segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Curiosidades da imigração em Portugal (2)

Contrariando o estereotipo dos bairros degradados de imigrantes, há zonas "nobres" de Lisboa em que a população já deverá ser maioritariamente brasileira e ucraniana.

Não que sejam ricaços a emigrar.
Simplesmente, como os apartamentos estão bem situados, têm áreas grandes e muitas divisões, poucas famílias as podem comprar ou alugar.
Os proprietários ou inquilinos acabam por alugar os quartos um a um, por preços bons mas comportáveis, ficando com a casa cheia e fazendo um dinheirão com o conjunto das rendas.
Há mesmo quem se tenha especializado nesta prática de subaluguer, gerindo vários apartamentos.

São coisas do tal de mercado.
E, também, o surgimento de sociabilidades novas, que acabam por se espraiar para os quintais das traseiras, ao fim-de-semana.

sábado, 4 de outubro de 2008

Bye, Dennis McShade

Não tive o previlégio de conhecer Diniz Machado.
Agora, já não vou ter essa possibilidade.

Diz quem sabe que perdi muito com isso. Aliás, só essa coisa de começar a ganhar a vida a escrever policiais (que claro tinham que ter um autor bem americano, como por exemplo Vernon Sullivan) e escolher para pseudónimo Dennis McShade já diz muito acerca da personagem.

Por vezes, não há nada melhor do que as palavras dos próprios, quando queremos homenagear alguém.
Deixo-vos, por isso, as páginas mais cinematográficas da literatura portuguesa (talvez a par da chegada do protagonista à China, no Mandarim do Eça; mas, n'O Que Diz Molero, é cinema mudo, não é super-produção hollywoodesca). Descubram ou relembrem, mas deliciem-se.

