quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
A liberdade está na continha
Na mesma altura em que a Comissão Europeia aprovou à pressa um acordo com os EUA acerca da devassa de todas as transferências interbancárias realizadas através do dominante sistema SWIFT (coisa que, aliás, eles já andavam a fazer sem dar cavaco a ninguém), o PS e o CDS opõem-se ao levantamento do sigilo bancário para combate à corrupção e, já agora, a essa ideia estrambólica de considerar criminoso o enriquecimento ilícito.
Entretanto, o PSD não se opõe a esta última coisa, mas lá o sigilo em relação às continhas é que já não.
Num país em que se fazem escutas como quem bebe copos de água e em que todos os cidadãos têm que declarar regularmente os seus rendimentos (que portanto são conhecidos das autoridades, a não ser que andem a esconder ilicitamente alguma coisa), fico emocionado com tanto empenho em defesa da privacidade e das liberdades.
O que me custa a perceber são as prioridades e a lógica de quem assim as defende.
Mas eles terão certamente óptimas razões para manter esse espaço de opacidade financeira.
Elas é que escapam a um rapaz crédulo e bem intencionado como eu.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Nwahulwana
O Toix descobriu no YouTube uma das canções mais generalizadamente apreciadas em Moçambique.
Deliciem-se vocês também:
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Estão-se a estragar
Ou conheço mesmo pouquíssimos, ou os nostálgicos do "orgulhosamente sós" já não são o que eram.
A boca para a verdade
Acontecimentos de importância mais ou menos equivalente, conforme inadvertidamente veio lembrar Durão Barroso, ao afirmar que «os tratados são importantes, mas só por si não chegam, nada substitui a liderança».
A ser assim, ele e o senhor da foto (a quem o Público se refere como «o homem de óculos» e cujo nome talvez um dia eu venha a fixar) mostram a importância que atribuem ao Tratado aqueles que o assinaram.
sábado, 28 de novembro de 2009
Quando um homem dorme na valeta...
Hoje foi, simultaneamente, o Dia Sem Compras e o início da habitual campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, para recolha de produtos nos supermercados.
Mais de que uma coincidência, acaba por ser uma desconfortável metáfora de um modelo de sociedade que faz ombrear a fome com o estímulo ao consumo excessivo e desnecessário, ainda encarando isso com naturalidade.
E quando escrevo «excessivo e desnecessário», não penso apenas nos sempre discutíveis e mutáveis critérios éticos (que nem por o serem se tornam menos importantes), mas também no mais elementar bom-senso acerca da sua sustentabilidade energética, hídrica, sanitária e ecológica.
Cruzaram-se hoje nos títulos dos jornais - tal como todos os dias se cruzam à nossa volta, de forma subreptícia e inquestionada - a maior capacidade de produção e consumo (incluindo de muito lixo) da história humana, a aparência da promessa de riquezas sem limite, e a naturalidade e rapidez com que se condenam à exclusão e fome massas de serem humanos, no próprio centro dessa abastança.
Sem sequer precisarmos de olhar para o lado para não vermos. Porque essas pessoas (que facilmente poderíamos e poderemos ser nós próprios) se nos tornam invisíveis.
No percurso dos seres humanos pela terra, houve e há comunidades inteiras a morrerem de fome devido a catástrofes naturais e/ou asneiras humanas.
Houve e há desigualdades capazes de lançar na morte partes de sociedades, em alturas de particular escassez.
Mas até os senhores de escravos os alimentavam de acordo com o humanamente necessário, desde que houvesse comida.
E não conheço antecedentes históricos, fora do quadro do capitalismo, para a paulatina fome de parte da comunidade, em tempos de abastança.
Nem antecedentes, com crises ou sem elas, para tanta abastança.
Tenho para mim que impedir a fome, havendo comida, é uma responsabilidade do Estado. Mas não o faz. E a fome existe.
Tenho também para mim que, no quadro societal em que vivemos, a caridade cara-a-cara é degradante para quem a dá e para quem a recebe. Mas é de solidariedade e de decência humana que se trata. E a fome existe.
Um mundo diferente só pode ser possível. Mas temos muito que andar e que fazer. E a fome existe. Hoje.
A meia dúzia de coisas e de euros que nos permitem encher o saco que entregamos ao Banco Alimentar não mudam o mundo. Não mudam sequer a vida de quem tem fome. Mas permitem a alguns comer.
Penso que vale a pena.
Desde que não nos sintamos, com isso, aliviados.
Desde que isso também contribua um pouco para que essas pessoas deixem de ser invisíveis aos nossos olhos. Não como situações, mas como pessoas.
