domingo, 30 de março de 2014

Fés, cartadas e crises


Com a chegada da crise, uma semi-cave perto de mim tornou-se uma micro-igreja evangélica, daquelas que nos garantem a riqueza e felicidade na terra. Acabou por fechar, ao que dizem porque a diminuição de movimento fez com que deixasse de dar para o gasto.
Foi substituida por uma casa de batota clandestina, que após um sucesso inicial acabou por ter o mesmo triste fim, ao que parece pelos mesmos motivos.
Voltou agora a ser uma nova micro-igreja, com o mesmo potencial e garantias de sucesso pessoal.

Parece que, entre a fé que move carteiras e as carteiras movidas pela fé na sorte, o pessoal se move - sem grande fé em mais nada.

domingo, 23 de março de 2014

Coisas de que a gente se lembra, quando está de baixa - 1



Estávamos de visita ao tio de um amigo, filho do último régulo do Xipamanine.
Depois de me mostrar Taninga e a sua pequena propriedade, disse:

- Quero oferecer-lhe aquele cabrito. É seu.

Quando já me imaginava a regressar de chapa a Maputo com um cabrito pela trela (nada que, na verdade, nunca tivesse visto), percebi com um ambíguo alívio que o animal ia ser morto ali.

Sentámo-nos e conversámos longamente, naquele ritmo que a paisagem de savana pede. Alguns vizinhos foram-se juntando, depois de respeitosos pedidos de licença ao dono da casa e, estranhamente, a mim.
Acabou por vir para a mesa uma enorme travessa de cabrito grelhado e muito cheiroso. Salivei. Estávamos há mais de uma hora a beberricar o vinho que eu tinha trazido e já tinha sido aberto um garrafão, mandado vir da cantina mais próxima.

- Coma, doutor.

Servi-me e mais ninguém o fez. Insisti para que o fizessem.

- Coma, doutor. Coma...

Comi. A conversa continuava boa, o vinho ia baixando no garrafão, mas só eu comia. Os outros olhavam e sorriam, com prazer no meu avantajado apetite. Claro, estava confuso. Mas nada no ambiente indicava que estivesse a fazer algo de errado.
Quando me dei por vencido, chegou à mesa uma grande panela com cabrito guisado.

- Prove deste. É diferente. Sei que gosta de chima. Quer um pouco, para ajudar?

Sentia-me transbordar. A última coisa que queria, agora, era a minha apreciada pasta de milho. Recusei, traduzindo literalmente a fórmula de boa educação que conhecia. Afinal, toda a gente estava a esforçar-se para falar apenas em português.
Mas servi-me, de novo confuso. O sabor era tão bom e os sorrisos de prazer tão evidentes que repeti.
Por fim, tive que dizer:

- Estava tudo muito bom, mas já não consigo mais. Estou cheio, mesmo!

Num ápice, toda a gente se serviu. Longamente, repetiram e repetiram enquanto conversávamos, até nada mais sobrar. Agora, era eu quem apenas beberricava vinho "Amália" e sorria de prazer.

Finalmente, tinha percebido.
Aquele era o meu cabrito. Para eu comer até não poder mais. Só depois disso os meus amigos, e os amigos deles, deviam partilhar a boa fortuna que me tinham proporcionado.
Gente bela, estes meus patrícios de coração.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Direitos e opiniões


Enquanto pessoa e cidadão, aquilo que mais me irrita na recente farsa acerca da co-adopção por parte de casais do mesmo sexo não é sequer a hipocrisia demonstrada por muitos representantes eleitos do país e a falta de espinha dorsal de vários outros.
É, antes, o facto de de a co-adopção (tal como , aliás, a adopção tout court) não dever sequer ser uma questão, em termos legais e políticos, nem matéria de opinião e de consciência individual.
Isto porque o que está em causa não são opiniões, sentimentos e valores morais acerca do estilo de vida de cada um, mas a discriminação no acesso a direitos e, dessa forma, a salvaguarda ou o desrespeito por um dos mais fulcrais princípios do contrato social que serve de base às sociedades em que nos reconhecemos - aqui e agora, mas também da matriz cultural que partilhamos e desde há mais de dois séculos.

Sou heterossexual. Não por opção nem por pressão social, mas porque sou assim. É por mulheres que sinto atracção sexual e sempre foi por mulheres que me apaixonei. Simplesmente. 
Também sou pai. E, porque o meu trabalho é frequentemente arriscado, eu e a minha mulher escrevemos um documento legal que atribui a tutoria da minha filha, em caso de morte de ambos, a duas pessoas.
Uma delas partilha, desde há décadas, a sua vida com alguém do mesmo sexo. Esse detalhe não foi deliberado, nem muito menos uma tomada de posição política. Nunca faríamos política com a vida e o futuro da nossa filha. Simplesmente, escolhemos as duas pessoas com quem mais nos identificávamos e confiávamos para essa tarefa de a educar e acompanhar, se morrêssemos. Do tal detalhe só nos lembrámos depois de fazer a escolha, e reparámos nele como numa mera curiosidade.

Assim sendo, a minha opinião acerca da adopção por parte de homossexuais, sejam indivíduos ou famílias, não levantará dúvidas a ninguém. Também é fácil imaginar que não acredito que a homossexualidade "se pegue" por convívio ou educação, nem que (mesmo que fosse esse o caso) as crianças devam ser "protegidas" da orientação sexual que descubram como sua.
Menos dúvidas ainda levantará a minha opinião acerca de uma coisa tão simples como um membro de um casal poder adoptar os filhos do outro cônjuge. Ou sobre as vantagens disso para as crianças e para o casal, no presente e no futuro.
Aliás, criado numa família onde eu era o único filho de ambos e em que os meus irmãos eram tratados de forma diferente por cada um dos meus progenitores, conforme eram ou não seus filhos (experiência que muito terá a ver com a minha intolerância visceral para com qualquer injustiça que veja ou sofra), antes diria "abençoadas as crianças que se sabem filhos de facto e de coração do outro pai, ou da outra mãe!".

