sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Machado da Graça fala de uma estranha paz


Não costumo afixar por aqui escritos alheios. 
Mas, na sua habitual e irónica acutilância, este texto do jornalista moçambicano Machado da Graça bem justifica uma excepção.

«Espero que estejas de saúde. Do meu lado está tudo bem, felizmente.
E, aparentemente, o nosso país também está bem. Pelo menos a avaliar pelas declarações dos nossos principais dirigentes que, dia sim, dia sim, nos garantem que o país está em paz e sossego. E quem somos nós para duvidar dessas declarações?
No entanto, temos que reconhecer que a nossa paz tem características muito bizarras:
É uma paz em que a principal estrada do país, numa extensão considerável, só pode ser feita com escolta militar. E, mesmo com escolta, por vezes as viaturas são atacadas por homens armados que ninguém reconhece como seus.
É uma paz em que numerosas forças milita­res e policiais, com o uso de artilharia pesada, atacam e destroem locais onde vivem outros moçambicanos, igualmente armados.
É uma paz em que somas significativas são gastas na compra de todo o tipo de armamen­to, incluindo aviões de guerra, para um país que não tem conflitos com nenhum dos seus vizinhos.
É uma paz em que, até onde sei, só na “pa­cífica” ocupação de Marínguè causou mais de 50 mortos, de ambos os lados.
É uma paz em que, nos diversos outros confrontos, que se sucedem desde há vários meses, já foram mortas mais algumas dezenas de moçambicanos, civis e militares.
É uma paz em que o número de feridos já é impossível de contabilizar.
É uma paz que começou a ser conturbada na província de Sofala mas em que os confrontos já se repetem em Nampula e já se registam pequenos focos em Cabo Delgado.
Em resumo, é um raio de uma paz esta que o Primeiro-ministro anunciou em Luanda, que o porta-voz do Presidente da República anuncia em todo o lado e que o próprio Chefe de Es­tado não se cansa de anunciar nos sucessivos comícios das suas intermináveis presidências abertas.
É óbvio que Armando Guebuza não quer ficar, nas páginas da nossa História, como o Presidente que trouxe a guerra, de novo, para o país. Daí que tente negar isso, negando que a guerra já existe e já está a matar gente. O que talvez não convença muita gente, para além dele próprio...
Portanto, para mim, este já não é o momento de tentar evitar a guerra. Este já é o momento de fazer tudo para parar a guerra.»

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O importante não é relevante...


(imagem retirada daqui)

Houve hoje uma grande e atípica manifestação em Maputo.


Eram moçambicanos ameaçados pela possibilidade de regresso dos horrores da guerra civil, basicamente devido a questões de «equidade na distribuição da riqueza» (leia-se, entre as elites políticas da Frelimo e da Renamo), conforme sobriamente colocou, em recente entrevista ao Público, um reitor de universidade privada que há anos ouvi televisiva e sobriamente declarar que não se podem julgar os corruptos, porque as prisões não têm as condições básicas para pessoas daquela categoria.

Eram moçambicanos fartos de uma crescente onda de raptos, perante a inação ou cumplicidade das chefias policiais, que fizeram questão de salientar que, embora a coisa tenha começado por atingir cidadãos de origem asiática, é um problema de todos, pois todos são cidadãos moçambicanos.

Eram moçambicanos que não aceitam que a corrupção e a ganância ponham em causa os mais elementares deveres do Estado para com os cidadãos.

Desta vez, manifestaram-se a apelo de organizações da "sociedade civil", que na esmagadora maioria dos casos até têm uma presença muito significativa do partido no poder. Ao contrário de 2008, de 2010 e de um início de manhã de 2012, fizeram-o pacificamente. E, a julgar pelas imagens, o seu estrato social era um pouco diferente de nesses anos - alargando o leque de quem protesta, embora exigindo em última instância fundamentalmente o mesmo.

