quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Será que se pega?

A JSD apoia o casamento de homossexuais, mas não o direito desses casais adoptarem crianças.

Será que consideram a coisa uma doença contagiosa?

Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (7 e final)

UMA TEORIA POPULAR DO PODER POLÍTICO

Tendo eu referido que os deportados da Operação Produção são vistos como vítimas inocentes do poder político, seria tentador aplicar aos prisioneiros políticos, inversamente, o rótulo de culpados.
Essa seria, contudo, uma assunção simplista.

Por um lado, seria simplista pelo facto de dois grupos muito diferentes de prisioneiros políticos desaparecidos surgirem amalgamados, nas narrações populares, sob uma mesma equivalência aos gémeos e albinos: os heróis que morreram pela independência (que depressa foi apresentada como sinónimo de revolução socializante); e as pessoas que, sob imputações estigmatizantes, foram acusadas de conspirar contra a independência, o Povo Moçambicano e a revolução.

Em segundo lugar, seria simplista por ser bem sabido que uma detenção como prisioneiro político não derivava necessariamente de uma culpa ou de um acto censurável. Isto é imediato no caso dos resistentes anti-coloniais. Mas a maioria das pessoas concordará também que após a independência, junto com “verdadeiros” pró-colonialistas, contra-revolucionários e ideologicamente heterodoxos, muitos prisioneiros foram detidos apenas porque se queixaram um pouco mais alto de assuntos que também desagradavam aos seus vizinhos e colegas, ou porque tomaram as atitudes “erradas” no momento errado, mesmo que tivessem razão em fazê-lo – como no caso apresentado neste pungente relato de um ex-prisioneiro político:

«Nesse tempo, eu não era contra-revolucionário, nada! Estava feliz com a independência e aceitava como ela era, mesmo as coisas que não gostava.
Por exemplo: se tinha que se fazer dias de trabalho voluntário, porque é que eu ficava de enxada na mão, a capinar e a fazer buracos? Sou mecânico, por amor de Deus! Não sabia usar uma enxada e as outras pessoas não sabiam fazer mais nada. Eu ia ser mais útil a fazer o meu trabalho de graça, naquele dia. Mas nunca me queixei dessas coisas. Não gostava, mas fazia o meu melhor e aceitava. E aceitava a Frelimo mandar, porque nos trouxe a independência.
Mas mandaram-me para o campo de reeducação como contra-revolucionário e sabotador! Foi assim: uma peça importante de uma máquina partiu e o director da fábrica mandou-me fazer uma nova. Disse que não se podia fazer, que era preciso importar. Expliquei que não tínhamos aquele aço e as ferramentas que eram precisas e que, se substituíssemos por uma peça feita por nós, outras iam partir.
O director não sabia nada de mecânica e indústria. Era só um “camarada dedicado da luta armada”
e então fui preso como sabotador. Depois, aconteceu o que eu disse. Ele é que foi o sabotador, mesmo. Mas fui eu que fiquei anos no campo de reeducação.»

Assim, a diferenciação popular entre deportados e prisioneiros políticos não decorre dos actos particulares que eles efectuaram (ou não) e da culpa atribuída a esses actos concretos, mas da posição que eles mantêm perante o poder e da avaliação pública que é feita acerca dessa posição.
Por outras palavras, o objecto da avaliação popular, neste jogo de identificação e diferenciação, não é a culpa ou inocência de actos concretos, mas aquilo que é lícito ou ilícito quer na relação das pessoas com o poder estabelecido, quer na forma como esse poder é exercido.

Efectivamente, conforme antes mencionei, os gémeos e os albinos têm outra característica pertinente, no contexto socio-cultural do sul de Moçambique, para além do desaparecimento destes últimos e da sua origem cósmica comum: ambos são ameaças socio-cósmicas que fazem perigar a ordem da reprodução do mundo, nos seus aspectos naturais e sociais.

Dado que o desaparecimento é comum aos deportados e prisioneiros políticos acerca dos quais se contam as histórias que temos vindo a acompanhar, o assunto que é enfatizado nos destinos opostos que são atribuídos aos seus cadáveres é, então, o carácter ameaçador que é ou não reconhecido a cada um dos grupos (veja-se imagem 2).
Assim sendo, a coexistência entre, por um lado, uma equivalência simbólica entre prisioneiros políticos desaparecidos e gémeos/albinos e, por outro lado, a sua diferenciação dos deportados desaparecidos na Operação Produção, expressa um conceito – ou, melhor dizendo, uma teoria – das relações de poder político que mantém interessantes paralelos com as sugestões de Harry West acerca do norte de Moçambique.

Sejam heróis da independência ou ameaças a ela, sejam culpados ou simplesmente pessoas consideradas subversivas pelo poder (não importa quando ou qual), os prisioneiros políticos ameaçam a sociedade global e não apenas aqueles que ocupam o poder. Pessoas normais a que se tornaram vítimas de um abuso de poder generalizado não são ameaças sociais; pelo contrário, são merecedoras de preocupação e consideração públicas.[1]

Em termos mais gerais, de acordo com essa teoria política popular, é ilícito e socialmente ameaçador fazer perigar o poder estabelecido, a partir do momento em que ele é reconhecido como tal, e quem o faz torna-se uma anormalidade social ameaçadora. Fazer perigar o poder estabelecido é fazer perigar não apenas os poderosos, mas também a ordem e equilíbrio sociais.
Entretanto (de forma inseparável, e tão importante como a afirmação anterior), é também ilícito, para um poder estabelecido e legítimo, tomar decisões injustas acerca das pessoas sob sua responsabilidade, em vez de assegurar o seu bem-estar básico, conforme deveria.

As resilientes representações sociais acerca dos gémeos e albinos foram, então, manipuladas para expressar de forma crítica uma visão do poder subtilmente equilibrada, que pode ser muito enganadora se focarmos a nossa atenção em apenas um dos seus pólos. Tudo o que conseguiremos ver, nesse caso, será ou uma atitude dependente e exigente ou (olhando para o pólo oposto) uma resignada e quase automática submissão ao poder.

Quando a tomamos no seu conjunto, contudo, aquilo que vemos é um “contrato social” (Rousseau) que, de facto, é similar a várias descrições de conceitos “tradicionais” de poder político na África sub-sahariana:
Um poder estabelecido pode ser considerado legítimo devido a diversas razões diferentes (neste contexto, a genealogia, a conquista, a legitimidade revolucionária ou eleições democráticas); mas o reconhecimento social da legitimidade do poder, mesmo que consensual, não significa que todas as suas decisões e práticas sejam legítimas, mesmo que sejam realizadas ao abrigo das competências que lhe são reconhecidas.
O reconhecimento público da legitimidade do poder impõe, aos poderosos, responsabilidades para com a protecção e bem-estar da população que governam. Se o poder estabelecido falha a concretização dessas responsabilidades – ou as desrespeita – nas suas acções concretas, essas acções são ilegítimas, embora o próprio poder não o seja.

Assim, focar apenas um dos pólos deste “contrato social” tem consequências mais vastas que o mero equívoco interpretativo ou científico. Pode, também, restringir a capacidade para compreender as dinâmicas políticas correntes.
Após 80 anos de domínio colonial e 33 anos de independência sob governação de um mesmo partido, que nem sequer enfrentou resistências explícitas para mudar de um paradigma socializante para uma política neo-liberal, é muito compreensível que as elites políticas moçambicanas foquem a sua atenção no pólo da resignação e submissão popular ao poder.
Foi por isso, parece-me, que essas elites se mostraram tão surpreendidas pelos violentos motins contra os aumentos de preços que abalaram Maputo no início de Fevereiro de 2008 e declararam que existia uma «mão invisível» externa por detrás deles.

