segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Rosa e o Laranja

(e etc.)

Nos tempos de Stendhal, jovens provincianos que fossem ambiciosos, chico-espertos e fura-vidas como o protagonista de O Vermelho e o Negro tinham dois caminhos para, espezinhando aqui, traindo ali e sacaneando acolá, tentarem chegar àquilo que considerassem "subir na vida": a carreira militar e a carreira eclesiástica.

Nestes sombrios tempos de classes em vez de ordens, em que a tropa voltou a ter lepra e até a Opus Dei se arma em selectiva, o caminho escolhido pelos modernos gémeos do Julien Sorel é só um, embora com duas vias paralelas (que não obstante, veja-se o nosso primeiro, se podem cruzar antes do infinito): o Rosa e o Laranja.

Se o aspirante a grande homem teve a ventura de nascer periférico, integra desde bem cedo uma juventude partidária governante (mudando se naquela não estiver a dar) e vai treinando as suas potencialidades espezinhadoras, traidoras e sacaneadoras até chegar, com reduzida concorrência, ao pináculo distrital da coisa.
Jovem com horizontes mais largos do que o enriquecimento de clocher, numa Câmara assim como assim já ocupada por algum tubarão de aquário mas com dentes afiados, não faz concorrência a essa fauna. Antes lhe demonstra a sua modéstia e utilidade, acabando por entrar para o parlamento, num dos últimos lugares elegíveis lá do sítio.

Nova liga, novo jogo.
E lá busca este Heroi do Nosso Tempo gémeos cúmplices, contra inevitáveis gémeos inimigos, e algum patrono por conta de quem vá mordendo umas canelas (ou, de preferência, barrigas-da-perna) e calcando alguns cadáveres.
Se o patrono é bem escolhido, há boas hipóteses de que a coisa esteja lançada. E nem foi preciso perder tempo e concentração com essas mariquices dos estudos - que, para os mais formalistas, poderão sempre vir mais tarde a ser feitos, por fax, que dá muito mais jeito.

Entrementes, o capital de influências vai-se alargando e, se não for trucidado antes disso pelos seus semelhantes, a alternância democrática lá lhe abrirá um lugarzinho no governo - e, com um bocado de sorte e dentadas certeiras, sem ter que ser assessor antes de secretário de estado, ou secretário de estado antes de ministro.

A chatice é que essa mesma alternância (ou alguma calinada mais escandalosa) de lá o tirarão e que, normalmente, as capacidades que lá o meteram não chegam para lá voltar.

É galo, mas é a vida.
Resta capitalizar todo esse percurso e conhecimentos (pessoais).
Para os mais megalómanos, à frente de empresas mirambolantes ou com o lucro assegurado por favorecimentos estatais.
Para os mais modestos ou queimados, uns discretos lugares de gestores públicos, assegurados por cavalheirescos adversários ou por solidários correlegionários - que, as mais das vezes, se tornaram difíceis de diferenciar.

Mas há sempre a possibilidade de ter mais olhos que barriga, ou de não ter perdido os hábitos mixurucas dos velhos tempos de ascensão e ribalta.

E lá acaba o pobre Sorel da Merdaleja, apesar de todas as tentativas de adversários-e-correlegionários para olharem noutra direcção, por deixar apodrecer em público a galhinha dos ovos de ouro, ou por ser gravado pela bófia a pedir subornos para mexer uns cordelinhos.



E será que não há por aí nenhum Stendhal disponível, para fazer deste O Rosa e o Laranja um grande romance para as gerações vindouras?

domingo, 1 de novembro de 2009

Previsões de deputados

Já que a esperada vitória de Armando Guebuza é evidente e muitíssimo folgada (desde o primeiro encerramento do escrutínio nacional, dia 29, que apresenta resultados em torno dos 77%), olhemos para o que aproximadamente será o novo parlamento moçambicano.

E, já agora, para o que seria sem a proibição de candidatura do MDM a 9 dos círculos eleitorais.

Os primeiros três valores correspondem aos deputados já eleitos.
Os seguintes correspondem a projecções a partir dos resultados agora conhecidos.
Quanto a estes, deverão ter em conta que nas principais províncias do norte ainda só há de 41 a 55% de mesas apuradas. No entanto, só em Nampula as percentagens têm variado de forma significativa ao longo destes 3 dias, mas sempre em benefício da Renamo.

