terça-feira, 10 de junho de 2008

Nova Constituição?

Está a levantar justificada celeuma o lapso freudiano de Cavaco Silva, ao chamar «Dia da Raça» ao 10 de Junho, como nos tempos da outra senhora.

Bem... Não se abespinhem tanto.
Quando se elege para Presidente da República um político que justificou o facto de nunca ter levantado um dedo ou uma palavra contra o fascismo por «ter que trabalhar» ("a minha política é o trabalho"), coisas destas podem acontecer.

Mas vi aqui uma coisa que poderia ser a solução para este tipo de problemas.
Em 1926, um historiador brasileiro propôs uma Constituição com um artigo único:

«Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara.»

Bastaria substituir "brasileiro" por "português".
E daí, talvez não. Parece que este pessoal do poder não é muito de cumprir leis.

9 comentários:

O Salgador da Pátria disse...

Um antropólogo, boa! Pelo pouco q me lembro das aulas da cadeira de Antropologia o conceito "raça" está a ser praticamente abolido porque, obviamente, não faz sentido... E ainda há quem defenda o Cavaco ou pensa q o faz aqui pela blogosfera. Enfim...

Ria-se (ou não) disto aqui:


http://o-salgadordapatria.net/

Anónimo disse...

A expressão «raça» é utilizada pelos historiadores oitocentistas (a maioria dos quais se considerariam «de esquerda») como sinónimo de «povo». O «Dia da Raça» não foi inventado pelo Estado Novo nem por Salazar. A conotação negativa é recente, por se entender hoje que raça significa cor de pele. A ignorância de um historiador como Fernando Rosas leva a crer o seguinte: não existem bons historiadores que sejam bons políticos. Há que escolher. Para não se ser tendencioso e ter de omitir verdades históricas. O Presidente da República é de uma geração em que se usava esta expressão para o dia 10 de Junho. E depois? - é politicamente incorrecto, mas compreensível. Isto não é notícia nenhuma. Só para certos sectores interessados em explorar coisas sem importância alguma, enquanto o País passa fome.

umBhalane disse...

Vou apenas focar-me nas palavras do Sr. Presidente de Portugal:

“Hoje eu tenho de sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades portuguesas”.

Não disse apenas:

“Hoje eu tenho de sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça”.

TAMBÉM disse, a raça, dia da raça.

Sei que a luta política é impiedosa.

A guerra também é.

Mas ainda vai havendo algumas regras, dependendo dos actores no comando, e no terreno.

Questão de formação.

Será que sou anjinho?

(Paulo Granjo) disse...

Ó Salgador da Pátria:

Confesso que a minha primeira reacção quando li o comentário foi pensar: Olha! Apanhei com um bimbo que não reconhece a ironia quando a vê, mesmo quando pré-anunciada e escrita em letras do tamanho de um comboio.

Mas, tendo visto o seu blog com forte pendor humorístico, imagino que está também a ser irónico, ou a referir-se a defesas do bolo-rei por outras paragens que não esta. Pois qualquer outra hipótese remeteria para a minha primeira e certamente errada reacção.

Aproveito no entanto para esclarecer que o conceito de "raça" (em termos de divisão fenotípica da humanidade) está abolido por parte de qualquer antropólogo sério não estado-unidense - e que esta excepção tem uma razão ou racista ou jurídica.
No último caso, porque a existência de características essenciais independentes da vontade e responsabilidade do indivíduo (como genes que, por exemplo, escureçam a pele e encaracolem o cabelo ou que, por outro exemplo, supostamente criem atracção sexual por pessoas do mesmo sexo) constituem, à luz da jurisprudência estado-unidense, a principal razão para inviabilizar em tribunal quaisquer formas de discriminação.

Voltando para realidades mais próximas de nós, no entanto, o "Dia da Raça" não se referia a raças de cães nem de pessoas, não se referia a "arianos", "caucasianos" ou outros "...anos" quaisquer, mas ao pressuposto de um "portuguesismo" também ele essencial e mitificado.

Bafiento, fascista e necessariamente apelando (num contexto colonial) a essa ideia mais geral de "raça". Mas isso são coiss para discutir com o próximo comentador.

(Paulo Granjo) disse...

Caro anónimo:

É verdade que a expressão "raça" não corresponde, neste contexto, às supostas "raças" caucasiana, negroide, mongoloide e etc.