Vendo a s televisões portuguesas, fica claro que tudo isto é irrelevante.
Só a TVI noticiou o acontecimento.
Embora em todas elas ainda houvesse, claro está, tempo de antena para o desconforto de alguns angolanos ricos e poderosos, em relação à desfaçatez de haver sistemas judiciais que investiguem as suas avultadas transferências financeiras, a partir de off-shores especializados em lavagem de dinheiro.
Haja Deus! Ainda há sentido das prioridades!...

domingo, 27 de outubro de 2013

Bye, Lou



Que haja um wild side, algures, onde te possas passear

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Guerra ameaça Moçambique


Esta tarde, a residência em Santungira do Presidente da RENAMO, Afonso Dhlakama, foi atacada e tomada por artilharia e comandos.
A notícia, inicialmente confirmada nas televisões privadas locais (por porta-vozes do RENAMO à STV e do Ministério da Defesa à TIM), chegou bem mais tarde aos meios de comunicação estatais.
Não espanta que o comunicado tornado público pela RENAMO afirme que este assalto representa "o fim dos Acordos de Roma", que em 1992 encerraram a guerra civil que assolou o país durante 16 anos.
Mas é surpreende este ataque militar ao líder do maior partido da oposição, em concomitância quer com conversações partidárias para tentar ultrapassar uma situação de tensão que dura há já quase um ano, quer com uma Presidência Aberta na mesma província de Sofala para onde Dhlakama se havia "auto-exilado".
Muitos, entre os quais me incluo, interpretaram este longo impasse e braço-de-ferro entre a RENAMO e o governo da FRELIMO (feito de ameaças, conversações e coisas bem mais feias) como tendo por origem e objectivo a tentativa de negociar os esperados dividendos da futura exploração das reservas de gás natural pelas empresas internacionais.
Mas, ao fim de um ano em que Dhlakama ameaçou muitas vezes com o regresso às armas, e em que (pelo menos) tolerou ataques realizados (supõe-se) por ex-guerrilheiros seus a postos policiais e a quem passava nas estradas, parece que quem acabou por se decidir pela senda bélica (ou por uma "solução à Savimbi") foram os seus opositores governamentais, agora democraticamente eleitos. E que, ao fazê-lo, optaram pelo que de mais perigoso e ameaçador havia para o futuro da população.
Não me parece particularmente relevante, num momento como este, debater a legitimidade formal de um governo decidir assaltar uma povoação transformada em base militar, onde o líder de um partido com larga representação parlamentar sentiu a necessidade (ou a vantagem política) de se refugiar, acompanhando a sua estada de ameaças belicistas e de acções armadas (que ou ordenou, ou não conseguiu evitar) contra populares e contra representações do estado.
Importa-me, antes, o seu nível de sensatez e os seus potenciais resultados - pois este não é um outro país qualquer, com uma qualquer história diferente da sua.
Há a franca possibilidade de que as propaladas intenções belicistas de Dhlakama sejam um balão cheio apenas de ar, sem apoios populares ou internacionais para se concretizarem numa guerra, pelo menos de dimensão apreciável e duradoura. Mas o risco existe. Não apenas disso, mas mais ainda de generalização do medo e de inviabilização das condições básicas de vida para a esmagadora maioria dos moçambicanos. Porquê corrê-lo após meses de tolerância e de liturgia negocial?
Tão pouco a hipótese de que este ataque pudesse visar reforçar a segurança do périplo presidencial de Armando Guebuza apresenta qualquer consistência. Para isso, em situações como a até ontem existente, isolam-se os que podem fazer perigar essa segurança, cercando a sua área de concentração. Em contrapartida, conforme seria de esperar, Dhlakama e a sua guarda de corpo já não estavam no local quando o ataque ocorreu. Estão em parte incerta, aumentando a insegurança da comitiva presidencial, e com mais fortes razões para isso.
Olhando de longe para um país de que muito gosto e onde tenho muitos amigos, espero com toda a franqueza que a razão de tão estranha acção não seja bem mais importante, para poucas dúzias, e bem mais rasteira, para muitos milhões. Desejo muito francamente que esta decisão, com todos os enormes perigos que ela acarreta para os moçambicanos, não tenha sido apenas uma forma de, perante a falta de justifições para alargar o limite de mandatos do Presidente da República e a impossibilidade de este assegurar a continuidade da sua preponderância política e económica fora das suas actuais funções (logo agora, que os dinheiros do gás vêm aí), justificar uma alteração constitucional com base no risco de guerra iminente.
Porque, fossem quais fossem as motivações imediatas desta acção militar, toda a situação criada é extremamente preocupante e tem consequências altamente imprevisíveis.
Mas, e isso será uma triste certeza, muito negativas para os moçambicanos "normais", que não fazem parte das elites políticas e económicas.