Mas a minha opinião acerca destes assuntos é irrelevante.
Tal como é irrelevante a opinião de quem tema pelo futuro e bem-estar de tais crianças, de quem se sinta desconfortável ou enojado/a com pessoas que amem e façam amor com outras do mesmo sexo, ou de quem simplesmente ache que não, "porque sim".

Todas essas opiniões são irrelevantes, em casos como este, porque é de igualdade de direitos e de discriminação no acesso a eles que se trata.
O "país" (e aquilo que cada um de nós acha ou deixa de achar) não tem que "estar preparado" para que as mulheres votem, para que pessoas de pele escura sejam chefes de outras mais claras, para que muçulmanos e comunistas trabalhem nos serviços secretos, ou para que homossexuais se casem e adoptem crianças.
A partir do momento em que o contrato social que rege a nossa vida colectiva e a própria legitimidade do exercício do poder assume que são inaceitáveis discriminações com base no género, na 'raça', na idade, nas convicções políticas e religiosas, na orientação sexualand so on, elas tornam-se ilegítimas. A partir do momento em que esse contrato social plasma a proibição de tais discriminações na Constituição, elas tornam-se ilegais - mesmo que sejam lei e por muito que sejam costume.

Poderia ser discutível (embora não na minha opinião) se a proibição do casamento de pessoas do mesmo sexo era inconstitucional ou não. Mas é indiscutivelmente inconstitucional que, sendo esse casamento reconhecido, os casais que dele resultem não possam adoptar - não pelas restrições a que todos os outros têm que se submeter, mas por serem homossexuais.
Aliás, compreendendo embora a hipocrisia política e a cobardia partidária que estão na base da inclusão de uma tal proibição na lei, nunca consegui perceber porque é que ainda ninguém suscitou a apreciação formal da sua tão clara inconstitucionalidade. Afinal, mesmo se vivemos tempos em que a resolução de tantas e tão graves coisas é tão importante e urgente para todos, é-me sempre difícil apontar algo que possa ser politicamente mais importante e urgente do que a salvaguarda, por todos, dos direitos de cada um de nós.

Isto não é, claro está, assunto para referendos. A discriminação no acesso a direitos não se referenda; elimina-se.
Tão pouco deveria ser matéria dependente dos humores parlamentares. Ou sequer objecto das opiniões e estados de espírito dos deputados e respectivos partidos.
Qualquer discriminação inconstitucional no acesso a direitos que fosse detectada nas leis existentes deveria ser obrigatória e automaticamente corrigida. Pela Assembleia da República, está bem de ver, quanto à sua formulação e "promulgação"; mas, repito, obrigatória e automaticamente.
Para este tema, como para muitas outras questões sociais, laborais e políticas em que o princípio da não-discriminação, ou outros fundamentais, fossem violados.

Junto com outra questão candente (essa coisa de não existirem formas institucionais de apear um governo que aplique políticas indesejadas e contrárias ao programa que o fez ser eleito, caso não impluda e conte com o apoio do Presidente da República), se há clarificação que falta e urge na Constituição, é essa.
Através de que exactos mecanismos, assegurados de que forma, já são pormenores.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

BAYETE, VÔVÔ!


Nkosi sikelele Madiba!

sábado, 23 de novembro de 2013

Será que os políticos andam a dar ouvidos aos cientistas sociais?

Não é habitual que os políticos (e os poderosos em geral) dêem ouvidos a cientistas sociais.

Isto excepto, claro está, quando um modismo tenha metamorfoseado o estatuto de um deles no de augure, de quem qualquer opinião trivial, enquanto cidadão e acerca de algo que nunca estudou, deverá suscitar a reverência devida à omnisciência da palavra revelada.

Menos habitual é, ainda, quando os cientistas sociais dêem em dizer coisas que saiam dos caminhos traçados e, sobretudo, daquilo que querem ouvir.

Não obstante, ao ouvir ontem Mário Soares alertar para o perigo de violência pública e para o carácter perigoso do medo, não pude deixar de notar que o conteúdo das suas declarações, que tanto brado estão a dar, me era muito familiar, em coisas que foram ditas e escritas há mais de um ano, sem aparentes consequências.

Claro que os cientistas sociais (quando não sejam apontados como augures, que se espera digam "eu cá acho que...") têm que ser um bocado mais complicados e enfadonhos.
Por exemplo, não podem limitar-se a dizer "Vem aí porrada!". Têm que argumentar e demonstrar porquê, como, através de que mecanismos, a partir de que factores e combinações entre eles.
Tal como aconteceu na curta comunicação que é visível a partir da 1 hora e 1 minuto deste vídeo.



Por ser verdade, os pobres dos cientistas sociais podem até ter que explicar, chatos que são, que a existência dos principais factores para que a porrada ocorra não significa que ela inevitavelmente aí venha.
Que mais importante do que a existência desses factores é a forma complexa e dinâmica como eles interajam entre si e com muitos outros factores (entre os quais o medo, mas já lá vamos), mas que, resultando eles das actuais políticas, a única forma de garantir a segurança pública é reverter essas políticas.

O que, claro está, se não os livra de eventuais admostações dos seus "mais velhos" pela divulgação pública do atrevimento das suas conclusões, diminui um bom bocado o nível de sound bit da coisa.

