domingo, 14 de setembro de 2008
O puto que se segue
Hoje, ficou a certeza de que a pole não tinha sido um golpe publicitário com pouco peso de gasolina. De novo à chuva, venceu com autoridade e particular perícia.
Mais do que o mais jovem vencedor na Fórmula 1, tornou-se em mais uma evidente estrela do futuro próximo. Com Hamilton e Kubica, sem esquecer Raikkonen e Alonso, pode ser que voltemos a algo semelhante aos tempos Senna/Prost/Mansell/Piquet.
Dos aspirantes ao título, entretanto, um voltou a mostrar o seu brilhantismo.
O outro (pese embora a solidariedade da língua), a sua mediania.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (4)
ALBINOS E PRISIONEIROS DESAPARECIDOS (II - Prisioneiros políticos)
Como eles, muitos prisioneiros políticos, quer antes quer depois da independência, desapareceram das suas comunidades e do olhar das pessoas que os conheciam.A maioria realmente morreu, outros estabeleceram-se nas regiões onde foram encarcerados, quando a sua detenção chegou ao fim. Também vários guerrilheiros do movimento anti-colonial (Frelimo) foram mortos pelas tropas ou pela polícia política portuguesa (PIDE/DGS), após a sua captura e interrogatório.
Já mencionei uma história acerca do que aconteceu a alguns dos resistentes anti-coloniais desaparecidos: o seu enterro clandestino pela PIDE/DGS, junto à água do rio, perto do actual cemitério da Matola. Escrevi “história” porque, de facto, não há evidências de que tal tenha acontecido naquele local, que aliás seria uma estranha escolha para sepultar pessoas em segredo.
Dalila Mateus (A PIDE/DGS na Guerra Colonial 1961-1974) fornece-nos outra história acerca da ocultação dos cadáveres de resistentes em lugares molhados. Ouviu na praia do Tofinho, perto da cidade de Inhambane, que a PIDE/DGS costumava ali atirar ao mar os cadáveres das pessoas que matava, para que fossem comidos por tubarões. Esta informação popular parece ser, de novo, uma lenda significativa, pois não existem naquela área tubarões comedores de homens e, para além disso, a praia sofreu uma enorme erosão nas últimas décadas – pelo que aquilo que parece muito fácil actualmente teria sido muito difícil há 35 ou 45 anos atrás.
Ouvi contudo, na mesma praia, uma variante dessa história, indicando agora diversas furnas nas rochas que conduzem a cavernas subaquáticas. Nesta versão, a analogia com a sepultura de gémeos é ainda mais directa pois, embora os corpos fossem mandados à água, eram simultaneamente atirados para dentro da terra.
Há ainda outra história corrente acerca da morte e manipulação de cadáveres dos resistentes e guerrilheiros. Diz-se que, durante o transporte em helicóptero de prisioneiros políticos até Lourenço Marques, a PIDE/DGS e as tropas portuguesas costumavam atirá-los ao mar, longe da costa.
Se isto pode ter acontecido, relatos fidedignos de antigos membros das tropas portuguesas, também eles horrorosos, contam uma história significativamente diferente. Alguns comandantes militares e agentes da PIDE/DGS costumavam, de facto, atirar guerrilheiros de helicópteros, quando pensavam que não iriam obter mais informações deles; mas isto era feito em terra firme e os cadáveres das vítimas eram deixados insepultos. Um dos agentes costumava até gritar sarcasticamente, nessas ocasiões: «Dizes que a terra é tua, vai ter com ela!»[1]
Assim, naquilo que parece ser uma reinterpretação de práticas reais que não envolviam água, as narrativas populares acerca do destino dado aos cadáveres dos resistentes independentistas desaparecidos colocam-nos sistematicamente em ambientes molhados. Essas narrativas tanto podem seguir uma analogia directa com os enterros de gémeos ou ir ainda um pouco mais longe (colocando os corpos dentro de água, em vez de sob terra molhada), tal como os albinos “vão um pouco mais longe” que os gémeos na ameaça que representam e nos constrangimentos impostos às suas mortes.
No entanto, esta ligação simbólica entre prisioneiros desaparecidos, gémeos e albinos continua após a independência.
