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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Às vezes, vale a pena escrever

Estou de acordo com o António Paço: um dia em que um ditador foge do país à frente de protestos populares e Berlusconi deixa de ser inimputável pelos seus crimes e aldrabices é mesmo de uma safra excepcional.

(Mesmo que a reforma do Le Pen não pareça mudar muito e continuemos ensombrados pelas cheias na Austrália e no Rio de Janeiro, para além da tal de crise...)

Uma safra de tal forma excepcional que não resisto a acrescentar-lhe outra boa notícia, que tenho andado a guardar para as pessoas mais próximas durante as últimas semanas.


Saberão alguns de vós que escrevi, há coisa de um ano, um despretencioso livro que conta a história de vida de um transcontinental homem dos sete ofícios, Álvaro, centrado no enredado e nómada grande amor da sua vida, com a Rosita (há alguns excertos disponíveis aqui).

Ora acontece que uma leitora ficou emocionada com a história e conseguiu descobrir a Rosita numa cidade do interior.
Acontece que o Álvaro estava excepcionalmente em Portugal, para tratamento médico.
Acontece que ambos se queriam rever e se reencontraram, 40 anos depois. E continuaram a rever-se.
Acontece que estão felicíssimos com isso.

Diria o saudoso outro que «Assim acontece».
Diz a minha senhora que ganhei um lugar no céu.
Digo eu que, às vezes (às vezes...), vale a pena escrever livros.


(E, para não estragar o dia, o planeado post sobre uma forma alternativa de ver económica e politicamente a crise vai ter que esperar.)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

"Um Amor Colonial" em Sines

No próximo dia 28, às 17 horas, o livro Um Amor Colonial vai ser apresentado em Sines.

Será na antiga Igreja da Misericórdia, a dois passos do castelo, e cabe-me a honra de ter como apresentador o meu velho amigo Luís Patta.

Depois disso, suponho, toda a gente irá assistir à abertura do Festival Músicas do Mundo, ali ao lado.

E, aqui entre a gente, se não vierem ao livro não percam, pelo menos, o Festival.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A gente vê-se na Feira



Dando seguimento ao que se vai tornando um simpático hábito anual, estarei este sábado na Feira do Livro de Lisboa, para uma sessão de autógrafos e conversa com quem quiser aparecer.


Será das 15 às 18 horas, no pavilhão da Imprensa de Ciência Sociais, lá para os lados da Leya.

Na ocasião, estará também disponível o meu livro Um Amor Colonial, que continua a ser difícil de encontrar nas livrarias.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Compra directa do livro


Em resposta ás vossas justas críticas acerca de uma distribuição tipo "Portugal é Lisboa e o resto é paisagem", informaram-me que o livro Um Amor Colonial pode ser encomendado directamente para edicoescosmos@gmail.com, sendo enviado à cobrança, com portes de correio grátis para todo o mundo.

O preço de capa é o mesmo que nas livrarias: 12 euros.

Bom Natal!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um Amor Colonial (para o Natal?)

Depois de um longo atraso que continua a ser para mim incompreensível, está finalmente impresso e encadernado o livro Um Amor Colonial, de que vos mostrei algumas pequenas transcrições aqui.

Desta vez, acredito e posso afiançar-vos, porque o estou a ver e a apalpar, com estes olhos e mãos que (dizia a minha avózinha) a terra há-de comer.

Ainda existem umas coisitas a resolver, pois os exemplares vieram acompanhados de uma minuta de contrato inaceitável.
Se, por esse lado, tudo correr a contento de ambas as partes, o lançamento será ainda na primeira quinzena de Dezembro.
Darei notícias.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um Amor Colonial

Depois de estar agendado e vir a ser desagendado por duas editoras (foram as sucessivas crises...), e depois de uns atrasos de produção, está finalmente a imprimir Um Amor Colonial.

É a história de vida de um homem criado em Angola e do amor que perseguiu (e perdeu) por Lisboa, Luanda e Moçambique - onde ainda vive e pretende morrer.
E a capa ficou bonita, 'penso eu de que'...

Se os prazos correrem desta vez bem, tentarei oferecer-me o seu lançamento como prenda de anos, nos primeiros dias de Julho.
Até lá, podem ler uns excertos aqui.

