
Tempos atrás, o Presidente da República de Moçambique admoestou urbi et orbi, a partir de uma reunião do Comité Central da Frelimo, os «apóstolos da desgraça» que não vêem melhorias no país e que desconfiam das palavras de ordem e mega-planos que vão sendo sucessivamente anunciados, na gloriosa luta contra a «pobreza absoluta».
Hoje, ouvi em minha casa o nosso Primeiro vociferar, a partir de um forum do PS, contra o «negativismo, maledicência e bota-abaixo» de quem não vê melhorias no país e dos «políticos que passam a vida a dizer ao país que nada pode fazer».
É caso para me perguntar: que maldades terei eu feito, para me ter calhado saltitar entre este Índico e este Atlântico?
PS (a 14/9): agora, a «oposição bota-abaixo» é contrária ao interesse nacional. A fase seguinte será parafrasear o velho das botas e dizer que é contra a pátria...
O autoritarismo, como o apetite, vien en mangeant.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Portugal moçambicaniza-se (II)
Ferrari tem à força que ganhar
As voltas finais do G.P. da Bélgica foram, hoje, um espectáculo magnífico.
Dois pilotos brilhantes e correctos, Hamilton e Raikkonen, dando tudo por tudo pela vitória, com pneus para seco e numa pista alagada, sempre no fio da navalha.
Junto com situações salvas in extremis, houve passos em falso impossíveis de evitar. Um, Hamilton a "cortar" uma chicane para não ficarem ambos ali. Outro, Raikkonen a despistar-se sozinho, face a um aquaplaning incontrolável.
Retomado o fôlego, muito lamentei essa desistência e muito me congratulei com a merecida vitória de Hamilton e com o facto de existirem pilotos dispostos a lutarem pela vitória como aqueles dois fizeram.
Afinal, não.
Hamilton foi penalizado com 25 segundos (o suficiente para ganhar Filipe Massa, o outro piloto da Ferrari, que por ali andou gerindo a vidinha sem atrevimento ou um golpe de asa), por voltar a lutar pela 1ª posição logo depois de, como lhe competia, deixar Raikkonen passar para a frente no seguimento da ultrapassagem por fora da chicane.
Aquilo que eu vi foram 3 minutos de rara beleza, disputados em condições extremas mas no respeito das regras e com correcção - maior, certamente, do que o célebre duelo entre Villeneuve pai e Arnoux, umas décadas atrás. O que vi foi aquilo que a fórmula 1 deveria por vezes ser. Mas isso sou eu, um mero entusiasta que só acompanha esta coisa há pouco mais de 30 anos.
O que viu quem manda na tasca foi, parece, a Ferrari a perder.
Uma coisa que, por essas bandas, é inaceitável desde há alguns anos e tem levado a jeitinhos e jeitões cada vez mais obscenos.
Com este, para além da verdade desportiva, talvez se mate a emotividade deste desporto.
A McLaren, marca por quem corre Hamilton, vai recorrer da penalização.
Com o que lhes tem feito a FIA, não lhes auguro grande sorte...
sábado, 6 de setembro de 2008
Esperar, com paciência zimbabuéana
Embora o relatório da missão de observadores só seja de esperar lá para 2ª feira, já houve quem fosse divulgando que foram violadas leis eleitorais.
Entretanto, se bem se lembram, a legislação angolana foi alterada depois do imbróglio do Zimbabwe, passando a permitir o adiamento da divulgação dos resultados eleitorais durante 15 dias.
O que tem as suas vantagens.
Em função da rapidez da divulgação, já iremos tendo uma ideia de como serão os resultados e do imbróglio que poderá, ou não, surgir por ali.
Que tudo corra pelo melhor para a população!
Entretanto, esperemos. Com paciência zimbabuéana.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Motins e linchamentos
Estão à vossa disposição, com os nomes "Crónicas dos Motins" e "Poder, Morte e Linchamentos". Sirvam-se.
E, já agora, critiquem e comentem.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Males que vêm por bem
Portugal moçambicaniza-se
Que deve fazer um governo?
Reforçar os mecanismos de segurança pública, através da racionalização de esforços e/ou reforço de pessoal das forças policiais, melhorando en passant o uso das tecnologias de detecção?
