segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Manitas nos meus bolsos
Cumpriu-se hoje o primeiro dia de trabalho em que (contrariado, mas certamente cheio de um orgulho patriótico que não descortino mas um dia hei de descortinar, que diabo!) dei uma contribuição extra para que os nossos socráticos governantes possam, com mais facilidade, pagar coisas essenciais à nação - como os roubos e ilegalidades dos amigos do Prof. Cavaco Silva no BPN, ou as facturas das parcerias público-privado com a Mota-Engil e quejandos.
Parece que já não haverá dinheiro para estímulos à economia e ao emprego, ou para apoiar os desgraçados que se vejam no olho da rua (agora mais facilmente que antes) mas... Também não se pode ter tudo, não é?
Tais lacunas não serão, contudo, por falta da minha patriótica contribuição.
Afinal, já o ano passado, com IRS e a Segurança Social (a tal que depois dificultam a quem mais precisa), nunca via um terço do salário. Depois, somando a isso o IVA sobre o que comprava, lá ia entregando aos nossos doutos governantes, como quem não quer a coisa, 47,3% do que era suposto ganhar.
Agora, com 8% do salário a desaparecer à cabeça, qual imposto patriótico, e o IVA mais elevado, tornei-me finalmente um cidadão à séria. Já dou a maioria do que ganho (52,8%) para que os senhores Sócrates de Sousa e Teixeira dos Santos possam gastar no que consideram realmente importante.
Será que o Sr. Mercados a tal personagem cheia de massa e omnisciência, larga assim tanto do seu rico dinheirinho para desinteressadamente ajudar a nossa D. Dívida Soberana?
Entretanto, continua a fascinar-me a forma como a tal de Terceira Via, uma vez ocupados os restos partidários das velhas ou recentes social-democracias, vai mais além do que qualquer partido conservador se atreveria, na destruição da sua obra histórica (onde a tem) e de quaisquer traços de justiça social.
Tal como continua a fascinar-me observar os efeitos arrasadores, para o país e a democracia, dos novos Juliens Sorrel de O Rosa e o Laranja a que temos direito.
Ou, então, a enojar-me. Tem dias.
Mas uma coisa é verdade. Este pessoal tem algum jeito para a coisa.
Já nos podiam ter lixado menos, fazendo-o muito mais à bruta.
Outro dia, em conversa com um amigo economista, dizia-me ele que, com o FMI, podia ser bem pior. «Por exemplo, podiam tirar-nos o 13º mês.»
«Mas vão-nos tirar mais que isso», respondia eu. «8% vezes 14 salários por ano dá 112%, é mais do que um salário.»
«Pois é!...»
Pois é...
Se vamos cantando e rindo, não sei.
Mas levados, certamente que sim.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
A única forma de vos desejar um Bom 2011 sem gozar convosco
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Uma prenda africana
Agora que estão todos, aqui vos deixo a lista, com um grande obrigado e um ainda maior abraço ao Carlos.
I - Metodologia e pré-história da África
II - África antiga
III - África do século VII ao XI
IV - África do século XII ao XVI
V - África do século XVI ao XVIII
VI - África do séc. XIX à década de 1880
VII - África sob dominação colonial, 1880-1935
VIII - África desde 1935
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Alternativas a sul
Já está disponível o número temático da revista Alternatives Sud dedicado ao "Estado das Resistências em África".
No índice (consultável aqui), consegui descortinar artigos acerca dos dois Congos, Camarões, Gabão, Etiópia, Quénia, Tanzânia, Benin, Burkina Fasso, Costa do Marfim, Guiné, Guiné-Bissau, Mali, Niger, Nigéria, Senegal, Togo, África do Sul, Angola, Botswana, Moçambique, Madagáscar e Zimbabwe.
Um largo cardápio, para o qual me honro de ter contribuído, e que me deixa a salivar, enquanto os Correios não me fazem chegar o exemplarzinho da ordem...
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Wikileakando Moçambique
Aqui há uns meses, o Departamento de Estado norte-americano colocou na lista dos grandes barões da droga internacionais o Sr. Mohamed Bashir Suleiman, conhecido como o maior vendedor de electrodomésticos de Moçambique e o maior financiador do partido governante Frelimo, para além de como um dos homens mais ricos do país e sócio de vários governantes.
