Já por aqui tinha teorizado, com profusa análise de vernáculo, sobre o recurso parlamentar a palavrões capazes de fazer corar carroceiros, caso ainda os houvesse.
Hoje, acabada uma resma de testes escritos para classificar, cruzei-me com a versão gestual de insulto parlamentar, produzida pelo ministro Maizena.
Fico aliviado que o homem seja corrido (e desconfio que o nosso primeiro também achou isto uma oportunidade caída do céu), mas confesso que nada disto me parece significativamente diferente da arrogância e desrespeito com que este governo sempre tratou a oposição e, a reboque, todos nós cidadãos.
Essa reiterada arrogância e desrespeito causa-me, de facto, repulsa. E muita.
Esta sua manifestação particular, por seu lado, só me causa pena. Por eles e pelo país.
Se um ministro acha que deve insultar os outros quando dizem que ele está a mentir, isso quer dizer, entre outras coisas, que não percebe sequer que essa acusação faz parte da ocupação do cargo.
Agora, é chato que alguém chegue a ministro sem perceber, ao longo da sua vida, que isso de fazer pilinhas e cornos com os dedos já tem um ar um bocado infantil no ensino secundário.
Ou que alguém tenha o poder de tomar decisões importantes acerca das nossas vidas sem ter nunca percebido que, quando toca a insultar, isso pode ser feito de 1001 formas (irónicas, sarcásticas, metafóricas, you name it...) sem que o insultado tenha muito por onde reagir. E sem mostrar que somos burgessos e bimbos.
Já que a Natália Correia talvez seja refinada de mais para o senhor perceber a ideia, sempre lhe deixo aqui uma prenda:
Uma utilização bem mais insultuosa, inteligente e eficaz dessa coisa dos cornos, touros e campinos.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Burgessos (para pôr a semana em dia)
quinta-feira, 18 de junho de 2009
A profunda tradição luso-esgraçadinha da entrevista do nosso primeiro, esta noite
... esperemos que lhe achem menos graça que ao fado, ou estamos lixados.
domingo, 14 de junho de 2009
Lição de marketing gratuita
sábado, 13 de junho de 2009
Antropovistas novas
Nos próximos dias, irá sendo afixada uma extraordinária série enviada pelo amigão Luís Patta, cobrindo o Vietname, a Tailândia e o Cambodja!
Fiquem atentos.
fim-de-semana Le Mans
Há 60 anos, as 24 horas de Le Mans voltaram a realizar-se após a II Guerra Mundial e a Ferrari obteve a primeira das suas várias vitórias.
Há 50 anos, a Aston Martin finalmente ganhou (e pela única vez) esta prova.
Há 40 anos, a vitória foi disputada ao sprint ao longo das duas horas finais, tendo Jackie Ickx ganho pela primeira de muitas vezes, com uns 100 metros de vantagem ao fim de um dia às voltas.
Há 30 anos, houve uma hecatombe nos protótipos e venceu um Grupo 5, com Paul Newman a ficar em 2º lugar.
Há 20 anos, a Mercedes voltou a vencer, na última vez em que a enorme recta das Hunaudières não estava "abrandada" por duas chicanes.
Há 10 anos, os Mercedes (por onde andava Pedro Lamy) mostraram uma desagradável tendência para levantar vôo, tendo a BMW alcançado a sua única vitória - num debate aceso, até à meia-hora final, com um Toyota...
Os anos com 9 têm, assim, tido qualquer coisa de especial.
Será este o da primeira vitória de um português?
Com Lamy na equipa oficial da Peugeot e com Monteiro e Barbosa ao volante de outsiders credíveis, pode bem acontecer.
Para mim, velho amante de Le Mans, não seria necessária essa hipótese para acompanhar as transmissões, hoje e amanhã.
A quem nunca viu, aconselho. É na Eurosport.
Afinal, não correu assim tão bem...
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Um Amor Colonial
É a história de vida de um homem criado em Angola e do amor que perseguiu (e perdeu) por Lisboa, Luanda e Moçambique - onde ainda vive e pretende morrer.
E a capa ficou bonita, 'penso eu de que'...
Se os prazos correrem desta vez bem, tentarei oferecer-me o seu lançamento como prenda de anos, nos primeiros dias de Julho.
Até lá, podem ler uns excertos aqui.
Digam de vossa justiça.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Doi muito, Vôvô
Não sei, vôvô.