Cronologicamente, o primeiro caso que me foi mencionado refere-se a um motim de ex-guerrilheiros, pouco depois da independência. Conta-se que os rebeldes foram dominados e levados para a ilha da Xefina (situada perto da costa, na baía de Maputo, e local para onde, curiosamente, tinha fugido o Governador em 1833), onde foram fuzilados e lançados ao mar. Até ao momento dos fuzilamentos, trata-se de factos históricos bem conhecidos, mas não pude obter qualquer confirmação acerca do que aconteceu aos cadáveres.
A ilha tornou-se depois o local de um “Campo de Reeducação”, para pessoas que o regime considerava «comprometidas com o colonialismo», «reaccionárias» ou ideologicamente heterodoxas. Acerca daquilo que aconteceu nesta fase, é vox populi que os prisioneiros lá falecidos foram igualmente lançados à água. Contudo, um antigo prisioneiro desse campo negou a veracidade dessa história durante uma conversa comigo, chamando-lhe «um mito».
Vários outros campos de reeducação foram subsequentemente construídos, sobretudo no interior e longe de Maputo. Acerca destes, pude ouvir em várias histórias, contadas por pessoas que nunca lá estiveram, que as campas dos prisioneiros eram cavadas na margem dos rios. Embora muitos campos fossem de facto construídos junto de rios, devido às necessidades de abastecimento de água, nunca alguém que lá tenha realmente estado me confirmou esses procedimentos funerários. Pelo contrário, quatro antigos prisioneiros disseram-me que nunca viram tal acontecer e que, nos campos onde estiveram presos, as margens dos rios eram usadas para culturas agrícolas.
Também existem narrativas populares acerca de pessoas que tentaram fugir dos campos de reeducação e não conseguiram regressar a casa, desaparecendo pelo caminho. Pude ouvir seis dessas histórias e todas elas tinham um leid motiv similar: o fugitivo morreu ao tentar atravessar um rio, onde se afogou ou foi comido por crocodilos – o protótipo de predador aquático nas zonas de interior.
Portanto, no caso dos prisioneiros políticos desaparecidos no período pós-independência, as narrações populares colocam-nos sistematicamente – tal como acontece com os resistentes anti-coloniais desaparecidos – morrendo na água, sendo comidos por predadores aquáticos, ou sendo sepultados em solo molhado ou na própria água. E isto acontece, também, independentemente do conhecimento factual de eventos reais.
Esta última característica reforça a significância simbólica de tais histórias. Mas qual é o sentido das equivalências entre prisioneiros desaparecidos, gémeos e albinos que elas enfatizam?
Se tomássemos apenas em consideração estes dados, pareceria que as velhas crenças acerca de gémeos e albinos são usadas para mencionar prisioneiros politicos desaparecidos apenas para destacar o facto de eles terem desaparecido. No entanto, existe um outro grupo conspícuo de pessoas que também foram presas, levadas para longe das suas comunidades e famílias e detidas em terras distantes, de onde muitas delas nunca regressaram, e essas crenças não são usadas para falar delas.
[1] Comunicação pessoal de três ex-militares portugueses (dois deles conscritos) que testemunharam este procedimento e desejam manter o anonimato.
Bolivia chateia o Grande Irmão do Norte
Preocupei-me mais ainda ao saber a história do embaixador Philip Goldberg, que agora foi declarado persona num grata pelo estado boliviano.
Pensei que dificilmente os problemas recrudesceriam depois do surpeendente referendo que punha em questão a continuidade nos cargos do presidente, do vice-presidente e dos governadores provinciais, do qual Evo Morales saiu com um apoio reforçado.
Afinal, vieram manifestações e ocupações dos edifícios públicos nas tais províncias e a secessão está mais do que nunca em cima da mesa.
Os Estados Unidos dizem que a Bolivia cometeu um erro grave ao expulsar o seu embaixador, acusado de activo apoio às tais manifestações.
Tendo em conta que Philip Goldberg é considerado o grande especialista diplomático norte-americano em agudizar conflitos étnicos e raciais, que ganhou esses galões na Bósnia, no Kosovo e na ex-Jugoslávia em geral, mas que também calhou estar no Haiti durante o golpe que depôs o presidente Jean Aristide, para além de ter sido obreiro da militarização do Plano Colômbia, depreendo que o tal "erro grave" a que a administração Bush se refere não será a responsabilização de um pobre inocente.
