quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Há quem faça greves gerais e quem faça happenings





Há quem pare o país, e quem ache mais importante mandar garrafas de cerveja aos polícias.

Ha quem tenha como objectivo parar a política de austeridade e criar soluções alternativas, e há quem tenha como objectivo ocupar as escadas exteriores da Assembleia da República.

Há quem queira mostrar a força que os trabalhadores podem ter num país, há quem queira mostrar a força que uma multidão pode ter a empurrar barreiras metálicas.



A cada um, afinal, o seu sentido daquilo que é importante em política e daquilo que é politicamente importante na situação actual.


Mas montar-se às cavalitas de uma extraordinária greve geral e do movimento sindical, para a marcar mediaticamente com tão transcendentes objectivos e práticas, revela uma dupla pequenês, para além doutras que existam:

A pequenês de carneiros à cornada ao cão do pastor, em vez de ao dono da agropecuária que paga ao pastor.

A pequenês de quem se mete a reboque de quem tem a força e a capacidade mobilizar uma greve geral para, mobilizando pessoas em nome dela, fazer o seu happeninguesinho.


Há quem faça greves gerais. E há quem pareça fazer tudo para que os media não falem delas, mas de fait divers.

Bem-vindos à equipa dos produtores de notícias sobre futebol, estende-lhes a mão, sorrindo, Miguel Relvas.

5 comentários:

Susana Boletas disse...

Eu não fiz parte da organização da manifestação de quinta-feira passada, mas sei que foram feitos contactos com as centrais sindicais, a seguir à greve geral ser convocada, para se fazer algo em conjunto. A manifestação do 15 Out foi convocada quando estes contactos não receberam resposta. Quando se soube que as centrais sindicais também convocaram concentrações e manifestação, voltaram a entrar em contacto com eles para articular os momentos, para não haver sobreposições, combinar as horas, o percursos, o encontro no Rossio, para se seguir todos juntos para São Bento.

Quinta já cheguei atrasada à manif porque tive de vir de boleia com um amigo e demorámos a encontrar lugar para estacionar o carro, fui directamente para o Rossio onde já só estavam o Coro da Achada e algumas pessoas a ouvi-lo cantar. Da Av. da Liberdade via-se descer um cortejo escoltado por carrinhas do Corpo de Intervenção e agentes apeados a rodos. Foi-me explicado que foram impedidos de se juntar à manif da CGTP. Seguimos, sempre vigiados por agentes do Corpo de Intervenção, aos milhares, até São Bento.

Quando cheguei a São Bento, já o comício da CGTP tinha terminado e a comitiva abalado. Pouco depois dá-se o incidente nas escadarias da AR, que foi algo mais complexo do que uns miúdos mal-criados, instigados por infiltrados, a atirarem garrafas à polícia. Aconteceu de forma espontânea, à revelia da organização que queria realizar uma assembleia popular e não conseguiu. As centrais sindicais não demoraram a demarcar-se, que não tinham nada a ver com a manifestação dos indignados, que a manifestação deles tinha sido pacífica, os anarquistas infiltraram-se, são arruaceiros, provocadores, agitadores, não têm nada a ver com isso, etc.

Não costumo deixar comentários em blogues, não gosto, mas neste caso senti necessidade de o fazer porque foste aqui injusto com um grupo de pessoas que se esforçaram pela união e foram sucessivamente enxotadas. E também com as milhares de pessoas que saíram à rua nesse dia, o que não foi nenhum happeningzinho. Além do mais, preocupa-me o sectarismo e o esforço de subalternização e apartamento dos movimentos sociais que os acontecimentos de quinta-feira denotam.

(Paulo Granjo) disse...

Susana:
Parece que tenho que afixar a resposta por partes, pois não entra toda.

I.

Só soube sexta-feira à noite que essas tentativas de contacto existiram, tal como só nessa altura me apercebi que as referências (que iam aparecendo) a barreiras de paus de bandeira para evitar que o pessoal passasse não falavam da altura da cimeira da NATO, mas a uma reedição dessa segregação, no dia da greve geral.

Tanto no que respeita às barreiras humanas na entrada de S.Bento, quanto no que respeita ao facto de não se ter chegado a um acordo para a junção das duas manifestações, a minha posição é só uma, e sem qualquer ambiguidade: a mais profunda reprovação.

Reprovação mais forte para quem, do lado da CGTP, foi directamente responsável por isso; mas reprovação, também, para quem do lado da organização da segunda manifestação, tendo visibilidade mediática e bloguística, nunca colocou essa questão, antes argumentando, nos seus posts e comentários, com o direito absoluto de quem quer que fosse fazer o que quer que fosse num dia de greve geral. Talvez essas pessoas o tenham feito por, à partida, não concordarem com essas conversações, querendo apresentar o conjunto dos organizadores (e das suas opiniões) como sendo coincidentes com eles próprios.
O que merece da minha parte a mesma reprovação, acrescida da irritação de, aparentemente, essas pessoas terem escondido publicamente as preocupações e posições de outros organizadores, no sentido de se integrarem as duas acções.

(Paulo Granjo) disse...

II.

Também concordo que a tentativa de ocupação das escadarias (em si mesma irrelevante enquanto acontecimento, não fosse ter dado a oportunidade de os media reduzirem a ela o dia) é mais complexa do que "uns míudos mal-criados, instigados por infiltrados".