sábado, 5 de outubro de 2013

Temos o caldo entornado


Quando um Presidente da Comissão Europeia se dirige a um país membro da União e ameaça de forma clara o seu Trubunal Constitucional, responsabilizando-o por todas as desgraças futuras caso cumpra as suas funções, temos o caldo entornado.
Esse Presidente da Comissão Europeia perde as mais básicas condições para permanecer no seu cargo.
A única coisa possível e minimamente decente, face aos tratados que instituem a União Europeia e às definições da sua função é exigir «Demissão!».  E concretizá-la.
Espero que os deputados europeus eleitos nesse país membro (Portugal) não deixem de a exigir no imediato.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Curandeiros, reportagens e as razões das pessoas


O sociólogo e bloguista moçambicano Carlos Serra convidou-me a comentar esta reportagem da TV Globo, sobre os curandeiros em Moçambique.
Aqui fica o comentário:

«Conforme acontece frequentemente com reportagens que pretendem explorar o exotismo, parece-me que o mais merecedor de comentário nesta peça da TV Globo não está no que nela é dito mas naquilo que, sendo essencial, está dela ausente. Coisas essenciais que, por serem desconhecidas dos jornalistas, são substituídas pelos seus próprios pressupostos, marcados por lógicas bem diferentes – como, neste caso, interpretar à luz dos números da oferta a procura de médicos tradicionais.