É isso que faz com que os seus alertas tenham quase sempre um impacto muito reduzido?
Não creio. Terá mais a ver com quem os faz - tanto no que diz respeito à notoriedade pública, quanto por ser cientista social acabar por constituir uma desvantagem, quando se sustenta algo de novo e indesejado.

Também os resultados potencialmente perigosos da instigação do medo, ontem aflorados en passant por Mário Soares, me trouxeram de imediato à memória uma outra xaropada, daquelas com argumentos em vez de opiniões, publicada há quase 2 anos. Chamava-se a coisa "O medo, suicídio e eutanásia da cidadania", imaginem.

Será coincidência, a integração dessas questões, ontem, numa passagem central do violento e badalado discurso de um dos mais conhecidos políticos?
É, claro está, muito possível. Pode chegar-se à mesma conclusão por muitos caminhos, em muitas cabeças sem contacto entre si. E o agravamento das situações pode tornar quase evidente o que tempos antes só era dedutível.

Mas... e se isso quer dizer que os políticos andam a dar ouvidos, mesmo que com mais de um ano de atraso, aos cientistas sociais?

Ou, assim sendo, serão só os que já estão reformados, e se sentem livres para dizer o que querem?

Ou será  que o que manda são os timings da utilidade para o discurso político, e não a relevância social desse discurso científico, já antes desse timing chegar?

Curiosidades que me ficam. Porque têm implicações que vão muito para além deste caso.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Maputo surpreende

 

Os resultados eleitorais em Maputo que vão sendo divulgados são muitíssimo surpreendentes.
A votação na Frelimo surge muito abaixo dos níveis habituais, com o candidato do MDM (Venâncio Mondlane*) a receber votações muito próximas das do actual presidente do município (David Simango**), vencendo-o mesmo em várias mesas.
Se os candidatos e os seus estilos de campanha são sempre relevantes em eleições autárquicas, mesmo numa cidade capital, esta brusca mudança de tendência de voto, a confirmar-se nos resultados finais, adquire necessariamente um sentido muito mais vasto.
Representará um veemente cartão vermelho à recente deriva belicista do estado e da Frelimo, no mais importante dos seus baluartes urbanos.
Tal como as indicações de elevada ida às urnas por todo o país constituirão, a confirmarem-se nos resultados finais, um também veemente cartão vermelho à postura belicista e ameaçadora que tem vindo a ser mantida pela Renamo (que boicotou estas eleições).
Que assim seja, e que esses partidos entendam a mensagem popular.
autárquicas 2013 Maputo 2
* Embora familiar, não confundir com o fundador e primeiro presidente da Frelimo.
** Embora familiar, não confundir com Daviz Simango, presidente do MDM e do município da Beira.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Moçambique a votos, até ver sem tiros


Estão a decorrer, aparentemente menos longe da normalidade do que se esperaria, as eleições autárquicas em Moçambique.

A principal excepção parecem ser os relatos de votantes que se passeiam na Ilha de Moçambique com colecções de cartões de eleitor e, miraculosamente, nunca têm que pôr o dedo na tal tinta indelével (de que eleitores em Quelimane se queixam de sair muito depressa) e, por isso, podem ir saltando de mesa de voto em mesa de voto.

Outras, são a ausência da candidata do pequeno Partido Humanista nos boletins de voto de Nampula, várias ilegais proibições de que jornalistas tenham acesso às Assembleias de Voto e assistam às contagens, ou ainda a detenção na esquadra de Mocuba, durante 4 horas, do director do jornal Savana e de um jornalista do Diário da Zambézia.
Estes, deslocavam-se em reportagem ao Gurué, quando foram mandados prender por um candidato da Frelimo (!), sob a acusação de quererem fazer campanha elitoral em dia de votação (!!), por terem consigo alguns exemplares dos jornais onde trabalham (!!!).

Não há, no entanto, notícia de ataques por parte da Renamo para intimidar as pessoas que pretendem votar - uma hipótese que não era de descartar, apesar desse partido ter declarado que não o faria, por considerar que, tendo eles boicotado as eleições, estas não eram válidas.
Uma curiosa e preocupante declaração, por demonstrar que esta força política continua a considerar, 21 anos depois da guerra civil, que mesmo não detndo nenhuma presidência de município (ao contrário de outro partido da oposição) e apesar de todas as restantes forças políticas e vários grupos de cidadãos terem concorrido, nenhuma eleição é válida se eles se recusarem a participar.

E, sem desvalorizar a importância das autarquias para a vida das pessoas e mesmo para a evolução das atitudes políticas (veja-se o caso da Beira, Deviz Simango e a emergência do MDM), aquilo que afinal acaba por suscitar mais curiosidade neste processo eleitoral é o efeito prático desse boicote, e a forma como as forças políticas poderão reagir, quer a um aumento realmente significativo da abstenção, quer a um seu aumento pouco significativo, ou mesmo redução.

De facto, não sendo de esperar mudanças de vencedores na Beira e Quelimane (MDM) e na grande maioria dos municípios presididos pela Frelimo, as poucas disputas incertas são, claro está, alvo de interesse; mas ainda mais interessante do que a capacidade ou não (já demonstrada nas duas cidades que referi) de o MDM ir buscar votos à Frelimo, será verificar se aquele partido é capaz de capitalizar ou não uma parte muito significativa dos habituais votantes da ausente Renamo, em detrimento da abstenção.

Á actual situação de tensão (para usar um eufemismo), a repulsa das pessoas perante a hipótese de uma guerra e o discurso desde início anti-belicista do MDM fazem suspeitar que, muito provavelmente, conseguirá fazer essa capitaliazação.