Excluindo os círculos da emigração (onde habitualmente ganha os 2 deputados), a Frelimo deverá vir a obter cerca de 192 deputados, o que constitui um aumento de 34 e passa a corresponder a mais de 3/4 do parlamento.

A Renamo deverá ficar-se pelos 48 deputados, o que constitui uma quebra de 42 representantes, ou seja, de 46,7% do seu actual grupo parlamentar.

É quase impossível que o MDM venha a eleger, nas duas províncias que lhe sobram, mais alguém para se juntar aos 8 deputados que já assegurou.

Utilizando como base de projecção os resultados presidenciais, o quadro seria sensivelmente diferente (embora não de forma radical) caso o MDM pudesse ter concorrido em todo o país.


A ser assim, o MDM elegeria mais 9 deputados, atingindo um total de 17, retirados tanto à Renamo quanto à Frelimo.
Teria, para além disso, uma bancada bem mais representativa a nível nacional, visto que só não obteria representação em Gaza, Inhambane e Niassa.

Assim, retiraria à Renamo o seu deputado pela província de Maputo, dois pela Zambézia e um por Cabo Delgado, por Nampula, por Tete e por Manica.
Retiraria, por sua vez, à Frelimo um deputado por Nampula e outro pela Zambézia.

Dessa forma, se o affaire CNE não revolucionou os resultados eleitorais, também esteve muito longe de ser irrelevante.

sábado, 31 de outubro de 2009

Moçambique: primeiros resultados definitivos


Os resultados das eleições moçambicanas apurados até hoje (disponíveis aqui, e apresentados no mapa acima, que pode aumentar clicando na imagem) correspondem a 69% das mesas para as legislativas e a 72% das presidenciais.
Integram já 3 círculos eleitorais com dados definitivos.

Se o método de proporcionalidade utilizado é, conforme julgo, semelhante ao português, estão eleitos os seguintes deputados:

Maputo cidade - Frelimo 14; MDM 3; Renamo 1

Sofala - Frelimo 11; MDM 5; Renamo 4

Maputo província (onde a CNE não deixou o MDM concorrer) - Frelimo 15; Renamo 1
Tendo como indicador os resultados das presidenciais, se o MDM tivesse concorrido neste círculo elegeria 1 deputado, em vez da Renamo.

Se os resultados finais em Inhambane e Niassa não foram muito diferentes dos actuais, o MDM não elegerá mais deputados.

Nota de leitura do mapa: em cada círculo eleitoral, as colunas a vermelho correspondem a Guebuza (a cheio) e à Frelimo; as colunas a azul correspondem a Simango (a cheio) e ao MDM, onde este concorreu; as colunas a amarelo correspondem a Dhlakama (a cheio) e à Renamo.

Não havia nexexidade!



Ó meus amigozezeze... Hum!...

Então não bastava uma actualização de recenseamento com problemas técnicos regionalmente selectivos e a exclusão do papão de quase todos os círculos eleitoraizezeze?

Logo agora, no fim do par de dias do programa a que os teleobservadores internacionais puderam assistir, vão fazer um sequéteche destezezeze?

Vão-se pôr a anular votos no tal Simango com dedadas da tal tinta indelével que só vocês têm e com que as pessoas têm de pintalgar o dedo depois de votaremzeze? E com bufos da televisão na sala? E nunca ouviram falar de impressões digitaizezeze?

Não havia nexexidade!

Os chefes é que são bons artistas! Deixem essas coisas pare elezeze!

Não havia nexexidade....

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Primeiros milhos


Ainda são conhecidos poucos resultados das eleições moçambicanas (disponíveis aqui, por cortesia do Carlos Serra): 16% das mesas quanto à votação para o parlamento e 19% quanto às presidenciais.

Também só nas duas maiores cidades e nas duas províncias mais a sul (que, tal como a cidade de Maputo, são as zonas mais fortes da Frelimo) os dados ultrapassam 25% das mesas.

Com todas as reservas que tão poucos dados aconselham, já se justificam alguns comentários.