Digam de vossa justiça.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Excertos de "Um Amor Colonial" (1)


«Um dia estou na Praça do Chile a tomar um café ali nos Perus, à espera do meu carro que estava a lubrificar. Vejo uma garota passar na rua e fiz-lhe um olhar daqueles olhares... pronto, que a gente faz. E ela sorriu! Eu levanto-me imediatamente, pago a conta, vou atrás dela e começa aqui uma história que desenrola por um período de sete anos!
Persigo a miúda, a miúda apanha um eléctrico, eu entro no mesmo eléctrico e a miúda cumprimenta o cobrador. Dá-lhe um beijo, um beijo de familiar. Mas é claro, eu não conhecia o sujeito de lado nenhum. Mais tarde, venho a saber que era o pai dela, o cobrador do eléctrico! Entretanto a miúda vai até o Terreiro do Paço e desce. Eu desço também.
Ela atravessa a Praça do Comércio e vai apanhar o carro eléctrico que vai para o Dafundo e a Cruz Quebrada, que partia do Terreiro do Paço. Ora, quando o eléctrico parte para uma viagem, vai vazio. Então, ela senta-se num banco, os outros bancos estavam todos vazios e eu fui-me sentar ao lado dela! A miúda ficou muito atrapalhada. Passado um bocadinho, assim que o eléctrico arranca, levanta-se e muda de lugar. E pronto, eu fiquei no mesmo sítio, mas sempre numa de perseguir. A coisa continuou, eu sempre a ver onde é que ela ficava, e quando ela chega ao Dafundo, desce. Ela desce, eu desço também.
Aí, a miúda começa-me a desviar a atenção. Mete para uma casa comercial, sai, vai para outra, e eu sempre a persegui-la sem perceber o que é que se passava. De um momento para outro, não sei como é que aquilo acontece, eu vou ver numa casa comercial onde é que está a miúda e a miúda não estava lá! E eu disse para mim: «Não! A miúda deve estar escondida, ou qualquer coisa». Bom... isto fez com que eu andasse um dia inteiro atrás dela e perdi-a de vista.»
(capítulo 4)

Excertos de "Um Amor Colonial" (2)


«Mas um dia encontrei-a! Encontrei-a em Algés, porque eu comecei a bater a zona de Algés até ao Dafundo para ver se descobria a miúda. Numa loja de brinquedos, vejo a miúda a sair. Pronto! A miúda não me viu, apanha o eléctrico e eu apanhei também o eléctrico. Só que ela não sabia que eu ia no eléctrico e, então, vejo que ela desce no Dafundo. E quando desce do eléctrico, porque vai para casa, encaminha-se para uma zona residencial. Quando ela entra na rua dela, eu vejo que entra num prédio, só que o prédio tinha três andares e eu fiquei logo: «Agora, qual será o andar?».
Resolvi ficar cá em baixo à espera. E então, quando passados aí dez minutos da miúda entrar vem uma senhora à janela olhar para vários sítios, eu pensei: «É ali que ela mora, porque é a mãe que veio ver quem é o tipo que vem atrás da miúda». Pronto, tomei nota daquilo e fui-me embora.
Entretanto, eu queria comunicar com ela, mas não sabia como. Então, comecei-lhe a escrever cartas, mas sem nome, porque eu desconhecia o nome dela. Eh pá, cartas simples, não é? A dizer que gostaria de falar com ela e tal... Mas, quando eu endereçava a carta era sempre «Menina...?» e mandava para a morada que eu conhecia. É claro, a família teve conhecimento porque a carta ia através dos correios.
(…)
Na última carta que eu lhe escrevi (porque estava cansado já da situação, isto já ia lá a caminho dos dois meses e eu sempre a persegui-la), na última carta eu disse-lhe mesmo: «Olhe, esta é a última carta que eu lhe vou escrever. Se não me der uma chance de um pequeno diálogo, pelo menos para me conhecer, ou para me mandar para qualquer lado assim menos agradável», disse-lhe eu, «é a última vez que eu venho ao Dafundo». E então eu disse-lhe que no dia tantos, às tantas horas, eu estaria no Café Lobito.»
(capítulo 4)

Excertos de "Um Amor Colonial" (3)


