quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Novos motins em Maputo e Maria Antonieta na costa do Índico



Maputo acordou hoje em "greve" - a expressão que, desde Fevereiro de 2008, é por lá usada para referir revoltas que bloqueiam as ruas com pneus a arder e pedradas a carros e outros símbolos de propriedade, a que a polícia responde a tiro.

Pelas informações que vão chegando, a dinâmica está a ser muito semelhante a esses motins de 5 de Fevereiro de 2008, cuja descrição e análise - que na altura escrevi em directo de Maputo - podem ver neste conjunto de posts.

Na altura, a justificação imediata que mobilizou as pessoas teve a ver com o aumento abrupto dos "chapas", as carrinhas de 9 lugares recondicionadas para transportarem 19, que são o meio de transporte a que têm acesso as camadas populares.
Desta vez, trata-se de uma sucessão de aumentos de bens de primeira necessidade, cujo corolário é uma anunciada forte subida do preço do pão.

Tal como em 2008, contudo, penso que a principal motivação das pessoas não é apenas os aumentos em si próprios (aspecto que nem por isso se torna menos relevante, e é uma machadada na sua tentativa de sobrevivência sempre precária), mas o sentimento de que eles são decididos pelo poder político sem consideração pelas necessidades e dificuldades da população.

E dificilmente algo poderá reforçar mais esse sentimento do que declarações como as de um representante governativo, esta manhã na rádio, aconselhando os ouvintes que se queixavam do aumento do pão a substituírem-no por outros produtos, «como a batata doce».

No entanto - e tal como acontece com os linchamentos urbanos em Moçambique - penso que aquilo que está em causa, para quem participa, não são tanto cada um dos problemas e ameaças concretas e identificáveis com que se confrontam (o pequeno ladrão, o aumento de cada bem essencial), mas uma situação generalizada de incerteza quanto ao futuro e à própria subsistência, num quadro em que sentem que ninguém os ouve, que não têm qualquer controlo sobre o seu futuro e que, quer eles quer as suas dificuldades, são considerados irrelevantes pelos poderosos que decidem.

Mas que não se leiam estes acontecimentos, apressadamente, como uma revolta para pôr em causa o governo da Frelimo - mesmo se este passou, ao longo das décadas e fundamentalmente com as mesmas pessoas, de um projecto socializante e paternalista para a aplicação de políticas ultra-liberais.

Por um lado, apesar de uma franca e crescente simpatia popular pelo MDM de Deviz Simango, Maputo é um forte bastião eleitoral da Frelimo e a maioria das pessoas que se estão a manifestar nas ruas terão votado nela no ano passado.

Por outro, as pessoas dos bairros populares (a esmagadora maioria) têm uma visão dos direitos e deveres dos governantes e governados que é diferente daquela que nós (e as elites políticas moçambicanas) costumamos atribuir à democracia representativa.
Conforme aprofundei aqui, essa visão mais "tradicional" e "africana" do poder não pressupõe que, uma vez legitimado um governo, as decisões que tome sejam legítimas, desde que legais e tomadas dentro do seu quadro de competências reconhecidas.

A sua visão do "contrato social" sustenta-se, pelo contrário, em dois pilares aparentemente contraditórios, mas que deverão estar minimamente equilibrados: pressupõem, por um lado, que só em casos extremos deverá ser posto em causa o poder instituído; mas pressupõem, também e em contrapartida, que quem ocupe esse poder tem a obrigação de salvaguardar um mínimo de bem-estar e de dignidade das pessoas que governa. Pode (e tem o direito de) «comer mais», mas não de «comer sozinho» e à custa da fome dos outros.
Isto quer dizer que, por muito que um determinado poder instituído seja considerado legítimo, cada uma das suas decisões é objecto de escrutínio - e podem ser consideradas ilegítimas e merecedoras de protesto e resistência, sem que isso ponha em causa a legitimidade do próprio poder.

Continua a admirar-me como é que algo tão evidente e estrutural ao pensamento e comportamento político da população "comum" continua a ser ignorado (quanto mais a ser levado em conta) pelas elites políticas locais.




Vou continuar a acompanhar, à distância, estes acontecimentos.

Sugiro que quem também esteja interessado em saber em cima da hora o que se está a passar vá regularmente ao blog do meu colega Carlos Serra, em permanente actualização.

