quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Bolívia pós-Mandela

O que fazer quando um presidente com um programa de profunda transformação social enfrenta ameaças separatistas, apelos a que o exército faça um golpe de estado e tem uma base de apoio heterogénea, que vai de grupos revolucionários a organizações feministas e a movimentos nativistas patriarcais?

A resposta de Evo Morales, o presidente boliviano que os cientistas políticos gostam de de não levar a sério (pelos seus gorros andinos, o seu discurso terra-a-terra saudavelmente utópico e o seu uso de simbolismos locais muito directos) foi: «Reforça-se a legitimidade democrática.»

Num cenário em que, mais uma vez, um golpe de estado não estava excluído, realizou-se domingo um referendo acerca da continuidade nos seus cargos do Presidente da República, do Vice-Presidente e, pelo que pude perceber, dos Governadores estaduais.
Evo Morales recebeu, no seu caso, mais de 61% dos votos, o que corresponde a mais 8 pontos percentuais do que aqueles com que tinha sido eleito.
Também pelo que pude perceber, os Governadores estaduais, seus apoiantes ou da oposição, foram também reconduzidos por voto popular, tendo o discurso de vitória do presidente sido um apelo à unidade nacional, à colaboração institucional e uma reafirmação dos objectivos de dignidade e justiça social.

(Escrevi «pelo que pude perceber», porque a notícia já tem uns 3 dias mas não apareceu nos jornais portugueses de referência, pelo menos on-line.
Até compreendo.
Isto de um «ditador» que está sob ameaça de golpe desde que foi eleito recorrer a mecanismos democráticos transparentes - e comummente aceites - para procurar chegar ao fim do mandato e para poder concretizar o programa que claramente conhecem os que votam em si e contra si é, de facto, um bocado chato para a reprodução de lugares-comuns mediáticos e políticos.
Mais ainda se o tipo for um índio com um comportamento público que as pessoas sérias acham folclórico.
Confirmei, entretanto, aqui que foram reconduzidos 6 dos 8 Governadores. A notícia não é, contudo muito clara. Num sítio diz que os Governadores da oposição foram confirmados, no outro que os 2 que perderam a votação eram da oposição.)

Não obstante, o mecanismo não é novo.
Charles de Gaulle recorreu extensivamente ao referendo (para desespero dos partidos franceses de esquerda) a fim de legitimar as suas posições e continuidade no poder, quando as coisas lhe ficavam mais adversas.
Também as nacionalizações e uma redistribuição social mais justa da riqueza nacional eram, até há umas décadas, hábitos do Partido Trabalhista britânico quando chegava ao governo.

A diferença, aqui, é que tudo se passa num país com uma estrutura oligárquica racista, regiões de latifúndio e uma forte presença de interesses económicos do "grande irmão do norte" - o que muda tudo, em termos políticos e na forma como as coisas são vistas.
Para além de que, claro, Evo Morales não é um general com ares aristocráticos que pareça ter engolido uma vassoura.

A diferença que mais me interessa é, no entanto, outra.
Os movimentos políticos que tentaram fazer alterações revolucionárias ou radicais nos seus países tiveram, habitualmente, a tendência de responder à oposição interna e às pressões externas ou com violência e repressão, ou com "fugas em frente".
É toda uma outra escola que vemos surgir em casos como este, quer quanto à abrangência das alianças sociais e políticas, quer quanto à resposta a situações de crise.

É verdade que as condições geopolíticas se têm alterado muito nos últimos 20 anos, mas creio que existe um outro factor aqui envolvido.
O esvaziamento de um centro de hegemonia revolucionária a nível mundial e a facilidade de acesso a informação globalizada parecem ter criado o espaço para práticas revolucionárias muito mais híbridas, flexíveis e culturalmente situadas, mesmo para forças que estão no poder.

Mas a globalização da informação só é útil a este processo se existirem acontecimentos, objecto dessa informação, que sejam eles próprios úteis para a reflexão e construção de novas culturas políticas e de poder emancipador.
Quanto a isso, e sem querer colocar demasiado peso nas costas do pobre homem, parece-me que aquilo que se passa na Bolívia deve muito à prática e exemplo de Nelson Mandela.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

É hoje, na 24 de Julho

Aproveitando a presença em Maputo de 4 dos autores, haverá um lançamento do número da Análise Social sobre "Moçambique Actual - continuidades e mudanças", na segunda-feira, 11 de Agosto.

Será às 17h. 30m., na Livraria Escolar Editora, da Av. 24 de Julho.

Depois de curtas apresentações por parte de Emídio Gune, João Pereira, Jason Sumich e este vosso criado, haverá tempo e espaço para debate acerca dos seus artigos, 3 dos quais já foram sendo conhecidos e objecto de polémica. A coisa promete, portanto.

Reparo agora que a rua parece ter sido escolhida a dedo, para corresponder ao título da obra.
O 24 de Julho da avenida referia-se, inicialmente, ao acordo firmado com Mac Mahon (que também dá o nome à cerveja 2M) acerca das fronteiras entre a África do Sul e a então África Oriental Portuguesa - que entre outras coisas levou a que Maputo faça parte de Moçambique.
É, agora, o Dia das nacionalizações.
Querem mais jogo de continuidades e mudanças?

domingo, 10 de agosto de 2008

Lobolo em debate

A palavra lobolo designa, simultaneamente, uma instituição matrimonial, a cerimónia de casamento que lhe corresponde e os bens que, nela, são entregues pela família do noivo à família da noiva.

As formas de casamento que lhe são semelhantes (chamadas bridewealth em inglês) foram consideradas pelos seus primeiros observadores uma «compra de mulheres».
Foram depois visto como uma retribuição pela perda da capacidade de trabalho da mulher por parte da sua família, ou mesmo pelos seus «serviços sexuais» (sic).
Na antropologia, os bens entregues à família patrilinear da noiva são hoje consensualmente encaradas como uma retribuição pelo facto de os filhos que vierem a nascer do casal não lhes irem pertencer, mas à linhagem do marido.

Os estudos feitos acerca dessas instituições seguiram diferentes perspectivas e enfatizaram diferentes aspectos nelas envolvidos. Elas foram vistas, para além daquilo que já referi, como garantias de acesso do grupo "doador" a esposas para os seus homens, como instrumentos de controlo dos mais jovens pelos mais velhos, como formas de transferência de recursos ou até, quando o lobolo é sistematicamente pago "a prestações", como um sistema de segurança social que distribui o risco por diferentes famílias (aqui), ou como objecto de luta política em tempos de transformação revolucionária (aqui).

No caso de Moçambique, os estudos mais recentes enfatizam um aspecto anteriormente deixado na penumbra: o papel central não apenas dos parentes vivos, mas também dos espíritos dos antepassados.
Um dos autores que o fazem salienta que o lobolo estabelece uma ligação entre os vivos e os antepassados que cria ou restabelece a harmonia social e inscreve o indivíduo numa rede de parentesco e aliança (aqui).
Outro (este vosso criado), sustenta que esse putativo envolvimento dos antepassados legitima ideologicamente a descendência e, no quadro das visões locais de domesticação da incerteza, é um instrumento de protecção do casal contra os perigos e infortúnios (aqui, aqui e aqui).