1 - A esperada vitória da Frelimo e de Armando Guebuza deverá ser bastante substancial. De momento, está em torno dos 75% mas, mesmo com as alterações que irão ser provocadas pelo escrutínio das zonas que lhes são mais adversas, é muito provável que fiquem acima dos 2/3.

2 - Deviz Simango e o MDM estão agora em segundo lugar, mas Dhlakama surge bem mais forte da Zambézia para norte, pelo que (dado o peso eleitoral dessa província e de Nampula, e visto que só aí estão escrutinadas 10,6% das mesas) é provável que a situação se inverta.

3 - Para um partido recente e que só foi autorizado a concorrer em 4 círculos eleitorais, o MDM está a obter um score impressionante: 20% em Maputo, 37% em Sofala e 9% na muito frelimista província de Inhambane (ainda não há dados do Niassa).
Se as actuais tendências se mantiverem, o MDM poderá eleger de 11 a 14 deputados (a que se poderá eventualmente juntar outro pelo Niassa, embora as votações nas províncias limítrofes não lhe sejam nada favoráveis). Ou seja, pode eleger 16 a 22% dos deputados dos círculos onde pôde concorrer.

4 - Ao contrário do que eu esperava (pois os eleitores contavam com a reeleição de Guebuza e apostavam na diferença que os deputados do MDM poderiam fazer no parlamento), Deviz Simango está a ter sistematicamente uma votação mais alta que a do seu partido, nos círculos onde este foi autorizado a concorrer.
Essa diferença é na ordem dos 2 pontos percentuais e parece vir de votantes da Frelimo em Inhambane, de votantes da Renamo em Maputo e de ambos os partidos em Sofala.

5 - Embora existam muito poucos dados do norte do país, Guebuza diminui a sua votação à medida que nos aproximamos do centro, acontecendo o contrário com a votação de Dhlakama e com a vantagem que este obtém sobre Simango.
No centro, Tete mantém-se um baluarte da Frelimo, enquanto Simango esmaga Dhlakama em Sofala e fica a pouca distância em Manica.
No sul frelimista, Simango tem uma votação sistemática e significativamente superior à de Dhlakama.

6 - Simango não conseguiu entrar em força na províncias mais populosas do norte do país. Mas, aí, foi buscar votos tanto à Renamo quanto à Frelimo.
O mesmo acontece aliás em Manica, embora aí já tenha chegado aos 12%.
No sul, os seus resultados vêm de pessoas que votaram Frelimo, excepto em Maputo (cidade e província) onde de novo capitaliza pessoas que votaram em ambos os seus oponentes.

Esperemos, agora, por mais dados.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

News from the Far South

Reflexões Ociosas - 4

É verdade que eu sou novo nesta coisa dos blogs.
Mas, mais de 2 anos depois, continuo sem perceber onde reside o prazer de chamar "filhos-da-puta" e "vómitos" àqueles de quem se discorda, ou que carências vem isso suprir.

Entre a esperança e a incredulidade (back-up)

Passados os seus 5 minutos de fama, aqui reproduzo o texto ontem postado no Arrastão.
Fica acompanhado do respectivo "rabisco" do Pedro Vieira, que muito agradeço.


Moçambique vai hoje às urnas.
Provavelmente, com bastante menos entusiasmo que iria há mês e meio atrás.

A expectativa que então se sentia em Maputo e na Beira era, de facto, justificada.

Desde há 17 anos (com o fim da guerra civil e a substituição de um regime que se considerava socialista pelo multipartidarismo e políticas neo-liberais) que as muitas mudanças ocorridas são sentidas como “mais do mesmo”.

A oligarquia governativa não se alterou, criando algo que nem as mais caricaturais visões de Marx puderam imaginar. O Estado não é «o conselho de administração delegado da burguesia», mas o próprio posto de trabalho dos maiores empresários – que o são porque já ocupavam o poder, e que o ocupavam por terem ajudado a conquistar a independência.

Entretanto, o país tem mais ONGs registadas do que médicos, vive fundamentalmente da recirculação do dinheiro vindo do exterior (através das ONGs ou do Orçamento Geral do Estado, custeado na sua maioria por governos estrangeiros) e é enorme o contraste entre um Maputo com melhor parque automóvel que Lisboa e o resto do país, onde a 20Km de uma vila já não há nada para comprar.

