sexta-feira, 3 de julho de 2009

Burgessos (para pôr a semana em dia)

por aqui tinha teorizado, com profusa análise de vernáculo, sobre o recurso parlamentar a palavrões capazes de fazer corar carroceiros, caso ainda os houvesse.
Hoje, acabada uma resma de testes escritos para classificar, cruzei-me com a versão gestual de insulto parlamentar, produzida pelo ministro Maizena.

Fico aliviado que o homem seja corrido (e desconfio que o nosso primeiro também achou isto uma oportunidade caída do céu), mas confesso que nada disto me parece significativamente diferente da arrogância e desrespeito com que este governo sempre tratou a oposição e, a reboque, todos nós cidadãos.

Essa reiterada arrogância e desrespeito causa-me, de facto, repulsa. E muita.
Esta sua manifestação particular, por seu lado, só me causa pena. Por eles e pelo país.

Se um ministro acha que deve insultar os outros quando dizem que ele está a mentir, isso quer dizer, entre outras coisas, que não percebe sequer que essa acusação faz parte da ocupação do cargo.

Agora, é chato que alguém chegue a ministro sem perceber, ao longo da sua vida, que isso de fazer pilinhas e cornos com os dedos já tem um ar um bocado infantil no ensino secundário.
Ou que alguém tenha o poder de tomar decisões importantes acerca das nossas vidas sem ter nunca percebido que, quando toca a insultar, isso pode ser feito de 1001 formas (irónicas, sarcásticas, metafóricas, you name it...) sem que o insultado tenha muito por onde reagir. E sem mostrar que somos burgessos e bimbos.

Já que a Natália Correia talvez seja refinada de mais para o senhor perceber a ideia, sempre lhe deixo aqui uma prenda:
Uma utilização bem mais insultuosa, inteligente e eficaz dessa coisa dos cornos, touros e campinos.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

domingo, 14 de junho de 2009

Lição de marketing gratuita

Quanto menos gente houver na procissão, mais potente e ruidosa deve ser a aparelhagem onde vá uma alminha a rezar.

sábado, 13 de junho de 2009

Antropovistas novas

O Antropovistas foi finalmente actualizado (as minhas maiores desculpas pela demora, Vanize!), com fotos de Vanize Maia sobre Maputo e de Margarida Silva sobre Lisboa.

Nos próximos dias, irá sendo afixada uma extraordinária série enviada pelo amigão Luís Patta, cobrindo o Vietname, a Tailândia e o Cambodja!

Fiquem atentos.

fim-de-semana Le Mans

Há 60 anos, as 24 horas de Le Mans voltaram a realizar-se após a II Guerra Mundial e a Ferrari obteve a primeira das suas várias vitórias.

Há 50 anos, a Aston Martin finalmente ganhou (e pela única vez) esta prova.

Há 40 anos, a vitória foi disputada ao sprint ao longo das duas horas finais, tendo Jackie Ickx ganho pela primeira de muitas vezes, com uns 100 metros de vantagem ao fim de um dia às voltas.



Há 30 anos, houve uma hecatombe nos protótipos e venceu um Grupo 5, com Paul Newman a ficar em 2º lugar.

Há 20 anos, a Mercedes voltou a vencer, na última vez em que a enorme recta das Hunaudières não estava "abrandada" por duas chicanes.

Há 10 anos, os Mercedes (por onde andava Pedro Lamy) mostraram uma desagradável tendência para levantar vôo, tendo a BMW alcançado a sua única vitória - num debate aceso, até à meia-hora final, com um Toyota...

Os anos com 9 têm, assim, tido qualquer coisa de especial.
Será este o da primeira vitória de um português?
Com Lamy na equipa oficial da Peugeot e com Monteiro e Barbosa ao volante de outsiders credíveis, pode bem acontecer.

Para mim, velho amante de Le Mans, não seria necessária essa hipótese para acompanhar as transmissões, hoje e amanhã.
A quem nunca viu, aconselho. É na Eurosport.