Nessa perspectiva, sem deixar de ser um fenómeno económico, de poder e de regulação social, o lobolo (que é muito variável, mutável e adaptável) tem duas mais-valias muito importantes sobre as restantes formas de casamento disponíveis: legitima, como elas, a relação matrimonial e eleva o estatuto dos membros do casal, mas também regula a descendência e o aleatório.

Isso não o torna menos objecto de polémicas, na sociedade urbana.
Este post-forum resulta do interesse da Samya em compreender como se lida com a descendência em caso de concubinato e quais são as consequências económicas do lobolo no caso dos casamentos poligâmicos.
Darei, na caixa de comentários, as minhas contribuições para a esclarecer e espero o mesmo da vossa parte. Tal como espero que muitas outras dúvidas, polémicas e diferentes interpretações tenham aqui um espaço profícuo.

sábado, 9 de agosto de 2008

Os meninos apedrejam os pássaros a brincar, mas os pássaros morrem a sério

Conforme seria de esperar, houve uma escalada na situação da Ossétia do Sul.
Há confrontação directa entre forças terrestres da Rússia e da Geórgia, que estão, na prática, em guerra. Fala-se de mais de 1.600 mortos, só em Tskhinvali e a coisa promete aumentar.

A desagregação de estados multinacionais, ou mesmo de carácter imperial, traz sempre a tendência para novas divisões e reorganizações, trazendo à superfície desejos, desagradados e identidades antes submergidas por esses estados.
À imagem do que dizia Max Gluckman relativamente aos costumes, é a altura em que identidades antigas são enfatizadas, perante a continuidade e reemergência de conflitos antes escondidos ou controlados pelas correlações de forças anteriores.
Deparamos, então, com separatismos de motivações bem menos económicas e políticas que a invenção do Panamá ou da região latifundiária da Bolívia, mas que jogam com os conflitos de interesses e brios dos grandes estados sobrantes que resultaram da desagregação anterior.

Face a isto, há sempre quem diga que o território em litígio pertence historicamente a um determinado estado (o que é a mera constatação factual duma relação de poder ultrapassada), que os grupos em confronto sempre se deram bem e até casaram reis entre si (como se todos os outros países não o tivessem feito), ou procure legitimar uns pelo mal dos outros («se a Tchetchénia é russa, a Ossétia do Sul é da Geórgia»).

Tendo na memória os massacres na Jugoslávia ou entre "etnias" inventadas pelos Belgas no Ruanda, as "boas vizinhanças históricas" deixam-me sempre uma pulga atrás da orelha.
Mas, sobretudo, preocupações de futuro.

Talvez nem todos consigam reagir como a Boémia às reivindicações separatistas da Eslováquia: «Ah sim? OK. Chauzinho e amigos como dantes. Como é que vai ser a vossa bandeira? bonita?»
Mas, quando se "comparam pilinhas" entre estados vizinhos e partes deles, normalmente para consumo interno, acaba sempre por acontecer como no velho adágio:

«As crianças atiram pedras aos pássaros na brincadeira. Mas os pássaros morrem a sério.»

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Gatos a não perder

Procurando o Paolo Conti, para o acrescentar à coluna da direita, fui dar casualmente com um filme de animação que procurava desde que o vi há anos, no Teatro Taborda. É o «My Babe Just Cares For Me», da Nina Simone, interpretado por uma gatona de plasticina, com um gato apaixonado à perna.
Por favor, vejam. Faz-vos bem à alma, seja lá isso o que for.

E já que estamos nas memórias inesquecíveis da tal sessão, aproveitem e vejam um outro must de animação: o episódio-pivot do Creature Conforts, com o também inesquecível puma - que na verdade deveria ser um jaguar (onça), já que a voz é de uma entrevista com um imigrante brasileiro em Londres.

Pedro, Sandra e Paulo: estão perdoados por devolverem os videos antes de eu os ter podido piratear.

A guerra que se segue

18 anos depois da declaração separatista, a Geórgia atacou a capital da Ossétia do Sul, declarando que a maior parte do território está sob seu controle e que continuará as operações até alcançar uma «paz durável».
Vai daí, a Rússia - que sempre se demonstrou intransigente no seu apoio à independência desse território de maioria populacional russa, que estimulou e protegeu - bombardeou uma cidade georgiana. E vai declarando que «a Rússia não hesitará para avançar com medidas a grande escala para proteger os nossos compatriotas na região e para assegurar a segurança das fronteiras da Rússia a Sul».

O que levou a este ataque, este tempo todo depois e sabendo-se que a Rússia nunca ficaria de braços cruzados?
O mesmo que fez a junta militar argentina invadir as Malvinas?
A velha ideia, tantas vezes desmentida, de que uma guerra maningue nacionalista reforça o moral e o apoio a governos fragilizados?

Agora, pouco importa.
Tal como pouco importa que a "independência" da Ossétia do Sul tivesse sido uma obra russa.
O que importa é que iremos certamente ter uma nova modalidade olímpica: wargames com mortos a sério.

Adenda: conforme Miguel Madeira chama a atenção na caixa de comentários, a população da Ossétia do Sul não é maioritariamente russa, mas pró-russa (o que pode ter a ver com conflitos históricos e/ou com a protecção do "irmão grande" a expectativas independentistas), tendo uma língua própria que nem sequer é eslava.

Citações de café (12)

OLÍMPICAS ALTURAS

- Mas repare que os produtos chineses são uma mudança muito importantes para nós, africanos. Mesmo com má qualidade, dão às populações acesso a produtos a um preço que podem pagar.

(um curto silêncio antes da resposta)

- Mas não é irónico que os possam pagar porque eles são produzidos por pessoas que trabalham em condições que os africanos não aceitariam, e muito bem?


PS: passando a outros direitos humanos e particularmente à pena de morte, considero as polémicas olímpicas mais que justificadas. Aguardo a sua extensão, depois, aos Estados Unidos e ao Irão - os outros campeões mundiais dessa punição desumana.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Lobolo pegou fogo no blog do lado

Enquanto eu fui vergonhosamente deixando para o dia seguinte o post-forum sobre o lobolo que prometi à Samya, o Carlos Serra deitou fogo ao assunto neste post.
A coisa está que arde. Dêem uma vista de olhos.

Entretanto, como não é essa a discussão que a Samya procura, reitero a promessa de não deixar passar o fim-de-semana sem cumprir o que já deveria ter feito há muito.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Serão coisas de globalização...

... mas lá que não é todos os dias que se vê uma portuguesa e uma velha curandeira moçambicana, sentadas em frente do tinhlolo, a trocarem impressões acerca das suas respectivas viagens a Veneza, lá isso é verdade.

(desenho da filhosca)

O regresso dos Pretorianos

O primeiro presidente democraticamente eleito da Mauritânia foi hoje vítima de um golpe de estado, dirigido pelo general que comandava a guarda presidencial.

