domingo, 3 de abril de 2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Às vezes, vale a pena escrever
Estou de acordo com o António Paço: um dia em que um ditador foge do país à frente de protestos populares e Berlusconi deixa de ser inimputável pelos seus crimes e aldrabices é mesmo de uma safra excepcional.
(Mesmo que a reforma do Le Pen não pareça mudar muito e continuemos ensombrados pelas cheias na Austrália e no Rio de Janeiro, para além da tal de crise...)
Uma safra de tal forma excepcional que não resisto a acrescentar-lhe outra boa notícia, que tenho andado a guardar para as pessoas mais próximas durante as últimas semanas.Saberão alguns de vós que escrevi, há coisa de um ano, um despretencioso livro que conta a história de vida de um transcontinental homem dos sete ofícios, Álvaro, centrado no enredado e nómada grande amor da sua vida, com a Rosita (há alguns excertos disponíveis aqui).
Ora acontece que uma leitora ficou emocionada com a história e conseguiu descobrir a Rosita numa cidade do interior.
Acontece que o Álvaro estava excepcionalmente em Portugal, para tratamento médico.
Acontece que ambos se queriam rever e se reencontraram, 40 anos depois. E continuaram a rever-se.
Acontece que estão felicíssimos com isso.
Diria o saudoso outro que «Assim acontece».
Diz a minha senhora que ganhei um lugar no céu.
Digo eu que, às vezes (às vezes...), vale a pena escrever livros.
(E, para não estragar o dia, o planeado post sobre uma forma alternativa de ver económica e politicamente a crise vai ter que esperar.)
sábado, 6 de novembro de 2010
«Produção primeiro, segurança depois»
« Os dois acidentes laborais mais mediáticos dos últimos anos - o derrame do poço petrolífero da British Petroleum (BP) no golfo do México e os célebres 33 mineiros resgatados em San José, no Chile - vieram dar visibilidade, junto do grande público, a um problema que os estudos especializados tendem a ignorar: a frequente subalternização da segurança aos objectivos de produção e ao lucro, na gestão corrente de indústrias perigosas.
Em curioso contraste com o quase silêncio a nível internacional, o assunto tem sido abordado em estudos sobre Portugal e Moçambique, embora nada indique que tal se devesse a algum particularismo local ou cultural. Estas novos acidentes (cujo impacto mundial tornou inevitável a divulgação das suas causas e circunstâncias) vêm demonstrar que, a existir um particularismo, ele não se situa na prática das empresas, mas no olhar que sobre elas é lançado por quem as estuda.
Os acidentes vieram também colocar na ordem do dia interrogações inquietantes. Podemos continuar a considerar um caso pontual cada novo desastre em que a segurança tenha sido subordinada a critérios economicistas, ou estamos perante um padrão sistemático? Que podemos fazer para contrariar essa tendência empresarial, com isso protegendo a vida dos trabalhadores, o meio circundante e as demais pessoas que podem ser afectadas por cada desastre? »
...continue a ler, na página 2 do Monde Diplomatique deste mês
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Vá a Veneza, enquanto existe
Por enquanto, é uma coisa passageira e devida à direcção dos ventos e às fortes chuvas sentidas no norte de Itália.
Nalgumas décadas, esta cidade lindíssima irá desaparecer (ou ficar rodeada de diques e muralhas, tornando-a um fóssil daquilo que hoje é), devido às subidas do nível do mar, à erosão costeira e às mudança dos regimes das chuvas que, sem alardes mas depressa, irão resultar das alterações climáticas decorrentes do efeito de estufa.
Suponho que os leitores não deixarão, por causa disso, de levar o carro para todo o lado e de consumir quantidades astronómicas de energia obtida à custa da emissão de carbono.
Mas, sendo assim, já agora vão a Veneza. Enquanto existe.
terça-feira, 1 de abril de 2008
Vitamina A e cheias maiores para o ano
É verdade que estamos é todos em pulgas para saber o que se vai passar no Zimbabwe.
Mas o telejornal de ontem (STV, em Moçambique) deixou-me tão abananado que só agora o consigo comentar.