Será o de terem a veleidade de não aceitar que ele continue a aplicar os seus talentos, conhecimentos e meios para os derrubarem.
O que me deixa uma nova preocupação: será que os Estados Unidos equacionam uma intervenção militar na Bolívia?
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (3)
ALBINOS E PRISIONEIROS DESAPARECEIDOS ( I - Albinos)
A ligação entre gémeos e prisioneiros desaparecidos, ambos supostamente sepultados em solo molhado, é de facto fornecida pelos albinos (imagem 2).
Acerca da crença local no desaparecimento dos albinos, João Pina Cabral ("Os albinos não morrem: crença e etnicidade no Moçambique pós-colonial", in O Processo da Crença) enfatizou o seu estatuto intersticial, nem “preto” nem “branco”, sugerindo que eles «não morrem» porque supostamente não são enterrados, e que essa recusa de os ligar à terra significa uma recusa de pertença, numa sociedade em que pertencer é primariamente marcado pela divisão “preto”/”branco”.
Podemos de facto dizer que a actual relevância da ambiguidade “racial” dos albinos é um aspecto evidente da sua situação e do interesse que despertam as representações acerca deles. Mas é apenas uma pequena parte dessas representações e, muito provavelmente, não é a chave para as compreender.
Numa sociedade como a moçambicana, em que a “raça” é vista como uma realidade biológica e não como uma construção socio-ideológica, e em que a cor da pele e as “misturas rácicas” detectáveis servem de base a diferentes comportamentos para com as pessoas, não se podem ignorar as questões identitárias e hierárquicas levantadas por uma pessoa “negra” com pele “branca”.
Mas não deveremos ignorar, tão pouco, que a relevância hierárquica da cor da pele é historicamente recente, e que as actuais representações acerca dos albinos são demasiado complexas para derivarem apenas da ambiguidade “rácica” – embora também sejam capazes de a representar.
Deveremos, por exemplo, recordar que apenas em meados do séc. XIX o primeiro imperador de Gaza viu, nas suas próprias palavras, um “branco branco” (por contraste com os “brancos” luso-indianos que costumavam comerciar no interior de Moçambique), e que esse homem era uma visita convidada a entrar no kraal real, de forma alguma uma pessoa com precedência hierárquica sobre a população e autoridades locais (Deocleciano Fernandes das Neves, Das Terras do Império Vátua às Praças da República Boer).
Claro que os “brancos” eram conhecidos muito antes disso, em torno das áreas limitadas onde se tinham estabelecido, mas salvo excepções regionais não ocupavam na maioria dos casos uma posição dominante, especialmente no sul de Moçambique. Por exemplo, o Governador de Lourenço Marques era considerado pelo rei local, em 1833, um chefe subordinado que lhe devia tributo e o argumento para atacar a sua fortaleza e o matar foi a sua insubordinação (ver Gerhard Lieagang, A guerra dos reis Vátuas...).
É óbvio que a relevância social da “brancura” de pele durante os tempos coloniais (1895/1975), e depois deles, é muito mais recente que a anomalia representada pelos albinos. Mas é também previsível e plausível que essa relevância seja, igualmente, muito mais recente do que a necessidade social de interpretar e explicar a excepção representada pelos albinos – uma explicação pertinente, mesmo para pessoas que pensassem ter toda a humanidade a pele castanha.
Curiosamente, Henry Junod não menciona explicitamente os albinos no seu detalhado livro Usos e Costumes dos Bantu, quando lida com as ideias dos indígenas «relativas às diferentes raças humanas» (pp. 298-300). Parece, então, que nesse tempo os albinos não lhe tinham sido apresentados como uma questão rácica.
Mas penso que de facto fala acerca deles, sem o notar, quando discute a origem da palavra valungo para designar “homem branco”. Junod nega que a etimologia do termo venha de um verbo zulu que significa “ser justo” e sugere a palavra local valungwana, que traduz por “habitantes do céu”, especulando que tal designação viria provavelmente de alguma mitologia esquecida acerca de “homem branco”. Contudo, acreditava-se os portugueses agora dominantes vinham do mar, não do céu, e os gémeos eram (e ainda chão) referidos como “filhos do céu”.