Mas também a capital vive a duas velocidades, entre os restritos salários mais altos que na Europa e a ausência de empregos – que, a existirem, podem pagar entre 25 e 50 euros.
Nos bairros populares, a maioria das famílias contam com alguém que revende, na rua, alguma coisa às restantes.

Contudo, o desagrado popular com uma elite político-económica que «come sozinha» e «não liga às nossas necessidades» não tem encontrado alternativas.

O peso parlamentar da Renamo foi-se paulatinamente erodindo ao longo das sucessivas eleições, em grande medida por não ser vista como alternativa a um governo de direita com retórica popular.
Mas também por insistir num discurso agressivo, violento e revanchista, que desperta receios e memórias urbanas das barbáries da guerra civil que a opôs à Frelimo e que toda a gente quer sepultar no passado.

O sentimento popular (e dos políticos) de que ficaria sempre tudo na mesma foi, no entanto, abalado nas últimas eleições autárquicas.
A reeleição de Deviz Simango – presidente do município da Beira que transformou uma das cidades mais sujas de África na mais limpa do país – foi vetada pela direcção da Renamo, devido a queixas de notáveis partidários locais, por ele lhes recusar favorecimentos ilegais. Recandidatou-se como independente e reforçou muito o seu resultado, também à custa de 17% das pessoas que votaram Frelimo para a Assembleia Municipal.

Foi, para o cidadão comum, a Frelimo e a Renamo, a descoberta de que os votantes não são propriedade dos partidos e de que não há baluartes eleitorais eternos.

Desta dinâmica local veio a nascer um novo partido (MDM), que despertou um inusitado entusiasmo quer na frelimista Maputo (sobretudo entre os menos idosos e as classes médias emergentes), quer nas renamistas zonas rurais do centro do país.
Mais curiosa ainda é a generalizada simpatia nas zonas pobres das cidades, mesmo entre os velhos votantes dos partidos tradicionais e que neles continuarão a votar.

O que está em causa não são grandes opções ideológicas – que talvez o próprio MDM não tenha.
O conciliador e pacífico discurso de Deviz Simango centra-se na honestidade, na competência e na distribuição mais justa (em termos sociais e regionais) do dinheiro e meios que entram no país.
Mas é isso que as pessoas querem ouvir.
E é isso que não acreditariam, se fosse outra pessoa a dizer.

Com tudo isto, o MDM representou até há bom pouco a esperança real de uma alternativa àquilo que de mais desagradável as pessoas encontravam no governo e na oposição.

Entretanto, a actualização do recenseamento encontrou, nas zonas centro-norte, sistemáticas dificuldades técnicas a que foi poupado nas mais fortes zonas da Frelimo.
Em seguida, a CNE excluiu o MDM de 9 dos 13 círculos eleitorais, num processo de contornos obscuros que suscitou queixas judiciais de extravio de documentos de legalização das candidaturas…

Há dois meses, discutia-se em Maputo a possibilidade bem real de que, roubando votos a ambos os lados, o MDM retirasse à Frelimo a maioria absoluta, forçando-a pela primeira vez a negociar a governação e revolucionando a vida política do país.

Hoje em dia, sem que a esperança colocada num futuro mais longínquo pareça ter esmorecido, discute-se se a Frelimo não conseguirá os 2/3 que lhe permitiriam alterar sozinha a Constituição.


PS: um bom local para ir sabendo dados do escrutínio é aqui.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

É a glória bloguística!

Apenas por hoje, o Antropocoiso mudou-se para o Arrastão.

Conforme imaginam, tendo em conta o dia, a coisa tem a ver com as eleições moçambicanas.

O meu «obrigado» pelo convite e, já agora, dêem uma voltinha pelos posts dos donos da casa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O poder dos desabafos

Há dois efeitos muito interessantes das declarações de José Saramago sobre o Antigo Testamento:

1 - A igreja católica sentiu a necessidade de lançar os seus melhores cérebros para expor nos jornais as suas mais elaboradas exegeses acerca de temas como (pasme-se) a relação do discurso religioso com a violência.