Nada disso!
Deve estimular o recurso às empresas de segurança privada.
É claro que isso permite evitar chatices de planificação e organização e, mais importante, maiores despesas no orçamento do Estado.
(Pelo menos, até algum liberal-socialista se lembrar de alegar que, em espaço público, esse serviço é de interesse público, pelo que deve ser subsidiado...)
Mas até lá, tal como antes se disse para a saúde, quem quer segurança paga-a. Com a vantagem de se arranjarem mais uns empregos no sector privado e de se dinamizar a economia - que, como é bem sabido, é uma palavra que quer dizer "empresários".
Afinal, Moçambique mostra o caminho à Europa, com década e meia de avanço.
É claro que, pelas margens do Índico, a solução tem mais vantagens sociais - pelo menos, até os empregados dessas empresas olharem para a miséria que ganham e para a arma que têm na mão, pensando noutros usos mais lucrativos para ela.
Sempre deu para 'integrar' um bom número de desmobilizados da guerra civil, é um sinal de status e tranquiliza os cidadãos, que desconfiam mais da polícia que dos ladrões.
Aqui neste rosto ocidental da velha Europa, entretanto, até o CDS-PP (paladino da retórica securitária) deve ter ficado perplexo, ao ser ultrapassado resolutamente pela faixa da direita, com esta ideia de que nem eles tiveram coragem de se lembrar.
Afinal, é uma outra especialidade moçambicana pós-guerra civil: governar radicalmente à direita, com uma retórica de esquerda.
Por cá, o governo até que podia reforçar um bocado a parte da retórica. Sempre dava mais pitoresco à coisa.
Impunidade da justiça
terça-feira, 2 de setembro de 2008
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Paparocas africanas
O blog senegalês Cuisines d'Afrique.
Tem de tudo e mais alguma coisa, sempre dando a ideia de ser muito saboroso.
Para expandir exponencialmente a modesta secção de Paparocas, aí ao lado.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Último cigarrito
Foi na varanda, olhando as traseiras.
Começou a chuviscar.
Tentei dar alguma solenidade ao acto, mas não consegui. Na altura, não me pareceu grande coisa.
domingo, 17 de agosto de 2008
Gostavam de ver estas terras?
Por isso, aproveitando o facto de o Antropocoiso ter passado, no dia 8, os 3.000 visitantes diferentes, vindos de centenas de terras, criei o Antropovistas para as exibirmos.
É simples.
Vocês enviam uma foto do sítio onde residem para o antropocoiso@gmail.com, identificam o local e o autor (mesmo que com pseudónimo) e as vossas contribuições irão sendo afixadas.
Vejam só o portfólio que podemos juntar:
Portugal: Águeda, Albufeira, Alcabideche, Alcobaça, Almancil, Álvaro, Algés, Almada, Almagem do Bispo, Almeirim, Alverca, Amadora, Angra do Heroísmo, Arrentela, Aveiro, Barreiro, Beja, Belas, Benavente, Benedita, Boliqueime, Belmonte, Borba, Braga, Bragança, Bucelas, Caldas da Rainha, Camarate, Caneças, Caparica, Carcavelos, Carnaxide, Carregado, Carvalhos, Cascais, Castelo Branco, Castro Daire, Coimbra, Corroios, Cova da Piedade, Covilhã, Ericeira, Espinho, Estoril, Évora, Famalicão, Famões, Faro, Fátima, Feira, Felgueiras, Figueira da Foz, Funchal, Fundão, Gaia, Gondomar, Guarda, Guimarães, Ílhavo, Lagos, Landim, Leiria, Linda-a-Velha, Lisboa, Loures, Machico, Maia, Malveira, Marinha