Embora Junod nunca tenha realmente descodificado o sentido desta última designação celestial, esse sentido era claro na informação recolhida por Feliciano na década de 1970 e que eu próprio pude ouvir cerca de 30 anos depois: conforme mencionei, os gémeos e os albinos são filhos do céu porque, independentemente da sua concepção terrestre, receberam a sua condição excepcional ao serem atingidos por um raio dentro do útero materno. Os gémeos foram fendidos em dois mas os albinos não, apenas tendo sido queimados e, com isso, perdido a cor da sua pele.
No entanto, ambos alcançaram, com esse incidente, uma relação próxima e privilegiada com os fenómenos celestes. Uma relação que, conforme também já mencionei, é ameaçadora da ordem e da fecundidade pois, no quadro simbólico em que está integrada, os gémeos e os albinos são simultaneamente “demasiado quentes” e “uma trovoada sem chuva”. Devido a essas características, carregam em si o potencial para a desordem, para a doença e para secar o céu e a terra.
Uma das consequências da origem comum e celeste dos gémeos e albinos é que, se Junod tinha razão acerca da etimologia, o mais provável é que os “brancos” tivessem sido nomeados metaforicamente a partir dos albinos (com um sentido de “caras pálidas”), com base em prévias crenças acerca destes últimos. A ser assim, os albinos foram originalmente a referência para classificar os “brancos”, e não o contrário.
Mas, mais importante para o assunto que temos entre mãos, os albinos e os gémeos são simbolicamente equivalentes. Os albinos são vistos como gémeos incompletes que, ainda mais que estes últimos, carregam em si o poder destrutivo do raio, que nem foi capaz de os fender a meio – e, devido a isso, também carregam maiores consequências ameaçadoras, para a sociedade e para o cosmos, do que os gémeos.
Sugiro que é devido a essa condição superlativamente ameaçadora que não é suposto os albinos serem enterrados em lugares e circunstâncias especiais, à imagem do que acontece com os gémeos, mas não serem enterrados de todo. É por isso, então, que é suposto eles não morrerem, mas desaparecerem.
É claro que os albinos morrem e são enterrados. Alguns dos seus parentes mais próximos cumprem esse dever em segredo, seguindo os procedimentos prescritos para os gémeos e escondendo a localização da campa. Ao fazê-lo, protegem quer a segurança cósmica quer as crenças da comunidade:[1] os albinos continuam a desaparecer, porque ninguém pode dizer que assistiu ao funeral de um deles.
[1] Também na vizinha Tanzânia os albinos não são suposto morrer. Mas, paradoxalmente, partes dos seus corpos são procuradas para efeitos de feitiçaria de enriquecimento, visto que o enriquecimento pessoal é visto como algo que seca a riqueza à sua volta. Por essa razão e por ser desconhecida a localização das suas campas, pelo menos 19 albinos foram mortos e mutilados post mortem, em 2007 (Gettleman 2008).
Também em Moçambique, os mais poderosos amuletos e tratamentos mágicos para obter e manter riqueza e poder exigem partes de corpos humanos mas, tanto quanto sei, não especificamente de albinos. Isto pode contudo mudar em breve, devido ao ocorrido na Tanzânia e à habitual rapidez com que novas técnicas mágicas se espalham na região.
Os dados acerca dos procedimentos funerários com albinos resultam de uma comunicação pessoal de Danúbio Lihahe.
E qu'é da receita da caldeirada?
E esta aqui também merece bem um clique.
Onde é que fica o elevador da gávea?
No momento em que me começou a apetecer escrever um post a comentar o jogo-treino em que os máióres lá da minha rua levaram 3 a 2 de uns chavalos que discordavam que um só golo matasse alguém, puz-me a clicar aí ao lado, para ver se a coisa me passava.
Descobri isto, de muito e bom uso para os colegas sociólogos e para a arte de ser português.
Para além do mais, foi afixado uma semana antes do meu aniversário, o que é quase uma prenda de anos. As coisas que a gente inventa...
Mas vão lá só em alturas de crise. Não vale a pena passarem todos os dias, que eles são mais bejecas do que posts.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Ferrari é outra loiça
Claro que o protagonista era Schumacher e que as marcas dos carros estavam invertidas. O que faz toda a diferença.