Mas (de novo sem desvalorizar as próprias autarquias e as eleições autárquicas) a importância da relevância ou irrelevância numérica do boicote da Renamo não se esgotam, naquilo que mais interessará para o futuro próximo e para a resolução da situação actual, com o fecho das urnas.

Um pouco provável aumento dramático da abstenção teria um resultado político razoavelmente expectável: uma legitimação do peso político e opções da Renamo e um arrefecer dos ânimos que, para os lados frelimistas, mais entusiasmados estejam numa solução castrense para as contradições políticas existentes.

No caso de uma alteração pouco relevante da abstenção, com previsível capitalização por parte do MDM, contudo, as consequências políticas são mais imprevisíveis.
A Renamo tanto pode assumir esse facto como uma demonstração de falta de apoio às suas tácticas do último ano, questionando-se e questionando a sua liderança (ou, pelo menos, o estilo da mesma), como pode, à imagem do que aconteceu em cada mau resultado eleitoral anterior, reduzi-lo a uma aldrabice eleitoral, radicalizando ainda mais a atitude.
Por sua vez, a Frelimo tanto poderá capitalizar essa vantagem enquanto trunfo para uma solução negocial da actual crise politico-militar, como poderá ver nela um sinal de irrelevância e ilegitimidade do oponente, e ser tentada a uma "solução final" pela força - com dinâmica imprevisível, mas com previsíveis consequências desastrosas para a população e para a "musculação" da frágil vivência democrática.
O MDM sairá sempre bem deste cenário. Quanto ao povo moçambicano, isso já não é certo.

(foto de António Zefanias, retirada daqui)


Mais uma informação de relevante "excepção à normalidade", aqui

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Rankings de exames e o exercício do pensamento


A propósito dos recentes rankings de resultados médios de exames no ensino secundário, foi muito (e bem) dito que as escolas particulares que ficam na dianteira têm (ao contrário das escolas públicas) praticamente só alunos sócio-economicamente privilegiados e que, mesmo dentre esses, só aceitam os que se lhes candidatam com melhores resultados anteriores.

Foi também exibida uma notável reportagem televisiva, acerca das negociatas do ensino privado que ( conforme é também comum noutras áreas) verdejam à custa das benesses de dinheiros públicos, de legislação desrespeitada ou refeita à medida e do esvaziamento, por parte do estado, das condições básicas nas suas próprias instituições.

Pelo meio, foram sendo caladas (por desconhecimento ou até porque anarcamente beliscam crenças consensualizadas, acerca da justeza e benignidade intrínsecas dos sistemas de ensino) duas questõezinhas básicas, há muito salientadas pela antropologia/sociologia da educação:

1) que, para além de aquilo que a escola estimula, exige e avalia ser a capacidade quantitativa de reproduzir afirmações consideráveis como as únicas certas, tanto o privilegiar dessa competência (em detrimento de outras) quanto o objecto a que ela se aplica privegiam e impõem, enquanto critério universal de hierarquização de capacidades individuais, aquelas que são valorizadas e auto-atribuídas a grupos sociais específicos, socialmente dominantes;

2) que, mesmo com a massificação da escolaridade e o enorme alargamento do espectro social que nela investe enquanto instrumento de "mobilidade social" para os seus filhos, tanto o grau de valorização, quanto aquilo que valorizam e esperam da escola é significativamente diferente para grupos sociais diversos - e, por estensão não automática, para os indivíduos inseridos em cada um deles que são submetidos à escolarização.

Mas, para lá dessas picuinhices que nos podem pôr a reflectir acerca do que não devemos,  vale também a pena saber deste estudo da Universidade do Porto, que conclui algo de contra-intuitivo, mas que de que muitíssimos professores universitários se apercebem: os alunos de colégios privados tendem a ter piores resultados no ensino superior do que aqueles que são oriundos da escola pública.

A julgar pelas áreas que me são mais próximas, aliás, os topos dos rankings são ainda mais eloquentes.
Por exemplo, os melhores alunos de sempre em antropologia e sociologia andaram na escola pública. Pelo menos um, era trabalhador-estudante. Há casos em que não poderiam pagar as propinas actuais, nem teriam legalmente direito a bolsa.

Estes dados tornam-se menos contra-intuitivos se tivermos consciência de um outro aspecto.
É que, embora também existam professores que pareçam não o ter ainda descoberto (e que, por exemplo, podem achar adequado ao seu trabalho e ao dos alunos avaliarem através de testes de cruzinha certo/errado), a Universidade não é propriamente, ou não é suposto ser, um campo de maiores dimensões, onde se joga o mesmo jogo que no Secundário.
O objectivo do jogo deixa de ser sabermos o maior número possível de afirmações proposicionais "certas" (e que só estão certas se foram aquelas), para passar a ser conseguirmos utilizar a miríade de afirmações e interpretações com que ali contactamos (muitas vezes contraditórias), na interpretação e análise de outros casos, que não aqueles que ouvimos e lemos.

Isso trás dois problemazitos:

Por um lado, é necessário desenvolvermos ou refinarmos a capacidade de analisar e criticar as afirmações e interpretações que nos são "ensinadas". E isso exige outras competências, para além das que são privilegiadas no ensino anterior - incluindo algumas que tendem a ser reprimidas, na sala de aula e na sociabilidade, naqueles espaços de lógicas educativas fadados ao sucesso nos rankings.

Por outro, se qualquer pessoa que tenha sido suficientemente bem treinada para memorizar e reproduzir afirmações proposicionais "certas" consegue terminar um curso, a excelência e treino dessa capacidade não lhe garante, por si só, mais do que resultados medianos. E quanto mais essa capacidade tenha sido a base quase exclusiva de anteriores classificações excelentes, mais difícil e traumático será compreender que as exigências são agora outras e, mais ainda, alterar a forma de trabalhar.

