Deu entrada na gráfica o mais recente livro de Carlos Serra (figura mais que grada da sociologia e do bloguismo moçambicanos), que tive a inesperada honra de prefaciar.
O texto resultante é longo para um blog mas, para benefício dos eventuais interessados, aqui fica ele:
Este é um livro incómodo, escrito por um moçambicano incómodo.
O que, diria eu, é uma bênção para o leitor e para o país a que se referem as reflexões e análises que Carlos Serra aqui nos apresenta.
Permitam que me explique.
É muito cómodo, claro está, vivermos e olharmos para o mundo à nossa volta repetindo, a cada acontecimento desagradável ou perturbador com que nos cruzamos, algumas justificações prontas a usar, que parecem explicar de forma simples e tranquilizadora a superfície daquilo que vemos. Esta coisa aconteceu porque as pessoas são irracionais ou não sabem viver numa cidade, aquela ali porque se trata de algo natural ou porque sempre foi assim, aqueloutra porque interesses ocultos manipulam as pessoas, porque não se pode fazer melhor, ou porque «o moçambicano é assim mesmo». Justificações como estas têm ainda a cómoda vantagem de as ouvirmos ser repetidas por muitos outros à nossa volta, acabando por nos parecerem explicações de mero bom senso e uma confirmação do nosso próprio bom senso. Com um pouco de sorte, as justificações desse tipo até nos podem permitir ignorar os tais acontecimentos que nos perturbam, seja porque eles nos passam a parecer algo que faz parte da ordem natural do mundo, seja porque nos passam a parecer irrelevantes e fora da nossa responsabilidade. E podemos, comodamente, não pensar mais nisso - e menos ainda fazer alguma coisa.
Se somos cientistas sociais, o mais cómodo é, também, irmo-nos especializando naqueles temas que vão estando em destaque nas agendas de pesquisa internacionais, por aqui evidenciados através do súbito pulular de projectos financiáveis e de consultorias que, quantas vezes, têm até a cómoda gentileza de fornecerem já a conclusão desejada, subentendida ou explicitada no caderno de encargos. Entrados nesse cómodo terreno, é igualmente mais cómodo mantermo-nos nele, evitando incursões por assuntos arriscados, polémicos e conflituais que, para cúmulo, possam ser sensíveis e desagradáveis para os poderes instalados. Ou até, se necessário, dizer acerca desses tais temas difíceis aquilo que julgamos que alguma pessoa importante ficará satisfeita em ouvir-nos dizer.
Tudo isto é cómodo. Bem mais cómodo, certamente, do que pormo-nos a questionar, a analisar e a estudar questões como as que são abordadas neste livro.
Tudo isso é cómodo, dizia, mas tudo isso tem um preço.
No segundo quartel do século passado, o intelectual e activista italiano Antonio Gramsci foi cunhando, durante o seu encarceramento como prisioneiro político, a ideia de “hegemonia”. Ao longo das últimas décadas, temos ouvido muitos cientistas sociais e comentadores de todos os tipos encherem a boca com essa palavra, dando-lhe embora um sentido limitado e para o qual já existia uma outra expressão: “supremacia”. Um sentido limitado, quase um desperdício semântico, porque o sucessivo burilar da noção de hegemonia por parte de Gramsci - à medida que ia necessitando de a utilizar como ferramenta analítica - desembocou em algo bem mais relevante e útil, para olhar e pensar o mundo, do que uma palavra mais fina para designar “supremacia”. Hegemonia queria simultaneamente dizer, no final desse seu percurso, a reprodução e legitimação do domínio de um grupo com base no convencimento dos subalternos através de meios ideológicos e, por outro lado, a aceitação e integração pelos subalternos, na sua própria ideologia, da ideologia dos dominantes - que justifica e legitima a dominação de que estes gozam e de que os subalternos sofrem.
Digamos que é devido à hegemonia - nesses sentidos atribuídos por Gramsci - que são mulheres quem ensina as mulheres mais novas a submeterem-se aos homens, que ouvimos pessoas que não têm o suficiente para viver papaguearem que “sempre houve ricos e pobres”, que se atribua a riqueza à inteligência e empenho dos ricos e a pobreza à estupidez e preguiça dos pobres, ou que a ideia de “raça” e a diferenciação quotidiana em função dela ainda continuam a ser tão relevantes, em países há décadas libertados de regimes racistas.
Uma das consequências desse processo de hegemonia está lapidarmente expressa na frase de Steve Biko que o autor deste livro tem afixada no seu blog: «A mais potente arma nas mãos do opressor é a mente do oprimido.»