Grande, Matosinhos, Mem Martins, Mirandela, Mogadouro, Montijo, Nazaré, Negrais, Oeiras, Oiã, Olhão, Oliveira de Azeméis, Oliveira do Bairro, Ovar, Palmela, Perafita, Pombal, Ponta Delgada, Pontinha, Portalegre, Portimão, Porto, Porto Salvo, Póvoa do Varzim, Praia da Vitória, Queluz, Recarei, Ribeirão, Rio de Mouro, Rio Maior, Sacavém, Sangalhos, Sta Iria de Azóia, Santarém, Santo Tirso, São Brás de Alportel, São Domingos de Rana, São João da Madeira, Seixal, Sertã, Sever do Vouga, Setúbal, Sines, Sintra, Tomar, Tondela, Torres Vedras, Valongo, Viana do Castelo, Vila do Conde, Vila Franca de Xira, Vila Nova da Telha, Vila Real, Viseu
Moçambique: Maputo, Beira, Nampula
Brasil: Americana, Amontada, Apucarana, Aracaju, Arara, Arcos, Barra Mansa, Barretos, Barueri, Belém, Belo Horizonte, Blumenau, Bragança Paulista, Brasília, Cabo Frio, Campina Grande, Campinas, Campo Alegre, Campos, Cascavel, Caxias do Sul, Ceilândia, Contagem, Criciuma, Cuiabá, Curitiba, Curitibanos, Divinópolis, Florianópolis, Fortaleza, Francisco Morato, Goiânia, Guarulhos, Indaiatuba, Ipatinga, Itubera, Jabuatão, Jaciara, João Pessoa, Joinville, Jundiaí, Londrina, Macae, Maceió, Mafra, Manaus, Maraba, Marília, Maringá, Montes Claros, Mossoro, Natal, Navegantes, Niterói, Nova Friburgo, Nova Iguaçu, Novo Hamburgo, Osasco, Ouro Branco, Ouro Preto, Paulinia, Pelotas, Piracicaba, Poções, Porto Alegre, Porto Velho, Poso Alegre, Presidente Prudente, Recife, Ribeirão Preto, Rio Claro, Rio de Janeiro, Salvador, Santa Maria, Santarém, Stº André, Stº António da Platina, Santos, São Caetano do Sul, São Luís, São Paulo, São Vicente, Serra, Teresina, Uberaba, Valença, Vassouras, Vitória, Vitória da Conquista
França: Aix-en-Provence, Angers, Annecy, Avignon, Bagnolet, Bordeaux, Cannes, Carvin, Clermont-Ferrand, Feucherolles, Garches, Gentilly, Kremlin-Bicêtre, Lens, Lusignan, Lyon, Montrouge, Nantes, Neuilly-sur-Seine, Pantin, Paris, Puyricard, Rennes, St. Cloud, Saint-Jean-de-la-Ruelle, Sallanches, Strasbourg, Toulouse, Vanves, Versailles, Villejuif
República Checa: Frenstat, Frydek, Ostrava, Praga, Rakovnik, Zlin
E.U.A.: Arlington, Bellingham, Blinghamton, Brooklyn, Butler, Cambridge, Chapel Hill, Charleston, Chicago, Chilton, Cincinnati, Columbia, Cranston, Downingtown, Euless, Fort Worth, Hallandale, Hollywood, Houston, Irving, Las Vegas, Los Angeles, Milwaukee, Montverde, Moraga, Morristown, Naperville, New Orleans, New York, Newark, Oak Park, Ossining, Pearl City, Pittsburgh, Pompano Beach, Providence, Saint Ann, San Francisco, San Leandro, San Mateo, Somerville, Turtle Creek, Washington, Winter Garden
Angola: Luanda
Grã-Bertanha: Aston, Birmingham, Brentford, Bushey, Cambridge, Croydon, Edimburgo, Ewell, Hengoed, Londres, Luton, Manchester, Newcastle, Oxford, Poplar, Stoke Gifford, Teddington, Wembley
Alemanha: Berlim, Bocholt, Bona, Bremen, Burglengenfeld, Burladingen, Colónia, Dresden, Dusseldorf, Estugarda, Filderstadt, Frankfurt, Hamburgo, Hannover, Kronberg, Leopoldshohe, Ludwigshafen, Munique, Munster, Regensburg, Saarbrucken, Solingen, Wolfsburg