Foi um sarrabulho em Maputo, mas a coisa lá acabou por ser digerida, como mais um escândalo entre muitos. Em Portugal, não se ouviu palavra.
Hoje, a mesmíssima questão, agora com o selo de disclosure da Wikileaks, passou nos telejornais da manhã. Está já, aliás, no Le Monde. Fenómeno curioso.
Mas nem tudo eram old news, nesses telegramas diplomáticos enviados da Pérola do Índico.
Alegam também, por exemplo, que o Presidente da República (Armando Guebuza) lá arranjou maneira de sacar entre 35 e 50 milhões de dólares com o negócio da reversão da Hidroeléctrica de Cahora Bassa.
O que, claro, dá novos sentidos à simpática palavra de ordem "Cahora Bassa é nossa!"...
Como a Wikileaks parece andar por aí a saltar de nenúfar digital em nenúfar, leiam a transcrição do tal telegrama aqui.
PS: A coisa chegou ao púdico "Público" e, até ver, há 4 telegramas disponíveis aqui.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Produção primeiro, segurança depois
Passa por Sines, por Cahora Bassa, pelos arredores de Maputo, pela mina de San José e pelo Golfo do México, para defender que, embora isso seja pouco estudado pelas ciências sociais (em detrimento de outros fenómenos mais scientifically sexy), existe um padrão de subalternização da segurança aos objectivos produtivos, que urge combater.
Comentários e debates são bem-vindos, depois da leitura do artigo.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O Henry Ford tinha que contratar mafiosos para atacarem os grevistas...
... Mas por cá, no distrito com mais gente no Rendimento Mínimo, há empregados que são chefes de outros empregados e estão disposto a atropelar piquetes de greve e sacar de pistolas à borla.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Citações de café (28)
- Então mas o gajo só quer ser para dizer que foi?
- Não pá! Então não te lembras quando eras chavalo e dizias às míudas "Deixa lá... Eu só meto a cabecinha."?
Insurreição dos pregos II
É o caso, no longínquo dia da primeira Greve Geral realizada em Portugal, da aparição televisiva do então Ministro da Administração Interna e actual guru Ângelo Correia, denunciando uma situação de "insurreição iminente", cuja principal prova era a intercepção, pela polícia, de um automóvel transportando uma caixa com pregos, certamente destinados a furar pneus e criar o caos no país.
Se os mais maduros (ou, conforme a perspectiva, os mais próximos do prazo de validade) puxarem pelo bestunto, talvez se lembrem do gozo que na altura se espalhou, acerca da logo apelidada "Insurreição dos Pregos".
Foi essa anti-patriótica e anarquizante memória que hoje me assaltou, ao ler neste jornal que um perigoso casal foi detido na fronteira na posse de panfletos anarquistas contra as forças policiais (descritas, pasme-se, como "chulos e prepotentes" e que "torturam, maltratam, matam e ficam impunes"), para além de um arsenal de armas brancas composto por um estilete, uma navalha e uma "catana de 40 centímetros".
(O que entre outras coisas prova, como verificarão os leitores africanos, que as catanas encolhem com o frio, ao chegarem a climas europeus.)
E dei comigo a perguntar:
Será que notícias destas são o custo de se ter o mais conspícuo ex-chefe da secreta a exercer as funções de Ministro da Administração Interna?
Mas uma outra dúvida existencial me assalta:
Escrevia o velho das barbas que a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.
Mas, se a primeira já era farsa, o que é que o seu remake nos reserva?
sábado, 6 de novembro de 2010
«Produção primeiro, segurança depois»
« Os dois acidentes laborais mais mediáticos dos últimos anos - o derrame do poço petrolífero da British Petroleum (BP) no golfo do México e os célebres 33 mineiros resgatados em San José, no Chile - vieram dar visibilidade, junto do grande público, a um problema que os estudos especializados tendem a ignorar: a frequente subalternização da segurança aos objectivos de produção e ao lucro, na gestão corrente de indústrias perigosas.