2 - Descobrimos que, de repente, toda a gente leu atentamente a Bíblia, com destaque para os comentadores ateus. E (nos últimos dias) que todos conheciam de gingeira o Cântico dos Cânticos - que parece ter vindo ocupar, assim, o espaço e importância erótica que o canto da Ilha dos Amores desempenhava para os adolescentes da geração dos nossos pais. Qualquer dia, pode ser que alguém até saiba a que personagens está ligada essa bela peça literária.

É um facto. Os desabafos de algumas (poucas) pessoas têm um poder extraordinário.

domingo, 25 de outubro de 2009

Quando piso em folhas secas...

Dei comigo a debater com a minha senhora, softly & kindly mas às duas da manhã, se a mangueira que plantei num vaso (e que, portanto, virá eventualmente a ser uma árvore que dá mangas, e não um tubo de plástico com um buraco no meio, de onde esguicha água) deveria continuar a viver na varanda ou, tendo em conta o frio que se anuncia, dar abrigo dentro de casa às suas 8 soberbas folhas, mais as 3 despontantes.

De certa e perversa forma, não deixa de ser tranquilizante que questões como esta mereçam ser faladas.

sábado, 24 de outubro de 2009

Coisas que a gente diz

A pedido de um jornalista do Público, comentei da forma que se segue as expectativas em relação às eleições moçambicanas e à eventual erosão eleitoral da Renamo.

Alguém quer comentar? Acrescentar? Rebater? Insultar?

«A grande incógnita, quanto ao desgaste eleitoral da Renamo mas também da Frelimo, é o MDM de Deviz Simango.
É impressionante o apoio que suscitou quer em Sofala, zona forte da Renamo, quer nos jovens e classes médias emergentes do grande Maputo.

Mas, mesmo nas pessoas mais velhas das camadas pobres que continuarão a votar nos seus partidos de sempre, desperta simpatia o seu discurso sem agressividade, baseado na honestidade, competência, diálogo e distribuição mais justa dos recursos que inundam o país.
Toca, afinal, o que desagrada às pessoas nos dois partidos habituais, mas para que não viam alternativa: uma governação que lhes parece arrogante, predatória e desigual, e uma oposição que lhes parece agressiva e inconsequente.

O desgaste de ambos será, contudo, minimizado pela polémica exclusão, pela CNE, do MDM em quase ¾ dos círculos eleitorais.
Se antes disso fazia sentido discutir o possível fim da maioria absoluta da Frelimo, hoje discute-se se (sobretudo após uma também muito polémica actualização dos cadernos eleitorais) ela não conseguirá a maioria de 2/3 que lhe permitiria mudar sozinha a Constituição.»

(na foto, o meu "sobrinho" De Wilde)

Mass murder

3 grandes cantores e uma óptima banda assassinados por um técnico de som, ontem, no Campo Pequeno.

Ou, como a certa altura gritou uma senhora perto de mim, «O som está uma merda!»

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O regresso do pangolim

Ora aqui está, directamente chegada do blog do Carlos Serra, a prova de que o MDM de Deviz Simango é um partido verdadeiramente popular, e não uma elocubração de intelectuais urbanos!

Note-se entretanto que o Régulo Luís, no centro da notícia, é uma personagem de enorme influência popular e importância política no centro de Moçambique.
E que certas figuras públicas têm que fazer as suas declarações de apoio político de forma ambígua, mas claramente compreensível pelos seus destinatários.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O que um homem não tem que fazer para ganhar a vidinha...



Bem menos sábio e experiente a lidar com evidências desagradáveis do que a velha igreja católica, o eurodeputado Mário David, eleito pelo PSD, pediu a José Saramago que se auto-excumungasse de membro da nação portuguesa, por ter «vergonha de o ter como compatriota».

Mas, depois de ler, sobreveio-me um ataque de caridade cristã.
O que um homem não tem que fazer para ganhar a vidinha!...

Assim, até perdi a vontade de pedir ao sr. eurodeputado que fizesse isso mesmo, pelas mesmíssimas razões.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

E não é que o homem é capaz de ter razão?