Espanha: Barcelona, Ciudad Real, Eibar, Gerona, Hospitalet de Llobregat, Huelva, La Coruña, Las Palmas, Madrid, Málaga, Murcia, Oviedo, Pozuelo de Alarcón, Puerto de Sta. Maria, Sabadell, Salamanca, Santiago de Compostela, Valência
Holanda: Amsterdão, Bunnik, Delft, Deurne, Eindhoven, Haarlem, Hilversum, Leiden, Oosterbeek, Oudewater, Panningen, Pijnacker, Rijswijk, Ulestraten, Utrecht, Valkenburg, Voorschoten, Zeist
Suécia: Estocolmo, Gotemburgo, Hagfors, Halmstad, Kalmar, Malmo, Sundbyberg, Taby
Bélgica: Bruxelas, Courcelles, Etterbeek, Ixelles, Leuven, Sint-Josse-Ten- Noode, Zaventem
Tanzânia: Arusha, Dar-Es-Salam, Zanzibar
Itália: Augusta, Bolonha, Milão, Rimini, Roma, Treviso
Noruega: Bergen, Oslo, Stavanger
Suiça: Birsfelden, Genebra, Lancy, Renens, Worb
Luxemburgo: Luxemburgo
África do Sul: Cabo, Florida, Joanesburgo, Potchefstroom, Pretória
Austrália: Brisbane, Camberra, Hobart, Melburne, Sidney
China: Hong Kong, Macau
Canadá: Calgary, Islington, Quebec, Toronto, Weston
Dinamarca: Bagsvaerd, Copenhaga, Fredericia, Hedehusene
Gana: Accra
Finlândia: Helsínquia, Turkku
Áustria: Viena
Roménia: Pascani, Slatina, Tirgoviste
Cabo Verde: Praia
Chile: Santiago
México: Mérida, México, Monterrey
Argentina: Mendoza, San Miguel de Tucuman, Vincente Lopez
Grécia: Atenas
Quénia: Nairobi
Índia: Calcutá, Chandlgarh, Nova Deli
Israel: Jerusalem, Petah Tigwa
Tailândia: Bangkok, Phitsanulok, Phuket
Namíbia: Windhoek
Irlanda: Clondalkin, Dublin
Turquia: Adana, Balikesir
Croácia: Labin, Zagreb
Malásia: George Town, Ipoh
São Tomé e Príncipe: S. Tomé
Japão: Osaka
Peru: Mollendo
Uruguai: Montvideo
Venezuela: Caracas
Eslováquia: Svaty Jur
Filipinas: Manila
Bulgária: Sófia
Martinica: Fort-de-France
Haiti: Petion-Ville
Eslovénia: Maribor
Brunei: Bandar Seri Begawan
Singapura: Singapura
Polónia: Lodz
Irão: Tabriz
Yemen: Sana
Nova Zelândia: Hamilton
Estónia: Tallinn
Indonésia: Jakarta
Tunísia: Tunis
sábado, 16 de agosto de 2008
Paraguai boliviza-se
Até hoje, o Paraguai era conhecido por 4 estereotipos:
- Por ser o único país "ocidental" que legalizou e incentivou a poligamia (depois de uma incrível guerra com o Brasil lhe dizimar a população masculina pois, na altura, ainda eram os soldados quem morria nas guerras);
- Por ser considerado o campeão latino-americano da corrupção;
- Por ser o suposto destino de todos os bons carros roubados no Brasil;
- Por já ser governado pelo partido Colorado na altura em que qualquer estrangeiro vivo ouviu falar do país pela primeira vez.
A partir de hoje, passará a ser conhecido por um quinto estereotipo: por ter como Presidente um ex-bispo que tomou posse sem gravata e de sandálias franciscanas.
Mas, com este novo estereotipo, outros se perdem ou estarão em vias de se perder.
Para começar, não é o partido Colorado a governar.
Para continuar, Fernando Lugo, o "bispo vermelho", passou a campanha eleitoral e a cerimónia de investidura a prometer libertar o povo paraguaio e acabar com a miséria e a corrupção.
No entanto, uma outra novidade já tem antecedentes por outras bandas. Tal como Evo Morales na Bolívia, o novo presidente paraguaio tem como base um grupo muito largo e heterogéneo de forças sociais, que inclui desde organizações indígenas e movimentos sem-terra, a partidos conservadores e de extrema-esquerda.
Como irá correr?