Mas, se parece agora claro, a partir dos dados e interpretações que apresentei, que as velhas representações acerca de gémeos e albinos foram seleccionadas como matéria-prima para expressar de uma forma sistemática uma visão popular do poder e para classificar, em função dela, recentes actores dos acontecimentos políticos, não há nada de “natural” nessa escolha.
A selecção dessa metáfora, em detrimento de alguma das linguagens locais mais habitualmente utilizadas para falar do poder (como por exemplo a feitiçaria), é pelo contrário excepcional e surpreendente.

Provavelmente, tudo começou com esse perturbante acto de desaparecer, que é comum aos dois contextos e parece ter oferecido, aos albinos e gémeos, uma insuspeitada pertinência para simbolizarem questões políticas recentes.

O facto de terem sido seleccionados para esse efeito revela, no entanto, um outro ponto importante: mostra até que ponto são ainda hoje relevantes, no Moçambique urbano e periuburbano, as representações e crenças acerca de gémeos e albinos.


[1] Seria interessante verificar que destino era atribuído pelos relatos populares aos cadáveres das pessoas falecidas em trabalho forçado durante o regime colonial, mas não consegui encontrar referências a esse assunto.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (6)

SUBVERSIVOS E VÍTIMAS (II - deportados desaparecidos )

Imagem 2. Relações simbólicas entre gémeos, albinos, prisioneiros e “improdutivos”

Que aconteceu a esses milhares de pessoas, apelidadas de improdutivas, delinquentes ou prostitutas?
No início, havia de facto alguns campos de trabalho onde podiam ser colocadas a fim de desempenhar trabalhos pesados, e ainda havia espaço nos campos de reeducação.
Em breve, todos esses lugares estavam sobrelotados e o estado não conseguia organizar novos, pelo que as pessoas eram simplesmente deixadas longe das suas zonas de residência. Primeiro, em aldeias; depois (como aconteceu a um ícone do bairro do Xipamanine, um homem que regressou do Niassa caminhando milhares de quilómetros), eram largadas no meio do mato, numa província onde os leões são muito comuns.

A maioria dos deportados nunca chegou a receber transporte de volta para as suas cidades. Assim, a menos que eles ou as suas famílias tenham conseguido transporte pelos seus próprios meios, ou morreram ou continuam a viver nas regiões onde o estado os deixou. Para as suas famílias e vizinhos, eles desapareceram.

Curiosamente, nem os cidadãos comuns nem os simpatizantes internacionais que observavam as transformações em Moçambique (Urdang - And Still They Dance) apontaram as óbvias semelhanças entre as primeiras justificações colonialistas para o trabalho forçado (Ennes - Moçambique, Relatório Apresentado ao Governo) e o discurso acerca do trabalho que legitimava a Operação Produção, ou sequer o paralelo entre ela e a Lei do Passe/política dos Bantustões do apartheid sul-africano.
Na década de 1980s, aquilo que apontavam era o enorme número de pessoas que eram tratadas injustamente, mesmo de acordo com os princípios da Operação Produção. Só mais tarde esses princípios começaram a ser vistos popularmente como um abuso em si próprios, mas sem suscitarem analogias históricas locais – embora antigos responsáveis com quem tive oportunidade de falar acerca do assunto procurem justificar a Operação através de uma outra analogia histórica, designadamente as restrições à circulação interna e ao estabelecimento nas cidades que vigoravam na USSR.

Mesmo assim, os deportados são vistos, em termos gerais e na grande maioria dos casos individuais, como pessoas normais que simplesmente se tornaram vítimas de uma utilização abusiva do poder político. A Operação Produção acabou por perdurar como um acontecimento colectivamente traumático, que apenas os subsequentes horrores da guerra civil permitiram minimizar na memória das pessoas.

Ao perguntar a pessoas de diferentes bairros de Maputo o que aconteceu a esses deportados que nunca regressaram, nunca recebi uma resposta que mencionasse água, solo molhado ou crocodilos.
Em mais de 30 entrevistas e conversas informais acerca deste assunto, encontrei também um leid motiv comum, mas que é muito diferente daquele que referi no caso dos prisioneiros políticos desaparecidos: de acordo com essas histórias, ou essas pessoas continuaram a viver no Niassa; ou foram comidas por leões; ou morreram por qualquer outra razão e foram sepultadas de acordo com os costumes vigentes nessa província.

Estas pessoas do sul de Moçambique não conhecem realmente as características dos tais costumes funerários do Niassa que mencionam, mas partem do princípio que se tratará de enterros em solo seco. Um tal fim é, não obstante, visto como lamentável, pois supõem que o ritual seja diferente do seu e, portanto, estranho para os deportados falecidos, e porque os espíritos dos defuntos ficarão sozinhos no Niassa, sem a companhia dos seus parentes vivos e mortos.

Devo sublinhar que esta narrativa recorrente acerca do destino dado aos cadáveres é muito significativa porque, conforme Feliciano (Antropologia Económica dos Thonga do Sul de Moçambique) já salientou, quando um forasteiro morre deverá ser sepultado em solo húmido, “à cautela”, pois para a população local é fácil ver que o defunto não é um albino, mas nunca se pode ter a certeza de que ele/ela não é um gémeo, ou a mãe de alguém que seca a terra.
Partir do princípio de que as pessoas do Niassa não tomaram essa habitual precaução para com forasteiros que, afinal, estavam numa posição estigmatizante é, portanto, uma forte declaração (embora talvez não consciente) de que eles não a deveriam tomar. É, de facto, uma reivindicação de que os deportados não merecem ser enterrados como gémeos ameaçadores.

Também os relatos públicos do homem do Xipamanine que há pouco mencionei eram duplamente significativos, pois constituíam testemunhos da sua experiência pessoal e, ao mesmo tempo, reconfigurações dessa experiência à luz das expectativas e consensos da audiência.
Quando ele atravessou o país a pé, teve também que passar rios a vau, de forma a evitar postos de controlo nas pontes. Essas travessias e o concomitante perigo de crocodilos eram momentos impressionantes das suas narrações, mas nunca atribuía aos crocodilos a morte de outros deportados, embora mencionasse com frequência a sua morte por parte de leões e o terror que a todos suscitava a possibilidade de tal lhes acontecer.

Verificamos então que, em completa oposição aos prisioneiros políticos desaparecidos (ver imagem 2), os deportados desaparecidos na Operação Produção – que também foram presos e mandados para longe pelo estado, sob condições e acusações estigmatizantes – são sistematicamente representados como tendo sido enterrados em solo seco ou comidos por predadores terrestres, mesmo se é provável que alguns deles se tenham na realidade afogado, ou sido comidos por crocodilos.

Num contexto retórico e conceptual em que os prisioneiros políticos são equiparados a gémeos/albinos, os deportados desaparecidos são, assim, veementemente apresentados como não-gémeos/albinos.

Uma das consequências deste facto é que a imagem projectada sobre os prisioneiros políticos desaparecidos não pode ser apenas uma afirmação do seu desaparecimento.
Uma segunda consequência é que se torna necessário clarificar os sentidos atribuídos às diferenças entre estes dois grupos de pessoas desaparecidas, para que possamos compreender o sentido dessa imagem.

Golpe na Bolívia?