Justiça poética?
Não, certamente, para com os próprios alunos.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ricardo Machaqueiro (1958/2013)


Faleceu esta noite, com a idade de 55 anos e após uma longa e encarniçada luta contra sucessivas doenças oncológicas, Ricardo Machaqueiro.

Entre outras coisas, era antropólogo. Mas foi, ao longo da vida, deixando a sua marca e granjeando respeito e amizade em áreas como o ativismo social, a gestão de carreira de grupos musicais, a edição livreira ou o associativismo local – campo onde foi dirigente e estudioso de diversas coletividades lisboetas.

Nos últimos anos, era doutorando de antropologia no Instituto de Ciências Sociais da U Lisboa, focando os seus esforços no estudo de uma sua referência de juventude: a União dos Estudantes Comunistas (1972-1979), a sua história, as formas de ser vivida e o seu impacto no percurso dos seus militantes que, conforme gostava de salientar, se espalham hoje por todo o espetro político-partidário e por surpreendentes postos do aparelho de Estado.

O agravamento da sua situação de saúde não lhe permitiu terminar este trabalho antropológico, já bastante adiantado quanto à recolha empírica. É de esperar que a instituição que o acolheu como doutorando queira honrar os seus esforços e perseverança, em condições tão difíceis, e venha a assegurar o tratamento e divulgação dos materiais por si recolhidos.

O corpo de Ricardo Machaqueiro será velado amanhã, das 16 às 23 horas, na Casa Mortuária do Hospital de Santa Maria, de onde sairá às 9 horas de quinta-feira para o cemitério do Alto de São João, onde será cremado.

sábado, 2 de novembro de 2013

Pachlando os meus defuntos


Armindo Simões (1930/1976)


Miguel Portas (1958/2012)


João Nobre (1979/2012)


Jaime Zucula (1966/2012)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Machado da Graça fala de uma estranha paz


Não costumo afixar por aqui escritos alheios. 
Mas, na sua habitual e irónica acutilância, este texto do jornalista moçambicano Machado da Graça bem justifica uma excepção.

«Espero que estejas de saúde. Do meu lado está tudo bem, felizmente.
E, aparentemente, o nosso país também está bem. Pelo menos a avaliar pelas declarações dos nossos principais dirigentes que, dia sim, dia sim, nos garantem que o país está em paz e sossego. E quem somos nós para duvidar dessas declarações?
No entanto, temos que reconhecer que a nossa paz tem características muito bizarras:
É uma paz em que a principal estrada do país, numa extensão considerável, só pode ser feita com escolta militar. E, mesmo com escolta, por vezes as viaturas são atacadas por homens armados que ninguém reconhece como seus.
É uma paz em que numerosas forças milita­res e policiais, com o uso de artilharia pesada, atacam e destroem locais onde vivem outros moçambicanos, igualmente armados.
É uma paz em que somas significativas são gastas na compra de todo o tipo de armamen­to, incluindo aviões de guerra, para um país que não tem conflitos com nenhum dos seus vizinhos.
É uma paz em que, até onde sei, só na “pa­cífica” ocupação de Marínguè causou mais de 50 mortos, de ambos os lados.
É uma paz em que, nos diversos outros confrontos, que se sucedem desde há vários meses, já foram mortas mais algumas dezenas de moçambicanos, civis e militares.
É uma paz em que o número de feridos já é impossível de contabilizar.
É uma paz que começou a ser conturbada na província de Sofala mas em que os confrontos já se repetem em Nampula e já se registam pequenos focos em Cabo Delgado.
Em resumo, é um raio de uma paz esta que o Primeiro-ministro anunciou em Luanda, que o porta-voz do Presidente da República anuncia em todo o lado e que o próprio Chefe de Es­tado não se cansa de anunciar nos sucessivos comícios das suas intermináveis presidências abertas.
É óbvio que Armando Guebuza não quer ficar, nas páginas da nossa História, como o Presidente que trouxe a guerra, de novo, para o país. Daí que tente negar isso, negando que a guerra já existe e já está a matar gente. O que talvez não convença muita gente, para além dele próprio...
Portanto, para mim, este já não é o momento de tentar evitar a guerra. Este já é o momento de fazer tudo para parar a guerra.»

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O importante não é relevante...


(imagem retirada daqui)

Houve hoje uma grande e atípica manifestação em Maputo.


Eram moçambicanos ameaçados pela possibilidade de regresso dos horrores da guerra civil, basicamente devido a questões de «equidade na distribuição da riqueza» (leia-se, entre as elites políticas da Frelimo e da Renamo), conforme sobriamente colocou, em recente entrevista ao Público, um reitor de universidade privada que há anos ouvi televisiva e sobriamente declarar que não se podem julgar os corruptos, porque as prisões não têm as condições básicas para pessoas daquela categoria.

Eram moçambicanos fartos de uma crescente onda de raptos, perante a inação ou cumplicidade das chefias policiais, que fizeram questão de salientar que, embora a coisa tenha começado por atingir cidadãos de origem asiática, é um problema de todos, pois todos são cidadãos moçambicanos.

Eram moçambicanos que não aceitam que a corrupção e a ganância ponham em causa os mais elementares deveres do Estado para com os cidadãos.

Desta vez, manifestaram-se a apelo de organizações da "sociedade civil", que na esmagadora maioria dos casos até têm uma presença muito significativa do partido no poder. Ao contrário de 2008, de 2010 e de um início de manhã de 2012, fizeram-o pacificamente. E, a julgar pelas imagens, o seu estrato social era um pouco diferente de nesses anos - alargando o leque de quem protesta, embora exigindo em última instância fundamentalmente o mesmo.