Bem... pior não será. E poderá ser uma efectiva mudança para muito melhor.
Pela minha parte, desejo-lhes os maiores sucessos, na concretização daquilo que prometeram.
O Zé Paulo referiu, na caixa de comentários, as suas preocupações com traços nacionalistas e xenófobos na campanha de Fernando Lugo e nas reacções populares que suscitou. Teve a simpatia de indicar 3 links para acompanharmos este aspecto: aqui, aqui e aqui. Muito obrigado.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Ele há gente séria
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Citações de café (13)
GEOGRAFIAS GRINGAS
- Vivo na Geórgia. Ouvi nas notícias que a Rússia invadiu, mas não os vejo em lado nenhum. O que é que se passa?
- Você mora no estado da Geórgia, USA. O país Geórgia é do outro lado do mundo.
(via Reflexões de um Cão com Pulgas)
Bolívia pós-Mandela
A resposta de Evo Morales, o presidente boliviano que os cientistas políticos gostam de de não levar a sério (pelos seus gorros andinos, o seu discurso terra-a-terra saudavelmente utópico e o seu uso de simbolismos locais muito directos) foi: «Reforça-se a legitimidade democrática.»
Num cenário em que, mais uma vez, um golpe de estado não estava excluído, realizou-se domingo um referendo acerca da continuidade nos seus cargos do Presidente da República, do Vice-Presidente e, pelo que pude perceber, dos Governadores estaduais.
Evo Morales recebeu, no seu caso, mais de 61% dos votos, o que corresponde a mais 8 pontos percentuais do que aqueles com que tinha sido eleito.
Também pelo que pude perceber, os Governadores estaduais, seus apoiantes ou da oposição, foram também reconduzidos por voto popular, tendo o discurso de vitória do presidente sido um apelo à unidade nacional, à colaboração institucional e uma reafirmação dos objectivos de dignidade e justiça social.
(Escrevi «pelo que pude perceber», porque a notícia já tem uns 3 dias mas não apareceu nos jornais portugueses de referência, pelo menos on-line.
Até compreendo.
Isto de um «ditador» que está sob ameaça de golpe desde que foi eleito recorrer a mecanismos democráticos transparentes - e comummente aceites - para procurar chegar ao fim do mandato e para poder concretizar o programa que claramente conhecem os que votam em si e contra si é, de facto, um bocado chato para a reprodução de lugares-comuns mediáticos e políticos.
Mais ainda se o tipo for um índio com um comportamento público que as pessoas sérias acham folclórico.
Confirmei, entretanto, aqui que foram reconduzidos 6 dos 8 Governadores. A notícia não é, contudo muito clara. Num sítio diz que os Governadores da oposição foram confirmados, no outro que os 2 que perderam a votação eram da oposição.)
Não obstante, o mecanismo não é novo.
Charles de Gaulle recorreu extensivamente ao referendo (para desespero dos partidos franceses de esquerda) a fim de legitimar as suas posições e continuidade no poder, quando as coisas lhe ficavam mais adversas.
Também as nacionalizações e uma redistribuição social mais justa da riqueza nacional eram, até há umas décadas, hábitos do Partido Trabalhista britânico quando chegava ao governo.
A diferença, aqui, é que tudo se passa num país com uma estrutura oligárquica racista, regiões de latifúndio e uma forte presença de interesses económicos do "grande irmão do norte" - o que muda tudo, em termos políticos e na forma como as coisas são vistas.
Para além de que, claro, Evo Morales não é um general com ares aristocráticos que pareça ter engolido uma vassoura.
A diferença que mais me interessa é, no entanto, outra.
Os movimentos políticos que tentaram fazer alterações revolucionárias ou radicais nos seus países tiveram, habitualmente, a tendência de responder à oposição interna e às pressões externas ou com violência e repressão, ou com "fugas em frente".
É toda uma outra escola que vemos surgir em casos como este, quer quanto à abrangência das alianças sociais e políticas, quer quanto à resposta a situações de crise.
É verdade que as condições geopolíticas se têm alterado muito nos últimos 20 anos, mas creio que existe um outro factor aqui envolvido.