Primeiro, ficaram os tele-espectadores a saber de uma campanha de vacinas (sic) de Vitamina A, numa zona onde as doenças derivadas da sua falta são mais frequentes que no resto do país.
Na minha infância, eram as infectas colheradas de óleo de fígado de bacalhau.
Nesta nova opção técnica, injectam-se as crianças, o que sempre lhes dá para umas semanas (ou, se a dose for demasiada, para doenças hepáticas durante o resto da vida), em vez da trabalheira de explicar ao pessoal que partes dos bichos e que plantas, mesmo bravias e endémicas, estão cheias da tal de vitamina. Ou de tentar criar condições para que as pessoas se possam dar ao "luxo" de aceder a uma alimentação que não engane apenas a fome, quando tal é possível.
Mas, realmente, uma campanha de "vacinação" com vitaminas sempre enche mais o olho.
Depois, veio o ministro que ainda não foi remodelado anunciar um aumento de 1/3 no fornecimento de energia de Cahora Bassa à Electricidade de Moçambique.
É bom, não é? E, conforme o patriótico governante anunciou, somente possível porque agora não é preciso andar a arrastar negociações com ex-potências coloniais, é só decidir.
É também um motivo de esperança para quem nunca teve luz eléctrica e um encorajador sinal de desenvolvimento do país - mesmo se a Mozal, sozinha, consome o dobro da electricidade que o resto do país, embora a re-importe da África do Sul.
A minha dúvida é só uma: estando a actual produção de Cahora Bassa contratualmente vendida, nas próximas décadas, à Àfrica do Sul (sobretudo), ao Zimbabwe, à EDM e ao Malawi, como é que se vai fazer? "Fechar a torneira" ao Zimbabwe (que agora até voltou a pagar) ou aumentar a produção?
Cheira-me que a via seguida será a segunda. Até por causa desta outra notícia, de maior fornecimento à África do Sul, que implica aumentos de produção ainda mais acentuados.
A ser assim, tendo em conta isto e isto, posso desde já anunciar aos eventuais interessados que as cheias do Zambeze serão, no ano que vem, muito piores do que as deste ano e as do anterior.
Vão já preparando os dólares, os helicópteros, as máquinas fotográficas e os caixões.
Aditamento, pouco depois: só agora reparei na data. Não, estas não são notícias de 1º da Abril. São reais e passaram ontem, 31 de Março, na televisão.
sexta-feira, 14 de março de 2008
Cahora Bassa e as cheias
É tempo de reconstrução e (esperemos, a bem das populações ribeirinhas) de reflexão.
O engenheiro José Lopes, de quem já transcrevi aqui um artigo, coloca no Xitizap uma pergunta essencial: «Quando em duas estações de chuva seguidas (2007/08) duas tragédias hídricas muito similares ocorrem no Vale do Zambeze, haverá ou não conclusões a tirar quanto à imediata reformulação da gestão hidrológica da Hidroeléctrica de Cahora Bassa?»
Conforme tive oportunidade de comentar por aqui, a resposta parece evidente, mas os interesses em jogo (sobretudo sob pressão do reembolso da dívida contraída para pagar a reversão da HCB) não justificam grandes optimismos de que ela seja sequer equacionada.
Num quase desabafo, lamento que esta questão não tenha tido suficiente visibilidade pública quando o estado português ainda era o sócio maioritário. Nessa altura, até a retórica da "insensibilidade de Portugal" para com o sofrimento das populações poderia ter sido mobilizada - e com uma certa razão, pois se "Portugal" nem sequer sabe do assunto, seria justo apontar essa insensibilidade à administração da empresa. Talvez até, nessa altura, o estado moçambicano pudesse ficar desse lado da barricada.
Agora, temo bem que uma questão e reivindicação como esta venham a suscitar, dos poderes oficiais, as correntes retóricas do anti-patriotismo, do interesse nacional e das mãos invisíveis.
Mas quem sabe? Por vezes, os períodos eleitorais fazem milagres bem desejáveis.
quarta-feira, 5 de março de 2008
Estrangeiros à porta de casa
Afinal, ontem não resisti e, na habitual visita ao blog de Carlos Serra, deixei um comentário antropocoisico no post que ele fez acerca desta notícia.