Imaginem que, algures no último milénio e até há uns 50 anos atrás, alguém escrevia um livro onde, entre outras peripécias picarescas:

- Um respeitado chefe de família e de comunidade tivesse o hábito de copular com a criada em cima da barriga da esposa;

- A nora de outro respeitado chefe de família e comunidade, a quem o marido não queria engravidar, se vestisse de prostituta e engatasse o sogro, saído em viagem de negócios;

- Uma cidade fosse destruída por um cataclismo de que só se salvava a família do único homem justo, sendo que a esposa dele (que durante décadas resistira ao deboche generalizado) era morta por a sua curiosidade a fazer olhar para trás, enquanto as filhas o embriagavam e violavam repetidamente, para que as engravidasse?

- A nação heroína do livro conquistasse uma cidade, massacrasse todos homens enquanto estavam acamados e escravizasse todas as mulheres, por ter conseguido convencer o rei local a casar-se com a sua princesa, o que obrigava a que ele e todos os seus fossem circuncisados;

- Os príncipes dessa nação vendessem um irmão como escravo, por inveja, e convencessem o choroso pai de que ele tinha sido comido por animais ferozes;

- O senhor da primeira peripécia decidisse degolar o filho, por andar a ouvir vozes.

O que teria acontecido ao livro e ao seu autor?

Será que alguém diria dele que era "um manual de maus costumes e um catálogo do pior da natureza humana"?
Será que alguém diria, como o tal juíz norte-americano, que "reconhece a pornografia quando a vê"?

Vem isto, claro, a propósito da polémica acerca das polémicas palavras de José Saramago, no lançamento do seu novo livro Caím.

(aqui, aqui, aqui ...)

sábado, 17 de outubro de 2009

As extraordinárias eleições em Moçambique


Na véspera das eleições moçambicanas, este ano marcadas por muitas polémicas e um novo partido que ameaça quebrar a rotina da bipolaridade (sim... também nesse sentido) Frelimo/Renamo, vi finalmente hoje um artigo sobre o assunto num jornal português.

É claro que a minha atenção àquilo que se vai passando em Moçambique é uns milhões de vezes maior do que a daquele senhor mítico a que se chama "português médio".
Mas, mesmo assim, espanta-me este desinteresse mediático, tendo em conta o espaço dos PALOP nos nossos afectos e imaginário - ou, quanto mais não fosse, o facto de Portugal ser um dos países que, a partir dos impostos dos seus cidadãos, pagam quase 2/3 do Orçamento Geral do Estado moçambicano...

Dado este silêncio, talvez tenham interesse em saber que, daqui a uns 10 dias, vão haver eleições para o Presidente da República, para o Parlamento e para os novos orgãos de governação intermédia, as Assembleias Provinciais.

Para além dos inefáveis Frelimo, Renamo, Guebuza e Dlhakama, a grande novidade é a candidatura de Deviz Simango (cuja vitória no município da Beira, como independente, foi um autêntico terramoto político para o status quo - ver aqui e aqui) e do seu novo partido MDM que, com uma imagem de honestidade e um discurso completamente novos, suscitou uma onda de interesse e simpatia - sobretudo nas cidades, entre os jovens e nas zonas rurais do centro do país - provocando um enorme nervosismo nos dois partidos instalados. (aqui)

Simango foi objecto de um ataque a tiro por parte da Renamo (aqui) e de ataques a sedes (aqui) e cenas escabrosas organizadas pela Frelimo. (aqui)

Mas aquilo que parece ter sido mais escabroso foi a exclusão, pala CNE, das listas do MDM para 9 dos 13 círculos eleitorais, devido a supostamente não ter sido entregue alguma documentação relativa a vários candidatos e suplentes. (aqui e aqui)
Uma exclusão que foi objecto de uma reclamação ao Conselho Constitucional (aqui), que não lhe deu provimento porque, acusam os queixosos, decidiu com base em processos enviados pela CNE de que teria sido extraviada parte dos documentos entregues. Disso mesmo foi feita queixa-crime à Procuradoria-Geral da República... (aqui)

Já antes tinha levantado celeuma o facto de a actualização do recenseamento eleitoral ter sido feita com material informático adjudicado a uma empresa de transportes, que só disponibilizou técnicos para repararem as frequentes avarias quando estas se verificavam a sul do rio Save, na zona de maior implantação da Frelimo. (aqui)

Com isto tudo, a Frelimo parece ter afastado o espectro de perder a maioria absoluta (por crescimento do MDM à conta dos dois maiores partidos) e de ter que passar a, pela primeira vez na história, negociar e tomar em conta as posições e opiniões da oposição.
Há mesmo quem pense que, afinal, conseguiu criar as condições para ter 2/3 no Parlamento e poder mudar, sozinha, a Constituição.