«O que se passou é que eu me senti perseguido pela PIDE.
Eu sentava-me num café e via uma pessoa a olhar para mim. Eu saio do café, vou-me embora, sento-me noutro café, vejo o mesmo homem a olhar para mim! E é claro, eu começo a ficar um bocado «Que é isto?» Então, propositadamente, mudo para outro ponto da cidade completamente oposto e, passado um bocado de eu estar noutro sítio, vejo o mesmo indivíduo. Então, aí ganho medo!
Ganho medo, falo com um chefe meu, que era o Nascimento:
- É normal que isso aconteça porque... eu vou-te explicar: Todas as pessoas que a sua profissão é uma profissão que passa fronteiras, portanto tripulantes de navios, comboios, aviões e tal, normalmente são perseguidos pela PIDE. Porque eles podem pensar que são correios ou qualquer coisa. Então, perseguem! Isso não quer dizer que venham a fazer mal. É para ver a vida da pessoa. E, depois, largam.
Mas, é claro, depois de uma pessoa ser apanhada por eles, eu não sei o que é se passaria lá. Eu não tinha nada a ver com política, mas as pessoas sabiam o que é que eles faziam. E esse medo continuou dentro de mim. Então, eu faço um pedido ao Presidente do Conselho de Administração da TAP, para me transferir para Luanda ou para a Beira (…) como ele se recusa, eu apresento a minha demissão. E foi isto uma das coisas que deu uma volta na minha vida profissional. Porque eu fui obrigado a largar um dos melhores empregos que tive na minha vida por causa da... Não foi por causa da rapariga, mas as duas coisas juntas, foi por causa da PIDE! Senti-me perseguido, senão ainda hoje estaria lá, talvez...»

(capítulo 5)

Excertos de "Um Amor Colonial" (4)


«Entretanto, quase todos os meses, eu recebia uma encomenda e mandava encomendas através de um tripulante do Infante D. Henrique. E um belo dia a miúda escreve-me uma carta e diz: «Olha: Optei por ir para São Paulo. Vou para o Brasil e vou resolver as coisas com o meu tio, a ver se há possibilidade de tu ires para o Brasil, também. Tu vais-me mandar o currículo completo, que é para eu entregar ao meu tio, ele vai-te arranjar, com certeza, vida no Brasil e nós vamos fazer a nossa vida no Brasil.» Eu disse: «Está bem.» «Mas antes de eu ir embora vou-te mandar uma encomenda, pelo despenseiro do Príncipe Perfeito.» (Pois, era o Príncipe Perfeito, não era o Infante D. Henrique.) «Está bem», disse eu. Era habitual, isso.
Então, quando o navio chega a Luanda, eu fui buscar a encomenda. Pedi licença ao guarda-fiscal para ir lá acima buscar a encomenda, como habitualmente fazia. Quando eu estava a falar com o guarda-fiscal, olho lá para o cimo da escada e vejo que a encomenda era ela e a mãe! Eu nem perguntei nada ao guarda-fiscal. Subi pela escada acima e fui buscar a encomenda! Peguei na miúda, vim por ali a baixo e o guarda-fiscal:
- Olhe, faz favor...
- Não, não... Deixe-me cumprimentar.
Eu não liguei a nada porque, quer dizer, eu nem estava a acreditar naquilo! A mãe e a filha estavam em Luanda, quando ela me disse que ia para o Brasil.»

(capítulo 5)

Excertos de "Um Amor Colonial" (5)


«Um belo dia de Reis, eu estou no meu serviço e, como habitualmente, ia lá a casa dela. Eu lembro-me que não havia lá nada assim de especial e resolvi ir a uma pastelaria comprar um bolo-rei e uma garrafa de vinho do Porto. A miúda sai do serviço e pensa: «Ele logo vai lá a casa e não temos lá nada. Deixa-me lá ir comprar um bolo-rei, porque é dia de Reis.» Então, foi a uma pastelaria (talvez a mesma, já não me lembra), compra um bolo-rei e, penso que sim, também levou a garrafa de vinho de Porto para acompanhar aquilo.
E quando chego lá a casa:
- Olha: não havia cá nada, comprei isto.
- Tem piada que eu lembrei-me da mesma coisa e também comprei isto. Está ali em cima da mesa.
Já lá estava. Eu olho para aquilo, fez-me um bocado de confusão na cabeça, não é? Era uma grande coincidência, termos os dois pensado a mesma coisa. Mas pronto… A única coisa que eu fiz foi:
- Vamos cortar os dois bolos. Já que se compraram os dois bolos vamos cortar os dois bolos.
- Mas somos poucas pessoas. Somos cinco pessoas.
- Eh pá: diz aí ao senhor Zé – que era o dono da casa – para chamar os vizinhos aqui do lado, porque vêm ajudar a comer o bolo.
Juntaram-se ali mais três pessoas, que era um casal e um filhito que vieram para ali, e fizemos ali a nossa festa de Reis.
Então, quando cortámos os bolos, acontece isto: no bolo que eu comprei, o brinde que lá estava dentro era uma aliança pequenina que entrava no dedo da miúda; e no bolo que ela comprou o brinde era uma aliança maior, que entrava no meu dedo!
A mãe, quando vê as alianças em cima da mesa, começa a chorar, as lágrimas a correr pela cara abaixo. Mas não era de tristeza. Ela disse mesmo:
- Nada vos pode separar, porque o destino vos está a unir.
E depois eu, quando estou a brincar com as alianças, nervoso, a pegar naquilo e também a pensar que o destino estava metido ali, eu quando estou a brincar com as alianças, vejo que uma aliança cai em cima da outra e entra dentro da aliança justinha. Não tinha folga nenhuma! Mais um sinal que, realmente... Eh pá! Eu quando... quando a gente vê aquilo tudo, pronto, a festa mudou. Porque, realmente, depois só se falava à roda disso, em termos de futuro e «vocês têm que resolver a situação». E foi realmente a conversa, até dos vizinhos do lado. «Mas porque é que vocês não resolvem a vida? Os sinais estão aqui evidentes», não sei quê. Mas, quer dizer, continuámos a tentar resolver a situação oficialmente, legalmente.
Até que um dia, quando vimos que a coisa estava um bocado complicada, o divórcio nunca mais surgia, chegámos a um acordo. Dissemos: «Vamos ter a certeza se conseguimos viver um sem o outro. Então vamo-nos separar!» Foi de comum acordo. «Eu fico em Luanda e vocês vão para a outra costa» – nós considerávamos a “outra costa” Moçambique.»
(capítulo 5)