Comentar o quê?
Comentar o quê? Como?
Às vezes, só dá mesmo para dizer: «Porra!...»
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (2)
GÉMEOS E ORDEM CÓSMICA
Quando tal acontecia, a razão era sobretudo atribuída ao anterior enterro em solo seco de gémeos, abortos ou de bebés falecidos antes da sua apresentação à lua (que marca a sua existência social e integração na comunidade), sendo o primeiro passo para obter chuva descobrir as suas campas e corrigir a situação. A par de rituais de purificação das suas mães (caso elas tivessem escondido esses enterros incorrectos), os seus ossos eram exumados para um local húmido ou lamacento e as suas campas anteriores eram molhadas com água. Este acção era desempenhada por todas as mulheres, caminhando atrás de uma mãe de gémeos.
Nesse tempo, diz Junod (op cit: 371-378), o infanticídio do gémeo mais débil já não era praticado, como nos “tempos antigos”, mas tanto os gémeos como as suas mães eram objecto de especiais restrições e controlo social.
No dia seguinte ao seu nascimento, ninguém podia trabalhar, ou as colheitas secariam. Todas as mulheres da aldeia deviam partir em direcção aos quarto pontos cardeais, cantando “que a chuva caia” e regressando com água que era despejada sobre a mãe e os gémeos. A sua cabana era queimada e passavam a viver numa outra, fora da aldeia, usando objectos em que mais ninguém podia tocar e recolhendo a água de um local exclusive. Os gémeos não eram apresentados à lua e começavam a ser alimentados com leite de cabra mal a sua mãe voltasse a ter menstruação. Só voltariam à aldeia quando a mulher desse à luz um bebé “normal”, após provocar a morte consecutiva de quarto homens, por lhes passar a sua impureza através da prática sexual. Mesmo nessa altura, os gémeos eram proibidos de brincar com outras crianças, eram apontados como exemplos de mau carácter e, tal como as suas mães, eram objecto de especiais protecções rituais quando assistiam a cerimónias funerárias.
Como seria de esperar, Junod interpreta essas práticas e crenças, que ouviu de forma fragmentar, de acordo com as ferramentas teóricas à sua disposição – utilizando a tipologia de princípios mágicos elaborada por Frazer (The Golden Bough).
Para além dos dados fornecidos pelo seu predecessor, aponta outras práticas dos finais da década de 1970 que, conforme pude verificar, ainda estão em uso actualmente. Quando um gémeo adoece, é proibido chorar, dar-lhe remédios ou perguntar-lhe se está melhor; pelo contrário, deverá ser insultado com frases como «Quando é que morre?», ou «De qualquer maneira, vai ser comido pelos peixes.» Nos funerais, os gémeos devem manter-se à distância das outras pessoas. Quando um deles morre, é proibido chorar e deverão ser colocadas cinzas na fontanela do sobrevivente, para evitar que desmaie. O gémeo sobrevivente não pode tomar medicamentos, ou morrerá, e não pode ir ao funeral, ou desmaiará e cairá dentro da campa (op cit: 334-336).
Pude também ouvir e observar que o gémeo sobrevivente não pode verbalizar a morte do irmão ou irmã. Pelo contrário, deve agir como se o falecido estivesse nalgum lugar longínquo e, se alguém que não saiba da morte lhe pedir notícias do defunto, deverá mentir, inventando alguma viagem ou dizendo que o finado se mudou para outro país ou província. Tal como muitas vezes acontece, várias pessoas foram incapazes de me apresentar uma razão clara para este comportamento, limitando-se a dizer que seria perigoso agir de outra forma; outras pessoas, contudo, explicaram-me que falar acerca da morte do outro gémeo traria a morte ao sobrevivente. Na atitude e nas palavras deste, então, o gémeo morto limitou-se a desaparecer.
A característica dos gémeos que aqui mais nos interessa, no entanto, é o facto de eles terem que ser enterrados em solo molhado ou, tal como acontece com outras pessoas e nascimentos anormais (op cit: 326-352), secarão a terra.