Embora Moçambique seja a única coisa que o BM, o FMI e a indústria de cooperação podem apresentar como suposto bom exemplo (pelo que as consequências não devem vir a ser muitas), estas eleições estão já feridas de enormes dúvidas quanto à sua transparência e justeza.

Mas, mesmo assim, tudo isto tem um certo interesse noticioso, ou será que não?
Sugiro que acompanhem os desenvolvimentos através do blog de Carlos Serra.

Adenda: Com essa mesma origem, está disponível aqui um dossier das notícias eleitorais do jornal Savana. Muito interessante, mesmo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Maitê d'Arc

(cartoon de António Jorge Gonçalves, no Inimigo Público)

De facto, já não há pachorra para tanta indignação com tão transcendente assunto.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O homem superou-se

O Futebol Clube do Porto conseguiu golear esta noite o Adicense, qualificando-se para o play-off de acesso ao Campeonato Nacional de Futebol após uma suada fase de apuramento, face a gigantes como o Campomaiorense ou a Académica.

Questionado acerca dos possíveis adversários nesta nova fase (o Olivais e Moscavide, o Lusitano de Évora, o Esperança de Lagos e o Grupo Excorsionista Amigos do Tinto), o treinador estremeceu e respondeu filosoficamente: «Agora, venha o diabo e escolha!».

Para compreender Moçambique, com muito prazer

Eu bem sei que pareço um vendedor de enciclopédias, mas não resisto a armar-me em serviço público e divulgar sumariamente, a quem não conhece, a anterior obra literária do João Paulo Borges Coelho, meu escritor moçambicano favorito (desculpem lá, fãs do Mia Couto e da Paulina Chiziane...).

As Duas Sombras do Rio (2003)
O meu preferido, ainda.
A guerra civil contada no Zambeze, junto à fronteira do país e por sobre a água que separa as terras do "povo da cobra" e do "povo do leão".
Quando para se ser historiador se tem que fazer trabalho de antropólogo, e se sabe contar e escrever muitíssimo bem, o resultado é este.

As visitas do Dr. Valdez (2004)
A reconfiguração pós-independência da vida e da memória, vista do crepúsculo de duas irmãs, amenizado pelas visitas que faz a uma delas, já senil, o falecido Dr. Valdez, protagonizado pelo jovem criado que cresceu na casa.
Recebeu o Prémio Craveirinha.

Índicos Indícios (2005)
Dois volumes de contos (Setentrião e Meridião) que acompanham a costa moçambicana de norte a sul. Para lá do interesse de cada conto e das personagens por vezes fascinantes e nunca maniqueístas, juntos mostram a rica diversidade do país.
Mais uma bela obra de histório-antropo-escritor.

Crónica da Rua 513.2 (2006)
Outro dos meus mais favoritos, apesar de haver quem ache lá a mais a presença de fantasmas e espíritos não metafóricos. A debandada portuguesa, a fase de transição e o imediato pós-independência, no espaço sempre público de uma rua apontada à baía de Maputo e de onde as famílias de pescadores a as peles mais escuras tinham estado excluídas.

Campo de Trânsito (2007)
Um livro corajoso mas que se obrigou a ser, por vezes, alegórico, acerca de um trauma colectivo que apenas os posteriores horrores da guerra civil permitiram secundarizar: os campos de reeducação.
É o único dos seus livros em que alguns diálogos apresentam uma característica muito comum na literatura africana em língua portuguesa: inverossimilhança. Mas neste caso, não por falta de perícia do autor, mas como instrumento da aura alegórica pretendida.

Hinyambaan (2008)
Um irónico relato da viagem de férias de uma família sul-africana, em demanda de Inhambane através do sul de Moçambique actual, com peripécias hilariantes, piscares de olhos ao quotidiano do país e visitas inesperadas.
É o mais leve dos seus livros (até pelo tema) e não sei se terá a mesma piada para quem não conheça Moçambique e os sul-africanos boeres, quando dão por si fora de água. Eu diverti-me imenso.

Esperemos, agora, pelo "Olho de Herzog"...