Em curioso contraste com o quase silêncio a nível internacional, o assunto tem sido abordado em estudos sobre Portugal e Moçambique, embora nada indique que tal se devesse a algum particularismo local ou cultural. Estas novos acidentes (cujo impacto mundial tornou inevitável a divulgação das suas causas e circunstâncias) vêm demonstrar que, a existir um particularismo, ele não se situa na prática das empresas, mas no olhar que sobre elas é lançado por quem as estuda.
Os acidentes vieram também colocar na ordem do dia interrogações inquietantes. Podemos continuar a considerar um caso pontual cada novo desastre em que a segurança tenha sido subordinada a critérios economicistas, ou estamos perante um padrão sistemático? Que podemos fazer para contrariar essa tendência empresarial, com isso protegendo a vida dos trabalhadores, o meio circundante e as demais pessoas que podem ser afectadas por cada desastre? »
...continue a ler, na página 2 do Monde Diplomatique deste mês
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Livros p'ró Natal
É verdade que ainda é um bocado cedo. Mas, como as coisas andam, não são de perder estas oportunidades - seja para prendas, seja para se levar aquele livro que se namora há uns tempos, mas era carote.
Está a decorrer até dia 19 a já habitual Feira do Livro do Instituto de Ciências Sociais, abrangendo as publicações da Imprensa de Ciências Sociais e os números da revista Análise Social.
Tudo com descontos substanciais, muitas vezes acima dos 50%.
É fartar, vilanagem!
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Porque é belo
Aqui fica, por uma única razão - e a mais válida de todas.
Porque é belo.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
A Recusa de Ser Irrelevante, on-line
Para quem isso tenha passado depercebido no post anterior, aqui fica a prometida ligação para o meu artigo "A recusa de ser irrelevante", acerca dos protestos populares de 1 e 2 de Setembro em Maputo, e publicado no número de Outubro do Monde Diplomatique.
Aproveito para vos indicar dois outros textos acerca do assunto, da autoria de Luca Bussoti e de Marílio Wane.
(Obrigado ao Carlos Serra pela sua divulgação)
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Jon Stewart p'ra Moçambique, já! (e, já agora, pode dar uma paradinha por aqui...)
Parece que, da mesma forma que um popular da província de Cabo Delgado pedia há uns anos ao então presidente Joaquim Chissano para «importar um monhé, para ser cantineiro», a importação de Jon Stewart para Maputo e Nampula se tornou uma necessidade premente para os moçambicanos.
Neste caso, para organizar uns desses seus comícios de restaurar a sanidade.
Eles já dariam jeito para tentar convencer a Frelimo a lidar de forma mais responsável e racional com as causas e tentativas de solução para os protestos populares de início de Setembro.
Mas tornaram-se ainda mais necessários, agora que uma reunião da cúpula da Renamo decidiu dar 45 dias ao partido governante (ufano dos seus 3/4 de deputados no parlamento) para negociar com ela um governo de transição, que depois decidiria uma data para repetir as eleições gerais (!) …
Diz o Sr. Afonso Dhlakama que essa é a única forma razoável e pacífica de parar «injustiças a mais no país», como a governação por um «partido ilegal», em virtude do «roubo de votos nas urnas». Caso contrário, «será o fim da democracia no país», pois será «obrigado a ser, de facto, belicista como dizem que sou», recorrendo «a manifestações para exigir um governo legal».
A um outro jornal, adiantou que «Se Guebuza quer a manutenção da democracia, deve aceitar esta negociação. Caso não, iremos iniciar com as manifestações que vão paralisar todo o país, à semelhança das reivindicações de 1 e 2 de Setembro nas cidades de Maputo e Matola.»
Ora, de facto, as últimas eleições moçambicanas foram antecedidas de uma actualização do recenseamento eleitoral em que o material informático (fornecido por um empresário de transportes ligado ao poder) sistemática e misteriosamente falhava e não tinha apoio técnico a norte do rio Save - o que aumentou o número de deputados a eleger nas províncias mais favoráveis è Frelimo, em detrimento das mais desfavoráveios.
