segunda-feira, 10 de março de 2008

Coisas que todo o antropólogo deve saber



O João Vasconcelos, que já mencionei aqui a propósito do seu rito de passagem, tem estado a juntar no seu blog uma colecção de apontamentos deliciosos, sob este título.
Fica aqui a transcrição, como convite a que o visitem.

«Não é preciso invocar Lévi-Strauss cada vez que se escreve bricolage. A maioria das vezes é mesmo melhor não o fazer.»

«Não é preciso falar de Marc Augé cada vez que se pára numa área de serviço. É melhor aproveitar para fazer um pouco de ginástica.»

«Às vezes um charuto é apenas um charuto. Quem o disse, atente-se bem, foi Sigmund Freud, porventura o interpretativista mais compulsivo e genial de todos os tempos. Disse-o a propósito do seu próprio charuto, é certo. Mas vale para todos.»

«Um vegan é um perspectivista destravado.»

«O futuro será sempre o melhor ponto de vista sobre o presente. Cautela, portanto.»

«As palavras com o prefixo pós- têm um prazo de validade mais curto que as palavras com o sufixo -ismo.»

domingo, 9 de março de 2008

A minha vizinha garça

O que é que faz uma garça-real, todos os dias, numa machamba plantada no meio de prédios, em plena cidade de Maputo?
Anda aos sapos, que a minha cadela gostaria de abocanhar durante o xi-xi da noite?
Acha piada a chatear as galinhas?
Gosta de debicar um vegetal de vez em quando?
Vem, apenas, porque aqui ninguém a ameaça?

Não sei. Mas é um prazer para os olhos e para a alma, em cada fim de tarde.

Bute aí curtir tradição!

Com a divulgação deste acepipe antropológico e o convite a que o comentasse, o Carlos Serra encomendou lenha para eu me queimar.

Deixei o meu comentário aqui, que é também o melhor sítio para deixarem o vosso.

A gente vê-se na Matola

Nos dias 4 e 5 de Abril, festa do jazz na Matola!
Dois palcos, um para jovens moçambicanos e outro para cats que vêm do Festival da Cidade do Cabo: The Manhattans, Judith Sephuma, Pieces of a Dream, Freshyground, Moreira Project, Jimmy Dludlu, Irinah, Salimo Mohamed, Otis e Stewart Sukum.

Luís P, amigão: é desta que me fazes uma visita?

Filipe R: é desta que vens dar um abraço aos muitos amigos que deixaste nesta terra, quando por cá passaste?

Família: e vocês? Ficam-se?

sábado, 8 de março de 2008

Os professores e a Professora

Estou banzado!

Ver na televisão mais de 85.000 professores (Fenprof e PSP de acordo), um pouco mais de metade dos professores portugueses, numa manifestação em Lisboa contra a política de ensino do governo e exigindo a demissão da respectiva ministra é um acontecimento que foge a todas as normas. É o equivalente sectorial a vermos 5 milhões de portugueses na rua, a protestarem contra o governo ou uma sua política geral.
Perante um terramoto destes, ver depois Augusto Santos Silva a perorar (certamente contrariado, pois ninguém lhe pode invejar a obrigação de fazer tal discurso) que a política do governo não é ditada por manifestações, mas pelo seu programa, é constrangedor. É patético. Tem-se pena do homem, mesmo tendo sido ele quem aceitou o cargo. Porque não é credível que possa existir um tal nível de autismo num governo e num homem inteligente como ele.

Um tamanho consenso contra uma política de um governo (sectorial mas numa área indiscutivelmente estratégica) e contra a pessoa que com particular empenho a planeia e executa é excepcional. Que esse consenso se expresse através de uma manifestação de rua tão esmagadora é mais excepcional ainda.

Porquê? A propósito de uma outra manifestação, chamei aqui a atenção para um facto que por vezes nos escapa: há quase duas décadas que, em Portugal, as pessoas consideram a representação sindical (mesmo quando não concordam com a actuação prática dos sindicatos) como um serviço público a que têm direito, sem que tal exija delas filiação e participação. Quando participam, isso é um acto muito mais significativo do que quando (até meados da década de 1980) participar era normal; quando o fazem massivamente, a excepcionalidade do acto demonstra como é excepcional e consensual o desacordo.