Isto porque, como diz um outro comentador, é uma «bela peça de jornalismo, para quem “curte” antropologia».
Lembrou-me um artigo do Mia Couto, anos atrás, em que ele referia o desconforto e ar de peixes fora de água dos seus alunos, quando tinham que se sentar no quintal de alguém, fora da capital.
Também há uns anitos, tive que teorizar um pouco acerca da prática de "antropologia à porta de casa" (dowload de excerto aqui, livro aqui). Por vezes, duvido da utilidade que essas reflexões possam ter em Moçambique pois, para muitas pessoas nadas e criadas em Maputo, o seu próprio país parece ser tão estrangeiro e exótico como para alguém que acabou de desembarcar da Suécia. Outras vezes, penso que não é assim tão inútil, pois essas mesmas pessoas (quando são, por mero exemplo, jornalistas) não dão grande importância a essa 'estrangeireza' e olham os seus concidadãos como se os conhecessem "de gingeira" e estivessem no Alto Maé.
Daí a pergunta: Que tal uns cursozinhos de verão em Antropologia, para jornalistas e políticos?
E não julguem que estou a falar apenas de Moçambique.
Aditamento a 6/3: a zanga de um comentador mais mal-disposto acabou por abrir a porta à descoberta de um fascinante aspecto linguístico. Veja aqui.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
(re)Parabéns, INGC
Já aqui louvei a eficiência e o rigor do Instituto Nacional de Gestão das Calamidades, nas cheias do Zambeze.
Agora, o INGC vem chamar a atenção para desvios na distribuição dos donativos às vítimas das cheias, a jusante da sua acção - juntando às suas outras características públicas a seriedade e mostrando que, para um organismo estatal como este, tais falcatruas, roubos e revendas não são normais nem aceitáveis.
Parece que alguém andou a ler a história do menino e do lobo, levando a sério que, para o auxílio vir depressa quando é de facto necessário, não se pode andar sempre a gritar «Lobo!» sem que ele lá esteja. Parece que também se andou a ouvir a velha frase de que "à mulher de César não basta ser séria, tem também que parecê-lo" - e, com isso, ganhar credibilidade e não apenas pena.
Quem olha e vê, deixa de acreditar nessas balelas de que incompetência, corrupção e desleixo são "culturais" e "moçambicanos" (tal como, há umas décadas atrás, se dizia que desorganização e calãzisse eram "culturais" e "portuguesas"). São apenas incompetência, corrupção e desleixo - e, venham de moçambicanos ou de quem quer que seja, não há supostas "culturas" que os justifiquem; há apenas a complacência para com eles.
sábado, 9 de fevereiro de 2008
«It's the economy, stupid» ?
Adiatamento em 17/2: talvez este dado também seja relevante.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Até as mortes, meu Deus?
O tratamento noticioso das actuais cheias no centro de Moçambique cada vez me deprime mais.
Deixei escrito, há 4 dias atrás, que uma morte é uma desgraça absoluta. Os números são indicadores importantes (uma coisa é morrerem 7 pessoas, outra é morrerem 7.000) mas, em termos humanitários, apenas isso.
Entretanto, ficaram-se ontem a saber, pelo jornal Notícias, as causas de morte das 7 pessoas contabilizadas como vítimas das cheias. 4 morreram devido a arrastamento pelas águas e 3 por ataques de crocodilos, quando pescavam e tomavam banho.
Fiquei a saber que, ou as pessoas não pescam nem tomam banho quando não há cheias, ou até os mortos se manipulam.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Terra à vista
Com a diminuição das descargas de Cahora Bassa, a água vai baixando no Zambeze e a crise parece estar passada.
Volto a louvar o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, pela abordagem prospectiva e atempada da situação.
Comentava hoje um colega, de forma algo blasé, que são previsíveis as zonas que irão alagar. Sê-lo-ão, certamente; mas para transformar essa previsibilidade em resposta eficaz é necessária planificação, organização e competência.
No dia em que (dream on...) essas características passem a estar presentes, ao nível exigível, nas instituições públicas - aqui ou noutros países, incluindo as estruturas de protecção civil - deixarei de me sentir na obrigação de as louvar.