Apesar da declaração conjunta de apoio por parte de quase todos os países da América do Sul, Central e México, e apesar das declarações dialogantes do lider separatista (num artigo da BBC em que acaba por ficar claro que as questões são de racismo e justiça social, e não de dinheiros do petróleo e gás), fui alertado para que estaria a ocorrer um pronunciamento militar na Bolívia, enfrentado por manifestações populares.

Não encontro nada nos meios de comunicação on-line.

Enquanto aguardo por confirmação, desejo ardentemente que a informação que recebi esteja equivocada.

Uff! Afinal, não. A pessoa tinha visto esta notícia na televisão, sem ouvir bem, e confundiu-se. Lado bom da história: não sou a única pessoa a interessar-se por isto, em Portugal.

Acordo no Zimbabwe

Foi finalmente assinado, ontem, um acordo de "partilha do poder" no Zimbabwe.
O que é que isso vai querer dizer, ainda pouco se sabe.
Apenas que quem perdeu fica Presidente e fala grosso e que quem ganhou fica Primeiro-Ministro, coisa que não existia, e tem discurso de estadista.

Bem... pelo menos é de esperar que deixem de ser mortos e presos os deputados e dirigentes do partido maioritário, a que os jornais continuam a chamar "oposição".

Pelo meio, Mbeki lá se pode convencer de que fez alguma coisa útil e que não foi uma parte importante do problema, em vez de parte da solução. A linguagem corporal da foto diz-nos, aliás, muito acerca disso.

Pelo meio, também, ficou mais institucionalizada a nova e emergente "via africana para a alternância democrática":
Fazem-se eleições, o governo tenta TUDO para ganhar e, quando perde, cria o caos e a violência generalizada, até que alguma boa alma há muito amiga venha intermediar um governo de unidade que mantenha as oligarquias no poder.

Agora, talvez só Moçambique venha a escapar desta sina, já que até os negócios privados de quem manda (e não apenas as despesas correntes do Estado e o funcionamento da economia) dependem da boa vontade dos "doadores" internacionais.
Mas também, com a oposição a desacreditar-se cada vez mais, à custa de tiros no pé como o das autárquicas na Beira, a questão não se irá colocar durante uns bons anos.

Entretanto, o texto do acordo ficou disponível aqui (cortesia de Carlos Serra).

Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (5)

SUBVERSIVOS E VÍTIMAS (I - Operação Produção)

Imagem 3. Julgamento de uma mãe, talvez solteira, durante a Operação Produção

Em Maio de 1983, ao informar o país acerca dos resultados do 4º Congresso da Frelimo, o Presidente Samora Machel anunciou que uma das decisões era «limpar as cidades de vadios, marginais, prostitutas e todos aqueles que não trabalham». Nas palavras de Gita Honwana (revista Justiça Popular 8/9: 3), «Assim de iniciou a grandiosa operação pela produção, contra a fome e o desemprego, contra a marginalidade e a criminalidade, pela dignidade do Homem Moçambicano; uma operação que é parte integrante da batalha económica que hoje travamos; uma operação que está sendo uma escola em que também a Justiça através dos seus Tribunais, através da actuação dos seus Juízes, foi aprender uma lição de legalidade».

Para a população comum, contudo, era difícil reconhecer sob uma retórica tão gloriosa os acontecimentos reais que estavam a viver.
Aquilo que recordam e mencionam são as constantes rusgas e postos de controlo, impostos pela polícia e pelas milícias oficiais junto das paragens de autocarro e nas áreas residenciais, as pessoas que não traziam no bolso o bilhete de identidade ou o cartão de trabalho a serem levadas para o Niassa antes que as suas famílias tivessem oportunidade de intervir, as mães solteiras sendo deportadas como prostitutas, os desempregados sendo tratados como criminosos por um estado que era dono da economia mas não lhes conseguia proporcionar trabalho, a humilhação, a dor, o desamparo e a amargura.
Afinal, as pessoas lembram e sublinham as famílias separadas e destruídas, o trabalho forçado, os parentes desaparecidos para sempre, o abuso de poder sobre pessoas normais, sem qualquer tipo de resultados positivos – junto com o aproveitamento do ambiente de delação e depuração para levar a cabo vinganças pessoais.

Quando recuamos no tempo e olhamos para essa realidade através da perspectiva do estado, na revista oficial Justiça Popular, tanto as apologéticas compte rendu dos Juízes Populares quanto os apelos e veredictos publicados como exemplos de jurisprudência são consistentes com as descrições populares que mencionei.

Não foi escrita qualquer lei sobre a “Operação Produção” mas, só em Maputo, foram de imediato criados 38 postos de verificação com o estatuto de Tribunais Populares mas, ao contrário destes, com o poder de sentenciar os acusados a penas de prisão ou de deportação para centros de produção ou campos de reeducação. Nas primeiras semanas, as rusgas e detenções foram tão numerosas que os Juízes Populares nomeados tiveram frequentemente que trabalhar 48 horas consecutivas, decidindo o destino de centenas de pessoas (imagem 3).
Com a acumulação de acusados, as forças policiais começaram a mandá-los logo para os centros de evacuação, de onde seguiam directamente para o Niassa. Foram mais tarde criados grupos de triagem nos postos de verificação, e só os «casos duvidosos» eram levados aos Juízes Populares.
Também acabou por ser implementado um mecanismo de apelo, neste caso baseado sobretudo em juízes com alguma preparação jurídica efectiva.

A revista refere muitas decisões injustas, mesmo de acordo com os critérios draconianos da Operação Produção.
Nas áreas periurbanas, houve camponeses deportados porque, obviamente, não tinham nenhum cartão de trabalho passado por uma entidade empregadora. O mesmo aconteceu a vários trabalhadores empregados, porque muitas empresas tinham os seus registos de pessoal desactualizados (idem: 3-10). Entre os académicos e outras profissões proeminentes, chegou a haver casos de pessoas que foram subitamente demitidas e, ao chegarem a casa, encontraram a polícia à sua espera para as deportar como “improdutivas”.[1] Outras profissões, como os curandeiros e adivinhos, não eram reconhecidas como tal pelo estado e, dessa forma, praticá-las tornou-se uma razão para deportação – tal como acontecia com os biscateiros (idem: 40).

Também os critérios utilizados nos apelos são com frequência surpreendentes.
Um dos exemplos de jurisprudência confirma a deportação para o Niassa de um trabalhador emigrado que esperava em Maputo pela renovação do seu passaporte, baseando-se a decisão no facto de ele não ter um cartão de trabalho da Suazilândia – que não existia – e de, ao contrário do que a polícia política lhe dissera para fazer, não se ter inscrito como alguém que procurava trabalho – o que não era o seu caso, visto trabalhar no estrangeiro (idem: 41).
De facto, apelar podia piorar a situação. Os pais de uma jovem pediram o seu regresso de um campo de trabalho perto de Maputo, pois não era “improdutiva”, à luz das últimas instruções enviadas aos postos de verificação. Mas o juiz de recurso decidiu que, como ela era mãe solteira de dois filhos «perante a total indiferença dos seus pais», era uma «mulher de mau porte» e deveria voltar a ser julgada sob essa acusação, e não como “improdutiva” (idem: 41). Nesta nova situação, foi provavelmente enviada para o Niassa…

As situações mais arbitrárias diziam de facto respeito a mulheres e à acusação de prostituição. Depois de 6 meses de julgamentos sumários e deportações, um Juiz Popular sugere timidamente que talvez seja tempo de «definir claramente prostituição e identificar a sua punição, de acordo com a nossa realidade» (idem: 9), aproveitando para mencionar o caso de uma mulher que foi acusada de prostituição porque se separou de um homem com quem coabitava há vários anos sem ser casada e, vivendo de novo em casa dos pais, começou a relacionar-se com outro homem antes de as «estruturas locais»[2] terem ratificado a sua separação anterior.
Um dos veredictos de recurso teve que sublinhar que «uma mulher não é uma prostituta apenas por ter vivido maritalmente com um português», antes da independência (idem: 42).
E Stephanie Urdang (And Still They Dance) ouviu, numa viagem de estudo através de campos de deportação, queixas sistemáticas de mulheres que diziam estar ali devido a vinganças pessoais de carácter sexual.