Vendo a s televisões portuguesas, fica claro que tudo isto é irrelevante.
Só a TVI noticiou o acontecimento.
Embora em todas elas ainda houvesse, claro está, tempo de antena para o desconforto de alguns angolanos ricos e poderosos, em relação à desfaçatez de haver sistemas judiciais que investiguem as suas avultadas transferências financeiras, a partir de off-shores especializados em lavagem de dinheiro.
Haja Deus! Ainda há sentido das prioridades!...

domingo, 27 de outubro de 2013

Bye, Lou



Que haja um wild side, algures, onde te possas passear

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Guerra ameaça Moçambique


Esta tarde, a residência em Santungira do Presidente da RENAMO, Afonso Dhlakama, foi atacada e tomada por artilharia e comandos.
A notícia, inicialmente confirmada nas televisões privadas locais (por porta-vozes do RENAMO à STV e do Ministério da Defesa à TIM), chegou bem mais tarde aos meios de comunicação estatais.
Não espanta que o comunicado tornado público pela RENAMO afirme que este assalto representa "o fim dos Acordos de Roma", que em 1992 encerraram a guerra civil que assolou o país durante 16 anos.
Mas é surpreende este ataque militar ao líder do maior partido da oposição, em concomitância quer com conversações partidárias para tentar ultrapassar uma situação de tensão que dura há já quase um ano, quer com uma Presidência Aberta na mesma província de Sofala para onde Dhlakama se havia "auto-exilado".
Muitos, entre os quais me incluo, interpretaram este longo impasse e braço-de-ferro entre a RENAMO e o governo da FRELIMO (feito de ameaças, conversações e coisas bem mais feias) como tendo por origem e objectivo a tentativa de negociar os esperados dividendos da futura exploração das reservas de gás natural pelas empresas internacionais.
Mas, ao fim de um ano em que Dhlakama ameaçou muitas vezes com o regresso às armas, e em que (pelo menos) tolerou ataques realizados (supõe-se) por ex-guerrilheiros seus a postos policiais e a quem passava nas estradas, parece que quem acabou por se decidir pela senda bélica (ou por uma "solução à Savimbi") foram os seus opositores governamentais, agora democraticamente eleitos. E que, ao fazê-lo, optaram pelo que de mais perigoso e ameaçador havia para o futuro da população.
Não me parece particularmente relevante, num momento como este, debater a legitimidade formal de um governo decidir assaltar uma povoação transformada em base militar, onde o líder de um partido com larga representação parlamentar sentiu a necessidade (ou a vantagem política) de se refugiar, acompanhando a sua estada de ameaças belicistas e de acções armadas (que ou ordenou, ou não conseguiu evitar) contra populares e contra representações do estado.
Importa-me, antes, o seu nível de sensatez e os seus potenciais resultados - pois este não é um outro país qualquer, com uma qualquer história diferente da sua.
Há a franca possibilidade de que as propaladas intenções belicistas de Dhlakama sejam um balão cheio apenas de ar, sem apoios populares ou internacionais para se concretizarem numa guerra, pelo menos de dimensão apreciável e duradoura. Mas o risco existe. Não apenas disso, mas mais ainda de generalização do medo e de inviabilização das condições básicas de vida para a esmagadora maioria dos moçambicanos. Porquê corrê-lo após meses de tolerância e de liturgia negocial?
Tão pouco a hipótese de que este ataque pudesse visar reforçar a segurança do périplo presidencial de Armando Guebuza apresenta qualquer consistência. Para isso, em situações como a até ontem existente, isolam-se os que podem fazer perigar essa segurança, cercando a sua área de concentração. Em contrapartida, conforme seria de esperar, Dhlakama e a sua guarda de corpo já não estavam no local quando o ataque ocorreu. Estão em parte incerta, aumentando a insegurança da comitiva presidencial, e com mais fortes razões para isso.
Olhando de longe para um país de que muito gosto e onde tenho muitos amigos, espero com toda a franqueza que a razão de tão estranha acção não seja bem mais importante, para poucas dúzias, e bem mais rasteira, para muitos milhões. Desejo muito francamente que esta decisão, com todos os enormes perigos que ela acarreta para os moçambicanos, não tenha sido apenas uma forma de, perante a falta de justifições para alargar o limite de mandatos do Presidente da República e a impossibilidade de este assegurar a continuidade da sua preponderância política e económica fora das suas actuais funções (logo agora, que os dinheiros do gás vêm aí), justificar uma alteração constitucional com base no risco de guerra iminente.
Porque, fossem quais fossem as motivações imediatas desta acção militar, toda a situação criada é extremamente preocupante e tem consequências altamente imprevisíveis.
Mas, e isso será uma triste certeza, muito negativas para os moçambicanos "normais", que não fazem parte das elites políticas e económicas.

sábado, 5 de outubro de 2013

Temos o caldo entornado


Quando um Presidente da Comissão Europeia se dirige a um país membro da União e ameaça de forma clara o seu Trubunal Constitucional, responsabilizando-o por todas as desgraças futuras caso cumpra as suas funções, temos o caldo entornado.
Esse Presidente da Comissão Europeia perde as mais básicas condições para permanecer no seu cargo.
A única coisa possível e minimamente decente, face aos tratados que instituem a União Europeia e às definições da sua função é exigir «Demissão!».  E concretizá-la.
Espero que os deputados europeus eleitos nesse país membro (Portugal) não deixem de a exigir no imediato.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Curandeiros, reportagens e as razões das pessoas


O sociólogo e bloguista moçambicano Carlos Serra convidou-me a comentar esta reportagem da TV Globo, sobre os curandeiros em Moçambique.
Aqui fica o comentário:

«Conforme acontece frequentemente com reportagens que pretendem explorar o exotismo, parece-me que o mais merecedor de comentário nesta peça da TV Globo não está no que nela é dito mas naquilo que, sendo essencial, está dela ausente. Coisas essenciais que, por serem desconhecidas dos jornalistas, são substituídas pelos seus próprios pressupostos, marcados por lógicas bem diferentes – como, neste caso, interpretar à luz dos números da oferta a procura de médicos tradicionais.