Neste quadro, a reprodução humana é análoga à interacção de um par incubador fogo/água e seu resultado bem sucedido, o bebé vivo, é representado como sendo água (que pode ou não resultar de uma tempestade) e, tal como a água, os bebés normais propiciam a fertilidade global. Só provisoriamente, até à cicatrização do umbigo e ao fim do sangramento da parturiente, o bebé e a sua mãe são considerados «quentes». No entanto, de um aborto ou de um bebé que morre enquanto está quente, resulta um desequilíbrio térmico global que exige o enterro do cadáver num local húmido, ou a terra secará.
As analogias e substituições mútuas entre diferentes códigos vão, contudo, ainda mais longe: «se o raio, fogo que seca a terra, é como o aborto, sangue expulso que queima o bebé, e o aborto seca a terra, como se fosse um raio; então o raio queima os bebés como se fosse um aborto.» (op cit: 310)
Este ponto é crucial porque, embora também existam outras hipóteses populares hoje em dia 1, o nascimento de gémeos é correntemente atribuído, tal como o nascimento de albinos, a um acidente cósmico. Ambos foram atingidos por raios dentro do útero materno, com consequências um pouco diferentes: os gémeos foram partidos em dois e os albinos foram queimados. É por isso que os gémeos são chamados «filhos do céu» e são eficientes interlocutores com as tempestades, e que os albinos eram chamados em ronga qhlandlati («carvão de raio»), uma palavra que muitos falantes adultos conhecem mas evitam utilizar, devido à sua carga pejorativa.
[1] Pude ouvir duas delas em contexto urbano, de pessoas com níveis de escolaridade elevados: (1) uma mulher terá gémeos se a sua xará (a pessoa de quem herdou o nome) teve gémeos; (2) tornar-se mãe de gémeos é hereditário. Contudo, não só estas novas hipóteses populares torneiam a razão da própria existência de gémeos, como se verifica que os casos reais de nascimentos de gémeos em gerações sucessivas são, pelo contrário, encarados correntemente como um acontecimento estranho e muito excepcional.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (1)
Tenho sido obrigado a traduzir para português o artigo «Gémeos, Albinos e Prisioneiros Desaparecidos: uma teoria moçambicana do poder político», que lá anda em publicação pelos States e de que vos falei aqui.
Revendo a tradução, que vai avançada, passou-me pela cabeça: porque é que não vou afixando o texto em fascículos, tipo Séc. XIX, em vez de esperar pela última frase? Pode ser que interesse a alguém...
Aqui fica a primeira leva, correspondente à Apresentação.
Alguns anos atrás, fiz uma visita a Martins Matsolo, o chefe hereditário da região onde foi construída a fundição de alumínio Mozal, perto da capital de Moçambique. Queria auscultá-lo acerca de uma ideia que se estava a espalhar entre os operários dessa fábrica: que, durante a cerimónia que precedeu a sua construção, ele tinha proibido a morte de cobras na área fabril, ou iriam ocorrer acidentes.
Ele disse-me que não era verdade e ficámos a discutir as razões para esse boato, que deriva da crença local em cobras possuídas por espíritos (Granjo, 2008). Como se diz que essas “cobras especiais” vivem em lugares com características especiais, a nossa conversa levou-me a falar do peculiar cemitério da Matola, junto da fundição (imagem 1).
«É um mau cemitério, não é? Quero dizer, mesmo junto ao rio, que até transborda…», perguntei. Ele permaneceu algum tempo em silêncio e, como tantas vezes acontece quando fazemos a um moçambicano mais velho uma pergunta melindrosa, não me respondeu directamente, mas através de uma história sem aparente relação com o assunto, mas fácil de compreender por parte de alguém que domine as referências que a ligam à pergunta.
- Sim... No tempo colonial, a PIDE até costumava esconder ali os prisioneiros que matavam na prisão deles. Não era bem ali, mas mesmo ao lado, mais junto da água.
Foi a primeira vez que ouvi falar de uma ligação simbólica entre gémeos, albinos e prisioneiros políticos. Isto porque, sinteticamente, os gémeos devem ser enterrados em solo húmido ou secarão a terra; os albinos (que têm a mesma origem cósmica) são suposto não morrer, mas desaparecer; e os prisioneiros desaparecidos eram enterrados em terra molhada.