[1] Ao contrário dos restantes exemplos que menciono, tomei conhecimento destes últimos casos (que correspondem à punição de inimizades pessoais ou políticas que não encontravam bases legais sob outras acusações) através de comunicações pessoais, e não pelos artigos da revista Justiça Popular.
[2] Num quadro monopartidário que indiferenciava o estado e o Partido Frelimo, esta expressão designava os Secretários de Bairro, os Grupos Dinamizadores e as lideranças locais das organizações de base da Frelimo, com destaque para as de mulheres e de juventude. "Estruturas” acabou por se tornar a designação popular para quaisquer dirigentes do estado ou da Frelimo, do nível central ao local.

domingo, 14 de setembro de 2008

O puto que se segue

Ontem, ao obter uma molhada pole-position no G.P. de Itália, Sébastien Vettel tinha-se tornado o piloto com a melhor época 2008, tendo em conta o carro que conduz.
Hoje, ficou a certeza de que a pole não tinha sido um golpe publicitário com pouco peso de gasolina. De novo à chuva, venceu com autoridade e particular perícia.

Mais do que o mais jovem vencedor na Fórmula 1, tornou-se em mais uma evidente estrela do futuro próximo. Com Hamilton e Kubica, sem esquecer Raikkonen e Alonso, pode ser que voltemos a algo semelhante aos tempos Senna/Prost/Mansell/Piquet.

Dos aspirantes ao título, entretanto, um voltou a mostrar o seu brilhantismo.
O outro (pese embora a solidariedade da língua), a sua mediania.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (4)

ALBINOS E PRISIONEIROS DESAPARECIDOS (II - Prisioneiros políticos)

Como eles, muitos prisioneiros políticos, quer antes quer depois da independência, desapareceram das suas comunidades e do olhar das pessoas que os conheciam.
A maioria realmente morreu, outros estabeleceram-se nas regiões onde foram encarcerados, quando a sua detenção chegou ao fim. Também vários guerrilheiros do movimento anti-colonial (Frelimo) foram mortos pelas tropas ou pela polícia política portuguesa (PIDE/DGS), após a sua captura e interrogatório.

Já mencionei uma história acerca do que aconteceu a alguns dos resistentes anti-coloniais desaparecidos: o seu enterro clandestino pela PIDE/DGS, junto à água do rio, perto do actual cemitério da Matola. Escrevi “história” porque, de facto, não há evidências de que tal tenha acontecido naquele local, que aliás seria uma estranha escolha para sepultar pessoas em segredo.
Dalila Mateus (A PIDE/DGS na Guerra Colonial 1961-1974) fornece-nos outra história acerca da ocultação dos cadáveres de resistentes em lugares molhados. Ouviu na praia do Tofinho, perto da cidade de Inhambane, que a PIDE/DGS costumava ali atirar ao mar os cadáveres das pessoas que matava, para que fossem comidos por tubarões. Esta informação popular parece ser, de novo, uma lenda significativa, pois não existem naquela área tubarões comedores de homens e, para além disso, a praia sofreu uma enorme erosão nas últimas décadas – pelo que aquilo que parece muito fácil actualmente teria sido muito difícil há 35 ou 45 anos atrás.

Ouvi contudo, na mesma praia, uma variante dessa história, indicando agora diversas furnas nas rochas que conduzem a cavernas subaquáticas. Nesta versão, a analogia com a sepultura de gémeos é ainda mais directa pois, embora os corpos fossem mandados à água, eram simultaneamente atirados para dentro da terra.

Há ainda outra história corrente acerca da morte e manipulação de cadáveres dos resistentes e guerrilheiros. Diz-se que, durante o transporte em helicóptero de prisioneiros políticos até Lourenço Marques, a PIDE/DGS e as tropas portuguesas costumavam atirá-los ao mar, longe da costa.

Se isto pode ter acontecido, relatos fidedignos de antigos membros das tropas portuguesas, também eles horrorosos, contam uma história significativamente diferente. Alguns comandantes militares e agentes da PIDE/DGS costumavam, de facto, atirar guerrilheiros de helicópteros, quando pensavam que não iriam obter mais informações deles; mas isto era feito em terra firme e os cadáveres das vítimas eram deixados insepultos. Um dos agentes costumava até gritar sarcasticamente, nessas ocasiões: «Dizes que a terra é tua, vai ter com ela!»[1]

Assim, naquilo que parece ser uma reinterpretação de práticas reais que não envolviam água, as narrativas populares acerca do destino dado aos cadáveres dos resistentes independentistas desaparecidos colocam-nos sistematicamente em ambientes molhados. Essas narrativas tanto podem seguir uma analogia directa com os enterros de gémeos ou ir ainda um pouco mais longe (colocando os corpos dentro de água, em vez de sob terra molhada), tal como os albinos “vão um pouco mais longe” que os gémeos na ameaça que representam e nos constrangimentos impostos às suas mortes.

No entanto, esta ligação simbólica entre prisioneiros desaparecidos, gémeos e albinos continua após a independência.
Cronologicamente, o primeiro caso que me foi mencionado refere-se a um motim de ex-guerrilheiros, pouco depois da independência. Conta-se que os rebeldes foram dominados e levados para a ilha da Xefina (situada perto da costa, na baía de Maputo, e local para onde, curiosamente, tinha fugido o Governador em 1833), onde foram fuzilados e lançados ao mar. Até ao momento dos fuzilamentos, trata-se de factos históricos bem conhecidos, mas não pude obter qualquer confirmação acerca do que aconteceu aos cadáveres.

A ilha tornou-se depois o local de um “Campo de Reeducação”, para pessoas que o regime considerava «comprometidas com o colonialismo», «reaccionárias» ou ideologicamente heterodoxas. Acerca daquilo que aconteceu nesta fase, é vox populi que os prisioneiros lá falecidos foram igualmente lançados à água. Contudo, um antigo prisioneiro desse campo negou a veracidade dessa história durante uma conversa comigo, chamando-lhe «um mito».

Vários outros campos de reeducação foram subsequentemente construídos, sobretudo no interior e longe de Maputo. Acerca destes, pude ouvir em várias histórias, contadas por pessoas que nunca lá estiveram, que as campas dos prisioneiros eram cavadas na margem dos rios. Embora muitos campos fossem de facto construídos junto de rios, devido às necessidades de abastecimento de água, nunca alguém que lá tenha realmente estado me confirmou esses procedimentos funerários. Pelo contrário, quatro antigos prisioneiros disseram-me que nunca viram tal acontecer e que, nos campos onde estiveram presos, as margens dos rios eram usadas para culturas agrícolas.