Confesso o meu franco cepticismo perante a afirmação de que, mais de 20 anos depois da guerra civil, os médicos ainda serão menos de 600 em Moçambique. A afirmação de que os seus colegas tradicionais atingem os 250.000, por seu lado, já me parece pertencer ao mundo das impossibilidades práticas, quer para a sua subsistência com uma média de 80 potenciais pacientes, quer por muitos outros indicadores, incluindo o cartão da AMETRAMO que me foi concedido em 2007, como sócio honorário, e que arvora o número 7.533.
Mas o essencial, sugeria no início, não é a credibilidade desses números. O essencial é que só em áreas muito afastadas de zonas urbanas (e que não são objeto da reportagem) as pessoas poderão recorrer a médicos tradicionais por ausência de alternativas. Ou sequer por razões financeiras ou por estarem mais à vontade com eles.
Se as suas consultas (por adivinhação) são mais baratas do que as dos médicos academicamente reconhecidos, os tratamentos são geralmente mais caros e demorados. E se a sua proximidade (cultural e de estilos de vida) com os pacientes tende a ser maior, também suscitam maiores receios, quer pelos poderes espirituais que reclamam e lhes são atribuídos, quer pelo medo do paciente de ficar dependente deles. Assim, não se vai ao nyanga ou ao ché por ser mais fácil do que ir ao médico, mas apesar de ser mais difícil e assustador. 
Porque se vai, então?
Como em virtualmente todo o lado, em Moçambique (e mais ainda nas zonas urbanas) as pessoas têm contacto com diversos sistemas que interpretam e dão sentido aos acontecimentos ocorridos e ao incerto futuro. Uns têm origem científica e materialista, outros religiosa, outros supersticiosa, outros ainda foram desenvolvidos regionalmente, envolvendo fatores explicativos espirituais e materiais. Podendo reger-se de forma quase exclusiva por um desses sistemas, é mais comum que cada pessoa recorra conjunturalmente a um ou outro (conforme a pertinência que ele tenha para lidar com o problema com que a pessoa se confronta e conforme os interesses que a movem) e/ou que os combinem de forma sincrética mas bastante coerente.
Apesar dessa multiplicidade e contínua negociação de sentidos (e num quadro enformado por ela), é seguro afirmar que um desses sistemas de interpretação e domesticação do mundo e da incerteza se destaca como dominante, entre a larguíssima maioria da população: aquele que foi desenvolvido regionalmente e é considerado “tradicional”. É também esse que permite compreender o recurso aos médicos tradicionais e a sua importância social. Não apenas para resolver questões de saúde (que, de acordo com essa perspetiva, são apenas uma variante particular dos problemas sociais), nem tão pouco para apenas sarar aquela manifestação física de doença da qual se sofre.
De acordo com esse sistema de explicação e domesticação dos infortúnios, de facto, nem o estar doente nem o sofrer desgraças têm origens exclusivamente naturais. Estamos permanentemente rodeados por inúmeros perigos materiais, mas não é normal nem natural estarmos doentes ou sofrermos acidentes. Se as relações de causalidade material explicam como esses perigos ocorrem, é ainda necessário explicar o porquê de eles terem coincidido no espaço e no tempo com aquela pessoa específica, tornando-a vítima de uma desgraça ou doença.
Segundo esta visão dos infortúnios, o tal “porquê” pode decorrer de uma de três razões sociais: ou a vítima foi ignorante, negligente e/ou incompetente ao lidar com aquele perigo; ou foi alvo de feitiço (normalmente, devido a inveja ou vingança); ou os espíritos dos seus antepassados estão desagradados e suspenderam a proteção que lhe devem contra os perigos, para alertar a vítima para a necessidade de os ouvir através da adivinhação ou transe de um nyanga.
Dessa forma, se alguém contrai HIV sem saber da sua existência, sem saber como se proteger do contágio ou por, sabendo-o, não costumar usar preservativo, isso é normal. Mas se a vítima costuma usar preservativo e, daquela perigosa vez, excecionalmente não o usou e ficou infetado, é necessário averiguar as razões espirituais ou mágicas que fizeram com que não o usasse.
Isto quer também dizer que as razões da doença podem não se esgotar (e, na maior parte dos casos, considera-se que não se esgotam) nela própria e que curá-la não se limita à cura da sua manifestação física. A existirem razões espirituais ou mágicas subjacentes à doença, os mais eficazes comprimidos ou raízes não resolvem por si só o problema pois, curada aquela manifestação de doença, outra ainda mais grave se seguirá. Para além da cura imediata da enfermidade (e, quanto a essa parte, recorrer-se ao hospital ou ao quintal do nyanga depende em grande medida da eficácia que se atribui a cada um deles, na cura daquela doença específica), é necessário detetar e curar a razão que lhe subjaz. Isso é especialidade exclusiva dos médicos tradicionais, envolvendo não apenas tratamentos e medicamentos, mas também a resolução do conflito social com os vivos ou os mortos que foi diagnosticado como causa última, tendo esse diagnóstico merecido consenso por parte do paciente e dos seus familiares.
Para além da superioridade terapêutica que lhes é atribuída nalgumas áreas (epilepsia, asma, aftas, por exemplo), é esta a razão fundamental para o recurso aos médicos tradicionais por razões de saúde. Isto ocorre num quadro de conceções holísticas e em que, conforme sustenta o meu colega Emídio Gune, a maioria das pessoas não consideram estar a recorrer a sistemas de saúde diferentes, mas a diferentes prestações de cuidados de saúde – tal como não se vai a um cardiologista para brocar um dente, a um médico para tomar uma injeção, nem a um enfermeiro para ser submetido a uma cirurgia.
No entanto, o sistema de interpretação que tenho vindo a comentar fornece ainda duas outras razões de peso para o recurso aos médicos tradicionais, mesmo que os medicamentos sejam ministrados pelos seus colegas academicamente reconhecidos. Por um lado, é assumida a possibilidade de o feitiço ou os antepassados poderem bloquear a eficácia dos medicamentos ministrados, pelo que a segurança de um tratamento, mesmo hospitalar, implica que se anule o primeiro ou se apaziguem os segundos, conforme o caso. Por outro lado, curada a doença e as suas causas imediatas e subjacentes, o paciente deverá ver protegidos o seu corpo e espírito contra eventuais novos ataques futuros. De novo, em ambos os casos, especialidades exclusivas dos médicos tradicionais.
A frequente e não declarada coexistência de procedimentos terapêuticos (e não, ao contrário do que afirma a reportagem, uma população que maioritariamente nunca terá visto um médico) não deixa de apresentar riscos, tanto por duplicação e sobredosagem, quanto de anulação mútua dos efeitos farmacológicos. Essa é, creio, mais uma boa razão para que os motivos do recurso urbano aos médicos tradicionais sejam compreendidos, na sua lógica e ontologia, e para que seja lançado um efetivo diálogo tendo em vista o estabelecimento de protocolos de procedimentos que sejam mutuamente aceitáveis nesses casos extremamente recorrentes, em vez de se fazer de conta que eles não existem ou importam.
Por fim, gostaria de deixar uma nota de reflexão àqueles que possam considerar que, na prática dos médicos tradicionais, só os conhecimentos botânicos de provada eficácia farmacológica são válidos. Mesmo para quem não partilhe de todo a visão da saúde, doença e cura que expus, nem tão pouco valorize e importância dos processos psicossomáticos, há um aspeto pragmático da ação terapêutica dos tinyanga que dificilmente pode ser desvalorizado:
Um diagnóstico que envolva feitiçaria ou antepassados implica quer a aceitação consensual de que o conflito que lhe subjaz existe e é relevante, quer a mobilização do paciente, da sua família e mesmo (se possível) dos seus opositores para a sua superação e para o restabelecimento da harmonia entre as partes. Muitas vezes, isso não é conseguido. Mas, quando o é, o médico tradicional torna-se também um agente essencial de saúde social – ou, na visão holista que partilha com os seus pacientes, de saúde tout court.»