Mas isto levanta novas perguntas. Como é que alguém (individual ou colectivo) consegue criar um consenso destes contra si próprio? Há a política adoptada, claro. Há o autoritarismo na sua adopção, certamente. Mas é só isso?

O autoritarismo não é apenas um estilo. É uma concepção do poder e do seu exercício - e o poder não é apenas "político", no sentido mais comum da palavra; existe em qualquer relação entre pessoas. Também não é, pelo menos para os psicólogos, a mesma coisa que autocracia.
O autocrata impõe-se, vai à luta para esmagar mas equaciona a possibilidade de derrota e sabe ouvir, porque toma as opiniões adversas como informações essenciais para ajustes tácticos, mesmo que os seus objectivos estratégicos sejam execráveis. Quer dominar, mas está alerta porque encara esse domínio como o resultado de um jogo permanente.
O autoritário "pisa para baixo" e "amouxa para cima". Desvaloriza as opiniões adversas e as informações desagradáveis para o seu plano, porque parte do princípio de que estar numa posição dominante garante, à partida, a imposição e sucesso do seu domínio. São os burocratas do poder sobre os outros.

A Ministra da Educação demonstrou publicamente o seu carácter autoritário e o nosso primeiro mais ainda - juntando até, aos aspectos de poder, a fixação higienista e saudabilista que os psicólogos atribuem a esse modelo de personalidade.
Está estudado que os autoritários preferem rodear-se de autoritários, quer por apreciarem o estilo (que acaba por ser uma extensão do seu), quer por se sentirem mais seguros de que, assim, a sua posição e poder não serão questionados, pelo menos enquanto as posições hierárquicas estiverem claras. OK, mas... Porquê esta autoritária? E que consequências é que essa escolha tem?

Para alguém que leccionou Antropologia da Educação durante 7 anos, sou singularmente pouco interessado por questões relacionadas com o sistema de ensino.
Mas há uma coisa que repeti inúmeras vezes, nos mais variados sítios e contextos, embora fosse quase sempre entendida como uma gracinha pour épater les bourgeois: a importância real dos professores para a sociedade decresce à medida que aumenta o grau de ensino que leccionam.
A afirmação era vista como uma boutade num académico, porque separa o aprofundamento de saberes da importância social do trabalho lectivo (que normalmente são amalgamados) e porque é suposto termos, todos nós académicos, um enorme ego individual e colectivo.
Esta última imagem é basicamente verdadeira, sem que eu seja excepção. Mas a experiência de vida e a capacidade auto-reflexiva têm alguma importância, pelo que por vezes dá para compreender que a universidade é uma instituição singularmente hierarquizada, considerando os seus supostos objectivos, e que tende a ser encarada, por nós académicos "bem sucedidos", não como um cantinho relativamente pouco relevante do mundo, mas como a sociedade (com ou sem o prefixo "micro") relevante em que nós vivemos. É normal, então, que farrapinhos de poder quase ridículos numa perspectiva societal global sejam objecto de lutas fracticidas letais, como se aquelas cagadinhas de poder fossem O PODER, e como se o poder valesse isso.
Em suma, e apesar de algumas muito louváveis excepções (que têm tanto a ver com carácter individual como com a capacidade de fazer com que alguns valores resistam à erosão do meio circundante), somos um caldo de cultura adverso à produção de decisores políticos que encarem o poder segundo uma lógica diferente do mata-ou-morre - ou, num outro sub-produto mais raro, do "bananismo" indeciso.