Não são só as fotos do meu amado Xipamanine, noutros tempos.
Não são só as fotos da colonial Rua Araújo, tão parecida com a de hoje em dia.
Não são só todas as outras fotos, desde a independência.
Não é só o partilhado amor pelo jazz e, nele, aquela sala de espera por comboios que não chegarão, ouvindo gente boa, má ou assim-assim, mas sempre urgente - porque o urgente é tocar.
É... Não sei!
terça-feira, 9 de junho de 2009
Atentado a Deviz Simango
domingo, 7 de junho de 2009
Votemos todos em coro!
Suponho que isso seria uma coisa importante de mais para ser deixada nas mãos de mecanismos democráticos e de populaça ignorante como nós...
Mas lá estarei a votar e apelo a todos vós que o façam, mesmo que escolham gente de que eu discorde ou mesmo despreze.
Acrescento duas boas razões, às eventuais simpatias partidárias ou às zangas com o buraco em que nos meteram:
- Grandes níveis de abstenção acabam por ser manipulados para reforçar a ideia de, estando-se a maltosa nas tintas para um Parlamento Europeu sem verdadeiro poder, não se justifica que ele passe a ter poder real, nem que o real poder seja atribuído pelo voto.
- Grandes níveis de abstenção facilitam coisas estranhas, tipo vermos partidos com discurso populista de franca direita ficarem em 2º lugar em sítios como a minha querida Holanda.
É capaz de chegar para justificar o quarto de hora gasto a ir lá meter o papelinho, não?
terça-feira, 2 de junho de 2009
As coisas que a gente ouve logo de manhã...
«Sabes? Caiu um avião e ia lá dentro o príncipe do Brasil. Mas era um príncipe velhote. Assim quase da tua idade, só um bocadinho mais novo.»
3 páginas de Luis Sepúlveda
O homem – que esse sim é recordado – chamou-se Klaus Störtebecker e era um pirata. O Pirata do Elba.
No ano de 1390, a Liga Hanseática impunha a ferro e fogo o seu domínio mercantil sobre o Atlântico Norte e o Mar Báltico. A Liga estabelecia impostos absurdos, fixava preços arbitrários aos artesãos e aos agricultores, e nos seus mil barcos os capitães hanseáticos utilizavam a forca para castigar qualquer falta.
Mas, e como sempre aconteceu na História, um grupo de marítimos liderados por Klaus Störtebecker, um gigantão de rosto feroz e barba vermelha, disse que não, que bastava de impostos, chicote e corda e, depois de um motim, fizeram-se ao mar num barco que começou a navegar sob a bandeira da liberdade.
Em 1392, na ilha de Gotland, os homens de Störtebecker ditaram a sua declaração de princípios a um sacerdote, que traduziu para latim as palavras pronunciadas em todos os dialectos que se falavam no norte da Europa. Diziam elas que os homens são escolhidos por Deus para praticar a felicidade e que só a felicidade concedia a necessária vitalidade para suportar qualquer penúria.
A partir daquele momento começaram a chamar-se «Die Vitalienbrüder», os Irmãos Vitais, e foram o flagelo da Liga Hanseática.
Abordavam os barcos carregados de bens, interrogavam os marinheiros acerca dos últimos castigos sofridos e muitos oficiais e capitães sentiram nas suas carnes os arranhões do gato de sete caudas ou o ar mesquinho que a forca permite. O produto do saque era repartido, metade pela confraria e a outra metade pelas populações ribeirinhas do Elba ou das costas do Báltico. A chegada de Störtebecker e dos Vitalienbrüder era esperada como uma bênção pelos pobres de então.
Como era de esperar, a Liga Hanseática fixou preço à cabeça do pirata, e dúzias de capitães alemães, suecos e dinamarqueses lançaram-se na sua captura.
Não depararam com uma tarefa fácil, pois Klaus Störtebecker conhecia todos os segredos do Elba e resistiu até já correr o ano de 1400.
Numa manhã de Primavera desse ano, toda a Hamburgo marcou encontro junto da «Teufelsbrücke», a Ponte do Diabo, para presenciar a execução do pirata e de uma centena dos seus camaradas.
Simon von Utrecht, o burgomestre, pronunciou a sentença com voz firme: morte por decapitação. O verdugo fez reluzir a espada e esperou a primeira vítima, que devia ser um marinheiro raso, visto que parte do castigo imposto a Störtebecker era assistir à morte dos seus homens.