Outra consequência é especialmente importante num país como Moçambique, em que as pessoas estão submetidas a dois diferentes efeitos de hegemonia - por um lado, à pressão hegemónica dos países mais ricos e de matriz cultural euro-americana e, por outro, à pressão hegemónica dos grupos dominantes locais, decorra ela do poderio político, do económico ou da “tradição”. É que encarar os acontecimentos desagradáveis lançando mão, comodamente, dessas “ideias pronto-a-vestir” de que Carlos Serra também nos fala nas páginas deste livro, contribui para esconder as suas causas, para baralhar as suas lógicas, para desresponsabilizar os vários grupos dominantes - culpabilizando os dominados, o “exterior” ou a ordem natural do mundo. Contribui, afinal, para reproduzir e legitimar as relações de dominação e de desigualdade. E se, em vez disso, tentamos olhar para o lado e ignorar esses acontecimentos desagradáveis, o resultado é semelhante, pois o silêncio da sua fingida inexistência está já ocupado pelos hegemónicos lugares-comuns que, nesse caso, nos limitamos a não verbalizar.
Não deixa de ser verdade que os cientistas sociais e restantes intelectuais que olham para o lado e se continuam a dedicar apenas aos temas financiáveis das agendas internacionais, à medida que á sua volta ocorrem vagas de linchamentos, levantamentos populares, agravamentos das assimetrias sociais e das condições de vida da maioria, iniquidades praticadas em nome da tradição ou da modernidade, estão no seu direito de ficarem acantonados no seu cantinho. Como pessoas que são, estão de facto no direito de se centrarem naquilo que consideram ser os seus interesses, de buscarem assegurar o que consideram melhor para si e para os seus e de, para o fazerem, se resguardarem comodamente - seguindo apenas os caminhos sem riscos nem desafios já trilhados por quase todos os outros e evitando temas polémicos, politicamente sensíveis e que lhes possam trazer dissabores.
Mas, mais uma vez, isso tem os seus custos. Se as pessoas que tiveram oportunidade de aprender e de adquirir as ferramentas científicas que lhes permitem analisar as causas, dinâmicas e consequências dos fenómenos sociais para lá das aparências superficiais, dos lugares-comuns e das auto-justificações, não os utilizarem para analisar os problemas com que se confronta a sociedade, esses problemas não serão compreendidos para lá, precisamente, da superficialidade dos lugares-comuns. Ao não serem compreendidos, não poderão ser resolvidos nem minimizados de forma eficaz. Pior ainda, aquilo que é habitual quando os problemas não são combatidos, ou o são com base em preconceitos, é que eles se agravem e induzam outros, ainda mais complexos e graves.
É contra tais custos que se torna tão valiosa a capacidade de Carlos Serra nos incomodar.
Afirma-se frequentemente, com bastante leveza e razoável exagero, que os livros nos dizem mais acerca do seu autor do que sobre os temas abordados. Também no caso deste livro seria um abusivo exagero afirmá-lo. Mas não hesito em declarar que, na sua leitura acessível e diversidade temática, ele é um eloquente repositório da postura que Carlos Serra mantém na vida e nas ciências sociais.
Trata-se de um homem incomodado com as crescentes assimetrias sociais, com vidas concidadãs vividas no fio da navalha, com a violência (a do rio, mas também a das margens que o comprimem, conforme tantas vezes cita), com as justificações superficiais e desresponsabilizadoras, com a irrelevância a que são votados os mais desafortunados. Trata-se, suspeito-o, de um homem incomodado com o carácter incómodo que foram assumindo os valores de equidade e justiça social que nortearam a luta pela independência e nortearam a ideia daquilo que o país deveria vir a ser.
É também um homem que partilha a incómoda ideia de que os cientistas sociais têm responsabilidades perante a sociedade e que, para além dos temas das agendas importadas, deverão estudar e analisar aquilo que se passa diante dos seus olhos. Sobretudo se é de problemas, conflitos, tensões que se trata.
Mas é, ainda, um homem que não se limita a “achar que”, antes praticando aquilo que apregoa. Pratica-o em pesquisas académicas clássicas e pratica-o em directo, sem rede e de peito aberto à crítica e ao debate público que suscita, naquele seu blog que é carinhosamente crismado, por muitos dos seus leitores, como “Rádio Maputo”.
É, de facto, no Diário de um Sociólogo – espaço onde nasceram os textos deste livro - que milhares de leitores, moçambicanos e estrangeiros, melhor se sentem informados daquilo que se passa em Moçambique. Mas é também aí, e muitas vezes apenas aí, que os acontecimentos, fenómenos e problemas socialmente relevantes e incómodos (a par de mais alguns, que de outra forma se teriam tornado em não-questões, por efeito dos processos de naturalização e hegemonia), são levantados, abordados, analisados e escalpelizados, em interacção com os leitores.
A lista é impressionante e corresponde, afinal, ao índice deste livro. Permitam-me lembrar, contudo, que ela vai dos linchamentos às liturgias políticas, do Setembro de 2010 à condição dos cientistas sociais, das desigualdades económicas às representações do género e da africanidade, das violências sociais aos boatos e crenças significativos, da manipulação da história à marginalização da pobreza.
