder.

Infelizmente, não há ninguém que possamos ter connosco para sempre. Quanto mais não seja, para ouvirmos dizer coisas como as que ele hoje disse.
Mas podemos sempre desejar "Muitos mais anos, Madiba!"

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Santa meretriz de paciência!

O nosso primeiro, que por sinal até dizem que foi Ministro do Ambiente, afirmou, ao assinar um acordo acerca da produção em Portugal de automóveis eléctricos a partir de 2010, que o governo iria estudar um modelo fiscal para permitir que eles possam pagar menos do actual imposto automóvel.
Ufano, acrescentou que "Se um carro eléctrico já existisse actualmente, apenas pagaria 30 por cento do imposto automóvel, já que este imposto tem em 70 por cento uma componente ambiental."

Acontece que são 60%, mas isso são peanuts.
Acontece sobretudo que, pela legislação actual, os "veículos exclusivamente eléctricos ou movidos a energias renováveis não combustíveis" estão já isentos de Imposto Sobre Veículos e de Imposto de Circulação.

Será que o nosso primeiro e o seu staff são ignorantes e incompetentes, ou será que os querem pôr a pagar imposto?
Segundo o gabinete do primeiro-ministro disse à Lusa, trata-se da primeira hipótese, pois garantiram que os veículos eléctricos "não pagam nem passarão a pagar" imposto e que, pelo contrário, "o Governo está empenhado em criar um regime fiscal ainda mais favorável para os veículos eléctricos".

Mais favorável que zero, nos impostos especificamente automóveis, só se diminuirem o IVA e/ou derem direito a dedução no IRS, não é?
Retenham, por isso, estes 2 dados:

- se vos quiserem fazer pagar imposto sobre automóveis eléctricos, quando eles de facto estiverem à venda, quer dizer que estão a abusar de vocês, que pioraram a legislação e que vos mentiram.

- se não tiverem, nas mesmas circunstâncias, vantagens no IVA e/ou IRS, quer dizer que vos mentiram, para tentar tapar uma "calinada".

A ver vamos.
Até lá, haja santa meretriz de paciência...

Molhas no Índico

Tenho realmente imenso para escrever por aqui.
Para além de outros temas, a actualização dos comentários no «Risco» em Debate e o post-forum sobre Lobolo que há muito prometi à Samya...
Infelizmente, o tempo parece estar a encolher, enquanto engorda o meu cansaço ao fim do dia.

No entanto, passei pelo Digital no Índico e fiquei com a vontade de partilhar convosco estas duas fotos, da maior molha que me lembro de ter apanhado em trabalho de campo.
Foi numa travessia de barco entre Maxixe e Inhambane, há uns tempos atrás. Uma imensidão de tempo a apanhar com chuva, sem haver como fugir, até já não interessar que ela caísse, pois já nada mais havia para encharcar.

Salvaram-se as imagens.
Espero que gostem. Os textos voltam logo que possa.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Falocracia abstémia

Numa aberta de acesso à internet que espero venha a durar mais do que a anterior, fiquei a saber que a igreja anglicana aprovou a consagração de mulheres como bispos (as sacerdotes há muito deixaram de ser novidade) e que essa decisão é considerada pelo Vaticano um entrave ao diálogo.

A imposição do celibato aos sacerdotes católicos, já se sabe, é uma invenção tardia de alguém que levou mais a sério do que devia a sexofobia do S. Paulo.
Que seja horroroso imaginar uma mulher sacerdote e, mais ainda, bispo, tem como argumento, segundo o artigo, que Cristo só escolheu homens como apóstolos.

Já ouvi desculpas menos esfarrapadas, mesmo num papa com a lata de incluir as desigualdades sociais na lista de pecados, depois de ter alcançado o poder, em grande medida, com a repressão sistemática da Teologia da Libertação.

Só não percebo é porque razão, sendo a questão "fracturante" a ordenação de mulheres e sendo estas já ordenadas há muito, se torna um "entrave ao diálogo" que elas possam ser bispos...

Bem sei que no princípio do séc. XX as mulheres não votavam, e que só há pouco acederam a posições de comando em (alguns) exércitos.
Mas... Vamos lá: deixem-se de tretas e assumam-se como uma oligarquia de falocratas supostamente abstémios. É patético, mas um pouco mais respeitável.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Parabéns a nós (atrasados)

Acordei dia 2 sem internet e só há pouco voltou.
Vai por isso dois dias atrasado o "parabéns a nós" para o Daniel, o Flávio e o César.

*****

Entretanto, fiquei a saber pelo Notícias de ontem que os habitantes do bairro Luís Cabral, aqui por Maputo, me deram uma prenda de anos.
Um ladrão que já estava amarrado e com um pneu à volta do pescoço acabou por ser entregue à polícia, porque nenhuma das pessoas que o prenderam teve coragem para, pessoalmente, lhe deitar fogo. Entretanto, um grupo de idosos conseguiu apelar à calma.
Obrigado a todos.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Directiva do retorno

Este post vem muito atrasado.
Julgo que pelo nojo e cansaço que este novo episódio da telenovela me suscita - da mesma forma que, ontem, me cruzei com o sul-africano Sunday Times e não o comprei, apesar (ou por causa?) dos títulos «Mbeki volta a levantar o polegar para Mugabe» e «Mugabe avisa os outros líderes africanos para que não lhe apontem o dedo».
Alinhavo-o agora, devido ao e-mail que recebi de uma amiga, com este mordaz cartoon a reboque.