Então o pirata de barba vermelha falou.
- Quero ser o primeiro, e mais: proponho-lhe um acordo para melhorar o espectáculo, senhor burgomestre.
- Fala – ordenou Simon von Utrecht.
- Quero ser o primeiro. Quero ser decapitado de pé, e quero que, por cada passo que dê depois de a minha cabeça ter tocado no solo, se salve um dos meus homens.
Viva o Pirata do Elba!, gritou alguém no meio da multidão, e o burgomestre, certo de que era tudo uma fanfarronice, aceitou.
A ciciante folha de aço cortou o ar da manhã, entrou pela nuca e saiu pelo queixo do pirata. A cabeça caiu sobre as pranchas da ponte e, perante a estupefacção de todos, o decapitado deu doze passos antes de cair redondo.
Aconteceu isto numa manhã de Primavera do ano de 1400. Quase seiscentos anos mais tarde, na primeira semana de Julho deste ano, a polícia de Hamburgo deteve vários rapazes que tentavam pela centésima vez alterar o nome de uma rua. Levavam umas compridas fitas adesivas azuis com letras brancas que diziam «Rua Klaus Störtebecker» e punham-nas a cobrir as placas metálicas com o nome do nada célebre burgomestre Simon von Utrecht.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Dizia um velho libertário...
domingo, 31 de maio de 2009
Mais uma petição, mais uma questão de cidadania
Uma questão com que concordo desde que surgiu como questão, e isto independentemente das minhas antipatias ou simpatias para com a instituição casamento.
Há coisas mais urgentes, sobretudo em tempos de crises e de eleições, dirão alguns.
Talvez.
Mas, para mim, a cidadania é sempre urgente.
E a cidadania dos outros é, também, parte da minha.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Que pena!
Diz ele que o fez para contrariar a ideia de que o Conselho de Estado o estava a proteger.
Bem... independentemente do crédito público das suas palavras, que diminui de cada vez que abre a boca, seria talvez bom explicarem-lhe que, cá por fora, ninguém acha que o Conselho de Estado o estivesse a proteger.
Parece, pelo contrário, que todos os seus membros o queriam ver de lá para fora, fosse por razões éticas, políticas, ou para evitar que a sua lepra se lhes pegasse.
O que toda a gente acha que o estava desesperadamente a proteger não era o Conselho, mas o seu cargo de Conselheiro...
Mas é uma pena.
Assim, há uma relevante fatia da "sociedade civil" que deixa de estar representada no Conselho de Estado: a dos craques dos negócios no mínimo escuros, facilitados por relações políticas dúbias, que foram promovidos por Cavaco Silva (quando primeiro-ministro) a decisores dos destinos do país. Por, claro, serem geniais tecnocratas empreendedores e pragmáticos, sem essa mancha ética de serem políticos...
Mas, sabe-se lá, pode ser que venha a ser substituído por um irmão siamês, ou por um primo de outra cor política, que mantenha a representação da espécie, no seu todo.
Entrementes, os patuscos da Sociedade Lusa de Negócios reclamam (em contrapartida desta ansiada renúncia?) uma indemnização pela privatização do BPN, onde o estado já enfiou mais dinheiro, para tapar as suas ilegalidades e incompetências, do que o valor do banco...
Será que não perceberam que, nos tempos mais próximos, nem acerca do BPN nem acerca do Freeport convém aos envolvidos fazerem ondas?
Que, de vez em quando, convém aos que se acham usufrutuários de impunidade por direito natural (ou divino) evitarem esfregar isso na cara dos outros?
segunda-feira, 25 de maio de 2009
As bombinhas dos meninos
Infelizmente, se a atitude é algo infantil e serôdia, as preocupações que suscita são bem mais graves do que sugere o título deste post...
Uma prenda póstuma ao João Benárd da Costa
Talvez, assim, venha a ser projectada nos cinemas cá do burgo.
Ou não.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Lá nos vão roubando os fazedores de memórias...
Há dias, Vasco Granja. Hoje, João Benárd da Costa.
Só me apetece protestar «Que merda!»
E mandar um abraço bem apertado à Ana.
domingo, 17 de maio de 2009
Santinhos, espíritos e diversão
No Terreiro do Paço, muitos milhares de pessoas deram largas à sua legítima mas teologicamente discutível idolatria, acompanhando devotamente uma estátua.