Ora as abordagens de Carlos Serra a temas e fenómenos como estes incomodam a paz podre do ”não vamos pensar nisso”. Não pensar e não falar porque, dizem uns, essas coisas são muito complicadas e só se pode discuti-las depois de amplas recolhas de dados, que não têm qualquer intenção de algum dia vir a fazer. Ou porque, contrapõem outros, tudo isso é já claro, bastando os tais lugares-comuns prontos a usar para que compreendamos o que se passa. Ou ainda porque, ameaçam terceiros, falar de fenómenos desagradáveis é lançar gasolina sobre o fogo - como se, conforme comentava com ironia o meu colega Emídio Gune, um médico estivesse a espalhar uma doença por dizer a um paciente que ele a tem. Ou finalmente porque, sussurram muitos, falar de fenómenos sensíveis pode desagradar a quem manda.
O nosso autor confrontou alguns desses raciocínios e atitudes, não atribuindo a outros deles a dignidade merecedora de resposta.
Independentemente de tais incomodadas críticas, é evidente que os efeitos do seu labor têm um valor social incalculável. Ao expor e abordar com seriedade analítica esses assuntos, Carlos Serra abana e faz ruir a cómoda possibilidade de os ignorarmos, ou de os encararmos á luz da displicência dos lugares-comuns, caso prezemos a nossa integridade intelectual e cidadã. Ao mesmo tempo demonstra, pelas próprias análises que faz, que tais questões podem ser abordadas de forma aprofundada, séria, e em respeito pelos critérios científicos.
Claro está que, onde há duas cabeças de cientistas sociais, haverá certamente duas sentenças, por vezes complementares, por vezes antagónicas. Também o leitor poderá concordar ou não com cada uma das análises e conclusões que se sucedem ao longo deste livro. Mas de duas coisas poderá estar certo: uma, da honestidade intelectual com que essas análises foram feitas; outra, de que mais vale haverem duas, cem ou mil sentenças acerca de um problema relevante do que não haver nenhuma, por nos termos resguardado na nossa comodidade e ninguém se ter dado ao trabalho de nos incomodar. Não sei, aliás, se o mais importante é concordar com o autor, ou ter sido por ele incomodado a pensar nesses assuntos e a fazê-lo com profundidade, seriedade e espírito crítico.
Daí decorre, afinal, um outro valioso efeito do trabalho de Carlos Serra e da incomodidade que ele suscita.
Com uma carreira docente que praticamente acompanha o Moçambique independente e que assistiu à formação e consolidação de um já numeroso conjunto de cientistas sociais de elevada qualificação e potencial, não se limitou a ensinar aos seus alunos autores que pudessem comodamente papaguear. Procurou instigar-lhes a autonomia e a capacidade crítica e analítica, aplicadas a questões socialmente relevantes, com os pés bem assentes na aprendizagem do terreno e em conhecimentos teóricos, entendidos como ferramentas do ofício de quem quer compreender, e não como receitas que substituem o processo de compreensão. Essa preocupação, tão bem expressa no capítulo 76 deste livro, «Riscos espreitando os jovens cientistas sociais moçambicanos», tem sido prosseguida, de forma eventualmente ainda mais intensa, na orientação dos jovens investigadores que foram colaborando nas suas pesquisas, no Centro de Estudos Africanos. Quero crer que essa incómoda acção de décadas sairá, em numerosos casos, vencedora dos cómodos riscos contra os quais o autor nos alerta. Mas estou certo de que, em cada novo sociólogo livre que venha enriquecer o seu país, abordando com profundidade e seriedade problemas relevantes da sociedade moçambicana, estará uma quota-parte da herança de incómoda acção e exemplo de Carlos Serra.
No entanto, ao sair das fronteiras da universidade e discutir com o público as suas “notas de reflexão e pesquisa”, como lhes chama, o nosso autor alargou a sua herança bem para lá do espaço académico. Alimentando incansavelmente o seu blog, sempre aberto ao debate, ele instiga muitos e muitas, jovens e menos jovens, com formação superior ou sem ela, a não se contentarem com a comodidade das desculpas fáceis e dos lugares-comuns, da desresponsabilização social e da resignação. Instiga-os a serem mais exigentes consigo próprios e com os outros. Instiga-os, afinal, a serem mais livres e cidadãos.
É caso para pedir: «Continua a incomodar-nos, Carlos!»
terça-feira, 5 de julho de 2011
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Uma hipótese que merece reflexão:
Será que as mulheres moçambicanas se dividem em dois mundos, o das modernas e com estudos, que dormem, e o das restantes, que se deitam depois de todos lá em casa e se levantam antes do sol?
Para além do exoticismo made in Maputo dessa reportagem no "meu" bairro do Xipamanine, há sempre, claro está, a questão de se tomarem as consequências por causas.
Mas - diz alguém que viveu e estudou gente que trabalha por turnos - não valerá a pena pensar se essas consequências circadianas não poderão ser, por sua vez, causa de consequências insuspeitadas?
Para além do exoticismo made in Maputo dessa reportagem no "meu" bairro do Xipamanine, há sempre, claro está, a questão de se tomarem as consequências por causas.
Mas - diz alguém que viveu e estudou gente que trabalha por turnos - não valerá a pena pensar se essas consequências circadianas não poderão ser, por sua vez, causa de consequências insuspeitadas?