Esta Directiva do Retorno traz novas obscenidades.
A maior de todas, creio, a incrível possibilidade de se deter alguém até 18 meses pela ousadia de ter tentado viver na "nossa" terra.
Mas, desculpem-me, é apenas mais um passo na obscena visão que de si tem a Europa "direitinhas", mesmo que com governos que exibem simbologias "de esquerda".

Porque, desculpem-me de novo, obscena é já, para mim, a própria ideia de negar a alguém a circulação pelo mundo. Os vistos. As fronteiras barradas. Os pequenos ditadorzinhos do carimbo. Em qualquer fronteira e em qualquer país.
Aceito que um estado negue entrada a criminosos e apenas a esses. Mesmo aí, contudo, tenho orgulho em que a Constituição lá da "minha" terra proíba o repatriamento de acusados por crimes que, lá na terra "deles", permitam pena de morte ou prisão perpétua.

É por essas águas que navego.
E, por isso, também não reconheço no bisavô de ninguém um cartão de entrada - tal como, noutros sítios, uma razão para negar entradas.
O cartão de entrada, inalienável, é a meus olhos a simples condição de ser humano.

Mas lá que o cartoon está bem esgalhado, lá isso está.
Mesmo que se seja um africano, como tantos e tantos existem, descendente de esclavagistas e não de escravos.

domingo, 29 de junho de 2008

O "árbitro" arma Mugabe

Segundo o Mail & Guardian apurou, o governo e empresas de armamento sul-africanas têm vindo nos últimos anos a proceder à venda (ou doação) ao regime de Mugabe de armas, de munições e de material que permitiu a recuperação de helicópteros e aviões militares que estavam inoperacionais.

Todas essas vendas e doações tiveram que ser aprovadas pelo NCACC (Comité Nacional de Controle de Armas Convencionais), presidido pelo ministro que substitui Mbeki nas missões de intermediação sobre o Zimbabwe a que ele não pode ir. No entanto, não aparecem nos relatórios desse organismo estatal, mas apenas nos registos oficiais de transacções comerciais, no meio de quaisquer outros produtos.

Durante o recente episódio do navio chinês carregado de armas para o regime de Mugabe (que um tribunal proibiu de descarregar em solo sul-africano, contra a opinião de Mbeki e do governo), uma das empresas mais activas nessas vendas tinha sido contratada para transportar a carga letal para Harare.

O presidente da África do Sul, Mbeki, é desde 2001 o intermediário da SADC para o Zimbabwe, por já vir dessa altura a escalada de eleições manipuladas e de violência estatal sobre a população.
É o "árbitro" entre Mugabe e a oposição.

Segundo a legislação internacional, Estados que dão assistência militar a outros que usam material estatal contra parte da sua própria sociedade são culpados de cumplicidade.

O ridículo não mata. Infelizmente.

Ufano, Mugabe anuncia uma vitória esmagadora, contra ninguém. «Ganhámos todas as 26 circunscrições de Harare, onde só tínhamos ganho uma na primeira volta!»

Prepara-se para tomar posse já amanhã. É fácil e rápido contar votos, quando não há uma oposição para ficar à nossa frente.

Mesmo os habitualmente dóceis obervadores internacionais das organizações africanas declararam que as eleições não foram «nem livres, nem justas» e pedem a sua repetição.

Mas o ridículo não mata. Infelizmente.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Democracia manu militari

É hoje. Pois...
Crónicas da vergonha, por aqui.

A esta hora, a coisa já acabou. Houve votação forçada e "de cabresto", e até apelos de Tsvangirai aos eleitores para que "se forem obrigados a votar Mugabe, façam-no", a fim de evitar agressões ou pior.

Quase ninguém reconhece esta fantochada. A União Europeia pronunciou-se nesse sentido, o malfadado G8 também, a ONU fê-lo a priori e até o presidente da União Africana disse estar “convencido” de que a organização conseguirá encontrar uma “solução credível” (logo, esta não é), pedindo tempo para as negociações.

Aguardo com curiosidade, para ver se os países da SADC o farão também, ou se há algum disposto a fazer de fantoche, no sangrento teatrinho do tio Bob.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Solução é possível?

No Zimbabwe, enquanto Mugabe diz que só negoceia depois de ganhar as eleições presidenciais por falta de comparência (mais do que forçada) do candidato mais votado na 1ª volta (contra a resolução unânime do Conselho de Segurança da ONU),
Tsvangirai apela à União Africana e à SADC para que liderem um "processo de transição", conduzindo negociações para resolver a crise política.