«Chegou uma esquadra», disse Austin, «e aqueles a quem chamavam camones invadiram a cidade, tingindo-a com a brancura das suas fardas. Meia dúzia deles enfiou pela rua acima, passou pelos Vai ou Racha, estes cuspiram para o chão em sinal de desprezo, o Zuca foi atrás deles de braço estendido, esfregando o dedo polegar no indicador, eh, camone, money, money, um camone atirou um monte de moedas ao ar e a miudagem lutou bravamente para apanhar o dinheiro». «Essas excursões a bairros desconhecidos desvendam mundos novos», interrompeu Mister DeLuxe. «Fiz duas ou três desse género e tirei excelentes fotografias». Austin sorriu. «Bem», disse ele, «os camones continuaram a subir a rua, pararam junto do Ângelo, que estava sentado no banco de madeira a experimentar a harmónica, um deles aproximou-se e disse girls, e fez com o braço o movimento respectivo, we want girls, o Ângelo disse girl é a tua mãezinha, estás a perceber ou precisas de explicador?, sim, a tua mãezinha, o camone riu-se para os outros, um deles avançou e fez uma espécie de passe à Fred Astaire, conta quem sabe, e de repente o Ângelo já tinha guardado os óculos e a harmónica no bolso, começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da Barbearia Hollywood, exactamente em cima do Pimentel, que estava a ser escanhoado pelo Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro no caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal, o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicílio, o Zuca diria mais tarde que Ricardito entre Chamas e Bandidos, a sua fita número um, ao pé daquilo não era nada. A certa altura, com os camones, estoicos, a irem e virem, os Vai ou Racha começaram a subir a rua, meteram-se no vespeiro, foi o Pé de Cabra que disse chegou a hora, o Padeirinha ouviu a frase histórica e havia de transmiti-la mais tarde, nunca se chegou a saber a que hora se referia ele, também nunca se chegou a saber se tencionavam ajudar o Ângelo que, de resto, segundo Molero, conta quem sabe, se havia alguma coisa de que ele precisasse não era com certeza de ajuda, ou ajudar os camones, ou apartá-los, simplesmente o Ângelo começou também a despachar os Vai ou Racha, o Gil Penteadinho deu duas voltas no ar e foi aterrar na carroça de couves do Hipólito, o Tonecas Arenas ficou sentado no primeiro andar do andaime de um prédio que estava a ser pintado, entornando uma lata de tinta cor-de-rosa sobre o príncipe-de-gales novo do Joca Farpelas, isto depois de passar pela banca de peixe do Zeca Trampa, espadanando carapaus e lulas por todos os lados, o sombrero, esse, voou e entrou pela janela do segundo andar da Dona Ermelinda, o Bexigas Doidas, que quase tinha sido atado pelo Ângelo a um camone, conta quem sabe que fez um nó com o braço direito de um e a perna esquerda do outro, entrou com ele sem pedir licença pelo Ás de Espadas, Lda., levaram ambos consigo o Rufino, o Aranhiço, o Roque Sacristão e o Vovô Resmungas, que estavam a jogar à sueca, saíram todos um pouco à balda pela porta do fundo, acrescentados do Douglas Fazbancos e do Chico Dominó, que estavam ali a discutir o Sporting-Benfica do domingo anterior, o Pé de Cabra foi de cabeça contra a parede e até fez eco, abriram-me a cabeça, dizia ele, abriram-me a cabeça, o que, segundo Molero, devia ser por demais evidente, o Peito Rente foi chutado com efeito para a tipografia do Celestino, deu duas voltas lá dentro fazendo parar máquinas que estavam a trabalhar e pondo a funcionar máquinas que estavam paradas, alguém tinha espetado uma faca na barriga do Lucas Pireza, talvez um camone, de certeza que foi um camone, diria mais tarde o Zuca, os camones são uns naifistas do caneco, garantia ele, o Lucas Pireza segurava os intestinos com as mãos, falava baixinho para eles, parecia rezar, os camones iam e vinham, espartanos, segundo Molero, até à medula, a certa altura, numa ressaca, levaram com eles, pelo ar, o Metro e Meio, o Ângelo tinha-os juntado todos num molhinho, enfeitou-os com o Metro e Meio, e vai disto, tudo pelo ar, rumo ao Marocas Papa-Milhas, que tinha uma motocicleta cheia de cromados e a mania das curvas rápidas, já tinha atropelado três gatos e duas pessoas, ia a fazer uma bela curva naquele momento, foi contemplado com a colecção de camones coroada pelo Metro e Meio, despistou-se, disse foda-se, foda-se, subiu o passeio, virou de pantanas o mostruário do Raul Pechisbeque, choveram colares de vidro, pulseiras, broches e anéis, o Marocas continuou em prova, descontrolado e tudo, devolveu para dentro de casa o berço que a Gertrudes tinha colocado à porta com o bebé, atravessou a rua aos ziguezagues, embateu na caixa da criação da Mafalda Capoeira e terminou a prova contra o balcão da carvoaria do Galego, lançando o pânico nos elementos do Grupo Excursionista Moscatel, que estavam a beber o seu meio litro da praxe, enquanto as pessoas assomavam alvoroçadamente às janelas, as mulheres gritavam, o bebé da Gertrudes, que era o melhor pulmão lá do bairro, berrava como nunca, o papagaio do Pimentel, que tinha caído do poleiro e dançava suspenso na correia de metal, esganiçava a sua expressão preferida, ó da guatda, ó da guarda, muitíssiomo apropriada, segundo Molero, às circunstâncias, o fox-terrir do Silva Farmacêutico filava um camone pelo fundilho das calças e fazia questão de não o largar, as galinhas da Mafalda Capoeira corriam espavoridas num cacarejar infernal e num dilúvio de penas, o burro do Hipólito zurrava, os gatos da Dona Maria Bicharoco miavam e pulavam, o Alsácia do Tó Peneiras ladrava com aquela fúria só dele, camones entravam por aqui, ex-Malhoas saíam por acolá, às vezes dava certo, parecia que o Ângelo tinha controle sobre a confusão, à distância, o Zuca diria mais tarde que, tirando algumas partes cómicas que pareciam à Charlot, aquilo tinha sido uma coisa iglantónica, o Ângelo era igualzinho a um tal Lone Ranger, só lhe faltava a mascarilha». (...)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Curiosidades da imigração em Portugal (1)

Nos bairros "problemáticos" de Lisboa, quando uma velhinha encontra na rua jovens com mau aspecto, tem tendência a seguir pelo passeio onde estão filhos de africanos.