Afinal, não correu assim tão bem...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um Amor Colonial

Depois de estar agendado e vir a ser desagendado por duas editoras (foram as sucessivas crises...), e depois de uns atrasos de produção, está finalmente a imprimir Um Amor Colonial.

É a história de vida de um homem criado em Angola e do amor que perseguiu (e perdeu) por Lisboa, Luanda e Moçambique - onde ainda vive e pretende morrer.
E a capa ficou bonita, 'penso eu de que'...

Se os prazos correrem desta vez bem, tentarei oferecer-me o seu lançamento como prenda de anos, nos primeiros dias de Julho.
Até lá, podem ler uns excertos aqui.

Digam de vossa justiça.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Doi muito, Vôvô

Faleceu Ricardo Rangel.

Não sei, vôvô.
Não são só as fotos do meu amado Xipamanine, noutros tempos.
Não são só as fotos da colonial Rua Araújo, tão parecida com a de hoje em dia.
Não são só todas as outras fotos, desde a independência.
Não é só o partilhado amor pelo jazz e, nele, aquela sala de espera por comboios que não chegarão, ouvindo gente boa, má ou assim-assim, mas sempre urgente - porque o urgente é tocar.

É... Não sei!

Bayete, Vôvô!
Bayete...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Atentado a Deviz Simango


Preparava-me eu para escrever um descansado comentário às eleições para o Parlamento Europeu, quando me cruzei com uma notícia dando conta de um atentado, hoje, contra Deviz Simango - eleito o ano passado presidente do Conselho Municipal da Beira como independente (veja-se aqui e aqui), e depois fundador e líder do Movimento Democrático de Moçambique.

Numa notícia que confunde Deviz Simango com o presidente do Conselho Municipal de Maputo (eleito pela Frelimo) e que chama ao porta-voz da polícia "Coça" (em vez de Cossa), não sei muito bem em que é que posso confiar...
Mas a "Rádio Maputo" (carinhosa alcunha do blog de Carlos Serra, por estar sempre "em cima da jogada") tem vindo a actualizar as informações acerca do assunto, neste post.

Assim, a caravana do MDM foi atacada em Nacala por dois carros cheios de activistas da Renamo, enquanto assistia a um acontecimento cultural, antes de realizar um comício.
Os indivíduos, apontados como ex-guerrilheiros da Renamo, arrancaram a pistola a um polícia e dispararam sobre a viatura de Simango, sem o atingir.
Depois, espalharam o caos, disparando para o ar com as pistolas que eles próprios traziam.

Estranho: porquê usar a pistola do polícia, se tinham as suas próprias armas?
Para que estas não pudessem ser referenciadas em estudos balísticos?
Para que - em caso de sucesso e contando com o seu ascendente local para não serem denunciados ou, pelo menos, para tornarem o caso suspeito - o atentado pudesse ser assacado à polícia e, consequentemente, à Frelimo?

São as únicas explicações que me surgem, e fazem pensar num acto deliberado e planeado, não numa qualquer altercação de cabeças quentes.

Entretanto, o porta-voz da Renamo negou ter conhecimento directo do incidente, mas aproveitou para "acusar" o MDM de «tentar fazer com que partidários da Renamo se juntassem à nova formação».
Ou seja, ao falar de uma possível tentativa de assassinato político, "vem-lhe à conversa" a justificação de que a vítima (presidente de outro partido) tenta atrair para as hostes dele pessoas que são militantes ou votantes da Renamo. Ou seja, ainda, isso justificaria ou desculparia que o matassem.

Se a vitória de Deviz Simango na Beira demonstrou que, afinal, os votantes não são propriedade de ninguém, essa lição parece custar a ser aprendida, nos estados-maiores partidários que sempre se conceberam como únicos - ou isolados, ou os únicos um face ao outro.

Vários amigos e conhecidos, das mais diversas sensibilidades políticas moçambicanas, me têm feito chegar a ideia de que o MDM está a fazer muito medo aos dois grandes partidos instalados.
É muito compreensível.