É desrespeitoso enterrar pessoas “normais” em solo molhado, porque isso corresponde a tratá-los como «mortos que secam a terra» – e essa era a razão da minha pergunta. Ao contar-me aquela história, o senhor Matsolo concordou comigo e enfatizou a importância do assunto que eu tinha levantado; mas, ao fazê-lo da forma que o fez, ensinou-me algo de novo.
Esse novo assunto – a equivalência simbólica que mencionei e o sentido que lhe subjaz – é a razão deste artigo.
De facto, existem várias referências etnográficas às restrições sofridas em Moçambique pelos gémeos, albinos e suas mães, e até algumas interpretações antropológicas acerca delas. Se as compararmos entre si e falarmos com as pessoas hoje em dia, parece que essas restrições não mudaram muito nos últimos 100 anos, como tão pouco mudaram as excepções geográficas onde, pelo contrário, os gémeos recebem uma valoração positiva.
No entanto, essas regras resilientes e os conceitos que lhes subjazem eram suficientemente pertinentes para terem sido seleccionadas como uma linguagem para falar e pensar acerca dos prisioneiros políticos desaparecidos, tanto durante o colonialismo como após a independência – embora não, conforme veremos, para pensar acerca dos vários milhares de pessoas que, na década de 1980, foram expulsas das cidades para a remota província do Niassa, acusadas de serem «improdutivas».
A equivalência com gémeos e albinos foi empregue apenas por esses prisioneiros terem desaparecido? Durante algum tempo, pensei que essa explicação era suficiente – pelo menos se lhe adicionássemos as restrições e estigma que os prisioneiros políticos sofreram. Contudo, foram muito mais numerosos os deportados que desapareceram no Niassa, também eles sofreram restrições e estigmatização, mas a equivalência que mencionei não é utilizada no seu caso.
Irei então sugerir que a equivalência simbólica entre gémeos, albinos e prisioneiros políticos desaparecidos não é apenas formal; ela expressa um conceito das relações de poder político em que prisioneiros “subversivos”, mesmo tratando-se de lutadores pela independência, são avaliados como anormalidades sociais negativas e ameaçadoras – ao contrário das vítimas de exílio doméstico por decisão estatal, vista como um injusto abuso de poder.
Portugal moçambicaniza-se (II)

Tempos atrás, o Presidente da República de Moçambique admoestou urbi et orbi, a partir de uma reunião do Comité Central da Frelimo, os «apóstolos da desgraça» que não vêem melhorias no país e que desconfiam das palavras de ordem e mega-planos que vão sendo sucessivamente anunciados, na gloriosa luta contra a «pobreza absoluta».
Hoje, ouvi em minha casa o nosso Primeiro vociferar, a partir de um forum do PS, contra o «negativismo, maledicência e bota-abaixo» de quem não vê melhorias no país e dos «políticos que passam a vida a dizer ao país que nada pode fazer».
É caso para me perguntar: que maldades terei eu feito, para me ter calhado saltitar entre este Índico e este Atlântico?
PS (a 14/9): agora, a «oposição bota-abaixo» é contrária ao interesse nacional. A fase seguinte será parafrasear o velho das botas e dizer que é contra a pátria...
O autoritarismo, como o apetite, vien en mangeant.
Ferrari tem à força que ganhar
As voltas finais do G.P. da Bélgica foram, hoje, um espectáculo magnífico.
Dois pilotos brilhantes e correctos, Hamilton e Raikkonen, dando tudo por tudo pela vitória, com pneus para seco e numa pista alagada, sempre no fio da navalha.
Junto com situações salvas in extremis, houve passos em falso impossíveis de evitar. Um, Hamilton a "cortar" uma chicane para não ficarem ambos ali. Outro, Raikkonen a despistar-se sozinho, face a um aquaplaning incontrolável.
Retomado o fôlego, muito lamentei essa desistência e muito me congratulei com a merecida vitória de Hamilton e com o facto de existirem pilotos dispostos a lutarem pela vitória como aqueles dois fizeram.
Afinal, não.
Hamilton foi penalizado com 25 segundos (o suficiente para ganhar Filipe Massa, o outro piloto da Ferrari, que por ali andou gerindo a vidinha sem atrevimento ou um golpe de asa), por voltar a lutar pela 1ª posição logo depois de, como lhe competia, deixar Raikkonen passar para a frente no seguimento da ultrapassagem por fora da chicane.