Isto, porque sabe que eles costumam fumar haxixe, mas só muito raramente são consumidores de heroína (ao contrário dos filhos de portugueses que também tenham mau aspecto).
Como os consumidores de heroína é que, nesses bairros, assaltam qualquer pessoa, para roubar qualquer valor, é dos "brancos" que as velhinhas têm medo.

Sejam mais criativos!

...E habilitem-se a ganhar o Prémio IgNobel.
Este ano, as pesquisas vencedoras foram sobre:

Economia: efeito do ciclo ovulatório das dançarinas eróticas sobre as gorjetas que recebem

Quimica: ex-aequo, um estudo que prova o efeito espermicida da Coca-cola e outro que prova o contrário

Biologia: descoberta de que as pulgas que vivem em cães saltam mais alto do que as que vivem em gatos

Nutrição: alteração electrónica do som da batata frita, para parecer mais estaladiça

Paz: adopção do princípio legal de que as plantas têm dignidade (Suiça)

Medicina: demonstração de que os medicamentos falsificados mais caros são mais eficientes que os mais baratos

Ciência cognitiva: descoberta de que uma espécie de amiba consegue resolver puzzles

Física: demonstração matemática de que cordeis e cabelos acabam inevitavelmente por se embaraçar

Literatura: estudo acerca da indignação dentro de empresas


Tudo isto (excepto, claro, o da Paz) publicado nas mais prestigiadas e ISIzadas revistas científicas. E ando eu para aqui a perder o meu tempo a estudar perigos industriais, curandeiros e tretas dessas...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Reflexões ociosas - 3

Quem lança mão de todos os meios para tentar secar o mundo à sua volta e ficar apenas rodeado de discípulos submissos costuma ter, como se diz no Alentejo, "uma morte de grilo":
Com a cabeça enfiada num buraco e os (tais) miúdos a mijarem-lhe em cima.

Aos alunos da Fac de Letras:


O tal texto acerca da "Antropologia à Porta de Casa" que vos desperta curiosidade está disponível para download aqui.

Olhem... divirtam-se.

Ólhó Antropovistas!



Nova actualização do Antropovistas, com fotos de Arcueil, Algarve e S. Paulo.

Obrigado, Samya e Júlia.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Que raio se passa em Wall Street?

Para quem perceba inglês, aqui fica aquilo a que poderíamos chamar "Economy for dummies".
Ou nem por isso.

(cortesia Arrastão)

Dilemas


Tenho dois livros para acabar (do mal o menos, pode esperar um pouco), três artigos prometidos há que tempos, mais um que me fizeram prometer esta semana (todos sobre temas diferentes e para ontem), uma hipoteca para renegociar, uma filha e uma mulher a quem tenho dedicado muito menos tempo do que estamos habituados, uma aula depois de amanhã, um raio de uma constipação que não passa (o que pode ter a ver com o recente hábito "africanista" de me pôr de calções e descalço mal chego a casa) e uma colega algo maternal que me aconselha a passar um par de dias na cama, rodeado de cházinhos e boa literatura.

Alguém tem sugestões?

Uma bejeca de prémio

Acabo de, finalmente, conseguir inserir on-line o relatório final de um projecto de pesquisa.

Acho que mereço sentar-me na varanda a beber uma cervejinha - e depois ir para a cama, que amanhã há mais.

Espero que o mundo não tenha pegado fogo entretanto, pois não tenho tido tempo para olhar.

Quem disse que essa coisa do trabalho alienado é só para os operários?

domingo, 28 de setembro de 2008

Citações de café (14)

CAIPIRICES GASTRONÓMICAS

Como as restantes citações de café, esta também aconteceu mesmo. Foi com uma outra vizinha brasileira, que desabafa ter precisado de chegar aqui para fazer "figura de caipira".

Era o primeiro dia de trabalho, no primeiro emprego em Portugal, ao balcão de um café.
Chega o primeiro cliente, falando carrancudo ao telemóvel, e aponta para a máquina das bicas e para a prateleira onde, entre outros, estavam os queques.

- O senhor quer uma queca, é? É para comer já, ou mais tarde?