O esvaziamento de um centro de hegemonia revolucionária a nível mundial e a facilidade de acesso a informação globalizada parecem ter criado o espaço para práticas revolucionárias muito mais híbridas, flexíveis e culturalmente situadas, mesmo para forças que estão no poder.
Mas a globalização da informação só é útil a este processo se existirem acontecimentos, objecto dessa informação, que sejam eles próprios úteis para a reflexão e construção de novas culturas políticas e de poder emancipador.
Quanto a isso, e sem querer colocar demasiado peso nas costas do pobre homem, parece-me que aquilo que se passa na Bolívia deve muito à prática e exemplo de Nelson Mandela.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
É hoje, na 24 de Julho
Será às 17h. 30m., na Livraria Escolar Editora, da Av. 24 de Julho.
Depois de curtas apresentações por parte de Emídio Gune, João Pereira, Jason Sumich e este vosso criado, haverá tempo e espaço para debate acerca dos seus artigos, 3 dos quais já foram sendo conhecidos e objecto de polémica. A coisa promete, portanto.
Reparo agora que a rua parece ter sido escolhida a dedo, para corresponder ao título da obra.
O 24 de Julho da avenida referia-se, inicialmente, ao acordo firmado com Mac Mahon (que também dá o nome à cerveja 2M) acerca das fronteiras entre a África do Sul e a então África Oriental Portuguesa - que entre outras coisas levou a que Maputo faça parte de Moçambique.
É, agora, o Dia das nacionalizações.
Querem mais jogo de continuidades e mudanças?
domingo, 10 de agosto de 2008
Lobolo em debate
As formas de casamento que lhe são semelhantes (chamadas bridewealth em inglês) foram consideradas pelos seus primeiros observadores uma «compra de mulheres».
Foram depois visto como uma retribuição pela perda da capacidade de trabalho da mulher por parte da sua família, ou mesmo pelos seus «serviços sexuais» (sic).
Na antropologia, os bens entregues à família patrilinear da noiva são hoje consensualmente encaradas como uma retribuição pelo facto de os filhos que vierem a nascer do casal não lhes irem pertencer, mas à linhagem do marido.
Os estudos feitos acerca dessas instituições seguiram diferentes perspectivas e enfatizaram diferentes aspectos nelas envolvidos. Elas foram vistas, para além daquilo que já referi, como garantias de acesso do grupo "doador" a esposas para os seus homens, como instrumentos de controlo dos mais jovens pelos mais velhos, como formas de transferência de recursos ou até, quando o lobolo é sistematicamente pago "a prestações", como um sistema de segurança social que distribui o risco por diferentes famílias (aqui), ou como objecto de luta política em tempos de transformação revolucionária (aqui).
No caso de Moçambique, os estudos mais recentes enfatizam um aspecto anteriormente deixado na penumbra: o papel central não apenas dos parentes vivos, mas também dos espíritos dos antepassados.
Um dos autores que o fazem salienta que o lobolo estabelece uma ligação entre os vivos e os antepassados que cria ou restabelece a harmonia social e inscreve o indivíduo numa rede de parentesco e aliança (aqui).
Outro (este vosso criado), sustenta que esse putativo envolvimento dos antepassados legitima ideologicamente a descendência e, no quadro das visões locais de domesticação da incerteza, é um instrumento de protecção do casal contra os perigos e infortúnios (aqui, aqui e aqui).
Nessa perspectiva, sem deixar de ser um fenómeno económico, de poder e de regulação social, o lobolo (que é muito variável, mutável e adaptável) tem duas mais-valias muito importantes sobre as restantes formas de casamento disponíveis: legitima, como elas, a relação matrimonial e eleva o estatuto dos membros do casal, mas também regula a descendência e o aleatório.
Isso não o torna menos objecto de polémicas, na sociedade urbana.
Este post-forum resulta do interesse da Samya em compreender como se lida com a descendência em caso de concubinato e quais são as consequências económicas do lobolo no caso dos casamentos poligâmicos.