Excertos de "Um Amor Colonial" (6)


«A correspondência mantinha-se. Eu chegava a escrever três cartas por dia, sabendo que às vezes a terceira chegava primeiro que a primeira. Mas eu... eu só estava bem era a escrever! E ela também.
Mas começo a verificar que de Lourenço Marques para Luanda, as cartas começam a reduzir. Começa-me a preocupar. Começa a vir uma carta por semana, outras vezes já vinha por quinze dias, depois um mês e depois acabou! Escrevi, escrevi, escrevi e não obtive resposta.
Eu não fiquei nada satisfeito com isto. Alguma coisa se passou de muito grave. Ou o pai a descobriu, ou… Porque vinha-me sempre à ideia o pai.
Resolvi largar tudo e ir para Moçambique à procura dela.»
(capítulo 7)

Excertos de "Um Amor Colonial" (7)


«Isto foi quase num fim-de-semana. Vem o domingo e uma pessoa não tinha nada que fazer. Aqui em Lourenço Marques, eu não conhecia ninguém. Ponho-me à janela muito cedo, a fumar um cigarro, ainda em roupas interiores e tal, e qual é o meu espanto quando vejo, defronte desse quarto, sair a mãe dela do prédio em frente. E eu disse: «Mas como é que o destino me está a colocar outra vez?...» Porque eu não sabia o paradeiro delas, não sabia! A única coisa que eu sabia era o nome da Pensão Tropical. Elas depois mudaram e a correspondência vinha para a Caixa Postal. E eu olho para ali e vejo a mãe sair do prédio!
Eu vou tentar vestir-me à pressa para ir atrás da mãe mas, quando eu chego à rua, já ela tinha ido à sua vida. Fartei-me de olhar para o prédio mas, àquela hora, ela de certeza morava ali. Porque se fosse a outra hora do dia, ela podia ter ido visitar alguém. Mas era muito cedo. Àquela hora, ela morava ali de certeza.
Então, resolvi fazer umas esperas, até que consigo apanhar a mãe.
- Bem, Dona Rosa, como está? Passou bem? Tal, tal...? A sua filha?
- Ah! A minha filha, e tal... Isso é uma história muito looonga...
- Ah é? Quer dizer, acha que é mais longa que a minha, é?
Eu perguntei-lhe assim, mas:
- Não! Isso aconteceu aí umas coisas...
- Mas o que é que foi? Aconteceu-lhe alguma coisa de mal?
- Não, ela conheceu aí um moço, começou depois a namorá-lo e ele propõe-lhe casamento. E ela casou-se.
- Ela chega aqui, conhece um moço assim sem mais nem menos e casa logo?
- Bem... ele é meu sobrinho, sabe?
Eu disse:
- Seu sobrinho aqui? Mas vocês tinham família em Lourenço Marques?
- Não! Ele veio cá cumprir o serviço militar e resolveu ficar cá.
- Então mas eu gostava de a ver. Pronto, ela seguiu a vida dela, pronto, ok, mas eu gostava de a ver.
- Mas agora é um bocado difícil, porque ela foi viver com o marido lá para cima para o norte, ela está lá para Vila Cabral.
E lá me dá um ponto, realmente, dos mais distantes que há em Moçambique, em relação ao ponto em que a gente se encontrava!»