E, já agora, desde que isso nos lembre de quando era inaceitável e insultuoso, para cada um(a) de nós, que um outro ser humano dormisse na valeta.
Pois a naturalização da valeta, da caixa de cartão, da fome, não é apenas uma mutilação de quem somos.
É, também, uma condição para que tudo assim continue.
Tinha marcação na manicura
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Um Amor Colonial (para o Natal?)
Desta vez, acredito e posso afiançar-vos, porque o estou a ver e a apalpar, com estes olhos e mãos que (dizia a minha avózinha) a terra há-de comer.
Ainda existem umas coisitas a resolver, pois os exemplares vieram acompanhados de uma minuta de contrato inaceitável.
Se, por esse lado, tudo correr a contento de ambas as partes, o lançamento será ainda na primeira quinzena de Dezembro.
Darei notícias.
Citações de café (20)
Estão tão entusiasmados com a viagem, a cerveja e a sofrível música ao vivo que perdem o avião.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Estou a ficar velho
E isto, em dois sentidos.
No mais habitualmente usado de final do PREC e num outro: o do rápido emprateleiramento dos que tinham saído à rua em 25 de Abril do ano anterior ou tinham preparado a coisa, fossem agora vencedores ou vencidos.
Dos 3 mais mediáticos vencedores, garbosos militares da foto, aquele que comandou o 25 de Novembro (e já tinha sido figura central na preparação do 25 de Abril) levou um chuto logo que possível.
O seu lugar-tenente operacional (que se tinha mantido cuidadosamente à parte do Movimento dos Capitães) virou Presidente da República.
O operacional que deu mais nas vistas (contrastando com o 25 de Abril, em que tinha assumido responsabilidades mas arranjou uma série de desculpas para não sair do quartel) tornou-se o único militar português a virar general depois de reformado.
Como me dizia, há anos atrás, um saliente e também ele mediático vencido de Novembro, «Não é o 25 de Novembro que eles não nos perdoam. O que eles não nos perdoam é termos feito o 25 de Abril.»
É assim até hoje.
E isso, enquanto cidadão português, é que não posso aceitar.
É algo de profundamente obsceno. Quer se celebre ou se chore o que aconteceu há 34 anos.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Back from New Orleans
As notas de reportagem ficam, por isso, para amanhã ou depois.
Por agora, esta foto junto ao Mississipi e estas outras no Antropovistas.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Acumulação de capital na África austral
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Tintada eleitoral
O método de chapelada eleitoral observado por jornalistas televisivos na cidade da Beira teve, segundo se tem constatado na revisão de votos lançados como nulos pelas respectivas mesas, uma abrangência regional e um peso quantitativo bastante maiores do que se supunha.
A título de exemplo, só na cidade de Maputo, Deviz Simango terá visto 6.000 votos fraudulentamente anulados através do esquema da dedada de tinta colocada por membros da mesa durante a contagem dos votos.
Afonso Dhlakama ia, ontem com 22.000 votos "dedados" e a Renamo com 23.000, dos quais 17.000 só na província de Manica - o que, a brincar a brincar, lhes estava a dar menos 1 deputado, em benefício da Frelimo.
De onde se conclui:
1 - Não vale a pena estar a fazer já uma análise precisa e fina dos resultados eleitorais. É mais económico esperar pelo fim das surpresas - de que, para já, resultou a alteração dos deputados eleitos por dois partidos.
2 - Mesmo não tendo dependido disso a vitória folgadíssima da Frelimo e de Armando Guebuza, torna-se evidente a existência de uma acção partidária concertada, a nível nacional, de acções de fraude eleitoral.
3 - Juntando à "dedação" (em zonas menos favoráveis) as mesas eleitorais com quase ou mesmo com mais (!) de 100% de votantes (em Gaza e Tete), e juntando-lhes ainda as polémicas actualização do recenseamento e exclusão de listas do MDM, o quadro é muito preocupante. Sobretudo depois do Zimbabwe e das reacções que esse processo mereceu, entre outros, em Moçambique.
Desta vez não. Mas... e se/quando a Frelimo enfrentar, no futuro, um risco real de perder o poder? Como será?
4 - Pelo menos com jornalistas e delegados dos partidos à sua volta, assistindo ao processo, a CNE pode ser um efectivo instrumento de controlo da legalidade democrática e de correcção das chapeladas mais evidentes.
5 - Depois do verbo "rombar", Moçambique parece estar a caminho de encontrar a sua própria palavra, pera substituir essa portuguezisse da chapelada eleitorar.
A dúvida será entre "tintada" e "dedada".