Se estão interessados em aprofundar estes aspetos, podem dar uma vista de olhos nos meus artigos "Saúde e doença em Moçambique",  "Ser curandeiro em Moçambique: uma vocação imposta?" e "O que é que a adivinhação adivinha?".

terça-feira, 25 de junho de 2013

E vão 38!


Este aniversário está a ser vivido com preocupação em Moçambique, depois do reaparecimento de ataques a camionetes de passageiros, no pior estilo da guerra civil, quando muitos estavam já esperançados que os ataques mortais da passada sexta-feira se tivessem tornado num caso pontual e ultrapassado.

Voltarei a este tema, analisando o que é já possível analisar.

Mas hoje é dia de parabenizar os moçambicanos e de desejar que possam ultrapassar esta curva difícil, da melhor forma possível para o seu sofrido povo.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Angolanos querem investigar


Acabei de saber que o meu recente livro O Que É Investigar? (escrito em conjunto com Michel Cahen e Carmeliza do Rosário) esgotou em Angola, tendo sido encomendados mais 500 exemplares para dar vazão à procura.

Uma notícia surpreendente numa obra com este título, tanto mais que os casos utilizados como exemplo têm sobretudo a ver com Moçambique.

O sociólogo e bloguista moçambicano Carlos Serra, grande impulsinador e coordenador da colecção da Escolar Editora que este livro inaugurou, está de parabéns por mais este bem sucedido combate pelas ciências sociais!

Voltarei a contribuir para ele com o livro O Que É O Racismo?, lá mais para o fim do ano.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Nkosi Sikelel Madiba

domingo, 9 de junho de 2013

Jovem participante em projectos sociais voluntários foi esfaqueado por engano, numa escola da Amadora



Regressado ontem à noite de uma conferência em Espanha, não acompanhei o que foi dito nos meios de comunicação social acerca de Lenine Sanches, o jovem esfaqueado numa escola da Amadora.
Fiquei a saber, por um meu doutorando e amigo, da enorme revolta que a versão policial posta a circular suscita em todos os que o conheciam. 
E alguns dados acerca dele e das circunstâncias da sua morte.