A partir de agora, lá voltará o pessoal a casa - nuns 20.000 casos, segundo as estimativas iniciais, a reconstruir.
Voltarão também as polémicas citadinas acerca da suposta "burrice" e "casmurrice" das populações zambezianas.
Depois de cada cheia nesta zona, as instituições estatais costumam dar apoio em cimento, chapas de zinco e comida, a quem construa casas em alvenaria nas zonas altas. As pessoas têm, pelo seu lado, que fazer os tijolos e construir, o que não é complicado face às tipologias de habitação e aos saberes existentes.
Acontece que grande parte das pessoas costumam receber os materiais e ir construir em zonas alagáveis, apesar das acções de sensibilização.
Para alguma gente discutindo o assunto na poltrona da sua sala, afinal, «eles (e/ou os respectivos régulos) estão mesmo a pedi-las».
É esquecer, para além das razões simbólicas e micro-políticas, uma coisa simples: Sobretudo para populações ribeirinhas, porque é que se havia de partir os rins a cultivar terras secas e pouco férteis, quando estão ali disponíveis terrenos de aluvião, já bem conhecidos?
Depois, já mostrava Adolfo Yañez -Casal, no seu livro Antropologia e Desenvolvimento: as aldeias comunais de Moçambique, quando uma pessoa se desloca a pé para fazer trabalhos agrícolas, a distância é uma variável essencial da racionalidade económica. A partir de certa altura, o tempo gasto na ida e vinda à machamba torna-se contraproducente. Ou seja, cultivar à beira rio implica não morar a grande distância da margem.
Com tanto dinheiro correndo para tantos estudos (quer os das sucessivas "modas" academico-oénegéticas, sempre repetitivos entre si, quer os mais absurdos que imaginar se possa), talvez fosse esse o estudo que realmente valesse a pena: como resolver este problema, a contento da segurança e das necessidades das populações?
Talvez se viesse a ver que alguns saberes antigos, como a dupla residência sazonal, mereceriam ser recuperados. Ou talvez se descobrisse, entre as pessoas, o germe de novas soluções.
domingo, 20 de janeiro de 2008
Tragédia das calamidades
Fui hoje almoçar a uma conhecida esplanada de Maputo, que parece concebida para fazer com que os sul-africanos de origem europeia se sintam em casa.
Excepcionalmente, para um domingo de verão, não havia muitos representantes dessa digna e autoproclamada tribo africana. Em compensação, na mesa ao lado terminavam a sua refeição 3 italianos e 2 franceses.
Chegada a (sua ) hora do whisky e da cigarrilha, começaram a discutir com alguma gulodice, primeiro nas suas línguas respectivas e depois em inglês, all together, a quantidade de fundos que as suas conhecidas e respeitadas ONGs iriam conseguir angariar, «para depois das águas baixarem».
Que fique claro: aqueles homens não estavam a discutir (ao contrário do que noutras vezes ouvi abertamente a outra nacionalidade, acerca de outros assuntos) quanto dinheiro iriam conseguir meter no próprio bolso. Quanto a isso, suponho, bastar-lhes-ão os salários hiper-inflaccionados e o nível de vida que nunca poderiam ter nos seus países respectivos. A questão era dinheiro para projectos dirigidos pelas suas organizações.
A certa altura, um mais novato ou ingénuo disse algo que todos estavam carecas de saber e de ter em conta: «Depende muito da forma como o problema for apresentado nos media europeus».
No sentido original da palavra (grego e dramatúrgico), há uma tragédia com as calamidades, talvez também em muitos outros sítios, mas certamente aqui. A sua origem está no facto de, tirando as vítimas directas, quase toda agente beneficiar com elas.
O governo ganha mais fundos internacionais e mais tolerância para com o incumprimento de compromissos ou metas assumidas (tem apenas que gerir com cuidado a intervenção de ONGs e organizações internacionais, ou depois é difícil livrar-se da sua presença no terreno).
A todos os níveis da administração, há quem ganhe com a abundância de meios financeiros e materiais ali à mão de semear, em alturas de confusão que justificam todas as discrepâncias entre o recebido e o utilizado no terreno.