Confesso o meu franco cepticismo perante a afirmação de que, mais de 20 anos depois da guerra civil, os médicos ainda serão menos de 600 em Moçambique. A afirmação de que os seus colegas tradicionais atingem os 250.000, por seu lado, já me parece pertencer ao mundo das impossibilidades práticas, quer para a sua subsistência com uma média de 80 potenciais pacientes, quer por muitos outros indicadores, incluindo o cartão da AMETRAMO que me foi concedido em 2007, como sócio honorário, e que arvora o número 7.533.
Mas o essencial, sugeria no início, não é a credibilidade desses números. O essencial é que só em áreas muito afastadas de zonas urbanas (e que não são objeto da reportagem) as pessoas poderão recorrer a médicos tradicionais por ausência de alternativas. Ou sequer por razões financeiras ou por estarem mais à vontade com eles.
Se as suas consultas (por adivinhação) são mais baratas do que as dos médicos academicamente reconhecidos, os tratamentos são geralmente mais caros e demorados. E se a sua proximidade (cultural e de estilos de vida) com os pacientes tende a ser maior, também suscitam maiores receios, quer pelos poderes espirituais que reclamam e lhes são atribuídos, quer pelo medo do paciente de ficar dependente deles. Assim, não se vai ao nyanga ou ao ché por ser mais fácil do que ir ao médico, mas apesar de ser mais difícil e assustador. 
Porque se vai, então?
Como em virtualmente todo o lado, em Moçambique (e mais ainda nas zonas urbanas) as pessoas têm contacto com diversos sistemas que interpretam e dão sentido aos acontecimentos ocorridos e ao incerto futuro. Uns têm origem científica e materialista, outros religiosa, outros supersticiosa, outros ainda foram desenvolvidos regionalmente, envolvendo fatores explicativos espirituais e materiais. Podendo reger-se de forma quase exclusiva por um desses sistemas, é mais comum que cada pessoa recorra conjunturalmente a um ou outro (conforme a pertinência que ele tenha para lidar com o problema com que a pessoa se confronta e conforme os interesses que a movem) e/ou que os combinem de forma sincrética mas bastante coerente.
Apesar dessa multiplicidade e contínua negociação de sentidos (e num quadro enformado por ela), é seguro afirmar que um desses sistemas de interpretação e domesticação do mundo e da incerteza se destaca como dominante, entre a larguíssima maioria da população: aquele que foi desenvolvido regionalmente e é considerado “tradicional”. É também esse que permite compreender o recurso aos médicos tradicionais e a sua importância social. Não apenas para resolver questões de saúde (que, de acordo com essa perspetiva, são apenas uma variante particular dos problemas sociais), nem tão pouco para apenas sarar aquela manifestação física de doença da qual se sofre.
De acordo com esse sistema de explicação e domesticação dos infortúnios, de facto, nem o estar doente nem o sofrer desgraças têm origens exclusivamente naturais. Estamos permanentemente rodeados por inúmeros perigos materiais, mas não é normal nem natural estarmos doentes ou sofrermos acidentes. Se as relações de causalidade material explicam como esses perigos ocorrem, é ainda necessário explicar o porquê de eles terem coincidido no espaço e no tempo com aquela pessoa específica, tornando-a vítima de uma desgraça ou doença.
Segundo esta visão dos infortúnios, o tal “porquê” pode decorrer de uma de três razões sociais: ou a vítima foi ignorante, negligente e/ou incompetente ao lidar com aquele perigo; ou foi alvo de feitiço (normalmente, devido a inveja ou vingança); ou os espíritos dos seus antepassados estão desagradados e suspenderam a proteção que lhe devem contra os perigos, para alertar a vítima para a necessidade de os ouvir através da adivinhação ou transe de um nyanga.
Dessa forma, se alguém contrai HIV sem saber da sua existência, sem saber como se proteger do contágio ou por, sabendo-o, não costumar usar preservativo, isso é normal. Mas se a vítima costuma usar preservativo e, daquela perigosa vez, excecionalmente não o usou e ficou infetado, é necessário averiguar as razões espirituais ou mágicas que fizeram com que não o usasse.
Isto quer também dizer que as razões da doença podem não se esgotar (e, na maior parte dos casos, considera-se que não se esgotam) nela própria e que curá-la não se limita à cura da sua manifestação física. A existirem razões espirituais ou mágicas subjacentes à doença, os mais eficazes comprimidos ou raízes não resolvem por si só o problema pois, curada aquela manifestação de doença, outra ainda mais grave se seguirá. Para além da cura imediata da enfermidade (e, quanto a essa parte, recorrer-se ao hospital ou ao quintal do nyanga depende em grande medida da eficácia que se atribui a cada um deles, na cura daquela doença específica), é necessário detetar e curar a razão que lhe subjaz. Isso é especialidade exclusiva dos médicos tradicionais, envolvendo não apenas tratamentos e medicamentos, mas também a resolução do conflito social com os vivos ou os mortos que foi diagnosticado como causa última, tendo esse diagnóstico merecido consenso por parte do paciente e dos seus familiares.
Para além da superioridade terapêutica que lhes é atribuída nalgumas áreas (epilepsia, asma, aftas, por exemplo), é esta a razão fundamental para o recurso aos médicos tradicionais por razões de saúde. Isto ocorre num quadro de conceções holísticas e em que, conforme sustenta o meu colega Emídio Gune, a maioria das pessoas não consideram estar a recorrer a sistemas de saúde diferentes, mas a diferentes prestações de cuidados de saúde – tal como não se vai a um cardiologista para brocar um dente, a um médico para tomar uma injeção, nem a um enfermeiro para ser submetido a uma cirurgia.
No entanto, o sistema de interpretação que tenho vindo a comentar fornece ainda duas outras razões de peso para o recurso aos médicos tradicionais, mesmo que os medicamentos sejam ministrados pelos seus colegas academicamente reconhecidos. Por um lado, é assumida a possibilidade de o feitiço ou os antepassados poderem bloquear a eficácia dos medicamentos ministrados, pelo que a segurança de um tratamento, mesmo hospitalar, implica que se anule o primeiro ou se apaziguem os segundos, conforme o caso. Por outro lado, curada a doença e as suas causas imediatas e subjacentes, o paciente deverá ver protegidos o seu corpo e espírito contra eventuais novos ataques futuros. De novo, em ambos os casos, especialidades exclusivas dos médicos tradicionais.
A frequente e não declarada coexistência de procedimentos terapêuticos (e não, ao contrário do que afirma a reportagem, uma população que maioritariamente nunca terá visto um médico) não deixa de apresentar riscos, tanto por duplicação e sobredosagem, quanto de anulação mútua dos efeitos farmacológicos. Essa é, creio, mais uma boa razão para que os motivos do recurso urbano aos médicos tradicionais sejam compreendidos, na sua lógica e ontologia, e para que seja lançado um efetivo diálogo tendo em vista o estabelecimento de protocolos de procedimentos que sejam mutuamente aceitáveis nesses casos extremamente recorrentes, em vez de se fazer de conta que eles não existem ou importam.
Por fim, gostaria de deixar uma nota de reflexão àqueles que possam considerar que, na prática dos médicos tradicionais, só os conhecimentos botânicos de provada eficácia farmacológica são válidos. Mesmo para quem não partilhe de todo a visão da saúde, doença e cura que expus, nem tão pouco valorize e importância dos processos psicossomáticos, há um aspeto pragmático da ação terapêutica dos tinyanga que dificilmente pode ser desvalorizado:
Um diagnóstico que envolva feitiçaria ou antepassados implica quer a aceitação consensual de que o conflito que lhe subjaz existe e é relevante, quer a mobilização do paciente, da sua família e mesmo (se possível) dos seus opositores para a sua superação e para o restabelecimento da harmonia entre as partes. Muitas vezes, isso não é conseguido. Mas, quando o é, o médico tradicional torna-se também um agente essencial de saúde social – ou, na visão holista que partilha com os seus pacientes, de saúde tout court.»