Rezam as crónicas que este já tinha, há poucos dias, traído o presidente, orquestrando a demissão conjunta de 48 deputados eleitos nas suas listas.
O chefe não gostou e demitiu-o.
Ele não gostou e "demitiu" o chefe...

Depois de os pretorianos tomarem conta do Zimbabwe, a moda (re)pegou do outro lado do continente.
Mas com uma tomada de posição muito mais rápida e decente por parte da União Africana: a imediata condenação.

Entretanto, os portugueses que por lá estejam são aconselhados a dirigir-se à Embaixada de França.
A julgar pela minha experiência recente, é melhor é.
Essa, ao menos, deve estar aberta.

Menos pobres no Brasil

Pelas notícias que tinham projecção na Europa e iam chegando em catadupas, sobretudo até à reeleição de Lula da Silva, criou-se a impressão de que o seu governo era uma cambada de vendidos que se dedicavam, alegremente, a ser tão corruptos quanto conseguissem.

Foi em conversas pontuais com brasileiros vivendo no Brasil, ao acaso dos encontros entre falantes de português em aviões e aeroportos (portanto, gente com recursos e, muitas vezes, votantes de outros partidos), que fiquei a saber da enorme dimensão dos programas sociais em curso e que estes estavam longe de se retringir à distribuição de subsídios aos mais pobres.
Nessas conversas, mesmo um homem bem de direita e forte opositor do presidente acabou por trazer à conversa esses programas, como «a única coisa boa que o Lula fez», e por se entusiasmar ao descrevê-los.

Dados hoje noticiados aqui revelam uma diminuição notável do número de pobres nas principais metrópoles brasileiras. Ainda correspondem a uns obscenos 24,1% de uma população terrivelmente assimétrica, mas baixaram quase 11 pontos percentuais (e 31%) em 5 anos.

Venham-me cá falar de subsidiodependência...!


PS: a foto foi roubada, há uns tempos, do blog do Carlos Serra.

A Inhaca continua linda

Só que:

- O lodge de palhotas onde a filhosca começou a existir foi deitado abaixo.

- O dono do meu restaurante favorito foi comido por um crocodilo que também achou boa ideia mergulharem juntos.

- O burro que metia medo a toda a gente mas decidiu ser meu amigo morreu envenenado.

- A maré e os ventos decidiram estar contra nós.

- Os curandeiros tinham mais que fazer do que me aturar.

Como dizem que dizia o outro, «É a vida...»

sábado, 2 de agosto de 2008

Estímulo ao SIDA


Regressado hoje a Maputo, fui surpreendido pela faixa propagandística que atravessava uma avenida e anunciava a Semana do Aleitamento Materno, sob o muito olímpico lema Aleitamento Materno, o Caminho para a Medalha de Ouro.
O Navegador Solitário levou-me, entretanto, a um artigo do Notícias, em que se afirma que «o Governo tem como uma das prioridades promover o aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses».

Confesso que não percebo muito bem o que é que há a promover, já que a quase totalidade da população pratica o aleitamento materno, quanto mais não seja por não ter acesso a outra alternativa, se a quisesse.
Será que a campanha se dirige às camadas abastadas? Mas por que a fazer, então, nos bairros populares?
Será que é uma daquelas coisas que se fazem porque há dinheiro disponível e sempre se pode dizer que se fez?

No entanto, o mais desagradável e preocupante com esta campanha não é a sua redundância, num país com tantas carências de saúde, mas algo que já aflorei por aqui:

É dito no artigo, pela voz de uma responsável governamental, que «o aleitamento materno protege as crianças de infecções como a diarreia e a pneumonia e acelera a recuperação após o parto». E é verdade.
É também dito que «o leite materno é o melhor alimento para os bebés, pois satisfaz as necessidades nutricionais completas quando dado exclusivamente até aos seis meses». E é verdade, também.

Mas outra verdade, relevante num país com uma elevada taxa de infecção por HIV, é que o aleitamento materno, por parte de mulheres seropositivas, é um dos principais factores de infecção dos filhos.
A placenta é um poderoso filtro contra o virus. Sabe-se há mais de 10 anos, por estudos realizados em diversos países, que apenas 12 a 14% dos filhos de mães seropositivas ficam infectados, caso nasçam por cesariana e não recebam aleitamento materno. Com parto natural e amamentação, estes números duplicam.

É, portanto, do mais elementar bom senso detectar tão precocemente quanto possível o HIV nas grávidas, proporcionar parto por cesariana às seropositivas sempre que tal seja possível, e fornecer-lhes condições para não amamentarem, pois a grande maioria delas não terá dinheiro para leite em pó ou conhecimentos acerca da necessidade e forma de esterilizar água e biberões.
Não, certamente, tecer loas universais ao aleitamento materno que, ainda por cima, quase toda a gente pratica.

É por isso que fiquei chocado ao ler em 1999, numa revista gratuita que por aí havia, chamada Que Passa?, um artigo daquilo que parecia ser um médico sueco, negando que o aleitamento materno aumentasse o perigo de transmissão de HIV e defendendo que o perigo estava, antes, em alternar peito e leite em pó...
Cientificamente, isso era já, na altura, uma conhecida mentira.
Eticamente, era um apelo ao infanticídio.

9 anos depois, é mais que tempo de mudar de rumo, de discurso e de práticas.
Porque, se uma Vice-ministra da Agricultura não tem obrigação de perceber destas coisas, um Ministério da Saúde tem.
Adenda - Numa calinada que demonstra que não lemos as palavras letra a letra, crismei como "Navegador Solitário" o blog do Agry White, que tem um título muito mais interessante e subtil: Navegador Solidário. As minhas sinceras desculpas ao autor.

Análise Social na TVM


Fiquei a saber que o artigo «Antes o 'diabo' conhecido do que um 'anjo' desconhecido»: as limitações do voto económico na reeleição do Partido Frelimo, que João Pereira publicou no número da Análise Social acerca de Moçambique, foi há uns dias objecto de debate televisivo.

Parece que se esqueceram foi de convidar o autor...
Assim à primeira vista, parece-me que não é apenas uma questão de boa educação.
Sei lá: às tantas, pode ser que o homem tivesse alguma coisa a acrescentar ou a esclarecer, acerca das hipóteses que avança, no trabalho que é seu. Podia ser, até, que os tele-espectadores tivessem alguma coisa a ganhar com isso.

Mas isso sou eu a falar. Eu, que não sou nem moçambicano nem programador de televisão.

Parabéns e bom trabalho

Estava eu dando uma rápida voltinha pela net, quando deparei com esta notícia de há uns dias atrás, anunciando a nova presidente do Teatro D. Maria II.