Por um lado, porque não seria uma mera acção de "uns míudos mal-criados", mesmo que quem estivesse na linha da frente não fossem (como foram) adultos - ou, por outras palavras, pessoas com todas as condições cognitivas e de arbítrio para tomarem as suas decisões tão livremente quanto as podemos tomar na nossa vida. E não o seria porque forçar as barreiras e ocupar a escadaria é uma acção política com uma lógica compreensível e legítima. Com que eu discordo naquele dia (pelo que considero ser o seu carácter absurdo, irrelevante e contraproducente naquele contexto de greve geral), mas a que não me oponho no dia 15 de Outubro, embora a ache na mesma irrelevante e um mero happening. Mas que acho também, nessa ocasião, perfeitamente legítima no contexto em que ocorreu.

Por outro lado, considero que os acontecimentos são mais complexos do que uns tipos "instigados por infiltrados" porque, embora me pareça claro que a infiltração existiu (até pelas também claras personagens que comecei a ver à minha volta, pouco depois de ver, à entrada da praça, os panos da segunda manif), é uma regra básica de qualquer infiltrado (e de quem se queira opor à sua acção) que só se instiga aquilo para que as pessoas à volta querem ser instigadas. E que só se tem sucesso se se acertar nessa avaliação - que neste caso nem era difícil, tendo em conta os antecedentes.
É também visível, pelas várias imagens, que os organizadores da segunda manif estavam divididos quanto a esse acontecimento. Numa televisão, aparece uma mulher jovem a tentar apelar à calma de megafone na mão. Por seu lado, na primeira página de um jornal, surge um muito mais conhecido organizador (suponho que, em grande medida, pela sua visibiliadde bloguística), também de megafone, numa atitude que parece ser a de alguém que lança palavras de ordem contra os polícias, acicatando as hostes.

Que retiro disto que agora escrevi e das tuas críticas (com toda a falibilidade da minha humana capacidade de análise e da minha subjectiva experiência)?

Retiro que provavelmente fui injusto para uma parte dos organizadores (se maioritária ou minoritária não o sei, nem para o efeito interessa) e que o mesmo pode ter sido sentido pela larguíssima maioria dos participantes (larguíssima maioria em que se incluem muitíssimos amigos meus que, para mim, nunca esteve em causa nas críticas que formulei neste post.
Em ambos os casos, apresento as minhas desculpas, a par do esclarecimento de que não é a atitudes como as suas que se dirigiram as minhas palavras.

Retiro, também, que aquilo que escrevi é justo (e, pelo que começa a parecer-me, mais justa ainda do que imaginei, ao escrevê-la) para outra parte dos organizadores e para uma parte dos participantes.

Retiro, por fim, que também a parte da CGTP que terá bloqueado ou torpedeado um acordo e integração de acção, e que promoveu a segregação das manifestações à entrada do largo de S. Bento, é merecedora da maior crítica e reprovação.

E que não se atreva ela a, canhestramente, apresentar o pequeno sururu ocorrido (e que facilmente poderia ter sido evitado num quadro de integração conjunta)como prova de que tinham razão na sua atitude sectária.

Os tempos que se vivem e se avizinham requerem mais do que nunca a construção de unidade - coisa que só se pode criar entre quem pensa de forma diferente, mas está de acordo nalguns aspectos e objectivos essenciais.
Atitudes de segregação, por parte de quem tem mais experiência e capacidade organizativa, são tão ou mais graves do que as de quem acredita que caminha para a revolução por correr com umas dezenas de polícias de umas escadarias.

Susana Boletas disse...

Tenho estado doente, sem conseguir melhorar e estou cansada. Penso que isto se reflecte na minha escrita. Mas vou tentar explicar-me melhor, da melhor forma que conseguir.

Começo pelo princípio. O 15.O, o 15 Out, o 15 de Outubro ou, como se tem tornado mais conhecido por intermédio dos media, os indignados, é uma plataforma congregadora de movimentos sociais, criada para organizar a manifestação de 15 de Outubro e que continua activa. Funciona de forma assembleária e mais como um movimento social, sendo por isso esponjosa, indo-se dilantando e comprimindo consoante o número de pessoas e colectivos que a integram, saem, ausentam-se e depois voltam, afastam-se mas mantém-se em contacto, etc. Quando falei em organização referia-me muito especificamente ao grupo de pessoas que se foi reunindo em plenários e espalhando em grupos de trabalho para convocar e preparar a manif de 24 de Novembro, incluindo estabelecer contactos e conversações com as centrais sindicais e que não corresponde necessariamente a todas as pessoas e colectivos que integram ou já integraram a plataforma. Isto para dizer que as acções ficam com quem as pratica e as responsabilidades são individuais.

Quando falei na complexidade do que se passou à frente da AR, não me referia à tentativa de ocupar a escadaria em si, mas à forma como ocorreu. A actuação da polícia foi também aí desproporcional, respondendo com uma força e agressividade que extravasaram em muito o necessário. O Corpo de Intervenção desceu as escadas e começou a bater nas pessoas indiscriminadamente, incluindo jornalistas. Pelo que eu vi e consegui constituir com outras pessoas que também lá estiveram, houve pessoas a serem empurradas, a caírem para o chão e serem agredidas com cacetetes enquanto permaneciam caídas. Vi pessoas de diferentes idades à minha volta (não apenas jovens) a precipitarem-se para cima dos agentes ao verem outras pessoas a serem agredidas. Tal como não era jovem o homem que vi ser empurrado das escadas abaixo e agredido por um agente do Corpo de Intervenção. Alguns dos detidos são essas pessoas. Os objectos que foram arremessados então foram contra esses agentes e por essas razões. Houve alguma falta de discernimento por parte de algumas pessoas mas isso não resume o que aconteceu nesse fim de tarde. Também não acho que a revolução comece na ocupação das escadarias da AR, mas isto não deixa de ser um gesto com significado político, tal como o é a expulsão das pessoas de lá, sobretudo por via da violência.

Um abraço

Anónimo disse...

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