(capítulo 8)

Excertos de "Um Amor Colonial" (8)


«Então, quando chegámos a um cruzamento em que teríamos que desviar para Nampula, para depois seguir para o norte, eu quando vou a chegar vejo a frota de camiões toda parada na estrada. Os oito carros ali parados. Eu paro também. O que é que se passa? Então verificámos: o primeiro carro partiu o veio de transmissão, que é uma peça muito difícil de reparar. Dali não se podia prosseguir a viagem sem se resolver aquele problema.
Então eu fui a um estabelecimento comercial que havia ali naquele cruzamento e perguntei qual era a cidade mais próxima. Cidade mesmo, não era vileca, porque para resolver um problema daqueles tinha que ser uma cidade. Então disseram-me que era Quelimane, que ficava a cerca de 40 ou 50 km daquela zona. Desmontámos a peça que estava partida, pegámos num camião e lá fomos nós para essa tal cidade de Quelimane, à procura de uma oficina grande.
Chegámos lá, localizámos uma oficina, mas não havia hipótese de resolver o problema. Teríamos que mandar vir uma peça nova de Lourenço Marques. Então, teríamos de arranjar maneira de ficar ali uns dias, à espera que a peça viesse de avião para se montar e prosseguir a viagem. De modo que arranjámos quartos para os motoristas, essa história toda. Então, no domingo (estas peripécias, normalmente, aconteciam ao domingo), no domingo eu entro num café que há em Quelimane, que é o Pólo Norte, estou a tomar o meu pequeno-almoço e encontro um amigo meu que tinha estado em Luanda e conhecia até o nosso namoro de lá. Nós estamos sentados, eu de frente para porta e ele de costas para a porta, ele pergunta-me:
- Então a Rosa Maria, pá?
E eu disse:
- Olha: se tu soubesses porque é que eu estou aqui, pá! Eu estou aqui, houve uma avaria num carro fui obrigado a vir para aqui, mas estou de passagem. Estou precisamente a caminho do norte, porque eu tenho que encontrar a Rosa Maria.
E quando eu digo «eu tenho que encontrar a Rosa Maria», ela entra pela porta do café!»

(capítulo 8)

Excertos de "Um Amor Colonial" (9)


«Agora, não sei. Partiu para Portugal, não sei o que é feito dela. Nunca mais tive notícia nenhuma dela, nestes trinta anos. A mãe também foi, pronto, e eu nunca mais tive notícia. Mas gostava. Ainda pus alguns anúncios num jornal, parece que era um semanário. «Alguém conhece a Rosa Maria de Oliveira César Paulo?» Nunca ninguém me respondeu. Pronto, se calhar ela até leu mas disse: «Não... é melhor não escrever.»
E olha... cá estou eu, mas com esperança de ainda a encontrar! Não é cá para maluquices. Estamos velhos para isso, eu tenho a minha vida, ela tem a dela. Mas gostava de a encontrar. Só.
Eh pá! Acredito que esta do destino… Eu penso muito nisso, e penso que talvez não tenha feito um grande esforço, durante estes 15 anos últimos, para a encontrar porque sinto uma pontinha de esperança cá dentro que o destino, um dia, vai pô-la à minha frente. Nem que seja na véspera de eu morrer! Porque passaram-se tantas peripécias, tantas coincidências que... é o destino.»(capítulo 9)

Excertos de "Um Amor Colonial" (10)

«Portanto, está a ver: o país não está como as pessoas gostariam, o tempo passa e cada vez há menos desculpa para o que está mal, mas a verdade é que passei cá as alturas mais difíceis, não era agora que me ia embora. Quando me convidam para ir para Portugal, eu digo: «Eu hei-de morrer aqui.»
Há um termo que eu apliquei, quando era muito novo e não sabia onde é que ia parar com a minha vida. Dizia isto a muita gente: «Deus deu-me um bocadinho para eu nascer e deu-me o mundo inteiro para eu morrer.» Disse isto durante muitos anos a muita gente, porque andei realmente perdido.
Hoje, sei que hei-de morrer aqui.»
(capítulo 10)

Este livro, a história de vida de um habitante de Maputo (com este amor pelo meio e contada nas suas próprias palavras), está há 2 anos para ser publicado.
Uma editora já avançou e recuou. Outras consideram que, comercialmente, é uma «edição de risco» - e devem ter razão, porque eles é que são os profissionais.
Confesso que não percebo o mercado livreiro.

Leia o Posfácio analítico de "Um Amor Colonial - Álvaro e Rosita, Lisboa/Angola/Moçambique"