Ora foi Maria João Brilhante que me arrastou para dar a cadeira de Antropologia e Artes Performativas, na licenciatura de Artes do Espectáculo da FL-UL, que ela construiu desde o zero e dinamizou com uma mestria que faz juz ao apelido (sobrenome, para os brasileiros).
É verdade que aquilo que recebo por isso quase só paga o taxi, mas lá que é estimulante e dá muito gozo, lá isso dá. E o facto de continuar a dar a cadeira tem também muito a ver com o óptimo ambiente que foi criado entre a equipa docente.

Ou seja: não faço ideia daquilo que é preciso para se ser uma boa presidente do D. Maria; mas se bastar capacidade, empenho, profundo conhecimento do teatro e facilidade de relacionamento com os outros, ela tem que chegue e sobre.

Por isso, Maria João, um grande abraço de parabéns e desejos de bom trabalho!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Será uma geminação com Bazaruto?

Tenho estado fora e vou estar mais uns dias.
Entretanto, numa voltinha rápida pela net, fiquei a saber que o presidente do Dia da Raça vai interromper as suas férias para dirigir ao país, pela televisão, uma comunicação da mais alta importância nacional.
Sobre o quê? Não diz.

Suspense, suspense!
Não estivesse eu a uns bons milhares de quilómetros de distância e fora de casa à hora da falação, ser-me-ia impossível aguentar o correr deste dia de incerteza acerca do tabuzinho.

Os jornais especulam.
Irá comentar o veto do Tribunal Constitucional ao estatuto dos Açores?
Quererá o homem vetar, em nome dos honorários dos advogados e dos saudáveis valores das famílias onde ninguém se atura uns aos outros, a nova legislação que facilita os procedimentos de divórcio por comum acordo?

Cá para mim, trata-se de algo muito mais substancial.
Acho que ele vai é anunciar uma geminação entre a Vivenda Mariani e a ilha do Bazaruto.

sábado, 26 de julho de 2008

Combate à insegurança ou à imigração?

Em Portugal, a Autoridade para as Condições de Trabalho divulgou, orgulhosa, que suspendeu 1.027 obras de construção civil no primeiro semestre deste ano, tendo detectado situações irregulares de segurança laboral, pagamentos à Segurança Social e imigrantes ilegais não declarados.

Há muitas e boas razões para se estar atento às condições de trabalho na construção civil.
Esse sector é, todos os anos, o recordista nacional de acidentes mortais e de dias de baixa resultantes de acidentes, mesmo sem contar com tudo o que não é contabilizado devido a situações irregulares. E a sangria continua calmamente, de ano para ano.
Toda a inspecção e pressão para que isto se altere é, por isso, benvinda.

O que estranho é que o combate ao perigo laboral só esteja a ser feito aí.
Um levantamento nacional de higiene e segurança no trabalho, de que fui relator há já 15 anos, dava conta de um panorama assustador nas empresas com actividades consideradas mais perigosas (há alguns dados aqui, na nota 2 da página 19).
O estudo é do conhecimento da União Europeia (que o pagou) e das autoridades portuguesas, mas pouco foi feito desde então, até ao nível do mero cumprimento das regras impostas pela legislação, em muitos casos insuficiente. Até a empresa mais respeitadora dessas regras legais que conheço, a Petrogal, deixa algumas por cumprir.

Por isso, a estranheza e a pergunta:
Sabendo-se que a construção civil é, a par da hotelaria, um dos principais sectores de entrada de imigrantes no mercado de trabalho, o que é que se pretende combater através deste centramento de meios e de esforços, em detrimento de outras actividades tão ou mais perigosas? A insegurança laboral, ou a imigração?

Surf & Turf (tornedó) à alentejano em África

Moçambique tem o melhor camarão que conheço e chega-lhe, da "terra dos cunhados", óptima carne bovina. Duas boas razões para este prato, numa ocasião mais especial e em que a carteira não esteja de dieta.

Cozinhem-se 2 camarões king por pessoa, seguindo a receita do camarão à pai (camarão à antropólogo sem piri-piri).
Prepare-se, apenas em água e sal, um pouco de bucatini ou de perciateli (aqueles esparguetes grossos que têm um furo no interior).
Corte-se, transversalmente à peça de carne, um medalhão generoso de fillet mignon por pessoa e frite-se em margarina, com sal e muitos dentes de alho, cortados longitudinalmente a meio. A carne nunca deverá ficar bem passada, mas tão pouco em sangue.

Sirva-se individualmente em pratos grandes.
No centro, o fillet, rodeado por alguns alhos e por um pouco de massa, disposta circularmente. Sobre esta, deite-se um fio do molho dos camarões - que deverão ser colocados um sobre a carne e outro sobre a massa.
Na borda do prato, coloque-se um bom pedaço de folha de alface e, sobre ela, folhas de rucola, agrião e coentros, encimadas por 3 tomates daqueles redondos e pequeninos. Tempere-se com sal, limão e azeite.
No lado oposto do prato, deite-se uma gota generosa de molho de ostra.

Sugiro que sirvam antes um consommé de agrião.

Adivinhem quem serão os primeiros convidados a comer isto lá em casa, quando voltar a Lisboa.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

HIV cada vez mais doença crónica

Já há mais de 10 anos que ouço médicos especialistas dessa matéria a defenderem que a infecção com HIV, causadora do SIDA (AIDS, no Brasil), deve ser considerada uma doença crónica em termos legais e terapêuticos, e não uma doença aguda, fulminante e terminal.
Essa posição tinha a ver com a capacidade de controlo da infecção ao longo do tempo e com o aumento da esperança de vida dos doentes decorrentes da terapêutica tríplice, que veio substituir a mera administração de AZT.

Sabe-se agora que a esperança de vida dos doentes aumentou muito desde então (mais 13 anos do que em 1996/1999).
Essa melhoria parece ter a ver com desenvolvimentos nos medicamentos e na sua forma de administração.
Há 10 anos, era impressionante ver criancinhas seropositivas a "treinarem" a ingestão de comprimidos (inertes) cada vez maiores, até conseguirem engolir coisas com o enorme tamanho dos comprimidos "a sério" - que, por vezes, chegavam a ter que tomar 20 vezes por dia. Agora, dizem, tudo se reduz a um comprimido diário e o desconforto causado pela medicação diminuiu muito. O que diminui também muito a quantidade de doentes que desistem do tratamento.

Infelizmente, estas boas notícias só valem para os países onde a disponibilidade do tratamento é generalizada e custeada pelo Estado, ou para quem tenha o (muito) dinheiro para o pagar do seu bolso.
O que recoloca a questão de decisões como a do Brasil, quanto ao pagamento de patentes no caso de doenças como esta.

Não podemos, entretanto, esquecer que muito mais poderia ser feito e não é, por incúria e/ou alegando "particularismos culturais" que nem sequer se conhecem.

Por exemplo, sabe-se também há mais de 10 anos que a percentagem de transmissão do HIV das grávidas para o bébés desce drásticamente quando se faz o parto por cesariana e quando a criança não é amamentada com leite da mãe.
É verdade que em países como Moçambique a disponibilidade de obstectras é limitada, em número e no território. Mas, por causa disso, não vale a pena adoptar esse cuidado com o parto, nos locais onde eles existem?
É verdade que leite em pó custa dinheiro. Mas é mais caro do que os anti-retrovirais, e do que o custo social e humano de ter quase o dobro de crianças seropositivas?