O homem carrancudo conseguiu esboçar um sorriso malandro e respondeu:

- Bem... Agora eu tenho que ir trabalhar. A que horas é que a menina sai?

Anedota brasileira sobre brasileiros

Estava eu em Maputo, quando se deu um assalto com sequestro, numa dependência do Banco Espírito Santo em Lisboa.
Os assaltantes acabaram por ser mortos pela polícia (o que deixou ufanos os humanistas securitários cá do burgo) e foi dado grande destaque ao facto de eles serem brasileiros, o que deu origem a uma histeria mediática sobre criminalidade, com traços xenófobos bastante evidentes.

Entretanto, depois de o incontornável Luís Afonso do Bartoon ter especulado acerca das razões do assalto, os meus vizinhos brasileiros descobriram toda a verdade:

O sujeito estava a dar-se muito mal na sua experiência de emigração em Portugal e telefonou para a mãe, senhora muito devota, a contar-lhe as suas mágoas.
Depois de ouvir o longo desabafo do filho, ela aconselhou:
- Meu filho: quando a vida fica assim, só o Espírito Santo salva.
Vai daí...

sábado, 27 de setembro de 2008

Faleceu 2º classificado em Le Mans 1979


Faleceu hoje, vítima de cancro, um dos pilotos que ficaram em 2º lugar nas 24 Horas de Le Mans 1979.
Se calhar, vocês até o reconhecem de outros lados, se vos mostrar esta fotografia.

Pela minha parte, preferia as vezes em que lhe podia ver a cara e ouvir a voz.
E isso, felizmente, podemos continuar a fazer.

Por exemplo, aqui.

Ou aqui.

Ou...

Quanto custaram por bico?

Numa mediática mega-operação policial do SEF, PSP e GNR, levada a cabo no distrito de Setúbal e nas regiões fronteiriças de Vilar Formoso, Caia e Castro Marim, as forças policiais identificaram 198 estrangeiros e detiveram 11.
Não pela prática desses crimes a que as TVs e jornais tanta atenção têm dado nos últimos tempos, mas por permanência ilegal no país.

Quanto terá custado, "por bico", a detenção de cada um destes perigosos marginais?

La Fuerza del Cambio

Segundo o semanário Sol (o tal jornal que é distribuído gratuitamente, anexo a um DVD de desenhos animados que só custa 2,5 euros), Sócrates copiou Zapatero, ao adoptar o lema do Congresso do PSOE realizado em Julho, "La Fuerza del Cambio".

Tendo em conta que "A Força da Mudança" foi o slogan de Guebuza e da Frelimo nas eleições moçambicanas de 2005, fica provada uma nova teoria geográfica que tem vindo a fazer escola entre os melhores cientistas:

O mundo é, afinal, em forma de talhada de uma meia laranja, indo desde os montes Urais, a leste, à costa do Pacífico, a Oeste.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Antropovistas actualizado de novo

Mais umas fotos no Antropovistas.

Obrigado Júlia, António e Pedro.

Quanto aos outros, já sabem: mandem as vossas para antropocoiso@gmail.com

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Mbeki e Mugabe

- Bem, já está feito. O Presidente Mbeki concordou voluntariamente abandonar o poder.

- Já não era sem tempo. Algumas pessoas não conseguem perceber quando a festa acabou.

- Mais alguma coisa, Presidente Mugabe?

- Se precisar, eu digo.

(O Madam & Eve de hoje)

Defesa da tradição

Esta já está no Arrastão, mas não resisti.

Um tribunal siciliano retirou a uma mulher a custódia do seu filho de 16 anos porque o menor se filiou no Partido da Refundação Comunista, que o juíz considera «extremista».

E então? Não percebem que se trata de um juiz com profundo sentido antropológico?

Então o homem ia deixar perder as tradições? Em vez de o puto ir para a Máfia, ia agora para os comunas?


PS à Asterix na Córsega - ó pessoal da Sicília: olhem que estou a brincar... Não te chateies, Maximo Bongiorno.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Depressão pós-África

Embora Maputo seja a cidade onde vivi que tem amplitudes térmicas mais violentas (por vezes de mistura com sucessões um bocado aleatórias de chuva, céu encoberto e sol de rachar), e embora o tempo em Lisboa até esteja bonzinho, consegui apanhar uma constipação/virose de caixão à cova, pouco depois de pôr o pé nesta pátria madrasta. E a coisa dura, dura, dura, como os coelhinhos do anúncio.