Também existem narrativas populares acerca de pessoas que tentaram fugir dos campos de reeducação e não conseguiram regressar a casa, desaparecendo pelo caminho. Pude ouvir seis dessas histórias e todas elas tinham um leid motiv similar: o fugitivo morreu ao tentar atravessar um rio, onde se afogou ou foi comido por crocodilos – o protótipo de predador aquático nas zonas de interior.

Portanto, no caso dos prisioneiros políticos desaparecidos no período pós-independência, as narrações populares colocam-nos sistematicamente – tal como acontece com os resistentes anti-coloniais desaparecidos – morrendo na água, sendo comidos por predadores aquáticos, ou sendo sepultados em solo molhado ou na própria água. E isto acontece, também, independentemente do conhecimento factual de eventos reais.
Esta última característica reforça a significância simbólica de tais histórias. Mas qual é o sentido das equivalências entre prisioneiros desaparecidos, gémeos e albinos que elas enfatizam?

Se tomássemos apenas em consideração estes dados, pareceria que as velhas crenças acerca de gémeos e albinos são usadas para mencionar prisioneiros politicos desaparecidos apenas para destacar o facto de eles terem desaparecido. No entanto, existe um outro grupo conspícuo de pessoas que também foram presas, levadas para longe das suas comunidades e famílias e detidas em terras distantes, de onde muitas delas nunca regressaram, e essas crenças não são usadas para falar delas.


[1] Comunicação pessoal de três ex-militares portugueses (dois deles conscritos) que testemunharam este procedimento e desejam manter o anonimato.

Bolivia chateia o Grande Irmão do Norte

Preocupei-me, aqui, com a possibilidade de balcanização da Bolívia, em resultado do independentismo latifundiário e racista das províncias mais ricas do país.

Preocupei-me mais ainda ao saber a história do embaixador Philip Goldberg, que agora foi declarado persona num grata pelo estado boliviano.

Pensei que dificilmente os problemas recrudesceriam depois do surpeendente referendo que punha em questão a continuidade nos cargos do presidente, do vice-presidente e dos governadores provinciais, do qual Evo Morales saiu com um apoio reforçado.

Afinal, vieram manifestações e ocupações dos edifícios públicos nas tais províncias e a secessão está mais do que nunca em cima da mesa.

Os Estados Unidos dizem que a Bolivia cometeu um erro grave ao expulsar o seu embaixador, acusado de activo apoio às tais manifestações.

Tendo em conta que Philip Goldberg é considerado o grande especialista diplomático norte-americano em agudizar conflitos étnicos e raciais, que ganhou esses galões na Bósnia, no Kosovo e na ex-Jugoslávia em geral, mas que também calhou estar no Haiti durante o golpe que depôs o presidente Jean Aristide, para além de ter sido obreiro da militarização do Plano Colômbia, depreendo que o tal "erro grave" a que a administração Bush se refere não será a responsabilização de um pobre inocente.
Será o de terem a veleidade de não aceitar que ele continue a aplicar os seus talentos, conhecimentos e meios para os derrubarem.

O que me deixa uma nova preocupação: será que os Estados Unidos equacionam uma intervenção militar na Bolívia?

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (3)

ALBINOS E PRISIONEIROS DESAPARECEIDOS ( I - Albinos)

Imagem 2. Relações simbólicas entre gémeos, albinos, prisioneiros e “improdutivos”.


A ligação entre gémeos e prisioneiros desaparecidos, ambos supostamente sepultados em solo molhado, é de facto fornecida pelos albinos (imagem 2).
Acerca da crença local no desaparecimento dos albinos, João Pina Cabral ("Os albinos não morrem: crença e etnicidade no Moçambique pós-colonial", in O Processo da Crença) enfatizou o seu estatuto intersticial, nem “preto” nem “branco”, sugerindo que eles «não morrem» porque supostamente não são enterrados, e que essa recusa de os ligar à terra significa uma recusa de pertença, numa sociedade em que pertencer é primariamente marcado pela divisão “preto”/”branco”.

Podemos de facto dizer que a actual relevância da ambiguidade “racial” dos albinos é um aspecto evidente da sua situação e do interesse que despertam as representações acerca deles. Mas é apenas uma pequena parte dessas representações e, muito provavelmente, não é a chave para as compreender.
Numa sociedade como a moçambicana, em que a “raça” é vista como uma realidade biológica e não como uma construção socio-ideológica, e em que a cor da pele e as “misturas rácicas” detectáveis servem de base a diferentes comportamentos para com as pessoas, não se podem ignorar as questões identitárias e hierárquicas levantadas por uma pessoa “negra” com pele “branca”.

Mas não deveremos ignorar, tão pouco, que a relevância hierárquica da cor da pele é historicamente recente, e que as actuais representações acerca dos albinos são demasiado complexas para derivarem apenas da ambiguidade “rácica” – embora também sejam capazes de a representar.
Deveremos, por exemplo, recordar que apenas em meados do séc. XIX o primeiro imperador de Gaza viu, nas suas próprias palavras, um “branco branco” (por contraste com os “brancos” luso-indianos que costumavam comerciar no interior de Moçambique), e que esse homem era uma visita convidada a entrar no kraal real, de forma alguma uma pessoa com precedência hierárquica sobre a população e autoridades locais (Deocleciano Fernandes das Neves, Das Terras do Império Vátua às Praças da República Boer).

Claro que os “brancos” eram conhecidos muito antes disso, em torno das áreas limitadas onde se tinham estabelecido, mas salvo excepções regionais não ocupavam na maioria dos casos uma posição dominante, especialmente no sul de Moçambique. Por exemplo, o Governador de Lourenço Marques era considerado pelo rei local, em 1833, um chefe subordinado que lhe devia tributo e o argumento para atacar a sua fortaleza e o matar foi a sua insubordinação (ver Gerhard Lieagang, A guerra dos reis Vátuas...).

É óbvio que a relevância social da “brancura” de pele durante os tempos coloniais (1895/1975), e depois deles, é muito mais recente que a anomalia representada pelos albinos. Mas é também previsível e plausível que essa relevância seja, igualmente, muito mais recente do que a necessidade social de interpretar e explicar a excepção representada pelos albinos – uma explicação pertinente, mesmo para pessoas que pensassem ter toda a humanidade a pele castanha.

Curiosamente, Henry Junod não menciona explicitamente os albinos no seu detalhado livro Usos e Costumes dos Bantu, quando lida com as ideias dos indígenas «relativas às diferentes raças humanas» (pp. 298-300). Parece, então, que nesse tempo os albinos não lhe tinham sido apresentados como uma questão rácica.
Mas penso que de facto fala acerca deles, sem o notar, quando discute a origem da palavra valungo para designar “homem branco”. Junod nega que a etimologia do termo venha de um verbo zulu que significa “ser justo” e sugere a palavra local valungwana, que traduz por “habitantes do céu”, especulando que tal designação viria provavelmente de alguma mitologia esquecida acerca de “homem branco”. Contudo, acreditava-se os portugueses agora dominantes vinham do mar, não do céu, e os gémeos eram (e ainda chão) referidos como “filhos do céu”.