Adenda: segundo informação do Carlos Serra que, infelizmente, tive oportunidade de confirmar, a notícia para onde remete o segundo link deste post foi removida ao início da noite do site do jornal "País".
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Coisas simples que contam muito
«Mesmo que as coisas não melhorem como as pessoas gostavam, está-se em paz e consegue-se ir vivendo, e isso é valorizado.»
Não é, de facto, o tipo de questão que um jornal costume destacar, de entre as muitas outras sobre tácticas partidárias e estatais, mensagem política, usos de meios, and so on.
Mas depois percebi - ou, pelo menos, julgo ter percebido.
Aquela frase foi escolhida exactamente por sair fora do trivial analítico em que quase sempre se esgotam as declarações feitas nestas circunstâncias.
Foi escolhida por chamar a atenção para um factor que julgo ser fulcral, mas que não é equacionado, por não fazer parte do "manual do comentador".
Por ser algo a que, independentemente da sua importância bem real, só daria atenção um antropólogo praticante que se tivesse vindo a aperceber dessa relevância ao longo da sua convivência corrente com as pessoas.
E muito agradeço ao João Manuel Rocha (o jornalista em causa), por me ter feito lembrar essa coisa simples e essencial acerca da minha profissão.
Liberdade e movimento
Acrescento eu que o segundo dever de um revolucionário é, vitorioso, grantir a liberdade e assegurar-se que existem condições efectivas de oposição ao seu poder.
Voltei a lembrar-me disto há dois dias atrás.
E volto a lembrar-me hoje.
sábado, 7 de novembro de 2009
Mistérios da memória
É curioso.
Estive hoje num debate em que pelo menos 1/3 dos presentes eram ex-comunistas, ou pessoas que ainda reivindicarão esse título, sem qualquer prefixo.
Ninguém se lembrou desse facto ou, pelo menos, o referiu.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Rampa para crocodilos
"Estado" escreve-se com "F". "Rádio" também
É pena não se conseguirem copiar as imagens, para vos poder mostrar.
Assim, têm que clicar para o site da Rádio Moçambique.
É, já agora, o único meio de comunicação que chega realmente à generalidade da população e é estatal - sendo, portanto, paga pelos poucos contribuintes moçambicanos e pelos dos países que financiam o Orçamento de Estado local.
Lá chegados, verão, no canto superior esquerdo logo abaixo do cabeçalho, uma sucessão de 5 bonitas fotos.
Como descrevê-las?
Não é fácil, mas tentemos.
A primeira é uma visão de conjunto de garbosos jovens com um ar simpático e determinado, empunhando cartazes de um dos partidos concorrentes às eleições parlamentares e provinciais. É, suponho que por acaso, a Frelimo.
A segunda é um ajuntamento de gente alegre, vitoriando um senhor sorridente que entre eles avança, um par de passos à frente da esposa, como deve ser. Também suponho que por acaso, esse senhor é um concorrente às eleições presidenciais, para além de Presidente da República e da Frelimo. Para quem não conheça, chama-se Armando Guebuza.
A terceira foto é um muito belo friso de mulheres sentadas num plano elevado, todas elas com vestes muçulmanas de um lindo tom de azul. Talvez por distração de quem assim quiz mostrar a diversidade do país, o tal plano elevado está debruado com duas filas de cartazes alternados, dizendo uns deles "Vota Frelimo" e os outros "Vota Armando Emílio Guebuza".
Segue-se a já clássica foto de mulheres Macua com o seu branco produto de beleza facial, belas e sorridentes como sempre. Por um qualquer acidente, apresentam os lenços de cabeça adornados com grandes autocolantes da Frelimo.
Por fim, a sempre necessária foto de uma bela e rechunchuda bébé. Infelizmente, não se lhe vê parte da cara, que calhou estar tapada por um panamá com um enorme autocolante. Não é que isso interesse, mas diz "A Frelimo é que fez, a Frelimo é que faz".
É belo e instrutivo.
Lembra-nos que "Estado" se escreve com "F".
E que "Rádio" também.
Não havia, mesmo mesmo, nexexidade
Conforme refere o autor da notícia, quando a anulação a posteriori de votos é feita com dedadas de tinta, provar o que aconteceu (e que será crime) está a cargo da Polícia de Investigação Criminal, «se o desejar e se lhe for permitido».
Estamos, então, perante um jornalista que conhece a genial máxima política que uma vez ouvi a um meu conhecido do Xipamanine: «Na democracia, posso dizer o que quero, mas ninguém liga ao que eu digo.»