Mas também com os países mais pobres poderiam os ricos aprender.

Se a chamada batata africana é a base das terapêuticas "tradicionais" na África austral e efectivamente melhora a qualidade de vida e a longevidade dos seropositivos, e se foi já testado que ela não tem efeito anti-retroviral mas é um potente tónico do sistema imunitário, porque não juntá-la numa terapêutica "quádriplice"?
Haveria certamente vantagens para os doentes, por esse mundo fora. E, dos lados de cá, isso seria uma óptima legitimação moral para opções "à brasileira".


Adenda: Já agora, quem tiver interesse na questão do uso inconsistente do preservativo, suas razões e contradição com o discurso epidemiológico, dê uma vista de olhos neste artigo do Emídio Gune, publicado no último número da Análise Social, dedicado a Moçambique.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Médicos suficientes são de mais...

Finalmente, vai entrar em funcionamento, no meu cantinho à beira mar plantado, um curso de medicina destinado a pessoas já licenciadas noutras áreas de saúde - permitindo um currículo mais curto e uma formação mais rápida, devido aos conhecimentos que já possuem.

É justo, trivial e necessário.
Como tantos outros países, Portugal tem um deficit crónico de pessoal de saúde, "justificativo" (ou possibilitador) de serviços públicos frequentemente medíocres e do pulular de medicina privada a preços proibitivos, quantas vezes com os mesmos médicos que chegam tarde e cumprem a correr os seus deveres nos hospitais.

Claro que há muitíssimos médicos extremamente conscienciosos no serviço público, capazes de milagres de eficiência no seu trabalho e no das suas equipas.
Mas o ethos profissional de impunidade, sobranceria, relaxe e mercenarização deve muito ao tal deficit crónico, mantido artificialmente pelas estruturas corporativas e pelas corporativas decisões das faculdades, na restrição do número de vagas.
Afinal, os médicos perceberam essa história da oferta e da procura e há décadas que a gerem com mestria.

Não é, por isso, muito surpreendente que o principal comentário do bastonário da Ordem dos Médicos seja de preocupação com o aumento do número de vagas.
Por essas razões económicas e de poder, ter médicos que cheguem é, para esta gente, excessivo.

E eu diria que isto é socialmente obsceno.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Curandeiros(as) teenagers

E por falar em teenagers:

Há mais de um ano que conheço o Pedro Cossa (na foto), mas sempre pensei que fosse mocinho aí para a minha idade.
Afinal, fiquei ontem a saber que é 8 anos mais novo e que teve a doença do chamamento aos 14 anos. Aos 17, tinha acabado o curso e era já curandeiro.

Acontece. Mas surpreendeu-me mais saber que, quando ele chegou ao quintal da sua mestra para começar a aprender, havia uma miúda de 10 anos a exercer já a profissão.
E mais ainda que, hoje em dia, se tornou bastante frequente encontrar crianças de 10, 12 ou 14 anos a acabarem o curso.

Para quem não saiba, essa profissão é suposto implicar uma possessão por espíritos a que se torne inadiável dar resposta e, por outro lado, só cerca de 1/5 dos assuntos que os curandeiros urbanos atendem têm a ver com questões de saúde. O resto são problemas familiares ou sociais - que não se coadunam muito com veredictos de crianças, quanto à sua resolução.

Nem o Pedro nem eu encontramos razões plausíveis para esta infantilização da entrada na profissão de curandeiro(a). Alguém tem uma dica pertinente?

A música não é lá dessas coisas, mas dá para curtir

Sem acesso ao Blogger, fui dar uma voltinha e descobri este videoclip, no estaminé do Miguel Portas.

De seu nome Gorby save hot girls from Stalin zombies, é de partir o coco, mesmo para quem não tenha visto, com 18 anitos, jovens dirigentes do Komsomol Leninista, para aí com a minha actual idade, a "darem em cima" de miúdas de 16, que ficavam cheias de frissom com a situação.
(Afinal, nada que eu não tenha visto aqui, entre homens mais velhos que isso e míudas ainda mais novas. Mas, em Maputo, a "cultura" tem as costas mais largas...)

Para além disso, dá para descobrir insuspeitadas semelhanças entre o Gorbachov e o Schwarzenegger (é assim que se escreve?).
Vão ver. Vale a pena.

Citações de café (11)

FILANTROPIA Séc. XXI

Na mesa ao lado, discutiam-se hoje pormenores de um qualquer projecto de desenvolvimento.

- And it will not be a problem, the extra car and the extra fuel, if we do it that way?

- No. This project will make huge profit. It will be our major source of income, this year and the next.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Muitos mais, Madiba

Sabia que o 90º aniversário de Nelson Mandela estava aí a rebentar, mas afinal é hoje.

Igual a si próprio, aproveitou a ocasião para chamar a atenção para a pobreza e a desigualdade social que marcam a África do Sul, a grande potência económica deste continente.

Quando, para as elites políticas, é motivo suficiente de satisfação que uns milhares de "negros" tenham ascendido a lugares de destaque e comando (esquecendo, ao olhar de cima, os muitíssimos milhões para quem a miséria não mudou), é importante que as vozes mais respeitadas lembrem que isso não basta.

A de "Madiba" é a mais respeitada (e a mais amada), por muitas e boas razões.
É, a menos que me apontem mais alguém, a única figura política consensual e mundialmente respeitada - pelo que fez como resistente, como governante e ao sair do poder.

Infelizmente, não há ninguém que possamos ter connosco para sempre. Quanto mais não seja, para ouvirmos dizer coisas como as que ele hoje disse.
Mas podemos sempre desejar "Muitos mais anos, Madiba!"

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Santa meretriz de paciência!

O nosso primeiro, que por sinal até dizem que foi Ministro do Ambiente, afirmou, ao assinar um acordo acerca da produção em Portugal de automóveis eléctricos a partir de 2010, que o governo iria estudar um modelo fiscal para permitir que eles possam pagar menos do actual imposto automóvel.
Ufano, acrescentou que "Se um carro eléctrico já existisse actualmente, apenas pagaria 30 por cento do imposto automóvel, já que este imposto tem em 70 por cento uma componente ambiental."

Acontece que são 60%, mas isso são peanuts.
Acontece sobretudo que, pela legislação actual, os "veículos exclusivamente eléctricos ou movidos a energias renováveis não combustíveis" estão já isentos de Imposto Sobre Veículos e de Imposto de Circulação.

Será que o nosso primeiro e o seu staff são ignorantes e incompetentes, ou será que os querem pôr a pagar imposto?
Segundo o gabinete do primeiro-ministro disse à Lusa, trata-se da primeira hipótese, pois garantiram que os veículos eléctricos "não pagam nem passarão a pagar" imposto e que, pelo contrário, "o Governo está empenhado em criar um regime fiscal ainda mais favorável para os veículos eléctricos".