Embora Junod nunca tenha realmente descodificado o sentido desta última designação celestial, esse sentido era claro na informação recolhida por Feliciano na década de 1970 e que eu próprio pude ouvir cerca de 30 anos depois: conforme mencionei, os gémeos e os albinos são filhos do céu porque, independentemente da sua concepção terrestre, receberam a sua condição excepcional ao serem atingidos por um raio dentro do útero materno. Os gémeos foram fendidos em dois mas os albinos não, apenas tendo sido queimados e, com isso, perdido a cor da sua pele.
No entanto, ambos alcançaram, com esse incidente, uma relação próxima e privilegiada com os fenómenos celestes. Uma relação que, conforme também já mencionei, é ameaçadora da ordem e da fecundidade pois, no quadro simbólico em que está integrada, os gémeos e os albinos são simultaneamente “demasiado quentes” e “uma trovoada sem chuva”. Devido a essas características, carregam em si o potencial para a desordem, para a doença e para secar o céu e a terra.

Uma das consequências da origem comum e celeste dos gémeos e albinos é que, se Junod tinha razão acerca da etimologia, o mais provável é que os “brancos” tivessem sido nomeados metaforicamente a partir dos albinos (com um sentido de “caras pálidas”), com base em prévias crenças acerca destes últimos. A ser assim, os albinos foram originalmente a referência para classificar os “brancos”, e não o contrário.
Mas, mais importante para o assunto que temos entre mãos, os albinos e os gémeos são simbolicamente equivalentes. Os albinos são vistos como gémeos incompletes que, ainda mais que estes últimos, carregam em si o poder destrutivo do raio, que nem foi capaz de os fender a meio – e, devido a isso, também carregam maiores consequências ameaçadoras, para a sociedade e para o cosmos, do que os gémeos.

Sugiro que é devido a essa condição superlativamente ameaçadora que não é suposto os albinos serem enterrados em lugares e circunstâncias especiais, à imagem do que acontece com os gémeos, mas não serem enterrados de todo. É por isso, então, que é suposto eles não morrerem, mas desaparecerem.

É claro que os albinos morrem e são enterrados. Alguns dos seus parentes mais próximos cumprem esse dever em segredo, seguindo os procedimentos prescritos para os gémeos e escondendo a localização da campa. Ao fazê-lo, protegem quer a segurança cósmica quer as crenças da comunidade:[1] os albinos continuam a desaparecer, porque ninguém pode dizer que assistiu ao funeral de um deles.


[1] Também na vizinha Tanzânia os albinos não são suposto morrer. Mas, paradoxalmente, partes dos seus corpos são procuradas para efeitos de feitiçaria de enriquecimento, visto que o enriquecimento pessoal é visto como algo que seca a riqueza à sua volta. Por essa razão e por ser desconhecida a localização das suas campas, pelo menos 19 albinos foram mortos e mutilados post mortem, em 2007 (Gettleman 2008).
Também em Moçambique, os mais poderosos amuletos e tratamentos mágicos para obter e manter riqueza e poder exigem partes de corpos humanos mas, tanto quanto sei, não especificamente de albinos. Isto pode contudo mudar em breve, devido ao ocorrido na Tanzânia e à habitual rapidez com que novas técnicas mágicas se espalham na região.
Os dados acerca dos procedimentos funerários com albinos resultam de uma comunicação pessoal de Danúbio Lihahe.

E qu'é da receita da caldeirada?

E esta aqui também merece bem um clique.

Onde é que fica o elevador da gávea?

No momento em que me começou a apetecer escrever um post a comentar o jogo-treino em que os máióres lá da minha rua levaram 3 a 2 de uns chavalos que discordavam que um só golo matasse alguém, puz-me a clicar aí ao lado, para ver se a coisa me passava.

Descobri isto, de muito e bom uso para os colegas sociólogos e para a arte de ser português.

Para além do mais, foi afixado uma semana antes do meu aniversário, o que é quase uma prenda de anos. As coisas que a gente inventa...

Mas vão lá só em alturas de crise. Não vale a pena passarem todos os dias, que eles são mais bejecas do que posts.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Ferrari é outra loiça

Por falar em duplicidade de critérios: aqui fica um curto videozinho com apenas 2 anos.

Claro que o protagonista era Schumacher e que as marcas dos carros estavam invertidas. O que faz toda a diferença.

Comentar o quê?

O ministro italiano da defesa (não da floricultura ou da protecção da barata pestanuda, note-se) não foi capaz de discursar no aniversário da resistência anti-fascista à ocupação de Roma pelos nazis, a que talvez pudesse ter faltado alegando uma enxaqueca, sem homenagear as tropas italianas que se juntaram ao exército alemão no seguimento do armistício entre a Itália e os aliados, quando Mussolini foi finalmente apeado.

Comentar o quê? Como?
Às vezes, só dá mesmo para dizer: «Porra!...»

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (2)

GÉMEOS E ORDEM CÓSMICA

Segundo os dados proporcionados por Henry Junod (Usos e costumes dos Bantu, tomo 2: 266-272) acerca do sul de Moçambique, a relação entre os gémeos, a chuva e os enterros em solo molhado já era vista como consensual e antiga em finais do Séc. XIX, sendo objecto de complexos rituais caso a seca ameaçasse uma determinada região.
Quando tal acontecia, a razão era sobretudo atribuída ao anterior enterro em solo seco de gémeos, abortos ou de bebés falecidos antes da sua apresentação à lua (que marca a sua existência social e integração na comunidade), sendo o primeiro passo para obter chuva descobrir as suas campas e corrigir a situação. A par de rituais de purificação das suas mães (caso elas tivessem escondido esses enterros incorrectos), os seus ossos eram exumados para um local húmido ou lamacento e as suas campas anteriores eram molhadas com água. Este acção era desempenhada por todas as mulheres, caminhando atrás de uma mãe de gémeos.

Nesse tempo, diz Junod (op cit: 371-378), o infanticídio do gémeo mais débil já não era praticado, como nos “tempos antigos”, mas tanto os gémeos como as suas mães eram objecto de especiais restrições e controlo social.
No dia seguinte ao seu nascimento, ninguém podia trabalhar, ou as colheitas secariam. Todas as mulheres da aldeia deviam partir em direcção aos quarto pontos cardeais, cantando “que a chuva caia” e regressando com água que era despejada sobre a mãe e os gémeos. A sua cabana era queimada e passavam a viver numa outra, fora da aldeia, usando objectos em que mais ninguém podia tocar e recolhendo a água de um local exclusive. Os gémeos não eram apresentados à lua e começavam a ser alimentados com leite de cabra mal a sua mãe voltasse a ter menstruação. Só voltariam à aldeia quando a mulher desse à luz um bebé “normal”, após provocar a morte consecutiva de quarto homens, por lhes passar a sua impureza através da prática sexual. Mesmo nessa altura, os gémeos eram proibidos de brincar com outras crianças, eram apontados como exemplos de mau carácter e, tal como as suas mães, eram objecto de especiais protecções rituais quando assistiam a cerimónias funerárias.
De acordo com o autor, muitas destas restrições tinham semelhanças com as impostas às viúvas.
Eram mais exigentes, duras e longas porque, se o nascimento de gémeos era identificado com a morte, tinha também uma significância cósmica – os gémeos eram chamados «filhos do céu» e a sua mãe era referida como a pessoa que fez, carregou ou subiu ao céu. Contudo, os aspectos ameaçadores que derivavam dessa familiaridade cósmica podiam ser socialmente úteis em momentos de crise: nos mais fortes rituais contra a seca, era necessário sentar uma mãe de gémeos numa cova e cobri-la de água até ao peito e, se relâmpagos assustadores se aproximassem da aldeia, só um gémeo conseguiria pedir à tempestade para se afastar.

