sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Uma questão de bom senso

Gro Harlem Brundtland, uma senhora de nome difícil que foi primeira-ministra da Noruega e é paladina do desenvolvimento sustentável, considerou errada uma eventual adopção de energia nuclear em Portugal, aconselhando o investimento em energias renováveis e eficiência energética.

Uma questão de mero bom senso, dirá a maioria de nós - não só em termos ecológicos, como de segurança tecnológica.
Ao que acrescento um outro argumento:

Se até em indústrias como a refinação petrolífera pude observar, no nosso país, uma submissão do cumprimento das regras de segurança aos objectivos económicos e produtivos, como é que poderíamos sequer equacionar a possibilidade, bem real, de que tal acontecesse numa central nuclear?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Bipartidarismo à força

Por Moçambique, sabe-se agora que as razões alegadas pela Comissão Nacional de Eleições para excluir listas eleitorais do novo partido MDM também se verificam em listas da Frelimo e da Renamo, que foram dadas como válidas.

Mas, como mesmo em bipartidarismos forçados há uns mais iguais que os outros, a CNE só entregou ainda à Frelimo o subsídio de campanha que já todos os concorrentes deviam ter recebido... (vejam aqui)

Entrementes, um candidato a deputado por Tete declarou num comício que a exclusão de outros partidos se deveu a eles não reunirem condições para concorrer, pois «nós não vamos meter ladrões para dirigirem o país, mesmo que os doadores exijam que isso aconteça».

Trata-se de um ex-Ministro da Segurança que, há uns 15 dias, tinha dito ao jornal Savana que as pessoas fuziladas nos seus tempos de glória "estavam a pedir para morrer" e que os Campos de Reeducação não tiveram nada de especial, pois "também existem nos Estados Unidos".

Levanta-se assim uma curiosidade: será que o digno candidato irá manter, nos próximos tempos, a actual retórica à Robert Mugabe, ou será que irá alegar que também os Estados Unidos são bipartidários e ninguém os chateia por causa disso?

domingo, 13 de setembro de 2009

FRENAMO molha a sopa

Começada oficialmente a campanha eleitoral em Moçambique, a Frelimo passou da ameaça à violência sobre o MDM, na sua "reserva de caça" de Gaza.

Os ocupantes de 2 automóveis, em cuja liderança foram reconhecidos o filho e o genro do Presidente do Conselho Municipal lá do sítio, destruíram a sede do MDM no Chókwè, ferindo 3 dos seus activistas.

Jornalistas de O País estiveram no local e confirmaram os acontecimentos, mas a estatal Rádio Moçambique diz que se trata de "um boato".

Isto começa bem!...
E o Zimbabwe ali tão perto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Humor "Sacana"

Relativamente ao tema final do post anterior, o "Sacana" (suplemento humorístico do jornal Savana) produziu esta interessante proposta, que visualizei através do Carlos Serra.

Note-se, no entanto, que a expressão "FRENAMO" devia pagar direitos de autor.
Já aparece no rap que Azagaia compôs para a candidatura de Daviz Simango ao município da Beira (vejam o videoclip aqui).

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O papão da novidade

Há um espectro que assola Moçambique.
O espectro de Daviz Simango e do seu novo partido MDM.

A uma só voz, tanto os ricos que governam o país e se tornaram ricos por o governarem ("com todo o direito", já que trouxeram a independência, conforme disse o "general do primeiro tiro"), quanto a oposição do costume (que não encontra espaço à direita dos governantes e cada vez mais recorda passados sanguinolentos que toda a gente quer mandar bem para trás das costas), se arrepiam, insultam, agridem e aldrabam.

Depois do choque de ver um "puto" da minha provecta idade ganhar o segundo maior Município do país como independente (aqui e aqui), após ser corrido pelo seu partido por demasiada honestidade e competência, continuou o abalo do status quo e da tranquilizadora ideia de que o eleitorado tem donos e estes têm bastiões intocáveis.