(o alerta veio, claro, do Carlos Serra)
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sexta-feira, 1 de julho de 2011
Tudo bem, desde que eu continue a gastar à tripa-fôrra e vocês paguem a factura, lá no contnênte
O inefável Alberto João Jardim diz que concorda com o roubo do Subsídio de Natal, porque prefere um governo cruel a um governo mentiroso.
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Galos de Barcelos,
Isto é que vai uma crise,
Rés Pública,
Ri-te ri-te...
A gente até as adivinha...
Vai uma aposta que, este ano, os administradores das empresas não vão ter Subsídio de Natal, mas "prémios de produtividade" mais chorudos?
E que a lei que sustentará o novo imposto vai ser escrita de forma que torne possível fazê-lo?
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Isto é que vai uma crise,
Rés Pública
Há quem fale
Excertos da entrevista ao Savana de Severino Ngoenha, o primeiro filósofo moçambicano que tive o prazer de conhecer e de ter por colega, já em finais do século passado:
"Quando vejo certas práticas a que se prestam certas elites moçambicanas, como acordos de parceria com empresas ou indivíduos sem escrúpulos, pergunto-me se o discurso é diferente do discurso de António Enes (...) todo o sistema de dominação do nosso povo contou sempre com a cumplicidade de grupos entre nós (...) Então, ao mesmo tempo que o número e a qualidade de carros carros de luxo aumenta na cidade (...) o número de pobres, de miseráveis, não cessa de aumentar (...) Se a questão é dinheiro, então somos mais baratos que os nossos predecessores. Temos de lembrar que uma espingarda no século passado era mais difícil de construir que um Mercedes hoje (...)."
(tirado do Diário de um Sociólogo)
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quinta-feira, 30 de junho de 2011
Não necessariamente
Perante a avalanche de desgraças e despautérios hoje anunciada na casa da democracia, que tal juntar meia dúzia de maduros que percebam de direito com outros tantos criativos, para esgalhar acções de resistência civil que passem por não-pagamentos ao estado e a empresas a privatizar e que, por mais que o governo amarinhe pelas paredes acima, sejam juridicamente intocáveis?
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Isto é que vai uma crise,
Rés Pública
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Identidades, peles e crianças racialmente daltónicas
À conta da resposta a um comentário neste post, acabei por me estender mais do que esperava, mas de uma forma que poderá interessar a alguns de vós.
Aqui fica:
«As classificações (das pessoas e de tudo o que nos rodeia) constroem-se e transmitem-se enfatizando algumas características daquilo que se classifica e não dando atenção a outras. Sem isso não se poderia dizer "cão" ou "pessoa", pois são todos diferentes.
Quando a classificação faz parte da construção de identidades, individuais ou colectivas, esse processo de enfatização de umas características e de "irrelevantização" de outras segue dois vectores necessários para se poder traçar a fronteira entre "nós" e os "outros", que serve de base a uma identidade: é necessário postular (de forma que se torne minimamente consensual) um conjunto de características "comuns" que sejam "nossas", e um conjunto de características "diferentes" que sejam dos outros.
As características seleccionadas podem ser muito distintas, conforme a fronteira identitária que se pretende traçar; mas tem sempre que haver uma enfatização de umas e um fechar dos olhos a outras e alguma aceitação colectiva da sua relevância, para que a identidade resultante possa ser partilhada.
O tom de pele é uma caractérística entre muitas outras de qualquer ser humano, e como tal pode ser enfatizada, subestimada ou ignorada, tanto no processo de classificação como no de percepção (se é que os podemos distinguir para lá de um nível meramente abstracto). Só se torna mais relevante, em termos cognitivos e representacionais, do que o tamanho do dedo grande do pé a partir do momento em que se torne pertinente para estabelecer uma diferenciação, e que a pessoa se aperceba de que essa característica diferenciadora é pertinente para os outros.
Por outras palavras, a diferença de tom de pele, por muito que pareça "meter-se pelos olhos dentro", tem que ser aprendida para que se lhe dê atenção.
Devido a isso e à vivência na minha própria casa, não tenho dúvidas em sustentar que as crianças são racialmente "daltónicas" até que estímulos exteriores (que podem, é verdade, ser muito precoces) as ensinem a ver a cor da pele, quando a olham.
Isto, apesar do turbilhão classificatório e identitário em que as crianças pequenas vivem.
Porque quando chamam (ou para que chamem) a outra "gorda", "feia" ou "preta", essas classificações têm que ter sido aprendidas a montante e ser objecto de negociação social.
Ser "gordo" é uma qualificação quantitativa e ser "feio" é qualitativa. Mas em ambas foi necessário aprender a relevância (quanto mais não seja, enquanto insulto) e ambas necessitam de suscitar consenso exterior, pois a sansão, ao chamar-se "gordo" ou "feio" a quem os interlocutores achem "magro" ou "bonito" é o ridículo.»