*****

Entradas mais recentes nesse blog:

«Adenda 18 às 12: 28: comentário que me foi enviado via email: "Falei com os polícias da PRM e da PIR que estavam na praça da OMM e prolongamentos da Vladimir Lenine: afirmaram que não receberam meios anti-motim, nem balas de borracha nem gás lacrimogéneo. Um absurdo! Quando uma mulditão avança, só lhes resta recuar e disparar com balas reais. Um deles disse-me que também é pai e que, terminada a jornada laboral, tem que regressar a casa depois de apanhar o chapa mais caro, encontrar o pão e o arroz também mais caros, pagar a luz e a água tambem mais caras. Triste..."
Adenda 19 às 12:37: um outro email que me foi enviado: "Só na praça da OMM 2 mortos, no prolongamento da Vladimir Lenine 2 feridos (um em muito mau estado). Vários carros e lojas vandalizadas ao longo do Prolongamento. Muito ódio germinado. Os polícias estão desesperados."»

PS: Em Maputo é 1 hora mais tarde que em Lisboa.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ainda a crise que nos crisa

É uma brilhante e divertida abordagem destas crises e das suas raízes (infelizmente sem legendas - alguém as sabe e quer fazer?), que vai bastante mais longe, fundo e largo do que a minha velha favorita como primeira aproximação ao tema.

Que, já agora, vos re-apresento.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Treino conjunto com touros tem melhorado espectacularmente as marcas dos atletas de 3.000 metros obstáculos

O sistema, com o nome de código "black bull dá-te asas", parece contudo só resultar sobre tartan.
É que têm havido uns problemazitos quando os sovinas dos ganadeiros os querem, depois, reciclar para touradas.

O reciclado mais recente.

Um pioneiro.

Este, coitado, já estava reformado e sem grande força nas canetas.

domingo, 15 de agosto de 2010

Começo a sentir-me um Pereira que afirme alguma coisa...

Tem sido demasiado obituário, e demasiado justificado escrevê-lo, para o meu gosto.

Agora, foi Abbey Lincoln, com quem me cruzei pela primeira vez neste extraordinário disco e que, depois disso, aprendi a admirar como cantora e como activista.

Ouçam-na.

E, por favor, gentes que admiro, parem de morrer.

sábado, 14 de agosto de 2010

Gastronomia gourmet para o povo

Foi o encher da barriga e da despensa, em Pemba (norte de Moçambique), com uma baleia que deu morta à costa, na praia de Wimbe.

Baleias que são primas das sereias e portanto, conta-se por lá, das mulheres-do-mar que os portugueses perseguem mergulhando, violam no fundo do mar e a quem cortam depois a cauda - que comem sob o nome de bacalhau.
E que, neste caso, têm a vantagem de se poderem comer sem essa ambígua sombra de canibalismo luso.

Conforme chama a atenção o Carlos Serra, a cena do esquartejamento do cetáceo lembra descrições antigas acerca daquilo que se segue à morte de um elefante.
É que os animais gigantes são dádivas de comida, em torno dos quais urge juntar toda a gente possível, mais banqueteando-se do que tirando a barriga de misérias, antes que se estraguem.
E com isso, claro, reforçam-se laços, solidariedades e mesmo hierarquias (quem come que partes e por que ordem).
Será esse, também e ainda, o efeito numa cidade - mesmo com parte da carne a acabar vendida nos mercados?

O lado gourmet da coisa, entretanto, ainda me lembrou uma história bem político-económica do meu Alentejo natal.
Por lá, naquelas alturas do ano em que os pobres nada mais tinham para comer, davam em procurar as sofisticadas trufas.
Comida de pobre, então, tanto mais que os ricos as desprezavam por serem coisas selvagens desenterradas e por (esperteza ou ironia?) lhes ser dado um nome bem próximo do de uma parte anatómica pouco nobre.

Comer, às vezes, tem muito que se lhe diga.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ia lá visitar pastores



Nesta quentura em que nada parece acontecr para além de fogos, vão continuando a chegar daqueles anúncios de morte que preferíamos não ouvir.

Desta vez, faleceu Ruy Duarte de Carvalho, antropólogo angolano que se espraiou também pela poesia, as artes plásticas e o cinema, mas de que recordo sobretudo Vou Lá Visitar Pastores, um livro de uma sensibilidade quase tão grande como o seu título.