Foi trazida de Fátima, para comemorar os 50 anos de uma outra estátua, em Almada, mandada erguer pelo episcopado português da altura, em evidente declaração de apoio divino a um dos maiores temas propagandísticos do salazarismo: a não participação portuguesa na II Guerra Mundial, atribuída à clarividência e "ratice" de S. Exª o Presidente do Conselho.
Uma estátua que, curiosamente, foi erguida 14 anos depois do fim da tal guerra, numa altura em que a capacidade do salazarismo se auto-propagandear andava pelas ruas da amargura e o país estava cada vez mais óbvia e orgulhosamente só, devido à sua política colonial - que iria levá-lo, 2 anos depois, não a uma mas a 3 guerras, que se arrastariam por 13 anos, em vez de 6.
Uns pormenores que talvez não sejam completamente irrelevantes, mas que não vi serem referidos em nenhum jornal ou televisão.
É normal, suponho. Afinal, somos um país de brandos costumes para com os poderosos, sejam eles indivíduos ou instituições.
Entretanto, 100 metros ao lado, desfilavam as muy pagãs Máscaras Ibéricas, entre a Praça do Município e o Rossio.
Ele eram caretos, chocalheiros, marafonas, gaiteiros, minotauros, ursos e seres de musgo... até mascarados espanhois com evidente inspiração azteca.
Tudo isso dançando, pulando, metendo-se com as pessoas, bebendo os seus canecos no final.
Enfim: o ciclo das festas do solstício de inverno em todo o seu explendor, mesmo que um bom bocado folclorizado.
Confesso que tinha curiosidade de ver as duas iniciativas.
Mas ainda bem que escolhi a do Rossio. Foi, de certeza, mais divertida - e de uma humanidade mais viva.
Mesmo se, por lá, recebi uma má notícia.
O homem mais gentil, simpático e calmo da aldeia de Varge, meu solícito companheiro nas duas vezes que vivi com os caretos a sua Festa dos Rapazes, está preso.
Dizem-me que, perante a estupefação de todos os que o conhecem, deu duas facadas em alguém que (suponho) lhe terá feito alguma coisa que ultrapassava os limites da sua enorme tolerância.
Daqui vai um abraço com muita amizade, Vitorino.
Citações de café (18)
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Acompanhando a saga dos curandeiros do orgone
Em parte por muito trabalho, em parte porque, quando tenho tempo de me aproximar da net, procuro toda a informação possível acerca de um caso bem peculiar que está em curso em Moçambique:
Recentemente, 4 pessoas de pele clara e nacionalidades diversas foram detidas em Cahora Bassa, a atirarem uns produtos esquisitos e desconhecidos para a água.
Temeu-se primeiro uma sabotagem («Cahora Bassa é nossa!», pelo que certamente os estrangeiros estão invejosos), depois uma tentativa de envenenamento da água.
Mas os homens assumiram-se como "Guerreiros do Orgone", que estariam a mandar à água "orgonite", a fim de contrabalançar as energias negativas vindas da globalização, de produtos da modernidade como os campos electro-magnéticos e outras coisas que tais.
Assim a modos que uns curandeiros new age a efectuarem um ritual de limpeza do país, a fim de assegurarem paz, prosperidade harmoniosa com o universo e etc.
Se vocês se lembram dos neo-freudianismos do Wilhelm Reich e das suas alegadas descobertas, o orgone seria uma "Energia Cósmica Primordial", omnipresente no universo e a que se deveriam, por exemplo, a côr do céu, o insucesso da maioria das revoluções e o orgasmo.
Se esta expedição tendo em vista o resgate da felicidade dos moçambicanos através da purificação do Zambeze já é, por si própria, um bom motivo de curiosidade, estou interessadíssimo na reacção das autoridades, dos meios de comunicação social (sempre gozões para com as crenças e práticas locais que não compreendem) e da população a estes curandeiros 'brancos' cheios de tecnologias modernas e argumentações que procuram usar uma linguagem científica.
Cheira-me que isto ainda vai dar um belo artigo. Para além, claro, de umas belas confusões, antes disso.Entretanto, se também vos interessar, vão acompanhando as informações que, sempre em cima da hora, o Carlos Serra vai disponibilizando.