Aqui fica:
«As classificações (das pessoas e de tudo o que nos rodeia) constroem-se e transmitem-se enfatizando algumas características daquilo que se classifica e não dando atenção a outras. Sem isso não se poderia dizer "cão" ou "pessoa", pois são todos diferentes.
Quando a classificação faz parte da construção de identidades, individuais ou colectivas, esse processo de enfatização de umas características e de "irrelevantização" de outras segue dois vectores necessários para se poder traçar a fronteira entre "nós" e os "outros", que serve de base a uma identidade: é necessário postular (de forma que se torne minimamente consensual) um conjunto de características "comuns" que sejam "nossas", e um conjunto de características "diferentes" que sejam dos outros.
As características seleccionadas podem ser muito distintas, conforme a fronteira identitária que se pretende traçar; mas tem sempre que haver uma enfatização de umas e um fechar dos olhos a outras e alguma aceitação colectiva da sua relevância, para que a identidade resultante possa ser partilhada.
O tom de pele é uma caractérística entre muitas outras de qualquer ser humano, e como tal pode ser enfatizada, subestimada ou ignorada, tanto no processo de classificação como no de percepção (se é que os podemos distinguir para lá de um nível meramente abstracto). Só se torna mais relevante, em termos cognitivos e representacionais, do que o tamanho do dedo grande do pé a partir do momento em que se torne pertinente para estabelecer uma diferenciação, e que a pessoa se aperceba de que essa característica diferenciadora é pertinente para os outros.
Por outras palavras, a diferença de tom de pele, por muito que pareça "meter-se pelos olhos dentro", tem que ser aprendida para que se lhe dê atenção.
Devido a isso e à vivência na minha própria casa, não tenho dúvidas em sustentar que as crianças são racialmente "daltónicas" até que estímulos exteriores (que podem, é verdade, ser muito precoces) as ensinem a ver a cor da pele, quando a olham.
Isto, apesar do turbilhão classificatório e identitário em que as crianças pequenas vivem.
Porque quando chamam (ou para que chamem) a outra "gorda", "feia" ou "preta", essas classificações têm que ter sido aprendidas a montante e ser objecto de negociação social.
Ser "gordo" é uma qualificação quantitativa e ser "feio" é qualitativa. Mas em ambas foi necessário aprender a relevância (quanto mais não seja, enquanto insulto) e ambas necessitam de suscitar consenso exterior, pois a sansão, ao chamar-se "gordo" ou "feio" a quem os interlocutores achem "magro" ou "bonito" é o ridículo.»
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Torcendo o pepino
sábado, 25 de junho de 2011
Toda a nudez será castigada
Amanhã, lá terá a minha filhosca que vestir um calçãozito. E eu.
Sim, que há prioridades civilizacionais, que diabo!
Está bem que podemos fazer e ver guerras e homicídios brutais ao jantar, empurrar países para a bancarrota para recapitalizar os "nossos" bancos, condenar milhões de pessoas ao desemprego e à miséria, matar outras tantas à fome, havendo comida.
Mas já as descascadices são umas coisas obscenas que atentam contra o pudor...
(PS: 3º parágrafo acrescentado a pedido de uma pessoa que me é cara, temendo ela que, sem esse acrescento, a brutalidade da foto não falasse por ele.)
Sim, que há prioridades civilizacionais, que diabo!
Está bem que podemos fazer e ver guerras e homicídios brutais ao jantar, empurrar países para a bancarrota para recapitalizar os "nossos" bancos, condenar milhões de pessoas ao desemprego e à miséria, matar outras tantas à fome, havendo comida.
Mas já as descascadices são umas coisas obscenas que atentam contra o pudor...
(PS: 3º parágrafo acrescentado a pedido de uma pessoa que me é cara, temendo ela que, sem esse acrescento, a brutalidade da foto não falasse por ele.)
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É a vida,
Galos de Barcelos,
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Beleza
Flying in a motorized paraglider over one of the most diverse continents in the world, George Steinmetz captures in his photographs the stunning beauty, potential and hope of Africa's landscapes and people. See the project at http://mediastorm.com/publication/african-air
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segunda-feira, 20 de junho de 2011
Citações de café (33)
As coincidências são coisas lixadas.
Primeiro, levava hoje a cadela ao passeio higiénico quando vi chegar, à esplanada de café por onde passava, a mesma criança angolana que havia sido trazida há décadas para Portugal e que, numa reportagem televisiva, tinha visto minutos antes ser levada de visita a Angola, conhecer a sua família biológica.
Logo de seguida, eu (que passo a vida a citar o caso das aldeias perto de Alcácer do Sal onde os vizinhos dos descendentes de escravos dos arrozais não conseguem descortinar-lhes traços africanos, embora reconheçam imediatamente como "mulatos" os forasteiros que os tenham de forma muito menos evidente), ouvi esta frase que lhe era dirigida:
- Mas o preto era muito parecido contigo. Era mesmo teu irmão?
Primeiro, levava hoje a cadela ao passeio higiénico quando vi chegar, à esplanada de café por onde passava, a mesma criança angolana que havia sido trazida há décadas para Portugal e que, numa reportagem televisiva, tinha visto minutos antes ser levada de visita a Angola, conhecer a sua família biológica.
