terça-feira, 11 de novembro de 2008

O cadáver adiado


Ouvi há bocado no telejornal, com estes dois que a terra há de comer.

- Muitas escolas suspenderam a avaliação? Quantas? Pode informar a Senhora Ministra da Educação? (perguntava a própria S.M.E. aos jornalistas) Nenhuma escola suspendeu a avaliação de professores!

Segundos depois, informava um sindicalista que em Coimbra são 7, no Porto não me lembro quantas, em Lisboa a maioria...

Parece então que, no meu anterior post acerca da Senhora Ministra da Educação, caí no pecado do corporativismo.
Ela não anda apenas a envergonhar as ciências sociais. Anda a envergonhar a raça humana.
Não anda apenas a ridicularizar o Estado (que, aliás, muitas vezes bem o merece). Anda a ridicularizar-se a si própria.

Politicamente, a ministra da educação é um cadáver adiado desde Março. Libertando já os sinais sensitivos de ter deixado de estar adiado, o que só parece escapar ao olfacto do primeiro-ministro.

Pessoalmente, a cidadã e professora Maria de Lurdes Rodrigues está a perder toda a credibilidade que tão arduamente deve ter conquistado.
E isso, não desejo a ninguém, mesmo quando a culpa é da própria pessoa.

Bayete, Mama Africa

Só hoje fiquei a saber do falecimento de Miriam Makeba.

Para quem a conhecia, não vale a pena acrescentar nada.
Para os mais novos ou distraídos, cliquem aí na coluna do lado direito, no "Nkosi Sikelele Africa".

sábado, 8 de novembro de 2008

Obama, Madam & Eve

«Vejam só! A América tem um presidente negro.
... Macaquinhos de imitação.»

(Desculpem lá a demora, mas foi hoje a primeira vez que passei no Madam & Eve desde a eleição. Cliquem para aumentar.)

A vergonha das ciências sociais

Um comentário a este post obriga-me a explicitar algumas coisas.

Como em qualquer actividade, há cientistas sociais geniais, bons, medíocres e maus.

Mas uma coisa se espera de qualquer pessoa que tenha feito licenciatura, mestrado, doutoramento e uma carreira académica respeitável, mesmo que sem produções científicas particularmente salientes, numa disciplina como a sociologia:
Espera-se que integre em si o ethos e instrumentos de análise da actividade profissional e intelectual que é a sua, e que isso faça parte da forma como olha a realidade e reage a ela.

Ao confrontar-me com um acontecimento, sou incapaz de despir, do meu olhar e interpretações daquilo que vejo, o facto de ser um antropólogo - não só de formação como de prática, que veio reforçar e aprofundar essa formação. (Da mesma forma que, ao fazer antropologia, sou incapaz de despir a minha experiência de vida e aquilo que ela implica em termos de valores, emoções e perspectivas.)
Posso olhar para os acontecimentos de forma mais criativa ou "quadrada", mais aprofundada ou ligeira, mais inteligente ou limitada, mas nunca como se nunca tivesse ouvido o BêÁBá da minha profissão.

Por isso, quando uma ministra que fez carreira como socióloga decide afirmar, em resposta a uma manifestação de 120.000 professores (80% de todos os professores e educadores de infância do país!) que eles não querem é ser avaliados, não está apenas a revelar má-fé, leviandade e desrespeito pelos actores da área social que lhe cabe gerir.
Com essa análise e afirmação, está também a cuspir na sua disciplina científica e a envergonhar as ciências sociais.

Pontos de vista - 2


Diz uma socióloga que virou ministra, ao confrontar-se com uma manifestação de 120.000 professores contra a sua política educativa:

- Isto é porque os professores não querem ser avaliados.

Pontos de vista - 1

Pergunta um elefante, ao encontrar um homem nú:

- Como é que tu consegues respirar por uma trombinha desse tamanho?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A euribor, é quando a banca quiser

A taxa de juro do Banco Central Europeu baixou meio ponto percentual, para 3,25%.

A Euribor, logo se vê, porque aí é o inteligente mercado que decide - e é preciso cuidado com os spreads dos empréstimos a outros bancos, porque os gajos são mais caloteiros que os desgraçados como nós.