Até pode ser (e muito provavelmente será) que a transposição do fenómeno da Beira para o país se dê a uma escala muito mais modesta.
Mas, quando se está em posições instaladas que se imaginam para 1.000 anos, ver Daviz Simango entrar como em casa de família no centro rural do país e, ao mesmo tempo, suscitar o entusiasmo dos jovens urbanos (sejam eles altamente qualificados ou andem eles a desenrascar a vida no "caniço" maputense), a coisa assusta.
Mais ainda, quando até os velhos que continuarão a votar nos partidos em que sempre votaram demonstram ter por ele uma evidente simpatia.

Então, já não dá para imaginar que se é confrontado com um qualquer epifenómeno paradoxal.
Claramente, a imagem do homem e aquilo que o homem diz correspondem a uma necessidade que o "povão" e as "classes médias emergentes" sentem e querem ouvir.

E que coisa é essa?
Pelo que ouvi e li em Moçambique, a "receita" é simples - e, na aparência, nada ideológica.

Trata-se de exigir e prometer honestidade, competência, uma atitude serena e pacificadora que contrasta com o belicismo verbal dos partidos instalados, a par de algo que está entranhado nas visões mais tradicionalmente africanas de poder, economia e família: que todos (e não apenas muito poucos) beneficiem do desenvolvimento e do caudal financeiro que, todos os anos, desagua no país.

(Na Europa, falar-se-ia talvez de "justiça social".
No norte de Moçambique, exigir-se-ia que quem manda não coma sozinho.
No centro, que não se seja tratado como cão, a quem dão ossos dizendo que não gosta de carne.
No sul, que o pai não abandone os filhos.)


E trata-se também, claro e de forma imprescindível, de possuir a credibilidade, enquanto pessoa e enquanto político, para poder dizer essas coisas.

Mas, posta a esperança a rodar, mais os sustos se assustaram, em ambos os lados do establishment:

A Renamo disparou sobre ele em Nacala e vai-lhe agredindo activistas aqui e ali.

A Frelimo rodeou a sua comitiva, no Xai-Xai, com dois camiões cheios de bandeiras e de militantes a cantarem insultos e a ameaçarem a população para não se aproximar.

Os organismos estatais que gerem as eleições já haviam alcançado o prodígio de actualizar os cadernos eleitorais com material informático (fornecido por uma qualificada empresa de transportes pertencente a uma família ligada ao poder) que sistematicamente se avariava no centro do país e para cuja reparação só estavam disponíveis técnicos até ao Save.

Agora decidiram, inusitadamente tarde e sem explicações ou esclarecimentos, excluir as listas de candidatos do MDM em 9 dos 13 círculos eleitorais.
Curiosamente, as supostas falhas viriam da força política que, na apresentação de assinaturas para formalização das candidaturas a Presidente da República, entregou o menor número de processos considerados irregulares.

A resposta, conforme seria de esperar, não foi um esbracejar ameaçador.
Daviz Simango e o MDM interposeram recurso ao Concelho Constitucional (que, assim como assim, é formado por juízes) e farão a campanha eleitoral como planeado, enquanto aguardam por uma decisão favorável.

Mas, pela rua e pelos media, a indignação alastra.

Que vai sair daqui?
Não faço ideia.

Há quem diga que, após o peculiar recenseamento e com acções intimidatórias de ambos os lados ao MDM, talvez a Frelimo chegue aos 2/3 necessários para alterar a Constituição e eternizar o actual presidente no poder, através do desaparecimento do limite de mandatos.

Nos "caniços" de Maputo, muita gente prevê, projectando para as urnas as mudanças que observa no seu bairro, que Guebuza será facilmente reconduzido, mas a Frelimo perderá a maioria absoluta devido à votação do MDM, acabando o total "posso, quero e mando".

A uma cada vez mais vociferante e inconsequente Renamo, ninguém augura outra coisa senão uma forte quebra eleitoral.

Esperemos para ver.
E, esperemos, que sem mais violência e com tão poucas golpadas quanto possível.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Lapso freudiano, depois de Dupond & Dupont

Ainda em Maputo, sentei-me há dias para ver o debate entre Louçã e Jerónimo de Sousa.
Com diferenças de ênfase, imagem, retórica e pormenor, lá estavam um frente ao outro, tentando afirmar aqui e ali, quanto ao essencial, «eu diria mesmo mais».
A tal ponto que a cara séria que cada um fazia ao ouvir o outro surgia forçada e se parecia descortinar por detrás dela o pensamento «Este sacana já disse isto... O que é que eu vou dizer a seguir.»