Sobretudo em meios urbanos, há muita gente que não vota por não gostar da governação de uns e desconfiar ainda mais dos outros.
Ao mesmo tempo, há quem vote Frelimo não tendo mais nada senão críticas a apontar-lhe, mas que o faz com medo do caos, boçalidade e mãos sangrentas que atribui ao seu opositor. Vota e vota Frelimo, não gostando, para que a Renamo não ganhe.
Tal como há quem vote Renamo, discordando da forma como é dirigida e deconfiando que ela viesse a tornar-se tão corrupta e autoritária como consideram que a Frelimo é, por verem na Frelimo o mesmo diabo que outros vêem na Renamo.

Uma oposição sem sangue nas mãos e uma imagem de competência, honestidade, modernidade e espírito democrático é, de facto, assustadora para quem, de um lado e do outro, geriu a luta política segundo essas regras estáveis de ausência de alternativas, ao longo dos últimos 15 anos.

Mas não sei se será este medo, ou se será a tal visão dos votantes, regiões e pessoas como propriedade partidária (ou se será, ainda, a ideia que ambas as forças partilham de que a liderança na guerra, seja a de libertação ou a civil, legitima por si só o poder), que levarão não só a actos como este atentado, como à ideia de que ele é desculpável ou, quiçá, legítimo.

Suspeito que serão as três coisas, em conjunto.

Mas, se as forças políticas instaladas não conseguirem ver que nenhuma dessas três coisas é simpática aos moçambicanos e ao mundo, que pelo menos uma coisa consigam ver:
Que o homicídio político, por muito normal que tenha sido no passado, é tão execrável como sempre foi - e é, hoje já e para toda a gente fora dos círculos do poder, totalmente inaceitável.

domingo, 7 de junho de 2009

Votemos todos em coro!

Eu bem sei que neste domingo não se vota para quem manda em Bruxelas e, consequentemente, na maioria das leis que nos vão regulando.
Suponho que isso seria uma coisa importante de mais para ser deixada nas mãos de mecanismos democráticos e de populaça ignorante como nós...

Mas lá estarei a votar e apelo a todos vós que o façam, mesmo que escolham gente de que eu discorde ou mesmo despreze.

Acrescento duas boas razões, às eventuais simpatias partidárias ou às zangas com o buraco em que nos meteram:

- Grandes níveis de abstenção acabam por ser manipulados para reforçar a ideia de, estando-se a maltosa nas tintas para um Parlamento Europeu sem verdadeiro poder, não se justifica que ele passe a ter poder real, nem que o real poder seja atribuído pelo voto.

- Grandes níveis de abstenção facilitam coisas estranhas, tipo vermos partidos com discurso populista de franca direita ficarem em 2º lugar em sítios como a minha querida Holanda.

É capaz de chegar para justificar o quarto de hora gasto a ir lá meter o papelinho, não?

terça-feira, 2 de junho de 2009

As coisas que a gente ouve logo de manhã...

A propósito do trágico acidente da Air France, informava-me a minha filha de 8 anos, por volta das 8 da manhã:

«Sabes? Caiu um avião e ia lá dentro o príncipe do Brasil. Mas era um príncipe velhote. Assim quase da tua idade, só um bocadinho mais novo.»