É verdade que foi utilizada pelo romantismo oitocentista liberal no projecto de legitimação do estado nacional centralizado, como afirmação de uma identidade única e diferente de tudo à volta, como aconteceu noutros países. Não a traduziria contudo por "povo" - expressão que, com esse sentido, surge quase no final do século.

Quanto ao "Dia da Raça", sem fazer finca-pé, estou convicto de que surge no Estado Novo (doce eufemismo...) - e, mesmo se pré-existente, torna-se aí pujante, enfatizado e reconhecível.

Não tenho que defender o Rosas, mas o que li das suas declarações não corresponde à sua acusação. Fala de uma designação há muito abandonada e utilizada pela "outra senhora", ligada a uma identidade de portugalidade única.

O Presidente da República também é da geração (até eu sou) em que os movimentos de libertação eram "terroristas" ou "turras", em que os anti-fascistas (coisa que nunca foi) e democratas (que ninguém pode saber se no seu íntimo foi) eram "comunistas", em que o primeiro-ministro era "Presidente do Conselho", a Assembleia da República era "Assembleia Nacional" e em que aquela ponte vermelha sobre o Tejo era a "Ponte Salazar".
Seria normal e irrelevante que se lhes referisse dessa forma?

Também não o é neste caso, e não por não ser "politicamente correcto".
Não é irrelevante porque, 35 anos depois do último "Dia da Raça", o Presidente da República se refere ao dia que celebra o país e a sua diáspora por essa anacrónica designação da ditadura, abandonada devido à sua carga semântica e ideológica.

Quanto à sua visão da história como disciplina, não será também mais próxima do anterior virar de século do que deste último?

Já agora agradeço que da próxima vez, querendo manter-se anónimo, invente um pseudónimo. É menos impessoal e, se a si não der muito trabalho, eu prefiro.

(Paulo Granjo) disse...

Viva, Umbhalane.

Suponho que terá ficado claro, nas respostas aos comentários anteriores, aquilo que me parece importante neste assunto.

Parece-me que o facto de dizer, depois de "Dia da Raça", todo o longo relambório do nome oficial da data não altera em nada a questão.
E parece-me que foi um lapso, mas nem estava a ser irónico quando escrevi "lapso freudiano", nem me parece que se trate de um fait divers politicamente irrelevante.

Salientá-lo não é, por isso, uma luta impiedosa e sem regras.
Não podemos andar por aí a dizer todas as calinadas incompatíveis com a nossa posição profissional e institucional, e o nível daquilo que é aceitável diminui à medida que aumenta a nossa posição.
Ou isto não é também, para si, uma questão de formação?

Agora que esse lapso tenha consequências, já é outra conversa.
Não acredito que nenhum dos que votaram nele deixe de o fazer daqui a 4 anos por causa disto, e muito menos por causa da "luta impiedosa" de chamadas de atenção acerca do assunto.
E, dentro destas, o que se diga num sítio quase confidencial como este blog será ainda mais irrelevante.

Mas ou assumimos que os presidentes da república, primeiros-ministros e ministros são uns tolinhos inimputáveis; ou então assumimos que podem dizer tudo porque eles é que mandam; ou então reclamamos, quando eles dizem ou fazem coisas que consideramos inaceitáveis.

Eu vou pela última hipótese.
Questão de formação.

João Areosa disse...

“Lapsos” deste tipo são inaceitáveis... o mais grave disto tudo é que não me parece que tenha sido propriamente um lapso, mas antes uma convicção!

Já que este post sugere algumas comparações entre Brasil e Portugal, “entro nesta onda” e deixo aqui também a minha “sentença”: vale bem a pena relembrar o que está subjacente (e nada mais do que isso!) na canção de um músico brasileiro (Gabriel “O Pensador”), intitulada “Hoje eu tô feliz...”!

Paulo, concordo com a escolha da última hipótese, mas confesso que hesitei entre a primeira e a terceira!

(Paulo Granjo) disse...

João:

Tenho um pouco mais de mais dúvidas de que seja um lapso ou uma convicção.
Mas não afasto a segunda hipótese - que, aliás, cola com a personagem.

umBhalane disse...

Caro Paulo

Antes de mais não quero que fique com a impressão, nem por sombras tive quaisquer terceiras intenções, quanto à questão da formação.

Que fique bem claro.

No contexto restrito, é que nem mesmo na guerra vale tudo - que é uma generalidade popular.

Eu també vou pela última hipótese.

Mas continuo na minha - houve truncagem das palavras do Presidente.

Aqui, para mim, está o ponto.

O resto, é legítimo.

Um abraço.