Darei, na caixa de comentários, as minhas contribuições para a esclarecer e espero o mesmo da vossa parte. Tal como espero que muitas outras dúvidas, polémicas e diferentes interpretações tenham aqui um espaço profícuo.
sábado, 9 de agosto de 2008
Os meninos apedrejam os pássaros a brincar, mas os pássaros morrem a sério
Há confrontação directa entre forças terrestres da Rússia e da Geórgia, que estão, na prática, em guerra. Fala-se de mais de 1.600 mortos, só em Tskhinvali e a coisa promete aumentar.
A desagregação de estados multinacionais, ou mesmo de carácter imperial, traz sempre a tendência para novas divisões e reorganizações, trazendo à superfície desejos, desagradados e identidades antes submergidas por esses estados.
À imagem do que dizia Max Gluckman relativamente aos costumes, é a altura em que identidades antigas são enfatizadas, perante a continuidade e reemergência de conflitos antes escondidos ou controlados pelas correlações de forças anteriores.
Deparamos, então, com separatismos de motivações bem menos económicas e políticas que a invenção do Panamá ou da região latifundiária da Bolívia, mas que jogam com os conflitos de interesses e brios dos grandes estados sobrantes que resultaram da desagregação anterior.
Face a isto, há sempre quem diga que o território em litígio pertence historicamente a um determinado estado (o que é a mera constatação factual duma relação de poder ultrapassada), que os grupos em confronto sempre se deram bem e até casaram reis entre si (como se todos os outros países não o tivessem feito), ou procure legitimar uns pelo mal dos outros («se a Tchetchénia é russa, a Ossétia do Sul é da Geórgia»).
Tendo na memória os massacres na Jugoslávia ou entre "etnias" inventadas pelos Belgas no Ruanda, as "boas vizinhanças históricas" deixam-me sempre uma pulga atrás da orelha.
Mas, sobretudo, preocupações de futuro.
Talvez nem todos consigam reagir como a Boémia às reivindicações separatistas da Eslováquia: «Ah sim? OK. Chauzinho e amigos como dantes. Como é que vai ser a vossa bandeira? bonita?»
Mas, quando se "comparam pilinhas" entre estados vizinhos e partes deles, normalmente para consumo interno, acaba sempre por acontecer como no velho adágio:
«As crianças atiram pedras aos pássaros na brincadeira. Mas os pássaros morrem a sério.»
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Gatos a não perder
Por favor, vejam. Faz-vos bem à alma, seja lá isso o que for.
E já que estamos nas memórias inesquecíveis da tal sessão, aproveitem e vejam um outro must de animação: o episódio-pivot do Creature Conforts, com o também inesquecível puma - que na verdade deveria ser um jaguar (onça), já que a voz é de uma entrevista com um imigrante brasileiro em Londres.
Pedro, Sandra e Paulo: estão perdoados por devolverem os videos antes de eu os ter podido piratear.
A guerra que se segue
18 anos depois da declaração separatista, a Geórgia atacou a capital da Ossétia do Sul, declarando que a maior parte do território está sob seu controle e que continuará as operações até alcançar uma «paz durável».
Vai daí, a Rússia - que sempre se demonstrou intransigente no seu apoio à independência desse território de maioria populacional russa, que estimulou e protegeu - bombardeou uma cidade georgiana. E vai declarando que «a Rússia não hesitará para avançar com medidas a grande escala para proteger os nossos compatriotas na região e para assegurar a segurança das fronteiras da Rússia a Sul».
O que levou a este ataque, este tempo todo depois e sabendo-se que a Rússia nunca ficaria de braços cruzados?
O mesmo que fez a junta militar argentina invadir as Malvinas?
A velha ideia, tantas vezes desmentida, de que uma guerra maningue nacionalista reforça o moral e o apoio a governos fragilizados?
Agora, pouco importa.
Tal como pouco importa que a "independência" da Ossétia do Sul tivesse sido uma obra russa.
O que importa é que iremos certamente ter uma nova modalidade olímpica: wargames com mortos a sério.
Adenda: conforme Miguel Madeira chama a atenção na caixa de comentários, a população da Ossétia do Sul não é maioritariamente russa, mas pró-russa (o que pode ter a ver com conflitos históricos e/ou com a protecção do "irmão grande" a expectativas independentistas), tendo uma língua própria que nem sequer é eslava.