É verdade, também, que o emergente partido MDM foi impedido de concorrer na esmagadora maioria das províncias, poupando à Frelimo a perda de 2 deputados e, à Renamo, a perda de mais 7.
É verdade, ainda, que houve assembleias de voto com 112% de votantes e houve centenas de votos (sobretudo no MDM e em Deviz Simango) anulados à dedada por membros das mesas eleitorais, por vezes mesmo à frente de jornalistas.
O que não quer dizer que, mesmo sem estas preocupantes e inaceitáveis trapaças, a Frelimo não vencesse folgadamente na mesma, e a Renamo deixasse de ser a grande derrotada, perdendo votos para toda a gente.
É curioso, também, que as reivindicações concretas avançadas por Dhlakama tenham a ver com a marginalização de oficiais da Renamo nas forças armadas e policiais (num bem real processo de partidarização do Estado, que em muito as transcende), e não com os aspectos de governação que mais afectam a vida das pessoas – isto, se exceptuarmos uma vaga queixa em relação à (também bem real) assimetria de investimento entre o sul e o resto do país.
É sintomático e preocupante, por fim, que o presidente do maior partido da oposição em Moçambique considere que «manifestações para exigir um governo legal» constituam actos próprios de belicistas e «o fim da democracia no país».
Esta incompreensão do papel e espaço democráticos da manifestação e do protesto só é compreensível (mas torna-se, com isso, mais sintomática ainda) em quem considere que «paralizar o país» com manifestações é uma acção insurreccional e um golpe de estado e se propõe a fazê-lo.
Mas isso torna ainda mais ridícula (ou se quisermos, voltando a Jon Stewart, pouco adequada à sanidade) a sua ameaça de mobilizar a população «à semelhança das reivindicações de 1 e 2 de Setembro» - essas, realizadas por pessoas que, estando contra as práticas governativas, não o querem ver nem pintado.
Mas, afinal, talvez nem seja necessário importar o tal homem.
Lembro-me agora da frase de um ferrenho renamista, que muito bem se dava e dá com a paz, quando Dhlakama ameaçou «voltar ao mato», na sequência das eleições de 1999: «Só se ele voltar sózinho!»
PS: o link feito a propósito dos ‘protestos populares do início de Setembro’ vai dar ao meu artigo para o Monde Diplomatique do mês passado, que aqui disponibilizo a quem more no estrangeiro, a quem tenha sido demasiado forreta para comprar o jornal, ou a quem esteja mesmo à rasca com a crise. O Carlos Serra adiantou-se-me na sua divulgação, o que explica o “do not copy” (não liguem a isso) e o meu temor de uma enésima intriga privada ou calúnia pública por parte de um outro bloguista sedeado em Maputo. Enfim… ossos do ofício.
domingo, 31 de outubro de 2010
Comício Para Restaurar a Sanidade, Washington DC
Mas como o Orçamento 2011 fez de mim um chato armado ao sério, escolhi o mais aborrecido - embora, reconheçam, com um cheirinho anarca.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
A velhice bate à porta...
E ela nem sequer fala de TV a preto-e-branco (ou de a ir ver a casa do vizinho)!
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
domingo, 24 de outubro de 2010
Lamborghinis, Rolexes e Revoltas
Ouvi outro dia num telejornal que, neste crísico ano, a venda de Lamborghinis e Jaguares duplicou em Portugal.
O que me lembrou uma anedota dos tempos do cavaquismo primo-ministerial. Embora, segundo parece, nestes tempos de cavaquismo socrático tenha havido um up-grade para uma marca ainda mais cara.
« Um automobilista pára na berma da estrada, onde um homem ensanguentado se lamenta, ao lado do seu carro destruído.
- O meu Ferrari!... O meu Ferrari!...
- Oh, homem! Deixe lá a merda do carro! Já viu que está todo ferido? Até tem a mão esquerda decepada!
- A mão esquerda? Oh! O meu Rolex!... O meu Rolex!... »
E de tudo isto me lembrei, ao ver esta foto de Frédéric Paletou.
Como dizia o outro, faites la liaison.


