Logo de seguida, eu (que passo a vida a citar o caso das aldeias perto de Alcácer do Sal onde os vizinhos dos descendentes de escravos dos arrozais não conseguem descortinar-lhes traços africanos, embora reconheçam imediatamente como "mulatos" os forasteiros que os tenham de forma muito menos evidente), ouvi esta frase que lhe era dirigida:
- Mas o preto era muito parecido contigo. Era mesmo teu irmão?
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Moçambicando
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Mudanças que mudem
Nos últimos tempos, tenho-me lembrado muito deste post do João Feijó:
- (jornalista) O que queria que acontecesse depois das eleições?
- (vendedora de rua) Queria que houvesse paz, que não houvesse guerra. Que houvesse emprego. Queria que houvesse mudanças.
- (jornalista) Que mudanças queria que houvessem?
- (vendedora) Queria que as mudanças mudassem.
- (jornalista) O que queria que acontecesse depois das eleições?
- (vendedora de rua) Queria que houvesse paz, que não houvesse guerra. Que houvesse emprego. Queria que houvesse mudanças.
- (jornalista) Que mudanças queria que houvessem?
- (vendedora) Queria que as mudanças mudassem.
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Moçambicando
A não ser que prefiram o pic nic do Continente...
No sábado discute-se sindicalismo, contra a escalada neoliberal.
O programa é este:
O manifesto que serviu de ponto de partida a este seminário está disponível aqui.
A gente vê-se por lá?
quarta-feira, 8 de junho de 2011
E não é que o Beijo de Mulata ainda não estava nos links?
À conta de um comentário, descobri que afinal não tinha ainda o Beijo de Mulata aí na lista de links.
Ele há com cada uma...
Olhem: vão lá ver, que não se arrependem.
Ele há com cada uma...
Olhem: vão lá ver, que não se arrependem.
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domingo, 5 de junho de 2011
«Esta coisa das eleições tem porras...»
No distrito de Santarém, onde passei alguns anos da minha vida, um dos melhores deputados do anterior parlamento, o Zé Guilherme Gusmão (BE), acabou por não ser re-eleito.
Como se diz por lá, «esta coisa das eleições tem porras...».
Mesmo quando a injustiça é flagrante.
Vá lá que, ao fechar da contagem, um outro de entre esses melhores, o Tó Filipe (PCP), conseguiu os votos necessários.
Não se perdeu tudo, só uma óptima metade.
Para ambos, um abraço bem apertado e amigo.
Como se diz por lá, «esta coisa das eleições tem porras...».
Mesmo quando a injustiça é flagrante.
Vá lá que, ao fechar da contagem, um outro de entre esses melhores, o Tó Filipe (PCP), conseguiu os votos necessários.
Não se perdeu tudo, só uma óptima metade.
Para ambos, um abraço bem apertado e amigo.
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quinta-feira, 2 de junho de 2011
Manifesto Contra a Escalada Neoliberal, Por Uma Nova Agenda Sindical
«Na última década, no quadro das novas condições da globalização, o capital multinacional e os governos neoliberais desencadearam uma nova fase de liberalização, de privatizações, de ataques sistemáticos ao Estado Social e aos direitos dos cidadãos e dos trabalhadores. Na Europa, boa parte das medidas anti-sociais e anti-laborais foi justificada em nome dos critérios de convergência para a moeda única e em nome da defesa da estabilidade financeira da zona euro.
A crise financeira global que emergiu em 2007-2008, em vez de constituir uma oportunidade para os governos e instâncias supranacionais repensarem os tremendos riscos sociais e políticos do liberalismo de mercado, introduzindo mecanismos de regulação e reorientação das políticas económicas, teve um resultado bem diferente. Com efeito, os Estados acorreram a salvar os sistemas financeiros, injectando somas colossais, sem lhes fazer exigências ou introduzir penalizações. Não impondo a regulação que se impunha, colocaram-se à mercê dos mercados financeiros, da sua voracidade e das suas condições de financiamento, que penalizam dramaticamente os países em situação mais frágil.
As instâncias da União Europeia tremeram pelo Euro e sucumbiram à chantagem fazendo suas as condições das instituições financeiras. As regras da zona Euro quanto ao controlo do défice e da divida têm vindo a constituir o pretexto para propostas de políticas que visam cumprir integralmente a agenda neoliberal, salvaguardando os interesses dos ricos e poderosos e penalizando brutalmente os trabalhadores e demais cidadãos. No quadro da escalada da crise, em 2010, a UE reforçou os constrangimentos e pressões sobre os estados membros, processo que se acentuou recentemente com a cimeira do Conselho Europeu de 24 e 25 Março.