Mas não desesperemos! Há de vir a baixar alguma coisa.
Qualquer dia, ainda somos bem capazes de conseguir pagar os empréstimos das casas e, ainda por cima, sem termos que deixar de comer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Longe da mudança



Li num rodapé do telejornal que o PCP fez saber que «Obama está longe da mudança necessária».

Corre o boato que o porta-voz terá acrescentado entre dentes: «Mesmo em relação ao Gus Hall teríamos reticências. Há muito quem duvide que ele fosse um camarada de confiança.»

Boa, Rui


Por aqui, está disponível uma crónica particularmente lúcida do Rui Tavares acerca desta noite.

Numa altura em que anda meio mundo a discutir o tom de pele do Obama, agrada-me sobremaneira que esse assunto não seja sequer mencionado por ele.

Pela minha parte, confesso que o facto de o filho dum africano virar presidente dos Estados Unidos me dá um certo prazer e gozo.
Mas muito menos do que o facto de ele defender as posições que defende.

Para mais tarde recordar

Uma óptima selecção da noite eleitoral na blogosfera.

E agora?

A esperança chegou à presidência, levando atrás de si uma maioria confortável no Congresso.

Como dizia o peixe na última cena do Nemo, «E agora?»

Bater o pé

À procura de fotos da Mercedes Sosa para ilustrar os links de videos aí na coluna da direita, fui dar com um anúncio do primeiro concerto a que a filhosca assistiu, para aí uns 2 meses antes de nascer.

A julgar pelos pontapés ritmados que na altura deu à mãe, também gostou particularmente (tal como o ateu do pai) do Solo le Pido a Dios.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Intuições

Quando, ao ver o Chicken Little (profissão: pai), me apareceu o Presidente da Câmara sob a forma de perú com cartola, pensei: se fosse um banqueiro, devia antes ser um pombo.

Nunca percebi porquê, até me ter cruzado há dias com esta imagem, no blog do Patrick.
Está tudo explicado.

Reflexões ociosas - 4

Enquanto aguardo resultados das eleições norte-americanas, há um pensamento inconveniente que não me sai da cabeça:

Em Moçambique, Obama não conseguiria sequer ser indigitado como candidato por um dos maiores partidos. É mulato.

Citações de café (15)

- T'as vu ce bordel dans les banques?

- Tais toi et boit ta bièrre comme tout le monde.

(Place Jourdain, Bruxelas)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Ó p'ra mim premiado!

Com a sua habitual simpatia, o Zé Paulo do Lanterna Acesa escolheu atribuir-me o Prémio Dardos, que aí corre por essa blogosfera fora, para reconhecer «os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras».

Claro que fiquei todo babado e que aceito, agradeço e retibuo.
Cumprindo as regras, aqui deixo os meus nomeados, agradecendo a todos eles o facto de me darem mais que razões para esta nomeação.

- O Diário de um Sociólogo, carinhosamente crismado "Rádio Maputo" pelos muitos visitantes que ali vão ler e discutir novidades e ideias sobre Moçambique e o mundo.

- O Que Diz o Pivô, com um abraço especial ao cão.

- O Sem Muros, com desejos de um pouco mais de crónicas.

- O De Lisboa, ex-De África, porque maningue sim.

- Os Tempos Que Correm, daquele colega e ex-prof que é sempre um estímulo ouvir.

- O Câmara Clara, pela beleza e por finalmente ter acabado a interminável remodelação total.

- O Ladrões de Bicicletas, que desmente a ideia de que falar de economia tem que ser uma seca.

- O Cesto da Gávea, porque faz sempre falta uma bejeca em alto mar.

- O Vou P'ra Casa Mas Não É P'ra Já, que recomeçou a postar.

- O Ma-schamba, embora já tenha recebido este prémio antes, porque fechou a tasca e eu tenho a secreta esperança de o convencer a reabrir.

- E o Arrastão, só para chatear o anterior. Mentira.

É fartar, vilanagem!

Não. Desta vez não se trata do capital financeiro.

