quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Lá vou eu andar à volta dos linchamentos...


Amanhã, seguirei para Braga onde, para além de rever amigos se conseguir, irei participar no Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais.

Entre tanto tema interessante, lá havia de ser "cravado" para integrar um grupo de trabalho sobre Linchamentos, com gente que tem dedicado muitíssimo mais tempo ao tema do que a minha modesta passagem teórica por ele: os paulistas José de Souza Martins, Sérgio Adorno e Jaqueline Sinhoreto e o moçambicano Carlos Serra.
A origem dessa presença, vários de vocês o saberão, é o artigo que está disponível para download aqui, que desenvolve algumas reflexões afixadas cá no blog.
Lá estarei, então, às 16h15m de sexta-feira, honrado com a companhia e convite, e desejoso de aprender umas coisas.

Os meus sentimentos estão, no entanto, divididos.
Embora vários colegas me tenham estimulado a aprofundar a questão e propostas que sugiro no tal artigo, trata-se de um tema muito violento emocionalmente e que, pelo menos a mim, deixa marcas - pois não tenho a saudável capacidade de sentir os "objectos de estudo", que são pessoas, como tubos de ensaio num laboratório.

Ainda por cima, andei também há pouco a trabalhar acerca de um outro tema pesadote: gémeos, albinos, prisioneiros políticos, Operação Produção...
A coisa deu aso a uma outra honra, a selecção do artigo respectivo (download aqui) para publicação na Travessias, a revista que será distribuída no Congresso.
Mas, as duas juntas, dão-me uma vontade de parar de pensar em violência extrema e socialmente aceite que vocês nem imaginam.

Não há por aí ninguém interessado em financiar uma pesquisa sobre criancinhas felizes, amimaizinhos amorosos ou jazz?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Freeportando un poco más


Enquanto o nosso primeiro reedita a rábula da cabala, procurando agora pôr a ênfase nos media em vez de no sistema de justiça, a procuradora responsável pelo processo esclarece que ainda não há suspeitos porque as suspeitas (que existem) ainda não estão fundadas, mas em investigação; quando e se houverem suspeitas fundadas, haverá arguidos, sendo Sócrates um dos nomes que constam do processo.

Temos, assim, um contínuo de possibilidades com dois pontos extremos:

Na melhor hipótese, o Freeport foi autorizado em tempo record e nos dias finais daquele governo (a par de uma alteração da legislação no mesmo dia, que o permitiu autorizar) porque o então ministro do ambiente o terá considerado um projecto de tamanho interesse nacional que era seu dever patriótico viabilizá-lo, mesmo que com custos ambientais.
Aquela superfície comercial seria, assim, a modos de que um PIN BUÉ DE MAIS, para um ministro do ambiente tipo primeiro-ministro avant la lettre que, por isso, teria a mania de que afinal era mas é ministro da economia.
Nesta hipótese extrema, quem se abarbatou com o dinheiro deveria ter sido o tal Sr. Smith, que teria inventado esta desculpa para esconder o facto, lançando o opróbio sobre os probos e incorruptíveis portugueses, a quem apenas o sentido do dever e o patriotismo teriam movido.

Na outra hipótese extrema, terão havido umas jogatanas e o arrastar de incompatibilidades legais, que uns subornos substanciais, envolvendo o próprio ministro, terão feito desaparecer da noite para o dia.

Entre o "céu" de um ministro com umas prioridades um bocado peculiares e o "inferno" da bandalheira e podridão total, abre-se toda uma série de combinações intermédias, envolvendo nepotismo, tráfego de influência (que são candidamente reconhecidos por alguns intervenientes) e corrupção.
Pois... é que quando se fala da possibilidade de "luvas" o pessoal parece que se esquece que o tráfego de influências também é crime, e nada ligeiro. Se calhar, por se achar que é um direito de quem detém algum tipo de poder e daqueles que os rodeiam.

Olhem... é esperar para ver.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Rapidinhas freepórticas

É uma delícia acompanhar, mesmo que num só jornal, as notícias freepórticas.

Embora as alterações à Zona de Protecção do Estuário do Tejo tenham ficado um ano na gaveta e dela tenham saído miraculosamente a 3 dias das eleições, ao mesmo tempo que a aprovação do Freeport que vieram possibilitar, quer o ministro-megafone de serviço (antes de isto ser sabido) quer o nosso primeiro (já depois disso) juram pelas alminhas que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
E a malta pensa... 'Tá bem, abelha!

Entretanto, o DCIAP diz que o processo é urgente por haver políticos envolvidos, mas não há suspeitos.
Horas depois, vem-se a saber que os ingleses não só consideram Sócrates suspeito como gostariam de ter acesso aos seus movimentos bancários.
É caso para dizer "good luck"!...

Então vo'mecês não vêem que a gente, cá nesta terra, só suspeita de quem manda em nós quando estamos nos cafés e nos corredores, nunca oficialmente?
Ainda arranjam para aí um conflito diplomático, com as tropas de choque do nosso primeiro a gritarem contra a intromissão na política e assuntos internos de um país soberano há (quantos são?) séculos, e a voltarem a mudar o hino para «Contra os bretões, marchar, marchar!»...

