sexta-feira, 25 de julho de 2008

HIV cada vez mais doença crónica

Já há mais de 10 anos que ouço médicos especialistas dessa matéria a defenderem que a infecção com HIV, causadora do SIDA (AIDS, no Brasil), deve ser considerada uma doença crónica em termos legais e terapêuticos, e não uma doença aguda, fulminante e terminal.
Essa posição tinha a ver com a capacidade de controlo da infecção ao longo do tempo e com o aumento da esperança de vida dos doentes decorrentes da terapêutica tríplice, que veio substituir a mera administração de AZT.

Sabe-se agora que a esperança de vida dos doentes aumentou muito desde então (mais 13 anos do que em 1996/1999).
Essa melhoria parece ter a ver com desenvolvimentos nos medicamentos e na sua forma de administração.
Há 10 anos, era impressionante ver criancinhas seropositivas a "treinarem" a ingestão de comprimidos (inertes) cada vez maiores, até conseguirem engolir coisas com o enorme tamanho dos comprimidos "a sério" - que, por vezes, chegavam a ter que tomar 20 vezes por dia. Agora, dizem, tudo se reduz a um comprimido diário e o desconforto causado pela medicação diminuiu muito. O que diminui também muito a quantidade de doentes que desistem do tratamento.

Infelizmente, estas boas notícias só valem para os países onde a disponibilidade do tratamento é generalizada e custeada pelo Estado, ou para quem tenha o (muito) dinheiro para o pagar do seu bolso.
O que recoloca a questão de decisões como a do Brasil, quanto ao pagamento de patentes no caso de doenças como esta.

Não podemos, entretanto, esquecer que muito mais poderia ser feito e não é, por incúria e/ou alegando "particularismos culturais" que nem sequer se conhecem.

Por exemplo, sabe-se também há mais de 10 anos que a percentagem de transmissão do HIV das grávidas para o bébés desce drásticamente quando se faz o parto por cesariana e quando a criança não é amamentada com leite da mãe.
É verdade que em países como Moçambique a disponibilidade de obstectras é limitada, em número e no território. Mas, por causa disso, não vale a pena adoptar esse cuidado com o parto, nos locais onde eles existem?
É verdade que leite em pó custa dinheiro. Mas é mais caro do que os anti-retrovirais, e do que o custo social e humano de ter quase o dobro de crianças seropositivas?

Mas também com os países mais pobres poderiam os ricos aprender.

Se a chamada batata africana é a base das terapêuticas "tradicionais" na África austral e efectivamente melhora a qualidade de vida e a longevidade dos seropositivos, e se foi já testado que ela não tem efeito anti-retroviral mas é um potente tónico do sistema imunitário, porque não juntá-la numa terapêutica "quádriplice"?
Haveria certamente vantagens para os doentes, por esse mundo fora. E, dos lados de cá, isso seria uma óptima legitimação moral para opções "à brasileira".


Adenda: Já agora, quem tiver interesse na questão do uso inconsistente do preservativo, suas razões e contradição com o discurso epidemiológico, dê uma vista de olhos neste artigo do Emídio Gune, publicado no último número da Análise Social, dedicado a Moçambique.

2 comentários:

Anónimo disse...

A prioridade deveria ser apostar na prevencao,isso sim. Portugal tem um dos indices de infeccao por HIV mais elevados da Eropa. E campanhas nem ve-las.

(Paulo Granjo) disse...

Campanhas, existem.
O problema é que não são baseadas num prévio estudo sério das práticas e dos sentidos que lhes são atribuídos pelas pessoas.
Assim, gasta-se dinheiro e falha-se.
Na prevenção da transmissão vertical (mãe/filho), a coisa até está bastante avançada, embora com desconhecimento dos protocolos (ou seu incumprimento) por parte de muitos médicos.
Mas isso é uma parte quase ínfima, embora importante.