Acabei por mudar de canal.
Não porque me impressionasse, em si mesma, esta performance Dupond & Dupont.
Antes por saber que, sendo evidente que uma alternativa de esquerda só pode ser pensada e feita a partir do debate, diálogo e eventual convergência entre as força que eles representam (na sua diversidade de perspectivas, potencial e experiência), a maior preocupação na sua relação mútua é contabilizar as pequenas ou grandes vantagens que cada um alcança, neste ou naquele campo social ou eleitoral, sobre o outro.
Afinal, um sprint de pequeninos, que inviabiliza objectivos bem mais ambiciosos numa estafeta de grandes. E, sobretudo, alternativas societais.

Ontem, mudei ainda mais rápido de canal, no debate entre Sócrates e Louçã.
Talvez tenha perdido, com isso, coisas que valessem a pena.
Mas uma das primeiras coisas que ouvi foi o nosso primeiro a dizer que se candidatava «a governar com os pés bem assentes no palco. Perdão... no chão.»

É demais, para quem acaba de chegar de Moçambique e, a certa altura, não percebe bem se realmente mudou de país.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uma prenda que me deram

De volta ao tal de jardim à beira mar

... embora ainda em pleno processo de esquizofrenia cultural.

Espero afixar ainda hoje uma foto alusiva a esse confuso estado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Parabéns,Danúbio e Joana

21/23 de Agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Debatendo em Maputo

Num teclado sem assentos, venho por este meio convidar-vos a participarem no seminario "Gemeos, Albinos e Prisioneiros Desaparecidos: 'contrato social' e violencia politica", que apresentarei quarta-feira 26/8, pelas 10 horas, no anfiteatro 1502 da FLCS-UEM.

Muita coisa a debater, visto que passa por 'crencas tradicionais', prisioneiros politicos antes e depois da independencia, desaparecidos da Operacao Producao, pelo que se diz dos corpos de todas essas pessoas e pelo 5 de Fevereiro de 2008...

Tirando esse ultimo aspecto, a base da comunicacao e' este texto aqui.

Vai ser no ambito do Ciclo de Seminarios Interdisciplinares em Ciencias Sociais e Humanas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Há dias assim



De manhã, soube que a tese de um orientando vai de vento em popa e que um óptimo ex-aluno recebeu autorização do seu departamento para ir fazer o mestrado ao ICS.

À saída do campus, dei de caras com um aluno da Nova que me fez uma grande festa, pois está por cá numas férias ÓeNeGéticas e a adorar isto tudo.


À tarde, cheguei por mero acaso (coisa que em Moçambique não existe) ao quintal de uma curandeira amiga durante um batuque, destinado a “fazer sair” os espíritos de uma aprendiza – ou, em linguagem antropológica estereotipada, a induzir-lhe um estado de transe.

Quando dei por mim, tinham-me posto um tambor ao colo e estava a desenrascar-me o melhor que podia. (Segundo as críticas, benzinho mas a precisar de mais treino…)

A coisa estava difícil. Mesmo com uma segunda dose de espuma de nulu, ia demorando.

Por fim, a tia-avó da senhora (de quem herdou os espíritos e a futura profissão) lá saiu e falou connosco.

Curiosamente, fiquei umas 3 horas sem vontade de fumar.


Surpreendido com tanta fartura, passou-me cepticamente pela cabeça, a caminho de casa: «Ou me aconteceu alguma, ou está para acontecer…»

Poeticos horrores

Na ressaca (babalaze) de um dia de trabalho muito bem sucedido, ganhei ontem, finalmente, coragem para percorrer Babalaze das Hienas, de Jose' Craverinha.