O que a gente se vai rir...

A crise trocada por cêntimos

Com um agradecimento ao 2º Remador, a versão legendada em português da mais simples e divertida explicação da crise que nos crisa está disponível aqui.

Os snobs que acham que as legendas atrapalham podem linkar a partir daqui.

Divirtam-se e aprendam.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Citações de café (16)

Piadinhas na hora


«Vai lá, vai... Até a Barraka Obama.»

Alegrias e perguntas


1. Bush foi-se


2. Obama chegou



a) E agora, Israel X Palestina?

b) E agora, Zimbabwe?

sábado, 17 de janeiro de 2009

Voltinhas

Nos intervalos da escrita de um chatíssimo texto inglês acerca de um tema muito interessante (...) fiquei a saber que o Toix teve uma exposição fotográfica no Instituto Camões, em Maputo. Pela amostra, lindíssima.
Convido-vos a darem uma vista de olhos no blog e a convencerem-no a afixar mais algumas fotos, para que nós, que não pudemos ver in loco, não percamos tudo.

Entretanto, aí ao lado no "Eu cá gosto", entrou uma referência que há muito lá deveria estar: Wehavekaosinthegarden. Regalem-se.

Vocês 'tão-se a passar!


Mais de 250 alminhas a fazerem 400 e tal downloads de artigos que puz no 4Shared?

Quase 80 maduros que se interessam por Determinismo e Caos Segundo a Adivinhação Moçambicana? 50 e tal que acham a Antropologia À Porta de Casa uma coisa que vale a pena ler?

Querem ver que os direitos de autor do próximo livro ainda vão dar para levar a família a um bom restaurante japonês?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Em nome de Jeová, o não misericordioso, e cuspindo nos mortos do holocausto

Confesso.
Uma das razões por que tenho andado daqui ausente é a impossibilidade de não comentar aquilo que se está a passar em Gaza e a difculdade emocional de (tal como em relação ao Zimbabwe) o fazer sem me tornar insultuoso e repetitivo.

Mas o bombardeamento, pelas tropas de Israel, da delegação da ONU e das instalações dos jornais internacionais que ainda não conseguiu calar ultrapassa em tudo os níveis de decência, estupefacção e nojo que se poderiam imaginar.

Perante algo como isto, não vou proferir impropérios, nem repetir ou comentar debates de abstracta política internacional que já todos ouvimos.
Digo apenas o seguinte:

Hoje, o estado de Israel considera que pode e deve quebrar todas as regras de guerra e de decência, mais básicas à civilização de que partilha. Só se pode fazer isso quando se considera o opositor infra-humano.
O estado de Israel cospe na morte e na memória dos milhões de judeus cujo holocausto legitimou a sua existência.

Uns desenvolvimentos de realpolitik, aqui e aqui. E mais aqui.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

MOÇAMBIQUE EM ANÁLISE - amanhã, no ICS

Um regresso rapidinho, só para vos dizer que na próxima 4ª feira, 14 de Janeiro, se vai realizar no ICS, Lisboa, o seminário "Moçambique em Análise", com os seguintes intervenientes:

10h./12h.30m.
- Danúbio Lihahe (UEM) "Cheias e reassentamento de populações no vale do Zambeze"
- Paulo Granjo (ICS – UL) "Albinos, prisioneiros, deportados e contrato social"
- Jason Sumich (London School of Economics) “The Mozambican case as a critique of the neo-patrimonial interpretation of African elites”

14h./16h.30m.
- Fernando Florêncio (Un. Coimbra) "Estado Novo, Estado Velho. Um tipo de neo-indirect rule em Moçambique"
- Sofia Aboim (ICS – UL) “Reapropriar a tradição: significados contemporâneos da poligamia”
- Linda van Kamp (VU Un. Amsterdam) "Navegação transnacional em Maputo: porque é que o Pentecostalismo brasileiro importa para o casamento, o amor e a sexualidade"


Às 18 horas, será feito o lançamento público do número da Análise Social subordinado ao tema "Moçambique Actual - continuidades e mudanças", do qual apresentarão leituras críticas Adolfo Yañes-Casal (FCSH - UNL) e Manuel Ennes Ferreira (ISEG - UTL).

São todos bem-vindos!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Maningue trabalho, cansado que nem um cão

Pois é, people...

Com artigos prometidos, seminários, aulas e preparação de conferências e projectos (e o cansaço que vem disso tudo), não tenho conseguido dar-vos atenção.

Espero poder voltar em breve à regularidade do costume.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Salvem os ricos

Não percam esta nova canção de solidariedade natalícia!

(made in Contemporâneos)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Guantanamera

O governo português declarou-se disposto a receber detidos de Guantanamo, a fim de «ajudar o governo dos EUA a resolver o problema», que é «complexo do ponto de vista jurídico».

É complexo, é. E parece que a principal complexidade é ser impossível ter os homens presos em território dos EUA, por a sua detenção contrariar a lei do país.
Do que se sabe, contraria também a lei de quase todos os países europeus, incluindo de Portugal.