Posto isto:
A partir de hoje, a Ministra da Educação está politicamente morta.
Não é uma declaração política; é a mera constatação de um facto.
Discordo de algumas opções tomadas pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (embora suspeite concordar com o diagnóstico que o terá levado a tomá-las), mas acho que dificilmente poderíamos encontrar uma melhor pessoa para esse cargo.
Em contrapartida, quanto ao Ministério da Educação, deixem os académicos a academicar. Vejam lá se agora arranjam um(a) ex ou actual professor(a) do ensino básico ou secundário, sem grandes sentimentos corporativos mas sensibilidade para os entender, que não saiba falar educacionês, não seja um(a) "rato(a) de aparelho" partidário e, de preferência, seja inteligente. De outra forma, estarão a pedi-las.

... E o James Joyce, então, é uma seca

Savana, 7/3/2008

Trago-vos uma interessante peça de crítica literária, baseada em peculiares critérios de análise de qualidade (clique para aumentar).

Já agora:
Por curiosidade moçambicanista e literária, tenho tentado comprar nas livrarias as obras publicados pelo seu autor, o novíssimo secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, Jorge de Oliveira. Não tenho tido sorte; lá, não me sabem dizer quais são. Por isso apelo aos leitores: alguém me pode indicar os títulos dos livros, para eu os encomendar?

quarta-feira, 5 de março de 2008

É Pr'ámanhã!



Philip Peek, Chair of Anthropology da Drew University (E.U.A.), apresenta amanhã, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM, a palestra "Reflexões Acerca do Estudo Académico da Adivinhação Africana".
É às 9h. 30m., na sala 206 (o auditório da antiga UFICS).

Como diz o resumo, «Esta comunicação apresentará algumas reflexões acerca do desenvolvimento do estudo académico da adivinhação africana - mas não tentará recapitular a sua história completa. O estudo dos sistemas africanos de adivinhação cresceu rapidamente nos anos recentes e produziu valiosas abordagens inovadoras, mas vários problemas continuam por resolver. Basicamente, quanto melhor compreendermos a adivinhação, melhor nos compreenderemos a nós próprios.»

Estrangeiros à porta de casa

Afinal, ontem não resisti e, na habitual visita ao blog de Carlos Serra, deixei um comentário antropocoisico no post que ele fez acerca desta notícia.

Isto porque, como diz um outro comentador, é uma «bela peça de jornalismo, para quem “curte” antropologia».
Lembrou-me um artigo do Mia Couto, anos atrás, em que ele referia o desconforto e ar de peixes fora de água dos seus alunos, quando tinham que se sentar no quintal de alguém, fora da capital.
Também há uns anitos, tive que teorizar um pouco acerca da prática de "antropologia à porta de casa" (dowload de excerto aqui, livro aqui). Por vezes, duvido da utilidade que essas reflexões possam ter em Moçambique pois, para muitas pessoas nadas e criadas em Maputo, o seu próprio país parece ser tão estrangeiro e exótico como para alguém que acabou de desembarcar da Suécia. Outras vezes, penso que não é assim tão inútil, pois essas mesmas pessoas (quando são, por mero exemplo, jornalistas) não dão grande importância a essa 'estrangeireza' e olham os seus concidadãos como se os conhecessem "de gingeira" e estivessem no Alto Maé.

Daí a pergunta: Que tal uns cursozinhos de verão em Antropologia, para jornalistas e políticos?
E não julguem que estou a falar apenas de Moçambique.

Aditamento a 6/3: a zanga de um comentador mais mal-disposto acabou por abrir a porta à descoberta de um fascinante aspecto linguístico. Veja aqui.

terça-feira, 4 de março de 2008

O Mundo Perfeito

Depois de responder a um interessante comentário a este post, vou meter hoje uma folga bloguística.

Se vinham à procura de novidades, vão antes dar um passeio neste blog, que a minha senhora me aconselhou e de que fiquei fã.

Divirtam-se!

segunda-feira, 3 de março de 2008

descoberta a Mão Invisível

Dou a mão à palmatória!

Afinal, não apenas existe a tal "mão invisível" por detrás dos recentes motins/revoltas/tumultos, como foi documentado, pelo suplemento humorístico do Savana, um rebanho inteiro delas a conspirar para criar novos problemas.