Nos bairros populares, ainda hoje famílias pobres mas com alguma capacidade de pequeno investimento vivem da revenda à peça de "fardos das calamidades" oferecidos em solidariedade para as vítimas das cheias de 2000 e seguintes, mais tarde vendidos em leilões oficiais ou por quem então os desviou.
Os seus ainda mais pobres clientes têm com isso acesso a peças básicas de vestuário a preços comportáveis.
As ONGs reforçam os seus meios, conseguem sustentar e justificar as suas pesadas e caríssimas estruturas (caras não apenas com estrangeiros; para que não roube, paga-se a um contabilista local um salário líquido de 3.000 dólares, num país em que o salário mínimo é de uns 65), podem apresentar relatórios quantitativamente impressionantes e capazes de escamotear a ausência de resultados ou efeitos preversos por que, na maioria dos casos, se costuma pautar a sua acção corrente - e, afinal, legitimar a sua existência e custos.
Mas, para isso, uma boa calamidade é, como desnecessariamente salientava o novato da mesa ao lado, uma calamidade grande e descontrolada.
Pergunto-me se será por isso, ou por mera avidez mediática pelo sangue, que as primeiras reportagens internacionais foram factualmente erradas e, aparentemente, tão exageradas.
Pergunto-me se será por isso, ou por previdência em relação ao possível evoluir da situação, que, com uma previsão inicial (e aparentemente pessimista) de 90.000 vítimas, chegou ao porto da Beira comida para 250.000 pessoas.
Pergunto-me se será por isso que os números de evacuados flutuam tanto e que, somando os números de todos os campos de reassentamento mencionados nos media, se fica tão longe dos 63.000 oficiais.
Pergunto-me se será por isso (e pelo parágrafo anterior) que se fazem grandes parangonas com a suposta instigação dos régulos (assim, no generalizado) ao abandono dos campos de reassentamento e regresso a zonas alagadas, quando é apenas mencionado um caso, numericamente irrelevante.
Neste quadro, também, espanta-me que um vice-director do INGC responda aos media que os meios disponíveis ainda são suficientes, quando o seu governo acabara de conseguir, de estados estrangeiros, que o orçamento de combate a estas cheias venha a subir de 3,2 para 32 milhões de dólares.
Honestidade? Ingenuidade política da parte de alguém que raciocine essencialmente como técnico?
sábado, 19 de janeiro de 2008
Voltemos ao que interessa
Uma morte é uma desgraça absoluta. Sete mortes, são 7 desgraças absolutas - e tudo o mais se torna contabilidade.
No entanto, no meio das confusões mediáticas acerca da cheia actual (desde a cidade de Tete submersa, inventada pela BBC, à încongruência de números e à sensação de quase rotina transmitida em jornais moçambicanos), há uma coisa que se vai tornando evidente e muito me agrada salientar:
O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades parece dispor dos meios suficientes para lidar eficientemente com a situação e estar a abordá-la da forma mais correcta. As intervenções e as evacuações estão a ser sobretudo preventivas, prospectivas e atempadas - ou seja, estão a ser feitas antes de a ameaça sobre cada zona específica se transformar em alagamento e em pessoas sob perigo imediato, ou a flutuarem mortas sobre as águas.
É uma questão de opção estratégica, bom senso e organização.
Numa frase que deve ter deixado arrepiados os negociantes das calamidades e os sôfregos de "ficarem na fotografia" com tragédia alheia em pano de fundo, o director do referido Instituto declarou que «a nossa aposta de momento é evitar uma catástrofe humanitária». Antecipando-se a ela, acrescentaria.
Embora seja essa a sua obrigação, aplaudo entusiasticamente (até pelo facto de os poderosos terem obrigações não querer dizer que elas sejam cumpridas, e muito menos com eficiência) e fico satisfeito, pelas pessoas afectadas.
Confesso a minha curiosidade em, qualquer dia, conhecer este homem. Cheira-me que se preocupa bastante mais em estudar os dossiers, planificar e rodear-se de colaboradores competentes do que em pavonear sinais exteriores de poder. A ser esse o caso, espero que uma atitude tão contrastante não lhe venha a trazer dissabores.