Como se diz "tristeza" em Kuvale?

PS: estão alguns textos dele no Buala.

sábado, 7 de agosto de 2010

Deixem-o contar a ele

O documentário "O Segredo", sobre a fuga de Dias Lourenço do Forte de Peniche.
Não dá para afixar, pelo que terão que ver no YouTube...

1ª parte, aqui
2ª parte, aqui
3ª parte, aqui
parte final, aqui

faleceu António Dias Lourenço

É sobretudo conhecido pela sua fuga do Forte de Peniche, em 1954. Muito pouco daquilo que foram ele e a sua vida.
Neste momento, contudo, só consigo lembrar o homem bom.

De boleia no inspirado título do Daniel, aqui fica a minha sentida homenagem.


Um número bonito

Estando o contador de visitas a aproximar-se veriginosamente dos 50.000, decidi celebrar, oferecendo um exemplar autografado do meu último livro ao primeiro visitante que se identificar aqui na caixa de comentários, depois de passado esse número.

Boa leitura.

Cadáveres adiados - II

Alertado por um post do António Figueira para este pedaço de prosa de João Pinto e Castro no Jugular, não resisti a por lá deixar um comentário – que não resisto, agora, a partilhar convosco:


Não tenho nenhuma simpatia pelo corporativismo e quase impunidade dos magistrados (particularmente dos juízes), mas:

1. A separação de poderes é uma pedra basilar das democracias, tal como são entendidas nos países da matriz socio-cultural em que nos inserimos (vulgo “ocidentais”). Os casos em que esse princípio foi subvertido, mesmo que parcialmente, resultaram de (ou vieram a facilitar) subversões da democracia ou assumidas ditaduras. Mesmo nestas, a submissão do poder judicial ao poder executivo foram encaradas como inaceitáveis práticas de sonegação de justiça.

2. Nestes tais países, são raríssimos os casos onde juízes e/ou procuradores são eleitos – e, mesmo aí, só até determinados níveis. Independentemente dos méritos que possamos apontar, em abstracto, a essa solução, o resultado é, também e frequentemente, uma subordinação da sua actuação, prioridades e decisões aos calendários eleitorais. Para isso, desculpem-me, já basta a forma como a política é praticada pelos partidos “a sério”, como diz a Irene Pimentel, ou, se preferirem, por aqueles que têm fundadas expectativas de manter ou alcançar o poder governativo.

3. Os procuradores do caso Freeport, conforme é público e conhecido apesar da barragem de inverdades repetidas acerca do assunto (incluindo algumas declarações do PGR), pegaram no dossier em 2008, depois de ele ser deixado a cargo de um procurador de comarca, atafulhado de serviço e sem condições de investigação. Procurador que, no entanto, parece que foi procedendo às diligências possíveis.

4. O caso só passou para as instâncias que ele justificava quando a polícia inglesa suscitou suspeitas preocupantes, que foram tornadas públicas pelos “jornalistas sem princípios” britânicos, de que os seus colegas portugueses se fizeram eco. Caso contrário, é plausível supô-lo, lá ficaria no Montijo até apodrecer. Era o desejado por si?

5. Os procuradores foram, conforme confirmado no processo disciplinar que daí decorreu, pressionados por um colega hierarquicamente superior mas numa linha paralela à sua (e próximo do poder político), para arquivarem o processo e não multiplicarem diligências. Independentemente de quem tenha encomendado o sermão, é essa a sua visão de uma relação desejável e digna entre o poder executivo e judicial?

6. Enquanto estes procuradores procediam a averiguações, nas quais são teoricamente autónomos, o PGR e a Procuradora-Adjunta de quem eles dependiam afirmaram por várias vezes que um cidadão em concreto (José Sócrates de Sousa) não tinha culpas no assunto. Será este facto inusitado irrelevante para quem investiga?

7. Não se sabe o que entretanto aconteceu em privado, no relacionamento destes procuradores com os seus superiores hierárquicos ou outras figuras do Estado. Mas o carácter também ele inusitado de, no acordão, escreverem que não puderam fazer determinadas perguntas ao Primeiro-Ministro por tal ser impossível dentro do prazo que lhes foi superiormente imposto para o encerramento do processo, juntando ainda por cima as perguntas que consideravam necessárias, parece deixar poucas dúvidas acerca do que querem dizer e não quiseram explicitamente escrever: Que consideram que, sem resposta a essas perguntas, o caso não fica esclarecido. Que consideram que a prazo imposto os impossibilitou de tentarem apurar a verdade, sendo uma interferência fulcral no seu trabalho e, potencialmente, nas suas conclusões. É bonito da sua parte? Talvez não. É legítimo, civilizado, corajoso e responsável? Certamente.