Para ajudar ao inestético e ao desconforto de um nariz pingão e de uns olhos e testa que parecem querer ir passear para outro sítio qualquer, a montanha de apontamentos e cassetes de terreno, aqui ao lado mesmo a chamarem por mim, dão uma vontade de tratar das sempre necessárias burocracias académicas e pessoais que vocês nem imaginam!

Agarrado a esses assuntos, que me levam 5 vezes mais tempo por causa dos olhos que se cansam e das desconcentradoras assoadelas, já nem queria nada de muito especial.
Dava-me por satisfeito em fazer uma paradinha, descer a pé a Kenneth Kaunda, olhar a baía e voltar a enfiar-me no computador.

A minha senhora também teve uma virose dessas, mas é de melhor cêpa. Livrou-se depressa da coisa. Agora, limita-se a andar irritável e com um ar claustrofóbico, numa casa 3 vezes maior que a de Maputo.

A filhosca, que tem otites em todo o lado menos em Moçambique, voltou ao normal. E, apesar da alegria de ver a prima e de gostar desta escola, já me perguntou, assim como quem fala de um direito adquirido e da forma evidente de se viver, em que mês é que, para o ano, voltamos para África.

A cadela passa os dias enroscada, lançando-me olhares acusadores acerca de uma temperatura que até está amena, e faz cenas intermináveis para evitar ir ao passeio higiénico no meio de carros barulhentos - embora, lá chegada, seja tomada de urgências e logo faça aparecer um rio na primeira valeta.

Pesquisei na net "Depressão pós-África", mas parece que os inúteis dos psicólogos só se dedicam a coisas pouco importantes.
Esqueceram-se de inventar esta.

domingo, 21 de setembro de 2008

Portugal moçambicaniza-se (III)

A FORÇA DA MUDANÇA

Perguntava-me um leitor anónimo, certamente moçambicano, se era verdade que o actual slogan do PS, em Portugal, era mesmo "A Força da Mudança".

É verdade e (tinha eu escrito na caixa de comentários, até ver que a coisa estava a ficar demasiado comprida) isso tem uma história. Uma história nem sempre clara quando é olhada a partir de África e que talvez mereça ser relembrada aqui.

Nos países da Europa onde a social-democracia tem uma acção muito antiga (o que não é o caso de Portugal, onde tão pouco acontece aquilo que direi a seguir), ela era marcada até há uns tempos por uma tradição de regulação estatal da economia, tendo em vista alguma equidade social, a par de uma posição de liberalidade societal em termos da mudança dos costumes.
Quase caricaturando, era como que o seu código genético e identitário, por contraposição a um outro grande partido normalmente existente nesses países, que era por sua vez defensor de um maior conservadorismo social e dos costumes e de uma economia liberal.

(Tudo isto é, claro, relativo, pois um conservador holandês está normalmente à esquerda de um socialista português em grande parte das matérias políticas relevantes para a vida das pessoas, da mesma forma que um republicano da Nova Inglaterra costuma estar à esquerda de um democrata do Texas.)

Há muito que a questão tinha deixado de ser, para a social-democracia europeia, a via de superação do capitalismo (reforma ou revolução), que tinha levado à cisão entre a 2ª e a 3ª Internacionais.
A questão, desde pouco depois disso, passou a ser a gestão mais justa e equitativa do capitalismo. Se quisermos, e passe a metáfora, um "capitalismo de rosto humano".
Era essa a sua tentativa de prática, o seu legado e a sua imagem.

No entanto, com a teorização da chamada "Terceira Via" (de que o inglês Tony Blair se tornou o governante mais evidente), os partidos social-democratas sofreram uma "mutação genética" que os ajudou a aproximarem-se do poder em tempos de maré conservadora e, por sua vez, deixou os conservadores com um problema de falta de espaço político para resolverem, e deixou os países respectivos sem grandes partidos de esquerda.
Basicamente, os "novos" partidos social-democratas mantiveram posições progressistas na área dos costumes e relações societais, mas adoptaram uma política económica que, em vários aspectos, é mais liberal do que os conservadores se atreveram a fazer e exigir, pondo inclusivamente em causa instituições e pressupostos que se tinham tornado marcas civilizacionais da Europa Ocidental - devido, entre outros, á luta e acção das gerações anteriores de sociais-democratas.