Como seria de esperar, Junod interpreta essas práticas e crenças, que ouviu de forma fragmentar, de acordo com as ferramentas teóricas à sua disposição – utilizando a tipologia de princípios mágicos elaborada por Frazer (The Golden Bough).
No entanto, Feliciano (Antropologia económica dos thonga do sul de Moçambique) pôde fornecer-nos mais detalhes e uma interpretação global da posição ocupada pelos gémeos no sul de Moçambique.

Para além dos dados fornecidos pelo seu predecessor, aponta outras práticas dos finais da década de 1970 que, conforme pude verificar, ainda estão em uso actualmente. Quando um gémeo adoece, é proibido chorar, dar-lhe remédios ou perguntar-lhe se está melhor; pelo contrário, deverá ser insultado com frases como «Quando é que morre?», ou «De qualquer maneira, vai ser comido pelos peixes.» Nos funerais, os gémeos devem manter-se à distância das outras pessoas. Quando um deles morre, é proibido chorar e deverão ser colocadas cinzas na fontanela do sobrevivente, para evitar que desmaie. O gémeo sobrevivente não pode tomar medicamentos, ou morrerá, e não pode ir ao funeral, ou desmaiará e cairá dentro da campa (op cit: 334-336).

Pude também ouvir e observar que o gémeo sobrevivente não pode verbalizar a morte do irmão ou irmã. Pelo contrário, deve agir como se o falecido estivesse nalgum lugar longínquo e, se alguém que não saiba da morte lhe pedir notícias do defunto, deverá mentir, inventando alguma viagem ou dizendo que o finado se mudou para outro país ou província. Tal como muitas vezes acontece, várias pessoas foram incapazes de me apresentar uma razão clara para este comportamento, limitando-se a dizer que seria perigoso agir de outra forma; outras pessoas, contudo, explicaram-me que falar acerca da morte do outro gémeo traria a morte ao sobrevivente. Na atitude e nas palavras deste, então, o gémeo morto limitou-se a desaparecer.

A característica dos gémeos que aqui mais nos interessa, no entanto, é o facto de eles terem que ser enterrados em solo molhado ou, tal como acontece com outras pessoas e nascimentos anormais (op cit: 326-352), secarão a terra.
A razão desta prática e das restantes restrições impostas aos gémeos no sul de Moçambique torna-se mais clara se atentarmos na análise de Feliciano acerca do sistema simbólico que é localmente dominante (op cit: 305-308).
Em síntese, o autor sustenta que todos os fenómenos pertinentes de natureza social ou cósmica são “tradicionalmente” concebidos de acordo com um conjunto de diferentes códigos, com particular relevância para o sexual, o térmico e o culinário. No entanto, esses códigos são isomorfos e cada um deles pode ser usado para representar analogicamente (ou mesmo para dirigir a representação de) fenómenos que pertencem ao âmbito de outro código, o que aliás acontece de forma regular.
Neste quadro, a reprodução humana é análoga à interacção de um par incubador fogo/água e seu resultado bem sucedido, o bebé vivo, é representado como sendo água (que pode ou não resultar de uma tempestade) e, tal como a água, os bebés normais propiciam a fertilidade global. Só provisoriamente, até à cicatrização do umbigo e ao fim do sangramento da parturiente, o bebé e a sua mãe são considerados «quentes». No entanto, de um aborto ou de um bebé que morre enquanto está quente, resulta um desequilíbrio térmico global que exige o enterro do cadáver num local húmido, ou a terra secará.

As analogias e substituições mútuas entre diferentes códigos vão, contudo, ainda mais longe: «se o raio, fogo que seca a terra, é como o aborto, sangue expulso que queima o bebé, e o aborto seca a terra, como se fosse um raio; então o raio queima os bebés como se fosse um aborto.» (op cit: 310)
Este ponto é crucial porque, embora também existam outras hipóteses populares hoje em dia 1, o nascimento de gémeos é correntemente atribuído, tal como o nascimento de albinos, a um acidente cósmico. Ambos foram atingidos por raios dentro do útero materno, com consequências um pouco diferentes: os gémeos foram partidos em dois e os albinos foram queimados. É por isso que os gémeos são chamados «filhos do céu» e são eficientes interlocutores com as tempestades, e que os albinos eram chamados em ronga qhlandlati («carvão de raio»), uma palavra que muitos falantes adultos conhecem mas evitam utilizar, devido à sua carga pejorativa.
Entretanto, a interação entre os códigos sexual e térmico clarifica um outro aspecto: devido à sua origem, os gémeos são (tal como os albinos) raios sem chuva; ao contrário dos outros bebés, nunca deixam de ser quentes, com as respectivas consequências. Para além dos perigos para si próprios que derivam dessa condição, propiciam a secura e infertilidade, a desarmonia social e mesmo a doença – que é nalguns casos, normalmente relacionados com a sexualidade, atribuída a uma situação de calor interior chamada kuhisa. Em suma, são ameaças socio-cósmicas.

É este o quadro geral de referências relativamente aos gémeos no sul de Moçambique. Para além delas, contudo, Junod (op cit: 272) menciona en passant um detalhe revelador de que, já há mais de um século atrás, as características atribuídas aos gémeos e outros “secadores de terra” podiam ser extrapoladas para outros grupos de pessoas ameaçadoras, e ser ligadas ao destino que era dado aos seus cadáveres. De facto, dizia-se que chovia tempestuosamente sempre que as pessoas se juntavam para apanhar os barbos nalgumas lagoas, que a estação seca tinha transformado em lamaçais. Isto acontecia porque, no passado, tinham ali ocorrido batalhas e os cadáveres dos inimigos tinham sido atirados para a água.

Mas porque razão se parte do princípio, tantos anos depois, que também os prisioneiros políticos que desapareceram foram atirados para a água, ou sepultados em terra molhada?


[1] Pude ouvir duas delas em contexto urbano, de pessoas com níveis de escolaridade elevados: (1) uma mulher terá gémeos se a sua xará (a pessoa de quem herdou o nome) teve gémeos; (2) tornar-se mãe de gémeos é hereditário. Contudo, não só estas novas hipóteses populares torneiam a razão da própria existência de gémeos, como se verifica que os casos reais de nascimentos de gémeos em gerações sucessivas são, pelo contrário, encarados correntemente como um acontecimento estranho e muito excepcional.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos (1)

Tenho sido obrigado a traduzir para português o artigo «Gémeos, Albinos e Prisioneiros Desaparecidos: uma teoria moçambicana do poder político», que lá anda em publicação pelos States e de que vos falei aqui.
Revendo a tradução, que vai avançada, passou-me pela cabeça: porque é que não vou afixando o texto em fascículos, tipo Séc. XIX, em vez de esperar pela última frase? Pode ser que interesse a alguém...
Aqui fica a primeira leva, correspondente à Apresentação.



Imagem 1. Cemitério da Matola, junto do rio, de uma salina e da Mozal.

Alguns anos atrás, fiz uma visita a Martins Matsolo, o chefe hereditário da região onde foi construída a fundição de alumínio Mozal, perto da capital de Moçambique. Queria auscultá-lo acerca de uma ideia que se estava a espalhar entre os operários dessa fábrica: que, durante a cerimónia que precedeu a sua construção, ele tinha proibido a morte de cobras na área fabril, ou iriam ocorrer acidentes.
Ele disse-me que não era verdade e ficámos a discutir as razões para esse boato, que deriva da crença local em cobras possuídas por espíritos (Granjo, 2008). Como se diz que essas “cobras especiais” vivem em lugares com características especiais, a nossa conversa levou-me a falar do peculiar cemitério da Matola, junto da fundição (imagem 1).