8. Em resultado disso, o PGR com mais poderes desde sempre vem queixar-se que não tem poder nenhum e que o sindicato do ministério público é um lobby de interesses particulares e políticos. Ele, declarou a sua morte anunciada no cargo. Você vai ainda mais longe. Diz que o sindicato (e não o Conselho Superior, ou o PGR e seus adjuntos, ou os procuradores distritais, ou os restantes) é que decide o que é que se investiga e como se investiga. De onde lhe vem esse poder maquiavélico? Montou uma estrutura hierárquica paralela? São os seus corpos gerentes que criam os processos desconfortáveis para o poder político? Chantageiam os colegas para fazerem o que eles querem?

9. Não deixa de ser curioso que, reclamando afinal o poder judicial para o poder político (aquele que é eleito - segundo parece, a única forma de legitimidade que reconhece dentro do aparelho de Estado, mas que suponho não quererá aplicar às direcções-gerais, acessorias e quejandos), demonize a única estrutura eleita no âmbito do Ministério Público, embora não lhe pertença (isto porque, como sabe, só uma minoria do respeitado Conselho Superior é eleita, e só uma ínfima parte pelos seus pares). Mas isso é apenas curioso; o que é preocupante é a sua visão monolítica e totalitária do Estado.

10. Não deixa também de ser curioso que, quando um juíz abusivo e incompetente (é essa a tradução para português corrente dos “erros grosseiros” que lhe foram apontados em tribunal superior) assassinou politicamente Paulo Pedroso e, através disso, encurralou Ferro Rodrigues que os seus camaradas se apressaram a também apunhalar e substituir, não vociferaram tão alto acerca de maningâncias sindicais ou corporativas. Será que você também deu a sua facadinha?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Back from Sines

Soube muito bem (e bem precisado estava...) esta semanita de férias, família e praia em Sines.

Com o enorme prazer, pelo meio, de uma apresentação do Um Amor Colonial pelo Luís Patta e pelo Joaquim da A Das Artes - aquela livraria que é um centro cultural e que tanta falta me fez, por ainda não existir quando lá vivi.


Houve até gente suficientemente atenciosa para, uma bela manhã, se dar ao trabalho de me recordar a razão que me tinha feito por lá andar, aquele par de anos.

A cidade está mais viva e o Festival Músicas do Mundo faz-lhe bem.
Mas parece que some things never change...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

"Um Amor Colonial" em Sines

No próximo dia 28, às 17 horas, o livro Um Amor Colonial vai ser apresentado em Sines.

Será na antiga Igreja da Misericórdia, a dois passos do castelo, e cabe-me a honra de ter como apresentador o meu velho amigo Luís Patta.

Depois disso, suponho, toda a gente irá assistir à abertura do Festival Músicas do Mundo, ali ao lado.

E, aqui entre a gente, se não vierem ao livro não percam, pelo menos, o Festival.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Fim de festa e xenofobia

Enquanto a FIFA faz as malas e a contabilidade...





... e uns se vão adaptando como podem ao pós-World Cup ...





... outros fogem da África do Sul, ameaçados pelos vizinhos com a reedição dos ataques xenófobos de 2008 e do início deste ano.




Um assunto a discutir?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Como é que os serviços de espionagem norte-americanos têm acesso aos SMS trocados em Portugal, através de redes telefónicas portuguesas?


Podem as empresas nacionais de telecomunicações esclarecer que acordos o possibilitam, e de onde vêm? E ser punidas pela quebra da legislação e dos seus compromissos de confidencialidade?

Pode o Governo esclarecer se tem conhecimento, se autorizou, e com base em que direito? E, se não, tomar medidas punitivas e reparatórias?

Pode a Comissão Parlamentar de Liberdades e Garantias controlar o caso, como lhe compete, exigir responsabilidades e reverter a situação?

Pode o Estado português tomar as medidas diplomáticas que se impõem, caso esta espionagem dos seus cidadãos, no seu país e por um estado estrangeiro não recebeu a sua autorização?