3 páginas de Luis Sepúlveda

O PIRATA DO ELBA

Há uma rua em Hamburgo com o nome do burgomestre Simon von Utrecht, mas quase nenhum hamburguês sabe quem foi tal sujeito, nem por que é que merece ser recordado. A única coisa que sabem dele é que ordenou a execução de um homem que vive na memória dos irreverentes, em centenas de canções e narrativas que se contam na costa do Mar do Norte ou nos cálidos cafés de Weddel ou Blankenesse.
O homem – que esse sim é recordado – chamou-se Klaus Störtebecker e era um pirata. O Pirata do Elba.
No ano de 1390, a Liga Hanseática impunha a ferro e fogo o seu domínio mercantil sobre o Atlântico Norte e o Mar Báltico. A Liga estabelecia impostos absurdos, fixava preços arbitrários aos artesãos e aos agricultores, e nos seus mil barcos os capitães hanseáticos utilizavam a forca para castigar qualquer falta.
Mas, e como sempre aconteceu na História, um grupo de marítimos liderados por Klaus Störtebecker, um gigantão de rosto feroz e barba vermelha, disse que não, que bastava de impostos, chicote e corda e, depois de um motim, fizeram-se ao mar num barco que começou a navegar sob a bandeira da liberdade.
Em 1392, na ilha de Gotland, os homens de Störtebecker ditaram a sua declaração de princípios a um sacerdote, que traduziu para latim as palavras pronunciadas em todos os dialectos que se falavam no norte da Europa. Diziam elas que os homens são escolhidos por Deus para praticar a felicidade e que só a felicidade concedia a necessária vitalidade para suportar qualquer penúria.
A partir daquele momento começaram a chamar-se «Die Vitalienbrüder», os Irmãos Vitais, e foram o flagelo da Liga Hanseática.
Abordavam os barcos carregados de bens, interrogavam os marinheiros acerca dos últimos castigos sofridos e muitos oficiais e capitães sentiram nas suas carnes os arranhões do gato de sete caudas ou o ar mesquinho que a forca permite. O produto do saque era repartido, metade pela confraria e a outra metade pelas populações ribeirinhas do Elba ou das costas do Báltico. A chegada de Störtebecker e dos Vitalienbrüder era esperada como uma bênção pelos pobres de então.
Como era de esperar, a Liga Hanseática fixou preço à cabeça do pirata, e dúzias de capitães alemães, suecos e dinamarqueses lançaram-se na sua captura.
Não depararam com uma tarefa fácil, pois Klaus Störtebecker conhecia todos os segredos do Elba e resistiu até já correr o ano de 1400.
Numa manhã de Primavera desse ano, toda a Hamburgo marcou encontro junto da «Teufelsbrücke», a Ponte do Diabo, para presenciar a execução do pirata e de uma centena dos seus camaradas.
Simon von Utrecht, o burgomestre, pronunciou a sentença com voz firme: morte por decapitação. O verdugo fez reluzir a espada e esperou a primeira vítima, que devia ser um marinheiro raso, visto que parte do castigo imposto a Störtebecker era assistir à morte dos seus homens.
Então o pirata de barba vermelha falou.
- Quero ser o primeiro, e mais: proponho-lhe um acordo para melhorar o espectáculo, senhor burgomestre.
- Fala – ordenou Simon von Utrecht.
- Quero ser o primeiro. Quero ser decapitado de pé, e quero que, por cada passo que dê depois de a minha cabeça ter tocado no solo, se salve um dos meus homens.
Viva o Pirata do Elba!, gritou alguém no meio da multidão, e o burgomestre, certo de que era tudo uma fanfarronice, aceitou.
A ciciante folha de aço cortou o ar da manhã, entrou pela nuca e saiu pelo queixo do pirata. A cabeça caiu sobre as pranchas da ponte e, perante a estupefacção de todos, o decapitado deu doze passos antes de cair redondo.
Aconteceu isto numa manhã de Primavera do ano de 1400. Quase seiscentos anos mais tarde, na primeira semana de Julho deste ano, a polícia de Hamburgo deteve vários rapazes que tentavam pela centésima vez alterar o nome de uma rua. Levavam umas compridas fitas adesivas azuis com letras brancas que diziam «Rua Klaus Störtebecker» e punham-nas a cobrir as placas metálicas com o nome do nada célebre burgomestre Simon von Utrecht.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dizia um velho libertário...

... que trabalhava na então Emissora Nacional:

«Deus é grande!...
Mas a General Motors é muito maior.»

domingo, 31 de maio de 2009

Mais uma petição, mais uma questão de cidadania

Acabo de assinar esta petição, pela igualdade no acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.
Uma questão com que concordo desde que surgiu como questão, e isto independentemente das minhas antipatias ou simpatias para com a instituição casamento.

