... mas a natureza parece bem que sim.
5 anos depois, há de novo uma pomba a chocar ovos num vaso para sementes homeless da minha senhora.
Blog de Paulo Granjo
Foi feita justiça!
Um perigoso meliante, desses que andavam a desencaminhar criancinhas com subversivas explicações escolares em propriedade camarária abandonada e abusivamente utilizada, foi condenado a 5 meses de prisão, com pena suspensa, por agressão à autoridade.
A história conta-se depressa, com a ajuda as provas incriminatórias disponíveis numa reportagem fotográfica do JN:
Já não nos bastavam o diktat da grande finança por interposta troika, o desemprego, a precarização, a fome, os cortes nos salários, o roubo dos subsídios, o trabalho à borla, o rasgar do contrato social, os abusos de poder, a paranoia securitária, a esquerda sem diálogo e os governamentais conselhos para emigrarmos e para encararmos o desemprego como "uma oportunidade".
Já não nos bastava tudo isso, ainda tinham alguns dos melhores de entre nós que desaparecer a um ritmo assustador!
(técnicas de despejo, ou "como eu gosto de molhar a sopa" - foto JN)
Conforme será evidente para qualquer observador, o despejo da Es.Col.A da Fontinha pouco tem a ver com uma mera questão legal acerca de propriedade e uso de espaços públicos.(imediata destruição de equipamentos e propriedade alheia)
Quando olhamos para esta actuação policial e municipal, para o actual aumento da frequência e violência de rusgas em bairros pobres, para os relatórios das direcções do SIS e da PSP que fazem doutrina e são cuidadosamente escoados para os jornais, para o uso extensivo de agentes infiltrados na manifestação do M15O na penúltima Greve Geral e a repressão do seu desfile na última, tudo indica que existe um padrão geral e que aquilo que está em causa é mais vasto.Pela voz de uma personagem de meia-maratonista, a Ana Bola acaba de criar, no "Estado de Graça", a frase-mestra para o governo e para quem mais, à direita ou à esquerda, a carapuça sirva: «Eu não estou perdido. Eu não sei é onde é que estou.»
É isso que se conclui da 1ª página do semanário Expresso de hoje, publicado dois dias depois da dita cuja.
Quando ontem cheguei ao Rossio, atrasado pelo almoço familiar que se atrasou pelo meu atraso num piquete de greve, o desfile já tinha começado a andar.
No final, esperando para seguir, estavam uns panos sobre precariedade, que vim bem mais tarde a saber pertencerem aos Precários Inflexíveis.
Precário que sou (embora a prazo relativamente longo, pelo menos até ver), passou-me pela cabeça e pela fala arrastar a família até ali. Mas, como nenhum de nós gosta de fechar manifs, depressa decidimos ir andando ao nosso ritmo, atravessando os vários grupos que fossemos encontrando ao longo do habitual pára-arranca manifestacional.
O primeiro desses grupos estava todo com coletes da greve, e comecei logo ali a partilhar cumprimentos com pessoal conhecido, incluindo um abraço mais efusivo a um amigo de longa data, a quem muitas cumplicidades me unem. Um daqueles tipos franzinos e entradotes, mas que gostamos de ter ao nosso lado se nos virmos em apuros.
Muito percurso e cumprimentos depois, lá entrámos no largo da Assembleia, já na cabeça da manif.
Cansados, fomos beber um cafézinho (actividade discutível em dia de greve, bem sei...) para criarmos a sensação de recuperarmos forças.
De regresso à molhada, vimos que houvera um sururu, já acalmado.
Segundo a irónica resposta de um colega a quem perguntei o que se passara, tinham sido «divergências ideológicas, os trolhas a dar porrada nos artistas». Outro, já num registo sarcástico, acrescentou que era «a luta de classes».
Percebi, por fim, que o simpático grupo onde se encontrava aquele amigo de longa data, ao lado de quem estarei no primeiro aperto que nos aperte - e que eram, afinal, parte da segurança oficiosa do acontecimento - tinha agredido pessoal do grupo que, integrado na manif, os seguia desde o Rossio, para que os seus panos não entrassem no largo.
Fiquei a saber que, caso eu e a minha família não tivéssemos preferido ir noutro sítio que não a cauda da manif, podia bem ter levado um enxerto de porrada do meu velho amigo. Ou não o ter levado, simples e exclusivamente, por sermos amigos desde há muito.
Há qualquer coisa que não bate certo nesta história, não é?
E não me parece que o que não bate certo seja eu.
(foto Hugo Correia, Reuters)
Ao que tudo indica, a brutal e repetida agressão policial à foto-jornalista Patrícia Melo Moreira, cuja imagem já correu mundo, não foi um aleatório resultado de uma situação de confusão.
Foi deliberada e direccionada, conforme se verifica neste video, em que se vê o agente em causa dar três súbitos passos em direcção a ela, agredi-la com o bastão e recuar - antes de, segundo declarações da própria às televisões, lhe voltar a bater várias vezes quando se tentou levantar do chão.
E ocorreu imediatamente depois de ela tirar esta foto:
(foto Patrícia Melo Moreira, AFP)
Toda a carga policial parece ter sido ilegítima (e, consequentemente, um ilegal abuso de poder, mesmo em relação às normas de actuação das forças policiais, em ocasiões similares), já que não basta para tal o arremesso de ovos a bancos ou algum insulto à mãezinha deste ou daquele agente, que não há testemunho de qualquer arremesso de objectos às forças policiais antes de ela ocorrer e que, conforme as fotos publicadas pelo El País mostram, as esplanadas estão intactas - e até com turistas, que levantam as mãos como num filme do far west.
No entanto, a agressão brutal, repetida, deliberada e direccionada a uma jornalista enquanto fotografa a actuação policial é de um tipo de gravidade ainda mais sério.
Entre isso e um soldado que dispara sobre um jornalista que cobre a sua actuação em teatro de guerra, a diferença está na arma de que dispõe e nos danos que esta é capaz de causar; não na motivação e intenção do acto.
Que sejam tiradas desse facto as necessárias consequências. Criminais e quanto à selecção, formação, direcção no terreno e orientação política da actuação de tais forças policiais.
E que, enquanto cidadãos, não deixemos que tal não aconteça.