Podemos nós deixar de achar normais os mais inacreditáveis abusos que sobre nós são cometidos?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Rai's parta o polvo!


Na minha simpatia pela Holanda, não liguei muito ao teutónico polvo adivinho.

Fiquei mais preocupado quando, de Amsterdão, um amigo me enviou um SMS que dizia "Nosotros comemos polvo", palavra que conhece dos menus de restaurantes portugueses.
Os mais versados na língua de nuestros hermanos saberão porquê; é que, com aquele nosotros que ele pretendia em português, polvo deixava de referir-se ao simpático octópode para querer dizer "pó".
Mau sinal...

Mas enfim... Acabado o jogo, sempre sobraram as celebrações em campo com a bandeira da Catalunha, em dia de manifestação em Barcelona contra uns cortes judiciais bem significativos no estatuto da região.

E sobrou o interesse e curiosidade, por toda a Europa, pelo tal de polvo adivinho.

Ora escrevia, há uns bons anos atrás, o meu colega e amigo Philip Peek (a quem também devo as fotos que se seguem) que a história e a antropologia não conhecem nenhuma cultura onde não exista alguma forma de adivinhação.

Essa coisa de dar sentido ao aleatório e de tentar prever o imprevisível parece, então, ser uma necessidade humana universal. Mesmo quando, em vez de polvos, se usam as probabilidades estatísticas - muitas vezes com inferior sucesso, o que diz mais sobre as limitações das segundas do que sobre as virtualidades dos primeiros...

Mas aproveito esse interesse e curiosidade para partilhar, com quem ainda não tenha tido oportunidade de o saber, que essa coisa dos animais adivinhos está longe de se ficar pela estrela de oito pontas do momento. É, pelo contrário, bastante frequente e espalhada.

Por exemplo, no norte de África, do Magrebe aos inefáveis Dogon, as raposas dão um jeitão.
Desenha-se uma grelha no chão, deixam-se uns belos petiscos em determinados pontos e, no dia seguinte, vem-se ver pelas pegadas quais é que a raposa comeu, por que ordem e fazendo que percursos.
Depois, segundo um sistema de permutações que nada fica a dever ao respeitável I-Ching chinês, lá se fica a saber aquilo que se quer.


Mais abaixo, os Baule têm uns ratinhos que também fazem o serviço mas, tal como o polvo alemão, a resposta fica-se entre duas possibilidades.

Nos Camarões, o pessoal não se dá por satisfeito com isso. Os felpudos aranhões que, por lá, são profissionais da adivinhação têm muito por onde escolher, de entre placas divinatórias com diferentes significados.

Correndo o risco de virarem um petisco se se enganarem muito, também os caranguejos camaroneses têm uma tarefa complexa e muito por onde escolher...


Uma coisa curiosa é que esses animais adivinhos são, sistematicamente, mudos.
E quando o barulho que fazem é demasiado evidente para ser ignorado (como no caso das raposas), há um importante mito que conta como perderam elas a voz que, afinal, até têm.

Em Moçambique, por seu lado (e embora por lá a adivinhação animal seja extremamente rara), é ponto assente entre adivinhos e curandeiros que todos os seres vivos que falam podem ser enganados.
Por isso o ovo (que é vivo mas não fala) é um componente essencial das misturas de produtos destinadas à protecção das pessoas ou bens.
E por isso os conjuntos de adivinhação (através dos quais falam os espíritos) podem enganar-se.

Confesso que este tipo de continuidades me parecem bastante mais interessantes (e muitíssimo menos casuais) do que os gostos futebolísticos do nosso amigo polvo.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Citações de café (27)

- Maçã podre és tu, pá, que cada vez que decides é para desgraçar o clube!

(esta noite, no café da esquina)

Citações de café (26)

- Nós aqui neste calor e eles lá em Maputo, com todos os luxos. Até têm ventoínhas...

(pescador da Inhaca, 1999)

sábado, 3 de julho de 2010

Homenagem ao Ghana

Quando a batotice é premiada, que pelo menos os trabalhos chatos como carimbar os selos de correio tenham direito a músicas assim.

(com um obrigado ao Pedro)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Jubentude inconciente

Ainda não consegui meter na cabeça que passei os 40 e só já faltam 3 para os 50...