Há coisas mais urgentes, sobretudo em tempos de crises e de eleições, dirão alguns.
Talvez.

Mas, para mim, a cidadania é sempre urgente.
E a cidadania dos outros é, também, parte da minha.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Que pena!

Depois de ser empurrado a isso por toda a gente neste país que sabe da sua existência (e de ter estoicamente tentado fazer de conta que não via), Dias Loureiro finalmente renunciou ao seu cargo de Conselheiro de Estado.
Diz ele que o fez para contrariar a ideia de que o Conselho de Estado o estava a proteger.

Bem... independentemente do crédito público das suas palavras, que diminui de cada vez que abre a boca, seria talvez bom explicarem-lhe que, cá por fora, ninguém acha que o Conselho de Estado o estivesse a proteger.
Parece, pelo contrário, que todos os seus membros o queriam ver de lá para fora, fosse por razões éticas, políticas, ou para evitar que a sua lepra se lhes pegasse.
O que toda a gente acha que o estava desesperadamente a proteger não era o Conselho, mas o seu cargo de Conselheiro...

Mas é uma pena.
Assim, há uma relevante fatia da "sociedade civil" que deixa de estar representada no Conselho de Estado: a dos craques dos negócios no mínimo escuros, facilitados por relações políticas dúbias, que foram promovidos por Cavaco Silva (quando primeiro-ministro) a decisores dos destinos do país. Por, claro, serem geniais tecnocratas empreendedores e pragmáticos, sem essa mancha ética de serem políticos...
Mas, sabe-se lá, pode ser que venha a ser substituído por um irmão siamês, ou por um primo de outra cor política, que mantenha a representação da espécie, no seu todo.

Entrementes, os patuscos da Sociedade Lusa de Negócios reclamam (em contrapartida desta ansiada renúncia?) uma indemnização pela privatização do BPN, onde o estado já enfiou mais dinheiro, para tapar as suas ilegalidades e incompetências, do que o valor do banco...

Será que não perceberam que, nos tempos mais próximos, nem acerca do BPN nem acerca do Freeport convém aos envolvidos fazerem ondas?
Que, de vez em quando, convém aos que se acham usufrutuários de impunidade por direito natural (ou divino) evitarem esfregar isso na cara dos outros?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

As bombinhas dos meninos

Depois do teste de míssil balístico, há um mês e picos atrás, a Coreia do Norte realizou hoje um teste nuclear subterrâneo.

Infelizmente, se a atitude é algo infantil e serôdia, as preocupações que suscita são bem mais graves do que sugere o título deste post...

Uma prenda póstuma ao João Benárd da Costa

A curta-metragem Arena, do jovem João Salaviza, saiu vencedora doFestival de Cannes.

Talvez, assim, venha a ser projectada nos cinemas cá do burgo.
Ou não.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Lá nos vão roubando os fazedores de memórias...

... frame a frame.

Há dias, Vasco Granja. Hoje, João Benárd da Costa.

Só me apetece protestar «Que merda!»
E mandar um abraço bem apertado à Ana.

domingo, 17 de maio de 2009

Santinhos, espíritos e diversão

Ontem, duas iniciativas se desenrolaram em Lisboa, muito perto uma da outra.

No Terreiro do Paço, muitos milhares de pessoas deram largas à sua legítima mas teologicamente discutível idolatria, acompanhando devotamente uma estátua.
Foi trazida de Fátima, para comemorar os 50 anos de uma outra estátua, em Almada, mandada erguer pelo episcopado português da altura, em evidente declaração de apoio divino a um dos maiores temas propagandísticos do salazarismo: a não participação portuguesa na II Guerra Mundial, atribuída à clarividência e "ratice" de S. Exª o Presidente do Conselho.