Os países do sul da Europa (Espanha, Grécia e Portugal) e a Irlanda incluídos na zona Euro, têm sofrido as consequências da tripla pressão FMI/Agências privadas de rating/ União Económica Monetária, levando ao corte dos salários dos trabalhadores do sector público, ao corte do investimento público no sector produtivo, a novas privatizações, à redução da protecção social, incluindo o congelamento ou diminuição das pensões e benefícios sociais e a multiplicação das restrições ao seu acesso, bem como a limitação dos subsídios de desemprego e a facilitação dos despedimentos.
As consequências desta tripla pressão são dramáticas, visto que põem em causa o Estado Social e os direitos laborais duramente alcançados, promovendo a desigualdade e a exclusão social e, em vez de promoverem o crescimento e o desenvolvimento económico, aprofundam a crise económica através de uma política fortemente recessiva. No plano político, fragilizam-se as bases da democracia e do exercício da cidadania, enfraquecendo também o poder de decisão dos parlamentos nacionais.
Na Europa, em muitos países, os trabalhadores e demais cidadãos, os sindicatos e variadas organizações da sociedade civil, têm vindo a reagir fortemente contra as políticas de austeridade, com greves gerais, manifestações e outras formas de contestação, incluindo a adesão às iniciativas de protesto da Confederação Europeia dos Sindicatos. Em Portugal, os trabalhadores do sector público e do sector privado, os precários e não precários, têm vindo a exigir uma viragem nas políticas nacionais e europeias. Em Portugal, a greve geral do sector público e privado de 24 de Novembro de 2010, juntando a CGTP e a UGT, constituiu uma resposta unitária massiva aos planos de austeridade dos vários PECs e do Orçamento para 2011. A manifestação de 19 Março de 2011 promovida pela CGTP contra o mais recente PEC 4 insere-se também neste movimento. A extraordinária mobilização do 12 de Março, ao apelo dos jovens, mostrou a quem tinha dúvidas a profunda vontade de mudança no sentido da justiça social.
Os sindicatos estão numa situação crítica sem precedentes, em Portugal e na Europa, confrontados com sucessivos planos de austeridade que representam um verdadeiro retrocesso social. Simultaneamente são atacados como estruturas corporativas que defenderiam interesses instalados ou como obstáculos ao livre funcionamento do mercado de trabalho. São acusados de pactuar com o desemprego quando defendem a estabilidade do vínculo laboral. São acusados de aprofundar a crise quando defendem salários decentes e o Estado Social. São pressionados a aceitar mais e mais flexibilidade e insegurança. Em suma, são pressionados a deixar de desempenhar o seu papel como sindicatos.
Nas últimas duas décadas os sindicatos definiram em grande medida as suas estratégias e práticas numa lógica defensiva face à agenda liberal. A crise actual e o que se anuncia exige uma profunda reflexão, ancorada é certo nas aquisições da experiencia sindical passada, mas capaz de promover novas agendas, estratégias e práticas que reforcem a capacidade dos sindicatos de influenciar realmente os acontecimentos.
É fundamental reter uma lição da experiência acumulada: a construção da capacidade de mobilização dos trabalhadores e de inscrição na sua vida colectiva é uma fonte essencial do seu poder de negociação e do seu poder de alcançar resultados. À deriva burocrática e rotineira, é preciso responder com o reforço da democracia interna e com a ampla discussão envolvendo a base. Ao fechamento dos sindicatos é preciso responder com a abertura e diálogo com outras organizações e associações da sociedade civil, criando sinergias e potenciando a acção comum efectiva. A relação dos sindicatos com os partidos políticos, que foi sendo historicamente uma constante do movimento dos trabalhadores, tem de ser repensada, reforçando a autonomia e independência dos sindicatos, mas permitindo a acção conjunta quando a natureza transversal do combate político e social o exigir.
A reflexão impõe-se para uma acção esclarecida e coordenada a nível nacional e europeu. E certamente também no plano internacional. Com o desmantelamento dos direitos sociais e laborais na Europa não é só a Europa e os países que dela fazem parte que têm a perder. A sua defesa na Europa é um capital de esperança para os trabalhadores e cidadãos de todo o mundo, incluindo nos países onde milhares e milhares de trabalhadores ingressando agora nas empresas industriais subcontratadas ou deslocalizadas da Ásia começam a fazer as primeiras experiências de acção colectiva, ainda sem sindicatos livres e independentes.
Nós, sindicalistas, cidadãos envolvidos em diferentes organizações e movimentos sociais, e cientistas sociais, decidimos tomar em mãos algumas iniciativas para contribuir para esta reflexão urgente, porque sentimos que é exigido o concurso de todos e a partilha de experiências e pontos de vista para aprofundar o diagnóstico, encontrar respostas e formular acções, no quadro da liberdade de expressão discussão. Este manifesto é o nosso ponto de partida.»
Seguem-se 60 signatários - sindicalistas, activistas dos movimentos sociais e investigadores.
Um deles sou eu.
O debate continua dia 18.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Julgamentos de feitiçaria, hegemonias locais e relativismos
É capaz de ter piada para quem goste de cenas exóticas e de africanices. O que, por si só, é uma muito respeitável motivação para ler.