Esse jovem de 20 anos, pai de uma criança com menos de 2, pertencia ao grupo de capoeira Ginga Brasil e estava ali para participar num projecto voluntário de integração social de crianças e jovens.
Foi morto por engano e pelas costas, confundido com outra pessoa, apanhado de surpresa no meio de um acerto de contas com o qual não tinha nada a ver.
Jovem, de origem cabo-verdiana e, "portanto", criminoso, a polícia tratou com desprezo o seu corpo e cobriu de suspeitas quem o foi levantar.
Pelo país fora, as comunidades de capoeira estão de luto. E querem prestar-lhe homenagem.

Para que conste.

sábado, 25 de maio de 2013

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O estado social não é gordura; é músculo


Depois de várias sessões temáticas preparatórias, aproxima-se a realização da conferência "Vencer a Crise com o Estado Social e com a Democracia".
Será dia 11 de Maio no Forum Lisboa, junto da Av. de Roma.

No site do Congresso Democrático das Alternativas, que a organiza, vão surgindo documentos preparatórios para debate e está já aberto o espaço para envio de contributos escritos.

Para os interessados, convém irem-se inscrevendo aqui, pois o número de lugares é limitado.

terça-feira, 12 de março de 2013

O que é investigar?


Está a caminho das livrarias este livro que escrevi com Michel Cahen e Carmeliza Rosário, dando o pontapé de saída para uma colecção entusiasticamente dirigida pelo sociólogo e bloguista moçambicano Carlos Serra.

Pela minha parte, falo sobre «Terreno, teorias e complexidade: como não descobrir só o que se espera descobrir».

Concebida a pensar em Moçambique, a colecção tem vindo a congregar tantos temas e nomes interessantes  das ciências sociais nos países de língua oficial portuguesa que, parece-me, se justifica uma disponibilização mais global. Acho que vou meter uma cunha para isso...

segunda-feira, 11 de março de 2013

Estado social e determinismos economicistas? É a política, tosc@!


À medida que as funções sociais do estado são objecto de planos de desinvestimento que as comprometem e transferem para o campo dos negócios privados, é repetido um lugar-comum que, de aparentemente tão sensato, chega a ser reproduzido «à esquerda». Saúde e escola públicas e universais, segurança social digna, são luxos do passado porque o Estado social é um particularismo histórico resultante de uma conjuntura excepcional de crescimento económico constante, insustentável fora dessas condições. Urge desnudar essa falácia.

Assim começa o meu artigo «É a política, tosc@!», no número deste mês do Le Monde Diplomatique. Num dossier onde está muito bem acompanhado por outros de Carlos Farinha Rodrigues, de Hugo Santos Mendes e de Manuela Silva.

Conforme é habitual, só o disponibilizarei online no fim do mês. Até lá, se estão interessad@s, comprem o jornalito...


O mundo ao contrário


Primeiro, foi a Standard & Poor's a dizer que o planeado corte de 4.000 milhões de euros nas despesas do estado constituiria uma ruptura do contrato social que, acrescida às quebras dos salários e ao aumento do desemprego e impostos, representa um elevado risco social de violência pública.

Agora, vem a Moody's dizer que é porreiro alargar os prazos de reembolso dos empréstimos, mas que é também necessário um corte nos juros e uma prorrogação do seu pagamento, para além de um efectivo apoio do BCE nos mercados secundários.

Até para a bandidagem especulativa se tornou claro que, para receber dinheirinho, é conveniente não matar o cliente.
Só pelas áreas governativas se vai insistindo que fazer o país recuar 100 anos é o melhor caminho para o futuro, a trilhar com urgência, antes que se acabem as desculpas das imposições externas.

Entretanto, aguarda-se a qualquer momento uma declaração solene da presidente do FMI, afirmando que, afinal, é eticamente inaceitável que, lá porque se empresta dinheiro, se imponha aos países como eles têm que viver e que políticas públicas têm que aplicar (para além de se ganharem umas centenas de milhares de euros para controlar se eles o estão a fazer). E também que, como uma obscenidade dessas só pode ser aceite por bananas em estado de extrema necessidade e achando que não têm outra alternativa, as imposições politico-económicas do memorando ficam sem efeito.