Como sempre, clique na imagem para a aumentar.

sábado, 1 de março de 2008

Tecnologia Industrial e Curandeiros: partilhando pseudo-determinismos

Proponho neste artigo, a publicar no livro colectivo Portugal Contemporâneo. Olhares Sobre a Sociedade Portuguesa (Lisboa, ICS, 2008) que «independentemente das representações públicas acerca dessas actividades e da natureza que os seus praticantes lhes pretendam atribuir, tanto a gestão probabilística de riscos quanto a adivinhação “mágica” se regem por uma lógica de caos determinístico. Dessa lógica comum, associada à complexidade dinâmica das realidades sobre as quais as suas análises incidem, resulta uma também comum incapacidade de controlar a incerteza de forma prospectiva, transformando a prevenção de acontecimentos indesejáveis (seja ela técnica, comportamental ou ritual) num paliativo parcial – útil, mas insuficiente para os evitar.
Dessa forma, mesmo quando sejam exactas nos diagnósticos e cenários que produzam, as conclusões de um adivinho ou de um analista de risco deverão ser encaradas, por quem as considere fidedignas, como apenas parte das dinâmicas futuras possíveis e não como um controlo seguro da incerteza; optar e agir apenas de acordo com os seus ditames, esperando com isso assegurar o resultado desejado, é em última instância irracional.»


Leia «Tecnologia Industrial e Curandeiros: partilhando pseudo-determinismos»

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Um anito e uns trocos

Acabada a importação deste blog do endereço anterior (um grande obrigado, Marta!), reparei que o Antropocoiso começou há pouco mais de um ano. A efeméride foi na véspera de o povo "sair da garrafa", mas nego qualquer relação de causa/efeito, mesmo que espiritual.

Isto começou como uma forma de ter onde disponibilizar os meus artigos e, pontualmente, dizer umas coisas sobre assuntos (mal) esquecidos ou que me parecesse necessitarem de um outro ponto de vista, para juntar ao muito que acerca deles estivesse a ser dito.
Um ponto de vista não da Antropologia (assim, com letra maiúscula), mas de um cidadão que olha o mundo de forma um pouco diferente por a sua vida ser fazer antropologia e que (como os seus colegas) faz antropologia de forma um pouco diferente, pela sua particular experiência e história de vida.
Coisa modesta e quase confidencial, portanto.

Entrementes, no endereço anterior, que fornecia estatísticas diárias, tive a surpresa de ver o número de visitantes estabilizar nos 150, mesmo quando estava semanas sem afixar um post. Sendo esse número, ainda, quase confidencial, sente-se mesmo assim uma responsabilidade de dar algo em troca dessa simpatia e persistência.
Isso é fácil quando estou fora de Portugal, em sítios bem mais mexidos do que o meu belo mas rotineiro jardim à beira mar plantado. Aí, com a modéstia e o olhar "fresco" de quem é de fora, há sempre coisas que me interessa comentar - e sempre é uma forma de manter contacto com a família e amigos.
O número de posts vai engordando sem esforço, o número de visitantes não sei, mas felizmente o Antropocoiso não é um desses fenómenos de merecida popularidade como o Abrupto, o Arrastão ou o Diário de Um Sociólogo. Aí, ver-me-ia "à rasca", pois nem esta é a minha vida nem tenho a titânica capacidade de trabalho do Carlos Serra.

Mesmo assim... este modesto cantinho vai sendo pontualmente referido e citado, tendo mesmo sido levado, pela mão e generosidade de um colega bloguístico e académico, para as páginas do jornal que todas as semanas leio, a propósito de um esclarecimento antropológico acerca de um acontecimento da actualidade.
Para além de um prazer e de uma ligação com os outros, atrevo-me por isso a pensar que o Antropocoiso tem alguma utilidade - para as pessoas e, talvez, para a divulgação das formas de pensar nas ciências sociais.