Uma estátua que, curiosamente, foi erguida 14 anos depois do fim da tal guerra, numa altura em que a capacidade do salazarismo se auto-propagandear andava pelas ruas da amargura e o país estava cada vez mais óbvia e orgulhosamente só, devido à sua política colonial - que iria levá-lo, 2 anos depois, não a uma mas a 3 guerras, que se arrastariam por 13 anos, em vez de 6.

Uns pormenores que talvez não sejam completamente irrelevantes, mas que não vi serem referidos em nenhum jornal ou televisão.
É normal, suponho. Afinal, somos um país de brandos costumes para com os poderosos, sejam eles indivíduos ou instituições.

Entretanto, 100 metros ao lado, desfilavam as muy pagãs Máscaras Ibéricas, entre a Praça do Município e o Rossio.

Ele eram caretos, chocalheiros, marafonas, gaiteiros, minotauros, ursos e seres de musgo... até mascarados espanhois com evidente inspiração azteca.
Tudo isso dançando, pulando, metendo-se com as pessoas, bebendo os seus canecos no final.
Enfim: o ciclo das festas do solstício de inverno em todo o seu explendor, mesmo que um bom bocado folclorizado.

Confesso que tinha curiosidade de ver as duas iniciativas.
Mas ainda bem que escolhi a do Rossio. Foi, de certeza, mais divertida - e de uma humanidade mais viva.

Mesmo se, por lá, recebi uma má notícia.
O homem mais gentil, simpático e calmo da aldeia de Varge, meu solícito companheiro nas duas vezes que vivi com os caretos a sua Festa dos Rapazes, está preso.

Dizem-me que, perante a estupefação de todos os que o conhecem, deu duas facadas em alguém que (suponho) lhe terá feito alguma coisa que ultrapassava os limites da sua enorme tolerância.

Daqui vai um abraço com muita amizade, Vitorino.

Citações de café (18)

(Esta foi na minha auto-irónica e nem-por-isso-tão-plana terra)

O caracóli... esse animalêjo irrequieto.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Acompanhando a saga dos curandeiros do orgone

Pois é. Tenho andado desaparecido.
Em parte por muito trabalho, em parte porque, quando tenho tempo de me aproximar da net, procuro toda a informação possível acerca de um caso bem peculiar que está em curso em Moçambique:

Recentemente, 4 pessoas de pele clara e nacionalidades diversas foram detidas em Cahora Bassa, a atirarem uns produtos esquisitos e desconhecidos para a água.
Temeu-se primeiro uma sabotagem («Cahora Bassa é nossa!», pelo que certamente os estrangeiros estão invejosos), depois uma tentativa de envenenamento da água.

Mas os homens assumiram-se como "Guerreiros do Orgone", que estariam a mandar à água "orgonite", a fim de contrabalançar as energias negativas vindas da globalização, de produtos da modernidade como os campos electro-magnéticos e outras coisas que tais.
Assim a modos que uns curandeiros new age a efectuarem um ritual de limpeza do país, a fim de assegurarem paz, prosperidade harmoniosa com o universo e etc.

Se vocês se lembram dos neo-freudianismos do Wilhelm Reich e das suas alegadas descobertas, o orgone seria uma "Energia Cósmica Primordial", omnipresente no universo e a que se deveriam, por exemplo, a côr do céu, o insucesso da maioria das revoluções e o orgasmo.

Se esta expedição tendo em vista o resgate da felicidade dos moçambicanos através da purificação do Zambeze já é, por si própria, um bom motivo de curiosidade, estou interessadíssimo na reacção das autoridades, dos meios de comunicação social (sempre gozões para com as crenças e práticas locais que não compreendem) e da população a estes curandeiros 'brancos' cheios de tecnologias modernas e argumentações que procuram usar uma linguagem científica.

Cheira-me que isto ainda vai dar um belo artigo. Para além, claro, de umas belas confusões, antes disso.
Entretanto, se também vos interessar, vão acompanhando as informações que, sempre em cima da hora, o Carlos Serra vai disponibilizando.