Mais favorável que zero, nos impostos especificamente automóveis, só se diminuirem o IVA e/ou derem direito a dedução no IRS, não é?
Retenham, por isso, estes 2 dados:

- se vos quiserem fazer pagar imposto sobre automóveis eléctricos, quando eles de facto estiverem à venda, quer dizer que estão a abusar de vocês, que pioraram a legislação e que vos mentiram.

- se não tiverem, nas mesmas circunstâncias, vantagens no IVA e/ou IRS, quer dizer que vos mentiram, para tentar tapar uma "calinada".

A ver vamos.
Até lá, haja santa meretriz de paciência...

Molhas no Índico

Tenho realmente imenso para escrever por aqui.
Para além de outros temas, a actualização dos comentários no «Risco» em Debate e o post-forum sobre Lobolo que há muito prometi à Samya...
Infelizmente, o tempo parece estar a encolher, enquanto engorda o meu cansaço ao fim do dia.

No entanto, passei pelo Digital no Índico e fiquei com a vontade de partilhar convosco estas duas fotos, da maior molha que me lembro de ter apanhado em trabalho de campo.
Foi numa travessia de barco entre Maxixe e Inhambane, há uns tempos atrás. Uma imensidão de tempo a apanhar com chuva, sem haver como fugir, até já não interessar que ela caísse, pois já nada mais havia para encharcar.

Salvaram-se as imagens.
Espero que gostem. Os textos voltam logo que possa.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Falocracia abstémia

Numa aberta de acesso à internet que espero venha a durar mais do que a anterior, fiquei a saber que a igreja anglicana aprovou a consagração de mulheres como bispos (as sacerdotes há muito deixaram de ser novidade) e que essa decisão é considerada pelo Vaticano um entrave ao diálogo.

A imposição do celibato aos sacerdotes católicos, já se sabe, é uma invenção tardia de alguém que levou mais a sério do que devia a sexofobia do S. Paulo.
Que seja horroroso imaginar uma mulher sacerdote e, mais ainda, bispo, tem como argumento, segundo o artigo, que Cristo só escolheu homens como apóstolos.

Já ouvi desculpas menos esfarrapadas, mesmo num papa com a lata de incluir as desigualdades sociais na lista de pecados, depois de ter alcançado o poder, em grande medida, com a repressão sistemática da Teologia da Libertação.

Só não percebo é porque razão, sendo a questão "fracturante" a ordenação de mulheres e sendo estas já ordenadas há muito, se torna um "entrave ao diálogo" que elas possam ser bispos...

Bem sei que no princípio do séc. XX as mulheres não votavam, e que só há pouco acederam a posições de comando em (alguns) exércitos.
Mas... Vamos lá: deixem-se de tretas e assumam-se como uma oligarquia de falocratas supostamente abstémios. É patético, mas um pouco mais respeitável.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Parabéns a nós (atrasados)

Acordei dia 2 sem internet e só há pouco voltou.
Vai por isso dois dias atrasado o "parabéns a nós" para o Daniel, o Flávio e o César.

*****

Entretanto, fiquei a saber pelo Notícias de ontem que os habitantes do bairro Luís Cabral, aqui por Maputo, me deram uma prenda de anos.
Um ladrão que já estava amarrado e com um pneu à volta do pescoço acabou por ser entregue à polícia, porque nenhuma das pessoas que o prenderam teve coragem para, pessoalmente, lhe deitar fogo. Entretanto, um grupo de idosos conseguiu apelar à calma.
Obrigado a todos.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Directiva do retorno

Este post vem muito atrasado.
Julgo que pelo nojo e cansaço que este novo episódio da telenovela me suscita - da mesma forma que, ontem, me cruzei com o sul-africano Sunday Times e não o comprei, apesar (ou por causa?) dos títulos «Mbeki volta a levantar o polegar para Mugabe» e «Mugabe avisa os outros líderes africanos para que não lhe apontem o dedo».
Alinhavo-o agora, devido ao e-mail que recebi de uma amiga, com este mordaz cartoon a reboque.

Esta Directiva do Retorno traz novas obscenidades.
A maior de todas, creio, a incrível possibilidade de se deter alguém até 18 meses pela ousadia de ter tentado viver na "nossa" terra.
Mas, desculpem-me, é apenas mais um passo na obscena visão que de si tem a Europa "direitinhas", mesmo que com governos que exibem simbologias "de esquerda".

Porque, desculpem-me de novo, obscena é já, para mim, a própria ideia de negar a alguém a circulação pelo mundo. Os vistos. As fronteiras barradas. Os pequenos ditadorzinhos do carimbo. Em qualquer fronteira e em qualquer país.
Aceito que um estado negue entrada a criminosos e apenas a esses. Mesmo aí, contudo, tenho orgulho em que a Constituição lá da "minha" terra proíba o repatriamento de acusados por crimes que, lá na terra "deles", permitam pena de morte ou prisão perpétua.

É por essas águas que navego.
E, por isso, também não reconheço no bisavô de ninguém um cartão de entrada - tal como, noutros sítios, uma razão para negar entradas.
O cartão de entrada, inalienável, é a meus olhos a simples condição de ser humano.

Mas lá que o cartoon está bem esgalhado, lá isso está.
Mesmo que se seja um africano, como tantos e tantos existem, descendente de esclavagistas e não de escravos.

domingo, 29 de junho de 2008

O "árbitro" arma Mugabe

Segundo o Mail & Guardian apurou, o governo e empresas de armamento sul-africanas têm vindo nos últimos anos a proceder à venda (ou doação) ao regime de Mugabe de armas, de munições e de material que permitiu a recuperação de helicópteros e aviões militares que estavam inoperacionais.

Todas essas vendas e doações tiveram que ser aprovadas pelo NCACC (Comité Nacional de Controle de Armas Convencionais), presidido pelo ministro que substitui Mbeki nas missões de intermediação sobre o Zimbabwe a que ele não pode ir. No entanto, não aparecem nos relatórios desse organismo estatal, mas apenas nos registos oficiais de transacções comerciais, no meio de quaisquer outros produtos.

Durante o recente episódio do navio chinês carregado de armas para o regime de Mugabe (que um tribunal proibiu de descarregar em solo sul-africano, contra a opinião de Mbeki e do governo), uma das empresas mais activas nessas vendas tinha sido contratada para transportar a carga letal para Harare.

O presidente da África do Sul, Mbeki, é desde 2001 o intermediário da SADC para o Zimbabwe, por já vir dessa altura a escalada de eleições manipuladas e de violência estatal sobre a população.
É o "árbitro" entre Mugabe e a oposição.

Segundo a legislação internacional, Estados que dão assistência militar a outros que usam material estatal contra parte da sua própria sociedade são culpados de cumplicidade.

O ridículo não mata. Infelizmente.

Ufano, Mugabe anuncia uma vitória esmagadora, contra ninguém. «Ganhámos todas as 26 circunscrições de Harare, onde só tínhamos ganho uma na primeira volta!»