Sustenta que um “tal período permitiria ao país sarar as feridas” provocadas pela violência, que entrou numa espiral assassina desde a realização da primeira volta, e coloca como únicas exigências para um tal processo o fim da violência, a libertação de todos os presos políticos e a tomada de posse do Parlamento saído das últimas legislativas, ganhas pelo MDC.


Para ter viabilidade, um intermezzo deste tipo exigiria o efectivo controle dos países vizinhos sobre o processo e sobre o directório mugabiano, pois é por demais evidente a sua opção de manter o poder por todos os meios.
Mesmo uma partilha transitória, ou sequer uma situação de legalidade e de segurança que viabilizasse a realização de uma efectiva 2ª volta das presidenciais, daqui a uns meses, teria que lhes ser imposta pelos vizinhos, numa demonstração de que o jogo já não pode ser jogado como o têm feito.

Há alguns tímidos sinais, mas são significativos depois de anos de conivente "diplomacia silenciosa":
O Conselho de Segurança da SADC também defendeu o adiamento da 2ª volta das eleições, por falta de condições para que ela fosse livre e equitativa.

Embora seja actualmente composto por dois dos países menos cúmplices dos atropelos de Mugabe e por um país (Angola) que se fez representar por um ministro e não pelo presidente, é já uma importante mudança.
Porque estão a falar em nome da SADC e não o podem fazer contra os restantes membros.
Porque José Eduardo dos Santos mandou a Mugabe uma carta no mesmo sentido.
Porque Armando Guebuza, finalmente, afinou pelo mesmo diapasão, durante o seu discurso no dia da independência de Moçambique.

Também quebrando finalmente o silêncio, Nelson Mandela condenou o "trágico fracasso da liderança zimbabuéana", esclarecendo que não o fez antes para não comprometer os esforços de mediação de Mbeki - que implicitamente declara, dessa forma, também ela fracassada e terminada.
Está bem que o arcebispo Desmond Tutu chamara "Frankenstein para o povo Zimbabuéano" a Mugabe, mas "Madiba" tem um peso incomparavelmente superior, tal como a sua declaração que, afinal, decreta a morte da "diplomacia silenciosa".

Em suma: as coisas parecem estar a mexer e o regime de Mugabe parece estar, finalmente, isolado excepto no seu autismo.
Mas serão os líderes da SADC e da UA capazes de dar o passo seguinte, sem o qual não existirá solução?
Estarão dispostos a assumir o efectivo controle sobre a transição e a segurança dos zimbabuéanos?
Espero que sim, ou não haverá outra solução que não seja violenta.


Entretanto, o secretário-geral do MDC, preso sob acusação de alta-traição (punível com pena de morte) por ter revelado que o seu partido tinha ganho as eleições, foi libertado sob caução.
Um sinal de que os vizinhos regionais já não deixam Mugabe e os seus generais fazerem tudo?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Parabéns a você!

Moçambique celebra hoje o 33º aniversário da sua independência.

33 anos de uma história movimentada, com sonhos, desilusões e abusos, com uma guerra difícil e uma paz surpreendentemente fácil, com desigualdades crescentes mas um povão com uma extraordinária capacidade de dar a volta ao infortúnio.
Mas uma história que é a sua, porque é seu o país, conquistado a um regime iníquo.

Parabéns a você, Moçambique!
Um grande abraço, moçambicanos!

terça-feira, 24 de junho de 2008

E agora, SADC? Vão mexer-se?


O Conselho de Segurança da ONU condenou por unanimidade a campanha de violência e de intimidação contra a oposição no Zimbabwe, considerando que as violências e restrições “tornaram impossível a realização de eleições livres e igualitárias no dia 27 de Junho".
Entretanto, o Secretário-geral da ONU apelou ao adiamento da segunda volta das presidenciais, para futura realização sob condições justas.

Perante uma resolução que recolheu uma unanimidade raramente alcançada antes nesse organismo internacional, Mugabe sugere que se trata de uma campanha de Londres e Washington para o invadirem... E afirma que se recusa a adiar as eleições, agora que conseguiu o que queria.

Haverá algum líder da SADC que ainda considere aceitável o comportamento do regime zimbabuéano? Ou mesmo tolerável?
Consideram que, depois disto e de tudo o que se passou antes, podem continuar a olhar para o lado, a assobiar para o ar e a tentar educadamente convencer a junta militar mugabiana a aceitar um regime de transição em que os perdedores presidam aos vencedores, sem os matarem?

É que nem isso (que já seria uma preversão) essa gente esteve disposta a aceitar e, desde o início da campanha para a 1ª volta, têm vindo cada dia a falar mais grosso e a bater mais forte.
Por causa da "diplomacia silenciosa", da compreensão e tolerância dos velhos camaradas, das "costas quentes" asseguradas ao regime assassino de um país falido pelo poder.

Líderes da SADC: ESTÁ NA HORA DE MOSTRAREM QUE BASTA!

Adenda: Os governantes assobiam, mas as pessoas estão fartas. A central sindical sul-africana, COSATU, apelou aos trabalhadores de todo o mundo para ajudarem a isolar Mugabe e o seu governo, considerando que ele e a Zanu «declararam guerra» contra o povo zimbabuéano.