Para mim, representa um pouco mais que isso, quer em termos pessoais quer por se tratar da área em que, provavelmente, o trabalho das ciências sociais pode ter maior visibilidade e (com todas as boas vontades) maiores efeitos perversos e negativos em Moçambique.
Falo de um artigo no Buala, um site que muito prezo, acerca de julgamentos de feitiçaria e de como as "pluralidades jurídicas" e as aplicações acríticas do relativismo cultural aos direitos das pessoas acabam por reforçar e legitimar as desigualdades e hegemonias locais, reproduzindo violentos mecanismos de dominação.
Tough stuff, portanto... Ouço as facas a afiarem-se.
Para mim, representa um pouco mais que isso, quer em termos pessoais quer por se tratar da área em que, provavelmente, o trabalho das ciências sociais pode ter maior visibilidade e (com todas as boas vontades) maiores efeitos perversos e negativos em Moçambique.
Falo de um artigo no Buala, um site que muito prezo, acerca de julgamentos de feitiçaria e de como as "pluralidades jurídicas" e as aplicações acríticas do relativismo cultural aos direitos das pessoas acabam por reforçar e legitimar as desigualdades e hegemonias locais, reproduzindo violentos mecanismos de dominação.
Tough stuff, portanto... Ouço as facas a afiarem-se.
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sábado, 14 de maio de 2011
Bolinhas televisivas
Está a passar na RTP 2 um filme identificado como para maiores de 16 anos - coisa, portanto, terrível para qualquer um com mais de 40 - que, apesar disso, foi antecedido do raro aviso acerca da possibilidade de chocar olhares mais sensíveis e vai passando com a bolinha ao canto do ecrã que, normalmente, deverá identificar películas próximas da pornografia hard core ou do bacanal de sangue. Embora mais as primeiras do que as segundas.
Do que se trata?
De um filme acerca de 5 desgraçados magalas franceses na I Guerra Mundial, condenados à morte por mutilação voluntária, e executados sob a forma de expulsão para a "terra de ninguém", até que os alemães os baleassem de forma suficiente para morrerem. E das demarches da namorada de um deles para clarificar e denunciara a coisa.
Bolinha vermelha, claro.
Se a nudez e uma sugestão de sexo dão bolinha, se uma reprodução de homicídios de tripas de fora ou de massacres e genocídios (desde que não sobre africanos, veja-se o "Hotel Ruanda") também dá, era o que faltava que não desse bolinha um homicídio estatal feito por filhos de boas famílias que, com muitos galões ou algumas estrelas nos ombros, fazem as provas escritas da coisa diluir-se na sua água do banho.
Tenho estado muito ausente desta ciosa dos blogs, nos últimos tempos.
Talvez pela pouca vontade de, não sendo opinador profissional, andar a opinar o que me parece tão evidente que pouca vontade dá de o fazer.
Mas esta bolinha e este aviso de possível massacre da sensibilidade dos tele-espectadores, coitadinhos (não vão eles chocar-se com um exemplozito da falta de santidade da autoridade e do estado), vale por uma demonstação do pantanal de excrementos que temos vindo a deixar construir no último par de décadas.
Que deu espaço, entre muita outra coisa, à nossa mui peculira transformação do "Vermelho e o Negro" no "Laranja e o Rosa", ou aos acontecimentos que mereceram comentários pertinentes nas últimas semanas.
Por vezes, pergunto-me se não serão bolinhas destas a expressão dos mais perigosos inimigos.
Do que se trata?
De um filme acerca de 5 desgraçados magalas franceses na I Guerra Mundial, condenados à morte por mutilação voluntária, e executados sob a forma de expulsão para a "terra de ninguém", até que os alemães os baleassem de forma suficiente para morrerem. E das demarches da namorada de um deles para clarificar e denunciara a coisa.
Bolinha vermelha, claro.
Se a nudez e uma sugestão de sexo dão bolinha, se uma reprodução de homicídios de tripas de fora ou de massacres e genocídios (desde que não sobre africanos, veja-se o "Hotel Ruanda") também dá, era o que faltava que não desse bolinha um homicídio estatal feito por filhos de boas famílias que, com muitos galões ou algumas estrelas nos ombros, fazem as provas escritas da coisa diluir-se na sua água do banho.
Tenho estado muito ausente desta ciosa dos blogs, nos últimos tempos.
Talvez pela pouca vontade de, não sendo opinador profissional, andar a opinar o que me parece tão evidente que pouca vontade dá de o fazer.
Mas esta bolinha e este aviso de possível massacre da sensibilidade dos tele-espectadores, coitadinhos (não vão eles chocar-se com um exemplozito da falta de santidade da autoridade e do estado), vale por uma demonstação do pantanal de excrementos que temos vindo a deixar construir no último par de décadas.
Que deu espaço, entre muita outra coisa, à nossa mui peculira transformação do "Vermelho e o Negro" no "Laranja e o Rosa", ou aos acontecimentos que mereceram comentários pertinentes nas últimas semanas.
Por vezes, pergunto-me se não serão bolinhas destas a expressão dos mais perigosos inimigos.
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