É claro que, quando as mudanças políticas são tão fortes e nessa direcção, não adianta escamoteá-las. Mesmo se não fossem (que eram) argumentos eleitorais para cativar essa figura fantasmagórica do "eleitorado de centro", seria sempre necessário enfatizá-las e transmiti-las como uma corajosa mudança da sociedade, para que ela não entre em colapso.
Afinal, onde existiu ou existe, o "estado social" começou a ser morto por conservadores, mas são "terceira-viistas" com label social-democrata que avançam com o seu enterro.

Portugal nunca foi governado segundo uma política social-democrata "à europeia", nem alguma vez teve um estado social.
E a própria retórica e prática terceira-viista chegou à governação quando não era eleitoralmente necessária para que o PS a ocupasse. Foi mais uma questão de ser a esquerda da moda, "maningue moderna", por parte de um dirigente sem cultura de esquerda (social-democrata ou outra), chegado ao leme de um partido que estava desesperado por voltar ao poder. Foi a aplicação de uma receita que tinha resultado eleitoralmente noutros lados, não fosse dar-se o caso de Santana Lopes conseguir ressuscitar durante a campanha eleitoral.

Mas, quando depois as coisas não correm por aí além, mais necessário se torna apresentar a mudança de orientação política (em vários aspectos, Cavaco Silva governou, no seu tempo, "à esquerda" do actual governo) como uma necessidade e desígnio nacional, que corajosamente é prosseguida, se necessário contra tudo e contra todos, por quem "tem tomates" para isso.
Daí, agora, "A Força da Mudança".

O anónimo moçambicano que suscitou este post ter-se-à apercebido de alguns paralelos engraçados com o seu país.
Mas a situação parece-me muito diferente.

Quando a Frelimo aplicou o slogan d'A Força da Mudança, em 2005, a sua passagem de partido marxista-leninista para executor de políticas ultra-liberais já tinha sido paulatinamente feita desde o fim da guerra civil, 13 anos antes, pelo anterior Presidente da República.
Não era essa curva a 180º que se tornava necessário justificar, mas as mais-valias que iriam advir da substituição do presidente por uma figura à partida difícil de "vender": um político cuja imagem popular estava centrada no seu cargo de Ministro do Interior durante uma das épocas mais repressivas da história pós-independência.

Não será por acaso que (numa altura em que a Renamo não parecia ter ainda entrado num processo de suicídio colectivo ordenado pelo chefe), a Mudança anunciada era muito mais pôr "ordem na tasca", através do «combate ao espírito do deixa-andar», do que a visão do partido como motor de uma "revolução permanente", ligada ao «combate à pobreza absoluta».
Não só a «força da mudança» vinha de um "homem de combate", como vinha de um "homem de tomates" que iria pôr na ordem os interesses instalados, no seu próprio partido, que mantinham o país na desgraça.
Ou seja, aquilo que podia fazer os eleitores terem medo de Guebuza, e por isso afastarem-se dele, foi muito habilmente transformado na prova de que ele era o homem providencial, para aquilo que o país necessitava naquele momento.

É claro que estas coisas não resultam sempre, nem para sempre.
Duvido que o slogan agora adoptado por Sócrates não seja visto como ridículo, e já há largos tempos não se fala em Moçambique do «combate ao espírito do deixa-andar».
Mas talvez nem seja necessário.
Afinal, tudo indica que quer o PS quer a Frelimo vão voltar a ganhar, basicamente, por "falta de comparência" credível dos adversários directos.
(Ao fim e ao cabo, mais um paralelo, para além do discurso subliminar acerca de "tomates".)

Mas lá que é plágio, é.
Às tantas, ainda os publicitários que "venderam" à Frelimo o slogan de 2005 vão acabar por apresentar uma facturinha ao nosso primeiro.