Prepara-se para tomar posse já amanhã. É fácil e rápido contar votos, quando não há uma oposição para ficar à nossa frente.

Mesmo os habitualmente dóceis obervadores internacionais das organizações africanas declararam que as eleições não foram «nem livres, nem justas» e pedem a sua repetição.

Mas o ridículo não mata. Infelizmente.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Democracia manu militari

É hoje. Pois...
Crónicas da vergonha, por aqui.

A esta hora, a coisa já acabou. Houve votação forçada e "de cabresto", e até apelos de Tsvangirai aos eleitores para que "se forem obrigados a votar Mugabe, façam-no", a fim de evitar agressões ou pior.

Quase ninguém reconhece esta fantochada. A União Europeia pronunciou-se nesse sentido, o malfadado G8 também, a ONU fê-lo a priori e até o presidente da União Africana disse estar “convencido” de que a organização conseguirá encontrar uma “solução credível” (logo, esta não é), pedindo tempo para as negociações.

Aguardo com curiosidade, para ver se os países da SADC o farão também, ou se há algum disposto a fazer de fantoche, no sangrento teatrinho do tio Bob.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Solução é possível?

No Zimbabwe, enquanto Mugabe diz que só negoceia depois de ganhar as eleições presidenciais por falta de comparência (mais do que forçada) do candidato mais votado na 1ª volta (contra a resolução unânime do Conselho de Segurança da ONU),
Tsvangirai apela à União Africana e à SADC para que liderem um "processo de transição", conduzindo negociações para resolver a crise política.

Sustenta que um “tal período permitiria ao país sarar as feridas” provocadas pela violência, que entrou numa espiral assassina desde a realização da primeira volta, e coloca como únicas exigências para um tal processo o fim da violência, a libertação de todos os presos políticos e a tomada de posse do Parlamento saído das últimas legislativas, ganhas pelo MDC.


Para ter viabilidade, um intermezzo deste tipo exigiria o efectivo controle dos países vizinhos sobre o processo e sobre o directório mugabiano, pois é por demais evidente a sua opção de manter o poder por todos os meios.
Mesmo uma partilha transitória, ou sequer uma situação de legalidade e de segurança que viabilizasse a realização de uma efectiva 2ª volta das presidenciais, daqui a uns meses, teria que lhes ser imposta pelos vizinhos, numa demonstração de que o jogo já não pode ser jogado como o têm feito.

Há alguns tímidos sinais, mas são significativos depois de anos de conivente "diplomacia silenciosa":
O Conselho de Segurança da SADC também defendeu o adiamento da 2ª volta das eleições, por falta de condições para que ela fosse livre e equitativa.

Embora seja actualmente composto por dois dos países menos cúmplices dos atropelos de Mugabe e por um país (Angola) que se fez representar por um ministro e não pelo presidente, é já uma importante mudança.
Porque estão a falar em nome da SADC e não o podem fazer contra os restantes membros.
Porque José Eduardo dos Santos mandou a Mugabe uma carta no mesmo sentido.
Porque Armando Guebuza, finalmente, afinou pelo mesmo diapasão, durante o seu discurso no dia da independência de Moçambique.

Também quebrando finalmente o silêncio, Nelson Mandela condenou o "trágico fracasso da liderança zimbabuéana", esclarecendo que não o fez antes para não comprometer os esforços de mediação de Mbeki - que implicitamente declara, dessa forma, também ela fracassada e terminada.
Está bem que o arcebispo Desmond Tutu chamara "Frankenstein para o povo Zimbabuéano" a Mugabe, mas "Madiba" tem um peso incomparavelmente superior, tal como a sua declaração que, afinal, decreta a morte da "diplomacia silenciosa".

Em suma: as coisas parecem estar a mexer e o regime de Mugabe parece estar, finalmente, isolado excepto no seu autismo.
Mas serão os líderes da SADC e da UA capazes de dar o passo seguinte, sem o qual não existirá solução?
Estarão dispostos a assumir o efectivo controle sobre a transição e a segurança dos zimbabuéanos?
Espero que sim, ou não haverá outra solução que não seja violenta.


Entretanto, o secretário-geral do MDC, preso sob acusação de alta-traição (punível com pena de morte) por ter revelado que o seu partido tinha ganho as eleições, foi libertado sob caução.
Um sinal de que os vizinhos regionais já não deixam Mugabe e os seus generais fazerem tudo?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Parabéns a você!

Moçambique celebra hoje o 33º aniversário da sua independência.

33 anos de uma história movimentada, com sonhos, desilusões e abusos, com uma guerra difícil e uma paz surpreendentemente fácil, com desigualdades crescentes mas um povão com uma extraordinária capacidade de dar a volta ao infortúnio.
Mas uma história que é a sua, porque é seu o país, conquistado a um regime iníquo.

Parabéns a você, Moçambique!
Um grande abraço, moçambicanos!

terça-feira, 24 de junho de 2008

E agora, SADC? Vão mexer-se?


O Conselho de Segurança da ONU condenou por unanimidade a campanha de violência e de intimidação contra a oposição no Zimbabwe, considerando que as violências e restrições “tornaram impossível a realização de eleições livres e igualitárias no dia 27 de Junho".
Entretanto, o Secretário-geral da ONU apelou ao adiamento da segunda volta das presidenciais, para futura realização sob condições justas.

Perante uma resolução que recolheu uma unanimidade raramente alcançada antes nesse organismo internacional, Mugabe sugere que se trata de uma campanha de Londres e Washington para o invadirem... E afirma que se recusa a adiar as eleições, agora que conseguiu o que queria.

Haverá algum líder da SADC que ainda considere aceitável o comportamento do regime zimbabuéano? Ou mesmo tolerável?
Consideram que, depois disto e de tudo o que se passou antes, podem continuar a olhar para o lado, a assobiar para o ar e a tentar educadamente convencer a junta militar mugabiana a aceitar um regime de transição em que os perdedores presidam aos vencedores, sem os matarem?

É que nem isso (que já seria uma preversão) essa gente esteve disposta a aceitar e, desde o início da campanha para a 1ª volta, têm vindo cada dia a falar mais grosso e a bater mais forte.
Por causa da "diplomacia silenciosa", da compreensão e tolerância dos velhos camaradas, das "costas quentes" asseguradas ao regime assassino de um país falido pelo poder.

Líderes da SADC: ESTÁ NA HORA DE MOSTRAREM QUE BASTA!

Adenda: Os governantes assobiam, mas as pessoas estão fartas. A central sindical sul-africana, COSATU, apelou aos trabalhadores de todo o mundo para ajudarem a isolar Mugabe e o seu governo, considerando que ele e a Zanu «declararam guerra» contra o povo zimbabuéano.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Citações de café (10)

MATEMÁTICA PARA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA


Na televisão, ao lado da mesa, passa hoje o telejornal da estatal TVM.

O pivõ: Na província de Gaza, foram este ano despedidos 10 funcionários públicos, na maioria dos casos por abandono do posto, mas também por mau atendimento ao público.