Um conjunto de poemas a ler, necessariamente, nem que seja uma vez na vida.
Com um conselho, vindo de saber vivido: evitem essa leitura logo a seguir ao jantar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Citações de café (19)

Estava eu nestes indecorosos preparos, dentro de uma piscina termal de Budapeste, quando ouvi comentar ao lado, no distinto, ponderado e assertivo sotaque académico parisiense:

- Afinal, não é mais que uma grande banheira, cheia de gente.

«Pois é...», pensei. «E, afinal, o Shakespeare não é mais que um macaco careca, que sabia fazer teatro em verso.»

sábado, 25 de julho de 2009

Ó pá gente tã modernos - I

O programa eleitoral do PS promete um projecto de formação e apoio à integração profissional de 25.000 daqueles jovens que deixaram de ter direito ao subsídio de desemprego porque o governo do PS alterou a lei respectiva, e depois chumbou as propostas de outros partidos para que a situação fosse corrigida.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Esquerdas, eleições e vinhos monocasta - II

Acerca do tema deste post, fiquei agora a perceber melhor algumas coisas.
Sem, com isso, ficar menos surpreendido.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Esquerdas, eleições e vinhos monocasta

Há uns dias atrás, uns amigos holandeses trouxeram-me, de uma expedição enoturística pelo alto Alentejo, um par de garrafas que achavam o máximo.
Eram de um vinho monocasta, feito com tinta caiada.

Anfitrião e amigo, lá preparei um jantar à altura das suas expectativas vinícolas. Superiores às minhas, confesso, devido a experiências anteriores.

Chegado o grande momento da prova, titubiei um pouco - pois, afinal, eles tinham trazido entusiasticamente as garrafas e o sabor na minha língua não me levava a dizer aquilo que eles gostariam.

Que o vinho era excepcional era evidente; mas apenas no sentido de ser diferente do mais habitual.
Quanto à qualidade (e talvez parte da culpa fosse da comida escolhida, que jogava no contraste e recombinação de paladares, quase como a vida ou a política), o vinho até tinha um sabor interessante, quase um concentrado de vinho alentejano. Mas tornava-se excessivo pela monotonia de um sabor forte e marcante, mas isolado, sem subtileza ou surpresa, complexidade. Ao contrário do desejado pelo produtor, parecia um vinho inacabado, que reduzia um mundo de interacções a um quase vazio, de tão concentrado num único ponto. E era pena, dada a base de que partia - mas a que se limitava.

É muito difícil transmitir experiências sensoriais em palavras. Sobretudo numa língua que não é nossa e com um copo na mão. Os meus amigos ouviram-me, mas creio que não consegui transmitir-lhes o que tinha em mente.

E nem lhes podia indicar, como metáfora, esta posição recente, que muito me surpreendeu, e esta resposta a ela.
Eles não lêem português.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Será?

Há cerca de mês e meio que este modesto blog é regularmente visitado a partir das Astúrias, e sempre através do post 3 Páginas de Luis Sepúlveda, que transcreve quase totalmente um dos contos do seu livro As Rosas de Atacama.

Com a repetição sistemática, cada vez mais se me instala uma dúvida pouco verosímil mas insistente: já que é nessa região que Sepúlveda reside, será que é ele mesmo quem aqui vem espreitar?

Se for mesmo esse o caso, Luis, deixo duas mensagens para ti:

Desculpa ter terminado a transcrição do conto um pouco antes do fim, onde me pareceu que o efeito seria melhor.
São liberdades de leitor - afinal, é a minha desculpa, liberdades de quem se torna 'dono' do que foi escrito, a partir do momento em que leu e gostou.

E, quando voltares a Lisboa, vê se arranjas uma noite para jantar cá em casa. Seria um imenso prazer.

domingo, 19 de julho de 2009

Antropovistas pelo Vietname e Kruger Park

O Antropovistas foi finalmente actualizado, com fotos do Kruger Park (Ana David) e do Vietname (Luís Patta).

A todos vós, o convite a que por lá passem.
E, já agora, mandem fotos.

E ontem, aniversário de Nelson Mandela

O que quer que seja, está transformado o planeta deles.
(por Zapiro)

Estas coisas é que nos fazem velhos!



Passam hoje 30 anos sobre a entrada vitoriosa dos guerrilheiros da Frente Sandinista em Manágua.