«É um mau cemitério, não é? Quero dizer, mesmo junto ao rio, que até transborda…», perguntei. Ele permaneceu algum tempo em silêncio e, como tantas vezes acontece quando fazemos a um moçambicano mais velho uma pergunta melindrosa, não me respondeu directamente, mas através de uma história sem aparente relação com o assunto, mas fácil de compreender por parte de alguém que domine as referências que a ligam à pergunta.
- Sim... No tempo colonial, a PIDE até costumava esconder ali os prisioneiros que matavam na prisão deles. Não era bem ali, mas mesmo ao lado, mais junto da água.

Foi a primeira vez que ouvi falar de uma ligação simbólica entre gémeos, albinos e prisioneiros políticos. Isto porque, sinteticamente, os gémeos devem ser enterrados em solo húmido ou secarão a terra; os albinos (que têm a mesma origem cósmica) são suposto não morrer, mas desaparecer; e os prisioneiros desaparecidos eram enterrados em terra molhada.
É desrespeitoso enterrar pessoas “normais” em solo molhado, porque isso corresponde a tratá-los como «mortos que secam a terra» – e essa era a razão da minha pergunta. Ao contar-me aquela história, o senhor Matsolo concordou comigo e enfatizou a importância do assunto que eu tinha levantado; mas, ao fazê-lo da forma que o fez, ensinou-me algo de novo.

Esse novo assunto – a equivalência simbólica que mencionei e o sentido que lhe subjaz – é a razão deste artigo.
De facto, existem várias referências etnográficas às restrições sofridas em Moçambique pelos gémeos, albinos e suas mães, e até algumas interpretações antropológicas acerca delas. Se as compararmos entre si e falarmos com as pessoas hoje em dia, parece que essas restrições não mudaram muito nos últimos 100 anos, como tão pouco mudaram as excepções geográficas onde, pelo contrário, os gémeos recebem uma valoração positiva.
No entanto, essas regras resilientes e os conceitos que lhes subjazem eram suficientemente pertinentes para terem sido seleccionadas como uma linguagem para falar e pensar acerca dos prisioneiros políticos desaparecidos, tanto durante o colonialismo como após a independência – embora não, conforme veremos, para pensar acerca dos vários milhares de pessoas que, na década de 1980, foram expulsas das cidades para a remota província do Niassa, acusadas de serem «improdutivas».

A equivalência com gémeos e albinos foi empregue apenas por esses prisioneiros terem desaparecido? Durante algum tempo, pensei que essa explicação era suficiente – pelo menos se lhe adicionássemos as restrições e estigma que os prisioneiros políticos sofreram. Contudo, foram muito mais numerosos os deportados que desapareceram no Niassa, também eles sofreram restrições e estigmatização, mas a equivalência que mencionei não é utilizada no seu caso.

Irei então sugerir que a equivalência simbólica entre gémeos, albinos e prisioneiros políticos desaparecidos não é apenas formal; ela expressa um conceito das relações de poder político em que prisioneiros “subversivos”, mesmo tratando-se de lutadores pela independência, são avaliados como anormalidades sociais negativas e ameaçadoras – ao contrário das vítimas de exílio doméstico por decisão estatal, vista como um injusto abuso de poder.

Portugal moçambicaniza-se (II)




Tempos atrás, o Presidente da República de Moçambique admoestou urbi et orbi, a partir de uma reunião do Comité Central da Frelimo, os «apóstolos da desgraça» que não vêem melhorias no país e que desconfiam das palavras de ordem e mega-planos que vão sendo sucessivamente anunciados, na gloriosa luta contra a «pobreza absoluta».

Hoje, ouvi em minha casa o nosso Primeiro vociferar, a partir de um forum do PS, contra o «negativismo, maledicência e bota-abaixo» de quem não vê melhorias no país e dos «políticos que passam a vida a dizer ao país que nada pode fazer».

É caso para me perguntar: que maldades terei eu feito, para me ter calhado saltitar entre este Índico e este Atlântico?


PS (a 14/9): agora, a «oposição bota-abaixo» é contrária ao interesse nacional. A fase seguinte será parafrasear o velho das botas e dizer que é contra a pátria...
O autoritarismo, como o apetite, vien en mangeant.

Ferrari tem à força que ganhar

As voltas finais do G.P. da Bélgica foram, hoje, um espectáculo magnífico.
Dois pilotos brilhantes e correctos, Hamilton e Raikkonen, dando tudo por tudo pela vitória, com pneus para seco e numa pista alagada, sempre no fio da navalha.
Junto com situações salvas in extremis, houve passos em falso impossíveis de evitar. Um, Hamilton a "cortar" uma chicane para não ficarem ambos ali. Outro, Raikkonen a despistar-se sozinho, face a um aquaplaning incontrolável.

Retomado o fôlego, muito lamentei essa desistência e muito me congratulei com a merecida vitória de Hamilton e com o facto de existirem pilotos dispostos a lutarem pela vitória como aqueles dois fizeram.

Afinal, não.
Hamilton foi penalizado com 25 segundos (o suficiente para ganhar Filipe Massa, o outro piloto da Ferrari, que por ali andou gerindo a vidinha sem atrevimento ou um golpe de asa), por voltar a lutar pela 1ª posição logo depois de, como lhe competia, deixar Raikkonen passar para a frente no seguimento da ultrapassagem por fora da chicane.

Aquilo que eu vi foram 3 minutos de rara beleza, disputados em condições extremas mas no respeito das regras e com correcção - maior, certamente, do que o célebre duelo entre Villeneuve pai e Arnoux, umas décadas atrás. O que vi foi aquilo que a fórmula 1 deveria por vezes ser. Mas isso sou eu, um mero entusiasta que só acompanha esta coisa há pouco mais de 30 anos.

O que viu quem manda na tasca foi, parece, a Ferrari a perder.
Uma coisa que, por essas bandas, é inaceitável desde há alguns anos e tem levado a jeitinhos e jeitões cada vez mais obscenos.
Com este, para além da verdade desportiva, talvez se mate a emotividade deste desporto.

A McLaren, marca por quem corre Hamilton, vai recorrer da penalização.
Com o que lhes tem feito a FIA, não lhes auguro grande sorte...

sábado, 6 de setembro de 2008

Esperar, com paciência zimbabuéana

Decorrendo num dos países africanos com mais recursos financeiros e nada mal servido em termos técnicos, as eleições angolanas foram uma enorme confusão em Luanda, que concentra cerca de 1/3 dos votantes.
Embora o relatório da missão de observadores só seja de esperar lá para 2ª feira, já houve quem fosse divulgando que foram violadas leis eleitorais.

Entretanto, se bem se lembram, a legislação angolana foi alterada depois do imbróglio do Zimbabwe, passando a permitir o adiamento da divulgação dos resultados eleitorais durante 15 dias.
O que tem as suas vantagens.
Em função da rapidez da divulgação, já iremos tendo uma ideia de como serão os resultados e do imbróglio que poderá, ou não, surgir por ali.

Que tudo corra pelo melhor para a população!
Entretanto, esperemos. Com paciência zimbabuéana.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Motins e linchamentos

Por razões de trabalho e docência, transcrevi para PDF os conjuntos de posts que aqui publiquei acerca do 5 de Fevereiro em Maputo e dos linchamentos em Moçambique.

Estão à vossa disposição, com os nomes "Crónicas dos Motins" e "Poder, Morte e Linchamentos". Sirvam-se.

E, já agora, critiquem e comentem.