Entretanto, instalei há uns dias um "brinquedo" que podem ver aí ao lado - o Feedjit.
Uma consequência disso é que a minha filha, agora, me pede que abra o blog para ela ver se há bandeirinhas diferentes.
Outra é que, de repente, uma pessoa atribui locais a esses visitantes que antes eram apenas números, quando os havia. Não é o mapa-mundi que encontramos nos blogs mais concorridos mas é, mesmo assim, surpreendente: localidades portuguesas de que nunca ouvi falar, países inesperados, acesso por links que se julgariam improváveis, saídas para sites científicos que aqui linquei.

Se nos lembrarmos que um bom artigo, publicado numa revista científica de referência, costuma ser lido por umas dezenas de pessoas e que um livro científico premiado pode vender apenas umas centenas de exemplares, isto dá que pensar. E convence que valeu a pena.

A todos os visitantes, um grande obrigado.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Fernando e os Mambos



Uma referência hoje feita, na catedral bloguística moçambicana, à actual pesquisa do meu querido colega Fernando Florêncio lembrou-me que o seu excelente livro Ao Encontro dos Mambos - Autoridades tradicionais vaNdau e Estado em Moçambique não está à venda em Maputo.

Para quando, senhores das livrarias? Vale a pena e prestariam um bom serviço aos leitores moçambicanos.

Enquanto isso não acontece, os interessados podem folhear o livro aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Assistencialismo e desenvolvimento

Tenho vindo a notar que continuam a aparecer regularmente posts, em blogs diversos, acerca da entrevista do economista queniano James Shikwati à Der Spiegel, em 2005, onde ele atacava o assistencialismo a África como um instrumento de reprodução da miséria e do subdesenvolvimento.

O assunto é polémico, há muitos interesses (e também boas intenções) em jogo, e por isso me parece que se torna ocioso discuti-lo com base em opiniões e abstrações gerais.
É por essa razão que sempre me lembro, ao ver essas referências à entrevista, de um livro do João Milando (investigador angolano que esclarece sempre, ao encontrar moçambicanos, que o seu apelido não tem nada a ver, em Angola, com o seu sentido por cá), que aborda esses mesmos temas a partir de dados empíricos: Cooperação sem Desenvolvimento.

É a sua também polémica tese de doutoramento (que, segundo me disseram, muito agastou alguns membros do júri), centrada na «relação entre o funcionamento das instituições de cooperação para o desenvolvimento e o surgimento de dinâmicas sociais adversas ao próprio desenvolvimento social e económico». Uma forma de dizer que o livro gira em torno dos temas mais "quentes".

Não há livros imprescindíveis mas, mesmo quando o leitor discorde pontual ou globalmente das posições do João, este é muito útil para pensar e discutir o assunto para lá das generalidades e do «eu cá acho que...». Se o tema vos interessa, aconselho vivamente.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Não dá dinheiro; dá machimbombos!

chapa no 5 de Fevereiro (foto Savana)

Vinte dias depois, foram agora os "chapeiros" (diz-se que os «piratas» sem licença, mas não posso garantir) a fazer greve, por questões processuais ligadas ao acesso ao gasóleo subsidiado.

A coisa foi bem mais calma, pois bloquearam ou tentaram bloquear duas vias essenciais (entrada da Matola e Chiquelene) com as viaturas, mas a população ou veio a pé ou voltou para casa. Esta não é a sua greve.

De manhã, mal se soube da coisa, as lojas fecharam em zonas centrais da cidade, mas o ambiente voltou mais ou menos ao normal - apenas com menos chapas em circulação, indecisos se iriam ou não aderir.

A caminho da padaria, fui inopinadamente nomeado representante da "comunidade internacional" (ou dos "doadores", como aqui se diz), por uma vendedora de mangas sentada no passeio:

- Não dá dinheiro ao governo. Dá machimbombos.*

Parece que os comentadores encartados e o povão estão de acordo acerca do que faz falta para resolver este imbróglio dos transportes.

* autocarros, em português de Portugal

Apoiado, Senhor Presidente!

Savana, 22/2/2008

Numa pequena notícia de canto de jornal, encontrei uma boa razão para, na sequência das preocupações que aqui expressei, gritar agora «Apoiado, Senhor Presidente!»