Uma responsável provincial: ... também foram despedidos este ano 10 funcionários, a maioria por abandono do posto. Há alguns casos, poucos de indisciplina. Alguns até com violência. Mas a maioria, podemos dizer que 95%, foi por abandono do posto.


(É verdade: há quanto tempo não visitam o "Que diz o pivõ?")

Razões de uma recusa

Como nem toda a gente percebe inglês e os programas de tradução automática são um pouco... bem... criativos, aqui ficam as razões invocadas por Morgan Tsvangirai para se recusar a participar na segunda volta das presidencias no Zimbabwe:

Violência patrocinada pelo Estado
Segundo o MDC, os grupos internacionais de direitos humanos e, progressivamente, os observadores eleitorais da região, esquadrões de rufias da Zanu-PF empreenderam uma campanha de intimidação e violência. Não usaram apenas apoiantes do partido, mas também instituições estatais de segurança como a polícia e o exército.

Impossibilidade de fazer campanha
Um diplomata ocidental descreveu Morgan Tsvangirai como um «prisioneiro de Harare». A cidade está rodeada de bloqueios de estrada oficiais e informais que impedem eficazmente o lider do MDC de contactar os seus apoiantes. A polícia deteve-o pelo menos 5 vezes, comícios do MDC foram proibidos e, num golpe final, membros armados da brigada juvenil da Zanu-PF ocuparam o estádio de Harare onde o MDC tinha preparado o seu maior comício.

Dizimação dos quadros do MDC
O partido afirma que mais de 80 dos seus membros foram assassinados nos meses recentes. Centenas deles foram obrigados a esconder-se, tornando impossível ao partido organizar-se.

Desconfiança na Comissão Eleitoral do Zimbabwe
Na sua declaração, o partido afirma-se chocado com o grau de partidarização da ZEC, e acusa a comissão de estar dominada por milicias da Zanu-PF.

Falta de acesso aos media
Os media independentes foram atacados os impedidos de fazer reportagens no Zimbabwe. Os media estatais ou ignoram o MDC, ou retratam os seus membros como violentos paus-mandados do ocidente. Recusam publicar anúncios de campanha do MDC.

Ameaças de Mugabe
Nos discursos recentes, o presidente Mugabe disse repetidamente que se recusa a desistir dos ganhos da guerra de libertação por causa de um 'x' num boletim de voto. Também disse que "só Deus me pode destituir".

Planeada adulteração de resultados eleitorais
O MDC listou aquilo que descreve como um plano elaborado e decisivo da Zanu-PF para adulterar os resultados eleitorais.

Tudo razões bem fortes e justificadas.
Mas continuam a colocar-se-me as dúvidas e perguntas que aqui expressei.
E vocês? O que pensam?

Adendas: entretanto, Tsvangirai está refugiado na embaixada da Holanda, após a polícia ter assaltado a sede do MDC esta manhã e prendido vários dirigentes.

Antes, o governo tinha pedido ao MDC que voltasse atrás na decisão de não participar na 2ª volta. Seria para os poderem prender e matar mais à vontade?

PS: reparei que tenho muitos posts sobre as eleições zimbabuéanas. Etiquetei-os aí ao lado, no "Armazém", para quem quiser acompanhar todo o conjunto e os links para fontes de informação.

domingo, 22 de junho de 2008

O campeonato dos chatos

Dividi-me, quanto à imagem, entre um piolho pubiano e este logotipo, cinzento como o Euro 2008 se tornou.

Só a Espanha, uma equipa banal, conseguiu evitar que apenas passassem às meias-finais as equipas mais desinteressantes e que, nos grupos de apuramento, se viram e desejaram para não serem eliminadas. Mas não conseguiu marcar um golo.

Cheira-me que, também na final, o campeão só será conhecido por penalties... E que não será a Rússia, já que é a equipa que melhor está a jogar, dentre as que sobram.

O crime compensa

Morgan Tsvangirai, líder do partido mais votado nas legislativas zimbabuéanas e candidato mais votado na primeira volta das eleições presidenciais, retirou-se da segunda volta, marcada para dia 27.
Diz que não pode pedir aos eleitores que arrisquem a sua vida ao votarem nele.

O risco tornou-se, de facto, bastante maior desde a primeira volta.
Mais de 60 dirigentes e activistas do MDC mortos por esquadrões da morte, milhares de pressupostos votantes agredidos e expulsos das suas zonas de residência, ajuda alimentar (tornada essencial à sobrevivência, num país que era "o celeiro da África austral", devido ao caos criado pelo regime na última década) só entregue a quem apresentar cartão da ZANU-FP de Mugabe, o secretário-geral do partido que venceu nas urnas acusado de alta traição (que dá pena de morte) por ter revelado os resultados eleitorais que o regime queria esconder... Um vasto rol de violência e ilegalidade, que podem ver aqui.

O risco de morte é terrivel e bem real, mas... não é um pouco tarde para pensar nisso?
Que vão dizer às famílias dos assassinados, aos torturados e agredidos, às violadas, aos expulsos que viram as suas casas arder, por terem tido a coragem de votar contra Mugabe?
Que afinal fica tudo como era dantes? Que tudo foi em vão?

Se o deixarem, Mugabe - automático vencedor, sem oponente - vai dissolver o parlamento eleito, onde ficou em minoria, e convocar novas eleições. Será que o MDC não vai participar, para não pedir às pessoas que corram risco de vida por votarem em si?

É certo que a primeira dama garantiu que, mesmo ganhando, Tsvangirai nunca iria ver o interior do palácio presidencial. É certo que Mugabe garantiu que «as balas são mais fortes que as canetas» (de votar) e que, caso perdesse nas urnas, as utilizaria.

Será que o MDC recebeu garantias? Como o governo de unidade nacional liderado pelos perdedores, proposto pelo velho Kaunda e, há poucos dias, pelo presidente da África do Sul que tantas responsabilidades tem no assunto?
Mas o que valem as garantias de dirigentes regionais que olharam para o lado e assobiaram enquanto Mugabe meteu o seu país e o seu povo a ferro e fogo, e que receberam Tsvangirai, já vencedor eleitoral, fazendo-o passar por um detector de metais?

Esperemos para ver. Pela minha parte, não tenho (neste assunto) muita fé nem nas lideranças regionais, nem na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas que dizem irá haver.

PS: e que se lixe a bola

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Você disse «eleições livres»?

Jacob Zuma, presidente do ANC (África do Sul) disse que não acredita que a segunda volta das eleições no Zimbabwe seja livre.

É um enorme contraste em relação à "diplomacia silenciosa" de Mbeki e vários líderes regionais, que tem deixado as mãos livres a Mugabe, mas começa a ser uma declaração tímida, face ao que se está a passar.
Quando foi anunciada a realização de uma segunda volta nas eleições presidenciais zimbabuéanas, este cartoon era, de facto, adequado:

Depois de todo o rol de sistemática violência, intimidações e assassinatos (cujo levantamento podem acompanhar aqui), este plágio está bem mais próximo da realidade: