quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Até as mortes, meu Deus?


O tratamento noticioso das actuais cheias no centro de Moçambique cada vez me deprime mais.
Deixei escrito, há 4 dias atrás, que uma morte é uma desgraça absoluta. Os números são indicadores importantes (uma coisa é morrerem 7 pessoas, outra é morrerem 7.000) mas, em termos humanitários, apenas isso.
Entretanto, ficaram-se ontem a saber, pelo jornal Notícias, as causas de morte das 7 pessoas contabilizadas como vítimas das cheias. 4 morreram devido a arrastamento pelas águas e 3 por ataques de crocodilos, quando pescavam e tomavam banho.
Fiquei a saber que, ou as pessoas não pescam nem tomam banho quando não há cheias, ou até os mortos se manipulam.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Terra à vista

foto Notícias


Com a diminuição das descargas de Cahora Bassa, a água vai baixando no Zambeze e a crise parece estar passada.

Volto a louvar o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, pela abordagem prospectiva e atempada da situação.
Comentava hoje um colega, de forma algo blasé, que são previsíveis as zonas que irão alagar. Sê-lo-ão, certamente; mas para transformar essa previsibilidade em resposta eficaz é necessária planificação, organização e competência.
No dia em que (dream on...) essas características passem a estar presentes, ao nível exigível, nas instituições públicas - aqui ou noutros países, incluindo as estruturas de protecção civil - deixarei de me sentir na obrigação de as louvar.

A partir de agora, lá voltará o pessoal a casa - nuns 20.000 casos, segundo as estimativas iniciais, a reconstruir.
Voltarão também as polémicas citadinas acerca da suposta "burrice" e "casmurrice" das populações zambezianas.
Depois de cada cheia nesta zona, as instituições estatais costumam dar apoio em cimento, chapas de zinco e comida, a quem construa casas em alvenaria nas zonas altas. As pessoas têm, pelo seu lado, que fazer os tijolos e construir, o que não é complicado face às tipologias de habitação e aos saberes existentes.
Acontece que grande parte das pessoas costumam receber os materiais e ir construir em zonas alagáveis, apesar das acções de sensibilização.
Para alguma gente discutindo o assunto na poltrona da sua sala, afinal, «eles (e/ou os respectivos régulos) estão mesmo a pedi-las».

É esquecer, para além das razões simbólicas e micro-políticas, uma coisa simples: Sobretudo para populações ribeirinhas, porque é que se havia de partir os rins a cultivar terras secas e pouco férteis, quando estão ali disponíveis terrenos de aluvião, já bem conhecidos?
Depois, já mostrava Adolfo Yañez -Casal, no seu livro Antropologia e Desenvolvimento: as aldeias comunais de Moçambique, quando uma pessoa se desloca a pé para fazer trabalhos agrícolas, a distância é uma variável essencial da racionalidade económica. A partir de certa altura, o tempo gasto na ida e vinda à machamba torna-se contraproducente. Ou seja, cultivar à beira rio implica não morar a grande distância da margem.

Com tanto dinheiro correndo para tantos estudos (quer os das sucessivas "modas" academico-oénegéticas, sempre repetitivos entre si, quer os mais absurdos que imaginar se possa), talvez fosse esse o estudo que realmente valesse a pena: como resolver este problema, a contento da segurança e das necessidades das populações?
Talvez se viesse a ver que alguns saberes antigos, como a dupla residência sazonal, mereceriam ser recuperados. Ou talvez se descobrisse, entre as pessoas, o germe de novas soluções.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Tragédia das calamidades

foto Savana

Fui hoje almoçar a uma conhecida esplanada de Maputo, que parece concebida para fazer com que os sul-africanos de origem europeia se sintam em casa.
Excepcionalmente, para um domingo de verão, não havia muitos representantes dessa digna e autoproclamada tribo africana. Em compensação, na mesa ao lado terminavam a sua refeição 3 italianos e 2 franceses.
Chegada a (sua ) hora do whisky e da cigarrilha, começaram a discutir com alguma gulodice, primeiro nas suas línguas respectivas e depois em inglês, all together, a quantidade de fundos que as suas conhecidas e respeitadas ONGs iriam conseguir angariar, «para depois das águas baixarem».
Que fique claro: aqueles homens não estavam a discutir (ao contrário do que noutras vezes ouvi abertamente a outra nacionalidade, acerca de outros assuntos) quanto dinheiro iriam conseguir meter no próprio bolso. Quanto a isso, suponho, bastar-lhes-ão os salários hiper-inflaccionados e o nível de vida que nunca poderiam ter nos seus países respectivos. A questão era dinheiro para projectos dirigidos pelas suas organizações.
A certa altura, um mais novato ou ingénuo disse algo que todos estavam carecas de saber e de ter em conta: «Depende muito da forma como o problema for apresentado nos media europeus».

No sentido original da palavra (grego e dramatúrgico), há uma tragédia com as calamidades, talvez também em muitos outros sítios, mas certamente aqui. A sua origem está no facto de, tirando as vítimas directas, quase toda agente beneficiar com elas.
O governo ganha mais fundos internacionais e mais tolerância para com o incumprimento de compromissos ou metas assumidas (tem apenas que gerir com cuidado a intervenção de ONGs e organizações internacionais, ou depois é difícil livrar-se da sua presença no terreno).
A todos os níveis da administração, há quem ganhe com a abundância de meios financeiros e materiais ali à mão de semear, em alturas de confusão que justificam todas as discrepâncias entre o recebido e o utilizado no terreno.
Nos bairros populares, ainda hoje famílias pobres mas com alguma capacidade de pequeno investimento vivem da revenda à peça de "fardos das calamidades" oferecidos em solidariedade para as vítimas das cheias de 2000 e seguintes, mais tarde vendidos em leilões oficiais ou por quem então os desviou.
Os seus ainda mais pobres clientes têm com isso acesso a peças básicas de vestuário a preços comportáveis.
As ONGs reforçam os seus meios, conseguem sustentar e justificar as suas pesadas e caríssimas estruturas (caras não apenas com estrangeiros; para que não roube, paga-se a um contabilista local um salário líquido de 3.000 dólares, num país em que o salário mínimo é de uns 65), podem apresentar relatórios quantitativamente impressionantes e capazes de escamotear a ausência de resultados ou efeitos preversos por que, na maioria dos casos, se costuma pautar a sua acção corrente - e, afinal, legitimar a sua existência e custos.

Mas, para isso, uma boa calamidade é, como desnecessariamente salientava o novato da mesa ao lado, uma calamidade grande e descontrolada.

Pergunto-me se será por isso, ou por mera avidez mediática pelo sangue, que as primeiras reportagens internacionais foram factualmente erradas e, aparentemente, tão exageradas.
Pergunto-me se será por isso, ou por previdência em relação ao possível evoluir da situação, que, com uma previsão inicial (e aparentemente pessimista) de 90.000 vítimas, chegou ao porto da Beira comida para 250.000 pessoas.
Pergunto-me se será por isso que os números de evacuados flutuam tanto e que, somando os números de todos os campos de reassentamento mencionados nos media, se fica tão longe dos 63.000 oficiais.
Pergunto-me se será por isso (e pelo parágrafo anterior) que se fazem grandes parangonas com a suposta instigação dos régulos (assim, no generalizado) ao abandono dos campos de reassentamento e regresso a zonas alagadas, quando é apenas mencionado um caso, numericamente irrelevante.

Neste quadro, também, espanta-me que um vice-director do INGC responda aos media que os meios disponíveis ainda são suficientes, quando o seu governo acabara de conseguir, de estados estrangeiros, que o orçamento de combate a estas cheias venha a subir de 3,2 para 32 milhões de dólares.
Honestidade? Ingenuidade política da parte de alguém que raciocine essencialmente como técnico?

sábado, 19 de janeiro de 2008

Voltemos ao que interessa

foto Savana

Uma morte é uma desgraça absoluta. Sete mortes, são 7 desgraças absolutas - e tudo o mais se torna contabilidade.
No entanto, no meio das confusões mediáticas acerca da cheia actual (desde a cidade de Tete submersa, inventada pela BBC, à încongruência de números e à sensação de quase rotina transmitida em jornais moçambicanos), há uma coisa que se vai tornando evidente e muito me agrada salientar:

O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades parece dispor dos meios suficientes para lidar eficientemente com a situação e estar a abordá-la da forma mais correcta. As intervenções e as evacuações estão a ser sobretudo preventivas, prospectivas e atempadas - ou seja, estão a ser feitas antes de a ameaça sobre cada zona específica se transformar em alagamento e em pessoas sob perigo imediato, ou a flutuarem mortas sobre as águas.

É uma questão de opção estratégica, bom senso e organização.
Numa frase que deve ter deixado arrepiados os negociantes das calamidades e os sôfregos de "ficarem na fotografia" com tragédia alheia em pano de fundo, o director do referido Instituto declarou que «a nossa aposta de momento é evitar uma catástrofe humanitária». Antecipando-se a ela, acrescentaria.
Embora seja essa a sua obrigação, aplaudo entusiasticamente (até pelo facto de os poderosos terem obrigações não querer dizer que elas sejam cumpridas, e muito menos com eficiência) e fico satisfeito, pelas pessoas afectadas.

Confesso a minha curiosidade em, qualquer dia, conhecer este homem. Cheira-me que se preocupa bastante mais em estudar os dossiers, planificar e rodear-se de colaboradores competentes do que em pavonear sinais exteriores de poder. A ser esse o caso, espero que uma atitude tão contrastante não lhe venha a trazer dissabores.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Novo record



33 graus dentro de casa.


Como é que vocês querem que eu escreva alguma coisa inteligente ou interessante, para aqui ou para outro lugar?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Dilema alimentar


Preparava-me eu, ontem, para grelhar este colorido peixe-papagaio quando me assaltou a dúvida:
Como-o ou emolduro-o?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Tempestades e feitiços

Quando estava a fazer o passeio do xi-xi com a cadela, ontem à noite, viu-se um vago relâmpago muito ao longe, sem sequer se ouvir trovão. Chegou, no entanto, para começarem a cair umas pinguitas de água e, talvez um minuto depois, uma chuvada monumental. O costume.
O que não era costume foi chegar, fugindo à chuva, e encontrar fechada a porta exterior do edifício onde vou habitando.
Cadê o guarda, que é a única pessoa a ter essa chave? Batendo desesperado à porta, encharcado que nem um pinto, espreitei pela adjacente parede de tijolos ocos "decorativos" e lá descortinei essa instituição local. Encolhido, tentava esconder-se atrás da porta.
Foi preciso apelar à minha esquecida voz de ex-oficial de artilharia e berrar, em desespero: «Abra a merda da porta!»
Atabalhoadamente, abriu e balbuciou qualquer coisa. Tinha acumulado 3 cadeiras de plástico contra a porta, como num filme de desenhos animados.

Qualquer pessoa que conheça um pouco da escrita etnográfica acerca desta parte do mundo perceberá logo este terror por uma tempestade, mesmo tão distante, e as quase infantis medidas de protecção. O nosso bom guarda terá feito ou encomendado um feitiço qualquer e, como tal, tornou-se o alvo preferencial dos raios e das ameaças espirituais tempestuosas.

Suponho que muitos leitores, incluindo colegas, achem este incidente do quotidiano muito exótico, interessante e excitante.A mim, molhado até aos ossos e sabendo o que a casa gasta, só me ocorreu pensar: «Santa paciência!...»E, depois, resmungar entre dentes um pouco caridoso «Rai's partam!»

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Bom 2008!

Ano velho: 36 graus à sombra, 28 dentro de casa.
Ano Novo: 36 graus à sombra, 28 dentro de casa.

Mas alguma coisa esperamos, sempre, que mude.
Que, para todos vocês, mude para melhor.
Nós, por cá, todos bem.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Não estamos sós

Haverá quem diga que é por ser África.
Mas, mesmo passando ao lado do facto de essa vaga ideia de "África" corresponder a uma realidade enorme e mais diversificada do que a Europa, creio que poderia acontecer em qualquer cidade onde, no meio dos prédios, reste algum terreno vago e vegetado. Nem sequer baldio (que aqui não é, mas de culturas); apenas vago.
Chegada a noite, chega também uma vozearia de grilos, cigarras e sapos que, junto com outras bichezas mais discretas, não há como ignorar.
Fumando o cigarrinho na varanda das traseiras, não é sequer um pensamento. É uma evidência tão natural que apenas é capaz de surpreender um pouco, por contraste, quando nos lembramos dos nossos velhos hábitos de bichos urbanos: Não estamos, de todo, sós.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Gracias a la vida

Um discurso de agradecimento é um discurso de agradecimento, dirão muitos de vós. É uma coisa que, com mais sinceridade ou mais formalismo, pouco adianta e pouco atrasa.
Talvez.
Mas transcrevo aqui o discurso de agradecimento do Prémio Sedas Nunes 2007 porque, de facto, me sinto agradecido às entidades mencionadas - sejam elas pessoas, o ensino público, instituições ou perspectivas daquilo que vale a pena fazer no trabalho científico.

Leia "Gracias a la vida"

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Estão todos convidados



Para quem não sabe, o ICS fica numa rua sem saída com o pomposo nome de Av. Prof. Aníbal Bettemcourt, que parte de Entre Campos, entre o edifício dos serviços da Câmara Municipal e a Biblioteca Nacional.

Bem vindos!

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Boas notícias também são notícia

A minha filha gosta de histórias com final feliz.
Eu gosto de boas notícias. Não para imaginar o mundo mais cor-de-rosa. Por si só, pelo prazer de saber que aconteceram.
É bom saber que, conforme informa o Público de hoje, os habitantes do prédio de Setúbal cujos últimos andares rebentaram há uns dias estão a ser tratados adequadamente, com uma eficiência da parte da Câmara Municipal, do Governo Civil e (pasme-se!) das seguradoras que só lhes dão razões para dizer bem dessas instituições e empresas. É muito bom saber que, atingidas por um acontecimento que ninguém deseja para si, foram rapidamente asseguradas a essas pessoas as condições que sempre deveriam ser disponibilizadas em casos afins.

É menos bom que a razão para que isso seja notícia não derive do facto de a coisa ter acontecido, mas sim de os acontecimentos corresponderem à história do "homem que mordeu o cão".
Mas também nisso se descobre uma grande vantagem de notícias como esta: para além de nos permitirem louvar quem fez bem a sua obrigação (mesmo que fosse essa a sua obrigação), lembram-nos e demonstram-nos que não são "naturais" a incompetência, a desorganização, o desleixo ou o estar-se nas tintas, quando se assumiram responsabilidades públicas.
Nesse sentido, fazer bem o que deve ser feito torna-se em mais do que uma obrigação ou um exercício de competência. Torna-se um manifesto e uma exigência aos restantes poderes públicos.

domingo, 25 de novembro de 2007

Regulações, proibições e purezas


Quem hoje lesse as crónicas de António Barreto e de Vasco Pulido Valente no Público, e lhes juntasse o conhecimento deste modesto e quase confidencial blog ("Linchem-se os Impuros", a 8 de Abril de 2007) era bem capaz de pensar que o ICS está cheio de perigosos libertários, em conspiração contra a santa obra de, regulando o que consumimos, fazer de nós pessoas mais puras e melhores.

Descansem os poderes instituídos. Não é assim. São por lá mais aqueles que acham que o meu cigarrinho, fumado à distância, lhes faz pior à saúde do que o fumo do seu carro faz à minha.

Mas dêem uma olhadela nessas crónicas. A do VPV nada adianta ao que já escreveu sobre o assunto; mas a do AB é assustadora, na mera enunciação do que tem vindo a ser proibido e na implícita sugestão de uma segunda razão para isso.

Vasco X Miguel (Round 3)

Chegou-se ao 3º assalto do combate entre Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares. 4 páginas do primeiro no Público, desancando o mais recente livro do segundo, com base em argumentos de ignorância histórica e de pinderiquice de escrita.
Das luvas de boxe e eventual florete, passou-se agora à artilharia pesada, sem se poder sequer alegar que o homem não leu o livro.

O que se seguirá? Insultos às mãezinhas? "Revelações" pessoais que meio mundo já conhece? Um não metafórico duelo ao pôr-do-sol?A malta vai acompanhando e curtindo.

Ele há ódios de estimação que são quase um serviço público.

Sentença (in)Sana


Fiquei tão embasbacado que preferi esperar para ver. Viu-se mais alguma coisa, mas o essencial manteve-se.

Há juízes capazes de considerar justa causa para despedimento (ou não renovação de contrato) de um cozinheiro o facto de ele ser seropositivo, com base na opinião tipo "eu cá acho que..." de médicos assumidamente não especialistas da matéria, um deles numa situação de conflito de interesses, e ao arrepio do que é consensual em termos científicos.
Mais: aplicando o princípio precaucionário de forma pioneira na jurisprudência portuguesa, considera que o caso "não tem a ver com riscos conhecidos, mas com a possibilidade desses riscos" - princípio que, sabe-se lá, talvez comece a ser aplicado aos campos electromagnéticos, às empresas potencialmente poluidoras ou perigosas e, talvez, à venda de automóveis, que apresentam sempre a "possibilidade do risco" de rupturas mecânicas ou avarias electrónicas casuadoras de acidentes, possivelmente mortais.

Embora nunca tenha acontecido, é de facto imaginável que um cozinheiro seropositivo se corte, derramando, sobre uma saladinha, sangue em quantidade suficientemente copiosa para contagiar alguém e que, sem que ninguém dê por isso, o dito acepipe seja servido em tempo recorde a um cliente cego e sem olfacto, de tal forma que o virus ainda esteja vivo quando o tal sangue lhe toca na ferida que tem na boca.
É curioso, no entanto, que este zelo precaucionário só se aplique a indivíduos fragilisados, e nunca aos grandes interesses económicos.É curioso, também, que juízes prefiram acolher opiniões de mesa de café que confirmem os seus medos e idiossincrasias do que pareceres especializados que as contrariem.

Veio-se a saber mais tarde que, afinal, no julgamento original não tinham sido apresentados pareceres especializados, mas impressa da internet a informação disponibilizada pela agência estatal norte-americana que se dedica à prevenção e controle de doenças. O que mostra que, até para restabelecer a mais elementar justiça, é preciso ter dinheiro para pagar um advogado minimamente competente.
Quanto ao recurso para a Relação, o tribunal jura a pés juntos que não foi pedida a revisão dos factos dados como provados (que o tal senhor é seropositivo e que pode transmitir a sua situação, para além de pela saliva, pelo sangue, suor e lágrimas!) enquanto a outra parte jura que foi para esse efeito que, agora, se anexaram pareceres de especialistas.
Ou alguém mente, ou há incompetência mútua - pois, mesmo que seja verdade que o essencial não fosse pedido pelo advogado, que juízes são esses que têm entre mãos provas claras de que os "factos provados" não podem ser provados e olham para o lado?

Que respeito público esperam e julgam merecer, quando já são a única actividade em que uma declaração oficial de incompetência técnica (o provimento de um recurso, por verificação de erros processuais) não tem quaisquer consequências sobre a capacidade de exercer a profissão?

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Mais um livro que vale a pena


Peguei nele mal voltei do lançamento, ontem, mas não quiz embandeirar em arco antes de lhe ler uma boa parte.

É uma selecção actualizada de artigos da Luísa Schmidt no Expresso que, todos juntos, nos dão um impressionante quadro global deste país e do que lhe andamos a fazer. Com a qualidade, o rigor, a acutilância e o humor do costume.

Recomendo vivamente!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Reflexões ociosas - 1

O problema dessa ideia caridosa de que o ridículo mata é que, normalmente, as potenciais vítimas mais merecidas não percebem a ironia (ou mesmo o sarcasmo) quando lhes é aplicado.
Só se as coisas lhes forem ditas mesmo à bruta.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Maldição da Cadeia 161


O Miguel Portas atou-me para sempre, aqui, à demoníaca Cadeia 161. Uma citação qualquer, de um livro qualquer, desde que da página 161.

Isso já me custou abrir a garrafa de sake que tinha amorosamente trazido (e guardado) de um bairro japonês numa cidade sul-americana, e descobrir que grande parte das minhas estantes anseiam pela visita de um espanador.

No livro que mais releio, um tal de Coronel Aureliano Buendia está, a páginas 161, letárgico com uma guerra civil que não adianta nem atrasa, respondendo ao anúncio da visita de uma delegação do seu Partido Liberal com um lapidar «Levem-nos às putas». Tem piada e algo mais, mas não sei se será a melhor citação para as gerações vindouras.
O poema que mais digo e recordo está num livro de menos de 161 páginas, tal como se fica pelas 126 o Corto Maltese en Sibérie que o transcreve entre imagens belíssimas.

Inspiração divina! O Arranca Corações, do Boris Vian, tem exactamente 161 páginas impressas!E na última diz,

«Devia ser maravilhoso estarem assim todos juntinhos, com uma pessoa para os acarinhar, assim dentro daquela gaiolinha tão quente, tão cheia de amor.»

São os tempos que correm, não?

Passo a bola às vítimas seguintes: Rogério Moreira, Miguel Cartaxo, Karin Wall, Cristiana Bastos e José Flávio Teixeira.

O dia de todos os químicos


Em Leça da Palmeira, umas explosões e fogo.
Não se sabe, nem interessa muito, a fonte de ignição. Interessa que havia uma concentração exagerada (como se provou) de hidrocarbonetos nos drenos e numa ETAR.
Por alguma purga de emergência, plausível após paragem de manutenção? Por uma também plausível acumulação de produtos em resultado dos próprios trabalhos de manutenção geral? Uma ou outra, agravada pelo deficit de atenção e cuidado que, um pouco por todo o mundo, costumam merecer os equipamentos que vão ser "passados à reforma"?
Talvez. E talvez até se venha a saber, mesmo que tais coisas venham a ser apresentadas como "normais", porque de facto são estranhamente "normais" nas cabeças de quem tem que pôr uma refinaria a funcionar depressa.

Para os lados de Aveiro, um desgraçado mandou um espirro mais forte e espalhou um camião de soda cáustica pela A1 fora...

Perto de Portalegre, uma ultrapassagem optimista cobriu a EN371 de ácido para trabalhar resinas e PVC.

Bem mais longe, o Mar Negro está negro de petróleo, depois do acidente de um navio que deveria estar proibido de navegar.

Uma ocasião para, sem alarmismos nem cabeças de avestruz, pararmos um pouco para pensar na nossa segurança, na do nosso país e na do nosso planeta (se é que não são uma só)?

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

90 anos da Revolução de Outubro

Pois é. Foi anteontem mais um aniversário da Revolução de Outubro. Este, com um número bem redondo.
Assoberbado de trabalho por dois acontecimentos inadiáveis (um dos quais acabou por ser, à última hora, adiado por terceiros), não deu para um post digno e atempado.
Fica aqui a minha curta e modesta contribuição para as comemorações, antes que passe de todo a ocasião:

Disse um icone do século XX que «o primeiro dever de um revolucionário é fazer a revolução».
Acrescento que o segundo dever de um revolucionário é, saindo vitorioso, assegurar as condições de livre e efectiva oposição ao seu poder. A bem da revolução.