Faço votos que os planos dos empresários nacionais e estrangeiros interessados neste negócio não venham a ser mais fortes do que estas correctas e necessárias orientações presidenciais.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Semânticas invisíveis

Adam Smith

O porta-voz do partido no poder em Moçambique considerou as manifestações de 5 de Fevereiro, em Maputo, «atípicas e com origem numa mão invisível, que fracassou nos seus intentos de desestabilizar o País».

O meu interesse pela frase não se deve muito à imagem de um povo ordeiro e pacífico (os moçambicanos, que estiveram 30 anos em guerra, primeiro anti-colonialista e depois fraticida, com Campos de Reeducação, execuções públicas e Operações Produção pelo meio), ingenuamente manipulado por tenebrosas, subversivas e desconhecidas forças externas.
Afinal, essa imagem é uma interpretação que até já está bastante vista, desde que Salazar a aplicou às Lutas de Libertação Nacional nas então colónias portuguesas e à resistência anti-fascista na então "metrópole".

Parece-me bem mais curiosa a metáfora da "mão invisível", para designar as tais forças externas, sobretudo num partido reconvertido ao capitalismo liberal.
Seria de esperar que quem a usa num assunto tão sensível se lembrasse de onde tinha ouvido a frase. Foi, claro, em Adam Smith, quando ele teoriza a regulação automática dos preços por parte do mercado concorrencial (com base na oferta e na procura) e, em resultado desta, a selecção entre empresas bem sucedidas e falidas.
Imaginem as interpretações e parangonas de jornais que, com base nisto, se poderiam fazer acerca da origem dos motins na "mão invisível" da economia de mercado, ou em mecanismos automáticos de regulação entre oferta e procura política!...
Talvez, nesse caso, quem falou de "mão invisível" não andasse mais longe da verdade do que Adam Smith, mas tenho algumas dúvidas de que fosse isso que queriam dizer.

Tudo isto me lembra aquela piada russa do puto que, regressando de uma celebração oficial onde ouvira que «caminhamos em direcção ao horizonte radioso do comunismo», foi ao dicionário e ficou a saber que o horizonte é «uma linha imaginária que parece afastar-se à medida que nos aproximamos dela».

A semântica, às vezes, prega partidas ao discurso metafórico dos políticos.

Ensino preservatício

Esta é a Imagem da Semana, na última página do Savana.

Vejam o megafone, ao lado do falo de borracha. Vejam a variedade de expressões faciais. Vejam a velhinha a espreitar, lá ao fundo. Vejam...

Grande foto, Naita Ussene!

(re)Parabéns, INGC

Estou a ficar fã!

Já aqui louvei a
eficiência e o rigor do Instituto Nacional de Gestão das Calamidades, nas cheias do Zambeze.

Agora, o INGC vem chamar a atenção para desvios na distribuição dos donativos às vítimas das cheias, a jusante da sua acção - juntando às suas outras características públicas a seriedade e mostrando que, para um organismo estatal como este, tais falcatruas, roubos e revendas não são normais nem aceitáveis.

Parece que alguém andou a ler a história do menino e do lobo, levando a sério que, para o auxílio vir depressa quando é de facto necessário, não se pode andar sempre a gritar «Lobo!» sem que ele lá esteja. Parece que também se andou a ouvir a velha frase de que "à mulher de César não basta ser séria, tem também que parecê-lo" - e, com isso, ganhar credibilidade e não apenas pena.

Quem olha e vê, deixa de acreditar nessas balelas de que incompetência, corrupção e desleixo são "culturais" e "moçambicanos" (tal como, há umas décadas atrás, se dizia que desorganização e calãzisse eram "culturais" e "portuguesas"). São apenas incompetência, corrupção e desleixo - e, venham de moçambicanos ou de quem quer que seja, não há supostas "culturas" que os justifiquem; há apenas a complacência para com eles.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

... E memórias que nos lembram ser mau habituarmo-nos

«Quando um homem dorme na sarjeta, o que faz falta?»