É que decorre até dia 21 no ICS (junto do Campo Grande, ao lado do edifício novo do ISCTE) uma Feira do Livro daquelas a não perder mesmo.
Encontram-se lá os livros da Imprensa de Ciências Sociais com preços que vão desde 1 euro até descontos muito significativos para os livros mais recentes.

Só para terem uma ideia, este meu livro, com Prémio Sedas Nunes e tudo (deixem-me cá armar-me em importante...) desce ali de 22 euros para 7.
Cá para mim, se não é desta que enchem a vossa prateleira das ciências sociais, nunca mais o vão fazer.

domingo, 2 de novembro de 2008

Mestrado em lugares-comuns (1)

«Cada um é p'ró que nasce»

A família Sousa vai pagar os calotes

Reunida hoje em cimeira excepcional, em frente do cozido à portuguesa de domingo que excepcionalmente incluia morcela de mel vinda directamente de Bragança, a família Sousa decidiu "criar condições para pagar a curto prazo" os calotes que deve às várias empresas do bairro.

Já se ouviam zunzuns acerca do assunto, desde que o Costa da fabriqueta de velas da esquina ao fim da rua tinha ameaçado despedir produtores de cera nos ouvidos se tivesse que lhes subir o salário mínimo, que o Silva do talho tinha dito que, com os calotes dos Sousas, não havia negócio que aguentasse no bairro, e que o próprio patriarca Sousa tinha reconhecido, ao mandar abaixo um abafado a crédito lá por volta de sexta-feira, que os donos do talho, da mercearia, do café, da boutique, da retrosaria, da loja de fancaria, da casa de meninas, da sapataria e do minipreço (para não falar do canalizador por conta própria e do trolha reconvertido em empresário de mão-de-obra importada) tinham razões de queixa dos calotes familiares.

Agora, segundo anunciou o genro do velho Sousa à hora da bica com cheirinho na tasca do Asdrúbal, a família há de arranjar maneira de os calotes serem pagos. E jura pelas alminhas que os calotes futuros serão pagos com uma pressa do Hamilton ou do Massa, conforme os gostos - embora, nestas questões de arame, o pessoal do bairro prefira massa viva a conversas de cámones.

O Rodrigues da ourivesaria, com um calote único mas gorducho que já tinha 16 anos de idade, começou aos pulos de alegria. Os outros, contudo, ou estavam a jiboiar os respectivos cozidos ou a curtir os digestivos - tarefa árdua, já que o Asdrúbal, à conta dos dívidas dos Sousas, tinha importado lá da santa terrinha um bagaço marado que não dava saúde a ninguém.

Chato mesmo, foi a sogra do Sr. Sousa, a D. Manuela, ter entrado tasca dentro a mandar vir. "Irresponsáveis!", clamava ela, "Primeiro, aumentaram a semanada aos putos, que agora até já dá para o lanche, em vez do pirolito. Depois, não anularam encomendas de obras lá para casa, o que só benificia as economias caboverdiana e ucraniana (esta é sic, mesmo). Agora, querem pagar o que devem?"

Felizmente, por essa altura, a clientela da tasca ou estava a jiboiar, ou a vomitar o tal bagaço, ou a pensar, frente à imagem da Virgem Maria: "Será que os cámones votam no preto bonitão, ou no bimbo com a caixa-de-óculos beata a tiracolo?"

À conta do PREC, sou dono de 2 bancos

Pois é... Agora, sou dono de 2 bancos.

Já era dono do BCP, embora lá deixe 3/4 do sálário em empréstimos da casa e seguros obrigatórios e já tenha perdido, com a gracinha, bem mais de 10.000 euros desde que me convenceram a comprar as tais de acções, para ter um spread mais baixo.

Agora, com o PREC (Processo de Recapitalização Em Curso), sou dono do Banco Português de Negócios.
Está bem que, para isso acontecer, ele está falido.
Mas que importa? Assim, os ex-donos conseguirão usar o seu bom nome para obter capitais para criarem outro banco qualquer e, se a coisa voltar a dar para o torto, lá ficarei dono de mais um.

Viva o capitalismo popular. E o Estado providência (dos desvarios de capital).