Portanto, esta oferta de ajuda é como quem dissesse: podem fechar a prisão, que está a dar um granel enorme e, como não podem pregar com eles no vosso país, usem o nosso; a gente faz as ilegalidades por vocês e em vosso nome.

Confesso que é das coisas mais indignas que já ouvi um governante do meu país dizer.

(Para além de irresponsável, ao transformar-nos em alvo prioritário. Mas essa opção política ainda é discutível; o que o delfim de Jaime Gama disse, não é.)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

domingo, 7 de dezembro de 2008

Guiness, 19??-200?

O Guiness era um rafeiro vagamente parecido com um labrador.
Chegava cada dia ao café, na Place Jourdain, Bruxelas, acompanhando um velho reformado.
Deitava-se por baixo da mesa e o dono servia-lhe uma malga de Guiness, que ele lambia até à última gota.
Caía num sono profundo, de que acordava horas depois. Para pedir mais cerveja.
Ao fim do dia, voltavam os dois para casa.

Ouvi dizer que o Guiness já morreu há uns anos.
De cirrose.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Desgraça continua no Zimbabwe

O regime zimbabuéano continua em guerra com o seu povo, sem solução à vista.

Agora, foi raptada e presa (ou "desaparecida") a activista de direitos humanos Jestina Mukoko, no mesmo dia em que foram detidos mais de 70 sindicalistas, um pouco por todo o território.
A julgar por precedentes recentes, não é de excluir que o seu cadáver venha a aparecer dentro de dias. Entretanto, os juízes do Supremo Tribunal recusaram-se a tocar no assunto, por ser "demasiado quente".

Na África do Sul, o bispo (e prémio Nobel da paz) Desmond Tutu apelou à remoção à força de Mugabe e ao seu julgamento pelo Tribunal de Haia.

(cartoon de Zapiro)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Mãos limpas, please

Estou varado pelo telejornal da TVI.

Na novela BPN/Dias Loureiro (PSD), aldrabices que saltam à vista acerca da duração do seu envolvimento.

Na solução para as minas de Aljustrel, uma jogada pouco clara em perspectiva, mas passando pela empresa que Jorge Coelho (PS) agora administra.

Coelho e Loureiro, figuras gémeas dos aparelhos de partidos diferentes, que surgem juntos em mais uma canalhice financeira, lesando directamente o Estado.

Cereja no bolo, o SIRESP (um sistema integrado de comunicações em caso de emergência, coisa irrelevante, portanto) adjudicado à Sociedade Lusa de Negócios (dona do BPN) por 500 milhões de euros, 6 vezes o valor de um estudo anterior desaparecido nas gavetas ministeriais, pelo ministro de um governo demitido, ex e futuro administrador de empresas da tal Sociedade. Sistema que, entretanto, o recente exercício de simulacro de sismo demonstrou não funcionar.

«Mãos Limpas», please!
E, para esta gente, a justiça poética do cartoon de Franquin (clique para aumentar).

É lançado hoje


É hoje lançado em Maputo, às 17 horas e nas instalações do Sindicato dos Jornalistas, Avenida 24 de Julho, o livro Linchamentos em Moçambique I (uma desordem que apela à ordem), dirigido pelo sociólogo e blogger moçambicano Carlos Serra e para o qual tive a honra de contribuir com este artigo.

Desejos de um bom lançamento e de boas leituras e reflexões.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Terrorismo de Estado


Afinal, não são apenas uns paranoicos libertários a preocupar-se com os assaltos estatais que têm vindo a ser feitos aos direitos dos cidadãos, ao abrigo da luta antiterrorista.


A coberto de nos protegerem, é de um importante retrocesso civilizacional que se trata.
Com a agravante de que é muito fácil naturalizarmos as restrições aos nossos direitos, tal como hoje achamos "natural" o passaporte (invenção recente) ou o bombardeamento de populações civis (que chocou o mundo em Guernica, pouco antes de se generalizar de forma "natural", na II Guerra Mundial).
Mais fácil, ainda, em países cujos cidadãos ainda se encontram mentalmente marcados por décadas passadas de submissão ao autoritarismo.

Mas já dizia o Benjamim Franklin, mais coisa menos coisa, que quem está disposto a abdicar de parte da sua liberdade para reforçar a sua segurança não merece nenhuma delas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Vá a Veneza, enquanto existe

Veneza irá estar nos próximos dias com zonas submersas, devido a uma subida do mar 1,6 metros acima do habitual.

Por enquanto, é uma coisa passageira e devida à direcção dos ventos e às fortes chuvas sentidas no norte de Itália.
Nalgumas décadas, esta cidade lindíssima irá desaparecer (ou ficar rodeada de diques e muralhas, tornando-a um fóssil daquilo que hoje é), devido às subidas do nível do mar, à erosão costeira e às mudança dos regimes das chuvas que, sem alardes mas depressa, irão resultar das alterações climáticas decorrentes do efeito de estufa.

Suponho que os leitores não deixarão, por causa disso, de levar o carro para todo o lado e de consumir quantidades astronómicas de energia obtida à custa da emissão de carbono.
Mas, sendo assim, já agora vão a Veneza. Enquanto existe.