São de esperar violentas recções discordantes por parte de Gaspar, Borges, Passos Coelho e Constâncio. Consta que Barroso já foi avisado para dizer que sim.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Austeridade e lucros assassinos


Baixou muito a temperatura.
Na minha rua, deflagrou um incêndio. Os habitantes do andar superior do prédio foram salvos in extremis pelos bombeiros, semi-asfixiados.

Claro que isto nada tem a ver com minudências como o aumento galopante do desemprego, os cortes nas pensões, ou as facturas do oligipólio de fornecimento de electricidade - com umas diferenciazinhas entre empresas concertadas nos preços inflaccionados, e por sua vez inflaccionadas pela inclusão de rendas compensatórias a esses pobres moçinhos que, ano após ano, vão arrecadando lucros obscenamente altos.

Mesmo nada a ver.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

26 anos sem o Zeca, muitos mais com a Grândola






E hoje, no Largo do Carmo e no Chiado.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

curandeiros em Grande Entrevista


Na próxima Grande Entrevista África, irei falar dos tiNyanga moçambicanos (vulgo "curandeiros" ou, em versão burocrático-respeitável, "médicos tradicionais"), suas práticas, concepções, papeis sociais e relações com a biomedicina.

Passa 2ª feira na RTP África depois do telejornal (às 21 horas de Lisboa) e depois na RTP Informação, 3ª feira às 13h 30m.

Para quem quiser aprofundar o assunto para lá da conversa, ela partiu deste artigo, deste e deste, embora também tenha tocado neste assunto.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Uma Guernica policial?


Não me canso de o lembrar:

Quando os Stukas nazis bombardearam a população civil em Guernica, dois anos antes da II Guerra Mundial ter começado, uma acção de guerra como essa era tão inaudita que chocou quem dela teve conhecimento e suscitou o poderoso quadro de Picasso.
Poucos depois, bombardear Londres era trivial, arrasar cidades alemãs também, e a II GM terminou com o lançamento das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

O que é pior, nas formas repugnantes de violência que largamente ultrapassam o limite daquilo que acabou por ser socialmente consensualizado como inaceitável, nem é o próprio acto violento.
É o facto de, bem mais facilmente do que custou construir o consenso de que tal acto era "impensável" e repugnante, ele depressa se poder tornar "normal" e trivial.


Não há grande coisa a discutir, numa sociedade que partilhe os valores elementares e os princípios legais da nossa, acerca da barbaridade de, perante um protesto de alunos do ensino básico e secundário que fecharam a cadeado o portão da escola, um polícia começar a lançar gás pimenta sobre crianças de 12 a 15 anos.
Podemos perguntar-nos como é que tal energúmeno chegou a polícia, ou o que será de esperar que lhe aconteça quando for identificado pelos pais respectivos. Mas justificá-lo no campo dos procedimentos policiais ou da salvaguarda da "ordem pública" já só estará ao nível de sociopatas ou seus aprendizes.

Não obstante, o comando nacional da PSP justifica essa utilização de gás pimenta contra crianças como forma de evitar uma intervenção "mais musculada".
Uma acção "mais musculada", recorde-se, contra crianças que protestam à porta da escola e para retirar um cadeado que, depois disto, se tornou obviamente irrelevante.
Uma intervenção "mais musculada" que só poderá corresponder, afinal, a isto:


Se há quem produza tais afirmações em nome do comando nacional da PSP, isso quer dizer várias coisas, todas elas preocupantes e inaceitáveis:

- que a sociopatologia começa a grassar entre algumas das pessoas que têm por emprego comandar as forças policiais;

- que quem acha imaginável, hoje, acções de musculada bastonada sobre crianças de 12 anos irá muito provavelmente achar justificado, amanhã, disparar balas reais sobre grevistas mais velhos;

- que só a veemente indignação pública e a subsequente demissão de quem praticou esses actos bárbaros e de quem os justificou podem evitar uma escalada e uma trivialização daquilo que é para todos nós, ainda, impensável.