Aquilo que eu vi foram 3 minutos de rara beleza, disputados em condições extremas mas no respeito das regras e com correcção - maior, certamente, do que o célebre duelo entre Villeneuve pai e Arnoux, umas décadas atrás. O que vi foi aquilo que a fórmula 1 deveria por vezes ser. Mas isso sou eu, um mero entusiasta que só acompanha esta coisa há pouco mais de 30 anos.
O que viu quem manda na tasca foi, parece, a Ferrari a perder.
Uma coisa que, por essas bandas, é inaceitável desde há alguns anos e tem levado a jeitinhos e jeitões cada vez mais obscenos.
Com este, para além da verdade desportiva, talvez se mate a emotividade deste desporto.
A McLaren, marca por quem corre Hamilton, vai recorrer da penalização.
Com o que lhes tem feito a FIA, não lhes auguro grande sorte...
sábado, 6 de setembro de 2008
Esperar, com paciência zimbabuéana
Embora o relatório da missão de observadores só seja de esperar lá para 2ª feira, já houve quem fosse divulgando que foram violadas leis eleitorais.
Entretanto, se bem se lembram, a legislação angolana foi alterada depois do imbróglio do Zimbabwe, passando a permitir o adiamento da divulgação dos resultados eleitorais durante 15 dias.
O que tem as suas vantagens.
Em função da rapidez da divulgação, já iremos tendo uma ideia de como serão os resultados e do imbróglio que poderá, ou não, surgir por ali.
Que tudo corra pelo melhor para a população!
Entretanto, esperemos. Com paciência zimbabuéana.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Motins e linchamentos
Estão à vossa disposição, com os nomes "Crónicas dos Motins" e "Poder, Morte e Linchamentos". Sirvam-se.
E, já agora, critiquem e comentem.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Males que vêm por bem
Portugal moçambicaniza-se
Que deve fazer um governo?
Reforçar os mecanismos de segurança pública, através da racionalização de esforços e/ou reforço de pessoal das forças policiais, melhorando en passant o uso das tecnologias de detecção?
Nada disso!
Deve estimular o recurso às empresas de segurança privada.
É claro que isso permite evitar chatices de planificação e organização e, mais importante, maiores despesas no orçamento do Estado.
(Pelo menos, até algum liberal-socialista se lembrar de alegar que, em espaço público, esse serviço é de interesse público, pelo que deve ser subsidiado...)
Mas até lá, tal como antes se disse para a saúde, quem quer segurança paga-a. Com a vantagem de se arranjarem mais uns empregos no sector privado e de se dinamizar a economia - que, como é bem sabido, é uma palavra que quer dizer "empresários".
Afinal, Moçambique mostra o caminho à Europa, com década e meia de avanço.
É claro que, pelas margens do Índico, a solução tem mais vantagens sociais - pelo menos, até os empregados dessas empresas olharem para a miséria que ganham e para a arma que têm na mão, pensando noutros usos mais lucrativos para ela.
Sempre deu para 'integrar' um bom número de desmobilizados da guerra civil, é um sinal de status e tranquiliza os cidadãos, que desconfiam mais da polícia que dos ladrões.
Aqui neste rosto ocidental da velha Europa, entretanto, até o CDS-PP (paladino da retórica securitária) deve ter ficado perplexo, ao ser ultrapassado resolutamente pela faixa da direita, com esta ideia de que nem eles tiveram coragem de se lembrar.
Afinal, é uma outra especialidade moçambicana pós-guerra civil: governar radicalmente à direita, com uma retórica de esquerda.
Por cá, o governo até que podia reforçar um bocado a parte da retórica. Sempre dava mais pitoresco à coisa.
Impunidade da justiça
terça-feira, 2 de setembro de 2008
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Paparocas africanas
O blog senegalês Cuisines d'Afrique.
Tem de tudo e mais alguma coisa, sempre dando a ideia de ser muito saboroso.
Para expandir exponencialmente a modesta secção de Paparocas, aí ao lado.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Último cigarrito
Foi na varanda, olhando as traseiras.
Começou a chuviscar.
Tentei dar alguma solenidade ao acto, mas não consegui. Na altura, não me pareceu grande coisa.