Se estão interessados em aprofundar estes aspetos, podem dar uma vista de olhos nos meus artigos "Saúde e doença em Moçambique",  "Ser curandeiro em Moçambique: uma vocação imposta?" e "O que é que a adivinhação adivinha?".

terça-feira, 25 de junho de 2013

E vão 38!


Este aniversário está a ser vivido com preocupação em Moçambique, depois do reaparecimento de ataques a camionetes de passageiros, no pior estilo da guerra civil, quando muitos estavam já esperançados que os ataques mortais da passada sexta-feira se tivessem tornado num caso pontual e ultrapassado.

Voltarei a este tema, analisando o que é já possível analisar.

Mas hoje é dia de parabenizar os moçambicanos e de desejar que possam ultrapassar esta curva difícil, da melhor forma possível para o seu sofrido povo.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Angolanos querem investigar


Acabei de saber que o meu recente livro O Que É Investigar? (escrito em conjunto com Michel Cahen e Carmeliza do Rosário) esgotou em Angola, tendo sido encomendados mais 500 exemplares para dar vazão à procura.

Uma notícia surpreendente numa obra com este título, tanto mais que os casos utilizados como exemplo têm sobretudo a ver com Moçambique.

O sociólogo e bloguista moçambicano Carlos Serra, grande impulsinador e coordenador da colecção da Escolar Editora que este livro inaugurou, está de parabéns por mais este bem sucedido combate pelas ciências sociais!

Voltarei a contribuir para ele com o livro O Que É O Racismo?, lá mais para o fim do ano.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Nkosi Sikelel Madiba

domingo, 9 de junho de 2013

Jovem participante em projectos sociais voluntários foi esfaqueado por engano, numa escola da Amadora



Regressado ontem à noite de uma conferência em Espanha, não acompanhei o que foi dito nos meios de comunicação social acerca de Lenine Sanches, o jovem esfaqueado numa escola da Amadora.
Fiquei a saber, por um meu doutorando e amigo, da enorme revolta que a versão policial posta a circular suscita em todos os que o conheciam. 
E alguns dados acerca dele e das circunstâncias da sua morte.

Esse jovem de 20 anos, pai de uma criança com menos de 2, pertencia ao grupo de capoeira Ginga Brasil e estava ali para participar num projecto voluntário de integração social de crianças e jovens.
Foi morto por engano e pelas costas, confundido com outra pessoa, apanhado de surpresa no meio de um acerto de contas com o qual não tinha nada a ver.
Jovem, de origem cabo-verdiana e, "portanto", criminoso, a polícia tratou com desprezo o seu corpo e cobriu de suspeitas quem o foi levantar.
Pelo país fora, as comunidades de capoeira estão de luto. E querem prestar-lhe homenagem.

Para que conste.